“Será muito difícil tirar o governo das mãos de José Eliton”

Senador-empresário conta que se apaixonou pelo mundo da política e que não disputará outra coisa no próximo ano que não seja a reeleição

Fernando Leite/Jornal Opção

Wilder Morais é novo na política. Está em seu primeiro mandato, embora antes já tivesse sido secretário de Estado (Infraestru­tura) com o governador Marconi Perillo (PSDB) e ter atuado na gestão da Celg. Nada, porém que se compare ao convívio com o ar de Brasília. Na entrevista ao Jornal Opção, seus olhos brilharam ao falar do que conquistou com o mandato. E isso vai muito além do poder em si. “É muito gratificante chegar a uma cidade e ver ali, funcionando, algo pelo qual a gente trabalhou. Não me vejo mais como a pessoa que eu era antes”, revela.

Da mesma forma, o presidente estadual do PP não se vê disputando outro cargo que não seja novamente o de senador. Ele reconhece que a disputa será grande pelas duas vagas da base aliada. Ele não foge da luta, porém. “É como uma Corrida de São Silvestre, não importa muito quem está na frente agora, mas quem vai chegar. Vou me colocar bem ali pela metade do caminho e manter uma velocidade constante, trabalhando muito, para receber a recompensa lá na frente”.

Sua proximidade com o presidente Michel Temer foi algo praticamente natural, ao contrário do que ocorria com a ex-presidente Dilma Rousseff (PT), de quem ele conta que nunca chegou nem mesmo a apertar a mão — confirmando, assim, a fama da petista de ser arredia ao trato político.

Euler de França Belém — O sr. se coloca como candidato à reeleição. O que diria ao eleitor como motivo para ter um novo mandato?

Tenho cinco anos e meio de Senado e vou ficar mais um até o fim do mandato. Não continuar é algo como parar depois de ter passado por um curso, por uma pós-graduação e de ter aprendido tudo o que aprendi, e mostrando resultados — nós ajudamos todos os municípios de Goiás. Sou empresário, tenho desprendimentos que talvez outros não tenham, pois não preciso de nada do governo, nem uso nada do governo. Deixei até minhas empresas, literalmente, para ajudar meu Estado. E o que me motiva hoje é ser senador, mostrar resultados efetivos, ajudar as pessoas e ver as coisas acontecendo. Vim de uma cidade do interior e é gratificante poder fazer isso. Não poderia fazer isso na iniciativa privada.

Euler de França Belém — Há sempre especulações nos jornais de que, apesar de o sr. se dizer firme na postulação à recondução ao Senado, pode vir aí uma candidatura a vice-governador ou ser suplente de Marconi Perillo. Seu único projeto é mesmo o Senado?

Não disputo outra coisa, só disputarei outra coisa. Vou trabalhar até o último minuto para disputar o Senado. (enfático)

Augusto Diniz — O retorno à política, como filiado ao PTB, e a tentativa de rever os direitos políticos por parte do ex-senador Demóstenes Torres, de quem o sr. herdou a cadeira como primeiro suplente, atrapalha suas pretensões de alguma forma?

Não, até porque tudo o que Demóstenes está fazendo é legítimo. Eu era suplente dele e não gostaria de ter chegado ao Senado nas condições em que entrei. Quando fui para a política eu tinha o projeto de montar um grupo, de ser prefeito, governador. Portanto, vejo como legítimo que ele busque seus objetivos. E não é só ele — têm Lúcia Vânia (PSB), Roberto Balestra (PP), Magda Mofatto (PR), João Campos (PRB), Vilmar Rocha (PSD), entre outros. Tem mais candidato ao senador do que qualquer outra coisa (risos). Com a habilidade natural do governador e do vice-governador José Eliton (PSDB), lá na frente, com tempo, vamos ver o que vai prevalecer. No momento, vale sim brigar por espaço. E eu estou assim, minha briga é por meio de meu trabalho, o qual vou intensificando cada vez mais. Que os outros façam também, lá na frente a gente se encontra e decide.

Euler de França Belém — O PP está pacificado em relação ao deputado federal Roberto Balestra?

Sempre esteve pacificado. Balestra sempre foi o deputado de minha família, aquele que representa minha cidade. Portanto, ele tem todo o direito de fazer qualquer pleito. Ocorre que eu estou no Senado, já estou senador. Então, creio que, tanto para mim como para Lúcia Vânia, é justo buscar uma reeleição.

Tenho feito meu partido crescer desde quando assumi a presidência. Com a entrada de Blairo Maggi (MT), ganhamos mais um senador para o PP e conquistamos mais um ministério (da Agricultura) e nos fortalecemos. No jogo político, isso é importante. Não fui eu quem inventou essas coisas, é da conjuntura política. E, se formos pensar no partido, a ação foi certa.

Augusto Diniz — O que aconteceu de fato no PP quando Balestra chegou a anunciar que não seria candidato no próximo ano, decisão da qual ele voltou atrás?

Não participei desse episódio, mas um grupo de prefeitos queria saber a posição dele. Naquele momento, ele até desistiu, mas, para nós do partido, independentemente do que ele almeje, se ele ficar fora isso seria muito ruim. Se ele não concorrer, podemos perder uma vaga de deputado federal, o que é sério para nós, porque o fundo partidário é contabilizado pelo número de cadeiras na Câmara, não no Senado.

