“Ter uma mulher candidata a vice simboliza respeito à democracia”

Para tucana, escolha pelo seu nome na chapa do governador José Eliton (PSDB) representa busca por igualdade de gênero na política em Goiás

Candidata a vice de José Eliton (PSDB), Raquel Teixeira (PSDB) | Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

Raquel Teixeira (PSDB) não caiu na chapa do governador José Eliton (PSDB) – candidato a reeleição – de paraquedas. Duas vezes eleita deputada federal, a ex-titular da Secretaria Estadual de Educação, Cultura e Esporte (Seduce) é a única mulher que concorre ao cargo de vice-governadora. Ela levanta a bandeira das conquistas do Executivo goiano na educação, o primeiro lugar no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) divulgado na semana passada. Com a crença de que tem muito a contribuir e confiante na virada da coligação peessedebista em Goiás, Raquel quer trazer a atenção ao ser humano nas políticas públicas ao conhecimento técnico para trabalhar pelo Estado.

Euler de França Belém – Há políticos se preocupam muito com infraestrutura e obras, mas também aqueles que se preocupam com o indivíduo. Como a sra. avalia os 20 de gestão do chamado Tempo Novo em relação ser humano e ao funcionário público?
O papel de qualquer governante, principalmente no Executivo, seja construir a infraestrutura e a cidadania. Vejo as duas coisas como muito pertinentes e importantes. Nestes 20 anos, o governo Marconi Perillo (PSDB) investiu nas duas coisas. Investiu muito na infraestrutura. Goiás hoje apresenta uma nova realidade. Houve uma modernização visível da infraestrutura nos equipamentos esportivos, culturais, viadutos e rodovias.

Também houve um avanço muito grande na cidadania na questão do ser humano. Foi com Marconi que surgiu o programa Renda Cidadã, a UEG [Universidade Estadual de Goiás]. Em 1999, havia o Salário Escola, a Bolsa Universi­tária. Isso faz parte do que chamo de construção da cidadania. Investir no ser humano para que ele tenha condições de inserção plena no mundo do trabalho e na vida. As duas coisas têm de caminhar juntas.

Augusto Diniz – De onde surgiu a ideia de construir uma campanha voltada para a prestação de serviços ao ser humano?
O século XXI é o século do conhecimento, da tecnologia, mas é exatamente o século em que o homem tem de se realizar plenamente em todos os níveis. Quando a pessoa que precisa de mais cuidado, o Estado tem um papel protetor para determinadas camadas vulneráveis. Isso é indiscutível em qualquer país do mundo. Sempre haverá pessoas com deficiência física, mental, idosos, crianças, mulheres. Todo Estado tem de ter esse papel protetor, amparador, do ser humano.

Aqueles que não são de grupos vulneráveis precisam ter educação, conhecimento, escolaridade suficiente para construir e ser protagonista de sua vida e do seu futuro. O olhar para o ser humano é esse cuidado em todos os sentidos, mas principalmente de abrir oportunidades para que as pessoas se realizem. Esse é o ser humano do nosso projeto do Novo Tempo Novo. Cuidar das pessoas dando-lhes oportunidade de crescimento e apostando na plenitude da vida cidadã de cada um.

Marcelo Mariano – Na semana passada saiu o resultado do Ideb [Índice de Desenvolvimento da Educação Básica] e Goiás ocupa posição de destaque. Qual balanço a sra. faz da educação nesses 20 anos?
Um balanço extremamente positivo. Educação é um processo complexo. As pessoas acham que educação é simples. Brasileiro às vezes tem mania de achar que entende de educação igual entende de futebol. Mas é uma questão técnica. Para obter o resultado que obtivemos na segunda-feira, 3, entraram em jogo vários fatores. Em primeiro lugar o comprometimento do aluno. O resultado do Ideb mostra que o aluno aprendeu. Aprender é um ato cognitivo solitário. Por mais que a mãe queira, ela não aprende pelo filho. Por mais que o professora queira, ele não aprende física pelo aluno. Aprender é uma decisão do aluno.

E nós talvez tenhamos tido certo sucesso em inspirar, motiva e envolver os alunos na busca da aprendizagem. Houve um compromisso sério dos estudantes. É claro que para o aluno aprender, embora seja um ato solitário, a educação é um ato social. O papel do professor é mediar o processo de aprendizagem. Se o professor não aprende pelo aluno, o papel dele é criar as condições de estímulo e de inspiração para que o aluno queira aprender. É este o papel da própria Secretaria [Estadual de Educação Cultura e Esporte (Seduce)] ao fornecer para o professor apoio de capacitação na área de conteúdo – temos hoje um material que o Brasil não tem, que é o Aprender Mais.

Temos um caderno de atividades pedagógicas além do livro didático que é igual para aluno e professor. A diferença é que o do aluno vem em branco para que possa escrever as respostas e estudar. Com isso, diminuímos o tempo perdido em sala de aula para o professor que precisava transcrever conteúdo no quadro negro e o aluno copiar. São de 5 a 20 minutos de aula que deixam de ser de cópia e passam ao efetivo processo de ensino e aprendizagem.

Para que os professores estejam em sala de aula todo dia atuando, se capacitando e utilizando o material pedagógico da Secretaria, é preciso ter diretores com liderança que acompanhem o processo. É preciso ter coordenadores, secretários e servidores administrativos que saibam trabalhar com o processo da gestão da aprendizagem. Temos um circuito de gestão que os professores precisaram aprender.

Goiás deu um show. Tanto que é destaque em todos os jornais nacionais porque combinamos a liderança do diretor, efetivo conhecimento dos professores, comprometimento do aluno com a aprendizagem – em muitos casos comprometimento da família no estímulo aos alunos. Não há processo de aprendizagem se não tivermos todos esses fatores em andamento. Por isso é tão complexo. É muito fácil ter uma escola de sucesso se ela for pequena ou apenas uma. A escola privada é boa porque há uma seleção socioeconômica dos alunos. Há um material direcionado. O aluno que não se enquadra é convidado a se transferir. O professor que não se enquadra é convidado a se transferir.

Na escola pública não. Não podemos transferir os alunos. A escola pública é acolhedora de todas as crianças e jovens, independente de onde nasceram, se o pai está preso, se a mãe é dependente química. A escola pública é o único espaço compensatório que a criança tem pelas próprias falhas, carências e rupturas familiares. Esse é o desafio da escola pública. E esse é o nosso grande mérito. Na segunda-feira, ao receber as notas – não tivemos apenas as melhores notas que caracterizam excelência – fomos premiados com um resultado de equidade, de combate às desigualdades. O Ideb é o conjunto da nota proficiência com os índices de evasão, repetência e com o fluxo, ou seja, quantos alunos de fato incluímos. E tentamos incluir todos.

