Por Ângela Moureira, Cilas Gontijo e Thauany Melo

O arcebispo de Brasília, Dom Paulo Cezar, foi anunciado pelo Papa Francisco como cardeal da Igreja Católica. Ele será um dos conselheiros do pontífice, tendo como uma de suas responsabilidades eleger um novo Papa.

Dom Paulo Cezar Costa, é natural do município de Valença (RJ). Possui formação em teologia pelo Instituto Superior de Teologia da arquidiocese do Rio de Janeiro e doutorado (2001) em teologia pela Pontifícia Universidade Gregoriana. O cardeal ainda foi professor e diretor do Instituto de Filosofia e Teologia Paulo VI. Também foi docente no Instituto Superior de Teologia da Arquidiocese do Rio de Janeiro e na Escola Teológica São Bento (ETSB).  A cerimônia para oficializar ele como cardeal será realizada no dia 27 de agosto. Em entrevista ao Jornal Opção, Dom Paulo Cezar falou sobre o que muda com sua nomeação e comentou sobre a polarização política no País. 

Cilas Gontijo – Os trabalhos já aumentaram após a nomeação?

Os trabalhos já eram muitos. Não é que a vida de cardeal aumentou, por enquanto ainda não. Futuramente aumentará. Mas os trabalhos já são muitos. Os trabalhos de arquidiocese é grande. Aqui em Brasília são cerca de 3,1 milhões de habitantes. Então o trabalho é volumoso. A nomeação para cardeal ainda não ampliou tanto o trabalho.

Ângela Moureira –  Quais características o senhor considera que foram fundamentais para sua indicação de cardeal?

A indicação de cardeal sempre é liberdade do Papa. O Papa escolhe e ele tem apontado sempre na direção das periferias do mundo. Ele tem buscado cardeais nas partes mais periféricas do mundo. O Papa escolhe com a liberdade dele. O Papa me conhece. Encontramo-nos em 2013, na Jornada Mundial da Juventude. Ele conhece meu trabalho e minha capacidade reflexiva também. Acho que tudo isso ajudou. E ainda por ser bispo da capital do Brasil, de Brasília, acho que também isso contribuiu.

Um cardeal não é só uma coisa pessoal, é algo para a vida de uma igreja – no caso a arquidiocese de Brasília – e de um país. Claro que é o Brasil que foi contemplado com dois cardeais: Dom Leonardo e eu.

Ângela Moureira – O senhor falou que chega ao posto para acrescentar. O senhor tem alguma demanda pessoal que vá melhorar a vida da população como um todo?

Procuro sempre ser um bispo próximo do povo. Procuro sempre ir ao encontro das diversas realidades da vida do povo. Desde que cheguei em Brasília procuro sempre visitar as diversas realidades. Claro que meu papel é de arcebispo – meu papel primeiro é olhar a realidade da Igreja, olhar a realidade da vida do povo católico. Mas claro que a vida de um bispo, seu papel e seu ministério, têm uma incidência maior do que simplesmente a vida da igreja. Aquilo que São Carlos Borromeu e outros bispos – Dom Paulo Evaristo Arns, Dom Helder, Dom Eugênio, – perceberam com muita clareza aqui no Brasil, que é o papel social da vida de um bispo também. É onde a vida de um bispo tem também incidência na vida da sociedade. Onde ele é chamado a olhar as dores, alegrias e esperanças da vida de um povo. 

“O perigo da polarização política é quando se atém mais à ideologia do que a problemas reais”

Tenho andado muito aqui em Brasília e visto a situação da vida do povo. É claro que eu sempre busco chamar atenção das  alegrias, mas também das mazelas, sofrimento, situações de fome, de miséria… Tudo isso está no coração de um bispo e tudo isso eu busco sempre, de uma forma ou de outra, chamar atenção. Acho que é papel meu.

Papa Francisco diz que uma sociedade cresce quando todos são capazes de dialogar. Quando os poderes constituídos [e] quando todos os atores da vida de uma sociedade são capazes de sentar e dialogar. É o que eu procuro fazer aqui em Brasília: construir a Cultura do Encontro, onde a igreja quer dar a sua contribuição através do diálogo, apontando as alegrias, mas também as mazelas e os desafios para as esferas, para todo mundo. É o que eu busco construir aqui: construir diálogo. E construindo diálogo todos ganham.

