“Sinto que devolvi a esperança que estava faltando às pessoas de Bela Vista”

Primeira mulher a governar a cidade, a jovem petebista mostra que tem discurso próprio e visão moderna para assumir a gestão

Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

O jeito doce da jovem advogada formada em Direito pela Pontifícia Universidade Católica de Goiás (PUC-GO) — também especialista em Direito Público pela Faculdade Cândido Mendes, além de ter cursado Gestão Pública na Faculdade Sul-Americana (Fasam) — esconde uma determinação ímpar. Nascida e criada na zona rural de Bela Vista de Goiás, na comunidade do Cará, Nárcia Kelly (PTB) cresceu em meio a um cenário de empreendedorismo nato, a partir da tradição da própria família.

Sua liderança a conduziu à política. Tornou-se vereadora em 2008 e vice-prefeita em 2012, esta em uma parceria de vida curta com o prefeito Eurípedes do Carmo (PSC), que, percebendo a luz própria da colega de chapa, limitou suas ações e lhe criou entraves. Mas, com uma campanha de poucos recursos, boas novidades (sem carreata, sem carro de som, sem foguetório) e muita conversa direta com as pessoas, ela venceu o poderio econômico, ela se elegeu e será a primeira mulher a comandar o destino de Bela Vista.

Se tudo correr conforme o que se depreende de seu discurso e sua forma de agir até o momento, Nárcia Kelly, de 29 anos, tem tudo para ser, em pouco tempo, mais que uma bem-sucedida gestora de uma cidade média: pode se tornar uma surpreendente liderança do Estado.

Euler de França Belém – Quando o Jornal Opção deu a primeira nota sobre a possibilidade de sucesso de sua candidatura à Prefeitura, uma pessoa ligada ao prefeito Eurípedes do Carmo disse que estávamos completamente enganados e que não conhecíamos nada de Bela Vista, porque o prefeito elegeria “até um toco”. A sra. foi à luta e venceu a eleição. Como foi enfrentar esse esquema poderoso?

Augusto Diniz – Completando, qual foi a dificuldade para transformar essa campanha barata em mais de 6 mil votos?
Foi superdifícil, porque era como se eu estivesse em um cabo de guerra constante, só que de um lado estava eu sozinha em muitos momentos e todos os outros 11 partidos da coligação do lado de lá. Eu recebia críticas todos os dias da minha família, dos presidentes de todos os partidos. Falavam que eu estava louca, que a gente ia perder, que era preciso colocar ao menos carro de som, que a gente precisava fazer uma carreata.

Quando a candidatura concorrente fez a primeira carreata, eu tive de aguentar as pessoas falando de forma muito forte. Mas eu tinha de manter minha posição. Em que eu acreditava? A Nárcia vice-prefeita não teve apoio nenhum durante quatro anos. Não tive poder, não tinha respaldo político no município, não sou de família tradicional, não tenho dinheiro, então, por que eu iria ganhar a eleição? Porque têm pessoas que me admiram e gostam de mim como eu sou. Essas pessoas queriam algo diferente.

Se eu mudasse de ideia, eu perderia essas pessoas. Mantive firme a minha decisão. Mas foi muito difícil para mim. Tive duas pessoas que ficaram mais firmes ao meu lado: o presidente do Solidariedade (SD) e meu noivo, que participou de tudo diretamente. Eles me apoiavam nesse sentido, mas as demais pessoas praticamente engoliam isso, não acreditavam que isso daria certo. Mas eu sempre acreditei.

Elder Dias – Em que se baseava essa crença?
Acho que eu cultivei nas pessoas essa esperança que estava faltando ao bela-vistense. A gente não tinha dinheiro para fazer a campanha. Para fazer uma carreata, a gente sabe nos bastidores como isso ocorre. E eu não tinha dinheiro. Soltar foguete eu acho um desperdício de dinheiro, nem se tivesse como iria gastar, pois o barulho incomoda as pessoas. Se fosse para concorrer com eles no dinheiro, eu iria perder: se eu colocasse mil carros, eles colocariam 2 mil; se eu soltasse uma caixa de foguetes, eles soltariam uma bateria de foguetes; se eu usasse um carro de som, eles usariam dez. Tudo isso faz parte de uma política antiga, do barulho, de quem quer mostrar mais força no barulho e no grito.

Eu nunca quis ganhar no grito. Sempre acreditei nessa força interna das pessoas. Eles apostaram essa esperança em mim justamente por eu acreditar em algo diferente. Foi essa nossa força, porque ninguém [do meio político] acreditava. Minha campanha na rua era caminhada só com gente do povo, de chinelos, mãe empurrando carrinho de menino, aquele senhorzinho de idade de quem eu nunca vou me esquecer, pessoas de 80, 90 anos caminhando junto (com a voz embargada), batendo nas portas das casas e o povo saindo para falar comigo. É algo que não tem valor. Mas, para quem via de fora, achava que eu estava doida caminhando com “aquele tanto de pobre” — na visão deles –, enquanto os outros faziam carreata. Eu acreditava que ia dar certo. Mas quase ninguém acreditou.

Cezar Santos – Qual foi o resultado em número de votos?
Tive 6.432 votos.

Cezar Santos – E seu adversário?
Foi uma diferença de pouco mais de 900 votos, meu adversário [Leonardo] teve 5.471 votos [o terceiro concorrente era Luiz das Tintas (PRB), que teve 4.305 votos].

Elder Dias – A quanto isso correspondeu em votos válidos?
Quase 40% dos votos válidos. Eu acreditava que a gente teria 40%. Foi muito difícil, mas foi uma campanha linda. Nas caminhadas, eu convidava as pessoas para ir de branco, em meio àquela violência que pairava. Quando aconteceu aquilo com Zé Gomes [candidato favorito à prefeitura de Itumbiara, assassinado em uma carreata já no fim da campanha], a gente parou de trabalhar na campanha por um dia e me criticaram por isso, mas achei absurdo a gente não tomar uma atitude drástica para mostrar que a gente precisa repensar certas coisas.

Isso tudo criou nas pessoas a esperança e a confiança de que as coisas podem ser diferentes. Não é porque todo mundo faz campanha com foguete, carro de som e contratando cabos eleitorais que a gente tem de fazer igual. Eu só contratei 80 meninas 20 dias antes da eleição, não tinha dinheiro para contratar antes. Se tivesse teria contratado, porque era um monte de mulher desempregada querendo trabalhar e eu precisando de gente para me ajudar, pedir voto e mostrar minha campanha.

Se vocês visitassem Bela Vista nas duas primeiras semanas, vocês pensariam que a cidade só tinha dois candidatos, Leonardo e Luiz das Tintas, porque não tinha adesivo meu em carro. O pessoal que pregou adesivo – como eu nunca paguei combustível para colocar – era do meio rural e ia à cidade só de vez em quando. Bandeira na rua também não tinha, porque eu não tinha contratado ninguém. Cabo eleitoral também não tinha, porque eu não havia contratado.
Aquilo foi gerando uma pressão muito grande por parte dos meus companheiros de partido. Alguns candidatos a vereador acabaram não concordando com minha forma de fazer a campanha e usaram carro de som, foguete, carreata e eu respeitei a individualidade. Também não concordo com aquele coronelismo do “eu sou assim e você também tem de ser”.

