Elder Dias, Euler de França Belém e Italo Wolff

O prefeito de Anápolis Roberto Naves entra na reta final de seu mandato garantindo que seu café não esfriou. Após vencer todas as eleições que disputou, Naves transformou a cidade com o segundo maior PIB de Goiás em um canteiro de obras e se consagrou um político de relevância estadual. 

Nos últimos três meses, deixou o Partido Progressista para se tornar presidente do Republicanos em Goiás, onde ganhou reputação como solucionador de crises. Nesta entrevista ao Jornal Opção, Roberto Naves fala sobre as articulações políticas em Goiás e Anápolis para 2024. O prefeito conta seus sonhos para o futuro e explica ainda as razões que o levam a adiar o anúncio de seu apoio à sucessão municipal. 

Euler de França Belém — Você acha que o goiano vai sentir saudades da Enel depois da Equatorial?

Roberto Naves — Se a Equatorial não acelerar, vai. Não tenho dúvidas disso, porque cada dia que passa a nossa rede fica mais velha. Quanto mais velha, mais ela precisa de investimentos e agilidade. Eu entendo que a Equatorial herdou uma situação muito ruim da Enel, mas ela foi voluntariamente ao casamento e se casou com a viúva, não é? Então agora é obrigada a cuidar do passivo e do ativo dela, porque a escolha foi da própria Equatorial. Ninguém a obrigou a assinar o contrato em Goiás; veio por vontade própria e está recebendo por isso. Agora cabe a ela arcar com suas responsabilidades e, se não resolver os problemas, nós vamos sentir saudade da Enel, infelizmente.

Euler de França Belém — Existe eficiência energética para a operação do segundo Distrito Agroindustrial de Anápolis (DAIA)?

Nosso grande problema não é a falta da energia, mas a transmissão. Temos geração de eletricidade, mas a rede não comporta transmitir a quantidade de energia suficiente e a estrutura falha com as chuvas e ventos. Mesmo com os reservatórios cheios de água, a energia precisa chegar ao consumidor. 

Em Anápolis, foi inaugurado agora há pouco tempo uma subestação nova no DAIA, mas precisamos de mais duas subestações. Anápolis não para de crescer. Agora, no que diz respeito ao problema da água, foi resolvido. Graças a Deus, nós demos aquele voto de confiança ao governador Ronaldo Caiado (UB), que é um homem de palavra e cumpriu a promessa de investimento na cidade através da Saneago. Esse investimento foi feito e nós já vamos pro terceiro ano que passamos o período de seca sem falta de água. Isso, com certeza, é um dos grandes legados que vamos deixar para as futuras gerações de Anápolis.

A cidade está pronta para crescer, o gargalo do estado agora é a questão energética. Tenho certeza que o Caiado vai apertar cada vez mais, até que eles façam os investimentos necessários para a cidade e Goiás continuem crescendo na velocidade que vêm crescendo.

Euler de França Belém — O senhor esteve na China recentemente. Seus críticos falam que Anápolis, depois de todos os salamaleques, ganhou apenas os centros de distribuição da Alibaba. O que você diz sobre o assunto?

O crítico que faz um comentário desses precisa primeiro estudar pra ele saber o que significa a Alibaba no mundo todo. Então, ele teria que estudar para saber o que significa e-commerce. Se fosse apenas a Alibaba, já seria uma coisa monstruosa. Mas nós temos que entender que tudo aquilo que vem para o estado de Goiás, todas as empresas multinacionais; como a Chint Power, que está indo para para Itumbiara; como a CMOC, que está indo para Catalão — todas essas empresas abrem portas. Elas trazem peças, elas trazem produtos. 

A Chint vai trazer painéis solares, por exemplo. Quando esses produtos entram no país, eles precisam ser desembaraçados na seção aduaneira. Esse desembaraço pode ser feito no Porto de Santos e deixar o dinheiro em Santos; pode ser feito no Porto do Espírito Santo e deixar o dinheiro no Espírito Santo; ou pode ser feito no Porto Seco de Anápolis. 

“Veja quantos frutos Goiás colheu em função da missão do governador Maguito Vilela à China, 30 anos atrás.”, diz Roberto Naves | Foto: Leoiran / Jornal Opção

Estivemos na China com a comitiva do governador Ronaldo Caiado, para acompanhar e fazer contatos com essas empresas que estão vindo para Goiás, e tudo vai passar por Anápolis. Também estávamos lá para fazer novos contatos, trazer novas indústrias, novas empresas. Não é “apenas” a Alibaba. O contato com a Alibaba já está muito quente, mas ainda não definido. Há também o contato com uma empresa de fibra óptica, um contato com uma fábrica de vidro, e outras empresas.

