“Vamos trabalhar muito e usar a criatividade para gerir a UFG com sucesso em tempos de vacas magras”

Estabelecer parcerias e promover uma gestão coletiva estão entre as ações principais para o reitor eleito encarar seu terceiro mandato à frente da instituição

Edward Madureira Brasil, reitor da UFG | Foto: Fernando Leite / Jornal Opção

No início de 2014, Edward Madureira Brasil deixou a Reitoria da Universidade Federal de Goiás (UFG) com bastante aprovação, após dois mandatos. Depois de uma incursão pela carreira política — foi candidato a deputado federal pelo PT, obtendo 58.865 votos e a primeira suplência na Câmara —, foi chamado para uma nova campanha eleitoral na instituição. Em chapa formada tendo a professora Sandramara Matias como sua vice, o ex-reitor teve uma vitória tranquila diante de três outros nomes — obteve mais do que o dobro de votos do 2º colocado, o professor Luiz Mello, ex-pró-reitor de Graduação na gestão atual, de Orlando Amaral.

Sua volta, porém, não foi sem contestações e questionamentos. O principal é sobre a conjuntura: Edward comandou a UFG entre 2006 e 2013, quando se deu o auge das políticas do governo federal para as universidades públicas. A provocação que lhe é dirigida — inclusive tendo sido mote de quem fazia oposição a seu nome durante a campanha — diz que ele teria “surfado” nas boas ondas da economia e do montante de recursos repassados a todas as instituições pelo programa de Restruturação e Expansão das Universidades Federais (Reuni). A resposta está na ponta da língua. “Todas as universidades do País tiveram acesso aos recursos. Só que nós subimos de uma colocação do meio do ranking entre 63 instituições para o 14º lugar entre todas.”

Para gerir a UFG novamente a partir de janeiro do próximo ano, Edward diz não abrir mão nem mesmo dos concorrentes. “Pessoas que apoiaram outras chapas podem estar conosco na gestão. Fiz isso no passado e não terei dificuldade de fazer novamente”, afirma. A primazia do diálogo, sua marca registrada, vai valer também para o extramuros da universidade, em busca de parcerias, como a que ajudou a erguer o Centro de Eventos Professor Ricardo Freua Bufaiçal, obra para a qual seus olhos brilham. “Sem nenhum recurso do Reuni, conseguimos estabelecer uma colação de grau decente e construir um espaço que é o melhor para eventos dos mais diversos gêneros em Goiânia.”

Elder Dias — O sr. ficou oito anos no comando da Reitoria da UFG, tendo como resultado uma grande popularidade. Retorna agora, eleito pela terceira vez com o dobro de votos do professor Luiz Mello, o 2º colocado, mas em um cenário de perspectiva sombria para a universidade. Não é arriscar tudo aquilo que o sr. construiu como história positiva? O sr. chegou a pensar nisso ao se candidatar?
Sim, isso foi motivo de muita reflexão. Havia uma pré-candidatura natural a deputado federal já encaminhada e fazer esse movimento de disputar uma eleição na UFG seria abrir mão desse outro projeto, pois são absolutamente incompatíveis diante da questão do tempo. Foi, então, uma decisão muito bem pensada.

Porém, o que realmente me motivou foram dois fatores. O primeiro é que ser reitor novamente não seria apenas por uma vontade pessoal — minha candidatura surgiu muito mais do estímulo que recebi na universidade, muitas pessoas que, no decorrer do processo, me provocaram a essa decisão. Avaliei se isso se tratava mesmo de um projeto coletivo, pois são só nesses que acredito. A segunda motivação foi o ambiente de restrição de financiamento da universidade pública e de endurecimento da posição do governo em relação a ela, com a descontinuidade de muitas políticas — como o Ciência Sem Fronteiras, por exemplo. Olhando para tudo aquilo que conseguimos consolidar nesses últimos anos, começando desde reitorado e chegando ao do professor Orlando Amaral, eu entendi que não poderia me furtar a encarar esse desafio. Agora, o objetivo é buscar uma articulação nacional para defender este que é um dos maiores que o País tem, em minha avaliação: a universidade federal, pública e de qualidade.

Cezar Santos — O que a UFG ganha de fato com sua volta à Reitoria depois de ter sido candidato e também atuado no Ministério de Ciência e Tecnologia?
Creio que a universidade ganha um pouco de conhecimento, experiência e uma rede de relacionamentos, porque, nessa trajetória, não tem como não ter acesso a diferentes escalões dos diversos governos e Poderes. Esse acúmulo, no entanto, não faz sentido algum se não estiver a serviço de algo importante. É essa minha motivação.

Euler de França Belém — Existe uma tese — ou um mito — de que o sr. governou a UFG muito bem, mas em um período de bonança, com muitos recursos. Agora, então, seria de fato o grande teste como gestor, pois vai governar sem dinheiro ou com muito pouca verba. Dizem até que o professor Orlando Amaral não é pior que Edward…
Claro que não.

Euler de França Belém — Dizem que ele é uma pessoa correta e que fez uma administração também correta, mas que não teve recursos suficientes para fazer uma gestão tão acelerada como as que o sr. comandou. O que tem de verdade de mito e de verdade nessa história?
Gosto de entrar nesse debate. Não posso negar que eu fui reitor em uma época na qual as universidades federais — e isso vale para todas as do Brasil — foram objeto de políticas públicas que permitiram seu crescimento tanto quantitativo (em termos de números de alunos, cursos, docentes, área construída etc.) como qualitativo também, já que todos os índices e indicadores melhoraram nesse período.

