“A reeleição de Dilma foi um estelionato. Mentiram o tempo todo”

Severo crítico do PT e do governo federal, professor da PUC-GO diz que Lula e sua sucessora aparelharam a máquina e implantaram no Brasil uma estrutura neopatrimonialista

Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

Professor da Pontifícia Universidade Católica de Goiás (PUC-GO), o cientista político Wilson Ferreira da Cunha se considera “um sobrevivente do socialismo real”. Como então filiado ao Partido Comunista Brasileiro (PCB), ele morou e estudou na União Soviética de 1965 a 1972 (é mestre em antropologia).

Ao retornar, tornou-se — ao contrário do que pretendiam os intercâmbios para o Leste europeu durante a guerra fria — um feroz crítico do comunismo e de tudo aquilo que possa parecer com tal regime. “Todo jovem da época era militante estudantil, o movimento político era puxado pelos estudantes. Acreditávamos que podíamos fazer uma revolução, como todo jovem”.

É o que ele mostra também nesta entrevista ao Jornal Opção, em que não poupa a presidente Dilma Rousseff — eleita, segundo ele, por meio de um “estelionato” — nem seu antecessor, Luiz Inácio Lula da Silva. O “partido 13”, claro, também não escapa da indignação do professor Wilson. “Inauguraram o neopatrimonialismo. O privado invadiu o público dando, como consequência, a legitimação da corrupção, do nepotismo, a manutenção dos privilégios”.

Elder Dias — O Brasil está envolto em mais um grande escândalo e novamente se evoca a falência do sistema político nacional. Muitos dizem que isso é por termos uma democracia relativamente jovem. Como o sr. vê essa situação? O Brasil caminha para isso?
Pelo contrário, o Brasil está se inserindo em nível internacional, o que se deu a partir de Fernando Henrique Cardoso, que colocou o País em um rumo econômico correto. Pela primeira vez, tivemos uma gestão pública eficiente. Tanto é que o presidente foi reeleito, bem como Lula e também — por que não? — Dilma Rousseff. A questão é que onde existe gente existe corrupção. Isso é inato ao ser humano. Somos primatas e buscamos benefícios. A quebra da legitimidade de roubar a coisa pública começou na formação do Estado moderno, no período renascentista. Maquiavel [filósofo italiano, autor de “O Príncipe”, clássico da teoria política], o pai da política como ciências, pôs os pingos nos is.

Obviamente, o Brasil, como colônia durante séculos, foi patrimônio de Portugal. Daí vem o conceito de patrimonialismo: apesar de sermos uma Nação, fomos também um patrimônio das elites dominantes daquela época. Nos últimos 13 anos, o partido 13 [referindo-se ao PT] inaugurou o neopatrimonialismo. O que é isso? O privado invadiu o público dando, como consequência, a legitimação da corrupção, do nepotismo, a manutenção dos privilégios pessoais e familiares. Isso é o que há de mais grave hoje. Só que o Brasil é outro. A crise vai demonstrar que a gente tem saída. Nenhum brasileiro é contra seu país. Pode parecer um clichê, mas é preciso levar isso a sério: o que é ser “a favor” do País?

A política, desde Maquiavel, quando deixou de ser vista como algo definido por meio de uma intervenção divina, passou a ser uma ciência, de humanos para humanos. Foi quando começamos a discutir política efetivamente, e não mais questões religiosas, utópicas ou messiânicas. O que se discute são fatos. A ciência moderna impõe a verdade dos fatos, ao contrário de antes, quando os fatos eram esclarecidos pelas vias da superstição, da religião, das emoções e de interesses particulares. Ao proceder as discussões de modo impessoal, a ciência alçou o mundo a novo patamar.

Na política e na economia, os fatos estão aí. Pode ser que lá na frente a presidente Dilma Rousseff reconheça os fatos equivocados de seu governo…

Cezar Santos – Hoje [quinta-feira, 12], ela fez uma espécie de pequeno mea culpa.
Sim, mas ela não reconhece que fez tudo errado. Enquanto isso não estiver na pauta governamental não há como resolver as questões do País em um passe de mágica. A presidente opera em uma realidade distorcida da verdade, em um campo um tanto virtual, provavelmente por falta de noção de teoria econômica, de teoria política. Basta nos perguntarmos: qual texto econômico foi apresentado ao País como solução? Que fundamentos teóricos essa política atual tem? Temos esperado por isso.

