“Próximo prefeito de Goiânia não será eleito sem debater a cidade de maneira responsável”

Um dos maiores nomes do marketing político no Brasil diz que não se contentará apenas em tentar eleger seu candidato nas próximas eleições: quer que o vencedor assuma compromisso com uma nova cultura de administração pública

Foto: Renan Accioly/Jornal Opção

Foto: Renan Accioly/Jornal Opção

Marcus Vinicius Queiroz poderia ser só um profissional do marketing político, atividade na qual é nome de destaque não só no Brasil, mas fora dele também — foi o responsável pela campanha que elegeu, no ano passado, o presidente da Colômbia, Juan Manuel Santos. Mas quer ir além, e está indo: na semana passada, ele encerrou as atividades deste ano do Fórum Goiânia 2020 — A Cidade que Queremos, em que tenta abrir caminhos mais promissores para a cidade em que nasceu.

Isso passa obrigatoriamente pelas eleições municipais do próximo ano. E Marcus Vinicius estará envolvido diretamente, mas não só como marqueteiro de um dos candidatos, o qual ainda não está definido. O próprio fórum vai deliberar o apoio a um nome. Qual critério será decisivo para essa escolha? “Precisamos de um político que consiga desenvolver uma nova cultura na cidade, a que chamo de “cultura cidadã’”.

A 5ª e última edição do evento deste ano contou com a participação do governador Marconi Perillo (PSDB) e do deputado federal colombiano Andrés Villamizar, que compartilhou as experiências positivas de Bogotá, onde Marcus Vinicius viveu por seis anos e tem relação profissional até hoje. A capital da Colômbia é também inspiração para seus ideais. Nesta entrevista ao Jornal Opção, ele fala ainda sobre a vitória do candidato para quem trabalhou, o oposicionista Lúcio Flávio, nas eleições da seção goiana da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB-GO).

Euler de França Belém — Nas eleições da OAB em Goiás a oposição sempre teve um estilo raivoso, até de baixo nível. Mas, na eleição deste ano, os oposicionistas fizeram uma campanha mais qualitativa, com o candidato Lúcio Flávio à frente. Como foi traçar essa nova estratégia, que foi vitoriosa com 56% dos votos?
A campanha da OAB-GO foi um desafio muito grande para mim, porque nunca quis participar dela. Sempre assisti de longe, mesmo trabalhando com marketing político há muito tempo, e sabia que era muito acirrada. Mas eu sempre percebi que, como toda eleição classista, se fazia uma campanha sempre muito focada no público interno, sem considerar o cenário ao qual ela pertence. As eleições na OAB, principalmente em Goiás, sempre foram de desconstrução e não de construção. As campanhas eram formatadas e trabalhadas nesse sentido. De fora, sem nunca ter participado, mas acompanhando o processo atentamente, eu avaliava assim o quadro.

A oposição tinha um trauma de várias tentativas sem conseguir tirar o poder institucional das mãos de quem o detinha nos últimos 30 anos. E sempre houve vinculação muito forte do poder na OAB com o governo de plantão. Conheci Lúcio Flávio por intermédio de amigos comuns e fui convidado a participar da campanha. Só decidi depois de conhecer o candidato, saber o que ele pensava, sentir como ele via o processo. Tivemos afinidade no pensamento de fazer uma campanha de resgate da imagem da entidade. Sou admirador de Sobral Pinto [1893-1991, jurista brasileiro renomado do século 20] e sempre vinculei a OAB aos princípios que ele pregou e sua participação ativa nos grandes debates nacionais. Sobral liderou os advogados nos movimentos históricos, como as Diretas Já. Essa era a imagem e conceito que eu tinha da OAB e não a discussão desqualificada que se praticava nas eleições em Goiás.

Marcos Nunes Carreiro — Houve convergência de pensamento com o pré-candidato da oposição?
Lúcio Flávio compactua com essa minha visão conceitual e a partir daí desenhamos uma estratégia em que o principal tema era fazer esse resgate de imagem. Em segundo lugar, fizemos uma pesquisa qualitativa profunda em todos os municípios para saber o que o advogado queria de fato e qual era a OAB ideal para ele. Ouvíamos, de quem tinha participado de eleições anteriores, muitas opiniões diferentes. Reclamavam que a mensagem não tinha chegado ao interior, que o interior tinha se vendido, que o governo tinha interferido etc.
Entretanto, eu não ouvia ninguém dizer que o advogado dos municípios mais distantes não tinha conhecimento da realidade da OAB. Então, fomos apreender isso com a pesquisa qualitativa. Aí tivemos um cenário muito claro do que se pensava e quais as carências desse advogado do interior.

Outro ponto a que nos ativemos foi respeitar o cenário. Apesar de ser uma eleição classista, defendi a tese — para o candidato e depois para a chapa — de uma estratégia em que a sociedade também pudesse perceber a importância de uma discussão mais qualificada. Isso porque a tática de desconstrução também tirava da sociedade o acompanhamento da eleição. Geralmente, além da própria família, um advogado tem mais advogados entre seus parentes. Assim, tentamos buscar essa conexão com a sociedade.

Com as informações em mãos, desenhamos uma estratégia e acredito, então, que o grande trunfo foi convencer o candidato a fazer uma pré-campanha. E aí eu lembro que o Jornal Opção me deu informações importantes na época, por meio de uma entrevista com Miguel Cançado [ex-presidente da OAB e um dos líderes do grupo OAB Forte], antes mesmo que ele tivesse candidato. Naquela entrevista, Cançado desenhou qual seria a estratégia da OAB Forte: desqualificar o pré-candidato Lúcio Flávio, ao dizer que este seria um mensageiro de Leon Diniz [líder da chapa oposicionista em eleições anteriores] e que o grupo de Lúcio não tinha experiência nem vivência de OAB para gerir a entidade.

Mesmo sem ter candidato, o ex-presidente Miguel Cançado delineou como seria a campanha: defendeu o ex-presidente Henrique Tibúrcio, minimizando a saída dele para o governo — um fator que, como observamos, desagradou bastante aos advogados. Então, naquela entrevista, o Jornal Opção me deu, de bandeja, uma série de pontos que vieram ao encontro da pesquisa qualitativa que fizemos.

Cezar Santos — Houve erro na escolha do candidato da OAB Forte, Flávio Buonaduce Borges?
Quando eles definiram o candidato, vestiram um terno que não servia a Buonaduce, porque era uma estratégia de Miguel Cançado. Não era a estratégia da OAB Forte em cima de um candidato jovem e bom sujeito como é Flávio Buonaduce, por quem tenho grande admiração. Só que, em meu ponto de vista, ele fez a campanha mais equivocada de sua vida. Ao vestir uma roupa que não lhe servia, saiu um formato estratégico de campanha que, para mim, fez dele o grande perdedor, não pelo número de votos — afinal ele tem uma carreira brilhante —, mas porque tem uma carreira brilhante e teria um futuro mais interessante se não se expusesse dessa forma nesse processo.