Tudo isso são portas que vamos abrindo e frutos que vamos colher com o tempo. Como a Alibaba é um e-commerce que traz produtos do mundo inteiro e podem ser distribuídos passando por Anápolis, o ganho é dobrado. No final, foi uma viagem muito produtiva. Um dos jantares de que participamos aconteceu na província de Hebei. Sabe o que estávamos comemorando lá? Os 30 anos da missão do governador Maguito Vilela. Veja só quantas coisas o estado colheu porque há 30 anos atrás Maguito foi à China. 

Euler de França Belém — Comenta-se nos bastidores que o vice-prefeito Márcio Cândido será seu candidato à Prefeitura de Anápolis nas próximas eleições. É verdade?

O candidato do prefeito Roberto Naves será aquele que tiver a maior vontade de cuidar das pessoas. Nosso grupo tem ótimos nomes, Márcio Cândido é um deles. Leandro Ribeiro (PP), Eerizania de Freitas (Republicanos), Carlos Hassel (MDB) são bons nomes. Eu vou decidir quem apoiar levando em consideração a força de vontade para cuidar das pessoas.

O prefeito deve ser uma pessoa disposta a resolver problemas e a cuidar de pessoas 24 horas por dia. As pessoas precisam de você às 4 horas da manhã de um domingo, feriado. Então, a força de vontade e a competência são as qualidades que fazem a diferença na vida das pessoas. Eu tenho dito isso: vou apoiar o candidato que conseguir demonstrar para mim e para a população anapolina que tem mais vontade e que vai sentir mais prazer em ser prefeito da cidade de Anápolis. 

Euler de França Belém — Então você ainda não definiu seu apoio?

Não, eu ainda não defini um candidato. Eu tenho R$ 700 milhões em obras sendo executadas. Tenho muitos problemas para resolver até terminar meu mandato. E eu sou um cara focado. Sabe quantas carreatas e passeatas eu fiz nas eleições de 2020? Nenhuma. Porque eu entendo que o político não deveria nem pedir voto — ele deveria pedir uma oportunidade de emprego. Somos funcionários e meu foco nesse momento é terminar meu trabalho. 

Quem precisa ganhar as eleições que vem são os candidatos, e eu não sou candidato. Decidirei o meu apoio e a minha opinião quando chegar a hora. Cada um tem que construir o próprio caminho e a própria história, foi assim comigo. É isso que eu falo para todos que sonham em ser prefeitos: trabalhe primeiro, se preocupe depois. 

Euler de França Belém — Você excluiu dessa lista o Márcio Corrêa, do MDB?

Pessoalmente, não tenho nenhum problema com o Márcio Corrêa. Mas eu vou inverter a pergunta: em 2020, disputei eleição contra o PT e fui para o segundo turno contra o PT. Márcio Corrêa foi o terceiro colocado. No segundo turno, ele ficou do lado da direita ou ele ficou do lado da esquerda? Ele não declarou apoio. Ele, que hoje se diz representante do bolsonarismo, não me apoiou nem contra o PT.  

Euler de França Belém — Mas ele não declarou apoio à esquerda também.

Quando você deixa de apoiar a direita, você escolhe um lado. Em Anápolis de 2020, eu representava a direita junto ao presidente Jair Bolsonaro (PL). Desde já te afirmo: o candidato que disputar contra Antônio Gomide (PT) no segundo turno é o meu candidato. Jamais vou omitir. Isso é ser direita, isso é ter lado. Em 2020, Márcio Corrêa se omitiu e beneficiou o candidato de esquerda. 

“Quem precisa ganhar as eleições que vem são os candidatos, e eu não sou candidato. Decidirei o meu apoio e a minha opinião quando chegar a hora”, diz Roberto Naves | Foto: Leoiran / Jornal Opção

O MDB em Anápolis fez oposição ao meu governo durante os sete anos do meu mandato. Como posso justificar ao meu grupo político que agora vou apoiar o partido que votou contra nossos interesses? Seria injusto com quem me apoiou. Tenho uma excelente relação com Daniel Vilela (MDB), que é do grupo político de Márcio Corrêa, e não misturo as coisas. Mas, em Anápolis, todos os projetos positivos para a cidade tiveram a oposição de Márcio Corrêa (o Anápolis Investe, por exemplo). Não é que eu não queira apoiá-lo; é que eu não posso caminhar com aqueles que tentaram atrapalhar o que construí durante sete anos.

Euler de França Belém — E na hipótese de um segundo turno entre Márcio Corrêa e Antônio Gomide, você fica com quem?

Eu ficaria contra o PT, mas essa possibilidade não existe. Meu candidato será o candidato do governador Ronaldo Caiado e o do presidente Bolsonaro, e ele não é Márcio Corrêa.