Augusto Diniz – A sra. disse que defendeu a realização de uma campanha limpa, sem uso de fogos, carro de som e carreata, mas, na reta final, houve um momento que quase foi aberta a possibilidade de usar carro de som. Por que houve essa a discussão para isso?
Por conta dessa pressão muito grande. Eles queriam muito. Mas eu acreditei no que estava aqui (aponta para o coração). Foi Deus mesmo. Eu sempre falei nas redes sociais que, com fé em Deus e no povo, a gente ganharia as eleições. Eliezer Fernandes [ex-vereador e candidato a prefeito em 2012 pelo PSD], que é um político tradicional da cidade, quase me batia. Ele dizia que eu era louca de fazer isso, que eu precisava dos políticos, de apoio.

Depois que passou a eleição eu fui à casa dele e perguntei: “Eliezer, e agora?”. E ele disse que “foi Deus”, que eu era “uma menina iluminada”. “Nunca vi isso, tudo dá certo para você!”. Eu respondi que foi Deus e o povo, que me pôs em 1º lugar nas pesquisas. Sempre tive uma fé muito grande. Eles me chamavam de cabeça dura, mas não me importo. Quando eu acredito em uma coisa, por mais que o mundo não esteja acreditando, eu preciso apostar naquilo. Por isso enfrentei todo mundo e disse que não teria carro de som, a ponto de ficar como chata.

Elder Dias – Chata como?
Um exemplo foi uma caminhada do candidato Calebe Cunha (PR), que é uma pessoa que eu amo de paixão, um locutor de carro de som tradicional da cidade no fusquinha azul dele. Ele nos apoiava como candidato a vereador. Então, fez uma caminhada sem a minha autorização. Quando eu vi que ele chegou no carro tocando minha música de campanha e ele falando no microfone, eu larguei todo mundo e falei que não era para tocar. Pedi para desligar o som, ele ficou muito chateado na hora. Falei “meu amigo, me perdoa, mas eu te pedi. Por que você está aqui?”. O Calebe disse que todo mundo queria o carro de som. Eu disse que a candidata era eu e que se o carro de som continuasse ligado eu iria embora. Ele desligou. Passei por isso, não foi fácil, mas a gente conseguiu. Eu tinha de impor.

Euler de França Belém – Voltando um pouco no tempo, a sra. assumiu como vice-prefeita, quando de uma licença do prefeito Eurípedes do Carmo (PSC). Ele disse que estava em uma viagem em Paris e, nesse meio tempo, a sra. quase causou uma revolução em Bela Vista. Como foi essa história?
Eu era pré-candidata a deputada estadual pelo PR e alguém me avisou que o prefeito iria pedir licença por 30 dias para viajar a Paris. Eu já tinha sido avisada antes que haveria essa manobra como forma de impedir minha candidatura a deputada [assumindo interinamente a Prefeitura, ela ficaria impedida de se candidatar]. Isso porque o irmão dele, o então deputado Luiz Carlos do Carmo (PMDB), precisaria dos votos de Bela Vista, a base dele, para se reeleger. Não acreditei que iriam fazer isso, mas fizeram. Na verdade, desde a pré-campanha eu sabia que não tinha grandes chances de êxito. Quando surgiu a oportunidade de assumir a prefeitura, mesmo sabendo que era uma manobra política pra impedir minha candidatura à Assembleia, decidi assumir, ainda que tendo informações de que haveria boicotes. Estava previsto que eu assumiria numa segunda-feira, mas eu pedi para assumir na quarta-feira. Só que, na segunda-feira, os secretários mandaram máquinas da Prefeitura para arrumar as estradas na região do Cará, onde moro, para dizerem que o meu primeiro ato como prefeita teria sido arrumar as estradas pra minha casa. Isso poderia gerar uma ação de improbidade contra mim, também impossibilitando me candidatar posteriormente.

Entrei em contato com esses secretários, mas eles não me ouviram. Falei que não tinham minha autorização e a saída foi mandar um e-mail ao e-mail oficial da Prefeitura dizendo que eu não estava autorizando o envio das máquinas. Eles retiraram o maquinário, mas espalharam para a população que assumi a prefeitura e estava impedindo o conserto das estradas. Fiquei em maus lençóis com minha vizinhança. Assumi, então, na quarta-feira, e por não concordar com a forma de trabalho do secretário de Adminis­tra­ção, do procurador do Município e do secretário de Finanças, eu os exonerei. Me disseram que não precisaria ter trocado os secretários, porque minha interinidade seria só por 30 dias. Mas para mim, uma assinatura, que demora apenas 10 segundos, pode transformar a vida de milhares de pessoas. Eu considerava que, naqueles 30 dias previstos para estar prefeita, era importante ter ao meu lado pessoas em que confiava, principalmente naqueles cargos-chave. Exonerei os secretários, mas só fiquei prefeita por um dia, nem tive tempo para nomear substitutos. Após a exoneração, eles já começaram movimento para que todos os comissionados e os outros secretários pedissem demissão. Fiquei sem secretários, sem funcionários. Foi uma confusão, mas não armada por mim.

Cezar Santos – O secretário de Administração, Vanderlan Celso e Silva, é uma pessoa influente…
O problema principal foi eu o ter exonerado. Acho que foi isso que fez o prefeito voltar no outro dia. As exonerações foram na quarta-feira, único dia em que fiquei prefeita e que fiquei o tempo todo recebendo pedidos de demissões. Todos os secretários me deixaram no primeiro momento. Os concursados também sumiram, foi muito complicado, porque, ao mesmo tempo, a todo momento vinha gente me cumprimentar por ter assumido.

Na hora do almoço, o secretário de Administração que eu havia exonerado entrou na Prefeitura e saiu com uma caixa de documentos. O Ministério Público, então, já entrou com ação de busca e apreensão, foi na casa dele e essa caixa nunca foi encontrada. Foi uma confusão.

Na quinta-feira foi feriado e eu passei o dia visitando a comunidade, o que foi muito bom pra mim. Na sexta-feira, cedo marquei uma reunião para contornar a crise. No Hospital Municipal, o diretor e alguns médicos, em cargos de confiança dele, pararam os serviços, por umas cinco ou seis horas. A coleta de lixo tinha parado quando assumi. Foi uma série de boicotes que eles armaram. Eu precisava tomar algumas medidas, contratar uma coleta emergencial de lixo, contratar médicos, cuidar do transporte estudantil. Eu estava reunida com três pessoas, quando soltaram um foguetório e minha sala foi invadida: o prefeito tinha voltado e aconteceu tudo o que a imprensa registrou. Nem gosto de falar sobre esse assunto, porque me deixou muito decepcionada, me achei agredida no meu direito. Eu estava como prefeita e ele (Eurípedes do Carmo) invadiu a prefeitura com um monte de gente. As pessoas me xingaram, agrediram quem estava lá. Abriram a bolsa de uma afilhada minha que tinha ido me visitar.