Na pré-campanha, aproveitamos todas as informações, sabendo que do outro lado seria uma estratégia de desqualificação. Fizemos uma estratégia para resgatar os princípios da OAB, colocando propostas para toda a classe, independentemente de onde o advogado estivesse. Isso com um candidato qualificado, mais equilibrado, para não se deixar contaminar nessa guerra de desconstrução. Nosso lema interno era de que, para cada ataque deles, teríamos dez propostas. E apostamos na pré-campanha.

Na nossa chapa, já com a experiência dos embates de outras eleições, tive críticas. No início, sofri resistências, porque eu evitava o confronto, orientava a não dar resposta no mesmo nível do adversário. A militância, acostumada a uma guerra de campanha, queria sangue, porque há um desconforto grande em ser atacado e rebater com proposta. Mas, após os três primeiros meses, na segunda pesquisa, percebemos que havíamos avançado.

Além disso, começamos a campanha por onde sempre terminavam: o interior. O pré-candidato foi aos locais onde havia maior número de reclamações em relação à gestão atual — distanciamento, descaso, falta de estrutura etc. — e os advogados diziam que o pessoal só aparecia em época de eleição.

Consumimos 60% da nossa energia na pré-campanha no interior e 40% na capital. Fomos equilibrando de acordo com o andamento da campanha, mas sempre mantendo a linha propositiva, com um corpo a corpo muito forte no interior. Demos oportunidade de manifestação a todos os segmentos da advocacia. Tudo isso culminou num movimento único que nós batizamos, ao fim, de “OAB que Que­remos”, que era um grito, era a manifestação de vários advogados com um mesmo objetivo.

Cezar Santos — Em termos numéricos, o resultado foi o que esperava o comando da campanha “OAB que Queremos”?
O resultado foi o que o nosso candidato merecia. Um candidato preparado, um advogado decente e coerente, capaz de somar e de montar uma chapa com vários segmentos representados, mas muito harmônica. Foi um conjunto de propostas que advogados de todo o Estado estavam pedindo, sobre os problemas reais que essa gestão da OAB não dava mais conta de resolver. Não fizemos propostas eleitoreiras.

Elder Dias — A adesão do ex-vice-presidente Sebastião Macalé foi importante?
Ganhamos a adesão muito importante de pessoas que estiveram no lado de lá, que tiveram experiências positivas e negativas, entre elas Macalé, uma pessoa muito reconhecida. Ele abriu mão de assumir a presidência da Ordem quando Henrique Tibúrcio saiu, por perceber o tamanho do problema que havia lá. Macalé foi o primeiro a “destapar a panela” quando começou a discussão de todos os problemas da Ordem. A vinda de Macalé, com sua lucidez, deu credibilidade ao que colocamos nas ruas de forma construtiva.

Também foi positiva na campanha a participação de uma ONG [organização não governamental] de um advogado contra a corrupção no Brasil. Ele coletou todas as notícias na imprensa sobre os problemas na Ordem, desde o Jornal Opção a “O Popular”, passando por todos os outros. Ou seja, não era um ataque nosso ao que estava aí, mas uma visão de fora de quem trabalha contra a corrupção. Esse material foi publicado e mostrou a “desordem” da Ordem no Estado. Isso municiou nossa campanha com informações jornalísticas documentadas.

Também derrubamos os pseudoespecialistas em marketing de OAB, que são, na verdade, especialistas em desconstrução. Eles não enxergavam outra forma de fazer campanha que não fosse a guerra suja de bastidores. Foi uma prática viciada que estava impregnada, a qual tentaram dar continuidade Enil Henrique [candidato que ficou em 2º lugar] e a OAB Forte, na figura de Flávio Buonaduce [3º colocado], e que nosso candidato derrotou com expressivo número de votos. Foi um triunfo muito grande por isso, também. Estratégia de construção vai ao encontro do que as pessoas querem como mudança, um sentimento, que, nesta eleição, foi muito forte.

Cezar Santos — E agora, qual o grande desafio de Lúcio Flávio e sua equipe?
O desafio será colocar em prática o que foi pregado na campanha. Tenho essa experiência na eleição do Tocantins, onde o governador Marcelo Miranda (PMDB) venceu o candidato governista. Qualquer oposição que tomar posse tem de, antes de tudo, fazer uma transição bem feita, porque quem está saindo geralmente esconde os números ou maquia os problemas. Então, é preciso fazer um diagnóstico preciso das questões fundamentais. Por exemplo, a situação financeira. Isso não é para criticar ou ressuscitar discussões, mas para não começar o mandato despreparado. Tem de entrar sabendo exatamente o tamanho da doença, para começar um tratamento de acordo com a necessidade, e não de acordo com a expectativa.

A chapa eleita não pode querer fazer mágica, resolver tudo da noite para o dia. Nos primeiros 90 dias vai ter de discutir de forma transparente com todos os segmentos, com a classe, com as instituições para mostrar o que precisa ser mudado. Terá de mostrar as dívidas, o valor, a origem e fazer um planejamento para sanear isso. A orientação que passamos à chapa vencedora é que eles não têm direito, a partir de 1º de janeiro, quando da posse, de dizer que não sabiam que o problema é maior do que se imaginava. Isso não pode acontecer. Posso garantir que Lúcio Flávio está preparado para fazer o diagnóstico, a transição e entrar sabendo o tamanho do problema e das medidas necessárias a tomar para cumprir as propostas feitas na campanha. Até porque ele foi eleito não para reclamar, mas para resolver.

Então, resumindo, o primeiro item é transparência total. Segundo, buscar atender os advogados em todas as questões básicas, das prerrogativas até as instalações e ferramentas para exercer bem seu trabalho. Isso porque tem advogado que chega ao fórum e não tem uma cadeira para se sentar, não tem um ponto de apoio. É inadmissível quem passou 30 anos no poder não ter esta sensibilidade. A “OAB que Queremos” vai assumir este compromisso. Tem gente muito sensível para fazer este resgate. Portanto, este é o desafio.

Elder Dias — O nome da chapa [OAB que Queremos] teve algo a ver com o de seu fórum, Goiânia 2020 — A Cidade que Queremos? Foi o sr. quem o sugeriu ao grupo de Lúcio Flávio?
O nome fui eu quem sugeriu, porém nasceu de uma obviedade da pesquisa qualitativa. Coincidente­mente, tem uma semelhança. A pergunta que fazíamos na qualitativa era: qual é a OAB que você quer? A pessoa tinha a oportunidade de elencar dez pontos que considerava de mais urgência para a entidade. Nós apresentamos três nomes, mas eu queria ir pelo óbvio, que é a OAB que o advogado quer. Então, essa seria a “OAB que queremos”.