A reeleição de Dilma foi um estelionato. Basicamente, mentiu-se o tempo todo para todo mundo. Foi uma campanha baseada em marketing político e não em propaganda política.

Elder Dias — E qual é a diferença entre marketing político e propaganda política?
Isso começa com os gregos, como Aristóteles e Platão, ao discutir as prioridades da “pólis”, da nação. E prioridades são questões econômicas. O que é prioridade? Não é algo fantástico, é algo que é muito mais forte que está presente. Maquiavel, hoje, é estudado pelas empresas, exatamente porque é preciso ter planejamento, ter estratégia, ter política de futuro. A política científica visa dirigir uma cidade, uma nação de forma baseada em fatos reais e incontestáveis. A “pólis” se baseia no real e não na utopia. Parece-me que Tombini, [Alexandre Tombini, presidente do Banco Central], que está “tombando” cada vez mais, vai sugerir que haja uma espécie de culto sacrossanto, com velinhas em cada canto das salas do Banco Central, para dirigir a Nação.

O governo petista, nos últimos 13 anos, se marcou basicamente pela propaganda política, pelo marketing político. O PT apresenta um país utópico, um país da fantasia, do faz-de-conta. Tanto que qualquer correspondente estrangeiro que tecesse um elogio ao Brasil estava em primeiro plano, enaltecendo o “gigante” Brasil, aquela patriotada toda. Mas, a partir do momento em que se faz um diagnóstico real da situação econômica, que é degradante, os petistas já se sentem ofendidos. Diagnóstico é algo impessoal, é fato. Mas nossos políticos se colocam pessoalmente como salvadores da pátria.

Dilma foi apresentada como a “mãe do PAC”. E o PAC [Plano de Aceleração do Crescimento] nada mais é que programas das instituições nacionais que já existiam, foram juntados e neles colocaram essa sigla. Isso é marketing político e não propaganda da política. Propaganda é discutir as prioridades, as ideias, os projetos, os consensos e os dissensos, as contradições, ou seja, o que fazer com o país com os recursos que temos. Mas eles acham que basta assinar, ter boa vontade política, que o país vai crescer porque eles são “boa gente”. Isso é tratar o brasileiro como débil mental.

Cezar Santos – Dilma não conseguiu montar uma equipe que funcionasse minimamente, o que parece se repetir agora, haja vista os articuladores políticos que ela colocou e que não conseguem articular nada. Lula, nesse sentido, foi mais inteligente?
Mas Lula, no PT, não tinha quadro nenhum. Se não fosse Henrique Meirelles [então deputado federal eleito pelo PSDB de Goiás] e o Plano Real do governo anterior, não haveria sustentabilidade dos governos Lula 1 e 2.

Cezar Santos – As dificuldades de Dilma não passam também pela arrogância?
Levando para o plano pessoal, realmente há uma arrogância, uma prepotência, a ideia de passar imagem de “gerentona” que não aceita nenhuma contradição. E aí há o puxa-saquismo, o PT se sustenta graças aos colaboracionistas, os partidos que são de quem está no poder e não apresentam propostas à Nação.

Dilma, se quisesse reconhecer seus erros, deveria ter convidado – acatando sugestão que partiu até mesmo de membros de seu próprio partido – Henrique Meirelles [ex-presidente do Banco Central de 2003 a 2012], trazendo de volta esse, sim, que é um símbolo nacional e internacional que tem serviços prestados à Nação. Ele foi o único que garantiu a sustentabilidade do governo Lula.

Elder Dias – Mas o sr. não acha que ela tenha tentado esse salto ao trazer Joaquim Levy para o Ministério da Fazenda?
Joaquim Levy é uma figura leve.

Cezar Santos – Um técnico do segundo time…
Dilma deveria ter convidado Pérsio Arida, que estava com Aécio Neves (PSDB). Levy, ao aceitar esse cargo como subalterno, como obediente, a exemplo de seu antecessor Mantega [Guido Mantega, ex-ministro da Fazenda], que não chega a margarina, torna difícil prever que sustentação terá nesse governo Dilma. A gestão não depende de técnicos, mas da estratégia do gerente geral da Nação, que é a presidente. O Brasil hoje parece um retrato da figura de Goethe no romance “Fausto”, o elefante desgovernado, sem direção. Não se sabe onde vai dar tudo isso.

