“Um prefeito precisa do governo estadual todos os dias de sua administração”

Reeleito para mais um mandato à frente de Hidrolândia, o novo presidente da AGM diz que é preciso haver forte mobilização em Brasília por parte dos gestores municipais para conseguir mudar o quadro desfavorável

Foto: André Costa / Jornal Opção

O novo presidente da Associação Goiana de Municípios (AGM) será Paulo Sérgio de Rezende, o Paulinho. A eleição ainda não foi realizada – será na quarta-feira, 22 – mas o prefeito de Hidrolândia é candidato único, depois da desistência de Márcio Ceciliano (PSDB), de São Miguel do Passa Quatro. A AGM está hoje sob o comando de Cleudes Bernardes, o Baré (PSDB), ex-prefeito de Bom Jardim de Goiás.

A curiosidade está no fato de Paulinho ter deixado o DEM, partido pelo qual foi eleito, para se filiar ao PSDB. O neotucano não foge do questionamento — como ele próprio diz, “não adianta ficar rodeando toco”: “Teremos eleições no ano que vem. Se eu estivesse no DEM e o senador Ronaldo Caiado se declarasse candidato a governador, automaticamente eu teria de apoiá-lo; como estou na base do governo, decidi continuar na base”, explicou, nesta entrevista ao Jornal Opção. Reeleito com cerca de 70% dos votos em seu município, Paulinho demonstra bastante gratidão ao governador Marconi Perillo (PSDB) e faz questão também de lembrar da atenção dispensada pelo secretariado do governo.

A trajetória de Paulinho anterior à política também é interessante, o hidrolandense de 42 anos era goleiro, formado nas categorias de base do Vila Nova e com passagens por Flamengo, Fluminense e Ituano (SP) antes de chegar ao São Paulo, ainda com menos de 20 anos. Lá foi o primeiro reserva imediato de Rogério Ceni, que se tornaria o maior ídolo do clube.

Euler de França Belém – O sr. foi eleito pelo DEM. Um mês depois da posse, mudou de partido. Isso é correto? Não falta fidelidade partidária aos políticos?
Eu era do DEM, ligado ao vice-governador José Eliton [hoje no PSDB] e ao senador Ronaldo Caiado. Como Caiado rompeu com o governador Marconi Perillo, eu continuei com José Eliton na base do governo. E aí, a gente vai criando afinidades, não tem jeito, com o governador tratando bem, como o vice, além do secretariado levando obras e benfeitorias para Hidrolândia e o governo sempre me convidando para estar junto com eles. Essas afinidades aumentaram com o vice-governador, com o governador e o secretariado. Então, como vamos ter eleições em 2018, não vou sair da base do governo para ficar esperando uma definição do senador Ronaldo Caiado, se ele vai ser candidato a governador ou não. Se eu estivesse no DEM e Caiado se declarasse candidato, automaticamente eu teria de apoiá-lo, mas como estou na base do governo, decidi continuar na base.

Euler de França Belém – O que se comenta é que o sr. saiu do DEM para ter apoio do governo para ser candidato à presidência da Asso­ciação Goiana dos Municípios (AGM). É verdade?
Quando o vice-governador saiu do DEM, me convidou a acompanhá-lo. Também fui convidado pelo senador Wilder Morais, a quem admiro, para o PP. Consultei minhas bases eleitorais em Hidrolândia e naquele momento não era oportuno eu sair do DEM, até porque havia vários vereadores que não poderiam sair, inclusive por questões legais. Eles me disseram para não sair, para não mudar todo o quadro partidário. Assim, eu continuei no DEM. A questão da AGM calhou com minha desfiliação do DEM. Aí houve consenso nas bases, com os vereadores, com os outros partidos aliados, para eu sair do partido. Disseram-me para definir pelo que fosse melhor para Hidrolândia. O melhor para nossa cidade é estarmos na base do governo, até porque o governo tem cumprido suas obrigações com os municípios. Foi o que aconteceu. Foi importante para chegar à AGM? Foi, mesmo porque a maioria dos prefeitos é da base, mas houve todo um contexto, não foi apenas sair do DEM e ir para o PSDB e, então, ser presidente da AGM. Houve uma história de companheirismo, de atendimento ao município em relação a obras e benfeitorias, de comprometimento dos secretários, de Jayme Rincón (presidente da Agetop), de Luiz Stival (presidente da Agehab), todos sempre atendendo nossas demandas. Fomos criando vínculos e não teria como eu virar as costas a essas pessoas que tanto ajudaram Hidrolândia.

Euler de França Belém – Houve rompimento com Ronaldo Caiado?
Não houve rompimento dessa forma. Eu expliquei todas essas questões a ele, que disse que eu tinha de seguir meu caminho da melhor forma. Ele não queria que eu saísse, porque o DEM tem poucos prefeitos em Goiás, mas não tinha outra maneira, não posso ficar esperando. Não concordo com as ideias do PMDB, não concordo em fazer oposição ao governo. Acho que o governador Marconi fez um belíssimo trabalho e tem alavancado o Estado de Goiás mesmo com as dificuldades que estamos atravessando no País. Enquanto Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro e outros Estados estão com dificuldades, estamos caminhando. Acho que temos de manter essa linha de trabalho. Tem de haver oposição, claro, mas eu não vou ser oposição a um governo que tem trabalhado tanto para Goiás. Não posso ficar em meio termo agora, porque em 2018 haverá eleição. Não posso ficar com os pés em duas canoas.

Elder Dias – Mas o sr. tem críticas à condução do DEM em Goiás?
Não, não tenho. O DEM hoje tem apenas nove prefeitos em Goiás. Tudo na vida são vínculos. A gente vai criando vínculos, criando amizades, vendo que as coisas estão corretas do lado de cá, que não é do jeito que as pessoas falaram, que as coisas estão caminhando bem, que os municípios estão sendo assistidos, que os prefeitos, independentemente de cor partidária, são recebidos no Palácio não só da boca para fora, são recebidos mesmo e suas demandas são atendidas. Então, as coisas não são do jeito que a oposição tenta passar para a população. Têm muitas coisas boas.

Marcos Nunes Carreiro – O rompimento de Caiado com o governador Marconi Perillo foi o estopim para o esvaziamento do DEM em Goiás?
Não sei dizer, porque eu não fui consultado sobre esse rompimento. Na eleição de 2014, eu fui procurado por Ronaldo Caiado e me posicionei, dizendo a ele que o apoiaria para o Senado, mas que não poderia apoiar Iris Rezende (PMDB) ao governo, por fazer parte da base do governador. Foi o governador Marconi quem deu o norte para minha administração e que colocou todo o governo à disposição da cidade de Hidrolândia. Sou muito claro nas minhas decisões, não adianta ficar rodeando toco. Até porque, quando da composição com Iris, eu não fui consultado.