Fiquei presa numa salinha por mais de meia hora. O irmão do prefeito, que era deputado, conseguiu uns policiais para me escoltarem, porque os apoiadores dele estavam querendo me linchar. Foi uma situação muito difícil. Enquanto estava naquela salinha, eu pensava será que fiz tudo errado? Será que o povo se revoltou com a exoneração de três pessoas? Mas não. Isso passou, aquilo ficou no passado. E serviu para eu confirmar o que não quero ser na política.

Elder Dias – Então, em 2014, sua experiência como prefeita por pouco mais de 24 horas?
Na verdade, assumi em uma quarta-feira, quando aconteceram essas coisas. Na quinta, houve um feriado e, então, fiz visitas na comunidade e fui a um velório de uma amiga. Na sexta-feira, logo cedo, houve uma reunião para tentar contornar aquela situação. Fiquei nesse encontro por meia hora, até que soltaram foguetes na praça e o prefeito chegou. Ele disse que tinha vindo de Paris com a família e estava ali juntamente com apoiadores, inclusive o pessoal que havia pedido exoneração da Prefeitura, e também policiais. Foi complicado para mim, porque pensei “para quem eu vou ligar?”, já que a polícia tinha entrado lá com ele.

Elder Dias – Naquele momento a sra. teve a ideia de ter atingido alguma coisa dentro do sistema político em que se envolvia a Prefeitura de Bela Vista?
Na realidade, fiz o que deveria ser feito, independentemente de um dos secretários já ter sido prefeito, de estar na política há várias décadas, ser uma pessoa poderosa e influente, independentemente de os outros dois também terem influência. Mas ocorre que eu agi da maneira que achei necessária, porque não confiava neles e o secretariado precisa ser composto por pessoas da confiança de quem está no comando o que estava acontecendo.

Não poderia arriscar minha gestão – por mais curta que ela fosse, por 30 dias, com três pessoas em cargos de posição tão chave, mas nas quais eu não confiava e das quais não admiro a trajetória. Não teria como trabalhar. Sei que foi um estrago grande, na época imaginei que eles realmente não iriam aceitar tão bem, mas não pensei que fariam o que fizeram, porque foi totalmente desnecessário. Não precisavam invadir a Prefeitura. Sobre o problema da exoneração das pessoas de confiança, por exemplo, bastaria o prefeito ter me ligado para dizer “Nárcia, estou voltando de Paris, tudo bem?”. Eu responderia “tudo bem, prefeito, então que o sr. retorne.” Ou, como alternativa, ele poderia ter encaminhado um ofício à Câmara para que eu fosse notificada de seu retorno. Digo isso porque houve um procedimento para ele se licenciar, ele encaminhou um pedido à Câmara que foi votado e aprovado pelos vereadores, para que ele fosse autorizado. Isso foi publicado e eu fui notificada de sua licença. Ou esse procedimento ou uma simples ligação teria evitado o que aconteceu. Da forma com que ocorreu, me senti agredida como figura pública, como autoridade e, principalmente, como mulher, porque fui xingada de vários nomes, foi horrível. Fiquei trancada dentro de uma sala, enfim, foi muito ruim. Não precisava de nada daquilo.

Augusto Diniz – Mas como a sra. se sentiu depois?
O gestor precisa tomar decisões. Muita gente me falou que eu exonerei quem ninguém teria tido coragem de exonerar na vida, uma pessoa muito influente na cidade. E eu digo: fiz o que deveria ter feito. Se fizer o que todos fariam, vamos caminhar sempre para o mesmo lugar. O povo está cansado disso: de deixar fulano no cargo porque é importante; de deixar beltrano porque ele é poderoso; de deixar esse outro porque eu devo um favor. E sei que o preço que se paga é muito alto. O que eu paguei foi assim, perdi praticamente todos os meus amigos.

Cezar Santos – Seu partido à época lhe apoiou naquele momento, nessa história toda?
Não. Eu estava no PR e o presidente do diretório municipal era secretário do prefeito. Era uma pessoa com quem eu tinha muita ligação e é por isso que digo que perdi a maioria dos meus amigos: eu era parte desse grupo, fui eleita a vereadora mais votada de Bela Vista com eles. Na verdade, a presidente do PR em Goiás era a deputada Magda Mofatto, juntamente com seu marido [Flávio Canedo, hoje o presidente estadual do partido], não interferiu. O governador também não interferiu. Não teve ninguém que me deu apoio, ninguém. Tudo o que passei foi sozinha, junto com as pessoas de Bela Vista – tanto que depois tomei a decisão de sair do PR, não tinha espaço de forma alguma. Mesmo depois que tudo aconteceu, ninguém me ligou ou me procurou para saber do acontecido – pelo contrário, se fizeram isso foi para criticar. Depois de um ano, fui para o PTB, onde sou filiada.

Euler de França Belém – A sra., embora jovem, tem uma história na iniciativa privada, no cooperativismo. Pode nos contar um pouco dessa história?
Há mais de 60 anos, meus bisavós foram para a região do Cará e começaram a organizar uma comunidade onde se produzia polvilho. Meu bisavô era um grande cooperativista sem nem saber o que era o termo, mas suas ações demonstravam claramente isso. Lá trabalhavam em sistema de mutirões, para reformar casas dos menos favorecidos, para ajudar em casos de doenças, para os estudos de alguém. Minha família sempre foi assim, todos faziam por todos. Com 19 anos, fui presidente da cooperativa de polvilho, criada há 12 anos e que organizou a produção e os produtores, nos fortalecendo em todos os setores, inclusive para obter financiamentos. Por isso, hoje, no Cará, ocorre o inverso do que ocorre em todo o País: em vez de êxodo rural, com as pessoas saindo do campo para as cidades, temos um êxodo urbano – as pessoas estão vindo da cidade de volta ao Cará. Gente que morava lá e tinha ido para a cidade em busca de uma vida melhor, mas não conseguiu, voltou para o polvilho. Hoje empregamos gente da cidade no campo. Todos vivem da produção de polvilho e isso me dá muito orgulho. Sou defensora do cooperativismo.

“Como vice-prefeita, meu gabinete foi às ruas”

conexao.qxdCezar Santos – E como foi sua entrada na política?
Fui presidente da nossa cooperativa por um ano e meio. Uma pessoa que foi muito importante para a formação da cooperativa, Luiz Maronezi [experiente quadro do governo de Goiás, é superintendente executivo da Secretaria de Desenvolvimento Econômico, Cientí-fico e Tecnológico e Agricultura, Pecuária e Irrigação (SED)], queria um candidato de lá para ajudar a cooperativa a crescer, mas não podia impor. Minha família fez uma espécie de pré-eleição e chegou a três nomes, o meu e mais dois diretores da cooperativa. Fui escolhida com quase 70% dos votos para ser a candidata a vereadora. Foi assim o meu ingresso na vida política.