Patrícia Moraes Machado — Como o sr. viu a crítica da oposição ao governo estadual sobre a filiação de prefeitos ao PSDB?

Na verdade, eu tive um irmão prefeito e hoje convivo com 246 prefeitos. Eles não têm recursos para praticamente nada. Se não houver o cuidado dos parlamentares, do governo federal e do governo estadual, nenhum prefeito fará nada em sua cidade. O programa Goiás na Frente foi elaborado sem nenhuma preocupação política, até porque beneficia todos os 246 municípios. Claro que a convivência, a atenção, o cuidado, essas coisas vão rendendo frutos.

Creio que a oposição se distanciou muito dessas bases no interior, principalmente com a presença de Iris Rezende (PMDB) à frente da Prefeitura de Goiânia e com Maguito Vilela (PMDB) dando prioridade a Aparecida de Goiânia. Como são os maiores líderes do partido e têm essas tarefas mais centralizadas, não tiveram como estar nesses locais mais distantes, deixaram de conviver diretamente com os prefeitos, que acabam se sentindo um pouco abandonados. Quando chega alguém atendendo com carinho, é natural que ocorra uma aproximação.

No meu caso, não negocio apenas emendas para os municípios: eu também ajudo em cadastro em vários programas nos ministérios, procuro cooperar com todas as questões em Brasília. Muitos deles, então, acabaram por aderir naturalmente à base aliada e a maioria ir para o PSDB.

“É difícil ter um governo com tantas realizações como os de Marconi Perillo. e José Eliton Tem trabalhado no mesmo ritmo do governador”

Euler de França Belém — José Eliton é o candidato da base à sucessão estadual. Se ganhar, serão 24 anos de poder, um feito inédito em Goiás. Fala-se muito em “fadiga de material” na política. O que o sr. vai dizer ao eleitor para pedir que ele vote no candidato a governador nessas condições?

É simples fazer isso. É muito difícil ter um governo com tantas realizações como os da era Marconi Perillo. Não há qualquer outro político na atual conjuntura que conheça tão bem o Estado e esteja tão bem preparado a ponto de dar continuidade no que é um sucesso. Então, pra que mudar? Se estivéssemos em uma condição de desastre administrativo, teríamos de ter outro discurso e até outro nome. Mas José Eliton esteve no primeiro governo [o terceiro de Marconi, de 2011 a 2014], integrou e comandou o trabalho de várias pastas e áreas. Tem trabalhado efetivamente no mesmo ritmo do governador, então não tem como dizer que ele não tenha condição de tocar o Estado. Trocar esse comando por qualquer outro nome seria muito prejudicial ao Estado. Eu acredito que, por tudo isso, José Eliton tem todas as prerrogativas para fazer um grande governo.

Euler de França Belém — A base tem PP, PTB, PSD e PSB como partidos aliados. Todos seguirão unidos a ela?

O que eu digo é que quem tem conta corrente com todo mundo não é nem José Eliton, mas nosso governador. Tenho certeza de que lá na frente, ele vai dar conta de conduzir da melhor forma esse processo, chegando a um bom acordo. Hoje eu cheguei a ouvir que vai depender das pesquisas, algo assim, mas vai depender também da capacidade e do que o povo pensa. Nem sempre quem tem o menor índice nas pesquisas agora terá menos chances lá na frente. A disputa pelo Senado é como uma Corrida de São Silvestre, não adianta sair na frente, quem dispara agora nunca chega em 1º lugar. Estou entrando na caminhada, me colocar bem ali na metade do caminho e manter uma velocidade constante, trabalhando muito, para receber a recompensa lá na frente.

Euler de França Belém — O sr. teme a candidatura de Jorge Kajuru (PRP) ao Senado?

Não tenho por que temer ninguém. O que tenho é de fazer minha parte e da mesma forma será com cada um de seu jeito. Estou aprendendo agora, mas descobri que, na verdade, fui político a vida inteira, porque sempre gostei de conviver com as pessoas. Faço política de resultados. Lá na frente vou prestar contas de tudo e mostrar que, estando por pouco tempo, fiz tanto e tanta gente teve muito mais tempo e não fez quase nada em comparação ao que eu consegui. Estou animado, porque ainda tenho mais de um ano para mostrar muito mais coisa.

Augusto Diniz — Em 2010, a chapa majoritária do governo tinha três grandes puxadores de voto: Marconi Perillo, ao governo, Demóstenes Torres e Lúcia Vânia, ao Senado. José Eliton terá aí seu primeiro grande desafio?

O que eu digo é que é impressionante o que ele e o governador têm feito em suas caminhadas pelo interior. E a maioria de nós veio de lá. O interior é muito forte na política, tem reflexo muito grande na capital. O programa Goiás na Frente mexe com a economia do Estado. Tem canteiro de obra em todo município, alguns com mais, outros com menos, sem distinção de partido. Por isso tudo, acho que será muito difícil tirar o governo de José Eliton.

Euler de França Belém — O sr. trabalhou bastante para viabilizar um empréstimo do governo federal de R$ 600 milhões para Goiás. Como está hoje essa negociação?

Esse empréstimo já saiu em uma primeira parte, de R$ 300 milhões e a outra metade já está sendo assinada. Por coincidência, liguei para Gilberto Occhi [presidente da Caixa Econômica Federal e ex-ministro da Integração Nacional] e vemos que o governo está tentando também renegociar a questão da folha de pagamento. Não só o governo de Goiás, mas o Tribunal de Justiça (TJ-GO), para ambos eu estou tentando intermedias as duas contas com a Caixa.