Ângela Moureira – O senhor citou o Papa Francisco. Eu queria um posicionamento: como o senhor vê hoje essa divisão do Brasil, entre a esquerda e a direita?

A divisão em si, a polarização em si, não é um mal. Há outras sociedades que também são polarizadas. Por exemplo, se você olha a sociedade americana, é bem divida entre Republicanos e Democratas. A polarização em si não é um mal. Ela vai se tornando algo que pode ser negativo quando as pessoas vão se acirrando nas suas posturas e perdendo a capacidade do diálogo, de construir aquilo que o Papa Francisco chama a Cultura do Encontro. Aí, a polarização vai se manifestando em seu aspecto negativo.

A sociedade brasileira é, ou era até pouco tempo, uma sociedade onde se exprimia bem o espírito do brasileiro, que não é um povo de muito confronto, tem um jeitinho próprio de resolver as coisas, tem facilidade de relacionar. Isso, infelizmente, às vezes, vai se perdendo e vai se acirrando a violência e o ódio. Este é o aspecto que eu diria negativo da polarização, que não pode acontecer. 

E o perigo da polarização política é quando se atém mais à ideologia do que a problemas reais. Isso pode ser um problema da política nesse momento, onde se atém mais às questões ideológicas e vai se esquecendo dos problemas reais do povo, sofrimento, problema de saúde, educação, problema da pobreza que está aí, das desigualdades sociais. Onde se atém mais à questão ideológica e se esquece dos problemas reais. O Papa Francisco diz que a realidade é mais importante que a ideia. Eu penso que a sociedade brasileira, neste momento, precisa estar atenta a estas realidades. A não permitir que a polarização conduza simplesmente a ideias, ideologias, esquecendo os problemas reais que afetam a vida concreta do povo no dia a dia. 

Ângela Moureira – Como o senhor acha que um cardeal deve se posicionar em relação à política?

Ele deve sempre seguir aquilo que a Igreja manda. A Igreja não se envolve em política partidária. Ela se envolve em política enquanto o olhar do bem comum, o bem do povo, as principais questões da vida de uma sociedade, questão que têm incidência no dia a dia, questões éticas. Um cardeal deve sempre se posicionar nesta perspectiva. A Igreja não quer que a hierarquia se envolva em política partidária, não é nosso papel. A política partidária é para os leigos e sempre pode conduzir à divisão. Um cardeal, um homem de Deus, um bispo, um padre deve ser sempre um homem que busca construir pontes, diálogo e  fomentar a boa Política, a Política com P maiúsculo, a Política enquanto cuidado do bem comum.

Ângela Moureira – O senhor disse que ainda não assumiu enquanto cardeal?

Não. O Papa entregará o barrete dia 27 de agosto.

Ângela Moureira – Mas o senhor já pensa em como lidar com estas duas funções de arcebispo e cardeal?

É o arcebispo que é cardeal. O Papa me fez cardeal, mas cardeal para cidade de Brasília. Então deverei ajudá-lo em outras coisas que ele me pedir, mas como arcebispo de Brasília. Meu papel principal é ser arcebispo e cardeal em Brasília e responder àquelas demandas que o Papa me pedir, coisas que ele solicitar. Pode ser que tenha alguma coisa a mais na Cúria romana, mas coisas bem pontuais onde você vai participar de reuniões, retorna e contínua a missão com alegria aqui em Brasília.

Ângela Moureira – O Papa Francisco tem uma preocupação muito grande com a questão da Amazônia. Isso também é uma preocupação do senhor?

A questão ecológica é de todos nós. Claro que a Amazônia vai além da questão ecológica, tem a questão dos povos nativos e tem uma complexidade toda própria. Eu penso que a Amazônia é uma preocupação de todo homem e mulher de boa vontade porque ali tem a  questão dos povos nativos e da ecologia. A Amazônia é o pulmão do mundo. É um problema que envolve a todos nós e deve estar no coração de todos nós. Todos devemos buscar, que seja nível de reflexão, fazer aquilo que podemos pela preservação da Amazônia, pelo cuidado para com a Amazônia, que é uma riqueza do povo brasileiro e de outros países da América latina, mas que também é uma parte que tem influência no mundo todo. 