Entretanto, às vezes as pessoas se esquecem de certas coisas. Uma é que, antes de ser reitor, eu tinha sido diretor da Escola de Agronomia, em um período no qual os recursos eram ainda mais escassos do que estamos vivendo agora. Nem por isso, nossa unidade deixou de crescer e de fazer grandes eventos. A Agro Centro-Oeste, por exemplo, começou em 2000 e achavam que era impensável fazer algo daquela forma no setor agropecuário por conta da conjuntura que vivíamos. Mas fizemos, com criatividade e parcerias, aglutinando as pessoas. Também erguemos um prédio de sala de aulas lá em um momento no qual a universidade praticamente não tinha como tocar obras. Isso foi possível com muita conversa, com a ajuda de ex-alunos e outras pessoas. Então posso dizer que estou tarimbado para administrar também em época de escassez.

Outro ponto, esse já do reitorado, mas que confundem com os recursos que vieram do Reuni [Restruturação e Expansão das Universidades Federais, programa de ampliação das instituições criado no governo Lula]: as obras que fora desse programa. O Centro de Eventos é aquela que considero a maior obra de minha gestão. Uma área de 8,5 mil metros quadrados que se tornou espaço para as colações de grau, de modo especial, mas também para grandes shows e uma série de outros eventos. Sem dúvida é o melhor espaço da capital para receber encontros de grande porte, e foi construído absolutamente sem recursos do programa de expansão. O que nos moveu para o trabalho foi a indignação com uma solenidade de colação de grau que até então era absolutamente excludente. Acabar com isso era algo a que ninguém se opunha, embora eu encontrasse quem entendesse que não tinha como romper com aquilo. Ninguém poderia contestar, no então, que precisávamos de um modelo de colação decente, digna, do qual todas as pessoas poderiam participar e não só as que tivessem algum dinheiro [Edward se refere às onerosas cerimônias de diplomação para turmas principalmente dos cursos mais elitizados, que nem todas as famílias de formandos podiam bancar]. O Centro de Eventos foi construído praticamente “na marra”, um modo de dizer que tivemos de correr atrás da bancada goiana no Congresso, de outras parcerias, para que o prédio ficasse pronto. E fizemos.

Da mesma forma, a ampliação do Hospital das Clínicas, uma obra de R$ 150 milhões que não tem um centavo sequer do MEC ou do Ministério da Saúde. Deve ser terminado no próximo ano como resultado de um entendimento da bancada goiana de deputados e senadores que entenderam ser essa uma obra estruturante e importante para o Estado.

Euler de França Belém — Mas a obra do hospital não está parada?
De forma alguma está parada, absolutamente. O que ocorre é que, como os recursos para ela vieram de emendas de bancada, houve anos em que o governo federal não repassou o devido a essas emendas. Isso aconteceu em dois ou três anos. A última etapa foi licitada em duas partes e ambas estão em andamento. Está empenhado o valor total para isso e o que está ocorrendo é um problema de repasse financeiro do governo federal, que está passando a conta-gotas, em função de a arrecadação estar baixa.

Euler de França Belém — A expansão da UFG não está ocorrendo de forma desordenada? Há professores doutores ministrando aulas para turmas de apenas três ou quatro alunos. Uma universidade mais enxuta, voltada à pesquisa, não seria melhor para a sociedade?
Acho que não. Vamos fazer uma comparação entre países e usando números nossos. Como seremos uma grande Nação se atendemos — e falo aqui tanto do setor público como do privado — apenas 17% dos jovens de 18 a 24 anos, enquanto na Coreia do Sul esse número chega a 80% e nos nossos vizinhos Chile e Argentina o índice é superior a 40%? Claro que não teremos um País desenvolvido sem uma quantidade significativa de jovens na educação superior. O que é mais grave: tínhamos um projeto — o Plano Nacional de Educação, sancionado ainda pela presidente Dilma Rousseff (PT) em 2014 — que determinava para 2024, daqui a sete anos, o índice de 33% desses jovens na educação superior. Era o mínimo para aproveitar o bônus demográfico, porque temos uma população de jovens ainda maior. Se esperarmos mais 20 anos para arrumar isso, já terá passado o tempo, não teremos mais como ser uma grande Nação. O momento do País exige, portanto, investimento maciço tanto na educação básica como a de nível superior. Não dá para parar uma para arrumar a outra, porque nossa chance histórica vai passar. Ainda podemos passar pelo que revolucionou a Coreia do Sul há 50 anos, temos essa possibilidade, mas precisamos fazer agora. De qualquer forma, é preciso reconhecer os problemas internos da universidade. O maior deles, talvez, deva ser a evasão.

Euler de França Belém — E a evasão da UFG é alta?
Sim, é alta. Quando se fala em cursos com turmas de três ou quatro estudantes isso não é no ingresso. Nosso número de vagas ociosas já no ingresso é relativamente pequeno, o grande problema é a desistência. E quais são as razoes para a desistência? Uma das principais é a falta de assistência estudantil, de financiamento. O aluno passa na seleção para a universidade, mas não tem dinheiro para bancar a passagem de ônibus para chegar a ela, não tem dinheiro para o restaurante universitário ou não tem dinheiro para morar, se vem de outra cidade. Isso já manda muita gente embora nessa fase. Outra razão é a chegada à universidade com muita deficiência do ensino médio.

