“Se quiserem me expulsar, não pensem que isso vai ser simples. O partido vai gritar”

Ex-deputado peemedebista, que foi um dos grandes apoiadores de Marconi Perillo na última campanha, diz que o partido erra ao pensar em punição em vez de reaglutinar . E dá o veredicto: Iris Rezende e Iris de Araújo já foram expulsos pelas urnas

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Ex-deputado, ex-secretário de Estado, ex-presidente da Assembleia Legislativa e ex-presidente do Tribunal de Contas do Estado (TCE), o advogado Frederico Jayme tem uma longa folha de serviços prestados a seu partido, o PMDB, do qual é fundador. Na verdade, ele foi fundador do MDB, sigla do qual originou o partido e por qual foi eleito deputado estadual ainda no período da ditadura, na primeira de suas três legislaturas como parlamentar.

Agora, todo esse histórico está na berlinda. É que Frederico Jayme, contrariado com uma nova candidatura de Iris Rezende ao governo por seu partido, decidiu apoiar o arquirrival, Marconi Perillo (PSDB), que conquistou seu quarto mandato — e a terceira vitória sobre o ex-governador. Mais do que declarar adesão ao tucano, Jayme foi um dos principais coordenadores da campanha marconista. Como consequência, seu nome está agora em uma lista de peemedebistas considerados infiéis, na qual constariam também Júnior Friboi, ex-pré-candidato ao governo; Robledo Rezende, advogado e amigo confidente de Friboi; e os prefeitos Humberto Machado, de Jataí, e Fernando Vasconcelos, de Goiatuba.

Para Frederico, está tudo errado. “O PMDB deveria reaglutinar forças e discutir seu presente e futuro, mas parte para a fase da inquisição, para crucificar quem não quis apoiar um candidato que sequer consegue explicar a origem de seu patrimônio. Mas o partido não tem juízo, não adianta”, desabafa, aconselhando que a solução para a cúpula que insiste nesse tipo de pensamento procure um psiquiatra.

Euler de França Belém – O povo dispensou Iris Rezende quatro vezes – três para o governo e uma para o Senado. Ou seja, para o Estado, ficou claro que Iris não serve mais, embora tenha servido para a Prefeitura de Goiânia. Por que o PMDB insiste em ser “viúva” de Iris?
É um grande equívoco do PMDB. Muitos peemedebistas têm medo de Iris. Quando ele foi governador e tinha o controle do Estado de forma totalitária, ele impôs esse sentimento do medo. E isso acabou se transformando em uma cultura do medo. O PMDB tem medo do Iris. Poucos têm a coragem de enfrentá-lo. Não é uma questão de enfrentar porque ele é um líder, mas enfrentá-lo porque ele é ruim, atrasado, não pensa Goiás como tem de ser pensado. Alguns têm coragem, outros não. Mas eu afirmo: Iris não tem maioria no diretório. Se nós imaginássemos uma eleição no diretório, que iria acontecer agora no final de novembro, Iris seria massacrado, liquidado.

Euler de França Belém – Por que não vai ter mais eleição para o diretório do PMDB?
Os mandatos dos diretórios regionais e municipais venceriam no fim de novembro. Michel Temer [presidente nacional do PMDB], de forma antidemocrática, prorrogou esses mandatos. O partido continua atrasado. Prorrogar mandatos é uma coisa lamentável, não existe isso mais. Mas aconteceu, prorrogaram os mandatos dos diretórios regionais e municipais. Então, nós não teremos eleição agora, só daqui a um ano, em novembro de 2015.

Euler de França Belém – Quer dizer que, se houvesse eleição agora, o grupo de Iris perderia?
Perderia o poder, com certeza. Iris não tem mais a maioria. Se colocarmos uma votação lá agora, de um tema importante que interessa ao partido e a Goiás, Iris se posicionaria contra. E ele perderia, como estava prevista sua derrota para Júnior Friboi [pré-candidato do PMDB ao governo este ano, desistiu da candidatura antes da convenção] no diretório. Ele não quis disputar com Júnior, pois sabia que perderia, que teria pouco mais de 20% dos votos. E Iris começou a fazer aquele trabalho de ameaçar ir para as ruas, protestar contra a decisão do diretório, dizendo que tudo seria comprado, essas coisas baixas, que lhe são muito peculiares, a ele e a sua mulher [deputada federal Iris de Araújo].

