Quando a alma doente precisa de cuidado

“Alma pode ser entendida aqui como aquilo que ultrapassa os limites do físico e entra no campo do subjetivo”

Por Murillo Mascarenhas Nascente*

Foto: Divulgação

Adoecer faz parte da trajetória humana na terra, dada a fragilidade do corpo e sua complexa trama de sistemas e processos. Assim como o corpo, a alma pode precisar de cuidados. Alma pode ser entendida aqui como aquilo que ultrapassa os limites do físico e entra no campo do subjetivo. Os aspectos psicológico, emocional e espiritual de uma pessoa podem estar comprometidos, criando o que a sociedade convencionou chamar de transtornos psiquiátricos. Sim, a alma adoece! E quando isso acontece, não existe cura milagrosa.

Não, não estou querendo dizer que a espiritualidade deve ser descartada ou que a amizade seja inútil para quem está sofrendo psiquicamente. Mas é preciso lembrar que nem todos os que reclamam de uma dor invisível são frágeis ou fracos. Pode ser um problema físico. Existem desordens químicas no cérebro que podem causar enorme sofrimento e gerar angústias indescritíveis. Doenças mentais graves, como esquizofrenia, transtorno bipolar do humor, pânico ou mesmo depressão são, na maior parte das vezes, alterações geneticamente herdadas e nada tem em comum com “frescura”, “moleza” ou “indiferença”.

Todos os que passam por situações assim necessitam do apoio, familiar ou de amizade, para superar os problemas decorrentes destes transtornos, mas não só isso. A alma, por diversas vezes, precisa de remédio. Muitas vezes, o medicamento é algo que vai além da motivação e das palavras de conforto. É preciso quebrar paradigmas e acabar com o preconceito. A ciência e a Medicina atuam para servir à sociedade, não o contrário. O transtorno psiquiátrico pode ser tão grave quanto qualquer outra doença. Se tanta gente faz tratamento para hipertensão ou diabetes e acha isso normal, por que a maioria das pessoas que precisam de atendimento psiquiátrico tem vergonha ou receio do que os outros vão dizer?

Talvez a alma se canse de pedir ajuda. Cansado, alguém poderá desistir de procurar tratamento, mas a alma continuará gritando por socorro. Por que não tentar, qual é o motivo de desistir? É urgente que o tratamento comece, evitando-se assim o desenvolvimento de outras patologias que vão além do sofrimento pessoal e familiar, cujo preço a ser pago pode se tornar incalculável. A maioria das pessoas que têm algum transtorno sabe muito bem o que é conviver com olhares duvidosos, situações constrangedoras e até mesmo a baixa autoestima, fatores que, se não pioram o quadro, fazem com que o transtorno fique estagnado e a situação permaneça sem solução.

É necessário que haja uma tomada de consciência por parte da sociedade. Isso poderá fazer com que mais pessoas procurem tratamento psiquiátrico quando for necessário, sem se sentirem julgadas, violadas e boicotadas. É preciso criar uma onda positiva que quebre as barreiras. Os preconceitos só aumentam a falta de perspectiva de um paciente. Juntamente com o apoio das pessoas que estão mais próximas, o paciente portador de algum transtorno psiquiátrico precisa da segurança, de políticas públicas que garantam o acesso aos tratamentos, afinal de contas, muitos não têm condições de pagar por consultas e medicamentos de alto custo. Quem sofre da alma também precisa de suporte, mas algumas vezes as portas dos ambulatórios, clínicas e prontos-socorros nos postos de saúde estão fechadas para quem pede ajuda quando o sofrimento não é óbvio. É mais fácil constatar um pé quebrado que um coração partido. A rede pública também precisa estar preparada.

Amor, empatia, carinho, compreensão e cuidado são palavras que cabem muito bem no dicionário das pessoas que convivem com pacientes psiquiátricos. Muitas vezes, nem mesmo o paciente entende a situação pela qual está passando. Todo e qualquer ato de auxílio é bem-vindo. Lembre-se sempre: somente quem sofre sabe a dor que está sentindo. E apenas aqueles que já passaram por transtornos sabem o momento exato quando a alma doente precisa de remédio.

*Murillo Mascarenhas Nascente é médico graduado pela Universidade Federal de Goiás, psiquiatra pela Associação Brasileira de Psiquiatria, pós-graduado em dependência química pela Unesp e teórico em Filosofia pela Casa de Estudos Francisco de Assis

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