Euler de França Belém — Mas, falando de forma concreta: o sr. pode fazer uma investigação sobre esse caso das turmas de pouquíssimos alunos já no primeiro semestre de curso e vai verificar que elas existem, mesmo.
Não em Goiânia, talvez isso possa ocorrer em algum curso do interior, principalmente de licenciatura. O que acontece é de pessoas entrarem em um curso de licenciatura com certa visão, se depararem com as perspectivas de trabalho como professor e desistirem na primeira semana.

Euler de França Belém — O empresário e banqueiro Jorge Paulo Lemann doa, todo ano, milhões de dólares para uma universidade norte-americana. E reclama que há uma dificuldade enorme em estabelecer essa mesma parceria com universidades brasileiras. Por que a universidade não se abre mais para esses mecenas, digamos assim?
Temos alguns problemas de legislação, o que é um desafio que devemos enfrentar. Precisamos nos aproximar da sociedade, em toda sua complexidade, em todos os níveis e com todos os seus atores. Dou outro exemplo que corrobora o que você disse: Raduan [Nassar, escritor] teve de pagar R$ 450 mil de imposto da fazenda que decidiu doar para a Universidade Federal de São Carlos [anteriormente, ele tentou doar a área para a Universidade de São Paulo, mas desistiu diante da burocracia do governo estadual]. Ou seja, como a instituição não poderia arcar, de acordo com a legislação ele teve de desembolsar o valor.

Euler de França Belém — Antes da eleição na UFG, o sr. havia me dito que iria fazer um trabalho vinculado à sociedade. Que tipo de trabalho seria esse?
Vamos pensar na universidade daqui a 20, 30, 50 anos. Ela só vai continuar da forma que é se a sociedade a estiver defendendo. Ou seja, a universidade precisa se tornar cada dia mais essencial à sociedade — aqui entenda-se governos, empresas, organizações, movimentos sociais etc. Precisamos estabelecer essa ponte de maneira sempre mais forte. Há inúmeras estratégias para isso. O novo marco de ciência e tecnologia permite que a universidade compartilhe o uso de seus espaços com outros entes e seu pessoal, mas é preciso buscar a sociedade.

Queremos fortalecer muito a extensão e a pesquisa aplicada. Da mesma forma, a inovação tecnológica. A graduação precisa se aproximar das congêneres nos institutos federais e nas universidades estaduais; as federais precisam trocar mais conhecimento, criar grandes redes de pesquisa e de extensão e cultura, para chegar mais perto da sociedade. Além de tudo, é preciso comunicar tudo isso de forma eficiente. Faz-se muita coisa nesse campo na universidade, mas não conseguimos dar a devida visibilidade a programas fantásticos. Um deles é o de melhoramento genético da cana-de-açúcar, de que participo. É algo que sustenta o avanço da cultura da cana no Brasil e é feito por dez universidades. Mas nem o próprio governo sabe disso da forma que deveria saber, apenas tem notícia.

A dificuldade de comunicação, portanto, é um ponto nevrálgico. Vou dar um exemplo: vá ao Alice Barbosa [bairro vizinho ao Campus Samambaia, da UFG] e pergunte aos meninos se sabem que há cotas para eles na universidade. A maioria não vai saber. Temos problemas seriíssimos de comunicação.

“Vamos pensar na universidade daqui a 20, 30, 50 anos. Ela só vai continuar da forma que é se a sociedade a estiver defendendo. Ou seja, a universidade precisa se tornar cada dia mais essencial à sociedade” | Foto: Ascom/UFG

Cezar Santos — O sr. até agora colocou uma agenda mais externa, mais política até. Da “porteira pra dentro”, vamos dizer assim, quais os desafios da UFG?
São muitos. Tenho me atido muito a esse movimento “para fora” da UFG porque precisamos ganhar essa batalha da comunicação em mostrar nossa essencialidade, haja vista certas propostas em voga, como a de cobrança de mensalidade nas universidades. Mas, internamente, tivemos um grande desafio em meu reitorado: expandir, promover a inclusão social — nós começamos a política de inclusão em nosso mandato, depois é que veio a lei das cotas — e melhorar a qualidade. Havia a suspeita de que a expansão levaria à queda da qualidade.

Não deixar isso acontecer teve um custo. Então, muitas questões da organização interna da universidade não puderam ser atacadas naquele momento. Agora, o que propomos na gestão é o aprofundamento de uma reforma administrativa que até já começamos, em 2013, quando mudamos o estatuto da UFG. Vamos a exemplos bem concretos: em relação à política de pessoas, temos um quadro docente altamente qualificado, uma parcela do quadro técnico-administrativo muito qualificada e outra se qualificando, mas não temos políticas para aproveitar esse potencial da melhor maneira. Temos aproximadamente 2,2 mil professores doutores e mais de cem técnico-administrativos também com doutorado. Precisamos de uma política que os reconheça e os valorize. Por isso mesmo, estamos propondo a criação de uma pró-reitoria de gestão de pessoas, para tratar dessa política de pessoal de forma integral, tanto de técnicos como de professores, para cuidar de seleção, remoção, dimensionamento, alocação, reconhecimento, qualificação etc.