Iris Rezende e o PMDB são responsáveis pela gestão de Paulo Garcia em Goiânia. É uma gestão compartilhada, pois o vice-prefeito é do PMDB”

Iris Rezende e o PMDB são responsáveis pela gestão de Paulo Garcia em Goiânia. É uma gestão compartilhada, pois o vice-prefeito é do PMDB”

Euler de França Belém – No PMDB há outro líder, que é o prefeito de Aparecida de Goiânia, Maguito Vilela. É um líder aberto, democrático, moderno, faz uma boa gestão naquele município. O principal deputado federal do partido, Daniel Vilela, que é seu filho, foi eleito com seu apoio dele e teve quase 200 mil votos. Pedro Chaves, deputado federal reeleito, também tem ligação com Maguito. Agora por que Maguito não tem coragem de confrontar Iris e se tornar o líder de fato do PMDB? O que faz Maguito ser relutante?
Hoje Maguito já o líder de fato. Ele vem mostrando, por suas atitudes mais recentes, que está sendo firme, corajoso. Por exemplo, nesta semana ele exigiu renovação no partido e teve coragem para, agora, se posicionar de forma contrária às expulsões daqueles peemedebistas que apoiaram Marconi Perillo na campanha. Não é questão de ser con­tra Iris, mas de ser a favor do PMDB, do eleitor peemedebista da capital. A eleição do filho dele com uma votação enorme e a derrota da mulher de Iris é um recado ao PMDB de Goiás. O PMDB não quer mais saber de Iris. Se o PMDB gostasse de Iris e o admirasse, se ainda o quisesse, sua mulher não te­ria perdido a reeleição para deputada federal, com uma votação minúscula.

Euler de França Belém – O PMDB não elegeu nenhum deputado federal irista. Da mesma forma, também nenhum deputado estadual ligado a ele. Como pode ser líder?
Não é líder. Aliás, ele é líder com a cultura do medo. Eu tive várias conversas durante esta campanha e confesso que busquei o maior número de peemedebistas para apoiar Marconi Perillo. Se quiserem usar isso contra mim em um processo de expulsão, que usem. Mas a grande verdade é que muitos me disseram: “O é perigoso, perseguidor, mau”. Eu até concordo, mas como ele vai exercer essa maldade? Não tem como. É como um marimbondo sem ferrão. Aliás, é bom lembrar: o casal não precisa ser expulso formalmente, porque já foi expulso pelos eleitores.

Euler de França Belém – Em 2010 o PMDB elegeu cinco deputados federais. Uma bancada de cinco federais é algo que demonstra poder em Brasília. Nesta eleição, porém, o PMDB elegeu apenas dois. Você atribui essa queda à candidatura de a governador?
Claro, sem dúvida. Antes de começar a campanha concedi uma entrevista ao Jornal Opção e naquele momento eu disse com todas as letras que a bancada federal do PMDB seria reduzida, da mesma forma que a estadual, que perderia a eleição por mais de 500 mil votos e que dificilmente sua mulher se reelegeria. Por que eu disse isso? Porque eu ouvia isso no próprio PMDB de Goiás. Mesmo os peemedebista que apoiaram tinham esse pensamento. Apoiaram-no por questões partidárias, mas sabiam que o resultado seria esse.

Euler de França Belém – Alguns prefeitos do PMDB dizem que Rezende aparece quando é candidato a governador. Dois anos depois, nas eleições municipais ele não visita as cidades para dar apoio aos prefeitos do partido. Isso procede?
Eu apoiei ao governo em 1982. Na época eu era deputado pelo MDB [partido que deu origem ao PMDB], eleito em 1978 sem Rezende. Nem o conhecia pessoalmente. Mas o apoiei naquele ano e assumi a responsabilidade política e financeira da campanha de todos os colégios que me apoiaram. nunca participou com absolutamente nada. Nunca deu uma única contribuição às campanhas no interior. E isso representou um sacrifício grande pessoal para mim e para lideranças políticas dessas cidades. E assim vem se repetindo: ele abandona as cidades e os companheiros. E só aparece quando tem interesse imediato.

Um exemplo claro disso ocorreu em Pirenópolis. Sizenando Jayme Filho (PMDB), tio da primeira-dama Valéria Perillo e presidente do PMDB naquele município, disputou eleição em oposição ao governador Marconi e também Valéria, não porque não gostasse deles, mas por uma questão partidária, de respeito ao partido. Mas não apareceu, não tomou conhecimento da existência dele. Perdeu a eleição, como era previsto, e continuou alheio ao processo. Em 2010, por uma questão partidária, Jayminho, até me contrariando, apoiou ao governo. Mas então, como era candidato, foi lá. Fizeram caminhadas, movimentos políticos. Passadas as eleições, ficaram as dívidas da campanha de e Jayminho teve de assumi-las. Agora, este ano, Jayminho se recusou a participar do processo político em favor do PMDB, até porque eu sempre alertava desse descompromisso partidário de Rezende. Então, o que fizeram? Sem dar satisfação a Jayminho e ao diretório, fizeram uma intervenção e colocaram adversários no partido. Quando fizeram a intervenção destituíram o diretório de forma arbitrária, ditatorial. E então eu fui lá e fiz uma reunião com o PMDB e viemos aqui trazer o apoio do partido a Marconi Perillo. Agora, falam em expulsão. Que partido é esse, tão incoerente?