Euler de França Belém — Esse montante será aplicado exatamente em quê?

Será para o programa Goiás na Frente. Parte do dinheiro será para concluir rodovias estaduais e parte para construir moradias populares.

Patrícia Moraes Machado — Dias atrás, o senador Ronaldo Caiado (DEM) deu uma entrevista ao jornal “Diário da Manhã” e não conseguiu pontuar praticamente nenhuma ação dele no Senado para o Estado. De sua parte, o que o sr. poderia citar que tenha feito em favor de Goiás?

Estou há cinco anos e meio no Senado e desde que lá cheguei tive oportunidade de ser relator de matérias importantes, especialmente agora, desde que o presidente Michel Temer (PMDB) assumiu o cargo. Por exemplo, fiz a relatoria do projeto que diz respeito ao modo como ocorrerão todas as privatizações e concessões, algo que está a cargo do ministro Moreira Franco [Secretaria-Geral da Presidência]. Sou vice-líder do governo na Casa e líder de um bloco de 13 senadores. Tenho tido um trânsito muito bom no governo, além de ter contato direto com o ministro da Agricultura [Blairo Maggi (PP-MT)], o ministro da Saúde [Ricardo Barros (PP-PR)] e o presidente da Caixa, que são indicações políticas de nosso partido. Também há a relação de confiança que conquistei com outros ministros. A partir disso, pudemos ajudar muitos prefeitos em Goiás e obter verbas extras para seus municípios. Tenho trabalhado muito.

Patrícia Moraes Machado — Seu trabalho foi fundamental para obter recursos para o Hospital Municipal de Aparecida de Goiânia.

É verdade, e nesse ponto tenho de agradecer efetivamente o ministro Ricardo Barros, que tem tido uma deferência muito grande com Goiás. Conseguimos, com sua gestão à frente da Saúde, R$ 19 milhões como primeira parte dos recursos para a conclusão do hospital de Aparecida; R$ 16 milhões para a construção do novo hospital de Palmeiras de Goiás, que beneficiará toda a região no entorno; também R$ 15 milhões para equipar o hospital de Águas Lindas e mais R$ 15 milhões para fazer o mesmo no hospital de Uruaçu. Mais importante do que equipamentos, porém, é o custeio da operação. Com o ministério fechando o apoio ao custeio, que é o mais difícil, é um grande passo. Hoje o governo estadual está tendo dificuldades com o custo do Hugol [Hospital de Urgências Governador Otávio Lage, na GO-070, saída para Inhumas] —, que tem um convênio pequeno é algo no qual também estou trabalhando a participação do governo federal para essa unidade.

Em visita à Câmara de Goiânia, em que tive contato com a maioria dos vereadores — destaco Jorge Kajuru (PRP), Dra. Cristina (PSDB) e Priscilla Tejota (PSD) —, decidimos apresentar um projeto para a construção do primeiro Instituto de Diabéticos do Brasil, que custará em torno de R$ 7 milhões. Estamos na reta final, para decidir se a obra sairá pelo Estado — que poderá ser localizado no Hospital de Doenças Tropicais (HDT) ou pelo município. O ministro já deu parecer favorável e agora são questões burocráticas para fecharmos mais esse benefício para a região metropolitana.

Outra gestão que fazemos em relação a Goiânia agora é um projeto de 1.440 unidades habitacionais para servidores públicos municipais, algo que estamos fazendo em parceria com os vereadores Romário Policarpo (PTC) e Paulinho Graus (PDT) e todos os demais — até porque o terreno foi conseguido numa ação coletiva de todos os 35 componentes da Câmara de Goiânia.

Patrícia Moraes Machado — Como foi sua participação na negociação de venda da Celg?

Creio que foi importante. Participei desde o início, primeiramente como secretário de Estado [na pasta de Infraestrutura], depois como presidente do conselho da Celg, quando da saída de José Eliton. Participei de todo o trâmite, que começou em 2011, e seguiu com a estruturação junto à Aneel [Agência Nacional de Energia Elétrica], com o Ministério de Minas e Energia. No fim, diante da dificuldade de vender a empresa, estive com o presidente Michel Temer logo que ele assumiu. Assim que foram solucionados alguns conflitos com a base aliada, conseguimos colocar a Celg à venda. Eu e a senadora Lúcia Vânia (PSB) trabalhamos muito, bem como muitos de nossos deputados e, com essa grande participação de nossa parte, tivemos êxito em colocar esse dinheiro na conta do governo de Goiás, R$ 9 bilhões para investir em infraestrutura para a população.

Augusto Diniz — Uma prova de sua aproximação com o presidente Temer foi ele ter ido a seu aniversário, ainda no ano passado. Como está hoje essa relação?

Na verdade, eu tenho uma convivência mais antiga com o presidente. Não assim tão próxima, mas por ele ter sido parlamentar, a relação que ele tinha com o Senado já era bem desenvolvida, ainda como vice-presidente. Quando ele compareceu a meu aniversário, ficou muito mais visível nossa relação, mas ele costuma fazer assim com todos os parlamentares. É algo muito diferente do que ocorria com Dilma Rousseff (PT) no poder. Durante seu governo, nunca cheguei nem mesmo a pegar na mão dela. Já o presidente Temer já tivemos dezenas de encontros e, se ele chega em uma roda, sabe o nome de cada um.