Elder Dias – E sobre esse fórum que discute Goiânia, especificamente? Como o sr. vê a Goiânia de hoje e a do passado?
Já o Fórum nasceu antes, mas não foi em sua função. Faço agora uma declaração de amor pela minha cidade pela expectativa e pelo carinho e pelas frustrações que tenho dela. Sou goianiense, tenho 57 anos. Minha infância foi nesta cidade. Saí de Goiânia aos 18 anos e tive a oportunidade de morar em Belo Hori­zonte, onde passei seis anos e, então, voltei para Goiânia. Por questões profissionais, depois de um ano saí de novo e tive a oportunidade de morar em Fortaleza, em São Paulo e no Rio de Janeiro. Daí, fui morar em Bogotá, onde passei seis anos. Convivo com Bogotá até hoje, para onde fui pela primeira vez em 1991 e nunca mais saí. Foram seis anos fixos e ainda tenho lá uma frequência muito grande.

Passei momentos em Goiânia quando aqui era um caldeirão cultural. Tinha uma integração e uma qualidade de vida no espaço entre Goiânia e Campinas, que passava pela Vila Operária e pelo Setor Aeroporto, mesmo com as carências da cidade, por ser jovem. E tinha uma coisa que perdemos, que era a cultura cidadã. Não tinha essa violência exacerbada de hoje. Havia um espírito de solidariedade entre os cidadãos goianienses, coisa que nós perdemos.
Tínhamos espaços, como a Praça Universitária, com efervescência boêmia e cultural, de nível diferenciado como espaço universitário ao que há hoje. Assim era a Praça Tamandaré também. Nossa educação não era tão pobre, apesar de pública e de termos dificuldade em frequentar a escola privada. Mas tínhamos um básico educacional um pouco mais qualificado.

Cezar Santos — E o que aconteceu?
Com essas idas e vindas, eu passei a desconhecer a cidade. Infer­nizou aqui uma cultura country de duplas sertanejas, inibindo qualquer outra atividade cultural — não que isso teria de acabar, mas teria como conviver. Com essa cultura country perderam-se alguns valores culturais de referência da relação cidadã. O poder do dinheiro ficou mais forte do que o poder da relação. Au­mentou a especulação financeira e, com isso, a prostituição mais fácil. Passamos a ter uma sociedade miscigenada, sem referência. Uma mistura desorganizada, sem parâmetros. A cidade era muito nova para respirar isso. Contaminou-se muito rapidamente.

Com isso houve a escalada de contaminação com a droga e assistimos a uma economia emergente dos traficantes de uma forma até desqualificada. Há traficante de periferia que mata por 10 reais e há o cara que extorque a classe alta. Comecei a ver uma Goiânia de cabeça para baixo. Nos últimos anos, as administrações ficaram à parte desse processo. Nós não tivemos nenhuma gestão nos últimos anos que se preocupasse com cultura cidadã. A capital foi se transformando numa metrópole sem identidade, sem personalidade, e com o pseudorrótulo de cidade rica. Com isso, houve uma especulação imobiliária desordenada. Assistimos a uma falta de iniciativa na questão de infraestrutura para acompanhar o crescimento da cidade. Ficamos reféns de uma série de problemas básicos, que muitas outras capitais não vivenciam, com população maior e com idade mais avançada do que a nossa.

Cezar Santos — Na média, então, Goiânia piorou em relação a outras cidades do mesmo porte?
Demais. Se compararmos uma cidade que tem 2 milhões de habitantes, que é a Grande Goiânia, a uma cidade com 8,5 milhões e as transformações que se deram tanto positivamente quanto negativamente em ambos, a nossa tem um índice de fatores negativos muito maior.

Elder Dias — Essa cidade de 8,5 milhões e meio de habitantes seria qual?
Tive a oportunidade de morar em Belo Horizonte. Cheguei lá em 1983 e era uma cidade maravilhosa. Sempre digo que, se não tivesse a paixão por Goiânia, gostaria de morar em Belo Horizonte. Naquela época, a capital mineira era três vezes maior do que Goiânia. Se tomarmos a Belo Horizonte de hoje, com seus problemas de transporte, violência e infraestrutura, e a compararmos a Goiânia nos últimos 30 anos, levando em consideração o número habitacional, Goiânia cresceu muito mais em números de problemas. Mal ou bem, Belo Horizonte tem BRT, metrô de superfície, transporte coletivo que funciona. Aqui, Nion Albernaz [prefeito por três mandatos nos anos 80 e 90] falou que resolveria o problema do transporte coletivo em 1996. Em 2004, Iris Rezende falou que resolveria o mesmo problema, e em apenas seis meses.

Frederico Vitor — E como o sr. analisa esses quadros?
A diferença é a forma e o tema do debate. O que é transporte coletivo hoje numa cidade de 2 milhões de habitantes? Aqui ainda se debate se se aumenta o número de ônibus, sendo que não temos nenhum outro estudo ou debate sobre transporte, seja metrô de superfície, subterrâneo ou veículo sobre trilhos. Não temos aqui uma política séria de integração. Discute-se transporte coletivo aqui só em época de eleição e de aumento de tarifa.

Em 1984, quando comecei a trabalhar para o Setransp, ajudando o então presidente Edmundo Pi­nheiro a implantar, à época, o primeiro vale-transporte, o cidadão tomava um ônibus no Setor Novo Horizonte e ia até a Praça do Trabalhador. Hoje, o mesmo cidadão sai de Abadia de Goiás e vai até o Campus 2 da UFG ou até Sena­dor Canedo ou Goianira. Sei que a renda do empresário do transporte coletivo diminuiu bastante, a matemática de aumento de tarifa não corresponde à atualização do gasto com óleo diesel, manutenção de frota, reajuste salarial de empregados e uma série de outras coisas.

O debate, então, não está mais em aumento de tarifa, mas em como solucionar o problema de quem precisa de transporte coletivo, como se desenvolve uma nova política para esse aspecto. Nunca assistimos a um debate sobre isso. A Goiânia que queremos vai ter de começar a repensar inclusive a forma de como definir seus candidatos. Cerca de 80% da população quer que se resolva primeiro o problema de seu bairro, porque é ali que ela vive. É preciso um administrador que comece a compreender isso e faça como Jaime Lerner [ex-prefeito de Curitiba], que tinha uma filosofia de administração com o princípio da acupuntura, resolvendo problemas pontuais que, solucionados, vão refletir em melhorias noutro âmbito. É diferente de querer resolver todos de uma vez e não resolver nenhum.

Frederico Vitor — Como fazer isso acontecer?
Quais são as cinco prioridades de Goiânia? Este é o debate. E a questão é a próxima administração em cima desses cinco pontos básicos desta cidade. As pessoas querem falar de processos qualitativos sem resolver o “arroz com feijão”. Se conseguíssemos ter um projeto de infraestrutura, um de saneamento básico, outro de manutenção, outro ambiental, juntamente a uma nova política de qualidade de vida, isso seria importante. O que é qualidade de vida? É onde as pessoas vivam seguras em seus bairros e possam se locomover de acordo com suas necessidades diárias — trabalhar, estudar etc. Temos de mudar o eixo de discussão, senão vamos continuar criando um monstro de cidade sem solução. É inadmissível que a Marginal Botafogo continue a ter inundação e infiltração e a cair em época de chuva. Os viadutos de Goiânia têm inundação — ora, se vai fazer um viaduto, que faça direito ou não faça.