Uma boa ideia traz muito mais credibilidade do que dinheiro, porque sua boa gestão vai acarretar vinda de recursos. Nós não temos isso. Quem hoje propõe essa abordagem são os articulistas econômicos mais graduados, incluindo Henrique, Delfim Netto [ex-deputado, que foi ministro da área econômica nos governos militares], Alexandre Schwartsman, um grande economista que pertenceu ao Banco Central e foi reprimido por Dilma e demitido praticamente no início do governo Lula. Ele já pregava aquilo que agora está sendo implementado por Joaquim Levy.

A política diz respeito a questões da “res publica”, da coisa pública, do dinheiro que é arrecadado do contribuinte pelos governantes. Eu não chamo esse cidadão de eleitor, mas de contribuinte, pois é ele quem sustenta, quem paga o Estado, que lhe dá o orçamento.

Frederico Vitor – Essa diferença entre Dilma e Lula não seria porque o ex-presidente vem do sindicalismo, que exige mais negociação, enquanto ela vem do brizolismo, do PDT, um partido confrontista?
É um nacionalismo utópico, que envelheceu com o próprio discurso, hoje fora de lugar e com a bula vencida. Lula é um personagem criado no sindicato, mas o sindicalismo brasileiro — e o Jornal Opção publicou uma reportagem mostrando isso, tempos atrás — é piada. Hoje temos cerca de 15 mil sindicatos de puro peleguismo, não são sindicatos. São corporativistas, apenas para atender segmentos de trabalho, não têm propostas reais, modernas. São atrelados ao governo, que lhes doa bilhões de reais anualmente.

Sindicato hoje é um emprego, uma empresa que rende lucros, assim como os partidos políticos, que existem, muitos deles, apenas para ter fundo partidário, cotas de tempo na TV. Há partido que tem apenas um dirigente e recebe milhões por ano. Por isso, por ser sindicalista, Lula entendeu que sindicato é um balcão de negócio e assim se negocia com todo mundo. Ele introduziu no Brasil o neopatrimonialismo, com uma inversão em que a cadeira pública tornou-se cadeira privada, as instituições públicas passaram a ser instituições do partido que está eventualmente no governo.

Cezar Santos – Mas não parece que grande parte da sociedade está, ou estava, meio paralisada com isso?
O pior é que a sociedade brasileira aceitou isso, esse é o crime maior. Nossos empresários, os políticos tradicionais, contam-se nos dedos quem se opôs a essa gestão pública lastimável. O que é corrupção? É, em primeiro lugar, governo de coalizão, apadrinhamentos, nepotismo, soberba.

Cezar Santos – Falta renovação na política brasileira?
Gente que deveria estar no cemitério continua querendo ser candidato. É um absurdo. Cargo público virou aposentadoria. Em países mais adiantados, deputados, vereadores, representantes públicos não têm salário, lá o cargo público não é cargo para o político se aposentar, mas, sim, lugar para quem quer trabalhar a favor da nação, da cidade. Nossa cultura política não chegou ainda no Renascimento da política institucionalizada. Aqui, se entra na política para ter benefícios pessoais. E tudo é levado para o lado pessoal. A pessoa, o político, fala como se na falta dele a sociedade estivesse perdida. Como professor de teoria política e antropologia, não falo “do” aluno, mas sim “para” o aluno, para ele poder entender e discernir o lado pessoal do não pessoal.

Elder Dias – Basta ler as colunas políticas para perceber que todas as questões são colocadas de acordo com a conveniência de prefeitos, deputados, governadores, políticos em geral. É uma luta pelo poder, não para servir.
É uma política de conveniência, a política tradicional, que não é moderna. Isso prejudica a Nação. Ouvi um ministro dizer que a maioria dos participantes das passeatas marcadas para sexta-feira e domingo iria por estar insatisfeita, irritada com a política econômica, com a crise, e não porque quer impeachment. Ele diz isso como se fosse apenas irritação das pessoas e não indignação, manifestação. É um discurso, um malabarismo retórico na tentativa de convencer a população de que eles continuam corretos.

