“A Primavera Árabe foi uma grande decepção”

Correspondente internacional da Record em Israel conta dificuldades que enfrentou na cobertura dos conflitos no Oriente Médio e analisa o momento atual da região 

Foto: André Costa/Jornal Opção

Foto: André Costa/Jornal Opção

Viver em meio à guerra é algo muito distante para milhões (talvez bilhões) de pessoas em todo o mundo. Algo que nós, brasileiros, conhecemos muito pouco. No entanto, o medo de bombardeios, ataques e terrorismo faz parte do dia-a-dia dos moradores de Israel.
Correspondente internacional da Rede Record há dez anos, Herbert Moraes cobre o conflito entre israelenses e palestinos in loco.

Com inúmeras histórias dignas de produções hollywoodianas, o repórter, que já foi até levado por rebeldes na Líbia, revelou ao Jornal Opção como é morar e trabalhar em uma região tão perigosa quanto o Oriente Médio. Mesmo ante tanta adversidade, ele se diz feliz e garante que está lá por escolha.

Profundo conhecedor do conflito, Herbert Moraes faz uma verdadeira viagem aos seus anos de trabalho, relembrando durante a entrevista episódios marcantes. Fez questão, ainda, de desmistificar a imagem equivocada que muitas pessoas têm do País e de seu povo. Segundo ele, a despeito da guerra, Israel transpira cultura, conhecimento e tecnologia.

Euler de França Belém – Em 2013, o sr. entrevistou uma sobrevivente do Holocausto, do campo de extermínio mais letal da Alemanha que ficava na Polônia, Dita Kraus, de 86 anos. Há, inclusive, um livro sobre ela que saiu no Brasil. Vocês ainda mantêm contato?
Ela está bem doente. Não conversamos tanto. Primeiro porque os sobreviventes estão cada vez mais velhos, o contato com eles fica cada vez mais restrito. O pouco que eu conversei, ela agradeceu, ficou muito satisfeita com a entrevista, falou que tentou ler pela internet e o que entendeu gostou muito. Ficou bem descrito o que aconteceu com ela.

Euler de França Belém – Ela escreveu uma carta agradecendo, não é? Escreveu inclusive que o sr. conseguiu captar até as feições dela.
Exatamente. Depois, eu tentei ir até lá, mas tivemos desencontros de horários.

Euler de França Belém – Como está posto o tema do Holocausto em Israel? Fala-se nisso?
Todos os anos. Seriamente. Mas as pessoas se enganam e acham que o Estado de Israel surgiu do Holocausto. Isso não é verdade. É algo que é bom esclarecer. O Holocausto foi o “pontapé” que faltava para a criação do Estado de Israel.

O Sionismo surgiu no século 19; em 1917 tem a declaração do Lorde Balfour, que mandou uma carta pedindo a rainha da Inglaterra e ao Parlamento a criação do Estado de Israel naquele ano. Quase aconteceu. Então, o Holocausto não foi o fator determinante, a ideia já existia. E até hoje se discute isso. Há o Dia do Holocausto da ONU [Organização das Nações Unidas] e o Dia do Holocausto de Israel mesmo, que são em datas diferentes devido ao calendário.

Euler de França Belém – Há quantos sobreviventes do Holocausto hoje vivendo em Israel?
São 250 mil. Existem leis em Israel que garantem aos sobreviventes alguns benefícios, mas muitos, como estão muito velhos, nem chegam a recebê-los e vivem na miséria.

Alexandre Parrode – Por quê?
Porque estão velhos demais, porque não têm família, não têm quem cuide deles. O Estado tenta cuidar, mas o acesso às vezes é difícil.

Alexandre Parrode – Existem centros de proteção?
Sim. Em alguns lugares, sim. Mas mesmo neles, a situação é precária.

Cezar Santos – A imprensa fala sobre isso?
Existem parlamentares que defendem a bandeira, fiscalizam se os direitos são garantidos, mas é bem complicado. Muita gente vive a mingua. A mídia, em especial, a de esquerda, os jornais Haaretz e Maariv, por exemplo, abordam esses assuntos o tempo inteiro, chamando atenção do governo para a situação. E há, também, o Israel Hayom, que é bancado por um milionário judeu americano que não aborda tanto. Depende dos interesses de cada veículo.

Alexandre Parrode – Qual a posição da esquerda israelense?
Acredita que deve haver uma negociação com a Palestina, que o governo está errado em todas as posições com relação ao colonialismo, às colonias e que os assentamentos devem ser interrompidos — dizem que são o grande mal de Israel. Principalmente quem mora em Tel Aviv, que é considerada a cidade da esquerda israelense, as pessoas criticam muito as políticas de colonialismo do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu.