Cezar Santos – Qual foi a opção partidária?
O PR, do qual Maronezi era tesoureiro, foi uma opção natural. A escolha da minha família por meu nome para ser candidata se deu numa sexta-feira, fiquei sabendo no sábado, no domingo foi a convenção do partido, na segunda-feira já estávamos em campanha. Com o apoio do cooperativismo do Cará, fomos formando uma rede. Fui a todas as regiões de Bela Vista, mas praticamente não fiz campanha dentro da cidade; visitei 3,7 mil famílias em 90 dias. Deu certo e em 2008 fui eleita a mais votada proporcionalmente na história de Bela Vista, com quase 5% dos votos, sendo a quarta mulher eleita.

Cezar Santos – E como vereadora, como se deu sua entrada na chapa majoritária como vice do prefeito Eurípedes do Carmo para seu segundo mandato? E como se deu a ruptura depois?
Acho que me fortaleceu o fato de ter uma história no cooperativismo, o contato direto com as pessoas. Era líder do prefeito na Câmara, já que tinha sido eleita em 2008 na base dele, minha família tinha dado corpo à campanha do Eurípedes, movimentando os comícios. Ele tinha 4% das intenções de votos e conseguiu ser eleito. Estive na base do prefeito durante os quatro anos de meu mandato, mantive muito contato com ele. O prefeito disse que fez pesquisas e meu nome aparecia como o melhor para complementar as características dele, como sua vice. Eu estava tranquila, tinha total possibilidade de me reeleger vereadora, muita gente queria a vice, mas ele me convidou e aceitei.

Cezar Santos – Então vocês tinham uma afinidade política. Por que se deu a ruptura?
Fomos para a campanha e senti que ali já surgia uma espécie de ciúme. Fazíamos caminhadas juntos e as pessoas diziam que a próxima prefeita seria eu. Eu percebia que ele não gostava daquilo, e até tentava evitar essa situação. Sempre o tratei com muito respeito, sempre o tratei como “senhor”, aliás até hoje. Nosso compromisso era de que eu teria um gabinete e faria parte da gestão. Mas já na diplomação ele não me deixou usar a palavra; só falei porque o presidente da Câmara me deu um minuto de tempo. Na posse, também não me deu espaço. E empossado, ele não me deu o gabinete. Mas não posso dizer os motivos dele, não sei. Mesmo assim, frequentei a Prefeitura durante três meses, mas não tinha respaldo nenhum. Aquilo foi piorando, sempre havia um gelo, uma barreira. Não tive nenhum espaço e nunca soube o motivo. Não houve uma briga. Sempre o cumprimentei respeitosamente.

Cezar Santos – Seu crescimento político incomodou o prefeito, que se sentiu ameaçado?
Não posso afirmar isso. Morei na região do Cará a vida inteira e quando era vereadora eu tinha meu gabinete como ponto de apoio para atender as pessoas. Quando deixei de ser vereadora e não tive gabinete na prefeitura, e sem condições financeiras para montar um escritório político em Bela Vista, meu gabinete passou a ser as ruas.

Mas isso acabou sendo muito positivo para mim, porque passei a falar com as pessoas nas avenidas, nas praças, nos comércios, nas casas delas. Meu escritório passou a ser meu carro, o que acabava sendo desconfortável para, por exemplo, fazer ligações, tinha de procurar uma sombra para ter maior privacidade. Foi um momento muito difícil esse, que passei em 2013, mas também de muito crescimento para mim. Sobre os motivos dele, prefeito, não tenho como falar.

Cezar Santos – E o que a sra. de fato conquistou com esse trabalho?
Nesses quatro anos como vice-prefeita, eu aproveitei para visitar a maioria das casas de Bela Vista. Se fiz mais de 6 mil visitas, se for contar com o período de pré-campanha e campanha. É conversando com as pessoas que podemos conhecer a realidade. Eu também gosto de estudar e me preparei na parte técnica: como advogada, li muitas obras jurídicas e também estudei gestão; estudei Gestão Pública e fiz minha especialização em Direito Público. Todavia, eu sentia necessidade de ouvir o que a população desejava e isso foi fundamental para eu descobrir os principais problemas de Bela Vista.

Augusto Diniz – E quais são eles?
A falta de segurança – que, creio, é um problema da maioria das cidades, especialmente da região metropolitana – e o desemprego. São esses os temas que as pessoas mais me reclamavam, porque, do resto, elas me diziam que podiam “tomar conta”. Como eu disse, tive esse contato muito direito, que me trouxe várias ideias para o governo. Por exemplo, as mães me falavam que as creches funcionavam apenas até 16h30 e isso dificultava muito, porque elas tinham de trabalhar até as 18 horas. No Parque Las Vegas [bairro de Bela Vista], pude entender como as pessoas querem mais do poder público e elas se dirigiam a mim falando algo como “lá em Bela Vista”. Sentem-se discriminados. Temos de entender essa questão cultural, por que não se sentem pertencentes à cidade. Esses detalhes eu só poderia entender olhando de perto. Utilizei esses quatro anos para fazer essas visitas e compreender os problemas do município. Só com visitas à noite pude esclarecer para mim mesma o problema da iluminação pública. Vi que aquela luz amarela não iluminava direito e que isso contribui diretamente na falta de segurança do município. Uma rua escura ou com pontos de escuridão produz focos de insegurança, assim como a água parada produz focos para a proliferação do mosquito da dengue. Nós pedimos a uma equipe de delegados para fazer um estudo sobre a insegurança e eles falaram exatamente isto: em uma cidade limpa, iluminada, urbanizada e arborizada, onde a população tem prazer de estar nas ruas, é o bandido quem se esconde.
Hoje, em Bela Vista, o que temos é a população trancada, com medo, fazendo muro até lá em cima, colocando cercas elétricas e câmeras, enquanto os bandidos tomam conta das vias públicas. Entendo que segurança pública não é só aumentar o efetivo policial – o que, aliás, não depende de mim. Como prefeita, posso contribuir fazendo minha parte, gastando pouco dinheiro e tendo iniciativas inteligentes.

Cezar Santos – E o que a sra. vai fazer como prefeita, em busca de solucionar esses problemas?
De imediato, temos de pensar primeiramente em termos de Brasil. O País está em crise. Desde que eu fui eleita, venho participando de reuniões e cursos, com prefeitos e gestores. O que tenho visto é que o momento é de cortar gastos, de enxugar, aliando isso à questão política, o que sei ser complicado. Mas, graças a Deus, como eu não fiz compromissos com ninguém, como não pedi voto em troca de trabalho, tenho mais liberdade. Dias atrás, uma pessoa chegou até mim e disse que tinha pedido voto para mim garantindo emprego aos eleitores. Eu questionei: “Com autorização de quem você fez isso, porque minha não foi”. Aí a pessoa me disse “assim você me complica” e eu respondi, “não, você é quem fez errado”.

Por que digo isso? Porque não podemos mais fazer isso. Em Bela Vista temos 123 cargos comissionados e aproximadamente mil efetivos. A gente tem muitos, muitos funcionários (enfática). Creio que tenhamos muitos efetivos e muitos comissionados. Eu já falei que só vou começar a convocar comissionados depois de 60 dias. Isso não significa que eu vá colocar os 123 nem que eu vá chamar todos de uma vez. Preciso de um tempo para entender como está o município.