Pelos dados do estudo feito pelo dr. Ricardo Paes de Barros através do Insper, Goiás é o Estado que mais combateu e diminuiu a desigualdade no Brasil. Buscamos o combate a desigualdade em cada escola, em cada regional e em cada canto deste Estado porque o País é muito desigual. Há desigualdades regionais. Temos escolas de regiões mais pobres, como as escolas Kalunga, por exemplo. Precisamos ter várias medidas compensatórias para o resultado ser bom. Tivemos de comprar carros Marruá que pudessem levar a merenda para os alunos, porque a merenda não chegava.

Augusto Diniz – Cavalcante tem uma dificuldade no acesso.
Hoje eles têm Marruás que compramos e que permitem o traslado de provisores de merenda. Fizemos, especificamente para os Kalunga, nos tablets, programas em que os professores deixam a programação para que sejam feitos trabalhos nos tablets sem precisar de wifi para uma nova bateria de aprendizagem. Tivemos de utilizar mecanismos muito específicos para chegar a todos. Isso foi muito gratificante de ver na segunda-feira, porque todos cresceram.

Marcelo Mariano – Há um candidato a presidente que propõe criar um vale educação para que alunos de baixa renda tenham acesso ao ensino privado. Como a sra. avalia essa proposta?
Não é a minha maneira de ver. A escola pública é o maior instrumento de democratização do País. Não deveria ter escola privada. A Finlândia, onde só existe escola pública, temos grande exemplo de educação de qualidade. O filho do primeiro-ministro ou o filho de qualquer pessoa estudam na mesma escola. Onde há só escola pública, as escolas são de excepcional qualidade. A existência de um sistema público e um privado é uma marca muito grande da nossa desigualdade social. A desigualdade social, econômica, cultural no Brasil tem como desigualdade mãe a educacional.

Uma criança rica de 2 anos vai para uma creche ou berçário, brinca de massinha, desenvolve a atividade motora, vê um triângulo verde, um quadrado amarelo, desenvolve noções espaciais de forma e cor. Isso as pessoas não percebem. Mas isso faz parte do processo do desenvolvimento cognitivo. Quando essa criança vai ser alfabetizada aos 6 anos, ela está completamente preparada em termos sociais, de regras de convivência social, em atividades motoras e cognitivas para o processo de alfabetização.

A criança que ficou em casa dos 2 aos 6 anos sozinha porque a mãe não encontrou creche, precisou trabalhar e a deixou com o irmão de 8 anos, que a deixou o dia inteiro sem nenhum estímulo de qualquer ordem, como ela vai se comparar em termos de processo de aprendizagem com aquela que teve todos os estímulos a partir de 1 ou 2 anos? Esse é o grande drama do Brasil. É aí que está a desigualdade do País. A criança já entra com uma defasagem que é muito difícil de ser contornada. Qualquer política educacional tem de jogar muito na educação infantil. Constitucionalmente a educação infantil é responsabilidade dos municípios. Mas o Estado de Goiás, através do programa GMC 1 [Goiás Mais Competitivo], tem trabalhado com apoio aos municípios, inclusive para as creches.

Criamos o Fundo Estadual de Educação Infantil na Seduce para passar recursos para os municípios abrirem um fundo específico de educação infantil para apoiar os municípios que têm mais dificuldade na oferta de creches para as crianças. O caminho não é dar voucher para escola privada. O caminho é investir na educação pública infantil, nas oportunidades, na qualidade. Temos um material pedagógico riquíssimo, que é o Aprender Mais. Oferecemos a todos os prefeitos que queiram um material de 1ª à 5ª série. Os prefeitos podem usar esse material, pagam apenas a impressão. Não tem direito autoral. Foi elaborado pela equipe da Seduce. Portanto é um material público e de uso público.

Temos de investir cada vez mais em educação infantil, na formação e valorização dos professores e da carreira – porque são elemento chave no processo de aprendizagem –, na qualidade do material didático. Temos de reformular o ensino médio para que os alunos saiam preparados para o mundo do trabalho e para a vida. O que não acontece hoje e que é o nosso grande desafio.

“A escola pública é o maior instrumento de democratização do País” | Foto: divulgação/Casag

Augusto Diniz – Qual avaliação a sra. faz da reforma do ensino médio que foi instituída pelo governo federal?
Uma avaliação extremamente positiva, apesar de algumas restrições mais políticas. Essa reforma foi discutida desde 2013. Não é deste governo. É uma reforma que partiu, inclusive, de um projeto de lei do deputado federal Reginaldo Lopes, do PT de Minas Gerais. A reforma é praticamente o que foi que estava no projeto de lei. Foram feitas audiências públicas no Brasil inteiro. A reforma retrata um trabalho nacional. Acaba com o absurdo de 13 disciplinas obrigatórias. O ensino médio como é no Brasil não existe em lugar nenhum no mundo.

A reforma fixa em basicamente duas ou três disciplinas obrigatórias, que são língua portuguesa, matemática e talvez inglês. Agora que a reforma vai sair do conselho nacional, ainda não vimos a formatação final. A estrutura está aprovada e sancionada pelo presidente Michel Temer (MDB) desde 2017. Há várias escolas privadas de São Paulo testando o modelo. Em 2019, 270 escolas públicas brasileiras nos diferentes Estados vão fazer um projeto piloto. Goiás tem várias escolas entre as 270. Teremos uma parte importante desse piloto.

Cria cinco trajetórias chamadas itinerários de aprendizagem. Se o aluno quer estudar Engenharia, ele pegará naturalmente as disciplinas que favorecem seu desenvolvimento e preparo para esse curso, como matemática e física. Não tem sentido quem quer fazer Engenharia no ITA [Instituto Tecnológico de Aeronáutica] ou piano na UFG [Universidade Federal de Goiás] ter de fazer as mesmas 13 disciplinas obrigatórias. Não aprende nada. Quem aprende um pouco de tudo não aprende nada. Na reforma do ensino médio há diferentes itinerários de aprendizagem, tem coisas como projeto de vida, iniciação científica, protagonismo juvenil, autogestão da própria carreira escolar se preparando para a autogestão na vida, porque os empregos no formato em que existem no mundo hoje tendem a desaparecer.

O aluno tem que, na escola, aprender a ter o protagonismo na vida que terá como profissional, de trabalho e de renda. É uma reforma avançada, moderna, ousada, que não vai ser implantada da noite para o dia, mas será um avanço enorme. Pela primeira vez na história da educação brasileira, inclui entre um dos itinerários, que é o quinto, a formação profissional. Há no ensino médio a possibilidade de sair com formação profissional. Por mais que o aluno ainda não saiba qual curso superior pretende fazer, sai do ensino médio com um curso técnico, por exemplo, de Enfermagem. O aluno pode fazer esse curso, o que não o impede de fazer um curso superior de Enfermagem depois, mas sai preparado para trabalhar. Um técnico em edificação sai preparado para trabalhar e depois pode fazer Engenharia se quiser. São mudanças muito pertinentes.