Euler de França Belém — Então o Governador não vai com o MDB?

O governador vai apoiar o candidato que ganhará as eleições de Anápolis, juntamente comigo. Eu tenho convicção disso. 

Euler de França Belém — Gomide aparece nas pesquisas como favorito. Ele foi um bom prefeito de Anápolis, é reconhecido como um bom gestor. Você não o está subestimando?

Eu já derrotei Antônio Gomide três vezes.

Euler de França Belém — Mas agora você não é candidato.

As pesquisas não indicam os resultados do ano que vem, porque as pesquisas quantitativas de Anápolis a 30 dias da eleição não representam nada. O eleitor anapolino não tem medo de votar. Veja o histórico: em 2016, existiam sete candidatos; eu estava em último lugar nas intenções de voto, com 0.2%, a 30 dias das eleições. Fui para o segundo turno e ganhei as eleições. Não dá para achar que ele tem muito baseado nessas pesquisas. Em 2020, ele tinha 44% de intenções, e eu tinha 21% e ganhei.

Quando digo que minha estratégia é apoiar aquele que tiver mais vontade de ser prefeito de Anápolis, é porque conheço a cidade. É um município de direita, conservador, que tem dificuldades com o PT. Novamente: não tenho problemas pessoais com o Gomide, mas, fazendo uma análise política, digo que as pesquisas quantitativas não representam nada nessa fase das eleições.

A rejeição ao PT em Anápolis é gigantesca. A influência do presidente Jair Bolsonaro, do governador Ronaldo Caiado, do prefeito Roberto Naves — todos esses fatores têm o seu peso. Em Anápolis, a influência das igrejas tem o seu peso. Lá, o pleito é extremamente técnico, científico; reflete a vontade de um povo que não tem medo de votar e de arriscar.

Elder Dias — Se as avaliações do Gomide são boas e ele pode perder, a eleição não é só técnica.

As avaliações das gestões do Gomide são boas antes do governo Roberto Naves. Eleição é comparação. Eu desafio o governo do PT a comparar qualquer coisa com o nosso governo. Eu desafio comparar os números da educação, metros quadrados de asfalto, número de escolas, creches, hospitais, praças ou quadras esportivas construídas. A população sabe.

Quando eles assumiram o governo, sucederam Pedro Sahium (PDT), que tinha consertado a prefeitura. Quando eu assumi o governo, a coleta de lixo não estava paga, estava atrasada. O salário dos servidores estava em dia, mas os reajustes não estavam em dia. Eu tinha uma dívida de R$ 200 milhões em precatórios. Sabe quanto terei de pagar de precatório ano que vem? Nenhum centavo, porque eu paguei todas as dívidas. 

Estou disposto a comparar números com muita tranquilidade tendo uma pandemia no meu currículo. Gomide foi considerado um bom gestor quando comparado aos outros que vieram antes dele.

“Em Anápolis, a rejeição ao PT, as influências de Jair Bolsonaro, Ronaldo Caiado e Roberto Naves têm enorme peso”, diz Roberto Naves | Foto: Leoiran / Jornal Opção

Euler de França Belém — Em Anápolis se fala que o seu calcanhar de aquiles é a saúde. O que acha dessa alegação?

A saúde, em todos os municípios do Brasil, tem problemas. Se a saúde é o calcanhar de aquiles, não é apenas meu, mas de todos. Compare a saúde em minha gestão com a da passada. Quantos centros cirúrgicos a prefeitura tinha antes do prefeito Roberto Naves? Nenhum. Hoje eu faço 400 cirurgias eletivas por mês, porque eu construí um hospital. Quantos hospitais o PT construiu? Nenhum. Como é que era o atendimento pediátrico em Anápolis? Não existia. Fomos a primeira cidade do Centro-Oeste brasileiro a ter uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA) pediátrica. Quem criou as Unidades Básicas de Saúde (UBS) de horário estendido e que estão sendo copiadas em todo o país? Fomos nós. Hoje é um programa nacional. Sabe como se marca uma consulta em Anápolis há mais de um ano? Pelo WhatsApp. Hoje, cidades como Osasco e Curitiba estão implantando o modelo.

Nós temos problemas porque não fujo de assumi-los. A obrigação do prefeito na área da saúde é a atenção básica. Mas eu não me omito; se o paciente fica doente, eu preciso resolver mesmo que seja um caso grave. Mesmo não sendo obrigação, trabalho com as cirurgias eletivas e vou inaugurar mais outro hospital em março. A saúde sempre vai ser um gargalo, mas a função do gestor é resolver, e não se justificar. 