Elder Dias – Então, o Democratas é pouco democrático em Goiás?
Não é que seja pouco democrático. Infelizmente, existe uma hierarquia e os partidários precisam aceitar algumas questões. Porém, não todas. Não posso ir contra meu princípio e virar as costas para quem ajudou o município que represento e que tem mais de 20 mil habitantes. Não é que Caiado não tenha me ajudado. Ele participou da administração, colocando emendas para Hidrolândia, mas ele está em Brasília. Um prefeito não pode ir a Brasília todos os dias para procurar um senador. Não há tempo. Mas um prefeito precisa do governo estadual todos os dias em sua administração. Não tem como administrar sem o governo.

Euler de França Belém – O sr. será o presidente da AGM. Com a crise, os municípios que mais sofrem são os de pequeno porte. Quais são suas propostas para melhorar esse quadro? Algumas cidades estão em situação falimentar.
Primeiro, é preciso engrandecer o trabalho do presidente Baré [Cleudes Bernardes (PSDB), prefeito de Bom Jardim de Goiás], que lutou muito pelos municípios junto aos governos federal e estadual, dando atenção a todas as demandas. Agora é preciso ficar de olho em algumas tramitações do Senado e na Câmara Federal, porque às vezes passam demandas para os municípios, mas não passam os recursos. Mas agora é tempo de os prefeitos se unirem mais e participarem mais. Haverá um encontro em Brasília agora. Vamos supor que haja 300 prefeitos de São Paulo e de Goiás, 20. Ora, eu sozinho não consigo. Assim, minha proposta é colocar a AGM à disposição de todos os municípios, tendo uma sala para que o prefeito possa despachar com uma assessoria jurídica para ajudá-lo. Precisamos ter também uma equipe de assessoria na parte de engenharia, pois tenho consciência da dificuldade nesse sentido. Às vezes, o prefeito recebe uma emenda, mas não tem o Cauc [Serviço Auxiliar de Informações para Transferências Voluntárias] regularizado. Enfim, precisamos fazer uma desburocratização.

E vamos também convocar os prefeitos, pois se eles ficarem em seus municípios calados, sem mostrarem suas dificuldades, as pessoas continuarão achando que as prefeituras têm muito dinheiro, o que não é verdade. Nossas receitas são engessadas. Temos de gastar 25% com educação, 15% na saúde e ainda temos folha de pagamento, repasse de duodécimo para a câmara de vereadores etc. Então, ao fim, não há investimento algum para ser feito, pois não sobra dinheiro.

Euler de França Belém – Os prefeitos estão sempre reclamando dos cálculos do ICMS. Não é preciso revisar isso?
Vamos escolher três prefeitos para nos representar junto ao Coindice [Conselho Deliberativo dos Índices de Participação dos Municípios] para fazermos esse estudo do ICMS. Acho que é preciso aprofundar mais nisso, pois algumas cidades têm indústrias, mas outras não. Então, é preciso fazer um estudo mais aprofundado, com pessoas capacitadas.

Euler de França Belém – Quanto entrou para Goiás em termos de recursos nessa questão da repatriação?
Ainda vão abrir uma nova janela para que as pessoas façam a repatriação. Mas o que já veio foi muito importante para que os prefeitos pudessem fechar seus mandatos. Para Hidrolândia, entrou pouco mais de R$ 1 milhão. Aí, no fim do ano, o governador também honrou seus compromissos na área da saúde e fez os repasses atrasados, o que permitiu aos prefeitos fecharem suas contas.

Entretanto, o grande problema das administrações é o que se deixa para trás. Tenho conversado com muitos prefeitos, principalmente os que estão no primeiro mandato, e eles falam sobre as dívidas deixadas pelos antecessores. Quando entrei, peguei muitas dívidas e, nessas visitas a várias cidades, tenho constatado isso frequentemente e vejo que meus colegas não estão exagerando. Semana passada um prefeito me ligou para perguntar o que faria em relação à Celg, pois a prefeitura dele estava devendo R$ 900 mil e esse é apenas um déficit entre vários que recebeu. O que ele tem de fazer? Ir à Celg, renegociar – e a Celg não aceita menos de 20% de entrada –, depois à Saneago, fazer a mesma coisa. Isso fora as dívidas de INSS, algo que a maioria dos prefeitos que saíram deixou sem recolher. Alguns também não pagam o fundo de previdência e a folha salarial.

O prefeito precisa ter responsabilidade para deixar a casa em ordem. É inadmissível um gestor ficar quatro anos e entregar a prefeitura com dívidas. Existem dificuldades? Sim, então que corte as terceirizações, a folha salarial, os contratos da prefeitura e os comissionados. Quando um prefeito passa a gestão para outro, ele deve dizer: “Não tem um real na con­ta, mas também não há nenhuma dívida”. E não temos encontrado isso.

Elder Dias – O sr. não encontrou nenhum caso oposto, em que o novo prefeito pegou uma gestão com as contas em dia?
Sim. Gustavo Mendanha (PMDB), em Aparecida de Goiânia, disse que lá as contas estão em dia.

Elder Dias – No caso, ele sucede a Maguito Vilela, ou seja, havia antes um prefeito do mesmo partido. Existem relatos de aliado que sucede aliado e que, apesar disso, afirma ter recebido essa espécie de “herança maldita”?
Sim. Às vezes, fica em “off”, mas há casos de prefeitos em gestões com problemas e que receberam a gestão de pessoas que os apoiaram, mas é claro que não vão falar, pois são companheiros políticos.

Elder Dias – E o contrário? Há casos de adversários que assumem a prefeitura e dizem ter recebido uma gestão “redonda”?
Aí é mais complicado (risos). Lá em Hidrolândia, quando recebi a prefeitura em 2013, fiz um banner gigante e coloquei à frente da prefeitura, mostrando todas as contas e dívidas deixadas no dia 1º de janeiro pela gestão anterior. Expus isso durante três meses e fui para a Câmara e convoquei a sociedade, em todas as áreas, para relatar isso, pois não se sabe qual será a trajetória nos quatro anos. O prefeito que saiu sempre fala que deixou a prefeitura organizada, mas acho que o prefeito, quando sai, precisa prestar contas à sociedade. Cabe ao sucessor contestar ou ficar calado.