O discurso de Dilma é também nesse rumo, “não vamos mexer em direitos, vamos continuar nosso programa etc.”. Governar não é ter programas assistencialistas e paternalistas. Tem de estabelecer prioridades com os recursos de que o País dispõe. Para ter ideia, segundo estudo da Unesco, do jeito que está a educação brasileira, a perspectiva de o Brasil universalizar o ensino médio é de 30 anos. Os jovens abandonam a escola, não há interesse dos estudantes. É um caos e a base disso é o costume, o hábito, o direito consuetudinário, não é a lei. Isso começa na família e se estende à escola. Somos um dos piores países na educação e isso vem piorando cada vez mais nos últimos dez anos. O governo priorizou o 3º grau, o que é absurdo, porque a base da educação são os ensinos fundamental e médio. Hoje o menor salário entre os profissionais é o do professor. Nenhum estudante quer ser professor, porque sabe que vai ganhar muito mal.

"Desde o ex-presidente Lula, que projeto teve de inovação, a não ser a manutenção do Plano Real?" | Foto: Vanessa Carvalho

“Desde o ex-presidente Lula, que projeto teve de inovação, a não ser a manutenção do Plano Real?” | Foto: Vanessa Carvalho

Cezar Santos – Essa priorização do ensino superior não é claramente uma política de Estado para cooptação dos professores?
É uma política demagógica de cooptação, porque quer influenciar o jovem, que supostamente seria um abandonado, porque os políticos gostam da teoria do “coitadinho”, que não teve oportunidade, aquelas desculpas esfarrapadas. Você vê, hoje, o marxismo está dentro das escolas, o esquerdismo irracional. Tenho alunos na sala de aula que só faltam vir com uma bandeira da União Soviética e acham que isso é a vanguarda estudantil que irá salvar e mudar o Brasil. A Dilma põe culpa nos “outros”, que são os espiões da CIA que estão prejudicando, ou os marcianos que estão aqui, querendo acabar com a tranquilidade verde e amarela. Ora, tem de saber enxergar os fatos. Mas não, eles viram as costas, porque os fatos desvendam a verdadeira intenção deles, nefasta, de permanência única no poder. Não têm projeto algum. Desde Lula, que projeto teve de inovação, a não ser a manutenção do Plano Real?

Elder Dias – O sr. não considera que houve algo de positivo no governo Lula, principalmente, e depois em parte do governo Dilma, que foram até elogiados no exterior, por exemplo, pela questão da transferência de renda? Alguns brasilianistas até falaram que a base da pirâmide no Brasil tem mudado, com a classe C em ascendência. Renato Meirelles, estudioso dessa classe, mostra isso com algumas pesquisas; para o andar de baixo, muitas coisas mudaram, principalmente, no governo Lula. Como o sr. vê isso? Nem isso pode ser considerado mérito?
É preciso entender a história para perceber o que é fato e o que é propaganda, marketing político para fazer média. Se você tomar os EUA em 1800, 90% a 98% da população era rural, agrícola. Em 1900, 40% estavam no meio rural. Em 1990, já são 3%; apenas isso, e não é graças à ideologia esquerdista, marxista, leninista. Isso é graças ao sistema de mercado, capitalista. Então, o PT coloca o Brasil fora do planeta Terra. Veja que o mundo inteiro cresceu desde o século passado. A China mostra ao mundo como sair da miséria. Como? Adotando o sistema de mercado capitalista. O Brasil tirou 20 milhões da miséria. A China tirou 600 milhões! (enfático) São três Brasis e por aqui falam como se fossem os únicos a conseguir esse êxito.

