Quando a transmissão da CazéTV já se encaminhava para os comentários finais sobre o empate da Seleção Brasileira com Marrocos, a jornalista Fernanda Gentil fez uma pergunta genuína a Romário: afinal, diante da expectativa criada em torno da equipe, não seria aquele 1 a 1 uma espécie de derrota disfarçada? A resposta do ex-atacante, no entanto, não veio no tom da análise tática. “Fernanda, é o seguinte: quem não conhece muito de futebol vai ter esse pensamento que você tem”, disparou. 

Isso é mais um caso de uma narrativa cansativa e previsível: a da mulher que, mesmo dominando o assunto, precisa provar o tempo todo que não está falando por ignorância.

Mais uma vez a questão aqui jamais foi sobre entender ou não de futebol. O problema estrutural que o caso escancara é muito mais grave. Em pleno século XXI, ainda nos deparamos diariamente com situações de escrotidão explícita contra mulheres que ousam opinar sobre a bola, como se o conhecimento sobre o esporte fosse uma herança genética restrita ao cromossomo Y. 

Contudo, já é bem claro que os dados e a realidade estão mostrando o completo oposto: as mulheres, para ocuparem qualquer espaço minimamente respeitado no universo do futebol, precisam estudar três vezes mais, trabalhar cinco vezes mais e, ainda assim, aceitar que suas opiniões venham com o selo de “achismo feminino”. 

Enquanto isso, homens cometem erros patéticos de análise, viram noites em mesa de bar falando besteiras sobre esquemas táticos e jamais têm sua autoridade questionada. Por que será?

Voltemos alguns meses, porém, para percebermos que o caso Fernanda Gentil não é um ponto fora da curva, mas sim a regra em ação. No início deste ano, em janeiro, a repórter Nathália Freitas cobria uma partida do Atlético-GO pela Rádio CBN e TV Anhanguera e “ousou” questionar o presidente do clube, Adson Batista, sobre o desempenho do meia Shaylon.

A resposta do dirigente? Após uma longa troca de farpas, ele disparou: “Você achou ele ‘bonitinho’. Só isso.” Ou seja: diante de uma pergunta técnica e absolutamente pertinente, o presidente preferiu reduzir a profissional a uma percepção estética superficial. E quando Nathália rebateu, afirmando que aquela “brincadeira” só existia porque ela é mulher, o dirigente ainda pediu que não houvesse “barraco” e sugeriu que a repórter não se “vitimizasse”. 

A tática permanece a mesma: desconstrói-se a credibilidade da mulher, atribui-se a ela uma suposta fragilidade emocional e, finalmente, vira-se o jogo contra a própria vítima.

A propósito, essa lógica de descredibilização começa muito antes do microfone ou da cabine de imprensa. Como a própria Marta, a maior jogadora de futebol de todos os tempos – sim, sem comparação possível -, lembrou em uma entrevista recente. “Quando eu comecei a jogar, eu não tinha um ídolo no feminino. Vocês não mostravam o jogo do feminino. Como que eu ia ver? Como eu ia entender que eu poderia chegar a uma seleção e me tornar uma referência?” 

A fala da craque mostra a solidão da mulher que precisa pavimentar cada centímetro do próprio caminho. Hoje, Marta comemora que pais e mães parem na rua e digam: “Minha filha te adora, ela quer ser igual a você.” No entanto, ela mesma admite que há 20 anos, ninguém a conhecia. E complementa: “Isso não teria acontecido se a gente tivesse parado nos primeiros obstáculos.”

Eis o ponto que incomoda: por que a mulher precisa sempre “não parar nos primeiros obstáculos”? Por que ela precisa lutar, levantar, continuar, provar, se reerguer e ainda aguentar piadinhas enquanto os homens cometem equívocos – às vezes crimes, como assédio moral e sexual dentro dos estádios e em todos os lugares – e seguem impunes? 

A resposta é óbvia e vivida na pele todos os dias pelas mulheres: porque o machismo ainda é imenso, ainda é estrutural e ainda determina que a opinião feminina venha com um asterisco invisível. Enquanto isso, nenhum homem precisa começar uma análise dizendo “eu entendo de futebol, juro”. A autoridade deles vem de berço. A nossa, precisa ser conquistada a cada fala, a cada artigo, a cada programa.

Quando a mulher vai poder simplesmente pertencer ao mundo do futebol sem ter que sofrer antes por isso? Quando uma opinião técnica deixará de ser lida como “coisa de quem não entende”? Bom, quem sabe a próxima geração, ou a próxima da próxima, depois dessa, finalmente, encontre um campo minimamente nivelado. Até lá, sigamos levantando. Porque parar e apenas ser, como bem ensinou Marta, não é uma opção. Mas devia ser. Deveria ser uma escolha, e não uma obrigação de vida.

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