Falta ordenamento à cidade e vamos buscar isso agora . A população é cumplice e precisa adotar Goiânia. Não podemos mais ter políticos ou prefeitos de feudo. Quem é melhor para Goiânia, baseado em quê? No governo de plantão ou na oposição de plantão? É o interesse de quem? Se não debatermos a cidade que queremos, não vamos avançar em nenhuma parte e não resgataremos a cidade com a qual cada um tem uma história. É uma cidade que ainda tem a oportunidade de ser resgatada.

“Os partidos políticos estão na contramão da história”

conexao.qxdElder Dias — O sr. vê algum dos pré-candidatos pensando dessa forma, com esses pilares?
Se há alguém pensando assim, não sei. Mas temos três ou quatro pré-candidatos com sensibilidade para serem convencidos para isso. Não crucifico tanto os políticos, porque eles são reféns da estrutura partidária e da cultura política.

Acredito que vai acontecer um movimento ao contrário. A população vai exigir que quem assumir a cidade terá de ter um compromisso com ela. Todos falam que a cidade precisa de um gerente. Não, ela precisa de um político, mas que tenha sensibilidade para contratar uma gestão. Gestão se contrata. Buscam-se seis ou mais cabeças pensantes com experiência, mas tendo força política para isso se movimentar, porque estamos trabalhando com bens e sentimento públicos.

Precisamos de um político que consiga desenvolver uma nova cultura na cidade, a que chamo de “cultura cidadã”. Nós não faremos nada sem essa cultura, em que o coletivo é mais im­portante do que o privado. A partir daí, o rumo é fazer uma gestão eficiente, contratar aquilo que se necessita, dentro de um planejamento lógico. O ra­ciocínio é o revés do que se estabelece por aí. Vejo que, qualquer um dos pré-candidatos, poderia ter esta condição.

Costumo dizer que não acreditava que Aécio Neves (PSDB) pudesse ganhar as eleições presidenciais. Por uma simples razão: Aécio é um bom político, que veio de uma experiência gratificante em Minas porque havia um grupo gestor atrás de si. Ele apenas fazia o relacionamento institucional da política, tendo um grupo gestor liderado pela irmã dele, Andrea Neves, que, na época, teve o talento de contratar algumas cabeças — inclusive o ex-governador Antonio Anastasia (PSDB) — para fazer parte deste grupo de gestores, vinculados à Fundação Dom Cabral [escola de negócios brasileira para desenvolvimento e capacitação de executivos], trazendo pensadores e estrategistas, como Vicente Falconi [consultor], e conseguiu fazer um belo trabalho. Mas outra coisa é ir a um embate político do tamanho do Brasil sem ter a infraestrutura necessária. Aécio acabou refém de seu partido. Como um sujeito diz para todo o Brasil que fez muito por Minas, mas Minas não deu o voto a ele? Ele fez um bom trabalho lá, mas não tinha consenso. A habilidade política dele não foi o suficiente para todo o Estado. Mas, se fosse em Belo Horizonte e nos grandes municípios, onde a gestão dele respirava, era possível perceber que tinha um diferencial.

Goiânia precisa disso hoje. Criticam Waldir porque ele não teria conhecimento e é uma pessoa ligada apenas à área de segurança. Mas, se tiver sensibilidade para contratar uma boa gestão, transitará bem entre a população. Vanderlan Cardoso (PSB) é uma pessoa com visão administrativa. Se tiver a habilidade para contratar gestão, poderá lidar com o lado político com mais facilidade. O que não dá é para inventar um candidato com perfil de gerente, mas que não tenha sensibilidade, visão e independência políticas. E essa conexão quem vai fazer é a população, pois 80% dela não acredita mais nos políticos. E os partidos estão na contramão da história. Vivemos uma crise de credibilidade em que todo dia se ouve uma especulação maior que a outra.

Elder Dias — O sr. acredita que o debate ético vá pautar a próxima eleição?
A população parte do princípio básico. Se ouvissem mais as pessoas, entenderiam que a expectativa delas é de que, a partir do momento em que alguém se candidata a tal cargo, este está preparado para assumi-lo. E o que o cidadão quer, em um primeiro momento, é que o problema dele seja resolvido. Infelizmente, nossa cultura chegou a um nível em que, se isso ocorrer, nada mais tem a menor importância.

Não se pode falar em um debate ético se os protagonistas não têm ética. Quem vai fazer o debate? Esse debate fica para uma meia dúzia, pois o processo eleitoral não permite a presença da ética, pois foi desenhado para ser um trator de convencimento e não uma política de convencimento. Logo, quem tem mais dinheiro ganha mais voto. Quem tem mais tempo de televisão tem mais oportunidades. Com essas diferenças, não tem como fazer um debate ético.

É uma questão que fica na superfície dos formadores de opinião e atrapalha uma cobrança mais pragmática de que tenha mandato. Culpo muito os veículos de comunicação por todo esse processo. Como ninguém debate os problemas da cidade na perspectiva da população, não poderá cobrar aquele político que não conseguiu fazer o asfalto. Os veículos precisam passar a ter uma pauta diária do ponto de vista do cidadão e da cidade. Como vou engolir que Goiânia tem uma tal qualidade de vida se não tenho o básico no meu bairro?

Cezar Santos — Mas o que mais vemos são manchetes de jornal e de programas de TV mostrando os problemas da cidade.
Não, o que vemos é a busca por audiência. Falar do número de mortes e da microcefalia é procurar por manchetes para dar visibilidade e audiência. Outra coisa é fazer uma discussão do porquê se chegou a tal quadro e como resolvê-lo. Por que é mais fácil criar a cultura do lixo do que a da limpeza? É inadmissível que nossa cidade tenha virado um lixão. Em qualquer lugar que se vá há lixo. No Parque Areião, no lugar onde cai a água da lagoa, o que se vê é um lixão que atrapalha todo o processo natural.

Cezar Santos — Nessa perspectiva, então, se o candidato prometer que vai limpar a cidade, ele tem grande chances de ganhar.
É disso que estou falando. Precisamos do candidato do básico. Por que tem dengue? Porque tem lixo. Por que tem lixo? Porque não tem cultura de limpeza. Por que não tem essa cultura? Porque não tem gerenciamento. Não temos limites nem parâmetros. Estamos criando uma sociedade completamente desordenada. Em uma rua na qual transitaria um carro, porque foi criada há 50 anos, estacionam carros de um lado e do outro, e não se permite que alguém trafegue ali. Ninguém é crítico a isso e não há punição. É inadmissível, por exemplo, que, em um shopping — e cito o Buena Vista —, se permita estacionamento em volta e quem tenha dado a autorização para isso não tenha percebido que, para estacionar, um carro precisa manobrar e, consequentemente, estrangula o tráfego atrás dele, criando um caos. Isso é falta de gerenciamento e de cultura.