Elder Dias – Como tem sido a transição com a atual administração?
Eu indiquei três pessoas para a equipe e temos conseguido alguns dados. O problema é que não sabemos a solidez desses dados. Na campanha, eu brincava dizendo que o Portal da Transparência, na verdade, era o “Portal da Escuridão”. As pessoas riam e algumas até se ofendiam. Mas o fato é que não conseguimos acessar os da­dos, estão truncados. Se eu, que sou a­d­vogada e da área pública, não consigo a­cesso a uma determinada informação, imagine um popular. Isso está errado (enfático). Estão passando algumas informações, mas precisaremos checar sua veracidade ao assumir. Preciso saber, por exemplo, quanto teremos em caixa – um relatório financeiro que já pedi e que não passaram, aliás acho que nem vão passar. Preciso entender a realidade do município e fazer uma gestão séria para os 30 mil bela-vistenses, independentemente de quem votou em mim ou não.

Outra coisa que avisei aos companheiros, desde a campanha: eles são importantes e estarão comigo, de acordo com a capacidade técnica e a confiança que tenho neles, mas de acordo também com as condições do município. Isso porque não adianta a Prefeitura de gente agora e depois ter de demitir, é pior. Por isso, pedi um prazo e estou conversando com alguns secretários, pedindo para que, em relação ao ano passado, a gente consiga fazer uma economia de pelo menos 20% em cada pasta – seja em material de limpeza, em gêneros alimentícios, em combustível etc. Pre­cisamos economizar. Vão dizer que não tem como, mas tem, sim. Basta usar o dinheiro com consciência.

Elder Dias – Mas como fazer isso com o serviço público?
Quero implantar isso na cabeça dos servidores, por meio de uma força-tarefa. Vou contar principalmente com os concursados. Precisamos entender que somos responsáveis, o governo está aí fazendo ajuste fiscal e eu sinto que os repasses vão ser reduzidos. Em contrapartida, a população está desempregada e o desemprego está só aumentando. As pessoas não estão tendo capacidade de pagar os tributos, então qual será a mágica? Não há, além de economia, economia, economia. Enfim, cortar custos, encontrar uma forma de aumentar a arrecadação sem criar novos tributos e sem aumentar os já existentes.

Como fazer isso? Incentivar o comércio local e utilizar a beleza de nossa cidade. Bela Vista tem esse potencial de se tornar uma cidade-jardim. Visitei lugares lindos, como Campos do Jordão (SP) e Gramado (RS), e vi o quanto isso é importante para a qualidade de vida da população e para a valorização da cidade. Quero criar um parque ecológico na cidade para poder receber o ICMS Ecológico. Para isso, temos condições de criar esse equipamento público, além de arborizar a cidade e fazer com que nossos cidadãos se sintam bem. Da mesma forma, os cidadãos das cidades vizinhas – os de São Miguel do Passa-Quatro –, que já resolvem quase tudo em Bela Vista. Quero trabalhar junto ao Estado para levar serviços públicos essenciais, para tornar de vez nosso município como polo. Se as pessoas das cidades vizinhas começarem a nos frequentar mais, vamos movimentar nosso co­mér­cio local e vamos gerar novos prefeitos. Como vice-prefeita, consegui a agência do Sebrae, mas não a implantamos porque a Prefeitura não quis ceder uma sala e dois funcionários.

Cezar Santos – A iniciativa não foi encampada como deveria?
Não foi. Eu acredito na força do empreendedorismo, porque eu mesma me considero uma pessoa empreendedora. A gente precisa apostar. Bela Vista é uma cidade empreendedora. Quando fui diretora da Associação de Jovens Empresários e Empreendedores do Estado de Goiás (AJE Goiás) há dois anos, levamos para Bela Vista o programa Minha Primeira Empresa. O programa foi levado para cidades do Estado todo, mas Bela Vista foi a cidade recordista no número de inscritos. Por quê? Porque o povo de Bela Vista é genuinamente empreendedor. Lá, alguém abre uma oficina; se não der certo, vai procurar uma sorveteria. O bela-vistense quer em­pre­ender, quer fazer. Têm pessoas que têm crescido. Temos uma grande empresa, que é o Leite Pira­canjuba, que precisa de apoio. A Josidith [granja] precisa de apoio. Mas temos também os pequenininhos que não têm incentivo. Muitas vezes a gente quer trazer indústrias de fora sem pensar que na cidade a gente tem o potencial.

Está na moda agora — e as pessoas têm se conscientizado mais da importância disso — se alimentar melhor, com produtos orgânicos. Em Bela Vista é tudo fatiado. A maioria das propriedades são pequenas, como na região do Cará. São mais de 3 mil propriedades pequenas de produtores rurais. Para gerar empregos no campo, eu preciso incentivar essas pessoas na produção de gêneros orgânicos, hortaliças, e criar uma grande cooperativa para movimentar nossa economia.

De 3 mil propriedades, digamos que mil aceitem esse desafio. Se cada uma gera um emprego, temos mil empregos, o que equivale a uma grande empresa. Acredito muito na força desse trabalho de formiguinha. Sei que levar uma grande empresa para Bela Vista nesse momento de crise não vai ser algo fácil. É um foco que eu tenho, mas mais em médio e longo prazos. Em curto prazo, acredito nessas medidas, no trabalho de união das pessoas da cidade e, claro, não esquecer de buscar apoio fora.

Nesse sentido, estou muito tranquila, porque tenho o apoio do deputado Jovair Arantes (PTB), presidente do meu partido, que me deu total apoio em minha campanha. Hoje me sinto parte de um partido, sinto que estou no lugar certo, no qual eu sou respaldada. Jovair é uma pessoa muito influente, responsável e que tem influência não só no Estado, mas no Brasil para ajudar a nossa cidade.

A deputada Eliane Pinheiro (PMN) é companheira de primeira hora, briga pelo município, tem total ligação no governo em todas as áreas. Isso vai ser muito importante. Cada vereador eleito tem seu deputado. A gente vai buscar uma força tarefa, com todos. O momento não é político, de partido, mas sim de todo mundo se unir e pensar em Bela Vista.

Cezar Santos – E como foi sua coligação para a Câmara de Vereadores de Bela Vista?
Nós tiramos água de pedra. Eu sempre acreditei na minha vitória porque a gente fazia pesquisas. Mas todo mundo falava que eu não ganharia a eleição. Meu grupo de vereadores era composto por pessoas da minha convivência, das minhas visitas. São pessoa que nunca tinham entrado na política. Tivemos no máximo dez candidatos que já tinham sido candidatos a vereador. Os outros 56 eram pessoas novas que, para os outros políticos, não tinham valor. Eles riam de mim e falavam “ih, você não vai eleger um vereador”. Mas a gente montou as coligações de um jeito tão certinho que, com um bom trabalho, seria possível eleger vereadores com 400 votos. E a gente conseguiu isso.

Elder Dias – Bela Vista tem quantos vereadores?
São 11 vereadores e conseguimos eleger 5 deles. Eles (grupo do prefeito) elegeram seis. Só que eles tinham tudo: poder, influência, dinheiro. A nossa campanha foi muito simples.