Prestação de contas é um dever e uma forma de ganhar o respeito da so­ciedade. As pessoas têm de confiar em quem eles votaram para cuidar de seu município. E nós políticos devemos esclarecer as coisas e mostrar que na política existem muitas pessoas boas. Atualmente, temos um quadro de generalização sobre a má conduta da classe política e não é assim. Há muita gente que quer fazer o bem para o próximo. E como um político ganha credibilidade? Trabalhando.

Augusto Diniz – O ideal seria encontrar a casa em ordem, mas o prefeito assume, encontra dívidas e precisa fazer cortes. Porém, esses cortes não podem prejudicar os serviços públicos. O que fazer?
É pedir paciência para os companheiros políticos, analisar cada uma das áreas do município. Logicamente, nós não podemos deixar fazer cortes na saúde e na educação, mas nós podemos fazer cortes em pessoal. Podemos trabalhar, como em algumas prefeituras, só meio período. Têm prefeituras que só contrataram três ou quatro secretários até agora. Em Hidrolândia, por exemplo, eu não tenho mais nem um terceirizado para sobrar recursos até para cumprir a folha de pagamento de funcionários.

No ano passado, eu paguei os servidores no dia 22 de dezembro. Em janeiro eu paguei dia 25 do mesmo mês, até porque ficou longo o período – o funcionário fala que, como o salário foi pago antes do Natal e do ano-novo, ele ficaria sem receber até 31 de janeiro. Por isso resolvemos antecipar o salário de janeiro.

O que acontece é que às vezes o processo não é por não saber administrar. É enfrentar a vontade de companheiros que querem lugar na prefeitura, participar da administração. É preciso ter pulso firme e pedir paciência às pessoas para poder ajustar a casa aos poucos. Eu tenho conversado com muitos prefeitos que relatam ter sua sala cheia de gente procurando emprego. No interior, temos o contato direto com a população, não é como o prefeito da capital, que não é fácil de ser encontrado.

Na cidade pequena, o contato é direto. E eu ouço pedidos assim, porque a pessoa votou em mim e pede cargo para o filho desempregado. Chego ao campo de futebol para jogar – e eu gosto de jogar também basquete e truco e eu estou no meio da comunidade, vou à igreja, à quermesse – e o acesso é fácil. Às vezes a pessoa quer resolver alguma coisa e toca campainha de nossa casa. É preciso ir driblando essas coisas até acertar as contas, fazendo economia em todas as áreas, tem de passar em uma sala, ver a luz acesa e desligar, falar com o funcionário para só utilizar o ar condicionado quando estiver na sala, mostrar que está gastando muita água. São várias as formas.

“O governador Marconi fez um belíssimo trabalho e tem alavancado o Estado, mesmo com a crise. Por isso saí do DEM. Não concordo em fazer oposição ao governo” | Foto: Divulgação

Euler de França Belém – Muitos governadores dizem que um novo pacto federativo precisa ser feito. É no governo federal que está concentrada a maioria dos recursos. E é diferente de outros países continentais, onde há um pacto federativo. Aqui o pacto é enganoso. Sobra dinheiro no governo federal e falta para estados e municípios. Sem um novo pacto é preciso o prefeito fazer remendos na economia. O sr. defende que tipo de novo pacto?
Na verdade, eu acho que tinham de nos deixar a nós, prefeitos, com as riquezas dos municípios, e mesmo assim teria muito município que não daria conta só como que vai gerar no município. Ou então repartir por igual. Hoje é 64% para o governo federal, 24% para o Estado e 12% para os municípios. Vem a demanda do transporte escolar e eu gasto R$ 180 mil. Eu recebo R$ 45 mil do governo federal e R$ 45 mil do governo estadual. O município tem de entrar com R$ 90 mil de contrapartida.

Eu tenho nove unidades do Programa Saúde da Família (PSF) e recebo do governo federal e do governo estadual R$ 18 mil a R$ 19 mil, respectivamente, e gasto R$ 50 mil a R$ 60 mil por cada posto de saúde. E só recebo 12%. Então, por que não igualar e distribuir 33% para cada parte? Assim não seria necessário mandar nada para o município. Com isso o município poderia ter Polícia Militar, poderia ter tudo. Hoje nós não temos condições de ter nada.
Tudo que se recebe do governo federal é preciso dar contrapartida. Recebi uma emenda de R$ 1 milhão e comprei três caminhões zero quilômetro e uma pá carregadeira. O município tem que entrar com R$ 35 mil de contrapartida. Muitos municípios não têm essa contrapartida. Não é porque o gestor é incompetente, é porque não sobra recursos.

O governo do PT queria que todo mundo ficasse mendigo de gravata com o pires na mão. Se o senador ou o deputado federal coloca uma emenda para o município é um trabalho para conseguir efetivá-la. Consegui uma emenda no segundo ano do meu mandato e com meu Cauc todo regularizado, mesmo assim tive de ir a Brasília mais de 20 vezes, tive de colocar o deputado Alexandre Baldy (PTN) para ir ao Ministério da Integração para o ministro liberar depois de três anos. Se eu tivesse perdido a eleição, quem estaria entregando a obra seria quem tivesse sido eleito em meu lugar.

Tenho vários convênios que eu assinei no primeiro e segundo ano do meu mandato que não saíram até hoje. Por que o governo federal não repassa esse dinheiro para as prefeituras e depois cobra a fatura? Era melhor que entregasse o recurso, possibilitasse fazer o uso do dinheiro e depois fiscalizasse se o dinheiro foi aplicado naquilo que era para ser feito e se a obra, por exemplo, foi entregue.

Mas o que ocorre é que eles mandam parte do recurso agora, a construtora começa a obra e depois para, porque o governo federal parou de enviar dinheiro. Com isso, o sujeito que está fazendo a obra quer aditivo, porque sobe o valor do cimento, da areia, da mão de obra. Os prefeitos têm dificuldades em todas as áreas. É preciso fazer um levantamento e decidir dividir os recursos, que fosse 20% para os municípios, 30% para os Estados e o governo federal ficasse com 50%. A gente não sabe quanto vai receber. Um mês vem do Fundo de Participação dos Municípios (FPM) R$ 1 milhão, no outro, quando acha que vai receber a mais, vem R$ 700 mil. Como um prefeito faz sua programação?