Queremos, por exemplo, ser capital de parques, mas não temos cultura de limpeza. Tente entrar em um banheiro do Parque Areião em um dia em que você estiver fazendo caminhada. Agora, imagine como fica a situação para uma mulher. Tente fazer uma caminhada no Parque Vaca Brava e ir a um banheiro. Não existe banheiro ali. No metro quadrado mais caro de Goiânia não existe banheiro. É preciso pedir um emprestado no shopping, nos bares. Então, que cultura cidadã é essa que estamos vivendo? E essa é uma discussão que deveria ser pautada pelos veículos de comunicação. Ou seja, é um distanciamento da realidade básica muito grande.

Por que tem manchete sobre o rapaz que morreu ao tomar choque no poste do parque do Macambira-Anicuns? E por que não teve sequência daquele caso? Um técnico da Prefeitura vai lá e conta uma história, mas ninguém procura checar se aquilo é verdade, se foi falta de monitoramento ou de competência. No fim, foi falta de gerenciamento e cultura de administração de bem público. É isso que nós queremos cobrar de quem se propõe a ser prefeito de uma cidade como Goiânia. Qual é a Goiânia que queremos? Porque esta aqui está esgotada. Quando perguntamos se alguém está feliz de morar aqui, temos surpresas. A Goiânia que queremos é a do cidadão. Mas quem está disposto a administrar a cidade e fazer o que precisamos?

Euler de França Belém — O sr. citou o Shopping Buena Vista, mas veja o Nexus, que pretendem construir na Avenida 85. Já no dia de seu lançamento, as vias estavam engarrafadas. Por exemplo, foi feita uma obra na Praça do Ratinho para desafogar o trânsito, mas agora surge uma obra da iniciativa privada para atrapalhar a pública.
Nós vivemos a cultura da improvisação. Nada é planejado e nada tem sequência lógica. Quem vai fazer uma obra precisa pensar no impacto dela agora e daqui a 20 anos. O que vai surgir em volta? Não se pensa. Fazem uma festa e inauguram um suposto cartão postal, que precisará ser destruído ou criará um estrangulamento. O viaduto da Praça do Ratinho, na época, foi feito para resolver o problema de uma rótula que existia ali, mas não foi planejado. A cidade tem um ritmo de crescimento que pode ser medido se houver competência para administrar. E como liberar a construção de um empreendimento sem pensar no impacto ambiental e de trânsito, sem uma sequência lógica no planejamento e ordenamento da cidade? Não poderia, mas ninguém age assim.

Frederico Vitor — A responsabilidade da segurança pública é do Estado e não do município. Mas como o prefeito pode contribuir para esse setor?
Eu discordo da teoria de que a segurança pública deve ser responsabilidade apenas do Estado. Atualmente, chegamos a um esgotamento de nossos padrões de vida tão grande que o problema de segurança pública é uma responsabilidade de todos. É como a dengue. É por essa história de responsabilidade única que hoje temos uma lei de silêncio em uma região de Goiânia, porque os traficantes de lá tomaram para si a responsabilidade que não é do Estado nem do município. Precisamos abolir essa teoria e ter um gestor com pensamento e pragmatismo para buscar mecanismos. É preciso tornar pública a responsabilidade de quem não consegue gerir a cidade.

Essa tese sobre a segurança vale para a da saúde, antigamente. Era um caos. Atualmente, com o repasse para os municípios em relação às UPAs [unidades de pronto atendimento] e demais unidades, houve busca de alternativas. No caso da segurança pública, é preciso tomar medidas mais sérias, porque não dá para uma cidade de 2 milhões de habitantes falar que não tem responsabilidade sobre esse tema. Há alternativas: por que não fazer uma central de vigilância? Temos tecnologia no mundo inteiro para amenizar os problemas que vivenciamos.

É preciso ter uma interação entre os gestores. Um prefeito precisa ter um relacionamento com a Polícia Militar e criar uma polícia metropolitana, mesmo que não armada, para chegar a uma solução. Um exemplo: você é agredido em um domingo no Parque Vaca Brava. A responsabilidade é de quem? Tomaram sua bicicleta. Vai reclamar para quem? É preciso ter uma solução de gestão para que o cidadão se sinta protegido. A segurança é responsabilidade do município, sim. (enfático)

Euler de França Belém — Nas grandes cidades do mundo, o problema da segurança só foi resolvido depois que o município assumiu.
Sim. Em Nova York foi assim. Em Dallas, por exemplo, eu assisti a uma cena, que parece de filme, de uma senhora cega esperando o ônibus. O motorista sabia que ela pegava o ônibus todo dia e o monitor da praça, que faz parte de uma guarda metropolitana, também. Então todo dia esse monitor parava a bicicleta ao lado dela para acompanhar sua subida no ônibus. E o motorista a chamava pelo nome. Há várias formas de corrigir o que está errado na cidade, não pode haver a inoperância que temos assistido nos últimos anos. E insistimos em discutir pré-candidatura ou eleger pessoas que não têm o mínimo de compromisso de debater o básico da cidade.

Marcos Nunes Carreiro — Seu fórum tem contado com a participação de muitas pessoas. Mas o sr. enxerga se a população abraçou a ideia? Ela quer discutir essas melhoras? Afinal, não temos uma Goiânia, mas “Goiâ­nias”. A cidade é muito plural.
Quando trabalhamos com o todo, logicamente temos de ver o bosque e escolher algumas árvores para fazer o monitoramento disso. O fórum não tem a intenção de ser abraçado pela cidade. Ele é uma semente. A intenção é que as pessoas a quem tenho acesso, e que sofrem do mesmo trauma que eu — que é assistir ao descaso com a cidade e à falta de proatividade —, possam se reunir e criar um mecanismo de debate. E fazer um fórum desse não é fácil, pois demanda tempo e investimento financeiro, porque eu quis que o fórum fosse independente. Quan­do eu desloco alguém de Bogotá para trazer sua experiência, ninguém paga para mim.

Quando eu intimo os amigos para participar de algo que está fora de suas agendas, a primeira pergunta que me fazem é: “O que vou ganhar com isso?”. Mas temos um índice de desenvolvimento muito satisfatório. Começamos com 70 pessoas na primeira edição; na segunda, tinham 110; na terceira, 150; e o quarto já tinha gente sentada no chão. Fizemos o quinto e disseram que, com a presença do governador Marconi Perillo (PSDB), eu deveria pegar uma sala maior, pois todos quereriam ir. Mas mantive a mesma sala, pois prefiro ter pessoas sentadas no chão e obedecer ao critério do fórum do que criar um espaço só para quem chegou pela primeira vez e depois não voltará. Que­remos ter o compromisso de discutir isso.