Outro ponto interno é que temos hoje uma pró-reitoria que, além de tratar da questão de recursos humanos trata também de planejamento e tecnologia de informação. Vamos tirar essas duas áreas dela e levar para o gabinete. Assim, o planejamento passa a ocupar uma posição estratégica, para que o usemos como ferramenta de tomada de decisão por parte da reitoria. O mesmo vale para a tecnologia da informação, que domina nosso dia a dia, mas que, dentro da universidade, estava em uma posição que a impedia de avançar.

Cezar Santos — Em relação ao pessoal, há muito desvio de função, ou inadequação funcional, na UFG?
A carreira dos servidores técnico-administrativos hoje estimula a qualificação. Assim, vários deles chegam a se tornar doutores, às vezes contratados como técnicos de nível médio. Ou seja, estamos desperdiçando a competência de um doutor para que ele faça serviços que poderiam ser executados por outras pessoas com uma menor qualificação, mas adequada àquela função. Essa pró-reitoria que será criada se proporá a tratar dessa política de pessoal. No exemplo hipotético de um técnico doutor que faça uma tarefa bem aquém de seu alcance, o que pode acontecer com ele? Ou vai trabalhar desmotivado ou vai estudar para prestar concurso e seguir outra carreira.

Elder Dias — Ou seja, a universidade acaba por perdê-lo de um jeito ou de outro.
Sim, e por isso queremos ter uma política de valorização dessa pessoa, para que ela se enquadre em algo para o qual foi preparada para fazer.

Augusto Diniz — O sr. tem dito que a UFG precisa de uma gestão progressista. O reitor Orlando Amaral, no entanto, diz que terá de repassar o cargo no vermelho, por corte de recursos. Os jornais diários dizem que a violência no campus mais do que dobrou, bem como há dificuldade para pagamento até de conta de luz. Quais serão suas dificuldades de fato? O sr. tem noção de qual é a realidade atual para implantar esse modelo de gestão progressista?
De forma bem esclarecedora, não tenho dúvida de que vamos enfrentar uma gestão de vacas magras. Mas é possível — com trabalho, criatividade, determinação — é possível, sim, achar alternativas para o financiamento da universidade. Mas não podemos perder de vista que nossa obrigação é cobrar do governo federal sua própria responsabilidade. Nós não expandimos na UFG apenas por desejo nosso, mas por uma política de governo que nos incentivou. Precisamos, então, mostrar ao governo que temos muito a oferecer e que, por isso, o governo precisa nos financiar de maneira adequada. O contingenciamento que o professor Orlando está sofrendo agora em seu reitorado realmente nos amarra, porque não há como pagar as tarifas públicas nem as empresas terceirizadas e prestadoras de serviço da universidade. Isso é muito ruim para nós.

Temos duas frentes de ação: uma é junto ao governo — com a Andifes [Associação Nacional dos Dirigentes de Instituições Federais de Ensino Federal] e o Conif [Conselho Nacional das Institui­ções da Rede Federal de Edu­cação Profissional, Científica e Tecnológica], que podem articular um movimento forte de convencimento e cobrança de responsabilidades, pois o subfinanciamento é contra o Brasil. A outra é buscar formas complementares de reforço de nosso orçamento. Se na época das vacas gordas estivéssemos nos contentado com o que o governo sinalizou e ofereceu, seguramente a UFG seria 30% menor do que é hoje. Ou seja, quando supostamente havia dinheiro à vontade, conseguimos ampliar ainda mais o volume de recursos.

Um dado que vai ajudar a entender isso de maneira mais clara: à época da criação do Reuni havia pouco mais de 50 universidades federais no País. A UFG era a 28ª maior entre elas. Depois do Reuni, o número de instituições subiu para 63 e nós subimos para 13º ou 14º lugar. Não teve outra universidade que tenha aproveitado essa janela de oportunidade melhor do que a UFG.

Elder Dias — E o Reuni foi para todas.
Exatamente. Nós nos destacamos nacionalmente e por um artifício bem simples: chamamos as unidades acadêmicas para participar do processo, uma construção muito coletiva e colaborativa, sabendo das necessidades e de que precisaríamos de mais recursos. Ou seja, não podemos avaliar aquele momento como um tempo em que o dinheiro simplesmente veio e mandamos executar. Isso seria ter total desconhecimento sobre o que tivemos de fazer para ultrapassar tantas universidades no ranking. Hoje a UFG é a 8ª maior do Brasil em número de professores. Temos uma massa crítica que é invejável e nesse ponto estamos no nível de instituições mais consolidadas, como a UnB [Universidade de Brasília].

Outro exemplo concreto: os governos de Goiás e de Goiânia gastam bastante trazendo consultorias e desenvolvendo projetos com instituições de outros centros. Por que isso não fica aqui mesmo? Nós temos competência para fazer e esses recursos que hoje vão para fora ajudariam a gerar bolsas para resolver a demanda de assistência estudantil. Por fim, mais um exemplo, sobre algo que me incomoda: uma universidade de Minas Gerais tem um programa de apoio ao desenvolvimento da educação em municípios e está atuando em vários de Goiás. Por que não pode ser a UFG? Coisas assim ajudam tanto a resolver as questões de orçamento como a cumprir nosso papel. Então, é não ficar quieto, ir atrás, porque as coisas estão acontecendo.