Augusto Diniz – Por outro lado, existem recursos dos ministérios destinados a projetos apresentados por Estados e prefeituras. Como está a situação dos municípios com relação à realização desses projetos? Eles têm capacidade para elaborar essas propostas e apresentar nos ministérios?
Tem município que não tem condição de contratar engenheiro. Não sobra recurso. É muito pouco. O prefeito tem de se virar. Muita gente critica o motivo de ele não largar o cargo, então. Mas não tem como largar. Se você assumiu um cargo público, tem de ir até o fim. Você tem que trabalhar, mas com dinheiro é muito fácil. Ser prefeito em uma cidade que tem recurso é muito fácil. Quando se é prefeito em uma cidade que não tem recurso é que se vê o trabalho de ir a Brasília, de fazer os projetos. Eu não posso falar que eu vou fazer, porque eu não sei a situação da AGM, os recursos que nós temos lá dentro. Nós vamos fazer uma transição ainda, eu vou conversar com o prefeito Baré, até para eu poder oferecer esse serviço para os prefeitos das cidades menores que não têm condições e fazer um acompanhamento na Caixa Econômica Federal.

Às vezes você manda um projeto para a Caixa, ele volta cinco a seis vezes para a prefeitura fazer a regularização. A Caixa alega que está faltando algo, o engenheiro arruma. É demorado.

“Prefeito não pode ficar só esperando emendas”

Fotos: André Costa / Jornal Opção

Augusto Diniz – E nessa ida e volta de projetos como fica a situação do recurso que já foi destinado à prefeitura?
Corre um grande risco, porque o governo federal não está preocupado. Ele está fazendo a parte dele. Ele dá a emenda de R$ 1 milhão. Aí quando o prefeito vai à Caixa para cadastrar a emenda, se não estiver regularizado, com seu Cauc em dia, a emenda volta. O governo dá, mas ele não está preocupado com a situação do município. Ele está fazendo a parte dele e mostrando que o deputado deu a emenda ao município.

Em muitos municípios a emenda vai e volta. Perde uma, duas, três, quatro emendas, porque não consegue regularizar. Às vezes, o projeto está em tramitação na Caixa, mas o Cauc dele na prefeitura não está em dia ou ele está inadimplente com Celg, Saneago ou INSS e perde a emenda. A gente não pode ficar dependente de emenda de senador ou deputado.

Elder Dias – Mas por que isso não entrou na pauta? Em vez de se abrir para os municípios, o pacto federativo está se fechando mais na União. Dentro das reformas agora colocadas pelo governo federal, não há nada que passe perto de mudar essa estrutura. Não há uma acomodação dos prefeitos na cobrança, principalmente no momento em que o Brasil está?
Nós vamos ter uma marcha em Brasília no mês que vem. Se nós não nos unirmos, se nós não formos em massa, não fizermos um planejamento, liderado pelo nosso chefe maior, o Paulo Ziulkoski [presidente da Confederação Nacional de Mu­nicípios (CNM)], e passarmos esse sentimento para nossas associações, de nada adiantará. Não adianta só a AGM, só uma voz não será ouvida. Tem que juntar todo mundo. Se a AGM vai para um lado e a FGM vai para o outro, não tem como. Tem de haver uma coalisão das associações.

Qual é a nossa pauta nessa marcha? Nós vamos tratar do pacto federativo? Vamos. Nós queremos ser ouvidos? Queremos. Como que nós vamos ser ouvidos? Demo­craticamente ou nós vamos ter de sentar no chão e travar a cidade de Brasília para sermos ouvidos? Nós temos que criar alguma coisa, algum fato, para que as pessoas nos respeitem como prefeitos.
Daqui a pouco tem eleição, e os senadores e deputados federais vão a nossos municípios dizendo que vão dar emenda de R$ 1 milhão, R$ 500 mil. Nós vamos ficar só esperando emenda? Acho que nós não podemos mais ficar dependentes disso. Nós temos de sentar com as associações e definir o que será nossa marcha para saber qual será nosso plano de ação. Senão vão passar dois, três anos, eu já saio da AGM, vem outro presidente e a situação continua a mesma.

Elder Dias – O que se observa é que, ao invés de a base ter o poder sobre o deputado, parece que a base é refém do deputado e das emendas dele. A situação se inverte. Não é o deputado que precisa dos prefeitos, o prefeito é que fica escravo. Os prefeitos que formam a base de determinado deputado não se unem para cobrar uma posição desse parlamentar no caso de apoiar uma reforma do pacto federativo.
O que aconteceu foi que o governo federal fez assim até conseguir ter tudo na mão, pegou o dinheiro todo para ele, repassa o que nós temos direito, que são os 12%, e o restante vem por emendas. É o que o governo queria, ter os prefeitos na mão. O prefeito às vezes não tem voz ativa para reclamar. E ele ainda não entendeu o poder que tem: nós somos mais de 5 mil municípios. Nós temos de levantar uma só voz e dizer que nós vamos parar enquanto não formos ouvidos e sairmos das dificuldades em que nós estamos. Nós precisamos dar um grito de liberdade e mostrar o problema como ele é para a população.

Marcos Nunes Carreiro – A falta de diálogo entre os prefeitos é uma questão partidária ou é falta de vontade mesmo?
Não é questão partidária. É que na maioria das vezes o prefeito tem tanto problema no seu município que se ele sair três dias degringola tudo. O telefone dele não para de tocar, o WhatsApp não para de enviar mensagem. Os prefeitos têm que se unir. É uma das coisas que eu vou bater na tecla é que eu vou trabalhar muito pela AGM, mas preciso ter a sustentação dos prefeitos para quando nós formos fazer um evento, uma assembleia, ir para as ruas para mostrar para a sociedade e para o governo federal e o governo do Estado os problemas que nós estamos vivendo, eles têm de ir junto.

Elder Dias – O Codemetro [Conselho de Desenvolvimento da Região Metropolitana] reúne os 20 municípios que compõem a região metropolitana de Goiânia, mas traz uma polêmica em relação à autonomia dos municípios, já que o Estatuto da Metrópole coloca parte das diretrizes de políticas públicas na alçada de uma governança interfederativa, coordenada pelo Estado, via Secre­taria de Cidades – no caso de Goiás, a Secima. Por exemplo, a distribuição das vagas nas creches de acordo com a proximidade da residência – não importando se o aluno mora no município A e a escola é no município B – ou a questão da água. Há dú­vi­das e receios de prefeitos e vereadores com relação a isso. Os municípios da região metropolitana de Goiânia têm de agir conjuntamente para minorar as perdas e maximizar os ganhos?
Se for para o bem-estar da comunidade, tem de ser feito, mas essas reuniões – acho que houve uma ou duas e quem participou foi meu secretário de Indústria, Comércio e Urbanismo – tem de mostrar algo muito bem elaborado.

