“População tem de ter liberdade para escolher seu candidato e votar em quem quiser”

Jornalista e apresentador de programa de TV diz que pretende usar os quase 50 anos no ar para dar ao cidadão o que ele merece receber de um governo: “dignidade”

Jornalista Paulo Beringhs lança pré-candidatura ao governo de Goiás pelo Patriota | Foto: Fábio Costa/Jornal Opção

Quando a pré-campanha em Goiás caminhava para a reta final, o mundo político e os eleitores foram pegos de surpresa com uma novidade na disputa para o cargo de governador. Mas o fato tratado como inédito havia sido antecipado pela coluna Bastidores cinco dias antes do anúncio oficial. Na terça-feira, 17, o Patriota confirmou o jornalista Paulo Beringhs como seu pré-candidato ao Palácio das Esmeraldas.

Com discurso de busca pela dignidade do cidadão, o novo postulante à vaga que hoje é ocupada por José Eliton (PSDB) nem teve tempo de elaborar seu plano de governo. Mas aposta na correção dos erros e no levantamento da saúde financeira do Estado antes de fazer qualquer proposta. “Vou prometer fazer primeiro a coisa funcionar. Não está funcionando direito. Tem coisas boas? Tem. Mas tem coisas que precisam funcionar melhor.”

Augusto Diniz – Como foi a negociação para que o seu nome fosse lançado como pré-candidato a governador, o que pegou muita gente de surpresa?

Esse convite veio através da direção nacional do Patriota, do presidente Adilson Barroso, do Raniery Nunes, presidente estadual, e do pré-candidato a presidente pelo Patriota, deputado Cabo Daciolo. Daciolo se tornou nacionalmente conhecido naquele episódio dos bombeiros em que fez uma mobilização [foi preso em 2012 por incitação a greve, o que teria ferido o Código Penal Militar]. A esses convites somou-se uma memória de outros convite que eu já havia recebido tempos atrás quando quiseram me lançar candidato a prefeito de Goiânia no final dos anos 1990, depois no início dos anos 2000 com muito mais intensidade. Foram vários os partidos que me convidaram.

Maguito [Vilela] queria que eu fosse para o MDB. Me lembro sempre do telefonema que recebi do doutor Enéas [Carneiro], que queria na época que eu fosse para o Prona. Resisti bravamente, embora tenha me filiado na época – e me filiei por outras contingências. Não me candidatei nem nada. Mas ficou essa sementinha plantada, que agora foi irrigada e achei que chegou o momento, depois de quase 50 anos de jornalismo – que eu completo agora no final do ano -, de fazer alguma coisa além daquilo que sempre fiz nos meus programas, que foi atender a voz do cidadão, a voz do telespectador, buscar solução para os problemas dele.

Diante de tantos problemas que estamos vendo no governo e diante de tanta insatisfação que vemos em tantos setores, isso se reflete nos números de pesquisas de intenção de voto do candidato do governo. Se reflete na avaliação do próprio governo. Eu, atrevidamente, achei que deveríamos fazer alguma coisa. Até porque eu sempre provoquei o meu telespectador a entrar na política. E acabou também que muitos telespectadores devolveram a provocação: “E por que você não entra?”. Aí eu entrei.

Fernanda Garcia – E por que já tentar um chefia a nível estadual?

Eu não teria vocação para Legislativo. O Legislativo tem feito pouco. Não só em Goiás, mas no Brasil inteiro. Legislativo costuma ser um poder agachado, tanto o municipal quanto o estadual. E sabemos que ali impera um balcão de negócios muito grande. Com todo respeito aos deputados, porque tem bons dentro da Assembleia, assim como tem bons vereadores, seria uma perda de tempo, um jogo perdido, querer mudar a cabeça de tanta gente ao mesmo tempo. Pensei na possibilidade de eu chegar lá e tenho duas coisas que não vou querer na minha possível administração. Poder Legislativo agachado. É preciso ter liberdade, não vai ter cabresto.

E imprensa, que precisa soltar essas amarras. A imprensa, e eu faço parte dela há quase meio século, vive muito agachada. Não intencionalmente, mas é uma coisa que se convencionou. Por exemplo, se você vai fazer uma entrevista com um governador e faz uma pergunta mais incisiva, muitas vezes ele não responde, vira as costas, faz cara feia, não gosta desse tipo de pergunta que inclui não necessariamente uma crítica, mas uma referência a um problema pelo qual o Estado passa. Comigo, vou brigar para que isso não aconteça. Vou brigar para que façam as perguntas que quiserem e com o deputados para serem realmente fiscais e legisladores, como mandam a lei.

Patrícia Moraes Machado – O sr. tem sido acusado de ser pré-candidato do ex-governador Marconi Perillo (PSDB). Como o sr. tem recebido e trabalhado essa crítica?

Quem chegou a ouvir alguma das poucas entrevistas que dei até o momento viu que não tem absolutamente nada disso. Isso não procede de forma alguma. Marconi foi pouquíssimas vezes ao programa. Sempre abri espaço para todas as tendências políticas, todos os partidos. Todos se fizeram representados na minha bancada e tratei bem a todos. Da mesma forma, quando tive a oportunidade de recebê-los em casa sempre estavam todos os arqui-inimigos, arquirrivais, presentes. O que significa que não tenho preferência pessoal por ninguém. Houve em alguma rede social referência a isso, de “é candidato do Marconi”. Não. Eu sou pré-candidato, sem demagogia e sem populismo, do cidadão.

Pretendo fazer na política o que sempre busquei fazer na imprensa. Embora a imprensa tenham também as suas amarras. Mas sempre procurei fazer até o limite do impossível. Não tem nada a ver. Não sou candidato de ninguém. Sou pré-candidato do meu partido. Sou pré-candidato do cidadão, que há 50 anos acredita em mim. Aqui em Goiás 43 anos, porque trabalhei seis em São Paulo antes de vir para cá. Há 43 anos o goiano me conhece. Sou pré-candidato desse cidadão que me acompanha há 4 décadas. E dos mais novos também, que sabem atravé s da referência dos pais, do avós.