Euler de França Belém – Existem partidos de esquerda?
Vários.

Euler de França Belém – E comunista?
Não. Israel já foi muito de esquerda, até a morte de Yitzhak Rabin a esquerda ainda tinha força. Mas, ao longo do tempo, ficaram só as figuras históricas. A maioria já morreu. É uma esquerda sem força.

Alexandre Parrode – Qual a permeabilidade dessa esquerda na sociedade?
Mais em Tel Aviv, que é considerada a bolha, que é quase um País dentro de outro País. Além disso, todos os protestos, a parte que vai contra o governo sempre surge lá. Agora, por exemplo, há uma discussão sobre gás. Foi descoberto um poço no mar. Já está sendo explorado e existe uma pressão da esquerda para que a população seja beneficiada. O governo não tem interesse nisso, pois quer exportar. Para se ter ideia, garantiria a sobrevivência de Israel pelos próximos 90 anos.

Euler de França Belém – E petróleo?
Descobriram recentemente nas Colinas de Golã. Dizem que é de alta qualidade. É uma área que Israel está ocupando, pertencia a Síria, na verdade.

Euler de França Belém – O sr. afirma que as pessoas têm uma visão errada de Israel e da Palestina. O que quer dizer com isso?
Antigamente, existiam os crimes de ódio, racismo, antissemitismo, do Holocausto, contra os judeus. Hoje, não é mais politicamente correto falar que alguém é “judeu”. O antissemitismo transformou-se em “anti-Israel”. Ser antissemita hoje é ser anti-Israel. E isso cada vez mais fica claro. Os governos europeus, o próprio governo brasileiro, têm políticas anti-Israel. É a forma de camuflar o antissemitismo direto aos judeus. Dizem que não gostam de Israel, que é um Estado ocupado, pária. O que na verdade não é.

Euler de França Belém – Por que não se fazem dois países?
Em 1947, quando houve a partilha, a ONU propôs o Estado judeu e o Estado Árabe. Os judeus, pela liderança de David Ben-Gurion, aceitaram o que a ONU deu — que era um terço do que é Israel hoje. Era uma área que estava mais ao Sul. Tanto que o então primeiro-ministro dizia que o futuro de Israel está no Neguev (o deserto). In­clusive, o atual governo está investindo na área, construindo um super aeroporto próximo ao Mar Ver­me­lho para desenvolver a área. Os árabes não aceitaram. No dia seguinte começou a Guerra da Inde­pen­dência. Iraque, Síria, Líbano, Líbia e Jordânia atacaram Israel, que acabou ganhando a guerra. A partir daí começaram as disputas.

Israel, para os Estados árabes, é um câncer no meio do Oriente Médio e precisa ser extirpado. E vai ser sempre assim.

Euler de França Belém – É possível uma pacificação?

Augusto Diniz – E para complementar, o que mudou desde a saída de Yasser Arafat da história?
Yasser Arafat, em 1967, depois da Guerra dos Seis Dias, começou a desenvolver o sentimento do nacionalismo palestino, que rendeu atentados, intifadas, revoltas e tudo mais. Israel já propôs várias vezes acordos de paz. A negação é do lado palestino. As pessoas se enganam. Há sempre uma negativa dos líderes palestinos. Alguns estudiosos dizem que há um interesse das lideranças palestinas, que são corruptas, em financiar isso eternamente. A própria mulher do Arafat, Suha, fugiu de Israel e o fez porque se apropriou do dinheiro que era enviado aos palestinos. Ela não pode entrar no que é hoje a Autoridade Pales­tina. Há uma Fatwa (pena de morte) contra ela. En­con­traram dinheiro que era destinado aos palestinos nas contas dela e do Arafat. As lideranças de lá são corruptas. Há um interesse no conflito.

Cezar Santos – Ganham dinheiro.
Ganham muito dinheiro. E outra coisa: como fazer um acordo de paz com um povo que não reconhece a sua própria existência? Não só palestinos que são governados pelo Hamas como os que são governados pelo Fatah. Eles não aceitam.

Augusto Diniz – Qual a influência do governo americano para a conciliação?
Nenhuma. Hoje, nenhuma. Não vejo solução de paz enquanto o governo do Netanyahu perdurar. Nem enquanto o próprio Ma­hmoud Abbas estiver no poder. Se bem que ele está muito enfraquecido. Uma das causas desses novos atentados que estão acontecendo é a falta de perspectiva da juventude Palestina de não ver a possibilidade de um Estado. Antiga­mente, quando aconteciam essas revoltas, como essa que começou em outubro e já matou mais de 130 pessoas esfaqueadas, havia perspectiva.

