“Vamos parar de nos intrometer na Venezuela ou também chamaremos a Arábia Saudita de ditadura”

Presidenciável do PPL defende a retomada da política externa independente, além de outras práticas da época em que seu pai, João Goulart — deposto em 1964 —, foi presidente

João Goulart Filho: “Temos que parar com o discurso de ódio que estamos vivendo no Brasil” | Foto: Fábio Costa/Jornal Opção

João Vincente Fontella Goulart, ou João Goulart Filho, de 61 anos, disputa, em 2018, a sua segunda eleição. Em 1982, foi eleito deputado estadual no Rio Grande do Sul pelo PDT, partido que ajudou a fundar ao lado do tio Leonel Brizola.

Filho do ex-presidente João Goulart, deposto em 1964, o presidenciável já ocupou outros cargos públicos. Em 1998, foi presidente do Instituto de Terras do Rio de Janeiro (Iterj) e, posteriormente, assumiu a Subsecretaria de Agricultura do mesmo estado. Hoje, é presidente do Instituto João Goulart, criado em 2004.

Formado em Filosofia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS), João Goulart Filho, que passou boa parte de sua vida no Uruguai — onde seu pai se exilou —, deixou o PDT no ano passado após o partido ter declarado apoio ao governador do Distrito Federal, Rodrigo Rollemberg (PSB), que barrou a construção do Memorial da Liberdade e Democracia Presidente João Goulart.

Agora filiado ao PPL, João Goulart Filho concorre a presidente com um discurso afinado ao de seu pai. Nesta entrevista ao Jornal Opção, o presidenciável disse que, se eleito, priorizará as reformas de base e defendeu a reforma a agrária, além da retomada da política externa independente. “Vamos mostrar aquilo que não foi feito 54 anos atrás”, ressalta.

O sr. foi deputado estadual pelo Rio Grande do Sul no início dos anos 80 e, desde então, não ocupou nenhum outro cargo eletivo. Por que decidiu voltar à política mais de 30 anos depois como candidato à Presidência?
Além de deputado estadual pelo Rio Grande do Sul, fui subsecretário de Estado de Agricultura e presidente do Iterj [Instituo de Terras do Rio de Janeiro]. Construí o Instituto João Goulart, do qual sou presidente desde 2004, para restaurar a história do trabalhismo e da luta pelas reformas de base. Portanto, política não se faz apenas eleitoralmente. Há muitos políticos com mandato envolvidos na Operação Lava Jato que estão dividindo R$ 1,7 bilhão [total dos recursos do recém-criado fundo eleitoral] para se autoprotegerem com foro privilegiado.

Não sou candidato de mim mesmo. Sou candidato de um partido que lutou contra a tirania, um partido que é oriundo do MR-8 [Movimento Revolucionário 8 de outubro]. Vamos trazer a resposta que o País precisa, que são as reformas de base e o nacionalismo, e devolver o Brasil aos brasileiro.

O sr. é filho de João Goulart, deposto em 1964, e disputa, em 2018, a eleição com um candidato que relativiza a ditadura militar. Como analisa isso?
Faz parte do processo democrático, mas aqueles que não se dizem democratas não devem se candidatar. Este é um princípio básico da democracia. No exílio, Jango recebeu o ex-governador da Guanabara Carlos Lacerda, um de seus piores inimigos. Ele o recebeu porque os interesses brasileiros estavam à frente. Temos que parar com o discurso de ódio que estamos vivendo no Brasil e colocar o País em primeiro lugar.

Na última pesquisa Datafolha, o sr. não pontuou. O que fará nestes últimos dias de campanha para poder aumentar as suas intenções de voto?
Nossa candidatura não é medida em Datafolha ou Ibope, mas sim em história e processos democráticos que já realizamos na defesa do trabalhador e, principalmente, da nossa brasilidade, da nossa cultura. Temos que defender o Brasil, e não pesquisas que indicam candidatos oriundos do mercado financeiro. Nossa candidatura é de resposta, de retomada. Vamos mostrar aquilo que não foi feito 54 anos atrás.

É bom que se fale que, em 15 de março de 1964, o Ibope fez uma pesquisa e, nela, Jango tinha 87% de apoio da opinião pública. Esta pesquisa foi escondida durante dezenas de anos e disseram que, naquele ano, ocorreu uma revolução, que a sociedade civil-militar que retirou Jango do poder. Isso é totalmente mentira.

O sr. tem ligações históricas com o PDT e foi filiado ao partido até o ano passado. Em um eventual segundo turno, o sr. voltaria a poiar esta sigla?
O PPL é um partido democrático e todas as suas decisões são coletivas. Seguiremos o que o coletivo decidir.

No seu plano de governo, o sr. diz que pretende voltar à política externa independente e fortalecer as relações Sul-Sul. Em relação à Venezuela, qual seria a sua postura, se eleito?
A América Latina tem o direito de ser livre. Vamos parar de nos intrometer na Venezuela ou também chamaremos a Arábia Saudita, que o neoliberalismo tanto adora, de ditadura. A política externa brasileira tem que ser a de autodeterminação dos povos. Cada povo tem o direito de se autodeterminar em seu caminho político. Temos que ter a opção de reunificar as nossas lutas para sermos independentes. Para termos uma política de autodeterminação, precisamos ser independentes internamente, ou seja, estarmos livres a influência do capital internacional e das pressões do mercado globalizado. Temos que ser Brasil antes de olharmos para fora. Inclusive, foi no governo João Goulart que se estabeleceu a política de autodeterminação dos povos por meio de seu ex-ministro das Relações Exteriores San Tiago Dantas. Esta é uma uma das políticas mais sérias que existem.

O sr. é um defensor da reforma agrária. Em Goiás, onde a agropecuária é muito forte, o seu discurso tem sofrido algum tipo de resistência?
Nosso compromisso é com famílias sem terra em um país continental como o Brasil. A reforma agrária é necessária e temos adiado isso há muitos anos. Temos 4 milhões de famílias e estamos assentando entre 50 mil e 70 mil famílias anualmente. Nesse ritmo, vamos demorar 70 anos.

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