Elder Dias – Sobre a questão do lixo, por exemplo, o manejo ficaria mais fácil se houvesse um consórcio de municípios…
Há muitos municípios hoje que já procuram o consórcio. Porque sozinhos, o município não consegue fazer um investimento tão grande para abrir um aterro sanitário e conseguir sua aprovação. Em Hidro­lândia, nós conseguimos o aterro. Vamos agora para a segunda etapa, que deve começar no mês que vem. Tenho participado de algumas reuniões em relação ao consórcio e é uma coisa realmente interessante, porque há um trabalho com todos os municípios. Mas a burocracia é muito grande. Alguns prefeitos que foram reeleitos agora estão tentando desde o primeiro mandato resolver determinados problemas, mas só agora conseguiram. No entanto, alguns prefeitos que entraram agora não entendem muito bem o processo e ficam se perguntando se os consórcios vão mesmo funcionar, se vai dar certo. É uma saída para os municípios, sobretudo os pequenos, que têm poucos recursos. Na verdade, todos os municípios têm de buscar saídas. Se não tiver parcerias com o governo estadual e o federal não há como levar as melhorias que a população pede.

Prefeito de Hidrolândia, Paulo Sérgio de Rezende: “Se Marconi fosse de São Paulo, seria candidato a presidente” | Foto: André Costa / Jornal Opção

Augusto Diniz – O sr. disse que sua saída do DEM para o PSDB foi para manter essa proximidade com a base aliada ao governo estadual. Como presidente da AGM, essa aproximação provoca alguma relação de atrito, na discussão principalmente com os prefeitos de oposição?
Não, de maneira alguma, até porque temos conversado muito com os prefeitos. E a associação é de todos, não apenas do PSDB, ou do PMDB, ou do PT. Ela é a união de valores de todos os partidos e deve acabar esse estigma de que a FGM [Federação Goiana de Municípios] é oposição ao governo, ou de que a AGM é a favor do governo. Tanto a FGM quanto a AGM são a favor dos prefeitos e, sendo assim, estaremos sempre atuando em favor dos municípios.

Augusto Diniz – As duas entidades já conseguem trabalhar juntas?
Eu já tenho conversado bastante com o Haroldo Naves [presidente da FGM e prefeito de Campos Verdes, no Norte goiano, eleito pelo PMDB] sobre isso. Nós trabalhamos juntos, já promovemos palestras juntos, até para termos mais força. Tanto ele como eu convocamos os prefeitos com os quais temos mais proximidade para que haja mais coesão. Se estivermos juntos seremos mais fortes do que se estivermos sozinhos. Nós, prefeitos, sempre temos de puxar a corda para o mesmo lado. Essa questão de oposição ou não ao governo tem de ficar para 2018. Agora, temos de pensar nas dificuldades que os municípios estão vivendo.

Marcos Nunes Carreiro – Qual é a diferença técnica da FGM para a AGM? Goiás precisa de duas associações de prefeitos?
Eu não vejo diferença nenhuma. Na verdade, a FGM é uma dissidência daquelas pessoas que não concordavam com a AGM, por esta ser tida então com a associação da base do governo. Foi formada quando, ao que me parece, o prefeito era do PMDB. E alguns falam que a FGM é do governo federal e oposição ao governador, mas não tem nada disso. Sou amigo do governador, sou companheiro dele, mas nas questões referentes à defesa do município não vai prevalecer a amizade. Aí temos de pôr as cartas na mesa e explicar ao governador quais são as dificuldades pelas quais o município está passando e pedir a ele interferência em determinadas questões. Não existe nada a ferro e fogo. O diálogo é a melhor forma para se resolver os problemas.

Euler de França Belém – O sr. apoia o senador Wilder Morais para reeleição ao Senado?
Com toda certeza. O senador Wilder é uma pessoa maravilhosa e que ajudou muito nosso município com emendas, como R$ 500 mil para as calçadas, a reurbanização do lago, a Casa do Idoso – uma obra fantástica – e outras. Mas, independentemente das emendas, conheço seu caráter e seu trabalho em conjunto com o governo do Estado e com o governo federal. Wilder está sempre pronto a atender e, caso não possa, ele mesmo retorna o contato. Precisamos de pessoas assim na política, que queiram fazer o bem para a comunidade, que queiram trabalhar pelos municípios e ele tem demonstrado isso.

Euler de França Belém – E o vice-governador José Eliton?
Também tem meu total apoio. José Eliton está desde o início junto com o governador Marconi. Esteve à frente da Celg, onde trabalhou muito bem; depois na Secretaria de Desenvolvimento Econômico, da mesma forma; agora, na Secretaria de Segurança Pública, assumiu com muita coragem, mesmo diante do quadro difícil da área não só em Goiás, mas em todo o País. Por tudo isso, mostra que está muito bem preparado para ser o sucessor de Marconi no governo.

Augusto Diniz – E quem deveria ser o outro candidato da base aliada?
O candidato natural é Marconi Perillo, embora eu acredite que ele possa ser candidato a presidente ou a vice-presidente. Pelo que alcançou em nível nacional, Marconi tem toda a condição para ser nosso representante – basta dizer que foi governador por quatro vezes, o que só realça sua capacidade. Nosso problema é a densidade eleitoral, que realmente é baixa. Se Marconi fosse de São Paulo, com certeza seria candidato à Presidência. Torço para que haja o entendimento em relação às vagas ao Senado e para que Wilder possa provar que pode ser reconduzido, pelo voto popular.

Prefeito foi reserva do goleiro Rogério Ceni, o maior ídolo do são paulo futebol clube

“Rogério Ceni era um grande goleiro, um grande profissional. fui a primeira vítima dos gols de falta dele nos treinos” | Foto: Divulgação

Euler de França Belém – Antes de entrar para a política, o sr. foi jogador profissional e chegou a ser goleiro no São Paulo. Ganhou dinheiro com futebol?
Não posso reclamar. Graças a Deus fiquei com a vida estabilizada, porque sempre fui muito consciente de que a carreira de jogador acaba muito rápido. Não fiquei como jogadores milionários que temos hoje, mas tenho a vida bem tranquila e independente.

Euler de França Belém – Alguns jogadores famosos não souberam lidar com a fama e o dinheiro, como o ex-atacante Muller…
Muller ficou pobre depois de ser rico. Ele foi meu contemporâneo na época de São Paulo e ganhou muito dinheiro. Creio que o problema dele foram os casamentos. Imagine que, se você tem R$ 1 milhão e se divorcia. Então, você passa a ter R$ 500 mil. Se se separa de novo, passa a ter R$ 250 mil. Fora as pensões a pagar. Se o sujeito já tem mais de 30 anos e vai para um clube que paga R$ 20 mil em vez dos R$ 150 mil que costumava ganhar. Tudo o que era luxo, como os carros importados, passa a ser despesas impagáveis de que tenho de me desfazer. Se não tiver cabeça, tudo vai embora, porque são muitas as facilidades – mulher, noitadas, juventude.