Uma coisa muito interessante em seu governo é que para todas essas medidas que estão ocorrendo em relação às reformas tivemos reuniões abertas para discutir, preparar os parlamentares e tomar a devida decisão mais à frente.

Augusto Diniz — Então, na questão do contato com os congressistas, a relação com a Presidência mudou?

Mudou bastante, e é por isso que temos conseguido trazer muitos recursos para Goiás. Como já disse, eu tenho pessoalmente uma aproximação muito grande com vários ministérios. E eu defendo esse governo, até porque só ele poderia fazer, já que não está preocupado com popularidade. Michel Temer quer fazer reformas que vão ser boas para o Brasil. A reforma trabalhista não trouxe qualquer perda ao trabalhador, pelo contrário, apenas flexibilizou a relação entre ele e o empregador para melhorá-la. Agora, vamos à reforma da Previdência e, depois, à reforma política.

Augusto Diniz — Um dos projetos que o sr. teve a oportunidade de relatar no Senado foi um elaborado pelo senador Sérgio Petecão (PSD-AC), que dizia respeito ao fim do imposto sindical obrigatório. Ainda que não tenha sido exatamente por esse projeto, o ponto foi incluído na reforma trabalhista. Como o sr. vê especificamente essa mudança?

Quando a gente via essas confusões em Brasília ficava claro que aquilo tudo era financiado pelos sindicatos. Temos quase 17 mil sindicatos no País, sindicatos que não faziam nada para prestar serviços aos trabalhadores. Quando esse projeto entrou em pauta — e, na realidade, não havia isso na reforma trabalhista —, houve a maior polêmica. Por quê? Porque, quando se tira o dinheiro dos sindicatos, a gente passa a ver uma movimentação zero em Brasília. As pessoas iam para lá (participar de manifestações), recebiam para estar lá sem saber nem a razão disso. Outro detalhe é que quando se tira a obrigatoriedade de contribuição sindical é bom lembrar que isso vale tanto para os sindicatos dos trabalhadores como os dos empregadores. Quem é sindicalizado tem de querer pagar; quem tem serviço prestado, com certeza, terá mais condições de se manter por conta do respaldo de seus filiados, até porque esses sindicatos têm plano de saúde e outras coisas para manter o trabalhador com eles.

Elder Dias — Mas esse papel dos sindicatos — o de mobilizar seus filiados para manifestações, em Brasília ou em outro lugar — também não é algo importante? Trazer restrição aos sindicatos também não é uma forma de tirar a pressão dos políticos? Como o sr. mesmo disse, não existem mais aquelas grandes mobilizações em Brasília.

Não, as manifestações vão continuar a existir, até porque hoje há uma coisa muito forte, que é a internet. As manifestações de rua que aconteceram recentemente não foram por conta de sindicatos. O Movimento Brasil Livre (MBL) está aí para provar isso.

Elder Dias — Mas esse movimento que o sr. cita, por exemplo, e que cobra a luta contra a corrupção não fez nada de mobilização diante das acusações contra o presidente Temer.

Mas essas acusações, se a gente for analisar bem, foram todas montadas. Foi uma perseguição. A gente tem de deixar claro que isso tudo é muito ruim para o Brasil. Estão fazendo um fatiamento das acusações contra ele. O governo e o presidente têm de ser fiscalizado e têm o direito de se defender, mas antes de tudo temos de pensar em uma coisa maior, que é o Brasil. Se formos tomar os dias anteriores à votação da denúncia, na Câmara dos Deputados, estávamos com os indicadores todos positivos em relação ao País. Essa instabilidade é muito ruim, os investidores veem isso tudo online. Agora, depois da votação [os deputados decidiram não autorizar a investigação, pelo Supremo Tribunal Federal (STF), de Michel Temer por corrupção passiva], vemos a taxa de juros baixando, o emprego voltando, a inflação ficando abaixo da meta. Tudo dá sinalização de crescimento. Para o Brasil, se não houvesse essa denúncia, o presidente seria o sujeito mais popular do Brasil.

“A delação da JBS não poderia ser como foi”

Elder Dias — Então a denúncia da Procuradoria-Geral da República (PGR) foi vazia? Não existiu aquela mala de US$ 500 mil, isso foi invenção?

Foi uma delação antecipada. Então, a polícia tinha de ter prendido logo quem fez aquilo. Não concordo com a delação antecipada. A mesma coisa aconteceu com Aécio [senador Aécio Neves (PSDB-MG), que, como Temer, teve gravada uma conversa com o empresário Joesley Batista], foi pedir dinheiro emprestado e recebeu como resposta “vou dar em dinheiro, você vai querer?”. Estava claro que era dinheiro emprestado. Uma montagem total. Não sou da Comissão de Ética, mas os colegas senadores não concordaram com a delação como foi feita.

Elder Dias — Então a população brasileira está enganada em relação a Aécio e Temer? A opinião pública está com a visão distorcida pela imprensa para achar que Temer e Aécio são corruptos?

Ambos têm de se justificar, isso é correto. Mas a maneira com que foi feita essa delação é que não pode ocorrer, imagine você ir a um juiz e ele dar o direito a você de fabricar provas.

Elder Dias — Mas isso [aplicação da ação controlada] está previsto por lei [12.850/13, chamada Lei das Organizações Criminosas. É instrumento legítimo do Ministério Público.

Mas está errado, isso não é justo.