Cezar Santos – Patriota é um partido nanico nacionalmente e em Goiás. Só tem um vereador, não tem deputado, terá pouquíssima verba de fundo partidário para fazer campanha, que para governador é cara. Como o sr. financiará sua campanha?

Com esta entrevista, por exemplo. Vocês estão me ajudando a chegar a um público que eu não teria condição de chegar se dependesse realmente de fundo partidário, que é muito pequeno. São R$ 9 milhões para o Brasil inteiro. Se sobrar muito para Goiás será em torno de R$ 3 milhões, por que é o único Estado em que haverá candidato do Patriota ao governo do Estado. Isso foi garantido pelo presidente do partido, ele quer investir o que for possível aqui. Vou contar com a população.

Se for possível algum tipo de colaboração financeira, o que é permitido pela lei, ficarei muito feliz em saber se as pessoas colaborarem com isso. Se não for possível, tenho certeza de que a população vai fazer o que já tem feito nos comentários de matérias, como essa deverá ter, e que já foram publicadas em outros veículos. Você falou a pouco em surpresa, Augusto, eu achava que depois de tanto tempo que estou no ar, as pessoas gostavam de mim. Mas ao ponto de uma aprovação de cerca de 90% a 95% de pessoas dizendo que vão votar em mim, que vão deixar de votar em determinado candidato para votar mim, espontaneamente, isso não tem preço.

Isso é uma coisa que, se Deus quiser, vamos conseguir mudar. Ainda que eu não seja vencedor nesse processo eleitoral, mas acredito que irá mudar um pouco essa questão do voto de cabresto. Essa história de você necessariamente ter um prefeito que vai te dar apoio naquela cidade, de um deputado que representa aquela base que vai fazer com que os moradores daquela região obrigatoriamente votem em determinado candidato. Isso tem que acabar. A população tem de ter liberdade para escolher o seu candidato e votar em quem quiser.

Não podemos mais vivem em um país no século XXI em que o eleitor vai às urnas porque o coronel da cidade mandou que ele votasse em determinado candidato e ele humildemente vai e vota naquele candidato. Votou e depois não gostou não vai ter nem autoridade para cobrar do cidadão que está no poder. Porque a pessoa não votou com a convicção dela, foi um voto de cabresto. Esta eleição tem muito para mudar nesse aspecto. Eu realmente não tenho dinheiro, o partido tem pouco, mas estamos contando muito com essa disseminação que está sendo feita através de redes sociais. Cada entrevista que eu dou como essa vai atingir milhares e milhares e milhares de pessoas.

E agradeço, Patrícia, pela pergunta, porque lendo minha responsa se sou candidato de a, b ou c. Não sou, sou candidato do cidadão. Pode ter certeza.

Patrícia Moraes Machado – Na semana retrasada tivemos um fato político importante que foi a saída do deputado Lincoln Tejota (Pros) da base aliada para a chapa do senador Ronaldo Caiado (DEM). O mais novo fato político em Goiás é a confirmação da sua pré-candidatura, que foi algo inesperado. Qual foi a repercussão?

Essa mesmo que você falou, de surpresa. Embora eu esteja desde sempre nos programas de televisão nos quais sempre abri espaço para a discussão política. Mediei e apresentei dezenas de debates, fiz milhares de entrevistas com todos os políticos. De alguma forma tenho uma ligação com o meio político. Não de disputa política, mas da cobertura da disputa política. Digamos que não sou totalmente alheio ao que acontece nesse meio. Embora os políticos sempre coloquem um muro entre eles e nós da imprensa.

Ao menos a oportunidade de pular esse muro e saber o que tem do lado de lá eu terei. No mínimo, isso vai me enriquecer, caso não seja eleito, engrandecerá meu trabalho quando voltar sabendo como funcionam as coisas. Já sei que o jogo é bruto, que tem jogo sujo. A partir do momento que meu nome apareceu, começaram os fakes, a agressão. Se não tiver defeito colocam. Sei como funciona isso, mas agora estou sentindo na pele.

Se fui procurado por algum partido político? Eu diretamente não, até porque conhecem o meu comportamento. Imagine que estou aqui criticando o candidato a e ele venha conversar comigo para me convencer de apoiá-lo. A mim não procuraram, mas ao partido sim. Presidente Raniery, que tem conduzido essas conversas, já foi procurado. Posso dizer a você por todos os partidos. Os grandes inclusive. Não sei o que eles querem. Por uma questão de educação, o presidente tem de recebê-los. Até eu mesmo posso recebê-los em meu escritório para saber o que querem.

Augusto Diniz – Houve convite para que o sr. aceite algum político ou partido na chapa majoritário do Patriota ou faça parte de outra chapa? Quem procurou o sr. até o momento?

Não posso dizer, me perdoe. É uma questão que precisamos ter muito cuidado para não entregar ou ficar uma coisa ruim ou deselegante. Mas já sinalizaram no sentido de me querer como vice ou talvez ao Senado. A mim ainda não chegou nenhuma proposta concreta. Mas a sinalização é clara nesse sentido.

Augusto Diniz – A partir do dia 5 de agosto teremos a notícia de que o sr. será candidato a governador ou de que terá desistido da disputa?

Se depender de mim eu vou até o fim. Estou para valer. Não entrei para fazer jogo, não entrei para fazer negócio. A menos que algum fato muito importante, muito relevante, me impeça de seguir adiante. Do presidente do meu partido, Adilson Barroso, do pré-candidato a presidente da República, Cabo Daciolo, do presidente estadual, Raniery Nunes, do vice-presidente Santana Pires, do primeiro secretário Wellington Leite, que são as pessoas com quem tenho conversado até agora, tenho a garantia de que o partido vai comigo.