Não, o mundo inteiro cresceu. Os chineses colocaram relógios no pulso de todo terráqueo. O Brasil ainda tem um dos piores índices de desigualdade social do planeta e isso não vai acabar só com assistencialismo, isso vai acabar com educação. Precisamos de um ponto de partida igual por meritocracia e não por diploma. Hoje, na escola brasileira, o aluno é aprovado ao comemorar o aniversário, se tem 10 anos, tem de estar em tal série, se tem 18 anos, tem de entrar na faculdade. Isso é ridículo. Privilegia-se a metodologia ao invés do conteúdo. O ensino, principalmente na universidade, é onde tudo se copia, nada se cria. É um dos piores índices de universidade mundial e que se apresenta como se fosse o único que trouxesse roupa, relógio, geladeira; claro, o brasileiro miserável acredita. Tanto que isso colou na propaganda de Dilma contra Aécio Neves (PSDB). A eleição foi decidida nos pênaltis, até então Aécio estava ganhando. Foi a chegada dos votos do Norte e Nordeste que deu a vitória, apertadíssima.

Cesar Santos – Como o sr. avalia o papel da imprensa que vem mostrando sem medo de retaliação?
Eu acho isso ótimo. É democracia. Por que Montesquieu dividiu o poder em três partes, Legislativo, Executivo e Judiciário? Para que um vigiasse o outro, para impedir que haja abuso por quem ocupa, eventualmente, o poder. Isso é democracia e a imprensa tem um papel fundamental na manutenção desse sistema, porque é ela quem fiscaliza. É o quarto poder, é ela quem traz as informações à tona, pois a população tem de trabalhar. A função da imprensa é esclarecer, informar, mostrar fontes divergentes de opinião; esse governo, como os milicianos venezuelanos e argentinos, quer censurar, impedir.

Tanto que a questão é: governo participativo ou representativo? Isso não é simples retórica. São duas palavras conflitantes e de fundamental caráter para que se saiba diferenciar. Se se fala de um governo participativo, significa que a maioria votou e que temos um governo legal de domínio. É um argumento de fazer tudo que “a gente” quer, se não colocamos o bloco na rua –– um argumento fascista, nazista. Hitler teve maioria, assim como Saddam Hussein [ditador do Iraque] e Leonid Brejnev [ex-presidente da União Soviética]. A democracia é muito vulnerável. A simples eleição é manipulada; 40% dos eleitores em todos os países vão a reboque do marketing político.

Elder Dias – Convenhamos que o lado representativo também não tem ajudado muito, não.
Lógico! Então não vá colocar a democracia como solução. Não há solução. Só que dos sistemas, durante os últimos 200 anos, a democracia foi o que se garantiu ser “o menos ruim”. A democracia é ter tolerância. É ouvir o que você detesta. Agora, nossos políticos se ofendem, mandam prender. Se houvesse aqui uma ditadura institucionalizada, já estaríamos mortos. Teriam nos matado com o mesmo critério dos ditadores. Então, esse ufanismo verde e amarelo é um slogan de manipulação político-eleitoral.

O político não quer o eleitor que pensa, ele quer o que não pensa, que não reflete, que não sabe discernir e que será facilmente manipulado. A culpa não é de quem vai para rua. O estudante, o jovem, não tem horizonte para o seu futuro. Então, ele começa a protestar –– como eu, também, na minha juventude, protestava, quando não tinha perspectiva. Porém, não se discutem os exemplos que vêm de cima: quem faz a antipolítica são os políticos. Em qualquer país sério, esses denunciados estariam na cadeia. Se fosse no Japão, se suicidariam, pois é vergonhoso ver o nome na lama. Aqui, o cara se acha símbolo de resistência, como herói.

Elder Dias – Mas o rito não está sendo cumprido no caso da Ope­ração Lava Jato, assim como foi cumprido no caso do mensalão?
Sim. E isso é ótimo. Mas quem é que está na cadeia? Só Marcos Valério, os outros são considerados heróis da resistência. Agora Vaccari [João Vaccari Neto, tesoureiro do PT investigado na Lava Jato] será o novo herói, como Delúbio Soares [ex-tesoureiro do PT, condenado no processo do mensalão] foi.

Elder Dias – Mas, se saem da cadeia, é por algo que está previsto em lei. A questão que está sendo colocada é que o Brasil tem leis e o processo do mensalão foi cumprido com louvor, em tese.
Sim, graças a Joaquim Barbosa [relator do caso mensalão no STF] e agora a Sérgio Moro [juiz da Operação Lava Jato].