Frederico Vitor — E onde o fórum A Cidade que Queremos quer chegar?
A intenção que nós temos — e acredito que vamos conseguir — é de o próximo prefeito de Goiânia não seja eleito sem se sentar e debater com o fórum. Porque esse fórum vai validar um candidato no momento certo. E contamos hoje com formadores de opinião, empresários, estudantes, pessoas comuns da população, que vão cobrar outra realidade de discussão na cidade. Eu, profissionalmente, farei uma campanha e meu candidato terá alguns benefícios, porque conheço bem a realidade da cidade e o que a população quer hoje, além dos mecanismos para se chegar ao que a população quer. Mas isso, logicamente, não é debatido no fórum.

Por exemplo, o general Luis Ernesto Gilibert, que iniciou as frentes de segurança em Bogotá, inovou em sua gestão com o policiamento por quadra, algo que muitos copiaram. Uma semana depois de sua vinda, a Polícia Militar lançou a polícia solidária com o mesmo conceito. Coin­cidência? Não sei, mas para mim é gratificante ver o fórum dar frutos. Não sei se na prática isso está funcionando por aqui, mas pelo menos despertamos alguma mudança. Essa é nossa intenção.

Desta vez, o deputado federal Andrés Villamizar veio de Bogotá para mostrar como é a cidade que eles querem agora e como isso serviria de referência para a Goiânia que nós queremos. Lá, já estão fazendo um avanço do TransMilenio [modal que é considerado a grande inovação de Bogotá em transporte]. Estão discutindo um metrô de superfície, que foi pauta do prefeito [Enrique Peñalosa] que ganhou a eleição. É uma cidade de 8 milhões e meio de habitantes que se transformou, nos últimos 30 anos, com uma velocidade que ninguém imagina.

Elder Dias — Para melhor…
Sim, e Goiânia está na contramão, mas mostra que é possível mudar. A reviravolta positiva para Bogotá começou com um prefeito, Antanas Mockus, que saiu de uma realidade como a que vivemos aqui e desenvolveu uma nova forma de fazer política, inspirada na cultura cidadã, fazendo um trabalho de transição cultural maravilhoso e que está dando frutos até hoje. Se Mockus não tivesse sido buscado em Nova York, na última semana de campanha, para abraçar a candidatura de Peñalosa, nós [Marcus Vinícius trabalhou para o candidato Rafael Pardo] teríamos ganhado a eleição. Isso porque ainda há uma chama muito acesa do que Antanas Mockus fez pela cidade.

Para Goiânia, a próxima eleição será uma das mais importantes da história. Vamos decidir para onde queremos levar a cidade. Se para algo diferente e melhor ou conviver com esse marasmo, brincando de “quem é a próxima vítima?” em todos os sentidos: vítima da dengue, vítima de tiro, vítima de assalto. Não dá mais o discurso de não ter mais responsabilidade com questões como a segurança pública, por exemplo.

Elder Dias — O que vemos em Goiânia é que não há planejamento algum para as novas construções. O novo TCE [Tribunal de Contas do Estado] foi construído em meio a uma área verde do Jaó, próxima ao Meia Ponte, 30 anos depois de o mesmo rio ser vítima da obra do complexo da antiga Arisco, hoje Cargill, em uma área de nascentes e olhos d’água. E não vemos políticos preocupados de verdade com um reordenamento da cidade. Com raras exceções, eles não buscam eventos como o que o sr. está promovendo, a não ser que sejam convidados. Como trabalhar com essa dificuldade em relação à classe política sem desesperançar os que pensam que o quadro pode mudar para melhor?
Isso tudo reflete nossa cultura de improvisação e especulação. Qualquer investimento em Goiânia, se formos verificar a fundo, não foi pensado nem para a cidade nem para a população, mas para favorecer a alguém, a algum grupo ou a alguma área. Neste fórum, fazemos um exercício para que as pessoas conheçam o que pensa cada um dos pré-candidatos. Isso vai ficar gravado e vou guardar. Precisamos começar a cobrar a responsabilidade das pessoas que querem gerir os processos. Outra coisa que devemos observar — e vou abrir, nos veículos de comunicação, uma campanha pelo Fórum neste sentido — é o cidadão assumir um compromisso com Goiânia, dizer “eu tenho compromisso com Goiânia”. Indo mais além dessa campanha, dizer “eu tenho mais poder do que o mandato, porque eu tenho o voto”. É o cidadão quem define. Ele precisa tirar esse distanciamento da responsabilidade política e assumir o poder de voz e voto, coisa que só é lembrada pelo TRE em véspera de eleição e mesmo assim como informação punitiva — se você não votar vai ser multado.

É preciso uma campanha para haver mais consciência cidadã. Eu assumo esse compromisso. Precisamos sensibilizar essa parte da população do poder que ela tem. Quando o sujeito entra no carro importado que tem, se esquece de quem está andando de ônibus; quando entra em seu condomínio horizontal, se esquece do restante, que não tem infraestrutura. Que compromisso, de fato, o cidadão está assumindo com sua cidade. Pelo menos tem de ter o compromisso de pôr alguém competente para gerenciá-la. Como profissional de marketing político, com Goiânia vou ter o critério de trabalhar com um candidato que comungue com isso. Ou então não vou trabalhar.

O grande sucesso que tive na campanha da OAB-GO foi por causa disto: um candidato com que eu comungava minhas ideias e vice-versa. Juntos, administramos o restante e evitamos a campanha da mesmice. Esse caso pode servir de referência aos pré-candidatos a prefeito, por ter sido uma campanha limpa e propositiva para Goiânia — e também para outros municípios. Esse Fórum pode ser uma semente para a Goiânia que queremos, a Anápolis que queremos, a Rio Verde que queremos, Trindade, Aparecida etc.

Estamos vivendo o mesmo momento e as mesmas dificuldades, que ensejam a mesma discussão. E aqui volto a criticar os veículos de comunicação, que deveriam ter mais responsabilidade com esse tipo de abordagem.

Elder Dias — No caso da obra do TCE, por exemplo, os veículos pautam suas matérias pela discussão do custo e fica nisso.
Sim, não se discute a obra em si, a improvisação da área, a necessidade de um tribunal construir um novo prédio para sua sede naquele local. Tudo tem de ser mais planejado. O problema é a falta de planejamento, de gerenciamento, a improvisação, a irresponsabilidade, a omissão. Ora, como, por exemplo, o fato de ter um bandido ou um acúmulo de lixo na minha porta não é de minha responsabilidade? O que está faltando é mais compromisso. Não podemos ficar naquela de “não sei de nada, não vi nada” se as coisas estão acontecendo na nossa frente. Não estamos usando nem a tecnologia disponível como valor agregado nesse processo. E estamos fazendo administração pública sem planejamento nem lógica.