Augusto Diniz – Como o último pré-candidato que entrou na disputa, o sr. terá menos tempo para trabalhar com o eleitor e outros partidos a consolidação do seu nome no pleito. O que o sr. pretende fazer para dialogar com eleitores e políticos, além de compensar o tempo perdido?

Para conversar, o melhor meio que tem é este que vocês estão me proporcionando e agradeço por isso, que é chegar até o público em uma entrevista na qual a gente se expõe de fato. O que é muito diferente de um programa político em que você vai para a televisão em que você é maquiado – digo no pior sentido, não por uma maquiadora, que faz um trabalho bonito – de forma absurda em você, na sua pessoa, nas suas pretensões. O marqueteiro distorce totalmente as coisas.

Essas campanhas políticas precisavam ser mudadas. Tinha de ser como estou aqui neste momento. Ligou a câmera, só o candidato dizendo coisas a respeito dele e respondendo a uma sabatina como essa, de verdade. Tem candidatos que simulam uma entrevista nos horários políticos em que supostamente respondem perguntas de pessoas que são independentes. Isso aqui é muito melhor do que um horário político. Tenho certeza.

Estou respondendo perguntas que vão fundo, sem receito de perguntar nada. Estou me expondo. Na medida em que eu me exponho, imagino que o leito e internauta do Opção poderá fazer uma análise muito melhor do que se eu tivesse 30 segundos, 1 minuto ou 10 minutos na televisão sendo totalmente mandado por um marqueteiro.

Patrícia Moraes Machado – O sr. é praticamente um arquivo vivo do Estado, tanto politicamente quanto em termos de gestões que acompanhou. Como o sr. pretende trabalhar todas essas informações no confronto com os agora adversários em um debate?

Claro que estou há mais tempo do que muitas pessoas que eventualmente estejam nos lendo agora. Mas não precisamos ir muito longe. Podemos ficar nos dias de hoje e voltar no máximo até 2010. Como o telespectador, o eleitor, o leitor, o cidadão que nos acompanha entende este momento? Já parou para pensar que o vice do ex-governador Marconi Perillo (PSDB) é caiadista e o candidato a vice do senador Ronaldo Caiado (DEM) é marconista? Será que as pessoas vão entender isso? Elas tem memória, tanto quanto eu. E elas vão saber entender isso. Volto a sua pergunta do início. Eu que sou marconista ou é o Caiado? O vice do Caiado é marconista. É bom que o cidadão tenha essa percepção, é bom que ele tenha essa memória.

Patrícia Moraes Machado – O sr. vai usar isso em um debate?

Se for preciso. Pretendo ir para um debate com estou aqui com vocês, de peito aberto, tranquilo, sem ofender ninguém. Só citei nomes agora porque seria inevitável dizer Caiado. Mas não tenho citado nem o nome do governador. Quando eu falo eu cito o governo. Pergunto a quem está nos lendo neste momento: você está satisfeito com esse governo que está aí há 20 anos? Estava satisfeito com o outro que ficou 16 anos? Vai ficar satisfeito com um dos dois se continuar ou voltar ao poder? Ou com outro, que representa um poder secular? Que representa uma família que ficou dezenas e dezenas de anos mandando e desmandando em Goiás?

Cabe ao cidadão fazer a sua escolha. O que ele quer para a vida dele? O que ele quer para o Estado dele? Quer que as necessidades dele sejam atendidas? Quando estiver fazendo o meu plano de governo, que começamos a discutir na semana passada, vamos tratar primeiro de entender a situação financeira do Estado para saber o que dá para fazer. Uma coisa é prometer achando que lá na frente vai ter dinheiro. E quando você chegar, pegar a chave do cofre, abrir e ver que está vazio? Como vai fazer? Não sabemos.

Patrícia Moraes Machado – O sr. acredita que as ligações políticas do passado fazem parte da consciência do eleitor?

Ultimamente sim. A partir do momento que, depois de ano trocando acusações gravíssimas entre Caiado e Iris Rezende (MDB), os dois se dão as mãos, beijam na boca e são velhos amigos, o eleitor tem de saber disso.

Patrícia Moraes Machado – Depois de tudo isso se uniram e Caiado foi eleito senador.

Caiado foi eleito. Se não fosse o MDB, Caiado teria muita dificuldade em se eleger. Como ele insistiu muito para o MDB ao seu lado e, até o momento, não conseguiu. A partir daquele episódio o cidadão começou a falar “mas espere aí, esse não é aquele que xingava o outro e esse outro não é aquele que xingava o um?”. O cidadão tem de entender que aquilo pode ter custado o seu sacrifício pessoal. Uma administração mal feita prejudica o cidadão como está sendo a do Estado, como está sendo a da Prefeitura de Goiânia, principalmente na saúde.

É um absurdo o prefeito Iris manter a secretária Fátima Mrué no cargo depois de tantos e tantos escândalos, depois de tantos e tantos problemas. Só em seis meses do ano passado, de milhares de pessoas que foram aos Cais e postos de saúde em busca de salvar suas vidas, 581 morreram dentro dessas unidades. São dados fornecidos pela própria Secretaria Municipal de Saúde à CEI da Saúde, que me foram repassados pelo vereador Clécio Alves (MDB), presidente da CEI. A saúde, em vez de salvar vidas, tem sido o túmulo.

“Administração de Goiânia é está caminhando cada vez mais para um rumo que não se pode prever”

Fotos: Fábio Costa/Jornal Opção

Cezar Santos – Isso é uma carnificina.