Augusto Diniz – Propor ensino fundamental a distância, como faz um dos candidatos a presidente, é algo razoável?
Não. A educação a distância é inevitável e virá com cada vez mais força. Depende do nível de escolaridade a que ela se aplica. Mesmo nos níveis superiores, a desistência é alta. O que o governador José Eliton (PSDB) propõe é a UEG [Universidade Estadual de Goiás] em Rede. Nos municípios em que não há unidade física da instituição, que a UEG em Rede chegue para quem quiser fazer o curso superior. Neste nível, é extremamente desejável porque a pessoa pode morar longe, não ter condição de mudar e ter acesso ao estudo através da UEG em Rede.

No ensino fundamental – nos anos iniciais até o 9º ano – é muito importante o convívio e a relação afetiva com o professor A agenda social que a escola propõe da família, dos colegas, das regras de convivência. Não acredito na educação a distância como panaceia para tudo. Pode ter algumas disciplinas. Darei um exemplo que vivi há dois anos nos Estados Unidos. Tenho uma amiga que mora lá e fui visitá-la. A filha dela faria aula de piano às 15 horas. Cheguei na hora do almoço. Se aproximava das 15 horas e minha amiga não se movimentava para levar a filha à aula de piano. Perguntei “você não tem de levar a Gisele?” e ela me respondeu: “Não. A aula de piano é aqui”. Às 15 horas ela ligou o computador em cima do piano, entrou no Skype e fez a aula.

Imaginava ser impensável uma aula de piano uma criança de oito anos por via tecnológica, digital. A educação a distância entrará muito em algumas situações. Ela não é a política pedagógica. Tenho uma filha que está noiva de um holandês e vai se mudar para a Holanda. Ela faz aula de holandês com um professor que mora na Holanda, para o qual deposita o pagamento e na hora combinada a aula acontece por Skype. É uma aula particular. É claro que a tecnologia criou possibilidades novas, fantásticas, impensáveis. Mas não como uma política generalizada, muito menos para criança pequena.

Felipe Cardoso – Qual a sua avaliação ao modelo dos colégios militares, que tem crescido em quantidade na rede estadual? Há a intenção de militarizar a educação pública em Goiás?
Ninguém nunca falou em militarizar a educação em Goiás. Temos 1,2 mil escolas e 42 militares por demanda muito forte da sociedade por serem unidades que têm bom resultado. A escola militar nunca foi uma política educacional e não será. É claro que são escolas que respeitamos, muitas famílias desejam que seus filhos estudem, e um sistema público tem de ser democrático. É preciso haver diferentes perfis de escolas. Há uma demanda grande, por exemplo, de famílias espíritas para que os filhos estudem no Instituto Educacional Emmanuel, que é um ginásio de formação espírita kardecista; de famílias evangélicas para que os filhos estudem no IPE [Instituto Presbiteriano de Educação] pela orientação presbiteriana; de católicos que desejam que os filhos estudem no Colégio Claretiano, que é de orientação católica.

A política educacional que temos hoje é de expansão das escolas em tempo integral. Essa sim é uma política pública, é o que faz a diferença e tem virado objeto de desejo das famílias como foram os colégios militares. A educação em tempo integral é uma política pública. A educação integral é diferente da escola de tempo integral. Educação integral é aquela que se preocupa com a formação integral do ser humano nos seus aspectos cognitivo, cultural, social, psicológico. É possível ter uma educação de tempo integral em uma escola de tempo parcial. O que estamos preconizando é uma educação integral numa escola de tempo integral onde podem permanecer dez horas na escola alunos e professores.

Professores têm tempo para estudar, fazer atendimento individual ao aluno, conversar com os colegas e dividir preocupações, trocar metodologias e avanços. Alunos têm tempo para fazer iniciação científica, projetos de vida, protagonismo juvenil. Que é o que já acontece. Temos escolas fantásticas que cresceram muito na perspectiva da escola de tempo integral. Para os próximos quatro anos, vamos intensificar a expansão das escolas em tempo integral.

Augusto Diniz – Gostaria que a sra. explicasse o Bolsa Permanência, proposta citada na entrevista ao Opção Play.
Esse nome inclusive é péssimo. Escrevi Bolsa Permanência para o pessoal do marketing pensar em um nome legal e acho que não encontraram. Fui abrir uma escola de tempo integral em Porangatu e a diretora disse que se tivesse uma escola de tempo integral ela perderia os alunos porque precisam sair para trabalhar. Disse que não era verdade porque o levantamento, que apontava apenas 10% dos alunos que trabalham. A diretora respondeu: “A sra. não vai encontrar carteira assinada, mas o meu melhor aluno, do Colégio Polivalente, se não vender picolé a tarde não tem comida em casa”. Foi quando me dei conta de que os estudantes da rede pública fazem algum tipo de bico a partir dos 15 anos.

A Bolsa Permanência será uma bolsa de R$ 300, que cobre com vantagem os atuais bicos que esses jovens fazem. O melhor aluno da escola não pode ser impedido de estudar porque tem de vender picolé. Quero que ele tenha dinheiro para estudar e lá na frente vender picolé como dono da empresa que irá criar. Que o aluno tenha a oportunidade de virar um empreendedor, criar uma fábrica, uma indústria de fabricação de picolé. A Bolsa Permanência será para os alunos do ensino médio permanecer na escola fazendo seus projetos de vida, iniciativas de pesquisa e laboratório, mas se preparando para um mundo que precisa estimular empreendedorismo e novas formas de trabalho e renda.

“Quem fala em retorno da titularidade não entendeu os rumos do futuro”

Augusto Diniz – O governador também tem dito que é preciso investir na capacitação do professor. Como funcionará a oferta do mestrado na rede estadual?
A ideia do mestrado é a mesma que nos motivou em 1999 a criar a licenciatura plena parcelada (LPP). Governador Marconi Perillo (PSDB) e eu ficamos assustados com o diagnóstico que fiz assim que assumi a Secretaria de Educação. Menos de 30% dos professores tinha curso superior e tínhamos os chamados professores leigos, que nem o fundamental completo tinham e davam aula. É claro que os resultados de aprendizagem eram péssimos. Éramos o 22º Estado em termos de desempenho. A evasão e repetência era na faixa de 40% a 50%.