Elder Dias — Mas é lei.

É lei, mas está em discussão hoje. Veja se a sociedade hoje concorda com o que os colegas da JBS fizeram. Será que a sociedade apoia isso? Poderiam fazer essa pesquisa, se concordam que uma pessoa que usou o governo o tempo todo, usou o BNDES [Banco Nacional de Desenvol­­vimen­to Econômico e Social] para crescer e comprar empresas no mundo inteiro, faça isso com o presidente.

As pessoas precisam entender que as coisas vão ter de acontecer com a política. Enquanto não houver respeito com quem está lá, enquanto não passar esse processo da Operação Lava Jato… se não estivesse todo mundo envolvido em acusações, seria hora de fazer um encontro entre os três Poderes e dizer: vamos governar o Brasil? Não existe o TAC [termo de ajustamento de conduta, instrumento de acordo geralmente usado pelo Ministério Público]? O que vejo hoje é todos buscando espaço sem pensar no País.

Fernando Leite/Jornal Opção

Patrícia Moraes Machado — O sr., ao assumir o Senado, não tinha experiência em mandato, basicamente tinha atuação na área empresarial. Mesmo assim, suas ações trouxeram grandes resultados, tanto para Goiás como para o Brasil. Seu caso confirma a necessidade de termos uma renovação política por meio de empresários, de gente com esse perfil?

Hoje o que notamos é que não temos mais aquele político idealista. Mudaram isso para “político empreendedor”. Acho que o ideal são ambos: dentro da política, é preciso ter os que dedicam sua vida inteira a ela, mas também os que têm visão empresarial. No meu caso, quando cheguei a Brasília sem experiência alguma, fiz política com os políticos. Queria entender como funcionava a vida política, os ministérios. Eu sou muito objetivo, não perco tempo com coisas inviáveis, que o governo não tem condições de fazer. Faço algo muito prático: quando defendo um projeto, defendo também como prioridade no governo. Hoje, o Ministério da Saúde economizou R$ 3,5 bilhões com transparência nas compras. Se vai comprar um medicamento, isso está em um painel e se consegue comprar dessa forma. E assim se adquire o mesmo que no passado com muito menos.

O ministro (Ricardo Barros) está estudando muito bem como funciona a saúde no Brasil. Descobriu que o governo passado, para fazer política, construiu 470 UPAs [unidades de pronto atendimento] das quais 400 não têm como abrir, porque é inviável que elas funcionem com o número de profissionais que precisam. Seria necessário R$ 600 mil por mês para isso e a maioria das prefeituras não tem esse dinheiro para investir, nenhum governo tem.
Outra questão é a compra de ambulâncias, algo que foi proibido por conta das denúncias. Mas o ministério agora decidiu retornar com essa medida, de comprar ambulâncias com UTI. Por quê? Porque não temos condição de ter um hospital por cidade, não dá para manter. Não temos médicos para isso, tivemos de trazer até médicos de Cuba. Temos hospitais regionais com grande disponibilidade de leitos. Precisamos criar consórcios municipais, que facilitarão todo esse processo.

Augusto Diniz — A maioria das prefeituras funciona em meio período, porque não está dando conta de manter os serviços o dia inteiro.

Exatamente, porque não há recursos. Em conversa com prefeitos, para fazer gestão atualmente, eles dizem que passaram a não ter referência do que podem gastar ao mês. Não tem como ter controle de orçamento, fica difícil se planejar. Um prefeito mais tarimbado pega as planilhas com as últimas receitas por participação do município [receitas do Fundo de Participação dos Municípios (FPM)] e planeja seus gastos com o menor dos números. Isso porque não tem previsão de quanto vai receber, em um mês vêm R$ 1,200 mil, no outro 700 mil, no terceiro R$ 800 mil. Como dar conta de fazer um planejamento assim? Depende da arrecadação da União e de quanto será distribuído. Por isso, os municípios que não fizerem parcerias com o governo estadual e com o governo federal mal dão conta de pagar a folha de seus servidores.

Euler de França Belém — Uma das formas de tirar esses prefeitos da penúria seria com um novo pacto federativo, como fazem nos Estados Unidos — onde os estados são realmente autônomos. Aqui no Brasil, a Federação existe apenas no nome. Há uma discussão de que o sr. participa no Senado sobre isso. A que tipo de pacto federativo o sr. é favorável?

A grande dificuldade para o pacto federativo é que a maior estrutura de gastos hoje está no governo federal. Para manter os programas e os ministérios, a União acaba se fazendo forte e enfraquecendo os Estados. É uma discussão na qual haverá muita briga. Recentemente, eu estive com o presidente, fazendo um movimento para levar os prefeitos a Brasília. Disse-lhe que teria um apoio nacional muito grande se mexesse no pacto e aumentasse a porcentagem dos municípios. Em minha opinião, seria necessário o governo federal fazer o que Marconi Perillo (PSDB) fez em Goiás: reduzir seus gastos, suas pastas, e também regionalizar o Brasil. Temos um País grande demais para ter um governo pensar o mesmo para o Sul e para o Norte. E é nas cidades que os problemas de fato acontecem. O fato é que, para ter um governo forte, ao distribuir os ministérios para os partidos, o comando passa a não ser único, fica descentralizado e acaba atendendo as questões partidárias. Sou a favor da privatização e da terceirização, porque quanto menor for o tamanho da União melhor será.