Se você pegar um Boeing 737-200, em que cabem cerca de 200 pessoas, equivale a cair três aviões lotados em Goiânia em seis meses. Quando cai um avião e morrem dez pessoas aquilo vira notícia mundial. Em Goiânia, é como se tivessem morrido pessoas que ocupavam três Boeings 737-200 em apenas seis meses. Pessoas que foram tentar salvar a vida, foram lá e encontraram a morte. Essa administração municipal é uma coisa a se pensar. Está caminhando cada vez mais para um rumo que a gente não pode prever. O prefeito Iris insiste em manter a secretária no cargo. Não dá para entender. Por qual razão que o prefeito a mantém no cargo?

Na área de saúde do Estado, um episódio pequeno mas muito significativo. OS é boa? Eu concordo. Organizações Sociais podem gerir muito melhor um serviço do que o próprio governo que tem burocracia, má vontade e desvio de dinheiro. As OSs podem fazer um bom trabalho, mas precisam receber para isso, senão vai acontecer o que aconteceu no Hugo recentemente, em que parentes de pacientes precisaram buscar em casa lençol, fronha e outras coisas para o parente que estava internado porque o pessoal que faz o serviço de lavanderia não recebeu. Não adianta era a OS, que ela não faz mágica. Saúde é um problema seriíssimo que tem de ser tratado tanto pelo Estado quanto pelo município. E também segurança e muitas coisas.

Augusto Diniz – O sr. disse que ainda não deu tempo de elaborar o plano de governo, mas quais são as ideias que já estão em discussão para serem apresentadas à população goiana?

Primeiro a prestação de serviço que é muito mal feita nas áreas de segurança, educação, saúde. Foi a própria secretária Raquel Teixeira que assumiu lá atrás, não custa lembrar o primeiro mandato de Marconi, quando ela ocupava o cargo na Secretaria de Educação. E fez alguns absurdos que têm de ser consertados. Um deles é colocar escola dentro de contêiner. Você teria coragem de deixar um filho seu estudar dentro de um contêiner num sol causticante como esse de Goiás? Uma pessoa se feriu lá dentro tomando choque.

Professores temporários são cerca de 20 mil na Secretaria de Educação. Você deixaria seu filho estudar em uma escola que não tem a mínima dignidade para o aluno sentar e assistir a uma aula no mínimo confortavelmente? Nada contra os temporários, mas tenho a favor daqueles que estudaram para isso e que hoje recebem salário de fome. Pouco mais do que o salário mínimo. Professor, gente. Professor deveria ganhar como político. É mais importante do que o político, porque o professor forma as pessoas. O político deforma. São coisas pontuais.

E briga de ego tem de acabar. O que estiver errado tem de ser consertado. Secretária Raquel Teixeira assumiu no momento em que Goiás ocupava o primeiro lugar no Ideb em qualidade de ensino. Não sei se por uma questão de vaidade ou não, e afirma, no momento em que o governo comemorava esse índice, que para ela o mais importante era o índice de satisfação do professor, desqualificando o que foi conquistado pelo antecessor dela. Conseguiu implantar esse índice de satisfação do professor? O professor está satisfeito hoje? Acho que não.

Fernanda Garcia – O sr. tem recebido críticas por ser um jornalista entrando na política?

Pelo contrário. Pelo fato de eu ser jornalista em Goiás há 43 anos e de acompanhar de perto tudo o que acontece na política e em todos os ambientes, tenho de alguma forma uma informação histórica do que acontecia desde que cheguei aqui quando o governador era Leonino Caiado, depois Irapuan Costa Júnior, Ary Valadão. Esses governadores todos eu acompanhei. Iris, Henrique Santillo e os demais.

Cezar Santos – O sr. é de fato um arquivo vivo.

E espero continuar vivo. Porque disse coisas que certamente vão incomodar. Mas não falei nada que não seja fato, que não precisa buscar na minha cabeça, basta buscar no arquivo, inclusive do Opção, que tem a mesma idade que eu tenho de Goiás, que é de 1975, mesmo ano que comecei no Estado em maio, o jornal em dezembro. O arquivo que eu tenho é o mesmo que vocês têm. Bastar dar uma folheada. Não é possível que depois de 40 anos a gente continue discutindo a mesma coisa.

Vemos Estados como Santa Catarina, Paraná, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul que têm tantos projetos que deram certo, com índice de qualidade de vida muito melhor do que o nosso. Quem viaja vai entender o que estou dizendo. Você desce de avião em uma cidade dessa você vê flagrantemente a diferença. A cidade é limpa, organizada, não tem essa sujeita que tem aqui, as coisas funcionam. Paraná principalmente é muito rico em ideias. Embora de grupos diferentes, sempre em confronto, os governantes no Paraná assumem e fazem coisas melhores do que seus antecessores. Aqui um entra no poder e quer criticar o anterior, quer devassar a conta do anterior. Não, gente! Vamos construir.

Um caso muito emblemático é de quando se chega em outro Estado e diz “sou de Goiânia”. Que imagem as pessoas têm? Quando vamos sair desse estado pastoril, rural? Precisa de dinheiro? Sim. Mas principalmente de parcerias com a iniciativa privada, que não participam como deveriam. As Parcerias Público-Privadas (PPPs) não entram em funcionamento em Goiás de forma alguma. Precisaria ter participação das pessoas. E não fazer como o prefeito Iris sugeriu recentemente que as pessoas ajudem a prefeitura varrendo a própria calçada e aproveitem para varrer metade da rua e o vizinho varre o resto. Meu Deus do céu! Eu fico com vergonha disso!

Augusto Diniz – Por essência o jornalista é um opositor, com trabalho de fiscalização e denúncia. Não muda muito sair da posição de questionar e cobrar eficiência de uma gestão pública para tentar fazer parte do Poder Executivo?