São jovens que estão armados com facas, meninos de 14, 13 anos até, que saem de casa para matar quantos puderem.

Augusto Diniz – Há uma discrepância na noticiação de mortes do conflito, não é?
A mídia brasileira, e a mundial também, por causa do antissemitismo, tende a vitimizar os palestinos. Por exemplo, o caso dos meninos com a faca que eu citei, como aconteceu na última semana nas proximidades do Portão de Jaffa. Foram lá dois adolescentes palestinos, um de 17 e outro de 16, esfaquearam pessoas inocentes no meio da rua. Aí, havia duas soldadas de guarda que viram os ataques e atiraram contra eles, um morreu e o outro ainda foi salvo por uma das policiais. No outro dia, estampado na BBC, Reuters e Folha de S. Paulo: “Israel mata dois palestinos no Portão de Jaffa”. Essa é a manchete. Ou seja, não é o que aconteceu.

Outro exemplo: na Faixa de Gaza, o Hamas ou outra facção, mandam 20 mísseis em cima de comunidades israelenses, que ficam ali na fronteira. Aí Israel bombardeia — porque tem que reagir — campos de treinamento, depósitos de armas, túneis que eles constroem para invadir. Isto é, não vai em cima da população, e a mídia noticia o quê? “Israel ataca Faixa de Gaza”, “Israel bombardeia cidade”. É sempre Israel o vilão. Entende?

Quando você lê o fato, Israel atacou porque foi atacado. O que o prefeito de Nova York faria se Nova Jersey, se fosse independente, começasse a jogar mísseis em cima de Nova York? Qual seria a reação? De qualquer um. Se fosse o Paraguai atacando o Brasil porque não aceita a fronteira? Qualquer um contra-atacaria.

Cezar Santos – Eu também percebo que o noticiário é pró-Palestina de uma forma…
De uma forma nojenta. Nojenta.

Alexandre Parrode – Quando isso mudou? Porque eu me lembro que, há alguns anos, quando o governo americano ainda tinha uma relação próxima a Israel, a mídia era a favor do Estado israelense. Recordo-me de capas da Veja e matérias especiais em defesa do reconhecimento.

Cezar Santos – A revista Veja ainda mantém um posicionamento isento, de mostrar a realidade.
É uma questão de uma seriedade com a notícia, o fato como ele é. Sem colocar palestinos como grandes coitadinhos e grandes vítimas de toda a situação. Os dois lados são vítimas. Vítimas um do outro.

Augusto Diniz – O que as duas abordagens da mídia influenciam no projeto de paz?
Se for ter paz, a primeira coisa que precisa ser feita é uma aceitação dos dois lados. Não vou deixar de dizer que há uma incitação muito grande nos palestinos, desde a infância, contra Israel. Basta entrar no YouTube que é possível ver vídeos e mais vídeos de crianças segurando facas, fuzis. Na escola, elas aprendem o mapa que não mostra o território israelense. Não existe Israel, existe Palestina. Em Israel, a mesma coisa. Ninguém é santo nessa história. Sempre existem radicais de ambos lados.

As lideranças de ambos governos não querem paz. Preferem manter o status quo da guerra, que é muito mais interessante que o avanço.

Euler de França Belém – Os governantes preferem manter o status quo. Porque já vi pesquisas que mostram que os israelenses querem paz.
Sim, absolutamente. A maioria quer paz. E mais: se você entrevista os árabes israelenses, que representam 20% da população, eles querem também. As pessoas estão em busca da paz, mas o problema é que não há como encontrá-la.

A ONG (organização não governamental) BDS começou uma campanha de boicote aos produtos de Israel produzidos na Cisjor­dânia, nos assentamentos judaicos. Há uma área industrial na proximidade de Jerusalém, ocupada por Israel, então, muitas empresas, para pagar menos impostos, saíram de Israel e mudaram-se para a Cis­jordânia, onde o controle é israelense, mas os tributos são menores. Muita gente não sabe, mas os trabalhadores são todos palestinos. Trabalham para indústrias israelenses, mas são palestinos.

Agora, certas empresas, como já acontece na ONG BDS, começaram um boicote. O que aconteceu? Algumas tiveram que fechar as portas. Aumentou, assim, o desemprego que já era alto na região. As pessoas fazem as campanhas contra Israel, mas estão prejudicando a própria Palestina.
É tudo integrado; existe convivência entre palestinos e israelenses.