“A inclusão na universidade será ampliada”

Edward Madureira Brasil, reitor da UFG | Foto: Fernando Leite / Jornal Opção

Euler de França Belém — O que significa dizer que a universidade está “no vermelho”, então?
Na verdade, como a universidade não gera recursos, temos um orçamento que vem do MEC, mas que frequentemente se mostra ineficiente. Então, é possível que, quando chegar janeiro, tenhamos contas públicas ficam atrasadas porque o dinheiro não deu. O jeito será pedir paciência aos credores e esperar o dinheiro do orçamento sair. Uma conta ou outra tem de ser renegociada, mas dentro do limite do aceitável. O que o reitor precisa priorizar é o pagamento das empresas terceirizadas, pois elas são responsáveis por famílias que não podem ficar sem receber.

Euler de França Belém — Como será a política da UFG para a questão das drogas em seu próximo reitorado?
Esse foi um assunto podemos ligar à questão da segurança, um tópico que dominou os debates da campanha eleitoral na universidade, com certeza o mais recorrente. Neste semestre passado, a UFG finalizou um estudo muito bem elaborado — envolvendo professores, técnicos e especialistas — que faz um diagnóstico e aponta medidas concretas para enfrentamento da questão. Vai desde itens simples, como iluminar alguns espaços cortando galhos, até criar um sistema, com o pouco dinheiro do orçamento, que torne o campus um local seguro.
Algumas iniciativas: controle eletrônico do acesso — não com cancelas, pois queremos sempre uma universidade aberta —, de forma com que tenhamos o cadastro dos veículos que circulam, o que é muito simples hoje em dia, com a ajuda tecnológica; mais câmeras de vigilância para a parte externa — dentro dos prédios isso já tem dado um bom resultado, com a redução dos furtos; e estabelecimento de protocolo com os órgãos de segurança. Aquela ideia de que não pode entrar determinada corporação na universidade é um mito. Sabemos que há uma relação conflituosa com algumas delas, mas há casos e casos. Recentemente, a segurança da UFG apreendeu um assaltante de revólver na mão e os servidores ligaram para a polícia. A resposta foi: “A gente não pode entrar aí.” Como não? Precisamos ter um diálogo com os órgãos de segurança para que haja essa ação em determinadas circunstâncias. Em uma situação como essa que eu disse, quem poderia ser contra a polícia entrar e levar alguém que estava cometendo um crime.
Em relação ao tráfico, é fundamental agir com inteligência no combate. Não podemos conviver com traficantes dentro da universidade, nenhum membro da comunidade universitária é a favor de algo assim. Mas, para isso, é preciso estabelecer parceria com os órgãos de segurança — seja Polícia Civil, Militar ou Federal. É preciso chamar todos para a mesa e resolver isso. É bom ressaltar que nas universidades que contam com policiamento em sua área a criminalidade não foi reduzida. A única saída envolve inteligência e tecnologia.

Euler de França Belém — A UFG já é uma universidade bastante inclusiva. Em que sentido o sr. pretende ampliar isso mais ainda?
Até por uma questão legal temos de fazer essa ampliação. A Lei de Cotas muda e traz agora também a reserva para pessoas com deficiência. Entendo que a universidade precisa estar sempre aberta para todas as pessoas, embora não seja uma tarefa fácil. É preciso contemplar alunos 100% cegos, por exemplo. Não temos as condições ideais nem em termos de acessibilidade física nem de capacitação de pessoal. Há algumas medidas tomadas, como a instauração do Núcleo de Aces­sibilidade e do Núcleo de Ações Afirmativas, para tratar dessas questões. Um indígena ou um quilombola sofre um choque cultural quando chega à universidade e precisamos cuidar dessa adaptação, ter cuidado com as pessoas. É um desafio, mas temos avançado.

Euler de França Belém — E o que po­de ser feito além do que existe hoje?
Na administração do professor Orlando foi criada a Coordenação de Ações Afirmativas e houve o fortalecimento do Núcleo de Acessibi­lidade. Agora é instrumentalizar essas estruturas já existentes para a continuidade do trabalho de forma melhorada.

Euler de França Belém — A edição mais recente do Jornal Opção deu destaque ao alerta do professor Maximiliano Bayer [do Instituto de Estudos Socioambientais (Iesa)] sobre a destruição do Rio Araguaia, que foi tema de seu mestrado e de seu doutorado. A universidade tem como dar uma contribuição mais prática sobre temas assim?
Vou dar, como exemplo, o que fizemos com outro manancial, que é o mais importante de Goiás, em termos de economia: o Meia Ponte. Na região de sua bacia circula 70% do PIB do Estado. E o Meia Ponte está morrendo. Quando fui reitor, entabulamos um projeto e buscamos parceiros para tratar do rio. Temos gente para diagnosticar e propor medidas visando resolver a questão desse manancial. O que precisamos é de sensibilizar parceiros, pois isso tem um custo. A universidade é um agente de desenvolvimento do Estado e precisa cumprir esse papel. Isso significa que ela tem de se envolver no cotidiano das cidades, do Estado, das pessoas, e apontar soluções.

Euler de França Belém — A ETE [Estação de Tratamento de Esgoto] de Goiânia fica próxima à UFG. O resultado da obra foi positivo?
Vamos dizer que é uma obra que contribui, mas há ainda etapas a serem concluídas e que precisam avançar. Sou morador da região norte, onde fica a ETE, e recentemente, numa reunião com Jalles Fontoura, presidente da Saneago, justamente para chamar a atenção sobre o mau cheiro que acomete o ar em alguns meses do ano e cuja origem é incerta. Existe a hipótese de que venha de uma indústria e também a de que seja originário da ETE. O que posso dizer é que a UFG está pronta para entrar nessa questão, juntamente com a Saneago, com o IFG [Instituto Federal de Goiás] e quem mais puder ajudar. Não precisamos fazer nada sozinho, porque assim teremos mais sucesso na busca da solução.