Elder Dias — Ocorre que a União continua com uma estrutura grande. E um presidente que vem com um programa chamado “Ponte Para o Futuro”, que está aí para reformar tudo por que não inicia esse processo? Já que tem tanta PEC [proposta de emenda constitucional], por que Temer não envia uma para reduzir a estrutura do governo federal e aumentar os recursos para Estados e municípios?

Se nós não tivéssemos tanta política para ser feita…

Elder Dias — Mas Temer não diz que está lá para mudar isso que está aí?

Sim, está para mudar, ele quer fazer isso.

Elder Dias — Mas não estão mudando.

As coisas estão acontecendo, ainda que devagar.

Elder Dias — Só que ele tem muito pouco tempo para fazer isso, não? Não teria de acelerar essa parte?

Na hora em que começa a fazer as coisas acontecerem, aparece um desastre político que é preciso recuar de novo.

Elder Dias — E aí, para superar isso, é preciso dar mais cargos para mais políticos…

Não é isso, os cargos já existem, só mudaram os donos deles, não está criando cargos novos. Apenas se faz nova composição política.

Elder Dias — Mas não é hora de diminuir o número de cargos?

Com certeza, em minha concepção precisaria fazer isso, diminuir o número de ministérios e outras coisas. Só que isso demanda tempo. O governo começa e, quando as coisas começam a entrar nos trilhos, vem uma denúncia e uma briga de espaço do Judiciário com o Executivo, com o Legislativo, cada um querendo aparecer mais do que o outro. Isso é ruim para o Brasil. Eu concordo que devemos reduzir a máquina, tudo que puder tirar e pôr para a iniciativa privada eu aprovo.

Elder Dias — Então, porque o governo não muda isso?

Isso é da dificuldade da política, porque é preciso ter a maioria (no Legislativo).

 

Elder Dias — Nesse caso, Temer então governa para os políticos e não para a coisa pública?

Digo isso porque os municípios e os Estados continuam sendo prejudicados — porque recebem menos do que a União — com toda a receita concentrada pelo poder em Brasília.
Para ter ideia, temos encontros entre prefeitos e governadores com o presidente, as conversas acontecem o tempo todo. Mas as coisas são lentas. Veja o exemplo da reforma trabalhista: todo mundo puxa para seu lado. A reforma trabalhista não tirou nada do trabalhador, mas quem estava do lado de fora pensava que estávamos crucificando o trabalhador, não tem nada disso. Da mesma forma, precisamos fazer a reforma da Previdência, não vamos ter dinheiro para sustentá-la, isso é claro. Por isso, não vamos votá-la? Argumentos contrários sempre vão exigir.

Se o Wilder fosse o presidente, ele reduziria muito o número de ministérios e criaria um Brasil fatiado para desenvolvê-lo. Por exemplo nas regiões Norte e Nordeste há uma vocação muito forte para o turismo que não é explorada; da mesma forma, nas regiões industrializadas é preciso incentivar essa atividade. Sempre me questionam como senador nessas questões e eu devolvo dizendo, por exemplo, que temos o mesmo programa de educação para o Brasil inteiro. Mas como comparar o Sul com o Norte em suas necessidades nesse aspecto? Temos de mudar o pacto, mas observando que cada lugar tem sua característica. Em Goiás, conseguimos atingir um nível de industrialização, além de um agronegócio forte. Só que o governo não pode pegar o que existe em Goiás e fazer o mesmo em outros Estados. Essa é a questão.

Alexandre Parrode — O sr. acha que o número de partidos também in­fluencia nessa análise? Não é muito difícil para o governo negociar com essa quantidade imensa de siglas?

Você acertou na veia. É preciso fazer muitas composições e a maioria delas não tem nada a ver com o Brasil Imagine que temos 35 ideologias, 35 vocações políticas.

Elder Dias — Na verdade são 35 empresas…

Trinta e cinco empresas, repetindo o que vemos com os sindicatos. Isso não existe. Por isso torço bastante para que passe o (sistema eleitoral) distritão [onde as coligações são abolidas e são eleitos os candidatos mais votados]. Quero ver se vamos continuar a ter esse tanto de partidos.

Euler de França Belém — Geral­mente se fala em acabar com ministérios como medida de corte de gastos, mas ninguém discute a hipertrofia da folha do funcionalismo público no Brasil. Embora seja injusto cobrar do presidente Michel Temer algo que o PT não fez em quase 16 anos de poder, o funcionalismo público é uma casta que ninguém quer enfrentar. Por quê? Seria por causa do populismo político?

Para enfrentar isso, primeiramente é preciso vencer a questão do emprego. As pessoas vão para o governo e a máquina fica inchada mesmo. A única maneira de resolver isso é fazer a iniciativa privada crescer, incentivar a industrialização, agregar valor, para que as pessoas possam trabalhar. Ninguém quer ficar pedindo esmola ao governo, as pessoas precisam de oportunidades. Eu nasci em uma cidadezinha chamada Taquaral [a 80 quilômetros de Goiânia, vizinha de Itaberaí e Itauçu] onde não há como perturbar a prefeitura em busca de emprego. A cidade se desenvolveu com a fabricação de peças íntimas e hoje tem 300 confecções, não fica uma pessoa na rua. Fomos fazer um encontro lá recentemente e o quadro é promissor. Por isso que eu digo que primeiramente precisamos ajudar os empresários, reduzindo a carga tributária, dar incentivos.