Euler de França Belém – Uma reportagem do “New York Times” mostrou que muito da ajuda humanitária que era direcionada à Palestina estava sendo usada para militarização, criação de túneis, armamentos. Procede?
Procede. Já mostrei em matérias minhas. Por isso que Israel, quando fez o bloqueio da fronteira da Faixa de Gaza, o maior controle foi o de cimento. Porque eles usam cimento para fazer bombas. Sacos de cimento, ferro, tudo isso é usado.

Os rebeldes construíram um sistema de túneis que foi destruído na guerra do ano passado. A quantidade de cimento que foi utilizada na construção desses túneis dava para construir casas e escolas para todos os palestinos na Faixa de Gaza. Foi tudo para debaixo da terra.
Existe uma campanha financiada pelo Catar e Irã, os grandes inimigos de Israel.

Euler de França Belém – Arábia Saudita também?
Sim. Mas agora Israel já abriu um escritório diplomático nos Emirados Árabes e vão começar a fazer negócios. Bem discretamente, esse escritório foi aberto.

"Com a Primavera Árabe, tudo aquilo que eu conhecia como correspondente mudou. Assim como o próprio Oriente Médio. Tudo ficou mais perigoso”

“Com a Primavera Árabe, tudo aquilo que eu conhecia como correspondente mudou. Assim como o próprio Oriente Médio. Tudo ficou mais perigoso”

Euler de França Belém – O sr. já esteve em vários países em situação delicada. Egito, Afeganis­tão, Iraque, Líbia e mora em Israel. É muito difícil ser correspondente lá? É perigoso, arriscado?
É. Ficou cada vez mais perigoso. Quando cheguei ao Oriente Médio, há dez anos, ainda era o “velho Oriente Médio”. Os ditadores ainda estavam no poder. Fui ao Egito quando Hosni Mubarak era o ditador; a Damasco, quando Bashar al-Assad ainda era ditador. Enfim, lugares que ainda existiam a estrutura dos déspotas montada no final da Primeira Guerra Mundial.
Aí veio a Primavera Árabe. Tudo aquilo que conhecia como correspondente: como entrar, se comportar e o que fazer nesses países, mudou. Assim como o próprio Oriente Médio. Tudo ficou mais perigoso.

Cezar Santos – O sr. mora em Tel Aviv?
Sim. Minha casa é em Tel Aviv, mas passo a maior parte do tempo em Jerusalém.

Cezar Santos – Mora em hotel?
Não. (enfático) Na minha casa mesmo.

Euler de França Belém – Qual foi o lugar que o sr. correu mais risco?

Alexandre Parrode – Onde se sentiu mais ameaçado?
Ih, rapaz! Já foi tanta história!

Euler de França Belém – O sr. acha que já pode contar a história da Líbia?
Sim. Eu e minha equipe estávamos em Bengasi (na Líbia). Na verdade, para ir à Líbia eu saí de Israel e fui para o Egito, para Cairo. Levei meus coletes à prova de bala. Quando cheguei ao Egito, não deixaram entrar com colete, já no aeroporto. E eu tinha que ir para a Líbia. Então, conversei com a minha equipe e falei: “Vamos ter que fazer isso na raça”. Eles toparam. Até porque ninguém estava usando colete lá. Estávamos em Bengasi e os conflitos ainda estavam próximos a Trípoli (capital da Líbia, a mil quilômetros de Bengasi), vindo para Bengasi. A ideia da revolução, da Primavera Árabe na Líbia, começou lá. Porque era em Bengasi que ficava a oposição a [Muammar] Kadafi, ditador líbio morto em 20 de outubro de 2011.

Quando chegamos a Bengasi, os rebeldes já tinham tomado o controle. Não era mais domínio do Kadafi. E ele estava vindo com as tropas para a cidade para acabar com todo mundo. Havia um hotel onde todos os jornalistas estavam. À época da guerra já não tinha recepção, você que arrumava seu quarto e não tinha café da manhã. Era um hotel abandonado.

Cezar Santos – Era mais um abrigo?
Era um abrigo. Após dez dias, suspeitei que Kadafi iria chegar a Bengasi. Estava todo mundo esperando um massacre. E ia ser um massacre. Ele ia matar a cidade inteira. Dizem que Kadafi aprendeu com Fidel Castro. Ele se reuniu com Fidel Castro (líder da Revolução Cubana) várias vezes e Fidel falou para ele, orientou que tinha que eliminar a oposição quando ele tomasse o poder. Existem algumas histórias, como a do estádio de futebol em que ele fazia fileiras e fileiras de opositores para serem enforcados ou fuzilados. Eu fui até o estádio para mostrar isso.