Euler de França Belém – Vazou para a imprensa uma lista de nomes a ser expulsos. Esta lista estaria com o deputado Samuel Belchior [presidente estadual do partido] e inclui seu nome, além de Júnior Friboi, Robledo Rezende [advogado e bastante ligado a Friboi] e os prefeitos de Goiatuba [Fernando Vascon­celos] e Jataí [Humberto Machado], entre outros. Alegam que vão expulsar vocês por infidelidade partidária. Como o sr. responde a essa questão?
O PMDB não tem jeito, não cria juízo, não adianta (desabafando). Veja bem, temos um partido que saiu desidratado destas eleições, com redução de deputados estaduais e federais e uma derrota com 500 mil votos de diferença ao governo do Estado. A mulher do candidato a governador foi derrotada para a Câmara dos Depu­tados, tendo uma votação pífia, até vergonhosa.

Com tudo isso, o partido, que deveria buscar uma reaglutinação de forças e rediscutir seu presente e seu futuro, parte para a fase da inquisição, para crucificar e detonar quem não quis apoiar um candidato a governador que sequer consegue explicar a origem de seu astronômico patrimônio. Um ex-governador que se enriqueceu escandalosamente, exercendo uma advocacia medíocre. Ele fala em herança, mas ninguém sabe o que recebeu de herança – seu pai não era dono de qualquer grande poder econômico e financeiro. Então, aqueles que não concordaram em apoiar este candidato, que está respondendo por improbidade administrativa, quase sendo incluído no rol de fichas sujas, devem ser expurgados do PMDB?

Qual é o remédio para isso? Psiquiatras. Essas pessoas devem ser tratadas, estão doentes, não há outra explicação. Eu ajudei a fundar o MDB, fui candidato a vereador em Anápolis pelo MDB, enfrentei ditadura, fui preso e, depois, ajudei a fundar o PMDB. Em 1978, ainda no regime militar, disputei eleição pelo PMDB, enfrentando tudo e todos com a maior dificuldade, em uma região liderada por um ex-governador da ditadura. A minha eleição foi a partir de Goianésia. Depois disputei três mandatos, ocupei os mais variados cargos, nunca fui processado por desvio de recursos ou por prática de corrupção. Tenho uma vida limpa. E agora esse partido, ao invés de valorizar isso, fala em me expulsar por não concordar em apoiar um candidato que não reúne, na minha ótica, nem condições políticas nem morais? A não ser que explique a origem de seu patrimônio. Se explicar, eu me rendo. A campanha toda eu cobrei isso dele, desde antes da convenção até fechar as urnas. Mas ele nunca se explicou.

Em um processo de expulsão, eu terei prazo para defesa e então eu vou fazer vários questionamentos. Júnior Friboi, um homem digno, honrado, uma liderança que o PMDB teria de exaltar e fortalecer, o partido quer expulsar? Humberto Machado, prefeito de Jataí, outra pessoa digna, a quem sua cidade adora, que tem uma força regional e estadual enorme, como se fala em expulsá-lo? Da mesma forma, o prefeito de Goiatuba! (enfático) Como falar em expulsar prefeitos que se elegeram a duras penas em seus municípios, apenas porque não apoiaram um candidato atrasado, cheio de vícios, que só se conduz de acordo com as determinações de sua mulher e que nunca teve respeito com o partido? Não pensem que vão simplesmente nos expulsar, não vai ficar assim, não. O partido vai gritar.

Cezar Santos – Um dos que mais instigam esse tipo de solução é o deputado federal Sandro Mabel. Por quê?
Infelizmente, Sandro Mabel se transformou em um cabo de chicote. Eu tinha outra imagem dele. Mas, em troca de que ele mudou assim? Mabel chegou a ir a Júnior Friboi durante a campanha para “fazer rastro de onça”. Penso que ele esteja imaginando que será candidato a prefeito de Goiânia, com o apoio de . Mas vai dar outra rasteira em todos, como sempre faz. O candidato Vanderlan Cardoso (PSB) não apoiou no segundo turno. Por quê? Vanderlan é oposição e não acredita em , que puxou seu tapete e não teve ética nem respeito, não honrou sua palavra, da mesma forma como aconteceu com Friboi. A bobeira de apoiar foi só da parte de Antônio Gomide (PT), porque seu partido resolveu apoiar e foi fazer reuniões, movimentos, entrevistas pró-. Enquanto Gomide perdeu crédito, Marconi teve 74% em Anápolis.