Elder Dias – Então, aí a gente tem de voltar na questão do salvador da pátria? O Brasil não se garante sem um salvador da pátria?
Basicamente isso. Quem são os presidentes de que a população lembra? Getúlio Vargas e Juscelino Kubitschek.

Elder Dias – E Lula?
Qual a marca de Lula? A história vai falar.

Elder Dias – Estou falando em termos de figuras carismáticas ou populistas, de quem as pessoas se lembram. A população, em geral, o povo mesmo, não quer saber se Lula é corrupto ou não, como não queria saber de Getúlio ou JK. As pessoas, em grande parte, veem basicamente por seu carisma.
Não será a população quem vai escrever a história do Brasil, mas sim os historiadores. Lula vai ter sua história na galeria dos presidentes, juntamente com um marco ou característica de governo, que é o mensalão. Não tem outro, isso aí vai ficar marcado. Getúlio Vargas tem marcas importantes também, como a criação da Petrobrás.

“Política não combina com infantilidade. É coisa de adulto”

Elder Dias – Sim, mas Getúlio foi também o protagonista da ditadura do Estado Novo.
Sim. Sem contexto é tudo pretexto, para o bem e para o mal. Por isso, temos de contextualizar tudo aquilo que nós falamos. Lembro-me do deputado Eduardo Cunha (PMDB) dizendo que a porta aberta da corrupção da Petrobrás foi um decreto de Fernando Henrique Cardoso, de 1998, quando foi retirado o monopólio estatal do petróleo da empresa. Com isso, houve uma flexibilização das licitações para as empresas público-privadas, para competir no mercado internacional. Ele disse que isso facilitou a corrupção e a formação de cartéis. Mas o efeito da lei foi justamente o contrário. Se você quer um Estado moderno, ele não pode tomar conta de energia elétrica, de petróleo, não quer saber o preço do tomate. Isso é Estado intervencionista, isso já era. É um Estado inchado.

Elder Dias – Falamos muito de corrupção no setor público, mas na iniciativa privada se dá a mesma coisa. Tanto que a lei que deu abertura ao setor privado, no caso da Petrobrás, favoreceu a corrupção.
Claro. Mas quando se inicia a corrupção? A partir do governo Lula, em 2003, porque ficou institucionalizada. O PT aparelhou as instituições estatais. Isso que é o problema. O saneamento da economia brasileira começa com o FHC, ao acabar com os bancos estaduais. Só Goiás tinha o BEG, a Caixego e o Banco de Desenvolvimento (BD). Para que um governo estadual precisa de três bancos? Isso é para corrupção. O Brasil começou a entrar no cenário mundial e a ter credibilidade e previsibilidade econômica graças ao Plano Real. O mercado quer um ente previsível, os contratos têm de ser cumpridos. Há de ter controle da moeda e da inflação, dos gastos públicos, isso que é administrar bem o País. Por isso que o Brasil entrou no cenário internacional. Temos agora a área jurídica brasileira, que está à frente do legislador e do Executivo. Tem pessoas jovens, sem rabo preso e que não têm compromisso com partidos. Isso é importante. Nós supervalorizamos os partidos. Getúlio Vargas já falava “No meu governo tem gente incapaz, a metade. Os outros são capazes de tudo, até de me matar.” Quais são as bases aliadas do governo petista desde 2003? Exatamente todos os políticos tradicionais.

Cientista político e professor Wilson Ferreira da Cunha em entrevista ao Jornal Opção: “O governo Lula, mais ainda o governo Dilma, perdeu o bonde da história por questões ideológicas" | Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

Cientista político e professor Wilson Ferreira da Cunha em entrevista ao Jornal Opção: “O governo Lula, mais ainda o governo Dilma, perdeu o bonde da história por questões ideológicas” | Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

Elder Dias – Mas a maioria deles também foi base de FHC.
É uma realidade brasileira, mas não se viu este grau de aparelhamento no governo de FHC.

Frederico Vitor – Na era Vargas foi adotado o modelo do nacional-estatismo. No governo militar também se utilizou esse modelo, principalmente no momento do chamado milagre econômico. Nos governos de Lula e Dilma também se repete o mesmo receituário. Esse ciclo estaria se exaurindo?
Sem dúvidas. É um modelo falido. Atualmente vemos isso em Cuba e na Coreia do Norte. Esse endeusamento da figura pública e o culto à personalidade são coisas atrasadas. Aqui no Brasil se você falar algo contra o Lula é um pecado mortal. Como se ele fosse o símbolo sagrado do País.