A gente vê São Paulo brigando com Goiás, por querer exclusividade no direito de se industrializar. Mas nós trouxemos empresas para cá e geramos empregos e renda. Hoje, em Anápolis, há placas espalhadas pela cidade para contratar gente, porque tem indústria para trabalhar. Uma das coisas difíceis hoje em dia no Brasil é ser empresário, justamente pela insegurança jurídica. Veja os males que causou a Operação Carne Fraca aos frigoríficos, imaginem o drama, quantas empresas tiveram de fechar. É um desespero.
Todos os grandes negócios são afetados por questões assim, porque vêm dinheiro de fora, lá tem dinheiro muito barato, nossas taxas de juros são muito altas e vivemos a influência do mercado externo. Quando alguém faz algum negócio que não deveria ser feito afeta todo mundo. Para reduzirmos a dependência do emprego no Estado, precisamos incentivar a produção. Vemos isso aqui em Goiás, o quanto conseguimos avanços nos últimos anos.

Augusto Diniz — O sr. fala em ajudar o empresário a sobreviver, para que não tenha uma sobrecarga de im­pos­tos e tenha a possibilidade de contratar mais pessoas. O Senado fez um acordo com o governo federal e abriu mão de discutir destaques e emendas ao texto da reforma trabalhista. Nesta semana, completaram-se 40 dias que o governo anunciou que faria uma medida provisória para mudar no texto e que foi combinada com os senadores que abriram mão disso para aprovar. Quando isso vai acontecer?

Isso foi tudo para tumultuar o processo. Veja se há alguém hoje na imprensa pedindo isso, era só apenas para aproveitar o momento, a imprensa focada na votação. Nunca fiz um meio-fio de obra pública, só trabalhei na iniciativa privada. Dependemos da economia brasileira e todos sabem que a Orca construiu dezenas de empreendimentos e crescemos na parceria com o Carrefour, para quem trabalhamos não só no Brasil, mas também fora do País. Ora, temos um reflexo direto: se os supermercados estão vendendo, a produção também aumenta, o que gera empregos, aumenta a concorrência, baixa os custos e chegamos ao ganho em escala. Este é o sonho de todos, ganhar em escala.

Vejam este prédio aqui [Connect Park Business, nova sede do Jornal Opção]. Fizeram dezenas de prédios comerciais nos últimos anos, com segurança, modernidade e qualidade. Médico virou construtor, advogado, contador, todo mundo. Começamos a viver um Brasil diferente, toda a população pensando no novo televisor. Aí veio essa retração, na qual os questionamentos políticos influenciam muito.

Euler de França Belém — Nos noticiários das TVs apresentam indicadores econômicos que mostram que o Brasil está melhorando. Ao mesmo tempo, nos comentários, nota-se geralmente a tentativa de diminuir a importância da recuperação da economia e uma certa confusão, ao achar que o crescimento vai vir de forma rápida. Percebe-se, no entanto, que a economia está se movendo, que as pessoas estão voltando a investir, a ter alguma esperança. O sr. também vê dessa forma?

Percebo, porque a construção civil é o setor que mais movimenta a cadeia produtiva. Se você aplica 1 real há um fator de 14 vezes em cima disso. A construção mexe com o sujeito que fabrica botinas, capacetes, material de segurança, alimentação, vale-transporte. Uma das coisas que mais prejudicam uma empresa é ficar sem recursos e sem acesso a empréstimos. Quando há uma crise, a construção civil é o primeiro setor afetado, por não ter uma cadeia de segurança, então o que os bancos tiram, em termos de financiamento, são primeiramente desse setor. A única coisa que vai fazer o Brasil sair da crise é o trabalho e vou torcer muito para isso dar certo.

Vou participar da retomada da Subminera, a Subcomissão Per­manente de Acompanhamento do Setor de Mineração. Temos a maior e mais diversificada reserva de minérios do mundo, mas também temos entraves malucos. Não sei se vocês acompanham, mas há uma reserva de mercado, fazem um requerimento da área e sentam em cima dele, não deixam ninguém explorar.

Alexandre Parrode — O Congresso não poderia incentivar a indústria nacional, por exemplo, no que diz respeito à mineração? O que vemos são sempre empresas estrangeiras querendo explorar os minérios no Brasil. Não seria o caso de incentivar a indústria nacional em vez de entregar isso a outros países? Eles fazem riquezas com nossos recursos naturais. Não é um contrassenso?

Com a carga de impostos que temos aqui, se a gente não fizer nada já é vantagem. Não temos recursos financeiros, porque, para mineração, é necessário muito investimento. São volumes muito grandes. Os minérios que hoje têm commodities com valores lá em cima, gigantes, amanhã podem nem ter tanto valor assim. A energia solar está chegando agora, daqui a pouco tempo os carros serão elétricos.

Alexandre Parrode — Mas minérios como o manganês, o nióbio etc. foram riquezas há 50 anos e continuam a ser…

Com certeza, e temos boas reservas. Mas a exploração é muito pequena. O governo precisa incentivar. É muito fácil resolver o Brasil. Tome a cadeia produtiva. Por exemplo, o agronegócio: está indo bem? O que eu posso melhorar para ele? Temos um problema aqui: ainda importamos 70% dos implementos — defensivos, adubos etc. —, mas temos matéria-prima para produzir no Brasil. Mas como fazer isso? Temos de ter prioridades e descer na cadeia.