Marcos Nunes Carreiro – Vanderlan não teria deixado de apoiar Iris também por visar a disputa da Prefeitura de Goiânia em 2016?
Na verdade, não acredito que tenha sido por isso, não, porque houve até uma proposta de Iris de apoiá-lo em 2016. Mas Vanderlan não acreditou, pois gato escaldado tem medo de água fria. E ele fez muito bem em não acreditar. A oposição está destroçada. Saíram de uma derrota, não conseguiram visualizar ainda um futuro e já começam a lançar Iris de novo à Prefeitura de Goiânia. E o PT, que foi solidário à campanha deles? Agora, vem o nome de Iris de novo, massacrando. Eu até torço para que lancem Iris, pois é a certeza de nova derrota.

Euler de França Belém – O sr. acha que Iris vai perder, se for candidato a prefeito?
Sim, acho que ele perderá a eleição em Goiânia, mesmo tendo obtido uma pequena vantagem sobre Marconi na disputa ao governo na capital. Entretanto, em uma disputa em Goiânia, quando o governador vai apresentar um candidato competitivo. Hoje, falam em Jayme Rincón. Eu o acho um bom candidato, de­ter­minado, com o estilo do Marconi, ótimo gestor, corajoso e faz um ex­celente trabalho político e administrativo como presidente da Agetop [Agência Goiana de Transportes e Obras]. Um prefeito tem de ter essas competências. Ele reúne essas condições, assim como tantos outros nomes. Se Iris for candidato, vai enfrentar uma eleição com o PMDB rachado de novo e com a oposição dividida. Iris não aglutina.

Marcos Nunes Carreiro – Com o PMDB dividido, o senador eleito Ronaldo Caiado (DEM) vai conseguir ter influência significativa a ponto de lançar Iris Rezende a prefeito de Goiânia? Ele já disse que o apoiará.
Não, de forma alguma. Se Iris se lançar com apoio do diretório metropolitano do PMDB, esse diretório já vai dividido. Imagine então se for, de alguma maneira, comandado por Caiado. O que o Caiado tem a ver com o PMDB? Nada. Apenas houve uma coligação e ele se elegeu por méritos pessoais e seu estilo político. Se ele tivesse sido carregado por Iris não seria eleito. Tenho certeza de que isso não vai funcionar, como eu disse antes que não funcionaria a união da oposição. Será um abraço de afogados.

Euler de França Belém – A parceria PT e PMDB em Goiânia acabou?
Na verdade, essa parceria funcionou enquanto interessava a Iris, que queria essa coligação. Tanto que, em 2008, ele queimou seu então vice-prefeito, que lhe era leal, Valdivino de Oliveira [hoje deputado pelo PSDB], para colocar Paulo Garcia, do PT. O eleitorado goianiense tirou o PT do poder em 2004, por não estar satisfeito com o PT e entregou o Paço para Iris Rezende, que, traindo a população, devolveu o poder ao PT para dar seguimento a seu projeto megalomaníaco, que era ser governador em 2010. Largou a Prefeitura quebrada, arrebentada, endividada – como declarou Iram Saraiva Júnior ao deixar recentemente a chefia do Gabinete do prefeito – com Paulo Garcia, que não fala nada sobre isso porque é ético.

Então, veja que tudo isso aconteceu de acordo com os interesses individuais de Iris. Não acredito mais nessa aliança PMDB-PT, que também está se deteriorando em nível nacional. A presidente Dilma Rous­seff (PT) quase perdeu o apoio do PMDB em seu projeto de reeleição. Ganhou com uma diferença pequena, mas porque jogou pesado. E hoje o PMDB se rebela, porque está consciente de que foi traído pelo PT nas eleições estaduais. Isso ocorreu com Jader Barbalho (Pará), Eunício O­liveira (Ceará) e Henrique Eduar­do Alves (Rio Grande do Norte), que foram derrotados para o governo. No Rio de Janeiro, Luiz Fernan­do Pezão venceu, mas por sua própria força, pois o PT foi contra. Então, vê-se que o PT não tem lealdade com o processo de coligação.

Marcos Nunes Carreiro – O sr. fala que o prefeito Paulo Garcia pegou a Prefeitura com dificuldades financeiras. Nesse cenário, em que há uma divisão na aliança entre PT e PMDB, por que ele se mantém aliado à figura de Iris Rezende?
Paulo Garcia só chegou à condição de prefeito por ter sido carregado por Iris. Basta lembrar que, em 2006, o atual prefeito tinha perdido a eleição para deputado estadual. Ou seja, é um ato de gratidão pessoal. Paulo é muito mais grato a Iris do que a seu partido. Se o PT amanhã ficar contra Iris, ele fica a favor, co­mo ficou nessas eleições. Em mo­mento algum, Paulo Garcia apoiou Antônio Gomide. Apoiou Iris desde o início, todos sabemos disso.