Trabalhei dois anos com Telê Santana [treinador do São Paulo no começo da década de 1990]. Ele era muito firme com os jogadores. Falava coisas assim: “Olha aqui, rapaz, você pega seu dinheiro e compra uma área na sua cidade, um apartamento, uma casa. Sua mãe tem casa para morar? Então compra!”. Quando o jovem subia para o profissional e comprava um carro, ele fazia o jogador voltar para os juniores. Ou devolvia o carro ou voltava. E então ele falava para os mais experientes, que eram Muller, Palhinha, Cafu: “Vocês não me escutam, vocês se acham bonitões, estão cheios de dinheiro, todos os dias chegam com um carro importado diferente, mas cuidado, hein…”. Telê nos alertava sempre, mas dizem que conselho, se fosse bom, não era de graça. O que posso dizer é que ele foi muito importante na minha formação.

Euler de França Belém – Nem todos ouvem…
É desse jeito mesmo. Eu me lembro de que, quando lançaram aquele celular StarTAC [um modelo de sucesso da Motorola, lançado em janeiro de 1996], que se abria pelo meio, Muller comprou dois. Eu estava sentado à mesa com ele e o Válber [ex-meia, com passagem também pelo Goiás], quando um sujeito vendeu para ele. Eu ganhava R$ 1,5 mil e ele pagou R$ 5,6 mil por um modelo cinza e um preto. Fazia o mesmo com um carro novo, comprava rápido e vendia perdendo muito com isso. O dinheiro entrava fácil e saía mais fácil ainda. É assim no mundo do futebol de ponta, com bichos [premiações] altos, além dos salários. E Muller jogou na Itália e na seleção brasileira. Se eu tivesse ganhado o que ele ganhou eu era milionário.

Euler de França Belém – E sobre Silas, companheiro de Muller no São Paulo e hoje treinador?
Eu o encontrei no fim do ano, em uma reunião no São Paulo. Creio que ele esteja bem de situação financeira, já que não era de farra, pelo contrário, é de religião evangélica.

Euler de França Belém – Rogério Ceni realmente era um grande goleiro?
Além de grande goleiro, era um grande profissional, se dedicava ao máximo. Em 1996, quando resolveu cobrar faltas, ele nem era titular. Participei daquela história – os goleiros éramos Zetti, Rogério e eu – e ele treinava de 100 a 150 cobranças de faltas todos os dias. O primeiro gol de falta de Rogério Ceni foi em 1997, contra o União São João, de Araras (SP), quando ele assumiu a titularidade. Assim que fez o gol, ele veio me abraçar, porque treinávamos aquilo exaustivamente. Tenho essa foto em meu celular.

Euler de França Belém – Então o sr. foi a primeira vítima dele, nas cobranças de falta?
Fui (risos). Tomei muitos gols de falta dele, que realmente tinha uma facilidade muito grande para bater na bola. Rogério era tecnicamente um bom goleiro e essas cobranças de faltas abrilhantaram seu trabalho.

Euler de França Belém – E como técnico, acha que ele vai brilhar também?
O problema nosso é que o torcedor brasileiro não tem muita paciência. E, para reunir 30 homens num time de futebol e fazer dar certo, tem de ter calma e paciência.

Elder Dias – Começar pelo São Paulo, o time do qual ele é um dos maiores ídolos, senão o maior, ajuda ou atrapalha?
Acho que ajuda, até pela identificação que ele tem com o clube. Mas a torcida tem de ter paciência, senão Rogério não vai ter como desenvolver um trabalho. Ele está formando a equipe agora. Capacidade técnica ele tem, porque jogou mais de 20 anos e ali, daquela posição em que vê o jogo, o goleiro tem uma visão ampla do que está acontecendo dentro do campo. Dali se vê tudo, como o posicionamento dos jogadores, e o goleiro tem de falar muito durante o jogo, orientar os companheiros. E, pela inteligência dele, acho que Rogério vai se dar bem como técnico.

telê santana era firme com os jogadores, dava bons conselhos, nos alertava para não esbanjar dinheiro. mas muitos não ouviam” | Foto: Divulgação

Euler de França Belém – Goleiro geralmente é muito ansioso por estar nessa posição?
O goleiro se sente muitas vezes impotente, porque o que define o jogo é o gol e ele fica ali só esperando, como torcedor, pelos companheiros. Acho que, por isso, Rogério resolveu bater faltas, para participar. Como ele tinha muita facilidade para bater na bola, resolveu participar mais do jogo cobrando faltas e pênaltis.

Euler de França Belém – O que o goleiro sente na hora do pênalti?
A hora do pênalti é a melhor para o goleiro, porque ele pode decidir. Se tomar o gol, é mérito do atacante, é o único momento do jogo em que o goleiro não é culpado, mesmo se a bola passe por debaixo do corpo dele.

Euler de França Belém – Qual é o segredo de Murici Ramalho [ex-técnico do São Paulo] e de Tite [atual treinador da seleção brasileira), nomes de sucesso no futebol?
Com Tite eu não trabalhei. Com Murici, trabalhei por três anos. É muito disciplinador, muito amigo dos jogadores, dialoga muito, traz o grupo na mão, estuda muito o futebol, analisa muito os times adversários. E, diferentemente de outros treinadores, que quando perdem jogam isso nas costas do time – quem perde é o time e não eles, põem a culpa no goleiro ou no zagueiro ou no centroavante que não fez o gol – Murici assume as derrotas para ele. Isso vai trazendo a equipe para si. Murici se sobressaiu por isso.

De Tite, ouço dizer que é muito paizão, está sempre junto dos jogadores, tentando trazê-los para perto de si. Comandar um time não é fácil, são pessoas diferentes, muitos conflitos de ideias. Esse fator humano é importante. Um treinador “gente boa” faz o jogador querer correr por ele, o atleta se sente motivado pelo treinador, e acaba correndo mais, treinando mais.

Euler de França Belém – Qual o grande jogador do campeonato goiano neste ano?
Tenho acompanhado muito pouco. Até uns dois anos atrás, eu fazia muito programas esportivos, mas a correria política e a campanha para prefeito não me deixaram muito tempo para assistir futebol. Estou acompanhando mais o noticiário sobre política e economia. Até fui convidado esses dias por um programa de TV, mas recusei por não estar a par do futebol. Mas tenho ouvido falar muito bem do goleiro do Goiás [Marcelo Rangel, que jogou em 2016 pelo Londrina].