Euler de França Belém — O sr. diz que a próxima campanha será menos midiática e mais conceitual, estratégica e de corpo a corpo. O que significa isso?
O cidadão hoje — e os políticos em geral terão muita dificuldade com isso — tem um grau de insatisfação muito grande com o que andam apresentando seus gestores. Em segundo lugar, a crise política trouxe um desânimo e um descrédito maiores ainda. Um terceiro ponto é que, com a nova divisão do horário de TV e rádio e a redução do tempo de campanha pela metade (de 90 para 45 dias), a pré-campanha vai ser mais importante, talvez mais do que a campanha em si — é uma tese que eu defendo. Quem quiser ser eleito terá de trabalhar a partir de janeiro, fevereiro, no mais tardar em março. Só que de março até a convenção ele não terá via legal para assumir sua candidatura. Então, terá de fazer um corpo a corpo forte, com estratégias e debates diferenciados, para já ter posicionamento e visibilidade, com intenção de voto, ao chegar o momento da oficialização.

Isso abre oportunidade —que, para muitos, será dificuldade —de criar debate e diálogos consistentes sobre essa Goiânia que queremos, porque terá de fazer estratégias localizadas, com temas localizados, sem ser genérico. Com a pré-campanha sendo mais importante do que a campanha, será uma grande chance de criar uma nova cultura de marketing eleitoral e de candidaturas eleitorais.

Publicitário Marcus Vinícius Queiroz: "Vivemos a cultura da improvisação. Nada é planejado e nada tem sequência lógica"

Publicitário Marcus Vinícius Queiroz: “Vivemos a cultura da improvisação. Nada é planejado e nada tem sequência lógica”

Euler de França Belém — Algumas pessoas dizem que Iris Rezende (PMDB) é um candidato imbatível. Mas outras, como o sr., dizem que ele não é apontado como o prefeito ideal para Goiânia, embora lidere as pesquisas. Como é isso?
Tudo na vida é cíclico. Político tem ciclo, cidade tem ciclo, todos temos ciclos. Nas últimas quatro eleições que tivemos, para a cidade e para o Estado, Iris esteve envolvido. Então, surge o momento em que a população se cansa. Ele já teve todas as oportunidades para fazer o que desejava, em sua carreira política. Iris teria todas as condições de ser um líder político de um grupo para rediscutir a cidade, mas não para voltar a gerenciá-la. Sua sucessão não foi tão feliz — não sei se em função de uma “herança maldita” ou de uma nova forma de tentar administrar que não deu certo. Então, Iris já deu sua contribuição e agora Goiânia precisa de um líder que una e não que divida, precisamos somar e não dividir. É necessário que haja uma pessoa que não seja do grupo A ou do grupo B, mas que seja da cidade e para a cidade, um político que consiga ter uma visão de gestor para criar e contratar equipes, independentemente de partidos. O grande tema desta campanha, em minha tese, é que o candidato que quiser se conectar com a população terá de assumir a bandeira de que seu partido é Goiânia. Seu compromisso será fazer a soma de quem quer mudar a realidade da cidade. Goiânia precisa urgentemente de uma política de mudança, uma transição cultural.

Uma cultura cidadã, com uma população de sentimento mais solidário. Isso aumenta a responsabilidade de quem queira gerir a cidade. Não dá para transformar Goiânia em um patrimônio de trunfo eleitoral. “Ganhei a cidade de Goiânia”: ok, vai fazer o que com ela? O mesmo que fizeram antes? Isso não cabe mais. Precisamos abrir esse quadro e a população percebe isso claramente.

Acredito que um candidato do governo terá dificuldade em se eleger, assim como um candidato de Iris. Isso porque a cidade se cansou dessa polarização. Precisamos de alguém com visão de cidade, com capacidade de unir grupos e somar esforços e que apresente soluções diferenciadas.

Euler de França Belém — Como o sr. veria uma candidatura da deputada Adriana Accorsi (PT)?
Eu acredito que o PT carregará uma cruz muito complicada para a próxima eleição. Nada conspira em favor do partido. Estamos vivendo uma crise política, uma crise de governabilidade que não víamos desde o governo Sarney [1985-1990]. Tudo isso com uma marca muito forte chamada PT. Todos os escândalos, provados ou não, têm a marca do PT. E, por aqui, estamos convivendo com uma administração que se elegeu prometendo uma Goiânia sustentável e o que ocorre é o contrário. O partido vai herdar isso. Acredito que o prefeito Paulo Garcia está fazendo um esforço muito grande para sanear as contas e resolver problemas, mas não tem tempo hábil para deixar um legado político que impressione o eleitorado para que seu candidato tenha chance de se eleger. Torço para que ele deixe um planejamento para que o próximo prefeito inicie seu mandato com condições mais favoráveis do que Paulo começou.

Euler de França Belém — Waldir Soares (PSDB) é tido como um “outsider”, um nome independente. Foi eleito como deputado federal mais bem votado da história de Goiás, mas não tem uma tradição política. Qual é a explicação para que ele esteja em 2º lugar nas intenções de voto?
Waldir representa um sentimento latente hoje, pelo que vemos nas pesquisas, principalmente no cidadão médio da cidade. Ele passa a confiança de entender o que o cidadão precisa. Tem um perfil de independência que agrada muito, no caso não ter dono político, não ser “do Iris” nem “do Marconi”, o que também vai ao encontro do que o eleitor pensa hoje, já que não quer um candidato do grupo A ou do B. Fala de uma forma que a população entende e vem de uma categoria que passa muita credibilidade em alguns segmentos, que é a da segurança pública. Waldir também está mantendo a relação com aqueles que lhe deram uma votação muito expressiva para deputado federal. Isso faz uma grande diferença.

Tenho um amigo prefeito que viveu uma condição adversa e conseguiu se eleger, está conquistando a cidade e será reeleito, que é Carlos Amastha (PSB), de Palmas. Além de não ser um político de carreira — ele é empresário —, tinha um fator mais complicado para convencer o cidadão, por ser colombiano, naturalizado brasileiro, falar enrolado e ainda fala uma mistura de espanhol e português. Hoje quem vai a Palmas volta dizendo que ficou impressionado com a transformação da cidade. Existe, então, uma diferença muito grande entre a percepção da população e a realidade dos fatos. Eu acredito que Goiânia tem vivenciado isso. A cidade tem uma percepção do candidato, do prefeito que ela quer. Quem conseguir se encaixar nessa percepção do cidadão, terá muito mais oportunidade de ganhar o voto, porque o pedido de voto tradicional, como “já fui prefeito”, não vai funcionar, porque o eleitor não quer olhar para trás.

Euler de França Belém — E sobre Vanderlan Cardoso? Ele parece ter perdido um pouco o selo de candidato independente. O que aconteceu?
Continuo acreditando que Vanderlan é um candidato competitivo, lhe falta só ter um posicionamento mais claro. Quando foi candidato, ele representou uma candidatura para governo, num momento em que podia ter tido um posicionamento diferenciado, mas entrou em uma briga que não era dele, de grupo B contra grupo A, da qual ele saiu desfavorecido.
O fato é que Vanderlan tem uma experiência administrativa em Senador Canedo que o encaixa no perfil para Goiânia, guardando as proporções, por ter a figura de líder com visão de gestor e sensibilidade política para saber contratar e fazer as transformações. Ele fez um laboratório muito bem feito naquela cidade. Acredito que falte a ele um pouco mais de clareza em suas posições e aproveitar mais seus pontos fortes. Mas ele é um candidato competitivo.