Euler de França Belém – É possível dizer que Iris Rezende e o PMDB são responsáveis pela gestão de Paulo Garcia em Goiânia?
Sim. É uma gestão compartilhada, pois o vice-prefeito é do PMDB. Iris queimou muitos políticos do PMDB para colocar Agenor Mariano no cargo de vice. Então, é uma gestão compartilhada.

Euler de França Belém – O PMDB não deveria, então, usar Goiânia, que é a capital do Estado, para mostrar que quer renovar o partido? Se lançasse, por exemplo, o deputado Daniel Vilela para prefeito, em vez de Iris, ninguém diria que o PMDB não quer se renovar.
Poderia ser o primeiro passo, demonstrando esse interesse. Mas sou descrente em relação a esse grupo subordinado a Iris Rezende que controla o partido. Como eu disse, é uma questão para psiquiatra.

Euler de França Belém – E quem, em sua opinião, poderia ser lançado pelo partido em Goiânia para viabilizar essa renovação?
Eu prefiro não fazer um adiantamento de nomes, até para não dizerem que estou expondo um ponto de vista individual. Essa questão deve ser definida por um consenso do grupo, que deverá discutir vários nomes.

 

“O PMDB hoje é quase um partido de aluguel”

Euler de França Belém – In­for­mações de bastidores dão conta de que a carta de Iris Rezende, quando perdeu a eleição, possui indiretas para o sr. e para Júnior Friboi, que estariam trabalhando por uma composição com o governador Marconi Perillo. O que o sr. tem a dizer?
Nós, do PMDB dissidente, estamos trabalhando pelo fortalecimento de nossa legenda. Se esse fortalecimento tiver de passar por uma aliança com o governador, que passe. O que interessa é que o PMDB readquira aquela sua força de partido ético e práticas administrativas austeras. A sigla enfrentou as maiores dificuldades no País e hoje é quase um partido de aluguel, subordinado ao governo federal em nível nacional e à Prefeitura, no caso de Goiânia. Essa é a situação atual do PMDB. Nós não queremos isso. Queremos um PMDB forte, ético, moderno, de práticas inovadoras e que ganhe eleições.

Euler de França Belém – O sr. falava sobre a terceirização do PMDB. O partido está terceirizando a liderança para Ronaldo Caiado?
Existiu uma coligação. Até aí, tudo bem. Mas o próprio Caiado disse que isso acabou. Se acabou, por que ele está dando palpites no PMDB? O grande líder do partido hoje é Ronaldo Caiado? Nada contra ele, até porque é uma pessoa por quem tenho apreço. É uma análise política, pois, se ele for mesmo esse líder, eu discordo. Temos a seguinte questão: por que Iris critica tanto o PSDB, se ele foi ministro do governo de Fernando Henrique Cardoso? Ele fez campanha com o número 45 [PSDB] para a Presidência da República. Lembrem-se que ele ficou contra Ulysses Guimarães, em favor de Fernando Collor de Mello, em 1989. Quer dizer, ele não tem autoridade moral, nem coerência para criticar ninguém.

Cezar Santos – O sr. foi um apoiador de primeira hora da campanha à reeleição do governador Marconi Perillo. Se convidado a compor a equipe de governo, o sr. aceitaria?

Euler de França Belém – Ressalto que o sr. é cogitado para assumir a Secretaria de Segurança Pública ou a de Indústria e Comércio, visto que é de Anápolis e tem uma forte influência na região.
Não. É necessário que fique bem claro que o governador Marconi não tem nenhum compromisso comigo. Quando conversamos, eu disse que o apoiaria por ter amor ao meu Estado e achar que ele era o melhor candidato no momento. Goiás sempre me destacou como político. Nas últimas eleições que disputei, por exemplo, eu fui o mais votado, entre todos os partidos políticos, para a Assembleia Legislativa. E eu disse isso a ele, ou seja, que iria apoiá-lo por ele estar fazendo um grande governo, modernizando o Estado e fazendo com que avancemos em todos os sentidos. E disse que o único ponto que iria cobrar era que ele continuasse a fazer o que faz agora: um governo moderno, austero e responsável. Então, eu não penso em cargo. Tenho outros projetos. Eu tenho uma prática advocatícia, componho um escritório de excelentes advogados.

Cezar Santos – Mas se o sr. for convidado para compor o governo, aceitará?
Depois das eleições, eu e o governador já conversamos duas ou três vezes, sobre diversos assuntos.