Elder Dias – Sua coligação tinha quantos partidos, em relação à apoiada pelo prefeito?
Doze partidos, contra, se não me engano, nove. Eu tinha mais partidos, mas alguns de estrutura bem pequena, com duas candidaturas, como o PV. Eles tinham partidos fortes e com muita gente, tinham os melhores candidatos. Tanto que eles elegeram dois vereadores com 800 votos, vereadores com 700 votos e 600. Nós elegemos quatro com menos de 400 e uma vereadora apenas com mais de 400.

Elder Dias – E como foi sua campanha?
Apostamos em uma campanha diferente. Nós não usamos foguete em nenhum momento, nem mesmo na vitória. Não usamos carro de som, não fizemos carreata e não fizemos comício. Eu fiz uma campanha de visitas, já a partir da pré-campanha, reuniões, caminhadas e redes sociais.

Cezar Santos – O prefeito a cumprimentou pela vitória?
Ainda não.

Augusto Diniz – A sra. citou que quer gerir o município de forma enxuta. E sua arrecadação de campanha já mostra isso, pois ficou abaixo de R$ 500 mil.
Foi bem abaixo disso. A gente conseguiu doação de aproximadamente R$ 150 mil em dinheiro. A maior parte dos recursos da campanha veio de doações voluntárias. A gente tinha equipes de pessoas trabalhando, só que isso contabiliza como se fosse uma doação em dinheiro, mas não foi. Nossa campanha foi muito barata.

Euler de França Belém – Qual é o orçamento da Prefeitura pra o próximo ano?
Aproximadamente entre R$ 6 milhões e R$ 7 milhões. Nossa perspectiva mensal é essa.

Euler de França Belém – Com esse dinheiro, o que será prioridade na sua gestão? Há alguma emenda direcionada para Bela Vista no orçamento da União?
Que a gente tenha conhecimento, ainda não. Antes de pensar em investir, eu preciso saber qual a real situação do município de Bela Vista.

Euler de França Belém – Na transição, a sra. ainda não recebeu todos os dados do município?
A gente tem pegado alguns dados, mas não é possível ter certeza da veracidade. Eu não sei qual a situação econômica, quanto dinheiro tem em caixa. O que vai ser prioridade para mim são os principais problemas da cidade – falta de segurança e desemprego são os principais problemas da cidade. Quero continuar pagando o banco de horas, para que tenhamos um apoio policial, continuar com o convênio que temos com a secretaria de Segurança Pública e pagar a folha em dia, manter a cidade limpa e bem iluminada. De início será isso, até que eu saiba o que preciso fazer.

Eu poderia dizer aos senhores que começarei construindo e fazendo tudo de uma vez só, mas seria demagoga. Preciso antes entender a realidade financeira do município. Neste momento de crise, como o próprio governador falou em reunião conosco, se fizermos o mínimo, que é comprar e pagar em dia, manter a cidade limpa e iluminada, com um transporte estudantil de qualidade e funcionando os hospitais – o que se resume em bom funcionamento dos serviços essenciais –, já é uma grande vitória, visto o que o País tem enfrentado.

É preciso deixar a casa organizada e oferecer os serviços com qualidade. É preciso enxugar a máquina, para então decidir o que fazer. Nós temos um plano de governo que será transformado em uma agenda estratégica, para que executemos tudo que prometemos na campanha – e vale ressaltar que, para mim, prioridade é o que vem da população em determinado momento. Se eu tenho recurso financeiro e tenho o plano de fazer uma creche, mas se, naquele momento, o que preciso é investir na saúde, por demanda da população, é na saúde que investirei. Precisamos trabalhar sempre com a participação da população.

Elder Dias – Como a sra. vê o atual cenário político nacional?
O Brasil passa por uma crise política, econômica, moral e ética. O povo está cansado e já não suporta mais tudo o que está acontecendo. Eu vejo da seguinte maneira: alguns políticos estão fazendo a coisa errada e deixam de pensar naquele eleitor que está em casa e que será influenciado pelas leis que serão aprovadas. Por exemplo, como vou aprovar uma lei sobre Previdência sem ouvir a pessoa que precisa da aposentadoria lá na frente? Esse é um problema muito grande e que nos deixa triste, mas vejo isso da seguinte maneira: em meio a tanta confusão, é preciso ter uma consciência maior e lá em Brasília, tenho certeza, existem políticos que pensam nisso.

Peço a Deus que interceda e melhore a situação. O que não dá é o povo continuar sofrendo. Um delator da Odebrecht já destruiu o mundo, imagine quando vierem os outros – são mais de 70. Mas acho que isso tinha de acontecer em algum momento. Não podemos mais aceitar uma pessoa ter uma vida de luxo tirando do povo. E não tem como isso acontecer sem haver sofrimento. Como gestor, devemos fazer nossa parte aqui, no local; fazer a diferença aqui, onde a gente vive. Se cada um fizer sua parte, acredito que o Brasil pode melhorar.

Euler de França Belém – A sra. pretende centralizar sua administração, para ter um controle maior e obter uma redução da corrupção?
Para fazer corrupção, hoje não alteram o valor, porque tem controle, mas sim a quantidade. Então, é preciso ter um departamento de compras muito sério e eficaz, com pessoas honestas. Vamos centralizar, na secretaria de administração, o setor de compras, obedecendo todo o processo licitatório. São atitudes que tomaremos para impedir que aconteça esse tipo de coisa. Se acontecer, vamos punir a pessoa, dentro da lei.

Euler de França Belém – A cidade tem hospital municipal?
Sim, nós temos um, com o qual estou preocupado. Eu já o visitei e farei uma nova visita com uma equipe técnica, pois ele foi reformado, mas somente em sua parte interna. Um dia eu estive lá com minha avó internada, como vereadora ainda, o telhado desabou por conta de infiltração de água. Há lá uma demanda urgente de reforma.

Euler de França Belém – Mas a saúde tem funcionado?
Sim, funciona relativamente bem, se comparada aos demais municípios. Mas temos funcionado no limite. É preciso manter a equipe que está lá. Aliás, é a única secretária em que fiz exceção à regra de contratar depois de 90 dias, pois a saúde não para. Nela, contrataremos os médicos e enfermeiros, pois não pode parar. Os cargos comissionados que deixarei para contratar depois não são tão essenciais de imediato.

Euler de França Belém – Bela Vista é uma cidade-dormitório, tanto que o ônibus para Goiânia passa superlotado na GO-020. As pessoas vêm à capital a trabalho ou para estudar. Os Cmeis [centros municipais de educação infantil] são suficientes ou a sra. pensa em construir algum mais?
Nós temos três e planejamos construir mais um, para atender a região do Residencial Vitória, onde foram feitas muitas casas populares e tem demanda. Se construirmos mais um CMEI isso será suficiente, de acordo com estudos realizados por companheiros. Um dos principais desafios que tenho como gestora é diminuir o quantitativo de pessoas nos ônibus, fazer com que as mulheres do município fiquem lá. Quero muito gerar emprego para as mulheres da nossa cidade. A atual gestão investiu em curso de corte e costura e conseguiu formar mais de mil mulheres, mas não conseguiu levar confecções para o município e creio que isso seja fácil de resolver. Eu mesma já tenho conversado com empresários e conseguiremos, sim, desafogar os ônibus e dar mais dignidade a essas mulheres que, trabalhando fora, chegam tarde a Bela Vista, gerando problemas, como o funcionamento da creche até às 16h30. Muitas ganham salário mínimo e pagam 300 reais para que alguém olhe suas crianças; então, elas acabam deixando de trabalhar e, assim, de produzir. Como mulher, não posso me esquivar disso – eu sou a primeira prefeita mulher da cidade.