Não participa da gestão, mas discute as possibilidades de solução. Eu pelo menos sempre fiz isso nos meus programas. Sempre discutimos com os convidados, vereadores, deputados e governantes “fulano está reclamando disso, o que o sr. vai fazer?”. Dependendo da resposta tenho de contestar, questionar e discutir. De alguma forma, a gente conhece. Claro que eu não conheço como funcionam exatamente as coisas lá dentro.

O cidadão comum não conhece. Oposição não conhece, que por analogia não é frequentadora desse ambiente. Gostaria de voltar a ser, mas não tem sido nos últimos 20 anos. Qualquer um que entrar terá o mesmo grau de dificuldade que eu enfrentaria, sem saber qual é a situação: se tem dinheiro em caixa, se o cofre está vazio, não está. Ao que parece, tem uma dificuldade muito grande, mas que não é assumida pelo governo. Não podemos afirmar isso por enquanto, mas fará parte do levantamento que iremos fazer a partir de agora. Vamos buscar números em Brasília, como esse do endividamento do Estado de R$ 19 bilhões. É esse o número? Vamos ver se é esse. Vamos ver o que o atual e o ex-governador têm a dizer.

Como jornalista, tenho certa facilidade em entender um pouco mais esse ambiente porque trabalho diretamente com programa de política desde 1991, quando criei o Jornal do Meio Dia. São 27 anos. Tenho mais informações, por exemplo, do que um médico que queira ser governador. Ele passou o tempo todo no consultório dele. Mais informações do que um engenheiro, e já tivemos governador engenheiro. Mais informações do que uma outra profissão qualquer que não teve pelo menos a oportunidade de discutir como eu tenho há 43 anos.

Augusto Diniz – Apresentar propostas em um momento de crise econômica requer a busca de outras alternativas. Quais o sr. vai apresentar à população?

A crise é fato, existe e não é de agora. Embora o saudoso presidente Lula tenha insistido em dizer que era uma marolinha, ela veio para ficar. Diz o ex-governador que a mudança que fez organizou o Estado e preparou Goiás para não sofrer os efeitos da crise. Só saberemos de fato lá na frente, se tivermos a chave do cofre para saber. Por enquanto não dá para saber. Não se sabe com quanto poderá se contar. O que sabemos é que o Estado vive procurando empréstimos como o que foi negado pela Caixa de mais de R$ 50 milhões. Se está buscando empréstimo é porque está faltando dinheiro em caixa.

Quando a fazer alguma coisa, antes de escrever a primeira linha do plano de governo estou avisando o cidadão de que faremos uma coisa pé no chão. Primeiro corrigir essas coisas que são absurdas que continuem acontecendo nos dias de hoje, as mais emergentes. Precisamos colocar a máquina para funcionar de forma correta para dar dignidade à população. E aí sim começar a pensar em projetos.

Não adianta falar em obras, sendo que há obras que são importantes, como por exemplo o aeroporto de cargas de Anápolis, que estão inconclusas. É fantástico o complexo aeroespacial que tem em Anápolis, com o aeroporto de cargas. Pode vir inclusive a brigada de paraquedistas para cá. Anápolis se transformaria no centro de defesa do País, até pela proximidade com Brasília, desde que o aeroporto de cargas comporte o maior avião para trabalhar aqui, e que não pode vir nesse momento. Ainda faltam algumas licitações, a obra não está completa.

O Centro de Convenções de Anápolis repetiu a vergonha que foi a inauguração do Centro Cultural Oscar Niemeyer aqui em Goiânia. Uma inauguração eleitoreira, no apagar das luzes, para dizer que inaugurou mas não está funcionando. De que adianta eu entrar e dizer que farei tal coisas se há outras a serem concluídas e funcionar? E precisam funcionar.

Patrícia Moraes Machado – Temos de tomar cuidado para não adotarmos o discurso de terra arrasada. Goiás, mesmo com toda a crise, ainda mantém diversos programas sociais e consegue manter a economia estável, com folha de pagamento em dia e outras ações.

Claro. Está bem melhor do que o Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul.

Patrícia Moraes Machado – Os candidatos não deveriam apresentar mais propostas do que ficar no discurso da terra arrasada? Não é muito mais fácil criticar do que apresentar soluções?

Claro. Se tivesse dinheiro em caixa seria facílimo fazer as coisas, eu faria muitas obras.

Patrícia Moraes Machado – Por exemplo, Caiado alega que não há dados. Os dados não estão disponíveis no Tribunal de Contas do Estado?

O problema é o confronto dos dados. Você pega um dado no Tribunal de Contas e confronta com o que o governo anuncia, há uma distorção violenta. Há uma diferença muito grande.

Patrícia Moraes Machado – Como o Tribunal de Contas aprovou as contas do governo?

O Tribunal é composto de conselheiros que, imagina-se, tenham gabarito, competência, para fazer isso. Todos conhecem bem o governo, como conhecem bem o Marconi. Foram indicados por ele.

Patrícia Moraes Machado – Ser oposição é fácil, mas é preciso apresentar propostas.

Não estou como oposição. Mas estou apresentando proposta, que é consertar o que está errado. Você acha que o aeroporto de cargas está correto?

Patrícia Moraes Monteiro – Mas o sr. acredita que só há coisas erradas? O sr. acha que só há terra arrasada e que Goiás não avançou nada em 20 anos?

Não. Não disse isso. Acabei de elogiar as Organizações Sociais. Tem coisas boas. Mas na educação eu não posso dizer que está bem. Você diria que está bem? Eu digo que não. Temos direito a opinião. Estou aqui para isso. A educação está um escândalo. Não me coloco como oposição ao governo, me coloco como candidato ao governo. Não citei nome de ninguém a não ser em casos absolutamente indispensáveis. Não estou fazendo candidatura a favor de alguém ou contra alguém.