Por sorte e coincidência, na época da LPP eu era do Conselho Nacional de Educação (CNE), relatora das diretrizes curriculares para formação de professor em nível superior para aqueles que dariam aula na educação básica. Na parcelada, criamos a UEG, que em princípio era ligada à Secretaria de Educação porque juntou as faculdades estaduais que existiam isoladas. A partir da Uni­a­na, em Anápolis, que virou a sede da UEG. Como tinha muito trânsito e in­fluência na UEG, criamos uma licenciatura que atendesse as demandas das no­vas diretrizes do conselho e que capacitassem o professor a dar aulas melhores.

Nenhum professor é mau professor porque quer, ele às vezes não teve a oportunidade de se preparar para ser um bom professor. Às vezes nem sabe como ser um bom professor. Hoje 100% dos professores têm curso superior. Mas há novas demandas. A educação não é só cognitiva. Há um aspecto importante chamado competências socioemocionais, que complementam as competências cognitivas. Há mais de 20 anos, principalmente na Uni­versidade de Harvard, o curso de Direito revolveu fazer o acompanhamento dos egressos e se assustou com o desempenho dos profissionais. Curso de Direito é altamente competitivo. Para se entrar no Direito em Harvard é preciso ter um QI elevado.

Você tem os mesmos professores, disciplinas e oportunidades. No entanto, na vida profissional alguns se davam muito bem, se destacavam, mas outros não. Foi descoberto que o não sucesso de parte dos alunos se devia não ao preparo cognitivo, que é o conhecimento, mas ao que chamamos de competências socioemocionais: foco, capacidade de trabalhar em grupo, cooperação, abertura para o novo, flexibilidade, disciplina, ser capaz de traçar metas e de cumpri-las. Hoje isso faz parte do pacote educacional da mesma forma que física ou matemática.

Só que nossos professores não aprenderam a lidar com isso. Estamos traçando um mestrado que fala das competências socioemocionais, que lida com os processos cognitivos, com ciências cognitivas, as novas demandas do aluno para que ele efetivamente aprenda. Daremos um belo exemplo para o Brasil de como lidar com essas questões. Como a parcelada foi para apoiar conteúdo naquela época, o mestrado será para apoiar conteúdo novo, mais sofisticado, porque as exigências são maiores a cada dia, mas também como lidar com outros aspectos que não apenas os cognitivos no processo educacional.

Fotos: Fernando Leite/Jornal Opção

Augusto Diniz – Outros candidatos ao governo têm criticado o fim da titularidade dos professores. Como está essa situação?
Só critica quem não conhece a educação. O que era a titularidade? O plano de carreira dos professores eu criei quando era secretária. Queríamos que o professor fizesse a graduação a partir da licenciatura plena parcelada e que continuasse estudando. Professor tem de estudar sempre. Estudar não é estudar e depois trabalhar. Estudar é profissão de vida para todo mundo, principalmente para o professor. A titularidade foi criada para estimulá-lo a continuar a estudar mesmo depois da parcelada. Se o professor fizesse um curso de especialização teria 10% de incentivo. Se fizesse um segundo curso teria mais 10%. Se fizesse dez cursos chegaria ao máximo de 30% de titularidade.

Só que essa titularidade não tem mais sentido. Ninguém mais quer 10% de titularidade por um curso de especialização. A demanda é por mestrado. A titularidade do mestrado é correspondente à carga do mestrado. Professor que fizer mestrado, e vai fazer porque vamos oferecer, terá 40% sobre o salário e 50% para quem fizer doutorado. Essa é a titularidade do momento. Quem fala de retorno da titularidade está repetindo um discurso antigo porque não entendeu os rumos do futuro.

Augusto Diniz – Qual é a dificuldade do Estado em cumprir o piso nacional da educação?
Nós cumprimos.

Augusto Diniz – Não houve uma demora em aplicar o que é estabelecido por lei?
É uma discussão que o Brasil inteiro faz. Piso é o que o primeiro, é o P1. Isso nunca deixou de ser cumprido a partir de todo mês de janeiro, quando todo professor P1 tem o reajuste do piso. O que às vezes o governo decide vai pagar a partir de determinado mês é usar o mesmo índice do piso para todos os níveis: P2, P3, P4. Que há inclusive um entendimento de que não precisa ser assim. Sou a maior defensora de dar o mesmo índice do P1 a todos os índices para não achatar a carreira. Senão elevamos o valor do P1 e a carreira é achatada como uma carreira estimulante. Temos pago o índice do reajuste previsto para o piso para todos os níveis, o que muitos Estados não fazem e muitos entendem que legalmente não é o necessário. Defendo a ideia de aplicar o índice a todos os níveis e temos pago na rede estadual.

Augusto Diniz – Quando era pré-candidato a governador, o jornalista Paulo Beringhs (Patriota) criticou a instalação de salas de aula em contêineres. Qual é a situação dessas salas?
Esse é um comentário de quem não entende nada de educação, completamente fora da realidade. O que ele chama de contêineres são as salas modulares excepcionais em conforto. A demanda em determinados pontos do Estado cresce sem previsão. Goiás é o segundo Estado que mais atrai gente de fora. O fluxo migratório é descontrolado. Bela Vista virou um ponto de atração, Goianira, Goiânia e o Entorno do Distrito Federal. Não há área e tempo disponíveis para construção de novas escolas. Enquanto trabalhamos a construção de novas escolas – e só na Região do Entorno inaugurei 25 novas escolas no início do ano – padrão século XXI, usamos essas salas modulares.

São fechadas, climatizadas, lindas, têm quadro branco que pode ser usado em todas as paredes e isolam o barulho. O processo de aprendizagem inclusive é melhor. É tão objeto de desejo dos alunos que uma escola que tem uma sala modular para atender a demanda pontual de estudantes precisa fazer rodízio. Segunda-feira é o 2º ano que tem aula, terça-feira o 3º ano, quarta-feira o 1º ano. Os alunos brigam para ter aula nas salas modulares. É um equívoco de quem não conhece do que está falando. Não é a solução definitiva, são soluções transitórias enquanto se constroem novas escolas.

Augusto Diniz – A discussão da implantação de Organizações Sociais nas escolas surgiu em um dos debates entre os candidatos a governador. O projeto foi abandonado?
Foi altamente elogiado. Foi impedido pelo Ministério Público, que conseguiu juízes que acataram sustar o projeto. Recentemente, foi autorizado em Luziânia. Mas entendemos que é preciso avaliar. As OSs deram muito certo na saúde. Tenho a impressão que é um modelo possível na educação. Estão sendo testadas na educação profissional. Na educação básica alguns cuidados são diferentes. Optamos por não discutir esse assunto. Depois de ganhar a eleição vamos avaliar se virá a ser um caminho. Claramente temos consciência de que ter dado certo na saúde não necessariamente é o melhor caminho para a educação básica.