O filho dele (Al-Saadi Kadafi) era o dirigente de um time de futebol que disputou o campeonato africano e perdeu. Ele mandou matar todo o time. Então, existiam essas histórias pavorosas lá.

Alexandre Parrode – Isso foi quando?
Isso foi em 2011. Eu falei para minha equipe: “Na hora que esse cara chegar aqui, a primeira coisa que ele vai fazer é vir ao hotel e matar todos os jornalistas que entraram ilegalmente na Líbia”.

Porque você entrava ali na fronteira da Líbia com o Egito, onde não tinha ninguém. Estava tudo livre. Então, já entrávamos direto.

Havia o controle dos rebeldes, mas se você apresentasse um passaporte de Marte você entrava. Basicamente, não tinha controle nenhum. E aí eu falei para a minha equipe “vamos embora”. Isso era tipo 3 horas da manhã. Porque ninguém dormia. Dormia duas, três horas por dia.

Saímos correndo e fomos para a fronteira. Nessa época, já existia o Estado Islâmico e a Al-Qaeda e eles estavam entrando na Líbia, se fingindo de jornalistas. Lá em Bengasi todos os jornalistas faziam um registro para o centro dos rebeldes para provar que estava cobrindo para os rebeldes a situação de guerra civil.

De volta à estrada, nós paramos, eu precisava avisar minha redação que eu estava indo embora. E o único jeito de se comunicar era com telefone por satélite. Paramos em um vilarejo qualquer. Essa foi uma viagem de medo. A estrada não tinha nada, não tinha mais luz, água, nada. Estar em uma estrada assim é como se estivesse em um túnel, um vácuo. Não se vê nada. Não tinha nem um pontinho de luz. Nós paramos no vilarejo e, assim que saí do carro, apareceram 15 homens com fuzis.

“O medo tem que existir. Sem ele, você morre”

morais10Cezar Santos – Apareceram do nada?
Do nada. Aí levaram a gente para uma sala em um prédio abandonado e pediram para que tirássemos a roupa, ficássemos pelados para ver o que tínhamos. Eu estava com um tradutor que sempre viaja comigo. E ele não conseguia traduzir. Estava todo mundo tão nervoso e na hora ele ficou travado. Aí eu não conseguia entender o que os sequestradores queriam e nem eles conseguiam me entender também.

Euler de França Belém – Ninguém falava inglês?
Não. Por isso que você tem que levar um tradutor. Era um tradutor e um produtor.

Euler de França Belém – Como está o seu árabe agora?
Shwiya shwiya (mais ou menos).

Euler de França Belém – O hebraico também?
Hebraico eu falo.

Euler de França Belém – E o que aconteceu?
Até que eu lembrei que lá nesse hotel tinha o registro de todos os jornalistas. E falei “liga lá em Bengasi” e eles ligaram.

Alexandre Parrode – Eles ainda tiveram a paciência de ligar?
É. Entraram em contato. Na hora, você acha que você vai morrer.

Augusto Diniz – O que mudou para o sr., como repórter no Oriente Médio, principalmente para cobrir áreas de conflito a partir do fortalecimento do Estado Islâmico?
Mudou muita coisa. Tem lugares que você não pode mais ir. Ninguém vai. Nenhum jornalista mais vai. Todas as áreas dominadas pelo Estado Islâmico: no Iraque, eles retomaram Ramadi (poucas horas após a entrevista as forças iraquianas reconquistaram a cidade). Mas em todas as áreas que estão sob o controle do Estado Islâmico não há presença jornalística. Se há, o cara tem que ter muito culhão. Ou vai como essa moça, uma jornalista que foi como escrava. Ela se filiou e foi como escrava jihadista. Propôs-se a ser uma esposa de um dos líderes jihadistas e foi para Síria. Se não me engano francesa (a jornalista francesa, que está ameaçada de morte, se infiltrou entre os terroristas e foi para a Síria mostrar inicialmente como jovens europeus são atraídos pelos radicais do Estado Islâmico). Ela ficou lá vários dias e depois conseguiu sair e revelou como vivem as esposas dos jihadistas, porque vão e como funciona o sistema de escolha das mulheres que os servem. Só dessa forma você entra. Então, tem que tomar cuidado.