Augusto Diniz — O que falta para ocorrer uma maior aproximação entre a universidade e a sociedade?
Há componentes históricos que fizeram surgir esse distanciamento. A mudança de rumo passa pela vontade política de assim trabalhar. Quero montar uma equipe de pessoas com esse perfil para gerir a universidade. Se é difícil a relação com as empresas, vamos ficar repetindo esse discurso ou vamos atrás para buscar uma saída? Talvez erremos algumas vezes, mas na maioria dos casos isso vai dar certo. Temos pessoal preparado, temos laboratórios e temos vontade política para fazer. Se não fizermos, é porque estaremos sendo incompetentes.
As pessoas precisam ser convencidas a trabalhar de forma mais colaborativa. Com a Saneago, por exemplo, tenho certeza de que vai andar nossa conversa sobre a ETE e o Meia Ponte, ainda mais com um interlocutor de cabeça aberta, como é o presidente Jalles.

Euler de França Belém — O esgoto da UFG é 100% tratado?
Sim, por uma estação de tratamento construída ainda durante o reitorado da professora Milca Severino [reitora de 1998 a 2005]. Pode haver um ou outro ponto que hoje não esteja ligado a ela, mas é coisa mínima.

Euler de França Belém — Não chegou o momento de se pagar pelo ensino público? Não digo em relação a todas as pessoas, mas para aquelas que possam pagar?
É algo muito complicado, porque, afinal, as pessoas já pagam, por meio dos impostos. Não está no momento de quebrar isso. Hoje, a forma de aumentar a taxa de pessoas no ensino superior ou ocorre pela expansão das instituições públicas ou por bolsas como o Prouni. A população não dá conta de pagar mais do que já paga. Temos um caminho grande a percorrer antes de pensar em taxar o ensino público.

Euler de França Belém — Quantas das vagas da UFG são destinadas às cotas?
Metade das vagas da universidade são reservadas a alunos da escola pública. Dentro dessa reserva há uma subdivisão para os recortes racial, social, de renda, para pessoas com deficiência. É bom esclarecer, porque há muita confusão sobre isso. Dentro do recorte racial há uma outra divisão, de acordo com o porcentual de cada população — negros, índios etc.

Euler de França Belém — Em que estágio de encaminhamento se encontram as universidades federais do Sudeste Goiano e do Sudoeste Goiano?
Costumo dizer que, no dia em que esse projeto for aprovado pelo Congresso, quem estiver na Pre­si­dência vai correr para sancionar a lei de criação. Afinal, estão surgindo cin­co universidades federais — duas em Goiás, uma no Tocantins, uma em Mato Grosso e outra no Piauí — que já estão prontas e funcionando. O impacto dessas unidades no orçamento é mínimo. Em Jataí e em Catalão, estão sendo criadas 80 vagas para servidores técnico-administrativos, não precisarão de nenhuma vaga para professor, porque já têm. Fora isso, há os cargos administrativos — reitor, vice-reitor, pró-reitores etc. Trabalhamos muito para que essas universidades se consolidasse e não vejo como não ocorrer essa criação.

Elder Dias — E como fica a UFG com a “independência” desses dois campi? Essa espécie de enxugamento será boa para a UFG?
Vai depender de como vamos lidar com essa questão. Temos hoje uma grande universidade. Com a emancipação de Jataí e Catalão, teremos uma universidade média — a UFG, que ficará com os campi de Goiânia, cidade de Goiás e Aparecida de Goiânia — e duas pequenas. A correlação de forças mudará completamente. Por isso, tenho dito que só conseguiremos consolidar a educação pública federal superior no Estado se tivermos uma forte união entre as três instituições. Precisaremos caminhar até mais juntos a partir da emancipação, porque perderemos partes muito importantes, muitas competências ficaram fora. Por outro lado, as duas novas ficarão mais frágeis no espectro de 68 universidades, vão se posicionar na parte de baixo da tabela de ranqueamento. A UFG deve cair para a posição 25 ou algo por ali. Se estivermos coesos, a chance de fazer algo bom aumenta. Ou seja, vai depender bastante da gestão das três universidades e do quanto elas conseguirão caminhar juntas pensando na educação superior de Goiás.

Elder Dias — Mas tanto a Federal do Sudoeste como a do Sudeste vão precisar muito da UFG.
Sim, certamente, e isso foi base de minha argumentação durante a campanha em Jataí e Catalão. Pre­ci­sa­mos estar muito unidos e desprendidos. A interiorização é fabulosa. Imagine o que essas duas instituições representam para suas regiões, quantas pessoas deixaram de migrar para a capital ou outros centros em função delas. Esse papel precisa ser fortalecido.

Augusto Diniz — Como fica a coesão interna da UFG, tendo em vista que a eleição teve a disputa de quatro grupos — o seu e mais três? Há um diálogo entre eles?
Isso se dará de forma tranquila. Para mim, a eleição acabou dia 28 de junho. Tenho a experiência de 2005, quando disputamos contra duas outras candidaturas. Passado o processo, aglutinamos toda a universidade e creio que nossos dois mandatos foram bem-sucedidos em grande parte porque as pessoas se sentiram parte da gestão. Tenho certeza de que os demais candidatos e eu teremos uma relação muito propositiva e construtiva em defesa da UFG.

