A segunda edição do Goiás Gastronomia confirmou que a culinária do estado vai muito além do fogão a lenha: ela é sinônimo de inovação, técnica e espetáculo. Se o festival se consolidou como um gigante cultural, o mérito principal vai para os profissionais que comandaram as panelas e os bastidores. Ao Jornal Opção, o organizador do evento, Frederico Costa, o grande diferencial deste ano foi a capacidade que os chefs e os restaurantes tiveram de transformar alta gastronomia em uma experiência de conexão real com o público.

Longe de ser apenas uma feira de alimentação, o festival transformou suas aulas-show em verdadeiros palcos de entretenimento e afeto. “Tivemos nomes que trouxeram muito conteúdo, sensibilidade e repertório”, destaca Frederico.

Entre os grandes destaques individuais da edição, o organizador aponta uma seleção de peso que movimentou os palcos gastronômicos:

  • Chef Junior Marinho
O chef Junior Marinho é dono do Juá e finalista do mestre do sabor da TV Globo | Foto: Reprodução/Instagram
  • Chef Danilo Campos
O chef Danilo Campo é responsável por todos os restaurantes do Senac e Sesc Goiás | Foto: Reprodução/Instagram
  • Gil Magalhães
O chef e pizzaiolo Gil Guimarães começou sua história na França, com aulas de pães, doces e vinhos | Foto:  Ricardo D’Angelo/Arquivo PDM
  • Edvania Nogueira
A chef Edvânia Nougueira iniciou sua trajetória em 2003, ao abrir o restaurante Porto Cave juntamente com seu marido português | Foto: Reprodução/Internet
  • Pedro Godoy
O chef Pedro Godoy foi participante do MasterChef Profissional, em 2019 e assumiu o posto de chef executivo do Wiella Bistrô | Foto: Reprodução/Internet
  • Paula Labaki
A chefe Paula Labaki é Ela é pioneira e principal referência nacional em técnicas de fogo, brasa, charcutaria e defumação | Foto: Reprodução/Internet

O segredo do sucesso na Arena Gastronômica

De acordo com a organização, o destaque de um chef ou de um prato não é medido friamente por um ranking ou apenas pelo volume de vendas. O Goiás Gastronomia adota critérios mais subjetivos e artísticos: avalia-se o conjunto da obra, o que inclui a apresentação dos pratos, a identidade gastronômica e, principalmente, a capacidade do chef de transformar o preparo de uma receita em uma narrativa ao vivo.

Foi o que aconteceu nas concorridas aulas-show. O público não foi apenas para degustar, mas para entender os processos e a origem dos ingredientes.

Humberto Marra: Natureza, pé no chão e aula no meio do bosque

Apontado pela organização como um dos grandes nomes a prender a atenção do público nesta edição, o chef goiano Humberto Marra levou para o festival exatamente a filosofia que o evento busca consolidar. Com 35 anos de carreira na gastronomia, Marra encontrou seu propósito nas últimas duas décadas ao se dedicar profundamente ao reino vegetal, à sustentabilidade e ao resgate dos ingredientes da nossa terra.

Pego de surpresa pelo reconhecimento de Frederico Costa, o chef celebrou o impacto de sua participação. “O Goiás Gastronomia é um festival consolidado e está em expansão. Por isso eu acho que essa referência, essa opinião dos organizadores sobre o trabalho que eu apresentei, para mim, é engrandecedor. É com muito orgulho que recebo essa referência de destaque”, afirma.

Para o chef, o sucesso com o público veio do formato disruptivo que ele escolheu para sua atividade. Em vez de ficar confinado no auditório tradicional, Marra quebrou os padrões e levou os alunos para o meio de um bosque, no Parque Mutirama. “A aula foi feita no bosque, com um monte de árvores por cima da gente. Ali eu ensinei a plantar estacas de ora-pro-nóbis. Todo mundo que participou levou suas mudas para casa. Depois, ensinei a fazer um suco verde com banana e ora-pro-nóbis. Foi uma atividade completa porque ensinei a plantar, colher e fazer a receita. Tudo isso foi uma novidade para a turma”, relembra.

Humberto Marra é reconhecido por ser um dos maiores defensores da culinária de raiz e da agroecologia | Foto: Reprodução/Internet

Essa transição para uma culinária essencialmente natural e sustentável foi natural para o chef, mesmo em um estado com forte cultura pecuária. “O goiano gosta demais de carne, mas também gosta das verdurinhas que a mãe e as vovós fazem. Todo mundo gosta de um milho refogado, de um feijãozinho de caldo, de uma mandioca. Eu faço qualquer comida, seja de bicho ou de planta, com muito cuidado, capricho e amor. Acho que esse é o segredo”, revela o cozinheiro, que hoje recusa modismos com ingredientes distantes, como o pistache, para focar exclusivamente no que é produzido na região.

Atualmente, o grande “carro-chefe” do seu trabalho é uma lição de combate ao desperdício: a caponata feita a partir do umbigo de banana (aquela parte roxa da penca que a maioria das pessoas joga fora). “Os indígenas comem, os quilombolas comem, o povo da roça come, e o povo da cidade não sabe que aquilo é comestível e supernutritivo”, pontua o chef, que atendeu a nossa reportagem enquanto saboreava uma tradicional salada de guariroba.

Além da experiência sensorial proposta por Marra, outra curiosidade que surpreendeu os visitantes nesta edição foi a participação especial de representantes da Embaixada da Indonésia. A aula-show internacional trouxe sabores exóticos e técnicas do sudeste asiático, criando um intercâmbio cultural inédito no coração de Goiás.

Os campeões de visibilidade na praça de alimentação

A curadoria do evento reuniu 45 empreendimentos gastronômicos e cerca de 60 produtores artesanais. Na ala dos restaurantes, embora não exista uma competição oficial, o termômetro do público e a qualidade das entregas colocaram algumas marcas em evidência absoluta.

O tradicional Buteko do Chaguinha e o Kabanas mostraram a força de marcas já consagradas no paladar goiano. Já o Grupo ÍZ, conhecido pela alta gastronomia, levou sofisticação acessível ao formato de festival. O toque de Cozinha de Raiz e a afetividade ficaram por conta do Maria Colher de Pau e do Marinho Restaurante, que registraram excelente resposta e engajamento dos visitantes.

Todo esse espetáculo comandado pelos chefs atraiu uma multidão que impressionou a própria organização. O Goiás Gastronomia viveu um salto histórico de crescimento em 2026.

Se na 1ª edição, em 2025, o festival atraiu um público de 45 mil visitantes, este ano o evento simplesmente triplicou de tamanho, ultrapassando a marca de 120 mil pessoas que lotaram o Parque Mutirama para acompanhar a programação de culinária, as ativações e os shows.

“Ver o parque cheio, as aulas movimentadas, os shows acontecendo com tanta energia e as pessoas vivendo o festival de forma tão intensa é a confirmação de que estamos no caminho certo”, comemora o organizador Frederico Costa.

O que vem por aí?

O sucesso estrondoso de público e a consagração dos chefs já fazem a organização planejar o futuro. O Goiás Gastronomia entrou definitivamente para o calendário oficial de turismo e cultura do estado. Para a 3ª edição, Frederico Costa adianta que, embora ainda seja cedo para revelar detalhes, o desejo é entregar um evento ainda maior e mais estruturado. “A nossa responsabilidade é fazer com que esse crescimento venha sempre acompanhado de qualidade, seriedade e propósito”, conclui.

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