Isso está sendo avaliado com coragem, com dados e evidência. Nosso sistema vai bem. Não é à toa que tiramos o primeiro lugar em todos os níveis do Ideb. Não é fácil. Temos um bom sistema educacional. Precisamos reforçá-lo valorizando os professores com capacitação e mestrado, criação de condições de estímulo e projeto de vida. Tenho muito orgulho do sistema educacional que nós temos.

“Não permitem que se toque na obra do Oscar Niemeyer”

Augusto Diniz – A maior dificuldade foi a falta de experiência das OSs ou resistência de alunos e professores?
Não havia resistência entre alunos e professores, mas das universidades e do sindicato. Nunca foi das escolas estaduais em si. Muitas até queriam muito. A maior dificuldade foi a falta de capacitação das Organizações Sociais. OS na saúde existe desde sempre, no Hospital Sírio-Libanês, no Albert Einstein. Saúde tem protocolos diferentes que dão direcionamentos para uma série de coisas. Educação não tem o mesmo tipo de organização, categorização e classificação. São processos diferentes. É preciso analisar com muito cuidado.

Fizemos um belo modelo, elogiado mundo afora, que preserva a orientação pedagógica da secretaria, a formação dos professores pela secretaria e libera, de certa forma, o diretor de escola para se comprometer com aquilo de mais nobre que há na educação que é o processo de ensino e aprendizagem. Hoje 90% do tempo do diretor é ocupado com correr atrás de licitação do telhado, compra de papel e outros itens. Queríamos ter uma gestão compartilhada que liberasse o diretor para aquilo que foi formado que é ajudar o aluno a aprender. O nosso modelo ficou muito bom.

Marcelo Mariano – Qual é a situação dos museus geridos pelo Estado?
O Museu Zoroastro Artiaga acabou de passar por uma ampla reforma, o Museu Pedro Ludovico, da mesma forma o Museu da Imagem e do Som. É claro que a tragédia do Museu Nacional nos afetou a todos porque foram 200 anos da nossa identidade, memória e história, anos de trabalho de inúmeros pesquisadores que dedicaram suas vidas e viram seus trabalhos virar pó. É um alerta muito grave para a preocupação que temos de ter. Quando propusemos transformar o circuito cultural da Praça Cívica em museus, buscamos a requalificação e o restauro de todos os prédios. Há um rico patrimônio art déco que não pode ser perdido, tem de ser valorizado.

Essa é uma preocupação constante minha, de José Eliton, e será um ponto forte da nossa gestão nos próximos quatro anos. Como secretária, tive a oportunidade de apoiar o restauro de inúmeras igrejas no interior. O Fundo de Cultura tem um edital específico para a questão de patrimônio. No Teatro São Joaquim, em Goiás, houve um trabalho conjunto da prefeitura, governo do Estado e federal através do Iphan [Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional] para renovar e restaurar completamente o espaço.

Nos mesmos moldes, vamos começar a reforma do Teatro de Pirenópolis, que tinha sido cedido à prefeitura desde a época da secretária Linda Monteiro. Embora ainda esteja em vigência a cessão, acertamos com o prefeito e retomamos porque o município não tinha condição de dar a manutenção necessária. O teatro estava em péssimas condições. Será feito um trabalho completo de restauro como foi feito em Goiás.

Marcelo Mariano – Como atrair o público aos museus?
Política cultural se define por várias coisas. Às vezes as pessoas acham que é fazer o Fica [Festival Internacional de Cinema e Vídeo Ambiental], Canto da Primavera e o TeNpo [Mostra Nacional de Teatro de Porangatu]. São eventos importantes, mas não definem nossa política cultural, que vai desde a formação de plateia até o apoio para produção, isso se traduz através do Fundo de Arte e Cultura e da Lei Goyazes. E das próprias escolas. Como nunca tivemos nos últimos anos, vários projetos do Fundo de Arte e Cultura são voltados para as escolas. Tem havido um interesse de produtores culturais que têm interesse no trabalho de formação de público e de plateia, que começa pelas escolas. Isso é o que estamos tentando fazer.

Augusto Diniz – Qual é a situação da reforma do Centro Cultural Oscar Niemeyer? Vai receber a biblioteca?
A biblioteca está comprada e pronta. Só não foi inaugurada na plenitude porque houve uma infiltração. A Agetop [Agência Goiana de Transportes e Obras], que faz a reforma, lida com um prédio que tem muitas dificuldades. A Fundação Oscar Niemeyer não permite que façamos determinadas interferências. Estive no Rio de Janeiro com o sobrinho do Niemeyer, João Niemeyer, que é quem toma conta da Fundação Oscar Niemeyer, e me proibiu de qualquer intevernção que o Corpo de Bombeiros exigia, como instalação de escada e preventivos de incêndio. Não permitem que se toque na obra do Oscar Niemeyer. E ainda me deu o seguinte exemplo: se você vai ao Louvre e tem um quadro do [Pierre-Auguste] Renoir não se pode fazer um risco de caneta em cima do Renoir.

“Qualquer coisa que a sra. fizer no prédio do Niemeyer é um risco em cima do Renoir, a obra de arte é a arquitetura do Niemeyer.” O Centro Cultural Oscar Niemeyer tem tido esse tipo de problema. Corpo de Bombeiros diz “não libero se não fizer isso”. Fundação Oscar Niemeyer declara “não autorizo que isso seja feito”. Finalmente chegamos a um acordo. É a última reforma que precisamos fazer. Está pronta. A biblioteca infantil está ficando linda. Será um exemplo de biblioteca infantil e juvenil. É uma biblioteca de arte, específica, não é uma biblioteca geral, cujos livros foram comprados em parceria com a UFG e o curso de Biblioteconomia. Tudo que não depende de mim eu não gosto de fazer afirmativas. Mas acredito que inauguramos rapidamente.

Augusto Diniz – As intervenções no prédio da biblioteca são necessárias por erro de cálculo na construção?
É o fato de não poder ter algumas saídas que a política do Corpo de Bombeiros exige. Depois do incêndio na Boate Kiss [janeiro de 2013], em Santa Maria (RS), no qual só o Corpo de Bombeiros acabou por ser culpado, há uma exigência maior nesse acompanhamento. Hoje temos exigências maiores do que na época em que o prédio foi construído e uma política da Fundação Oscar Niemeyer que nos impede de fazer determinadas intervenções. Mas acredito que tenhamos contornado esse problema maior.

Marcelo Mariano – Qual a importância de ter uma mulher candidata a vice-governadora?
Simboliza respeito à democracia. O mundo é feito metade de homens e metade de mulheres.