Augusto Diniz — Há ideias lançadas pelas outras chapas que o sr. pensa em adotar?
Construímos nossa proposta em grupos de trabalho, de forma muito participativa. No site da campanha, criamos uma plataforma colaborativa. Minha meta para o segundo semestre — já que vamos assumir somente em janeiro — é justamente percorrer toda a universidades, todos os órgãos e todas as unidades, para consolidar um projeto de gestão que será apresentado ao Conselho Universitário em janeiro. Obvia­mente, as boas ideias apresentadas por outros candidatos serão incorporadas e farão parte de nosso planejamento. Está é uma coisa positiva na universidade: mesmo quando há uma mudança de poder — como foi quando sucedi a professora Milca —, os projetos que estavam em andamento foram incorporados por nossa gestão e levados adiantes. Não acredito nessa história de grupos fechados na universidade, o que temos são momentos de eleição; depois disso, pessoas que inclusive apoiaram outras chapas podem estar conosco na gestão, fiz isso no passado e não terei dificuldade de fazer isso agora, novamente. O que precisa é, apenas, acreditar em nosso projeto e ter competência técnica para o cargo, além de três coisas que, para mim, são muito importantes: tem de gostar de gerir, isso não pode ser um peso para a pessoa; também precisa gostar de gente; e, por fim, trabalhar muito. Tendo isso, são pessoas aptas a estar no rol de pró-reitores, diretores e assessores que estarão com a gente.

Elder Dias — O sr. é morador da região e sabe disto: há um muro invisível entre a UFG e os bairros vizinhos. A maioria dos projetos de extensão raramente alcançam a vizinhança. Primeiramente, essa interação é importante para a UFG?
Claro que é.

Elder Dias — Em segundo lugar, então, o que pode ser feito diretamente pela gestão, independentemente de algum projeto de extensão?
Tenho algumas ideias. Não pensando apenas nos bairros vizinhos, temos um projeto que foi criado em nossa gestão e que se tornou um sucesso absoluto é o Espaço das Profissões. É algo que me enche de alegria ver 30 mil estudantes de Goiânia e de Goiás dentro da universidade. Porém, algo que fico me perguntando: será que não podemos fazer um Espaço das Profissões na região noroeste de Goiânia? Ou seja, ao invés de esperar que venham ao campus, ir até lá?
Por outro lado, pensando na comunidade vizinha, será que não podemos abrir a universidade num domingo e chamar todos para visitá-la. Algo como um “Domingo na UFG”, com os laboratórios abertos, pesquisadores e alunos ali, mostrando ciência, cultura, arte. Isso pode despertar as pessoas para essa relação com a universidade. É algo que pode ser feito com vontade política, precisando de pouquíssimo dinheiro. Precisamos que as pessoas estejam na universidade não somente para ir ao banco, mas para conhecer o que é produzido em nossa instituição. Isso pode ensejar uma série de outros encaminhamentos.

Reitor eleito da UFG, Edward Madureira: “Metade das vagas da UFG é destinada a alunos da escola pública” | Foto: Fernando Leite / Jornal Opção

Elder Dias — As licenciaturas são os cursos de mais baixa procura e de evasão mais alta. As médias mais fracas de aprovados no Enem [Exame Nacional de Ensino Médio] também se concentram nas licenciaturas. Porém, serão esses licenciados que cuidarão da educação básica no futuro. Está claro que o problema é muito mais grave do que poderia alcançar uma solução a partir da própria universidade, mas o que a UFG pode fazer, de sua parte, para que quem venha do ensino médio se sinta mais atraído pelas licenciaturas?
Primeiramente, a gente às vezes discute e teoriza muito para dentro. Por isso, um movimento em direção à escola seria positivo, nesse sentido. Quanto a universidade de fato colabora com a educação básica? Quanto ela se movimenta em direção à educação básica? Isso precisa ser um caminho para a integração. No âmbito institucional, temos programas como o Pibic [Programa Instituição de Bolsas de Iniciação à Docência], que é de incentivo à docência, que talvez possam ajudar. Mas o grande gargalo é a expectativa profissional, aliada ao piso nacional de R$ 2,1 mil para o professor.

Elder Dias — Não há como realmente não passar por uma questão de prioridade nacional.
Realmente. Como atrair um estudante para uma carreira em cujo início se ganha R$ 2,1 mil? Como motivar um garoto desses a seguir o caminho da licenciatura? Teríamos de seguir o que outros países fizeram, jogar o piso lá para cima, valorizar o professor e tornar a escola um lugar atrativo, obviamente. De nossa parte, temos de nos aproximar mais do chão da escola. É um movimento que precisa ser feito.