Thauany Melo – O senhor é muito jovem e, provavelmente, vai votar para a escolha do próximo Papa, segundo o código. Como o senhor se sente com essa responsabilidade?

É uma grande responsabilidade, diante da Igreja, a escolha de um novo Papa. Mas é algo que a gente espera que ainda demore bastante. O Papa Francisco, graças a Deus, está bem, caminhando, conduzindo bem a Igreja. Mas é sempre uma grande responsabilidade diante de Deus e do povo de Deus. É uma responsabilidade que, no momento certo, pedirei sempre ao senhor que venha ao encontro da minha fragilidade e, com sua graça e amor, que me assista para que  possa ajudar a escolher aquele que for melhor para a Igreja naquele momento. 

Thauany Melo – O senhor acha que tem possibilidade de um Papa renunciar?

O Papa Bento XVI, o Papa emérito, abriu um caminho que acho que será seguido por  tantos outros, que é o da renúncia. Chegou um momento em que o Papa Bento XVI  percebeu que as condições mentais estavam ótimas, mas não tinha mais as condições físicas para conduzir a Igreja e, então, renunciou. Um caminho que ele abriu e penso que será seguido por tantos outros. Acho que está chegando um momento na vida da Igreja em que a renúncia pode ser uma coisa normal também para os Papas. 

Thauany Melo – O Papa ampliou a participação da mulher na Igreja, por meio do código de direito canônico. Na sua opinião, qual a importância deste tipo de ação de inclusão das mulheres?

Isso é fundamental. Se olharmos na vida das nossas comunidades, grande parte é de mulheres, que estão doando a vida nas nossas comunidades e desgastando a vida nas nossas comunidades e paróquias. E graças a Deus que isso está chegando na Cúria Romana também. Também lá as mulheres estão sendo mais valorizadas e podendo exercer com beleza a sua missão, dar a sua contribuição. Acho que é uma grande coisa que o Papa Francisco está fazendo.

Ângela Moureira – Nós hoje estamos vendo um crescimento muito grande das igrejas evangélicas. O senhor, como cardeal, é possível fazer do catolicismo uma prioridade para aqueles que procuram ajuda, mas não só exatamente a fé? Como a Igreja está lidando com isso?

A sociedade hoje é pluralista – e quando digo pluralista digo também a nível religioso – seja a nível das igrejas cristãs e comunidades eclesiais, seja a nível de outras religiões de matriz africana  e asiática.  Nesta sociedade pluralista, a Igreja é mais uma. A Igreja Católica, no Brasil, tem uma presença grande, desde a origem, os missionários vieram e fizeram história no nosso país e continente latino americano. Vai aos poucos delimitando um cenário novo, onde as religiões são chamadas a exercer com beleza seu papel da assistência religiosa a seus fiéis, de assistência de caridade, onde são chamadas a serem propagadoras do bem na vida da sociedade – a religião nunca é para o mal, deve ser sempre para o bem – , porém um contexto que exige também diálogo entre as diversas religiões, entre todos. Diálogo com as religiões cristãs – lá no Vaticano existe até um pontifício conselho para a unidade dos cristãos, do qual eu sou membro inclusive. 

“Na vida das nossas comunidades, grande parte é de mulheres, que estão doando a vida nas nossas comunidades”

Tem um outro pontifício conselho que tem também para o diálogo com as religiões. É um contexto que exige de diálogo, que olhemos para o lado e percebamos que o diferente não é inimigo, inimiga, mas é irmão. Isto que exige que cada religião faça bem seu papel de atender bem seu povo, seus fiéis, mas que exige também que olhemos para fora e construamos diálogo com aqueles que estão buscando a face de Deus nas suas tradições religiosas. Dialogando construímos uma sociedade de irmãos. O Papa Francisco escreveu um texto muito interessante e que chama Fraternitude, quer dizer que somos todos irmãos. Este acho que é o caminho da sociedade. E se nós olhamos para o lado e percebermos que do lado está um irmão ou uma irmã, o que temos que construir é o diálogo.