Euler de França Belém — Se diz que sua rejeição está alta em Anápolis. Isso procede? 

Se você perguntar para qualquer eleitor de Antônio Gomide, do PT, se o meu governo é bom, ruim ou péssimo, ele vai responder o que? Como Anápolis está polarizada, e o PT tem em torno de 20 a 25% da população, a rejeição do prefeito de direita estará sempre em alta. O importante é que hoje nós temos, com tranquilidade, um índice de aprovação acima de 60%. Sempre monitoro minha aprovação e garanto que está acima de 60%. Depois de sete anos, vai ter rejeição, é claro. Mas não está alta. 

Italo Wolff — Você fala que os bolsonaristas estão com você.

Não. Não falo que os bolsonaristas estão comigo, não. Eu falo que eu sou o representante da direita hoje. E eu conquistei isso nas urnas e no meu posicionamento.

Italo Wolff — E se o bolsonarismo fechar com Márcio Corrêa?

O bolsonarismo faz diferença, para qualquer candidato que seja. Não se dispensa apoio. Mas não acredito que seja o único fator que decida a eleição. Não existe movimento bolsonarista sem as Assembleias de Deus, por exemplo, e esse segmento está comigo. Eu tenho apoio da Assembleia de Deus Madureira, a Assembleia de Deus Ministério de Anápolis, e todas as igrejas tradicionais de direita.

Euler de França Belém — A informação de que o vereador Leandro Ribeiro Salim (PP) saiu da sua base e foi para a base do MDB procede?

Acho que não procede, não. Ele é um amigo pessoal, fui quem o coloquei na política. Fui eu que fiz o Leandro ser secretário da Indústria e Comércio no governo de José Eliton (PSDB), fui eu que coloquei o Leandro no PP, fui eu que conversei com Alexandre Baldy (PP) para empregá-lo como subsecretário. Acredito que não há possibilidade alguma.

O que acontece em Anápolis é que existem dois grupos bem estabelecidos: a esquerda, representado por Gomide; o grupo da direita, representado por Roberto Naves; e um grupo que está procurando uma identidade. Eles buscam o que fazer em função do momento, e cada dia aparece uma conversa nova. Isso na política tem um nome: desespero.

Italo Wolff — Acredita que Lula (PT) pode aumentar a aprovação de Gomide? E que a inelegibilidade de Bolsonaro possa atrapalhar a esquerda?

Não. Acredito que, em uma cidade polarizada como Anápolis e onde o antipetismo é tão forte, o apoio de Lula vai atrapalhar Gomide. E o apelido de “mito” de Bolsonaro não é à toa. É uma pessoa com um carisma muito grande e que arrasta multidões. Para nós da direita, seus problemas não representam nada. Não senti diminuição alguma no apoio da população. 

Elder Dias — Acha que hoje o desejo de Ronaldo Caiado é ser o presidente da república? O fato de Goiás ser um estado periférico não atrapalha?

Se Bolsonaro está inelegível e Tarcísio Freitas (Republicanos) afirma que pretende continuar como governador de São Paulo, a liderança natural é Ronaldo Caiado. Nada se torna impossível apenas porque se nasceu em Goiás. O estado mostrou boas soluções para as principais demandas do Brasil: políticas públicas sociais, segurança pública, produção agrícola. Ronaldo Caiado fundou a União Democrática Ruralista (UDR) em 1980. Acredito que Caiado se encaixa no perfil equilibrado que o país tem procurado. Ele se encaixa nesse perfil. Não digo com paixão, mas com lógica. 

Euler de França Belém — Dizem que no último ano de mandato os políticos começam a tomar café frio, sobretudo quando estão no segundo mandato. O seu café já está morno?

Nunca vou passar por isso, porque eu sirvo meu próprio café [risos].

Euler de França Belém — Por que trocou o PP pelo Republicanos?

Na vida, temos de aproveitar as oportunidades que aparecem. Dentro do PP, eu permaneceria totalmente limitado, porque ali nós temos um líder — o ex-deputado Alexandre Baldy — que está nas vagas das chapas majoritárias. Nenhum partido tem duas cadeiras na chapa majoritária, mas o fato é que no PP eu não tinha espaço. O Republicanos foi uma chance de me destacar. 

Tenho o sonho de algum dia ser prefeito de Goiânia e governador do estado; não sei quando, mas é um desejo íntimo e pessoal para algum dia. Avalio os cenários e busco oportunidades, com paciência, pois ainda tenho apenas 45 anos. Quero cumprir o meu mandato, os compromissos com minha cidade, transformar a vida dos cidadãos. Quando concluir esse esforço, acho que vou chegar às próximas eleições com meu capital político e com meu grupo unido. Então, vou avaliar as possibilidades.