Não estou fazendo discurso de terra arrasada, não me coloco como oposição raivosa, odiosa. Porque eu não faço isso. Mas quando sou perguntado o que fazer, é a mesma coisa de você me perguntar “Paulo, você vai fazer uma reunião para a gente, uma festa na sua casa hoje?”, tenho que parar e pensar se tenho dinheiro para fazer essa festa. Até para a festa temos de avaliar se tem recursos. Imagina para atender a população de um Estado enorme como Goiás. Por isso fiz essa ressalva várias vezes. É preciso saber como está o caixa do governo. Eu não sei. Agora vou levantar isso para valer. E espero que você faça isso também para podermos comparar os número e ver se batem com os meus.

Cezar Santos – Se o sr. for eleito governador, onde irá buscar quadros para formar sua equipe de governo, porque o sr. demonstra certa desconfiança com quem está no poder?

Aqui em Goiás mesmo. Alguns podem vir de fora. Tenho amigos, como um que mora em Brasília e acabou de se aposentar. Era simplesmente a pessoa que cuidava do programa Minha Casa Minha Vida. É uma pessoa que tem experiência na área de habitação. Posso trazê-lo de Brasília, mas é um goiano. Em Goiânia há muitas pessoas que podem colaborar muito com esse projeto.

É muito cedo, Cezar, porque no momento em que estou concedendo essa entrevista ainda não completou-se um dia, não se passaram 24 horas desde que meu nome foi autorizado pelo partido e disseram “vá em frente” [a entrevista foi realizada na tarde de quarta-feira, 18]. Ainda não tive tempo. Priorizei as entrevistas e deixei de lado conversas políticas. Estou atendendo primeiro a imprensa porque é o primeiro impacto. Meu nome foi confirmado na terça-feira, 17, embora só na convenção para ser definitivo.

Nomes já me passaram pela cabeça, me sugeriram, por quem trabalha comigo há muito tempo. São pessoas que conhecem meu modo de agir. No pouco tempo que tem restado entre um compromisso e outro, estamos pensando nisso. Tenho uma pessoa que está praticamente fechada para conduzir o plano de governo. Depois vocês verão que é uma pessoa altamente qualificada. E não será um projeto simplesmente para constar.

Terei muito pé no chão. Não vou fazer promessa mirabolante. Vou prometer fazer primeiro a coisa funcionar. Não está funcionando direito. Tem coisas boas? Tem. Mas tem coisas que precisam funcionar melhor. A segurança, por exemplo, funciona melhor? Funciona bem? Vocês se sentem seguros ao sair de casa?

Não que a minha chegada ao governo vai representar uma segurança 100% para a população, porque eu dependo do trabalho do policial, que depende por sua vez de condições de trabalho, de um salário melhor. Não adianta trocar só carro e o cidadão que deixa a casa e a família dele e vai cuidar das nossas vidas e não pagar bem esse servidor. Ele merece ganhar bem, assim como um professor.

“Terei muito pé no chão. Não vou fazer promessa mirabolante”

Paulo Beringhs em entrevista a Patrícia Moraes Machado, Cezar Santos, Augusto Diniz e Fernanda Garcia: “Estamos perdendo uma oportunidade excelente. O País só vai crescer se tiver educação” | Foto: Fábio Costa/Jornal Opção

Augusto Diniz – O sr. tem enfatizado a necessidade de dar dignidade ao goiano. O que o sr. entende como dar dignidade ao cidadão goiano?

Ele ser respeitado. Quando você vai a uma loja e escolhe uma camisa, digamos que você escolheu essa camisa grená. Você falou “eu quero aquela”. Experimentou e comprou. Te deram um cupom, você passa no caixa e paga, pega a camisa e leva para casa. Quando você abre tem uma camisa preta que você não gosta e esfarrapada. Você vai ficar satisfeito?

É a mesma coisa o cidadão que paga tributos, muitos e altos, e na hora de ter o retorno não tem a segurança, que está deficiente. Estamos perdendo uma oportunidade excelente. O País só vai crescer se tiver educação. Repito. Colocar criança para estudar em contêiner de lata? Ainda que diga “mas tem ar condicionado” é um contêiner. Por que não construir um prédio? Não construíram o Estádio Olímpico? O esporte não é importante? É importante. Mas é mais importante do que dar dignidade? Aí vem a sua resposta. É mais importante do que dar dignidade a uma criança e ser enfiada num contêiner como se fosse uma carga qualquer?

Cezar Santos – Até o sr. foi pego de surpresa com o convite para ser pré-candidato. O sr. tem alguma proposta que pensa em implementar na cultura?

Fui por 17 anos editor do Caderno 2, que era o caderno cultural, onde tivemos o privilégio de trabalharmos juntos. Desenvolvi atividade cultural durante anos, quando trazia espetáculos. Trouxe peças de Shakespeare, as atrizes Bibi Ferreira, Fernanda Montenegro, os grandes atores e atrizes, como Raul Cortez e outros. Sempre tive um contato muito grande com esse pessoal e com nossos fazedores culturais de Goiás. Tenho amizade com todos. Com certeza desenvolveremos um projeto que não seja para atender o umbigo de cada um. Nada de “quero lançar meu CD” e outro “quero lançar meu livro”.

Por que não usar a TV Brasil Central para desenvolver as coisas culturais? Se você for à Bahia, qualquer emissora de televisão que você ligar briga com a rede para ter o horário local porque sabe que é nesses horários que elas lançam as dezenas de novos cantores que chegam todos anos. E uns dão as mãos aos outros. Caetano Veloso faz isso muito. Já disse isso várias vezes, precisamos ter um Caetano aqui para dar as mãos, alguém que já esteja lá fora dê a mão aos que estão aqui para irem para fora ou então fazerem aqui mesmo.