Cilas Gontijo – Nesse círculo das igrejas evangélicas, a gente percebe um movimento das igrejas neopentecostais e movimento carismático. O movimento carismático, primeiro, é bem-vindo na Igreja Católica? As igrejas evangélicas neopentecostais tiraram muitos jovens da Igreja Católica, veio o movimento carismático  e parece que resgatou um pouco destes jovens que haviam saído. O que o senhor diz sobre isso?

O movimento carismático já tem um movimento consolidado na vida da Igreja, desde que eu era criança, jovem, já se falava sobre ele. A Igreja já fez texto orientando a questão da presença dos grupos carismáticos. Manifestam maior liberdade na forma de rezar, de expressar sua fé, louvar o Senhor… O que é bom também. O ser humano é também sentimento, desejo, precisa rezar na sua totalidade e os grupos carismáticos expressam isso. Um anseio do jovem e também do adulto, do brasileiro de modo geral, que é um povo mais aberto e mais alegre. Isso também precisa ser expresso na forma de rezar, celebrar. O movimento carismático trouxe isso e tem presença consolidada na vida da Igreja.

Cilas Gontijo – Com relação à mulher, São Paulo é um santo muito bem quisto no meio da Igreja. São Paulo não era um pouco machista?

Se voltarmos dois mil anos atrás, a condição da mulher era muito difícil. Se olharmos no mundo judaico, no tempo de Jesus, a condição da mulher era de humilhação, bastante difícil. Mas São Paulo tinha colaboradores também mulheres. Se Jesus tinha um grupo de mulheres ao seu redor e uma forma diferente de se relacionar com a mulher através dos termos da cultura daquele tempo pode mostrar algo que possa parecer machismo, mas Paulo tinha colaboradoras mulheres. 

Mas olhemos que estamos falando de dois mil anos atrás. O grande problema é quando hoje, dois mil anos depois, não se valoriza a mulher, ainda se oprime e maltrata a mulher. A quantidade de feminicídios que estão por aí… Isso que deve nos assusta, quando, dois mil anos depois, mulher ainda sofre discriminação, não é reconhecida em sua grandeza, na sua dignidade de igualdade com o homem. Isso deve sim nos assustar.

Thauany Melo – O senhor cita projetos de caridade da Igreja Católica e a gente vive uma situação econômica muito delicada. O que o senhor destaca do projeto da Igreja nesse sentido?

A Igreja Católica em Brasília tem uma presença na dimensão social muito forte, graças a Deus. Tem projetos muito interessantes, desenvolvidos em paróquias. Por exemplo, a paróquia do Frei Rogério, santuário São Francisco também, entre outros. A diocese tem inclusive a Obra Social da Arquidiocese de Brasília, onde se desenvolvem diversos projetos.

Estamos pensando inclusive para este ano, mediante notícias de 30 milhões de pessoas em insegurança alimentar, de lançarmos o projeto Brasília sem Fome, que já está mais ou menos desenhado. Onde queremos que a Igreja atue em primeira pessoa,  ajudando a aliviar a  fome e o sofrimento de tanta gente. Uma coisa que deve doer no coração de cada um de nós é uma pessoa não ter o que comer, uma família não ter alimento. E foi a partir da celebração de Corpus Christi que percebemos que deviríamos fazer alguma ação nesse gênero. 

Lançaremos esse projeto no dia de Santa Dulce dos Pobres, onde todas as nossas paróquias estarão envolvidas, seja em recolher alimentos que serão destinados  a regiões mais pobres, onde a insegurança alimentar é maior, mas claro que nosso projeto envolve outras ações também, envolve desde um cartãozinho que será entregue para pessoas que estão nos sinais pedindo [dinheiro], para que a pessoa tenha algum lugar ao qual recorrer se quiser sair daquela situação, pelo menos ter a história escutada. A gente vê como pode ajudá-la a encontrar um emprego, se mover e sentir que alguém está ajudando para sair da situação na qual se encontra.