Euler de França Belém – Mas o sr. entende de gol e de atacante. Léo Gamalho, centroavante do Goiás, é bom?
Os cronistas esportivos têm dito que é um bom atacante e está ajudando muito o Goiás. Na verdade, o Goiás vai fazer agora (no Campeonato Goiano) um vestibular para o Brasileiro, assim como o Vila Nova. Aliás, sobre o Vila, o maior problema é que não tem um time base. Quando termina o Brasileiro desmancham a equipe e no ano seguinte começam tudo de novo, com novos atletas. No São Paulo, por exemplo, dificilmente saía um jogador de um ano para outro, havia uma ou outra contratação no intervalo das competições. Isso facilitava para o treinador. Havia sempre um time-base formado. Nas equipes goianas não temos visto isso e então, quando chega o Campeonato Brasileiro, elas têm dificuldades.

Euler de França Belém – Falando dos astros em nível internacional, Neymar é mesmo tudo o que dizem dele?
É realmente muito bom de bola. Entre os brasileiros, é o melhor. Não vi Gabriel Jesus jogar muitas vezes, por isso posso falar mesmo é de Neymar, que decide um jogo, vai lá e dribla meio time para fazer o gol. É muito habilidoso, tem algo a mais.

Trecho exclusivo da versão online

Marcos Nunes Carreiro – O sr. falou que o governo estadual tem feito muito pelos municípios. Que ações exatamente tem sido feitas, sobretudo em se tratando de Hidrolândia?
Em Hidrolândia, por meio do deputado federal Alexandre Baldy (PTN) quando ainda era secretário de Indústria e Comércio, o governo estadual destinou R$ 4 milhões para comprarmos uma área para fazer um polo industrial, mais R$ 3 milhões para fazer asfalto nas empresas; destinou R$ 1,3 milhão para mais asfalto, em três bairros; e destinou R$ 1,2 milhão para recapeamento na cidade, que parecia um queijo suíço. Além disso, o governo estadual ainda recapeou a rodovia GO-219, que passa como avenida principal do distrito de Nova Fátima.

Um ginásio estava parado há nove anos e o governo estadual me ajudou a reconstruí-lo por inteiro. Com oito meses de minha gestão, o ginásio já estava sendo usado pela população. E, também, por meio da Agehab [Agência Goiana de Habitação], levamos 200 cheques-reforma para a comunidade de Hidrolândia e fizemos duas praças.

Agora estamos construindo um hospital municipal em parceria com o governo. E foi levada mais uma quadra para o distrito de Nova Fátima. Foram vários benefícios realizados, e não apenas em Hidrolândia, em outros municípios também. Fui a várias outras cidades, inaugurando quadras de esportes, recapeamentos etc. O governo estadual tem trabalhado pensando em ajudar os municípios. Se não tivesse recebido essa ajuda, talvez eu não tivesse sido reeleito com 70% dos votos. Mas, claro, tem de correr atrás. O governador assina um ofício para você e ofício não tem perna: é preciso ir a mais de uma secretaria para o ofício caminhar, ter um deputado de qualidade para ajudar nessas questões. No meu caso, na Assembleia é o deputado Francisco Oliveira (PSDB), uma pessoa maravilhosa, que tem nos ajudado demais em Hidrolândia e na Câmara dos Deputados é Alexandre Baldy. Se não tiver alguém que ajude não tem como realizar nada. É preciso ser cuidadoso com as finanças do município, fiz muita coisa com recursos próprios.

Por outro lado, também tive recursos federais e estaduais, porque fui insistente e apresentei projetos. Por exemplo, apresentei ao governador um projeto de um hospital. Mostrei a ele quantas cirurgias eram feitas, quantos exames eram feitos, disse que pagava R$ 40 mil de aluguel de um prédio para manter um hospital, e que isso onerava demais os cofres. E o governador Marconi se dispôs a nos ajudar. Hoje temos a obra está lá, com dois pavilhões prontos, de quatro pavilhões. É uma obra magnífica, que vai mudar a história de Hidrolândia.

Euler de França Belém – Parte do dinheiro da venda da Celg será destinada às prefeituras. O sr. já está sabendo como isso será distribuído?
Não sei se esse dinheiro vai direto para a conta das prefeituras, mas o governador recebeu quase todos os prefeitos até agora e nós levamos as demandas principais a ele – asfalto, reconstrução ou construção de escolas, postos de saúde etc. Acredito que, agora, a equipe do governo vai separar essas demandas e priorizar o que é mais urgente, já que são 246 municípios. Eu mesmo fiz apenas um pedido ao governador: asfaltar a GO-219, que liga o distrito de Nova Fátima – que é a capital da jabuticaba – a Aragoiânia, dado o fluxo que já há de veículos na região, nos fins de semana e feriados, pois lá há muitos recantos.

Euler de França Belém – Hidrolândia é realmente o maior produtor de jabuticaba de Goiás?
Sim. É, salvo engano, o maior produtor do mundo.

Euler de França Belém – E produz quanto em toneladas por ano?
Em toneladas, não sei. Mas sei que há mais de 60 mil pés de jabuticaba em Nova Fátima.

Euler de França Belém – Algumas pes­soas que têm chácaras no municí­pio estão relatando muitos assaltos.
Hidrolândia fica na região metropolitana de Goiânia. Então, o delinquente comete o crime lá e depois volta para Goiânia ou Aparecida de Goiânia. Estamos em uma posição onde há várias saídas – para Pontalina, Professor Jamil, Bela Vista de Goiás, Aragoiânia. É um município muito grande e muito próximo da capital. Temos um trabalho de segurança muito efetivo, com monitoramento de toda a cidade com câmeras de vídeo. Há o banco de horas da Polícia Militar e o da Polícia Civil. Não havia, antes disso, atendimento policial à comunidade depois das 17 horas, e hoje há atendimento 24 horas. Antigamente, policiais militares de Hidrolândia tinham de ir até algum batalhão de Aparecida para fazer boletins de ocorrência e hoje isso pode ser feito na própria Hidrolândia.

Euler de França Belém – E o que o município produz, além de jabuticaba?
Estamos começando a receber plantações de soja. Mas o município é muito forte em agropecuária, como bacia leiteira. Estamos recebendo agora também um centro de distribuição da Pague Menos [rede de drogarias] e unidade das Casas Bahia. Vamos receber também um centro de distribuição da Martins [atacadista] e temos a Marajoara [indústria de laticínios]. Então, estamos começando a industrializar o município. A saída para os municípios é a industrialização, para gerar receita e emprego para a comunidade. Vamos ter também o Dream Park, que está sendo instalado e que dará uma alavancada no município.