Euler de França Belém – A sra., então, dará atenção especial às mulheres?
As mulheres abraçaram a minha campanha e a luta delas no município é muito grande. A vereadora Ludmila Peixoto (PDT), quarta vereadora da história do município, está gravida e ganhará bebê agora em dezembro ainda. Conversei com alguém que chegou a dizer que ela não poderia nem se candidatar à presidência da Câmara, pois “mulher ‘barriguda’ tem é de cuidar do filho”; isso foi dito a mil por uma pessoa que me apoiou, dentro da casa dela. Eu falei “o quê!?”, e a pessoa reafirmou. Nessa frase, vemos o machismo impregnado ainda muito fortemente impregnado.

Euler de França Belém – Ela será candidata à presidência da Câmara?
Ludmila não se candidatará não por conta da gravidez, mas sim por ser o primeiro mandato dela. Ela é veterinária, superdinâmica e extremamente determinada, vai desenvolver um trabalho muito bonito e, isso, sem nem pedir licença. E, ao ouvir o que ouvi, eu me motivei mais ainda a lutar para inserir a mulher na sociedade como ela merece. Não somos melhores que os homens, nós só queremos os mesmo direitos que eles. Imagine, dizer algo assim de uma vereadora, como pode?

Euler de França Belém – A sra. tem apoio do deputado Jovair Arantes, que é do alto clero em Brasília e que pode ser até presidente da Câmara. Jovair tem R$ 15 milhões de orçamento para repassar como emenda às prefeituras. A sra. tem algum projeto que possa receber verbas dessa forma?
Sim, e Jovair esteve em nossa campanha fazendo um compromisso conosco – inclusive, gravado em vídeo. “Elejam a Márcia prefeita que eu darei um hospital materno infantil a vocês.” E o pedido que eu tinha feito a ele era para uma clínica de saúde da mulher, uma proposta nossa de campanha que está no plano de governo. Queríamos uma clínica específica que fizesse ultrassom e contasse com todos os profissionais ligados a saúde da mulher, para prover esse atendimento especial. Mas Jovair foi além, e estando acompanhado do ministro da Saúde [Ricardo Barros (PP-PR)]. Não sei se terá condições de empenhar essa emenda ainda neste ano ou no ano que vem, mas sei que empenhará, sim. Além disso, Jovair está aberto e disposto a buscar recursos onde puder a fim de ajudar nosso município. Nós temos conversado sobre alguns problemas, mas – o que entendo que por conta das articulações em torno da presidência da Câmara –, ele anda com a agenda travada. O deputado está lutando para exercer um dos cargos mais importante do país, o que será muito bom para Bela Vista e para o Estado, se ele conseguir.

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Euler de França Belém – Os prefeitos que têm conversado com Marconi, saem da reunião com algumas promessas já para 2017. Em sua conversa com ele, a sra. já pediu algo?
Sim, nós pedimos ao governador – e ele se comprometeu a atender – uma sede da UEG. Ele me disse para procurar o reitor e, depois, construirá a sede na cidade, o que é um sonho da cidade. Pedimos ainda o asfaltamento, cujo recurso será repassado para a maioria dos municípios, inclusive para nós, já que é uma demanda grande por conta das chuvas. Eu não entendo porque os asfaltos no País duram apenas dez meses e, nos Estados Unidos, por exemplo, ele dura dez anos.

Quero buscar o apoio de faculdades de engenharia para desenvolver um estudo e que nos dê assessoria para ver o que podemos fazer para ter asfaltos de qualidade. Algumas pavimentações inauguradas pelo prefeito durante a campanha – por exemplo, na região da Mata Feia –, já se dissolveram por conta da chuva. Asfalto é urgente.

Euler de França Belém – A USP [Universidade de São Paulo] tem desenvolvido um estudo, experimental ainda, que tem como base o concreto e que dura até 60 anos ou mais.
O prefeito de Vianópolis [Issy Quinan Junior (PP)] me deu uma sugestão. Com uma aprovação alta no município e sendo meu amigo, disse que a própria prefeitura foi quem fez o asfalto. Isso com parcerias e muito mais barato que com empreiteira, um asfalto de melhor qualidade. Eu já tive uma conversa preliminar e sentaremos outra vez para buscar junto ao secretário de Obras para realizar isso. Gerará economia e uma melhor satisfação a população, pois você sonha com asfalto e ele se vai com a primeira chuva. Outra coisa ridícula é o tapa-buraco; você tapa hoje e, amanhã com outra chuva, já se foi. É jogar dinheiro no ralo.

Euler de França Belém – Quanto a questão da habitação, a sra. irá atuar nessa área? Os municípios tem um problema muito sério com isso.
Bela Vista de Goiás está com uma situação até tranquila, pois foram construídas muitas casas e até mesmo ontem, a pessoa que será nomeada secretária de Ação Social me enviou um dado de que 21 casas serão entregues em janeiro e que, com um estudo feito com os cadastros de famílias que têm demanda, buscaremos resolver junto ao governo estadual e federal. Com ele, percebemos que não é um problema grande para cidade. O maior problema é a falta de segurança e o desemprego. Claro, existem pessoas que moram de aluguel e sonham em ter uma casa, mas isso não chega a ser um problema equiparável ao desemprego ou a melhorias que podem ser feitas na saúde e/ou educação.

Euler de França Belém – E quanto à educação?
A nossa cidade está muito bem na área de educação. O professor Altamiro Gomes foi secretário durante oito anos e desenvolveu um grande trabalho, recebeu prêmios até nacionais em reconhecimento ao trabalho dele frente à secretaria e com a equipe. Temos uma educação muito boa. Existe uma escola rural, na região da Matinha e que funciona muito bem; os demais alunos vão do meio rural para cidade. Quando eu tinha 17 anos, no mandato do prefeito Marcos Teles, fecharam as escolas rurais e eu até manifestei como estudante para tentar reabrir, mas não conseguimos. Nisso, criou-se a cultura de meninos da fazenda que querem estudar na cidade; a única escola que conseguimos manter foi a da Matinha, que não foi fechada na época – todas as outras foram. A escola da Matinha é para mim a “menina dos olhos”, pois eu considero importante que a criança que mora no meio rural tenha convivência ali por mais tempo.