Ângela Moureira – Nós estamos falando de família. Vivemos um momento muito difícil, o senhor citou várias violências contra a mulher – que acabam sendo contra a família. Como o senhor vê a influência da tecnologia digital nas famílias, principalmente nos jovens?

A sociedade hoje é da comunicação e das mídias sociais, onde cada um tem em mãos um aparelho e a partir dali se comunica com seus amigos e com o mundo. Você tem hoje o mundo em um smartfone, em um aparelho. A sociedade hoje é assim. Esta facilidade da comunicação não pode minar o diálogo entre as pessoas e na vida da família. 

Hoje, infelizmente, é comum até em família as pessoas estarem sentadas ao redor de uma mesa, mas cada uma em um aparelho se comunicando com outras pessoas. O perigo é ir minando  o diálogo. As mídias sociais são fundamentais, a sociedade hoje é a sociedade da comunicação, mas o ser humano nunca pode perder o tete-a-tete, a capacidade do relacionamento interpessoal. Nunca pode perder a capacidade de se relacionar presencialmente. O virtual não pode substituir o real. 

Cilas Gontijo – O senhor citou a Jornada Mundial da Juventude e o senhor foi diretor administrativo.  Parece que o Papa gostou muito do seu trabalho e, desde então, tem um olhar especial com o senhor. Esta não é a primeira nomeação que ele lhe deu, não?

Eu conheci o Papa Francisco em 2013, mas tive encontro com ele em Roma, depois convivemos uma semana na Jornada Mundial da Juventude. Ele conheceu meu trabalho, capacidade administrativa, reflexiva e também a verdade das minhas posições. Certas horas eu não faço muita questão de esconder aquilo que penso e acho. Teve uma pergunta que ele me fez, eu respondi o que pensava e ele disse “eu penso assim também”. Foi um conhecimento que foi se aprofundando, ele percebeu minha capacidade de governo e condução das coisas.

Eu participo de dois conselhos em Roma – da Pontifícia Comissão da América Latina e do Pontifício Conselho para Unidade dos Cristãos. Existe um relacionamento próximo, pessoal, onde ele me conhece, me chama pelo nome, tenho profundo carinho pelo Papa Francisco. 

É um homem que conheço e acredito no projeto que ele propõe. Acreditava também no projeto de Bento XVI,  mas Papa Francisco fala de uma igreja próxima, de saída, que vai ao encontro das periferias humanas e  existenciais. Ele quer uma igreja missionária e evangelizadora: é o que eu acredito. 

Ângela Moureira – Ter sido escolhido cardeal tão jovem é motivo de comemoração ou de preocupação?

Às duas coisas. O cardeal é um servidor e o Papa quer uma Igreja de servidores. Um cardeal é um homem que deve, antes de tudo, ter a dimensão de que sua vida é ser servidor do povo de Deus. Claro que alegra o coração.

O reconhecimento no primeiro  momento assusta, mas depois alegra o coração também o reconhecimento pelo seu trabalho e doação. É um pouco a mistura das duas coisas, mas é uma responsabilidade, uma grande responsabilidade. O Papa alargou minha capacidade de servir, que vai além, hoje, da igreja de Brasília. O Papa quer que eu ajude mais de perto no governo da Igreja, no seu serviço de sucessor do apóstolo Pedro.

O que eu tenho é que buscar servir com alegria, buscar aquilo que ele me pedir sempre com alegria. O cardeal é um homem que veste vermelho, cor que lembra sempre o amor de Cristo por nós, até a morte de cruz. Relembra que Cristo nos serviu, a ponto de dar a vida por nós. O cardeal deve ser um homem também que vai desgastando a sua vida, seja na sua diocese, seja naquilo que o Papa lhe pedir, sempre com alegria. Eu diria que são  servidores com alegria: alegria do evangelho, da certeza do Senhor que foi grande servidor e é aquele que está conosco, caminhando, sustentando nosso serviço e capacidade de servir com alegria. 