Temos grandes artistas, escritores, artistas plásticos, muitas pessoas na área cultural, mas temos de pensar um projeto coletivo. Goiânia tem uma identidade. Imaginemos que Goiânia fosse a terra do Romero Britto, que na verdade é pernambucano. Embora muita gente não goste do Romero e ache que o que ele faz nem seja arte. Discordo. Tudo é arte. Temos de ter uma identidade cultural. Por que não a Brasil Central ser utilizada para divulgar os nossos valores?

E aí não vai discurso de terra arrasada, vai constatação. Foram gastos R$ 27 milhões para digitalização da TV Brasil Central para retransmitir simplesmente a programação inteira da TV Cultura, de São Paulo, que não interessa absolutamente a ninguém. Já teve uma programação muito boa a TV Cultura há 20 ou 30 anos. Havia os especiais com os grandes cantores. Tinha muita coisa boa. Ultimamente não tem. São programas inclusive enlatados que a Cultura tem transmitido.

Local tem um jornal de meia hora na hora do almoço e um de meia hora a noite. O resto você engole TV Cultura. Gastar R$ 27 milhões para colocar programação da TV Cultura no ar não faz sentido. O dinheiro está sendo mal empregado. Gastou? Então vamos desenvolver uma ação cultural em cima disso. É uma televisão do Estado, que tem de ser empregada em favor do Estado, a favor da população, do cidadão. Poderíamos ter muitos programas de cultura na TBC. Mas algo coordenado pelo Estado, com o crivo do Estado. Não fazer daquilo uma coisa individualista, para o próprio umbigo.

Augusto Diniz – O sr. acredita na renovação na política, e por isso confia que teria chance de ser eleito governador?

É o que dizem. Na pior das hipóteses, jogo é feito de ganhador e de perdedor. Não estou me colocando como ganhador. Estou tentando me colocar como uma opção, um jogador, um gambler. Minha entrada, dado o tamanho nanico do partido, que é pequeno mesmo, o pouco recurso e o fato de que entrei de última hora. Os outros candidatos estão há anos, até décadas. Há em esteja desde 1994 nutrindo essa vontade de ser governador, trabalhando para um dia tentar chegar lá.

Construindo o que chamam de arco de aliança com vários partidos, com deputados, vereadores. Isso para mim soa como um desrespeito ao eleitor, com o cidadão que está lá em determinado município. E os que estão fazendo alianças e declarando “recebi apoio da liderança tal de não sei onde” estão tratando os eleitores como gado, como massa de manobra. Estão contando que o coronel de cada cidade, seja ele qual for o cargo, dada a aliança feita com determinado candidato vai obrigar os eleitores a votarem no nome que ele apoiou.

No mínimo, dada a minha situação de desvantagem, entrevistas como essa vão me valer nessa eleição para que eu possa chegar até um número maior de pessoas, que vão ou não acreditar em mim. Aqueles que acreditarem estarão ajudando para que possamos acabar com esse curral eleitoral. Acabar com esse negócio de que fulano é o dono da cidade, o prefeito tal é o dono da cidade.

Cidade não tem de ter dono. Dono é o povo. Dono é o cidadão. Nisso, eu consiga colocar uma sementinha de todos que estão lendo essa entrevista. Que as pessoas pensem “peraí, o voto é meu, por que vou votar em quem me mandam?”. Ter liberdade de voto. O que pode parecer em um primeiro momento uma situação desvantajosa, eu vejo como uma vantagem. Não tenho ninguém a não ser os cabos eleitorais do partido, que na terça estiveram reunidos e espontaneamente me procuraram para dizer que vão trabalhar pela candidatura. Não são tantos quantos os dos outros partidos.

Não custa lembrar também que outros partidos, com um que conte com outros 10 a 11 partidos com ele, tem na sua coligação vários partidos nanicos. O outro partido, que seria o maior do Estado, não tem ninguém junto. A minha vantagem não é um privilégio meu. Não é uma condição exclusiva minha. Para deixar claro o raciocínio, o MDB não conseguiu atrair ninguém até agora e é um grande partido.

Fernanda Garcia – Mesmo se não for eleito, o sr. pretende continuar a participar da vida pública?

Acredito que sim porque parece ser um caminho sem volta. Como dizia o Gerson, grande camisa 8 da seleção brasileira, “estou tomando gosto”.

Augusto Diniz – Vamos imaginar que o sr. seja confirmado candidato a governador pelo Patriota na convenção, mas não consiga chegar ao segundo turno das eleições. O sr. apoiaria um dos nomes?

Neste momento não. Essa hipótese não existe, mas é natural que, pelo o que estou conhecendo de dentro da política, é próprio do jogo. Até porque os partidos sobrevivem disso. Vai depender do que o partido entender, e vai depender do que eu entender também. E vai depender naturalmente também, caso eu não vá para o segundo turno, de que eu entenda que aquele projeto possa ser compatível com alguma coisa minha, como por exemplo a área cultural, que ninguém pensa nela, a não ser a do braquiária. No momento não penso nisso. Mas como sou novo na política, prefiro guardar essa resposta para depois.

Patrícia Moraes Machado – Como o sr. imagina Goiás sob o comando de Ronaldo  Caiado, Daniel Vilela e José Eliton?

Caiado tem esse sonho, que é quase uma obsessão, de ser governador há muito tempo. Vejo que esse embate pessoal que ele tem com o ex-governador Marconi é algo que talvez possa ser a força motriz, o combustível, para um possível mandato de Caiado. E isso desviaria a atenção para o principal cliente do Estado de Goiás, que é o povo, a sociedade, o cidadão. Não sei como ele conduziria, se estaria empenhado em abrir o cofre, abrir caixa preta. Não sei se isso seria bom para Goiás.