Eu, que cheguei à política como empresário, vejo que o problema é que o empresário precisa do político. As ideais o empresário as tem, mas os políticos, na maioria, não têm essa concepção para entender tudo com clareza. Acabam dizendo que o empresário é imediatista. Não, não é, o empresário tem de matar um leão por dia. Veja como é manter um jornal como este aqui.

Outra questão que é complicada são os acessos ao crédito para micro e pequena empresa. Por que fazer concessões e privatizações tendo como público apenas cinco empresas? Se diminuíssem os trechos de concessões da BR-060 de Goiânia para Brasília, poderíamos ter empresas pequenas explorando, empresas regionais. Seria muito mais barato e mais eficiente. Falei ao presidente que, para essas concessões, há empresas regionais que são tão boas quanto essas gigantes e que vão ver isso como o maior sucesso para elas, vão poder manter o quadro delas funcionando.

Se em vez de uma concessão de 160 quilômetros de rodovia, isso fosse bem menor, com essas empresas menores. Poderiam ter mais pedágios, mas seriam mais baratos. Essas empresas regionais mantêm seu quadro. Na construção civil, o mais difícil é ter sequência de obras. Por isso as pessoas não entendem como tal empresa quebrou, mas se ficar um ou dois anos sem construir todo o lucro é “comido” pelos funcionários, porque, se mandar embora, não os encontra de novo no mercado quando precisar. A solução para o Brasil é incentivar o crescimento e monitorá-lo.

Chegamos a ter 36 mil quilômetros de ferrovia. Hoje temos 11 mil daqueles funcionando. Desses 11 mil, só cerca de 2,6 mil quilômetros têm viabilidade financeira. Se tivessem concluído todo o previsto, mesmo assim não haveria operação, porque não tem viabilidade econômica. Uma ferrovia que teria viabilidade nem projeta está: seria Cuia­bá–Santarém, por onde carregam 70 mil toneladas de soja para o porto com caminhões atolando. Dei a ideia ao presidente de fazer a ferrovia de Santarém para Cuiabá. Se fizer 100 quilômetros, serão 100 quilômetros a menos de caminhões; se fizer 200, serão 200 quilômetros. Mas conversam para fazer ferrovias em qualquer lugar, nada interligado a lugar nenhum.

Augusto Diniz — Mas não existe nada de ferrovias que funcione?

Temos mil quilômetros para o porto de Itaqui, no Maranhão, e mais mil quilômetros de Minas Gerais para o porto do Espírito Santo. Falta planejamento. Na época do PT, para ganhar política, mentiam no Sul, depois mentiam no Norte, sem fazer as coisas que efetivamente eram necessárias.

Elder Dias — O sr. ajudou na negociação do patrocínio da Caixa Econômica Federal aos times goianos. É um banco público, de economia mista, que logicamente precisa de ter visibilidade. Mas o que a gente vê é um montante muito grande destinado a sacos sem fundo, como são os clubes de futebol. O Goiás Esporte Clube tem uma receita de pelo menos R$ 35 milhões para este ano e não consegue sair da parte de baixo da Série B, enquanto agremiações com bem menos dinheiro estão na parte de cima, como o próprio arquirrival Vila Nova. Indo além disso, esse investimento da Caixa não é um gasto social inútil, ainda mais com tantos esportes precisando de mais apoio?

Por ser empresário e ter autocrítica, comecei a entender um pouco como a Caixa pensa. Na verdade, lá há um departamento de comunicação que estuda qual a visibilidade da Caixa e onde investir a partir de uma tabela que têm. No caso do futebol, há uma divisão entre clubes da Série A e da Série B de acordo com a importância da marca de cada um deles. É bom lembrar que é um negócio — em relação ao Goiás, por exemplo, o Sicoob [cooperativa de crédito] tinha uma melhor proposta e teve de haver uma escolha, mas o clube acabou ficando com a Caixa por ser um dos maiores bancos do País. A Caixa, para não perder para o Sicoob, teve de ceder partes do uniforme para exposição de outras marcar, para complementar a receita de patrocínio do clube. Não foi o mesmo caso do Vila e do Atlético, mas houve uma disputa grande para obter esse patrocínio.

Elder Dias — O valor que o Goiás ganha é maior do que Vila e Atlético?

Os valores são semelhantes. O do Atlético, por estar na Série A, tem um valor maior. Entre Goiás e Vila há uma diferença, porque consideram, para isso, itens como o volume da folha de pagamento que seria transferido para o banco, aplicações etc. Na verdade, a Caixa trata tudo como um processo bem profissional, observando o retorno de mídia. É um negócio de resultados.

Euler de França Belém — Dizem que o sr. ficou amigo do senador Renan Calheiros (PMDB-AL). Na política se faz amigos?

Sim, se faz, e é verdade que ficamos amigos. Digo sempre, uma das coisas que mais me impressionam: quando eu sair da política, não quero ser o Wilder de antes, um capitalista que queria colecionar milhões. Ninguém dá conta de se relacionar com mais gente do que o político. Eu não convivia com ninguém e hoje sou amigo de todos os prefeitos e a maioria eu chamo pelo nome. Conheço todos os deputados estaduais, todos os vereadores de Goiânia e de Aparecida. No Entorno do Distrito Federal, tenho a convivência de todas as lideranças, coisa que nunca havia passado pela minha cabeça. Isso eu fiz e talvez seja o prêmio para quando eu não estiver mais na política.

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