Marcelo Mariano – A sra. se considera feminista?
Claro que me considero feminista. Feminismo é um movimento em que homens e mulheres entendem que há um histórico de desigualdade e que encampam lutas para superação dessas desigualdades. Feminismo para mim é claramente isso e me enquanto entre as pessoas que reconhecem a desigualdade que existe no tratamento de homens e mulheres historicamente. Precisamos de políticas compensatórias e ações afirmativas até que essa desigualdade seja desfeita. A mulher hoje tem nível de escolaridade mais alto do que o homem em todas as etapas da escolaridade. Tanto que elas têm ocupado papel de destaque em funções que dependem de estudar e passar em concurso.

São juízas, promotoras, pesquisadoras, professoras universitárias. Só que dinheiro e poder continuam em mãos masculinas fruto de uma sociedade machista, uma cultura patriarcal patrimonialista, que tem isolado algumas mulheres inclusive de mostrar o talento e a inteligência. Quando se tem uma chapa com 50% de homens e 50% de mulheres – Marconi, Lúcia Vânia (PSB), José Eliton e Raquel –, você manda uma mensagem de que homens e mulheres são diferentes. E são mesmo, não é só biologicamente ou fisicamente. A visão de mundo, a perspectiva e a forma de analisar são diferentes. Cada um com sua inteligência, talento e sensibilidade são responsáveis pela definição de encaminhamentos que definem o que chamo de plenitude democrática. Essa é a plena democracia.

Quando digo que homens e mulheres são diferentes, tenho absoluta certeza de que se não tivesse mulher no parlamento não existiria a Lei Maria da Penha, por exemplo. Não existiria uma lei de adoção. Só a mulher percebe o drama da mulher que quer ter filho, da criança que é abandonada. Não existiria a Lei das Cotas, o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). O mundo precisa deste olhar. É moderno e inovador ter uma chapa com 50% de homens e 50% de mulheres.

Marcelo Mariano – Como a sra. vê as duas principais chapas de oposição não ter uma mulher?
Essas chapas não perceberam o momento do mundo, não deram à mulher o espaço devido e tenho medo de retrocessos. Talvez pela visão que tenho de pesquisadora e professora universitária, em que o papel da universidade é antecipar o futuro e se preparar. São chapas que não souberam antecipar o futuro e se preparar e que correm o risco de retrocesso. Me assusto muito com a possibilidade de retrocesso em Goiás e no Brasil.

Marcelo Mariano – Quais são as principais diferenças entre a sra. e os deputados Heuler Cruvinel (PP) e Lincoln Tejota (Pros)?
São dois parlamentares que respeito, mas o olhar do homem é diferente do olhar da mulher. E a democracia precisa dos dois olhares. São políticos que têm o mérito. Tejota é um deputado estadual atuante que respeito, que vem de uma família de políticos e que se dedica ao crescimento político, o que é louvável. Deputado federal Heuler eu conheço menos, até por ser da região de Rio Verde. Mas teve méritos. Ninguém chega na Câmara Federal caído de paraquedas. Espero que tenham bons desempenhos caso sejam eleitos, mas acredito que eu serei a vice.

Augusto Diniz – No processo de escolha do vice havia Heuler Cruvinel e o deputado Thiago Peixoto (PSD). Foi uma escolha fácil?
Não foi uma escolha fácil. Quando me desincompatibilizei no dia 6 de abril foi mais para atender uma solicitação do senador Marconi Perillo que pensava em mim como primeira suplente. Marconi tem outros projetos e queria ter certeza de que deixaria no lugar alguém que ele confiasse. Mas a minha desincompatibilização gerou na base, na educação, na cultura e no esporte, que é uma área em que eu transito bem, a expectativa de ser vice. Tinha o problema da chapa pura. José Eliton e eu somos do mesmo partido. Não era fácil. Interessava atrair outros partidos, o próprio PSD com Thiago Peixoto e o PP com Heuler Cruvinel. Várias negociações foram tentadas nesse sentido. Houve demandas exageradas dos partidos que queriam vir.

A minha coligação foi extremamente corajosa ao trocar um ativo que normalmente move as coligações, que é o tempo de TV, por outros ativos. Um nome que trouxesse novos segmentos, um nome que tivesse representatividade, um nome de uma aliada. Governar não é fácil. Não vivemos um momento fácil no Brasil, teremos momentos muito difíceis e dr. José Eliton sabe que terá em mim uma aliada leal, companheira em todas as horas. Não que não fosse dar certo com outra pessoa, mas sabemos de casos em que governador e vice, prefeito e vice, presidente e vice em que não há essa afinidade programática, filosófica, ideológica.

A coligação optou por essa sintonia que reforça o trabalho e dá mais robustez ao programa. Não posso deixar de agradecer publicamente principalmente ao Solidariedade e PTB que foram os primeiros partidos a apoiar o meu nome independente de ser chapa pura. Entenderam que o meu nome agregava segmentos novos. Foi a partir do apoio do Solidariedade e do PTB que outros partidos concordaram. Trocar tempo de televisão por afinidade, apoio, segmentos e representatividade é também uma forma moderna e deveria ser um exemplo.

O tempo de televisão tem levado à multiplicação às vezes irresponsável de partidos políticos que aproveitam o momento da eleição para vender tempo de televisão. Além de a chapa ser moderna em representatividade do papel da mulher, é moderna nos novos princípios de coligação que não são apenas o pragmatismo político.

Raquel Teixeira em entrevista aos jornalistas Felipe Cardoso, Marcelo Mariano, Augusto Diniz e Euler de França Belém | Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

Augusto Diniz – A Justiça ampliou a reserva de 30% de gênero para candidatos nas coligações proporcionais ao fundo eleitoral para qualquer cargo em disputa. Houve influência na sua escolha a busca por mais verba para a chapa?
Na definição ou estímulo à escolha nesta eleição ainda não. Mas claramente o novo fundo eleitoral para mulheres vai ampliar a oportunidade de mulheres concorrerem, o que é muito bom. Ter 30% de cotas de candidaturas, que muitas vezes eram preenchidas sem o conhecimento das próprias candidatas para cumprir uma cota, isso não mudou em nada a situação. Em um determinado tempo histórico, a Argentina adotou a cota de 30% não para candidaturas ou no dinheiro, mas de eleitas. Isso fez uma grande diferença. Avançamos muitos. A mulher historicamente tem mais dificuldade em lidar com o dinheiro. Ela arrisca menos.

Me lembro de tentar estimular diretoras de escolas, lideranças, a serem candidatas a vereadoras ou deputadas estaduais. “Ai, professora, imagina! É com meu salário que eu cuido da minha mãe, pago a faculdade do meu filho.” A mulher tem essa preocupação mais comunitária. O homem é mais individualista, arrisca mais, joga mais. Esse fundo vai estimular mulheres a participar.