Euler de França Belém – O sr. está mais para um conselheiro do governador?
Não. Eu gosto de conversar com o governador e acho que ele também gosta de conversar comigo. Então, nós somos amigos. Con­versamos sobre diversos assuntos.

Euler de França Belém – Em sua opinião, qual foi o segredo de Marconi Perillo para ganhar essa eleição? É muito difícil para um político ganhar quatro eleições para o governo com apenas 51 anos de idade, e ainda mais disputando contra um candidato experimentado, como Iris Rezende. Qual o segredo do sucesso de Marconi?
Convivo com Marconi desde que ele, ainda muito jovem, começou a desenvolver um trabalho político com Henrique Santillo [governador de Goiás de 1987 a 1990]. Ele foi presidente do PMDB Jovem e eu ajudei na campanha. Notei naquele momento que ele era determinado, corajoso e com uma rara e perfeita visão de conjuntura. Com isso, desde então vem enfrentando os desafios, como o de 1998, quando ele tinha uma reeleição para a Câmara dos Deputados absolutamente segura, seria um dos campeões de votos. E foi para uma campanha ao governo em princípio quase suicida. Ele tinha por volta de 3% nas pesquisas contra Iris, que beirava os 80%. Mas Marconi tinha e tem coragem para o enfrentamento e ganhou aquela a eleição, graças à disposição pessoal e política dele. Também se deu o fato de que o PMDB vinha praticando equívocos, liderados por Iris Rezende. De lá para cá, Marconi tem demonstrado competência administrativa. Ele sabe governar, sabe se reciclar no governo, se moderniza, ele é um estudioso. Não é mal-educado, não cisca para fora, agrega valores políticos e administrativos.

Cezar Santos – O sr. diria que Marconi tem um talento natural para a política?
Sim, um talento natural. Até me orgulho de ter tido ao longo dos anos essa convivência política e pessoal com o governador. Estivemos afastados politicamente em função de partido, já que ele deixou o PMDB e foi para o PSDB, e eu continuo até hoje no PMDB, embora não concordando, de forma democrática, com muito do que é estabelecido no partido. Mas Marconi é realmente um talento político. E eu vejo nele um líder que ainda pode crescer muito. Ele, que já é um orgulho dos goianos como governador, poderá ser também um orgulho nosso em termos nacionais.

Cezar Santos – Ele tem condições de ser candidato a presidente da República?
Marconi pode ser candidato a presidente da República, sim. Ou a vice-presidente, ou qualquer outro cargo em que possa despontar no cenário nacional.

Euler de França Belém – Marconi está sempre inovando e avançando em seus governos. Agora, para o quarto governo, ele sinaliza que, além de obras, vai trabalhar para melhorar os serviços para a população. É um salto, por exemplo, na hora que coloca o Vapt Vupt Virtual, que vai facilitar a vida do cidadão. Como o sr. vê essa aposta nos serviços?
É o que eu disse antes, o espírito renovador que Marconi tem. Ele não se contenta com o que já foi feito. Por exemplo, ele restaura uma rodovia — e as rodovias de Goiás estavam quase todas deterioradas — e já imagina sinalizá-la. Além de duplicações, ele já está pensando em fazer as terceiras faixas nas GOs. E ele faz questão de qualidade. Antigamente, o asfalto era de baixíssima qualidade, sem acostamento, botando em risco os usuários. Na época de Iris, o povo chegou a chamar as pavimentações de “asfalto sonrisal”, porque na pri­meira chuva ele se dissolvia to­talmente. Mas, agora, já até dispensa comparação, porque o povo goi­ano conhece bem o que Iris fez, tanto que o dispensou na eleição, colocando-o na casa dos esquecidos.

Euler de França Belém – O governador quer um secretariado mais executivo que político, pois ele, a­lém de ser um grande político, sempre investiu em gestão. O sr. acha que essa é uma visão correta?
É uma visão muito correta. Marconi tem hoje uma grande liberdade para constituir seu governo. E ele sabe escolher, valoriza muito o arrojo pessoa do escolhido, sua competência e seu resultado. É isso que o governador visa.

Euler de França Belém – O sr. foi secretário de Segurança Pública, um dos setores que hoje são mais vulneráveis, no Estado e na­cionalmente. O crime da dro­ga não é goiano, mas está presente em todo o País. Isso tem de fazer mudar o perfil do secretário e da atuação da própria pasta? A prisão de Tiago Hen­ri­que, o serial killer, mostrou que a inteligência policial é fundamental.
Concordo plenamente. A questão da segurança pública é muito complexa, temos muitas variantes. Indiscutivelmente, a droga é campeã, mais de 80% – não tenho a estatística exata – dos crimes estão vinculados à droga. Como os Estados vão, isoladamente, resolver o problema? É preciso que haja uma política nacional de segurança pública. O candidato à Presidência Aécio Neves (PSDB) bateu muito na questão das fronteiras. Vemos que hoje há uma sintonia ideológica entre o Brasil e os países produtores de drogas. Com isso, há uma frouxidão em relação a impedir que a droga entre em nosso País.