Augusto Diniz — O sr. está trocando o sonho de ser deputado federal para voltar à Reitoria da UFG? A política é um sonho apenas adiado ou foi abandonado?
Respondo com muita tranquilidade sobre isso. Tenho como prática de conduta não calcular o próximo passo. É algo muito pessoal, mas tenho comigo nunca deixar algo pela metade. Sendo assim, vou começar meu mandato como reitor no dia 6 de janeiro de 2018 e vou até o último segundo dele. O que virá depois eu não consigo imaginar, não trabalho planejando o que vai acontecer. Foi assim com a candidatura a deputado, que ocorreu no término do segundo mandato. As pessoas na universidade me motivaram a disputar a eleição, dizendo que eu poderia ajudar a instituição nesse outro lugar. Refleti e me decidi, mas fui muito influenciado por essas pessoas, de várias áreas, que me influenciaram. Assim, seria muito natural que, com a votação de quase 60 mil votos em todo o Estado em 2014, que tentasse a candidatura novamente. Mas eu não tenho muito controle sobre isso. De repente, a mesma universidade — e a votação que tivemos agora comprova isso — me sinalizou que era hora de “cuidar da casa” e ajudar em uma estratégia de defesa de nossa estrutura.

Cezar Santos — E que balanço o sr. faz de sua passagem pela política, com aquela candidatura de 2014?
Fizemos uma campanha baseada em propostas e de muito engajamento. Para ilustrar isso, tive voto em 242 dos 246 municípios goianos, tendo visitado pouco mais de 60 deles. Ou seja, essa votação me foi proporcionada pela universidade, porque eu não teria esse alcance de outra forma. Em Goiânia, fui o terceiro candidato a deputado federal mais bem votado, à frente de todos os candidatos tradicionais — só tiveram mais votos o Delegado Waldir (PR) e Jorge Kajuru [hoje vereador pelo PRP].
Gostei muito de ter disputado a eleição, chegaram a me falar que eu não aguentaria os percalços da campanha, os pedidos inusitados de alguns eleitores e possíveis apoiadores. Só que passamos sempre o sinal de que não haveria o mínimo sequer de troca ou de barganha. Não tenho como me sentir mais gratificado, foi uma experiência extraordinária, começamos a ver as demandas das pessoas com outras perspectivas, como elas enxergam o mundo e a vida. Mas passou, não chegamos ao mandato e não se pode ficar apegado a isso.

Trecho exclusivo para internet

Cezar Santos — Quando o sr. se filiou para ser candidato, o partido de sua escolha já estava envolvido em mil indícios de irregularidades. Eu lhe perguntei à época se não temeria estar ligado a uma sigla envolvida em corrupção. O sr. se decepcionou com o PT?
Olhemos para o cenário atual da política brasileira hoje: se não fosse pelo PT, por qual partido eu poderia sair que me garantiria estar a salvo dessa decepção? Em qual eu poderia confiar, que não poderia ter cometido transgressões? Creio que o PT prestou grandes serviços ao País e tenho o maior respeito por esses pontos — assim como repudio completamente as coisas erradas que foram feitas. Porém, se observarmos os grandes partidos por esse ângulo, veremos que não há motivação para se filiar a qualquer um deles. A decepção que tenho, como a de todos os brasileiros, é com os políticos. Isso não pode ser confundido com uma decepção com a política, o que seria muito perigoso. Sem política não há como construir uma sociedade. A confusão abre espaço para algo muito ruim para o futuro. O que temos de concreto é que não se pode mudar nada sem uma ampla reforma política. Não me vejo disputando cargo político sem que haja essa reforma. Minha decepção, portanto, é com políticos e com partidos políticos, jamais com a política. Só faço a observação de que é um sentimento geral, não dá para fulanizar nada.

Augusto Diniz — Voltar a ser reitor estando filiado ao PT em um momento pós-impeachment de uma presidente do partido dificultará suas ações com o governo federal?
Tenho comigo — e novamente é algo muito pessoal — que um reitor precisa ter uma atuação suprapartidária. Por isso, não seria de bom tom, a meu ver, que, estando no cargo, ele tivesse alguma filiação partidária. A direção do partido sabe de minha convicção, assim como sabe que não vou me afastar de meus ideais progressistas, de lutar pela construção mais justa. Eu me filiei ao PT porque foi em um governo do partido que ocorreram as maiores políticas públicas da história brasileira para as universidades federais. Fiquei como reitor durante sete anos e nove meses sem filiação partidária, o que só ocorreu em setembro de 2013 — até porque, não fosse assim, não teria prazo para disputar a eleição no ano seguinte. Após me filiar, fiquei sem qualquer atuação partidária até o fim de meu mandato na UFG. Não vejo problema em nomeação de reitores ligados a partido, mas minha questão é de foro íntimo.

Augusto Diniz — O Jornal Opção publicou recentemente uma reportagem em que alguns candidatos questionaram a lisura de um concurso para professor da disciplina de História Moderna, da Faculdade de História da UFG. O Ministério Público Federal requereu documentos para a Reitoria a respeito do assunto, para avaliar se cabe ou não uma denúncia. O sr. acha que o processo seria mais isento se todas as bancas examinadoras tivessem pelo menos um docente externo?
Vou colocar como enxergo, em tese, essa questão: o concurso público tem sempre de se pautar pela lisura absoluta. A universidade precisa aprimorar seus procedimentos para que não paire qualquer dúvida sobre qualquer concurso. Esse é o princípio que deve ser seguido. Estamos falando de uma contratação para até 35 anos, para ajudar a construir nossa instituição. Selecionar quem ingressa em seus quadros — seja professor ou técnico-administrativo — é, talvez, o momento mais delicado de todos os processos da universidade. A seleção precisa ser absolutamente impessoal e cercada de todos os cuidados, para garantir a lisura e a isonomia para os candidatos.

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