Euler de França Belém – Quanto à produção, o que pode ser potencializada pela prefeitura por meio do Estado?
Bela Vista é uma das maiores bacias leiteiras de Goiás e tem o programa Balde Cheio, em parceira com o Senar [Serviço Nacional de Aprendizagem Rural], desenvolvido na cidade. É preciso investir nele um pouco mais. Existe uma técnica apenas responsável pelo programa, e ela não consegue atender todas as propriedades rurais da cidade, no máximo 50 produtores. Se colocarmos mais um técnico, apoiando-a, atenderemos um número maior. O programa consiste em aumentar a produtividade do leite, pois a maioria dos produtores rurais está sofrendo, sobrevivendo apenas – é o que vejo em reuniões em cooperativas, associações e até em visitas com eles. Eles não estão conseguindo ter lucros. E o programa preenche essa lacuna, pois o técnico ensina a como produzir mais gastando menos.

Tem produtor que consegue um preço de custo de R$ 0,84; outros têm um preço de custo de R$ 1. Por que a diferença? É aí que entra o técnico para facilitar. Precisamos profissionalizar. O produtor rural, em nossa gestão, não poderá ser tratado como aquele coitadinho que trabalha o dia todo e não tem tempo para ir à Prefeitura. Ele deve ser tratado como empreendedor rural, porque ele gera riqueza, tanto que 60% do PIB da nossa cidade vêm do meio rural. Por que a sucessão familiar está complicada, não apenas em Bela Vista? Porque o jovem não consegue ganhar dinheiro no campo. Quem consegue ganhar dinheiro no campo permanece lá. Eu permaneci, meu irmão também, assim como toda minha família. Vivem da produção do polvilho. Então, acredito muito nessa força do associativismo e do cooperativismo. Quero levar isso para as outras regiões da nossa cidade, porque, assim, os jovens que deixaram os pais trabalhando na terra vão acabar voltando. A agricultura familiar é a saída. Programas como o Balde Cheio e parcerias com a OCB/Sescoop [Sindicato e Organização das Cooperativas Brasileiras no Estado de Goiás (OCB-GO) e Serviço Nacional de Aprendizagem do Cooperativismo no Estado de Goiás (Sescoop-GO)], que cuida do cooperativismo goiano, vão ajudar muito a fomentar o que temos de melhor.

Euler de França Belém – A sra. falou sobre o parque ecológico. Onde ele será construído?
No centro da cidade, às margens do lago. Temos uma área muito boa lá, um lago que foi construído nesta gestão, mas que é uma conquista nossa, pois quem conseguiu emenda para a obra fomos eu e mais três vereadores, com o então deputado federal Sandes Júnior (PP). Fomos até Brasília e conseguimos o recurso. O lago era um sonho de Bela Vista e hoje é o ponto turístico da cidade. Agora, nós vamos ampliar e construir o parque. Já existe um projeto e estamos estudando como vamos fazer isso gastando menos.

Euler de França Belém – Como é o saneamento básico da cidade?
Em seu mandato, Eduardo Campanhã [ex-prefeito de Bela Vista] apostou muito na estação de tratamento de esgoto e, agora, na gestão de Eurípedes do Carmo, foi inaugurado o aterro sanitário. Essa parte de esgoto e saneamento está relativamente boa, mas não podemos esquecer que existem ruas que ainda não contam esse serviço, então precisamos investir. Porém, esse não é o maior problema da cidade.

Euler de França Belém – Então, não há problemas em relação ao fornecimento de água?
O nosso maior problema em relação à água é que estão destruindo as nascentes. Precisamos fazer um trabalho muito forte em relação a isso. Dentro da cidade, nós temos problema com o fornecimento de água. Em algumas quadras, no Parque Las Vegas, por exemplo, não há água nem se furar um poço artesiano. Então, precisamos resolver esse problema buscando outras fontes. Temos a represa do Las Vegas 2 e pensamos em buscar água lá para abastecer a todos. O que aconteceu foi que em Bela Vista houve uma expansão muito rápida. Nos últimos oito anos, a cidade ganhou mais de 7 mil habitantes e essa questão da água não foi uma preocupação. Convidei um ambientalista para nos ajudar e ele está fazendo os estudos. Acreditamos que vamos resolver a questão com parcerias público-privadas, pois precisamos principalmente do auxílio dos produtores rurais para proteger as nascentes. Já temos alguns projetos desenvolvidos, mas ainda muito pequenos.

Euler de França Belém – Quais livros mais influenciaram sua vida?
Dediquei a minha vida a ler livros jurídicos, a estudar gestão. Li poucos livros literários. Um que me marcou foi “Ensaio Sobre a Cegueira”, de José Saramago, porque mostra o que o ser humano é capaz de fazer quando fica isolado. Nesse livro, tudo começa com um sinal, quando uma luz atinge o olho de alguém, que fica sem enxergar. E isso começa a acontecer com outras pessoas, que são fechadas em uma espécie de hospital ou clínica. E lá começa a acontecer muitas coisas. Em momentos de dificuldade, o ser humano é capaz de muitas coisas. Por exemplo, racionamento de alimentos. Algumas pessoas têm a capacidade de tomar do outro e deixá-lo passar fome. Já outras querem dividir, compartilhar.

Euler de França Belém – E filme?
Fico emocionada com todos os filmes que vejo (risos). Amo “O Poderoso Chefão”.

Euler de França Belém – Um político inspirador.
O governador Marconi Perillo, gosto muito dele.

Euler de França Belém – E uma política?
Eu gosto de Michele Obama [primeira-dama dos Estados Unidos]. Considero que ela seja uma política, embora ela não tenha tido mandato. Gosto do trabalho dela.

Euler de França Belém – Um cantor?
Roberto Carlos.

Euler de França Belém – Cantora?
Elis Regina.

Euler de França Belém – E qual seria uma pessoa inspiradora de Bela Vista?
Gilberto Mendonça Teles [escritor].

Euler de França Belém – Falando nisso, e a biblioteca que Gilberto Mendonça Teles doou para a cidade, com quase 20 mil exemplares?
O atual prefeito apenas juntou os livros no prédio onde era a antiga Câmara Municipal, que foi reformada. Mas teve uma chuva que molhou muitos dos livros. No nosso plano de governo, falamos em realmente fazer uma biblioteca à altura de Gilberto Mendonça Teles.

Euler de França Belém – E qual o seu hobby?
Assistir séries, fazer pilates – apesar de isso não ser exatamente um hobby (risos) – e de conversar sobre política e outros assuntos. Na verdade, sou uma pessoa de poucos hobbies.

Euler de França Belém – Quais séries a sra. gosta de ver?
“House of Cards”, “3%” e “Scandal”. São as séries mais ligadas a política.

Euler de França Belém – Como a sra. pensa que estará Bela Vista daqui a quatro anos, depois de sua gestão?
Quero que Bela Vista seja uma cidade-jardim, uma cidade limpa, e que combine realmente com seu nome. Que quando as pessoas cheguem a vejam iluminada e com os serviços públicos funcionando. Se alguém for a um posto de saúde, que ela tenha atendimento; no hospital, também. Quero que haja remédio na farmácia e que todas as pessoas estejam trabalhando e produzindo. Quero que o produtor rural deixe de “sobreviver” e viva bem no campo. Que os bela-vistenses tenha orgulho de viver em nossa cidade, que, no meu desejo, será uma cidade polo, congregando os muni­cípios vizinhos.

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