Felipe Cardoso – Quais são os próximos passos necessários para aumentar a participação da mulher na política?
A Argentina deu um exemplo. Os 30% de eleitas é um próximo passo possível. Gostaria de viver em um mundo que nem precisássemos disso. Mas no mundo inteiro isso é problemático. A maior igualdade entre homens e mulheres está nos países nórdicos. Dinamarca, Finlândia e Suécia são países em que há uma prática política muito avançada de igualdade e oportunidades, na faixa de 50% mesmo. São países, coincidentemente ou não, onde há menos corrupção, mais transparência das políticas públicas e da aplicação dos recursos. A mulher na política tem o espírito que ela traz da família, da comunidade.

Há um trabalho de cerca de 30 anos de economia que mostra que quanto maior o nível de escolaridade do homem maior o retorno privado individual: ele ganha mais. Quanto maior o nível econômico da mulher, maior o retorno comunitário: ela investe mais na educação dos filhos, provavelmente não terá gravidez precoce dos filhos. O retorno do nível educacional maior é para a família, para a comunidade. A política está precisando desse compromisso coletivo, compromisso comunitário. Espero que caminhemos para o rumo dos países com mais igualdade entre homens e mulheres.

Augusto Diniz – A dificuldade ainda é muito grande para a mulher conseguir espaço em uma estrutura partidária? E que tipo de dificuldade existe para as mulheres em um partido político?
Saí do parlamento em 2011. Mas não é só no parlamento. Vivi uma geração que graças a Deus minhas filhas não vivem mais. Mas a sociedade brasileira é muito machista, mesmo na universidade, onde construí a minha vida, e onde talvez haja menos sexismo ou machismo. O que vale na universidade é a questão intelectual. Fiz concurso para a Universidade de Brasília (UnB) quando tinha 23 anos. Tive sorte, para azar da universidade e do Brasil. Me formei no início dos anos 1970, quando houve a debandada do Niemeyer, Darcy Ribeiro, do dream team dos professores da UnB por conta do movimento militar. O coronel [José Carlos de Almeida] Azevedo era o reitor todo poderoso e autoritário.

Com a debandada de professores surgiram vagas. Tanto que fiz concurso e comecei a dar aula na UnB muito cedo, em condições que provavelmente não seriam as normais. Fui aprovada com 23 anos. Sempre fui pequena. Parecia ter 15 anos. Quando me apresentei ao diretor da minha unidade, me olhou de alto a baixo e disse o seguinte, até porque eu usava minissaia naquela época: “Você acha que vai impor respeito aos seus alunos com essa sainha?”. Hoje pode até ter quem pense assim, mas não tem coragem de explicitar.

Mas naquela época ele explicitava. Pouco tempo depois ele descobriu que eu estava grávida. Meu Deus! Acabou comigo. Me chamou e disse: “Você foi desonesta. Não contou. Se eu soubesse que você estava grávida jamais teria te contratado. Mulher faz concurso para depois sair de licença e toma lugar de homem que não tem que passar por essas bobagens de mulher”. Acabou comigo. Isso nos anos 1970. A sociedade brasileira é machista e às vezes nem percebe o quão machista é.

A mulher sente a questão do estupro, do [Jair] Bolsonaro (PSL) falar que a mulher é feia o suficiente para não ser nem estuprada ou que a roupa dela desperta e justifica estupro, porque a roupa é dela pela roupa que usou. Esse tipo de sentimento, por mais vergonhoso que seja, ainda prevalece. A mulher precisa sim de medidas compensatórias, de ações afirmativas, para que em algum momento isso deixe de ser necessário.

Felipe Cardoso – A sra. sente preconceito com as mulheres na política?
Meu primeiro comício como candidata a deputada federal foi difícil. Cheguei e a pessoa disse que eu só poderia falar depois de outra figura política. “Sabe o que é, secretária, a sra. não tem apoio aqui. O prefeito não te apoia, vereadores não te apoiam, a sra. não tem aliado.” Claro que não, nunca tinha sido política, concorria pela primeira vez. “Sabe o que é, secretária, a sra. chegou muito tarde.” Mentira porque outras pessoas chegaram depois de mim. Foi preciso um embate com as organizações a ponto de eu fazer algumas ameaças, porque também sou brava quando quero.

Claro que tive embates de me impor como candidata. A mulher deve ter determinada firmeza, em alguns momentos é preciso ter humildade. Experiências que um homem não necessariamente tem de viver. Há sim determinadas circunstâncias que favorecem sim o homem.

Felipe Cardoso – A sra. acredita que esse cenário tende a mudar nos próximos anos?
Sim. Falo aqui da minha experiência em 2002. Já estamos em 2018. Não sei se começando a vida política hoje passaria pelo mesmo constrangimento que passei lá atrás. Espero que tenhamos avançado nesses 16 anos desde que comecei minha vida de deputada federal. Mas que vivi, claro.

Augusto Diniz – Como a sra. avalia a inserção veiculada pela coligação de Geraldo Alckmin (PSDB) que mostra discussões do Bolsonaro com mulheres em que o candidato do PSL chama repórter de idiota e a deputada Maria do Rosário (PT-RS) de vagabunda?
Avalio com muita preocupação a possibilidade de Bolsonaro ser eleito. Não preciso ver programa de televisão. Vivi e convivi oito anos com Bolsonaro como deputada federal e por acaso assisti a essa briga dele com Maria do Rosário, que era minha amiga na época. Me assusto muito com a perspectiva do ódio que ele traz a mulheres, a petistas, a comunistas. Corremos um risco de retrocesso muito grande e claramente não é o país que eu desejo.

Augusto Diniz – Nos primeiros dias da campanha de rádio e TV, a única coligação que explorou a imagem do candidato a vice foi a da sra., mesmo pós-impeachment, quando o vice virou presidente. Não é o momento de as coligações entenderem que o vice é importante?
Tenho orgulho de ser vice dessa coligação. Um sentimento sincero e recíproco de respeito e orgulho pela chapa que temos.

Marcelo Mariano – Da chapa majoritária, três das quatro vagas são ocupadas pelo PSDB depois de um processo que representou a saída de partidos importantes. Depois de tudo isso, a base está mesmo unida?
A base está unida. Há orientações e momentos políticos diferentes. O PP foi um aliado e tem uma direção nova que decidiu por um caminho alternativo. Mas não é a base que está rachada, é o PP que está dividido. A maioria dos prefeitos está conosco. Deputado Roberto Balestra teve um posicionamento muito claro na convenção, que muitos interpretam como um golpe. Foi um problema do próprio partido. Deputada Flávia Morais (PDT) sou testemunha de que não queria sair da base, houve uma orientação nacional. O que é ruim, porque temos de acabar com esse tempo de coronéis donos de partidos. O que houve foi claramente orientações coronelistas de donos partidos. Foi ruim para a política, mas de repente pode ser um momento de apuração e definição de novos critérios.