Não vemos uma política determinada, com o uso dos meios disponíveis, para fechar fronteiras. E é preciso fechá-las. Outra coisa: esses países produtores de drogas dependem muito do Brasil, de nossa diplomacia, de nosso comércio, de financiamentos – que, aliás, estão sendo feitos com juros secretos, absurdamente escondidos. Responsabilizo muito o governo federal pelo aumento da violência no Brasil a partir desse ponto de vista. Temos de reduzir a entrada da droga no Brasil, colocar a inteligência da Polícia Federal para detectar os focos que comercializam a droga internamente. Com isso teremos uma redução enorme da violência.

Mas há também outras variantes, que devem ser combatidas com a mudança da legislação. Nunca se pren­deu tanto em Goiás como agora. Vejo que o atual secretário [Joaquim Mesquita] está trabalhando muito, assim como a Polícia Civil, a Polícia Militar também. Mas não adianta sem mudar as leis, além de fortalecer nossas polícias, dar a elas todas as condições para reciclagem e atuar mais no setor da inteligência, que detecta os pontos nevrálgicos que provocam a insegurança da população. E, claro, é preciso endurecer com os bandidos, é preciso que eles tenham medo da polícia. Não há discussão que possa vencer essa tese.

Euler de França Belém – E a questão dos presídios? O ministro da Justiça [José Eduardo Cardozo] disse que havia dinheiro disponível, mas não construíram os presídios em Goiás.

O governo federal está contingenciando R$ 12 bilhões da segurança pública para fazer superávit primário.

Euler de França Belém – Anápolis sempre reivindicou a Secretaria da Indústria e Comércio (SIC), o que é natural até por ter o maior polo industrial do Estado. Mas fala-se que o deputado estadual eleito Jean Carlos (PHS), da região de Itaberaí e que é apoiado por Zé Garrote, empresário e dono da Super Frango, assumiria a SIC. Mas disseram também que isso é pura especulação. A SIC fica com Anápolis?
De fato, Anápolis reivindica a SIC. Do ponto de vista política, a cidade tem autoridade para isso, já que o governador teve 76% dos votos dos anapolinos, que valorizam essa secretaria. De nosso município, já tivemos Ridoval Chiareloto, Alexandre Baldy e, agora Bill O’Dwyer, que está fazendo uma excelente gestão, é um grande secretário. O trabalho não é para potencializar apenas a indústria de Anápolis, mas a do Estado todo. Temos um polo pujante e no próximo ano será inaugurado o aeroporto de cargas. Temos lá, também, o porto seco e a Ferrovia Norte-Sul. A localização de Anápolis é estratégica, encostada em Goiânia e na capital federal, bem posicionada em relação ao Norte e Nordeste do País. Não conversei sobre isso com o governador, mas imagino que o município continuará à frente da SIC, sem desmerecimento dos demais.

Euler de França Belém – Teremos eleições para a Assembleia Legislativa, da qual o sr. foi presidente quando foi deputado estadual. Estão se colocando como candidatos Helio de Sousa (DEM), José Vitti (PSDB), Francisco Júnior (PSD), Lincoln Tejota (PSD) e Francisco Oliveira (PHS), entre outros. Mas tem gente que acha que o presidente tem de ser do PSDB, o partido do governador. Como o sr. observa esse quadro?
Todos contribuíram com a eleição do governador Marconi Perillo. O PSDB, com muito valor, mas também os demais partidos. Parece-me que o PSDB, por ter a maior bancada, acaba tendo um direito quase que assegurado de ter a presidência da Casa.

Euler de França Belém – O governo estadual está anunciando profundas reformas. Que reformas são essas?
Não sei detalhes do que será atacado. Mas toda reforma – e essa não será diferente – tem o objetivo de modernizar a máquina e adequá-la à realidade econômica, financeira e administrativa do Estado. Não tenho conhecimento, mas imagino que seja de redução de cargos, diminuição e fusão de secretarias.

Euler de França Belém – O sr. tem alguma informação sobre déficit de R$ 500 milhões nas contas do Estado? Dizem que o governo está com dificuldade para se adequar à Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF).
Isso é normal, todo fim de governo tem essas dificuldades, mas é só fazer a adequação, verificar onde houve os excessos e fazer os devidos encaminhamentos.