Ângela Moureira – O mundo vem vivendo momentos difíceis. Temos a guerra na Ucrânia e pandemia da Covid-19, que elevou muitas pessoas a perder seus entes queridos. Queria que o sr. deixasse uma mensagem a todos os brasileiros, diante do período crítico que conseguimos contornar. 

A guerra é um momento muito difícil É uma barbárie. É impensável que, depois de uma pandemia, viesse uma guerra. É claro que existem outros conflitos no mundo, se fala hoje de mais de 25 conflitos armados. Mas, claro, o conflito que tomou mais visibilidade é o da Rússia invadindo a Ucrânia. É uma barbárie. O Papa Francisco fala da Cultura do Diálogo, é preciso que o mundo aprenda a resolver os problemas através do diálogo. Uma guerra mata, destrói vidas, famílias e é onde o horror vai sendo disseminado. A gente vê fotos de cidades fantasmas destruídas por bomba.

Estamos no ano 2022, em que o ser humano por ganância de conquistar mais terras, de visão expansionista, vai eliminando o outro ser humano. Isso é barbárie que existe ainda no ano de 2022. Isso tem que ser com todas as forças repugnado e  denunciado. Papa Francisco foi um dos que denunciou a guerra da Ucrânia e usou palavras fortes. E outros líderes no mundo também. Que o bom senso comece a prevalecer, o diálogo comece a tomar forma, o diálogo resolva a situação deste conflito da Rússia com Ucrânia e outros conflitos que estão no mundo. A guerra nos afeta [no Brasil] de uma forma ou de outra, questões econômicas, alimentares, afetou todo mundo, sua consequência já começa a se fazer sentir. Sempre do mal é preciso tirar uma lição. Santo Agostinho disse “se Deus permite o mal, é porque do mal é capaz de tirar um bem”. Quer dizer, é preciso a gente tirar lições. E a lição que nossa geração deve tirar é: basta com a guerra. Formas novas de resolver os conflitos no mundo, aquilo que o Papa propõe: o diálogo. É difícil, é desafiador, mas é preciso que a nossa geração seja capaz de trilhar um caminho diferente, o do diálogo.

Acho que isso tem muito a dizer para nós também, a sociedade brasileira que está vivendo este tempo de preparação para eleições, que deveria ser um tempo bonito da democracia, a festa da democracia onde o povo tem direito de livremente expressar sua opinião e escolher os membros do poder executivo e legislativo. Então, que essa guerra nos ajude, pelo menos, a perceber que é preciso construir uma sociedade do diálogo. É preciso construir uma sociedade do encontro e que nós brasileiros, com nossa forma de viver e conduzir as coisas, conduzamos a nossa sociedade pautada no diálogo, cultura do encontro. O diálogo e o encontro supõem sempre uma visão positiva do outro e da outra. Quando você perde essa capacidade de diálogo, é que começa a desqualificar o seu interlocutor. Quando a violência toma o lugar do diálogo, é sempre uma visão antropológica, depreciativa do seu interlocutor. Isso não pode acontecer. 

Que consigamos tirar uma lição positiva e percebamos que nosso caminho é o caminho do diálogo, de construirmos a cultura do encontro. É normal que as pessoas tenham suas opções políticas, mas que as diferenças de opções nunca conduzam ao confronto e à violência, mas que a diferença sempre nos conduza ao diálogo. 

Cilas Gontijo – A 1ª Carta a Timóteo, no capítulo 3, diz o seguinte: “excelente coisa deseja quem almeja o episcopado”. O senhor deseja ser um Papa?

Não. [Risos]. Eu desejo continuar a ser um servidor do povo de Deus. Um bispo eu já sou, mas desejo ser um servidor do povo de Deus. Quero servir. Aquilo que o Senhor quiser de mim, estou aí para realizar, mas como servidor do povo de Deus. Quero servir até o último momento da minha vida. Quando a gente serve, a gente olha para Jesus Cristo, que foi um servidor por excelência. Quero servir à Igreja, ao povo de Deus, naquilo que eu puder na vida da sociedade, ajudando na construção de uma sociedade à altura da grandeza da dignidade humana, do ser humano criado à imagem e semelhança de Deus.