Augusto Diniz – O senador Ronaldo Caiado (DEM) parece em todas as pesquisas estar consolidado nos 40% de intenção de votos. Isso causa preocupação ao governo? Com menos de 30 dias para a eleição é possível criar um movimento de virada?
Acredito que dá. Tenho feito carreatas e fui há mais de 50 cidades. Claro que são municípios pequenos porque nossa dinâmica de carreatas teve o seguinte princípio: vamos a todas as cidades pequenas primeiro, onde não teremos tempo de voltar. Queremos ir a 100% dos municípios goianos. Nos dividimos. Marconi Perillo, Lúcia Vânia, José Eliton e eu, cada um liderando uma carreata. O sentimento é de alegria, apoio, as pessoas vêm para a rua, dão tchau, abraçam. Agora que o Estado está acordando para isso. A ideia das carreatas foi isso. Chegou a eleição, José Eliton é o candidato, vamos começar a discutir o assunto.

As cidades estão começando a discutir as eleições. Temos uma base grande estruturada no interior do Estado que nenhuma outra coligação tem. Isso agora começa a fazer efeito. As grandes cidades são estratégias diferentes. Ninguém vai fazer carreata porque as pessoas ficam bravas por atrapalhar o trânsito. No interior as pessoas adoram carreata. Todo mundo para, roda bandeira. Vamos nos concentrar a partir de agora nas grandes cidades e reuniões, no programa de televisão, nas redes sociais. Estou muito confiante de que vamos para o segundo turno e vamos ganhar essa eleição.

Marcelo Mariano – Quem é o principal adversário eleitoral de José Eliton: Caiado, que pode ganhar no primeiro turno, Daniel Vilela (MDB), que pode tomar o lugar do PSDB no segundo turno, ou um eventual desgaste dos 20 anos de governo?
Um pouco de cada coisa. É claro que 20 anos de governo tem desgastes naturais. A renovação acontece com ideias e propostas. José Eliton é uma renovação, tem se revelado um grande político, é um homem intelectualmente preparado, que fala bem, tem agilidade de pensamento, tem propostas, entende o Estado como ninguém, teve um grande professor de gestão e de Goiás que foi Marconi Perillo. Tem consciência de que hoje é o gestor do legado de Marconi Perillo, tem orgulho desse legado, mas tem clareza de que daqui para frente é um novo governo, é o Novo Tempo Novo. José Eliton e Raquel querem deixar a marca desse Novo Tempo Novo.

Governador tem uma dificuldade natural de ser pouco conhecido, até porque foi um vice discreto, e tem a dificuldade sem poder tirar licença ou tirar férias porque não tem substituto. Mas José Eliton tem superado isso com presença constante de segunda a sexta a noite, sábado e domingo. É um homem que não tem preguiça de trabalhar, não tem medo de enfrentar desafios. Estou completamente confiante de que as qualidades de José Eliton, a unidade da base, a estrutura partidária que temos, a militância que temos e as bênçãos de Deus vão nos ajudar.

Felipe Cardoso – Caso José Eliton seja reeleito, o que a sra. pretende fazer para não ser uma vice discreta como disse que o governador foi quando ocupou o cargo?
São situações diferentes. Quando José Eliton assumiu a vice de Marconi Perillo, era um advogado que nunca tinha tido participação política. Eu tenho uma história anterior de participação política. Nem que eu queira serei tão discreta, até porque as pessoas me conhecem. Ele sabe que serei uma vice completamente leal, cumprirei tarefas. José Eliton tem dito, com muita generosidade, que “a professora Raquel e eu comandaremos o Estado”. Creio que teremos um governo bastante discutido, dialogado, consensuado.

Se o governador entender que eu devo ocupar alguma secretaria ocuparei com muita satisfação. Gosto do trabalho no Executivo. Cumprirei missões que ele me determinar, até porque a cada dia estou mais encantada com o que estou descobrindo do José Eliton. Confesso que como colega de secretariado conheci pouco. É um home preparado, que conhece Goiás e altamente propositivo, sensível. Essa preocupação do ser humano foi muito dele. Vocês verão que, diferente de outros candidatos, nunca o veremos atacando, xingando, esperneando. Vamos sim ouvi-lo fazendo propostas, apresentando propostas, sendo muito sincero e transparente. Será um orgulho trabalhar com José Eliton.

Augusto Diniz – Marconi Perillo ter se tornado réu por corrupção passiva preocupa a chapa?
Isso foi de um oportunismo barato terrível. Isso já tinha vindo a tona. O acusador inclusive já pagou multa para Marconi Perillo pela acusação que fez. É claro que o que aconteceu agora é que, ao perder o foro privilegiado, isso foi para outra instância. É um assunto completamente veiculado, superado, que só vejo a divulgação como maldade e briga partidária barata. O que é ruim. A sociedade não quer mais esse tipo de briga partidária. É inegável o que Marconi Perillo fez por Goiás.

Muitos jovens nem conheceram Goiás há 20 anos, mas quem conheceu o Estado há 20 anos e vê hoje não acredita o que tem de infraestrutura, o que tem de nível de educação, de universidade. Só de Bolsa Universitária foram quase 200 mil jovens que se prepararam. Só a UEG e a diferença na educação. A Fundação de Amparo à Pesquisa (Fapeg) é a grande financiadora de todos os projetos de pesquisa. Pesquisa está parada no Brasil inteiro e Goiás continua financiando pesquisa, inovação, hubs tecnológicos.

A área da cultura está parada em quase todos os Estados. Continuamos financiando através do Fundo de Cultura. É maldade, briga política de baixa qualidade, que move um sentimento desses. É inegável o que Marconi fez e tenho muito orgulho de ter estado com ele desde o primeiro momento.

Marcelo Mariano – Se José Eliton vencer as eleições não poderá concorrer em 2022. A sra. pensa em disputar o governo daqui quatro anos?
Penso em ganhar as eleições primeiro.

Marcelo Mariano – A sra. comentou a vontade de Marconi em tê-la como primeira suplente. Não passou pela sua cabeça voltar à Câmara dos Deputados?
Não. Cumpri meu papel na Câmara. Tenho orgulho dos oito anos que passei. Deixei bons projetos de lei. Foi uma vida rica. Conheci pessoas, lugares, estudei, fui parte do conselho de altos estudos do Congresso, que é um grupo seleto de poucos parlamentares que definem rumos do País. Me enriqueceu muito como pessoa, mas já dei minha contribuição.

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