Quando você falou em terra arrasada, torço para que Goiás esteja muito longe disso. Só vejo falta de dignidade ao cidadão, que é o que elege, mantém e paga aquele funcionário que eventualmente é governador. Estou defendendo o cidadão. Prefiro defender o cidadão. Vejo que Caiado poderia ser um risco para o Estado andar como deve para fazer uma correção de curso, que é o que eu gostaria de fazer se chegar lá.

José Eliton seria a continuidade do que está posto. Sendo continuidade, podemos tomar por base o que pensa o povo quando faz avaliação de desempenho do governo. Os índices têm sido baixíssimos. Até o próprio índice de José Eliton na pré-campanha, que tem sido baixo. Ele frequentemente fica em terceiro lugar, atrás de Daniel. Seria uma continuidade de uma coisa que neste momento não agrada a população.

Pode ser que ele seja eleito? Claro. Tem a máquina na mão. E a máquina é forte. E trabalha. E Marconi sabe dar partida nessa máquina. Ele está distante nesse momento, o que causa estranhamento. Mas talvez esteja esperando a hora certa para fazer isso. José Eliton seria continuidade de Marconi. Embora esteja ainda, depois de 100 dias de governo, buscando uma marca para seu governo. Depois de três meses e dez dias, também já tendo estado lá por mais de 30 vezes como governador, tendo sido secretário de duas grandes secretarias e presidente da Celg, e ainda não conseguiu imprimir uma marca?

Nos reconforta, no sentido de nós que estamos chegando agora, porque não temos de chegar com a fórmula pronta. Quem deveria chegar assim seria o próprio José Eliton, que está lá há 8 anos e ainda não apresentou para a população a que veio. A rigor, a única coisa marcante da carreira dele no governo foi o tiro que levou em Itumbiara, que deram na carreata em que ele estava.

Daniel Vilela seria também continuidade de uma dinastia começada pelo pai, que já perdura anos e anos, e que tem claramente a direção do pai, embora publicamente eles façam questão de mostrar algumas divergências até para não escancarar o que pode estar acontecendo nos bastidores, que seria um acordo para a candidatura de Maguito numa eventualidade de Daniel não entrar. É a análise que faço na posição de eleitor.

Patrícia Moraes Machado – O sr. disse que Caiado seria um risco, José Eliton continuidade. Como seria Daniel no governo?

Daniel seria o Maguito por trás, o que não é ruim. Maguito não fez um governo brilhante, mas é uma pessoa que não tem sentimentos ruins. É uma pessoa mais equilibrada. Daniel também é equilibrado. Gosto dele. Mas de alguma forma seria a repetição. “Opa! Esse filme eu já vi.”

Patrícia Moraes Machado – O PT acabou como partido?

O PT esfarinhou, mas não acabou. Embora o PT sempre tenha tido em Goiânia e Goiás um desempenho médio de saída de pelo menos 15%, Kátia Maria está com 3%. No auge do Lula, o PT vinha com mais. Kátia surpreendeu. O PT é uma incógnita. Enquanto não se desligarem de Lula, embora Lula seja a essência deles, mas enquanto não mostrarem que há outra vida no PT que não seja exatamente a do Lula, que não sejam marionetes do Lula, vão penar.

Cezar Santos – Quando o sr. vê o quadro nacional de pré-campanha, qual o sr. avalia como a melhor para o Brasil?

Você quer que eu vote aqui? Está tudo aberto. Em Goiás está aberto. Nacionalmente está aberto, embora seja algo em torno de 15 pré-candidaturas. Tivemos a defecção do Flávio Rocha (PRB). Vai ser difícil escolher. Porque a população está desacreditada. O exemplo de Tocantins é mais claro. E que as pesquisas feitas em Goiás já estão refletindo. Cerca de 70%, em algumas pesquisas até 80%, de indecisos, brancos, nulos, não sabe, não vai votar. O percentual que foi aferido, que foi realmente pesquisado e que respondeu é muito pequeno para um universo muito maior que esse.

Cezar Santos – Os dois líderes das pesquisas de intenção de voto para presidente, um deles é um criminoso condenado e a lógica é que não seja candidato. E o outro, o sr. já pensou na possibilidade de termos Jair Bolsonaro (PSL) presidente?

Não. Ele cai antes. Como tem candidato que cai quando começa a participar de debate. Por enquanto é um reflexo, um espelho, da indignação da população em relação ao que está aí. O descrédito do Congresso, do STF, do Temer. É um discurso que sobe rápido, mas cai rapidamente também.

Augusto Diniz – Mas Bolsonaro pode optar por fazer uma campanha sem participar dos debates.

Mas vai ter uma hora que ele terá de participar dos debates.

Fernanda Garcia – O sr. acha que isso pode prejudicar o pré-candidato do PSL?

Com certeza. Senão vai mostrar que ele está fugindo. E a chama de fujão não é boa.

Patrícia Moraes Machado – O sr. acredita que haverá uma guinada à direita?

A porta está aberta. Resta saber quem será o representante dessa direita, que está se reproduzindo em alguns países. Vou citar o Cabo Daciolo, que teve a coragem, a audácia, de enfrentar o poder, para lutar pelos direitos dos bombeiros. Não sei que dificuldade ele terá, assim como eu também devo ter aqui. Alckmin todo mundo conhece e sabe se quer ou não. Isso está muito claro. A pesquisa já disse. Vai ser difícil ele decolar. Nem aqui em Goiás, que Alckmin já teve votações boas, ele tem conseguido reproduzir isso. Está muito aberto, muita coisa ainda pode mudar nesses nomes que vão disputar essa eleição.

Fernanda Garcia – Essa guinada à direita é ruim?

Direita radical é tão ruim quanto a esquerda radical. Como diria o Tite, embora sem sucesso, tem que ter equilíbrio.

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