Cezar Santos — Ele não foi vítima da polarização como candidato ao governo?
Sim, ele foi vítima da polarização, perdendo a oportunidade de ser independente no processo, por falta de posicionamento. E, hoje, Goiânia está gritando. E é uma cidade mais exigente no voto, sempre foi, tanto que Marconi nunca conseguiu emplacar seu candidato a prefeito, mesmo em seu momento de mais popularidade. Primeiro, por ter sido sempre uma candidatura de última hora, parecendo de chapa branca, e a população percebe isso. Se Vanderlan trouxer o laboratório que fez em Senador Canedo para a região noroeste, por exemplo, vai convencer a região. Volto à tese da acupuntura para avançar no que é minha especialidade, estratégia política. A tese da acupuntura funciona. Se alguém tentar ver Goiânia como um todo, não vai ganhar, porque são várias cidades dentro da cidade.

Euler de França Belém — O deputado Giuseppe Vecci e o presidente da Agetop, Jayme Rincón, ambos pré-candidatos do PSDB, têm perfil parecido com esse de Vanderlan. São gestores, têm ideia de planejamento, não gostam de coisas improvisadas, têm sensibilidade política. Como o sr. avalia os dois?
Se formos analisar perfil, tanto Vecci como Rincón têm perfil ganhador. São pessoas experientes, com vivência e experiência administrativa, além de outros fatores. O que discutimos — e eu acredito que campanha eleitoral não se define em gabinete — é que o sujeito, para ser prefeito de Goiânia, tem de primeiro querer ser prefeito e manifestar isso, pagar o preço por querer. Seu quiser, mas não puder se manifestar, isso já o distancia da meta, pois queima uma energia que poderia aproveitar para criar um projeto ou uma base de proposta.

O que eu sinto é que o PSDB poderia fazer uma aposta estratégica diferenciada para discutir Goiânia. É um risco que se corre, mas é uma oportunidade que se tem. É mais produtivo e menos desgastante do que colocar os pré-candidatos para debaterem de uma forma completamente desconectada. O partido poderia tomar a decisão de ter uma proposta para Goiânia desde já e, a partir de janeiro, entrar em debate sobre com seus cinco pré-candidatos qualificados para decidir em 30 de junho. Desse modo, põe cabeças qualificadas para debater Goiânia com a bandeira do PSDB, com realidades e necessidades da cidade. É válido. A forma como estão discutindo é que desgasta e mata o candidato. Portanto, não é por falta de perfil dentro do PSDB, é por falta de estratégia e de um sentimento de compromisso com a cidade. Se primeiro for qualificar internamente para depois fazer uma proposta para cidade, vão perder o bonde da história de novo. E política é “timing”. No caso de Waldir, ele é um candidato competitivo e teria uma grande oportunidade de vitória. Partido não vai contar muito nesta eleição para um perfil como o de Waldir. O cidadão votará nele por suas propostas e apresentação.

Euler de França Belém — Se Waldir ganhar, tem condições de administrar?
Eu acredito que sim, pois ele tem sensibilidade política e responsabilidade com o compromisso que estará assumindo. Terá de ser inteligente o suficiente para contratar um grupo gestor. Waldir tem o perfil de somar e, sendo um candidato independente, pode buscar, em vários partidos, pessoas que estão dispostas a assumir esse compromisso com Goiânia.

Euler de França Belém — O sr. não está trabalhando com ele mais?
Não trabalho com ninguém nesse momento. O meu compromisso atualmente é apenas com o fórum. Assumo compromisso de trabalho com alguma candidatura a partir de 1º de janeiro.

Euler de França Belém — Durante muito tempo, o Lula foi considerado um político “teflon” do Brasil. Nada o atingia. Hoje, em cada botequim, a primeira conversa é sobre “os filhos do Lula”. As pessoas que estão ao redor falam que ele está extremamente abatido. As pesquisas mostram, pela primeira vez, que ele está combalido: 47% não votariam nele, hoje. As coisas podem mudar, mas também se cristaliza uma ideia negativa que ele não tinha. Como o sr. avalia Lula com a possibilidade de ele ser candidato a presidente?
Como eu já disse, tudo tem ciclo. O ciclo de Lula só não terminou em 2006 por incompetência e equívoco estratégico do PSDB. Se recordarmos, quando estourou o mensalão, Lula tinha uma intenção de voto muito baixa e o PSDB ganhava a oportunidade. Por suas confusões de partido complicado, ressuscitaram Lula a partir do momento que o encararam como cachorro morto. Decidiram que o deixariam sangrar e começaram a bater de uma forma equivocada. Foi quando Lula despertou e se vitimou, muito habilmente naquele momento, recorrendo à população e, principalmente, a quem tinha se beneficiado do governo. Elegeu-se e fez um governo maravilhoso, na aparência, em seu segundo mandato, tanto que conseguiu fazer sua sucessora, que ninguém conhecia. Queimou o ciclo dele em uma posta errada, equivocada. Tudo que se maquiou no governo até 2010 explodiu a partir do ano seguinte, mas mesmo assim isso seguiu até 2014. A reeleição de Dilma foi um parto complicado, a fórceps.

Euler de França Belém — O sr. não acha que o fim do ciclo Lula pode levar junto o PSDB? De repente, eleger uma Marina Silva (Rede)?
Marina ressurgiu devido aos problemas atuais, porque se blindou. Se não conseguiu contagiar na época eleitoral com suas propostas, agora as pessoas estão com o sentimento de que foram injustas com ela, de que não a compreenderam, por toda a bagunça que aí está. Aécio já chegou ao teto, é alguém com esse limite, não empolga, até porque o partido dele o engessa. E tem muito fogo amigo, muito concorrente dentro do próprio partido.

Euler de França Belém — Minha teoria é de que o ciclo de Lula é o ciclo do PSDB. Lula e PSDB são parecidos, são sociais-democratas e esse modelo está se esgotando.
Não acredito que sejam do mesmo ciclo. Acredito que o PSDB não conseguiu capitalizar o processo de transformação que ele fez no país após sair do poder. Hoje, o Fernando Henrique tem mais importância do que há quatro anos. O PSDB não soube capitalizar no momento certo. Na primeira eleição que perderam para Lula existia um sentimento de esgotamento, mas em 2006, quando Lula estava em seu momento mais crítico, o PSDB não soube capitalizar que tudo que tinham feito poderia ser descontruído a partir daquele momento. Precisariam ter um discurso mais responsável com o país e, ao mesmo tempo, lançar uma liderança que pudesse resgatar isso. Mas ficaram em uma briga interna, isolando Fernando Henrique, que era a maior âncora do partido — tanto que eles o “congelaram” para o ressuscitar apenas agora. O timing do PSDB foi equivocado com sua maior liderança.

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