Euler de França Belém – Mas esse pro­jeto do Dream Park é realmente sério?
Sim, é realmente sério. Eu sempre acompanho as obras e estão bem adiantadas. Eles me garantiram que até o final do ano entregam a primeira etapa. Ao que parece, eles fizeram um financiamento via FCO [Fundo Constitucional do Centro-Oeste] para dar mais celeridade ainda às obras.

Marcos Nunes Carreiro – O polo industrial de Hidrolândia já está funcionando?
Não está funcionando ainda. Estamos esperando uma liberação da justiça em relação à área, porque fizemos uma desapropriação e os proprietários entraram com uma ação judicial, para que o preço fosse revisto. A juíza contratou dois técnicos para avaliar a situação
Acredito que em um mês a área será definitivamente do município. Temos muitos pedidos de instalação, até por ser um terreno às margens da BR-153, perto de tudo. Estamos estudando as empresas interessadas e, assim que tivermos essa área realmente à disposição, vamos começar a liberar para ocupação.

Marcos Nunes Carreiro – E quantas empresas estarão nesse polo?
Acredito que vamos receber em torno de cem empresas lá.

Marcos Nunes Carreiro – E sobre o total de empregos gerados?
Será um número considerável. Se colocarmos cem empregos por empresa, seriam aí 10 mil postos de trabalho para toda a região.

Euler de França Belém – Qual é a população de Hidrolândia?
Pelo Censo do IBGE, são 19,8 mil habitantes, mas creio que estejamos com mais de 22 mil. Aliás, algo que poderia ser revisto é a forma de cálculo do IBGE, porque, se fizessem isso, com certeza aumentaria nossa receita. Mas creio que o governo federal não tenha muita vontade de mudar isso.

Euler de França Belém – Os prefeitos reclamam do rigor excessivo do TCM [Tribunal de Contas dos Municípios]. Isso procede? Tem até deputado, como Cláudio Meirelles (PR), que defende a extinção do órgão. Qual é sua posição?
Eu, particularmente, nunca tive problemas com o TCM, pelo menos não problemas sérios. Há alguns questionamentos, que acabam sendo resolvidos. Não acho que o tribunal tenha de ser extinguido, até porque vejo que é necessário que haja um órgão eficiente, com técnicos, para fiscalizar os municípios. Uma solicitação que eu faria é que fizessem a revisão de multas repassadas aos prefeitos. Pretendo fazer um estudo sobre a relação dos municípios e dos problemas que eles têm com o TCM. Mas, no geral, vejo que é uma casa importante e que tem ajudado os municípios, até para que os gestores e seus secretários fiquem mais atentos à administração.

Euler de França Belém – As empresas, para investir, gostam de saber como estão aspectos como o saneamento básico no município. Como está essa questão em Hidrolândia?
Uma das minhas frustrações em Hidrolândia é em relação ao saneamento. Mesmo sendo a “cidade da água” até no nome, não temos um metro sequer de rede de esgoto ainda. Nesses quatro anos, consegui reformar escolas e construir outras, obras na saúde, construção de hospital, recapear ruas, fazer mais de R$ 1 milhão em calçadas para as famílias carentes. Enfim, conseguimos fazer muita coisa, mas uma que não tivemos sucesso foi em fazer a rede de esgotos. Vou a Brasília nos próximos dias para procurar novamente um caminho para começar essa instalação, assim como já fui à Saneago.

Euler de França Belém – Mas, e a água tratada?
Isso, sim, temos em todo o município. Nossa cidade é muito rica em água.

Euler de França Belém – Mas não há um encaminhamento da Saneago em relação ao esgoto?
O projeto está pronto e está lá dentro da empresa. Espero que, com a negociação da Celg e o dinheiro que vai entrar, Hidrolândia seja contemplada com a rede de esgoto, que seria muito importante pra nós.

Euler de França Belém – Quase todos os municípios têm algum problema em relação a dívidas com a Previdência. Como está em Hidrolândia?
Quando assumi a gestão, peguei uma dívida de R$ 580 mil, renegociada pelo então prefeito para ser paga em meu mandato. Pagamos isso durante esses quatro anos e esse débito está quase quitado. Já sobre os pagamentos sob minha responsabilidade, de janeiro de 2013 até o fim do ano passado, não deixei 1 real de dívida. Graças a Deus, consegui pagar o fundo de previdência e tudo o que é recolhido dos servidores é repassado.

Euler de França Belém – Em Hidrolândia, todas as crianças estão na escola?
Estamos construindo um grande Cmei [centro municipal de educação infantil] na cidade. Acho que sou o prefeito que, em quatro anos, mais construiu salas de aula em Hidrolândia. Entreguei agora seis salas, todas com lousa branca, ar condicionado e cadeiras novas. Nós fizemos o 6° ano municipal, apesar de ser uma série de atribuição do Estado – já que a escola estadual não tinha vagas. Temos 180 crianças estudando nessa série, contando os períodos matutino e vespertino. Estamos agora construindo outra grande escola no Setor Vita, que vai atender também aos bairros Vale dos Sonhos e Bela Vista. É um local mais distante e isso vai ajudar a que as crianças não pegar transporte escolar para seus estudos. No mais tardar em junho vamos entregar essa escola.

Outra obra são quatro salas de aula no Setor Garavelo Sul, próximo às Casas Bahia, em um local onde a demanda aumentou muito. Vamos também começar uma nova obra de escola no distrito de Nova Fátima, que cresceu bastante e onde não há uma escola do município ainda. Acredito que até o fim de meu mandato o déficit de salas de aula vai ser todo suprido.

Euler de França Belém – O que os prefeitos acham do Credeq? É algo que consideram importante?
Claro, é uma obra importantíssima. Precisamos ter sempre mais ações do governo que nos ajudem em nossas gestões municipais. Quanto mais amparo, melhor, porque a vida de prefeito não é fácil, principalmente em cidade pequena.

Euler de França Belém – Hidrolândia tem problema com as drogas?
Sem dúvida, infelizmente temos problemas lá, como há em outros municípios. Deveria haver ações mais enérgicas com relação a isso, especialmente por parte do governo federal, que deveria agir mais fortemente nas fronteiras e com a Polícia Federal. Hoje a facilidade para usar droga é grande e nossos adolescentes têm acesso muito cômodo a isso. Precisamos de leis mais rígidas. Hoje o policial militar arrisca sua vida para prender um ladrão e este sai primeiro do que ele da delegacia. Isso desmotiva quem atua na segurança.

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