Elder Dias – Mas aí não seria um “defeito” da população?
Se houvesse educação lá embaixo… Aí vêm as grandes obras, os grandes estádios, uma política ultrachauvinista, nacionalista e xenófoba dos governos arcaicos anteriores. Mostravam um Brasil grande, gigante. Temos de fazer um estudo completo das desigualdades e da intromissão das políticas públicas de assistencialismo, que começaram no governo FHC e que os governos Lula e Dilma colocaram apenas um rótulo sobre elas. É muito fácil vender ilusão.

Elder Dias – Quando chega o momento de eleição, a gente vê que os candidatos se repetem em seus discursos. Se impessoalizarmos suas vozes e fecharmos os olhos, parecerão a mesma pessoa.
A formação de lideranças é necessária em qualquer democracia. O perfil do político tradicional no Brasil é de impedir que haja novas lideranças. Cortam na raiz quem está se formando como líder, e a liderança tem de ser natural, o País precisa disso. O Brasil carece de lideranças políticas, mas também de outras, em nível cultural, musical, literário. São os mesmos da década de 1960. O Brasil é muito carente nisso. Essa nova geração está aí flutuando no ar, sem conexão com a realidade, com a verdade. Tanto que o jovem hoje ou é fanático na religião ou no futebol. Que perspectiva tem um País cuja juventude joga sua energia somente em escapismos? É fuga da realidade.

E quem incentivaria o contrário a isso? Seria a educação. São os bons livros, os bons escritores. Mas a gente não tem essa discussão. Para ser aprovado com os professores de hoje, basta defender a linha marxista, principalmente nas escolas federais. Lembro-me bem, em Moscou, que bastava falar para o professor a contradição entre o capitalismo e o socialismo e pronto, estava aprovado. Então, na universidade só vemos chavões. E o marxismo está presente nas escolas. Há doutrinação, lavagem cerebral, como no fundamentalismo islâmico. Isso porque aos jovens, se você der um caminho, eles acreditam até que degolando gente é possível ir para lá de Bagdá viver com Maomé, o que é ridículo. Ou seja, não é só no Brasil. Há certa carência no mundo, acreditando que há outra sociedade possível, outro ser humano. Isso é ingenuidade. Política não combina com virgindade, ingenuidade, infantilidade. Política é coisa de adulto. Mas o adulto de hoje quer ser criança.

Elder Dias – Mas não vemos maturidade política também nos políticos. De presidente a vereador.
Sim, precisamos de craques da política. O Neymar da política, um profissional competente. Mas não. Veem na política um meio de levar vantagem. E o sistema respalda isso. Por isso que nós temos o discurso do mesmo. Vem eleição, passa eleição, e não há inovação, ao contrário, nos são apresentados os filhos, sobrinhos e netos do cacique anterior como sendo a novidade. Não é por idade ou por gênero, mas por ideias inovadoras. É isso que faz a política caminhar no rumo certo.

Frederico Vitor – Atualmente, estão em andamento nos Estados Unidos dois acordos econômicos, um com a Europa, que seria um bloco econômico do Atlântico, e outro com os países do Pacífico, com exceção da China. O Mercosul, por sua vez, parece ter se desviado da função de promover a economia dos países. O Brasil está mais uma vez perdendo o bonde da história?
Está perdendo oportunidades. O governo Lula, mais ainda o governo Dilma, perdeu o bonde por questões ideológicas. Veja o fato de colocarem Mercosul nos passaportes brasileiros. Ora, isso não existe. Quer dizer, é só uma reunião de trogloditas econômicos que querem isolar a América Latina do resto do planeta. Tanto que a política externa do governo brasileiro afundou a tradição exemplar do Itamaraty ao colocar embaixadas em países que são tribos e não têm a mínima condição de comércio. Como se o comércio fosse algo negativo. O comércio é o que sustenta um país. Dilma agora terá de engolir o fato de que é o mercado que estabelece preço e políticas econômicas.