Augusto Diniz – Quando eclodiu a Primavera Árabe, houve o caso de uma jornalista holandesa que foi estuprada no Cairo (Egito). Como fica a sua cabeça sabendo que você está ali e acontecendo coisas com jornalistas?
Lá no Cairo, estávamos eu e meu cinegrafista no dia que o (então presidente Hosni) Mubarak colocou as tropas na Praça Tahrir. Tem uma imagem clássica da revolução, é a hora que o Mubarak coloca homens a cavalo e eles entram dentro da Praça Tahrir. A praça estava lotada, e eles entram a cavalo para esmagar as pessoas mesmo, para passar por cima dos manifestantes com os cavalos. Aí ainda não havia rebeldes, eram manifestantes. E eu estava lá dentro da praça e filmei isso. Um cavalo passou na minha frente. Meu cinegrafista me puxou; o cavalo ia passar em cima de mim. Eles começaram a bater em jornalistas. Porque tinham muitos homens do Mubarak disfarçados de jornalistas para prender principalmente as lideranças que estavam ali na praça. Eu fui para o único lugar nessa época no Cairo que dava para entrar ao vivo. Como eu tinha que entrar ao vivo com o horário do Brasil, eu era sempre o último repórter a entrar, entre 4 e 3 da manhã. As manifestações não paravam. O pessoal dormia na praça. E a cidade estava em estado de sítio. Tinha helicópteros o tempo inteiro, soldados; a Praça Tahrir estava cercada. A gente viu uma imagem na CNN ou na BBC deles batendo nos jornalistas. Eu falei: “Vamos sair daqui com a câmera”. Não tinha carro. Tinha que ir a pé do lugar para o hotel. E eram dois quilômetros, atravessando o Rio Nilo na ponte andando. Só tínhamos eu, meu cinegrafista e os caras dos equipamentos no prédio para descer. Disse: “E agora, como é que nós vamos voltar para o hotel?”. A gente não tinha segurança, não tinha nada. A gente pegou um saco de lixo preto, enrolou na câmera. E eu estava de paletó, que era um paletó que eu usava para entrar ao vivo. Eu abotoei meu paletó errado e a gente foi lá no meio da rua, passou um negócio assim na cara para parecer que éramos manifestantes, e nos juntamos com a multidão. Fomos andando com eles: “Seja o que Deus quiser”.

Alexandre Parrode – Quase uma cena de “The Walking Dead” [série de TV sobre zumbis].
Total. E a gente foi andando aterrorizado. Porque, se pegassem, podiam me jogar da ponte, bater. Se vissem que era uma câmera, poderiam acontecer mil coisas. Até chegar ao hotel foi difícil.

Augusto Diniz – O sr. se lembra de alguma outra situação em que teve que se disfarçar para sobreviver?
Isso foi só para poder sobreviver. Uma vez eu fui para a Faixa de Gaza e fui fazer uma matéria muito interessante. Porque Israel criou ali na fronteira um buffer zone, com 300 a 400 metros da fronteira até o início do que seria a Faixa de Gaza. Esse pedaço de terra seria um limbo, não pode ter nada. Só que nas fazendas em Gaza, o que tem de terra eles tentam aproveitar para plantar. E é próximo à área onde estão as fazendas dos palestinos que moram em Gaza.

É gente muito pobre, miserável. Eles jogam as sementes de longe para ver se nasce algo. E aí depois eles vão e tentam colher. Para isso, eles acordam muito cedo. Às 4 da manhã saem de carroça até o local. Do outro lado está toda aquela tecnologia israelense e eles achando que não vão ser vistos. Israel está vendo de cima, de baixo, de tudo quanto é lado. E eles vão arrastando no chão, homens, mulheres, crianças, para colher.

Decidi ir com eles para fazer uma matéria. E começaram a atirar. Eles dão três tiros de advertência. Os palestinos sabem. Depois é para acertar. E eles não saem até colher tudo.

Alexandre Parrode – O sr. voltou?
Nesse dia a minha mãe me ligou: “Você é doido, menino! Você é louco!”. Isso foi um risco muito grande porque eu poderia ter morrido ali. Como eu poderia ter morrido na Líbia. Eu falo que eu já quase morri várias vezes.

Alexandre Parrode – Perde o medo da morte?
Você não pode. Eu não sou super-homem, eu não sou super-herói. Tem um pessoal que fala que o cemitério está cheio de super-homem. Você nunca pode pensar que você é super-herói. Eu vou até certo ponto. Eu tenho um sininho que fala “vai até ali”. Se o meu feeling fala para eu não ir, eu não vou. E a Record respeita muito isso. Ninguém força a barra.