Cezar Santos – Falando um pouco da conjuntura nacional, como o sr. avalia a proposta da chamada “poupança fraterna” apresentada pelo deputado Nazareno Fonteles (PT-PI)?
É mais um dos absurdos praticados pelo PT. Esse deputado quer estabelecer o quanto pode lucrar um empresário ou o quanto pode perceber de salário um cidadão que trabalha, que luta, que estuda, que se qualifica. Ele imagina que um cidadão que tenha mais que R$ 9 mil reais de salario bruto não precisa mais do que isso para sua sobrevivência. Então o que ele ganhar acima disso — não importa o trabalho que realize, os cursos que tenha feito, o aprimoramento intelectual e profissional que tenha buscado — seria compulsoriamente depositado num fundo que o projeto denomina “poupança fraterna”, que renderia 20% do que rende a poupança normal. Se hoje a caderneta de poupança rende 0,5% de juros, a poupança fraterna renderia 0,1%, sendo resgatada somente depois de 14 anos. Essa poupança na concepção do PT seria utilizada em favor dos menos favorecidos, e lá diz construção de creches, de escolas. Mas isso já está na previsão orçamentária nos abusivos impostos que os brasileiros têm de pagar. É um absurdo, um confisco antidemocrático e arbitrário. O povo brasileiro tem de ter cuidado com essas ações petistas, com esses conselhos populares [projeto derrubado na Câmara dos Deputados no dia 28 de outubro].

Ex-deputado Frederico Jayme fala aos editores Euler de França Belém, Marcos Nunes Carreiro e Cezar Santos: “É preciso endurecer com os bandidos. Bandido tem de ter medo da polícia”

Ex-deputado Frederico Jayme fala aos editores Euler de França Belém, Marcos Nunes Carreiro e Cezar Santos: “É preciso endurecer com os bandidos. Bandido tem de ter medo da polícia”

Euler de França Belém — Nesse caminho, vem o que se chama de regulação da mídia. Como o sr. avalia?
É outra investida bolivariana do PT. Essa história de controle social ou democrático da mídia é eufemismo, eles querem botar a imprensa sob a tutela do governo. Ou seja, a imprensa só poderia cobrir o que o governo quer. Não podemos imaginar no Brasil um controle da imprensa. Eles querem transformar nosso Brasil em uma Venezuela — aliás, eles (os petistas) admiram muito a Venezuela. Isso mata a oposição e enfraquece o Congresso Nacional. Todas as ações petistas são nesse sentido.

Euler de França Belém – O ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal (STF) disse que está com receio de que a Justiça brasileira se torne bolivariana. Na condição de advogado, o sr. acha que há razão para esse temor?
Temos hoje um número considerável de ministros no Supremo Tribunal Federal (STF) nomeados pelo PT. Alguns vieram da carreira jurídica e acreditamos que se comportarão, como sempre se comportaram, no caminho de isenção no julgamento das questões. Veja que hoje o presidente do TSE [Tribunal Superior Eleitoral] foi advogado do PT e sócio de José Dirceu [ex-ministro do presidente Lula e condenado no escândalo do mensalão]. Nossa expectativa é de que ele tenha isenção, mas aí fica uma interrogação. E a previsão é que a presidente Dilma nomeie mais seis ministros até o final de seu mandato.

Cezar Santos – Há uma proposta de emenda constitucional (PEC) aumentando de 70 para 75 anos a idade para aposentadoria compulsória dos ministros. Seria positivo para o País?
A expectativa dos brasileiros é de que o Congresso aprove essa proposta, porque aí se evitaria que o governo petista nomeasse mais seis ministros. O peso petista no STF é realidade. Quando o ministro Joaquim Barbosa saiu, logo deram um jeito de livrar os mensaleiros da cadeia. Vamos torcer para que essa PEC, que está em tramitação há um bom tempo, seja aprovada. Mesmo porque o cidadão aos 70 anos está no melhor momento de sua experiência e independência cultura e intelectual. Tivemos um exemplo aqui, o candidato do PMDB ao go­verno [Iris Rezende] disputou com 80 anos de idade e trabalhou, participou de debates, percorreu o Estado.

Euler de França Belém – O sr. investe em seringueiras?
Sim. Planto seringueiras em Goianésia. Estou chegando ao número de 100 mil pés e devo começar a produção logo após o período chuvoso.

Euler de França Belém – Quem compra essa produção?
A Michelin [indústria de pneus] e laboratórios de produção de preservativos, entre outros.

Euler de França Belém – Há a possibilidade, inclusive, de instalarem uma empresa de industrialização do látex em Goiás.
Sim. Há essa possibilidade. Tem matéria-prima suficiente. Goianésia tem terra, clima e altitude apropriados para a produção de látex. l

 

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