As reclamações sobre abandono, queda no movimento e insegurança passaram a fazer parte da rotina dos feirantes do Mercado Aberto da Avenida Paranaíba, em Goiânia. Comerciantes afirmam que, após a transferência para a nova ilha comercial promovida pela Prefeitura de Goiânia, o fluxo de clientes despencou e as dificuldades financeiras se agravaram.

“Aqui não passa ninguém. Quando a prefeitura trouxe a gente para cá, matou o nosso comércio”, relatou ao Jornal Opção a comerciante Maria Rita, que trabalha há mais de 25 anos no ramo da gastronomia e possui um restaurante na praça de alimentação do Mercado Aberto.

Comerciante Maria Rita | Foto: João Reynol / Jornal Opção

Segundo ela, a antiga localização concentrava hospitais, escolas, lotéricas e outros serviços que garantiam circulação constante de pessoas ao longo do dia. Já o novo espaço, afirma, não possui o mesmo potencial comercial.

Maria Rita também critica as condições estruturais da nova ilha comercial. Ela relata problemas como banheiros entupidos, esgoto a céu aberto e falta de manutenção. De acordo com a comerciante, os feirantes teriam sido pressionados a aceitar a mudança sob risco de perderem a concessão dos pontos.

A ausência de divulgação adequada da nova localização também é apontada pelos trabalhadores como um dos fatores responsáveis pela redução do movimento.

“A prefeitura não divulgou nada e, quando divulgou, falou que nós havíamos abandonado o local”, afirmou.

A sensação de abandono é compartilhada por outros comerciantes. A vendedora Glória Muralha afirma que o Mercado Aberto não recebe o mesmo nível de atenção dado a outros polos comerciais da capital, como a Região da 44.

Comerciante Glória Muralha | Foto: João Reynol / Jornal Opção

“O movimento é muito fraco porque não existe incentivo. A feira precisava de alguém que se preocupasse com a melhoria daqui”, disse.

Glória também criticou a reorganização interna dos feirantes. Segundo ela, não houve planejamento adequado para distribuir os segmentos comerciais, o que resultou em vários comerciantes vendendo produtos semelhantes lado a lado.

Já a comerciante Maria Raimunda afirma que a precariedade da estrutura contribui para afastar clientes e dificultar o trabalho diário.

“Aqui é o cartão-postal do Centro de Goiânia. O Mercado Aberto não pode ser abandonado”, declarou.

Comerciante Maria Raimunda | Foto: João Reynol / Jornal Opção

Ela relata problemas frequentes de limpeza, falta de proteção contra chuva, deterioração dos banheiros públicos e ausência de zeladoria no espaço.

Segundo os trabalhadores, há dias em que os custos com alimentação e transporte superam o valor arrecadado nas vendas. Alguns afirmam que chegam a passar jornadas inteiras sem vender nenhum produto.

Outro problema apontado pelos feirantes é a insegurança na região. O vendedor Sumário Viana de Souza afirma que a falta de policiamento ostensivo afasta consumidores e aumenta a sensação de medo no local, já marcado pela percepção de insegurança.

“O policiamento aqui é quase inexistente. Já vimos pessoas em situação de rua correndo umas atrás das outras para matar”, relatou.

Sumário Vania de Souza | Foto: João Reynol / Jornal Opção

A reportagem do Jornal Opção esteve no Mercado Aberto durante dois dias e constatou baixo fluxo de consumidores, sinais de abandono, problemas estruturais e pouca movimentação nos corredores da ilha comercial.

Em nota, a Prefeitura de Goiânia informou que trabalha na requalificação do Mercado Aberto da Avenida Paranaíba. Segundo o município, o objetivo é transformar o espaço em um local destinado à regularização de vendedores ambulantes e à realização de eventos itinerantes.

A administração municipal informou ainda que o processo depende de etapas administrativas e diálogo com a sociedade civil, mas não apresentou cronograma detalhado nem previsão para conclusão das intervenções.

“A Prefeitura de Goiânia tem feito esforços para requalificar o Mercado Aberto da Avenida Paranaíba, para ser destinado a receber e fixar vendedores que atualmente são ambulantes, além de eventos itinerantes, cumprindo, assim, sua função social para a qual foi criado. Ainda não há data para a conclusão, já que são necessárias várias etapas, que envolvem o poder público e a sociedade civil”, informou a nota.

Corredor vazio da ilha comercial do Mercado Aberto da Paranaíba | Foto: João Reynol / Jornal Opção

Em entrevista ao Jornal Opção, o prefeito Sandro Mabel afirmou que a revitalização pode incluir uma praça arborizada, retomando características do projeto original desenvolvido na gestão do ex-prefeito Pedro Wilson.

Mudança começou em 2025

A reformulação do Mercado Aberto teve início em novembro de 2025, quando a Prefeitura de Goiânia decidiu reorganizar o comércio popular da região e concentrar os feirantes em apenas uma das duas ilhas urbanas da Avenida Paranaíba.

Em fevereiro de 2026, os comerciantes foram oficialmente informados de que a antiga estrutura localizada na Rua 74 seria desativada definitivamente para atividades comerciais.

Com isso, os trabalhadores foram transferidos para a segunda ilha urbana, localizada no cruzamento da Rua 68 com a Avenida Paranaíba, área que já abrigava parte do Mercado Aberto.

Meses depois, foram registradas duas mortes no antigo espaço desativado — uma delas envolvendo uma pessoa carbonizada em um dos banheiros da estrutura e outra relacionada a um homicídio nas proximidades, em abril de 2026.

Após os episódios, a prefeitura demoliu os sanitários e oficializou a desativação da antiga ilha comercial. Apesar disso, a área permanece sem alterações estruturais e ainda não há definição oficial sobre sua futura utilização.

Comerciantes afirmam ter recebido informações desencontradas sobre o destino do local, que poderia se transformar em praça revitalizada, academia ao ar livre, estacionamento ou garagem para veículos. A incerteza também gera insegurança quanto à permanência da segunda ilha comercial.

Espaço desativado da antiga ilha comercial | Foto: João Reynol / Jornal Opção

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