Euler de França Belém – Ninguém pede para extrapolar.
Não. Pelo contrário. Eles pedem que eu me preserve bastante. Eu é que vou além. Ano passado eu dei um furo. Eu entrei nos túneis do Hamas (Movimento de Resistência Islâmica — organização palestina). Foi um furo internacional. Nós furamos até a CNN. Fomos a primeira equipe ocidental a entrar dentro dos túneis do Hamas.

Euler de França Belém – Como é que o sr. conseguiu entrar?
Contatos com o exército israelense, porque é quem tem acesso a isso. O exército que descobriu os túneis.

Augusto Diniz – Qual é a sua motivação profissional e pessoal para encarar tanto risco?
Eu gosto muito do meu trabalho. Não é que eu não tenha medo. O medo tem que existir. Porque o medo é que te preserva. Sem medo você morre. Você tem que ter medo. Mas o medo não me paralisa. Eu vou, entendeu? Posso ir até com medo, mas eu vou. Uma vez você estando lá a adrenalina sobe e você já esquece isso.

Euler de França Belém – E por que o sr. optou por ficar lá? Você já teve proposta para sair.
Já. Para Londres, Nova York.

Euler de França Belém – E por que ficar lá?
Eu sempre volto atrás. Primeiro porque eu acho que Israel e o Oriente Médio são hotspot (na tradução literal “ponto quente”, uma área de forte interesse midiático). Londres e Nova York, não querendo desmerecer os meus colegas, mas o fato de estar ali há dez anos foi uma oportunidade que eu criei e que a Record me deu também para que eu pudesse cada vez mais me especializar nessa região, que me interessa em tudo, desde arqueologicamente falando, voltando a milhares de anos, lugares que eu visito, escavações que eu vejo, que é uma coisa que eu gosto, e até as questões atuais, os conflitos, o que levou a isso. Eu sempre gostei do tema. Eu encaro como uma oportunidade.

Cezar Santos – O sr. viu a Primavera Árabe de perto. Não foi uma decepção?
Total. A primavera árabe virou o “Inverno Árabe”.

Euler de França Belém – Estão falando em “Outono Árabe”.
Engraçado que o Kadafi, antes de cair falava, e a mesma coisa o Bashar al-Assad (presidente da Síria), que quando eles caíssem o terrorismo ia tomar conta de toda a região.

Não estou dizendo que a ditatura era boa. Mas a região não consegue conviver com democracia, pois a democracia é uma coisa ocidental. Você quer impor democracia em uma região que tem tribos, onde cada tribo, cada clã tem a sua própria lei, como que você vai pôr a democracia em um lugar desse? É praticamente impossível.

Eu acho que a Primavera Árabe veio com essa intenção de que a democracia estava chegando ao Oriente Médio. (Barack) Obama, eu não sei se por ingenuidade ou por outros interesses, virou as costas para todos os ditadores que eles apoiavam. Principalmente o Muba­rak. Começou a pedir sua saída, do Bashar al-Assad. Eles querem formar uma nova ordem no Oriente Médio.

A velha ordem já não interessa mais ao sistema, aos Estados Unidos principalmente. Essa nova ordem não se compõe com esses ditadores. Eles esperavam que a Primavera Árabe trouxesse a democracia e que o povo aceitaria a democracia e formaria os governos. A Líbia é um Estado caótico. Con­tinua com dois governos. Um de Trípoli e um de Bengasi. Eles assinaram um acordo, mas ninguém sabe se vai dar em alguma coisa. Os Estados Unidos perderam um embaixador lá que foi assassinado (em 12 de setembro de 2012 o embaixador Christopher Stevens e três integrantes da missão diplomática na Líbia morreram em um ataque ao Consulado dos Estados Unidos) em Bengasi. O Egito no final rodou, rodou, rodou e voltou para o mesmo lugar, porque o Sisi (Abdul Fatah Khalil Al-Sisi, presidente do Egito desde 8 de junho de 2014) era um general. O governo continua nas mãos do exército, como era com o Mubarak, que era um militar. Na Síria, vê-se o caos que se instalou. Houve esse vácuo de poder que deu a abertura para o surgimento do Estado Islâmico e de outras facções terroristas. Não é só o Estado Islâmico. E estão ramificando ali para o Norte da África. Agora eles estão tentando in­fluenciar os islâmicos chineses. O negócio está se espalhando pelo mundo inteiro. A Primavera Árabe foi uma grande decepção.