A visão do governo é ideológica, radical e fundamentalista ao acreditar que irá fazer uma política externa fora dos países desenvolvidos e se coligando com países que não têm posturas de destaque, além de apoiar ditaduras. O fato novo foi a presidente se recusar a receber o embaixador da Indonésia na porta de seu gabinete, como que tentando regular as leis do país, que são um problema interno deles. E o Itamaraty, ao se relacionar com a Venezuela, tem uma posição de apoio e aceitação do sistema, valida o caos venezuelano e o caos cubano. É uma série de atitudes gramscinianas, ideológico-partidárias. Eles foram mordidos pela mosca comunista. Os russos, os primeiros a introduzir o socialismo no planeta, também foram os primeiros a dizer que isso era pura enganação.

Cezar Santos – É possível dizer que o Brasil está encampando as propostas do Foro de São Paulo?
Sim, porque o próprio PT tem ligações com essas lideranças pretensiosamente comunistas. E eles se financiam. Veja esse acordo com Cuba em relação ao porto, que é secreto. Coisas públicas não podem ser secretas. É um problema muito sério que teria que ser desvendado, mas com esse governo do PT no poder não há como. E eles têm muito poder. Não pensem que Dilma está fraca na atual situação. Não está. O PT tem todo o Congresso. Souberam fazer essa política, uma estratégia de poder, embora não de governo. Eu convivi com comunistas em Moscou. Isso é típico das estratégias de perpetuação de poder. Quem domina a Rússia hoje? Os ex-membros da KGB [polícia secreta soviética] e ex-comunistas.

É claro que eles sabiam lá atrás que o marxismo era um engodo. Eles tinham consciência disso, mas é algo que dá resultado político porque tem adeptos e ouvintes até hoje. Então, eles jogam com aquilo que as pessoas querem ouvir. E isso cria na política pessoas que não querem pensar, nem desconfiar. A desconfiança é o início do pensamento. Quem não desconfia é aquele maria vai com as outras, manipulado. E isso vem da base educacional que, talvez de propósito, mantém o status quo. Veja bem essa questão de convidar as pessoas para participar da direção de escolas. Ora, estão politizando as escolas. Escola não é direção, é sala de aula. Aí voltamos naquela discussão de democracia participativa ou representativa, que é um lance estratégico e sutil para enganar a população, como se eles tivessem participando efetivamente das discussões que serão implementadas. Vão fazer o mesmo que fizeram na Rússia, em que os mesmos dirigentes ficaram 80 anos no poder. Só saíram quando foram para o cemitério.

5
Deixe um comentário

5 Comment threads
0 Thread replies
0 Followers
 
Most reacted comment
Hottest comment thread
5 Comment authors
Adalberto De Queiroz

Boa entrevista. Destaco: “o partido 13” (PT) – eles “Inauguraram o neopatrimonialismo. O privado invadiu o público dando, como consequência, a legitimação da corrupção, do nepotismo, a manutenção dos privilégios”. Interessante que numa entrevista dessa envergadura a palavra ‘ética’ só aparece no sufixo de Soviética?! – N’outro momento: “É claro que eles sabiam lá atrás que o marxismo era um engodo. Eles tinham consciência disso, mas é algo que dá resultado político porque tem adeptos e ouvintes até hoje. Então, eles jogam com aquilo que as pessoas querem ouvir. E isso cria na política pessoas que não querem pensar, nem… Leia mais

Rosa Maria Souza Vaz

Excelente matéria, parabéns ao Jornal Opção

Manuel Ferreira

Muito bacana a entrevista! Realmente, o neopatrimonialismo e a demogagia deste Governo tomaram tal dimensão que está difícil aceitar calado. Chega!

André Elias

Boa entrevista!

Sílvio Miguel Gomes

Chora viola!!!. A verdade é que os ex-comunistas queriam eles estar no poder. Para saber sobre os Governos FHC leiam Delfim Neto. O Brasil simplesmente quebrou e a frase de Delfim Neto define bem: “FCH vendeu as jóias da família e ficou devendo mais ainda”. Passamos por uma crise que atingiu toda a humanidade com situação de quase pleno emprego e com toda a grande imprensa querendo destruir o país juntamente com certa elite. AS grande obras estão em andamento.