Alexandre Parrode – O surgimento dessas facções terroristas não deixa a situação de toda a região muito mais delicada? Não há o perigo de uma guerra?
Israel está acostumado a conviver com isso há anos. Essa nova situação de esfaqueamento em Israel, que o pessoal chama de o novo normal (the new normal), as pessoas vão ter que conviver. Como a incitação acontece pela internet e o terrorismo hoje não precisa mais de uma milícia para planejar um grande ataque como o de Paris, por exemplo.

Foram oito pessoas, uma célula. Não tem mais aquilo de vamos sentar em uma mesa e fazer um planejamento. É tudo pela internet. Como o atentado de Boston (três pessoas morreram e 264 feridas em 15 de abril de 2013), que eram dois irmãos e aprenderam pela internet como fabricar uma bomba com panela de pressão, foram lá e causaram aquilo. Em Paris foi a mesma coisa, uma célula com oito pessoa matou 130. Por trás disso existe uma grande organização.

Hoje, um taxista árabe, muçulmano, palestino trabalha normalmente, mas a noite ele está em casa na internet sendo incitado o tempo inteiro, vendo vídeo e o ódio crescendo. Ele não combinou nada com o Hamas, com o Fatah. Não tem nem filiação. Sai de casa com uma faca e fala “eu vou matar esse filho da mãe”. Mete o carro em um ponto de ônibus com 15 pessoas e mata três. Ele sabe que ele vai morrer. Por ideologia ou por desespero. Cada um tem um motivo. É isso que precisa ser revisto: todos esses grandes grupos e essa questão da privacidade, as redes sociais que permitem essa troca de mensagens.

Herbert Moraes em entrevista ao Jornal Opção: “A velha ordem, o velho Oriente Médio, já não interessa mais ao sistema, aos Estados Unidos principalmente”

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Alexandre Parrode – O sr. já conversou com algum terrorista?
O terrorista geralmente morre.

Alexandre Parrode – Algum que foi impedido ou foi preso?
Tem alguns que se arrependem. Tem até um livro, Filho do Hamas (escrito por Mosab Hassam Yousef). O cara era filho de uma das lideranças do Hamas. Ele explica como funciona todo o esquema, como é que ele saiu disso. Eles começam a colaborar. Tem pessoas que se arrependem, mas são pouquíssimas. Os que não morrem como suicidas são presos.

Cezar Santos – Fale um pouco sobre Tel Aviv, que é uma cidade que respira muito cultura.
Demais. Eu acho que hoje Tel Aviv é para o Oriente Médio o que Beirute (capital do Líbano) já foi na década de 1960, 1970. Falavam que Beirute era a Suíça do Oriente Médio. Pode-se dizer que é a Nova York do Oriente Médio. Tel Aviv é uma cidade muito pulsante, com muitos cinemas, teatros. Tudo muito moderno. É uma cidade que está considerada entre as dez melhores cidades do mundo para se morar. Um índice de educação altíssimo, universidades excelentes. Tem o problema do trânsito como qualquer grande cidade do mundo, mas que estão tentando resolver.

Cezar Santos – É uma cidade cara?
Caríssima. É a 14ª cidade mais cara do mundo. Principalmente comida. Muito caro. Os restaurantes são excelentes. É uma cidade que está virando referência no mundo inteiro.

Augusto Diniz – Seria um erro dizer que Tel Aviv é uma cidade ocidental dentro do Oriente?
Não é um erro. Está certo falar isso. Eles se consideram inclusive muito mais europeus. A sensação é essa, a Europa do Oriente Mé­dio.

Cezar Santos – A cultura americana é muito impregnada?
Não. Você tem uma cultura muito mais europeia. Tem obviamente influência americana. Mas é muito mais europeizada do que americanizada.

Augusto Diniz – Uma das posições que a “Folha de S. Paulo” levantou em novembro é a de que o Dani Dayan [indicado para ser embaixador de Israel no Brasil] seria contra a criação do Estado da Palestina. Isso poderia ter alguma influência na decisão da diplomacia brasileira?
Acho que você tem que perguntar isso para os palestinos. Acho que se Dani Dayan vai ser o representante do governo do Netanyahu, acho que não. Porque Netanyahu, mesmo depois de todas as falhas nas negociações, deixou bem claro que ainda é a favor de dois Estados para dois povos. Então se o governo que ele representa é a favor de dois Estados para dois povos, essa sua pergunta está respondida.

 

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Mariana Monteiro

Por que nao verdade nao e? Israel fundado em 1948, um pais ocidental fundado em terras arabes a sua revelia. Expulsando os residentes da regiao , expulsando-os para campos de refugiados , quando nao assassinando-os . Isso e inaceitavel. E isso o que o mundo precisa saber. Estamos cheios de sofistas.