“Polícia é polícia, militar é militar. São filosofias diferentes”

General colombiano e ex-diretor de polícia de Bogotá diz que esferas de atuação não podem se confundir e diz que o combate à violência e o alcance da segurança passam pela busca da participação do cidadão

Fernando Leite/Jornal Opção

Fernando Leite/Jornal Opção

De um país ultraviolento, destroçado pela ação de cartéis do narcotráfico, ao alcance de um cenário em que as pessoas podem sair às ruas à noite e se sentem seguras como outrora era inimaginável. Esse é o relato da experiência da Colômbia que o general Luis Ernesto Gilibert Vargas, ex-diretor da Polícia de Bogotá veio compartilhar em Goiânia, com sua participação no Fórum Goiânia 2020 — a Cidade que Queremos, idealizado pelo publicitário Marcus Vinícius Queiroz e realizado pelo Akhenaton Institute.

Em entrevista ao Jornal Opção, Vargas deixou bem claro seu ponto de vista favorável sobre questões polêmicas no Brasil, como a desmilitarização da polícia. Mais do que isso, ele faz uma diferenciação bem clara entre os conceitos de “polícia” e de “militar”. “Um visa ao cidadão; o segundo visa à guerra”, resume.

Para ele, a solução para o problema da segurança pública passa pela participação do cidadão e a valorização do trabalho preventivo do policial. “A prevenção é a rainha da segurança”, arremata. Aos jornalistas do semanário, ele ainda discorreu sobre como a Colômbia enfrentou o narcotráfico e sobre o acordo de paz com as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), que pode sair da guerrilha para o mundo da política.

Euler de França Belém — Primei­ramente, o que o sr. pode dizer sobre si mesmo e de sua trajetória?
Eu nasci para ser polícia. Nunca pensei nada diferente do que isso, porque meus antepassados foram policiais, isso, então, está no sangue. Durante 40 anos me dediquei a isso, desde os 20 até os 60 anos. Trabalhei em todas as funções que pode fazer um policial: na parte administrativa, no operacional e na formação. Estive ajudando na formação de homens e operando em diferentes frentes na luta contra a delinquência e também conduzindo a parte administrativa da instituição.

Estar em todas essas frentes permite a uma pessoa desenvolver seus comandos e atuar na polícia com alguma desenvoltura. Durante meu período na parte formativa, conheci uma série de problemas na polícia da Colômbia, que era política. Diante dos problemas do país, com movimentos subversivos, a polícia passou a integrar o Ministério da Guerra, como uma quarta Força Armada. Para mim, isso foi muito benéfico, porque separou-se polícia e política. Os policiais deixaram de ser políticos beligerantes. Perdemos o direito ao voto e o direito a eleger e ser eleitos. Então, ocorreu uma lacuna muito grande entre polícia e política, a mesma que existe entre as forças militares e a política. Isso foi bom para a polícia em um país como a Colômbia. Se não tivesse sido assim, não seria bom, porque a polícia é uma instituição eminentemente civil. Nós, policiais, somos civis uniformizados a serviço da cidadania. Ao tomar o sentimento militar, a doutrina muda um pouco e o policial deixa de se sentir um servidor para se posicionar como um controlador.

Frederico Vitor – Diferentemente da Colômbia, no Brasil temos 27 Polícias Militares que são subordinadas aos Estados, ou seja, a cada um dos governadores e não à Presi­dência. São polícias militarizadas. Atualmente, há um debate, inclusive nas universidades brasileiras, sobre a desmilitarização das polícias. O sr. acha que esse pode ser um caminho? Isso tornaria a polícia mais cidadã, mais próxima da população? É bom lembrar que também temos aqui as polícias civis que são judiciárias e investigativas.
Na Colômbia, como eu dizia, polícia é polícia. Não está militarizada. Ela é um componente do Mi­nistério da Defesa, como sua quarta força. Não depende dos militares, mas dos ministros. Assim deve permanecer e ainda estou lutando para que assim permaneça, porque temos um conflito interno armado. Estáva­mos bem próximos de firmar um acordo de paz, mas pode se seguir uma espécie de pós-conflito. Este pode ser mais duro do que o próprio conflito. Isso obriga todas as forças militares — Exército, Marinha, Aeronáutica e as polícias — a terem um só chefe, para que estejam unidos para enfrentar hoje o conflito e amanhã o pós-conflito. Quando tudo passar e então tivermos enfim a paz no país, então a polícia não deve ser mais militar, mas apenas uma entidade eminentemente civil.

A dependência da polícia na Colômbia é unificada na medida em que toda a polícia é nacional. Obe­dece a uma filosofia, a uma doutrina e a um comando nacional. Isso permite aos policiais ter clareza em seus procedimentos. Assim, unificam seus procedimentos, seu uniforme e sua doutrina. Tudo vira uma coisa só. O critério para a condução da instituição une o presidente e o diretor da polícia. Quando a polícia na Colômbia pertencia aos departamentos [equivalente aos Estados] ou foi comandada pelos municípios, prefeitos e governadores faziam o manejo a seu próprio gosto, de acordo com suas conveniências. E muitas vezes esses interesses eram políticos. Dessa forma, acabaram por politizar a polícia. Como tinham a possibilidade de nomear, vários prefeitos empossavam, como chefes de polícia, sem preparação alguma, seus compadres, cunhados, parentes e amigos. Essas pessoas administravam a polícia sem nenhuma preparação, sem cursos, sem conhecimentos. Mas, isso sim, estavam ali à disposição do político, para fazer o que ele quisesse. Isso desprofissionalizou a polícia.

É esse o erro que pode ocorrer quando as polícias não são nacionais e dependem do mandatário em curso. Porém, se existe uma diretriz nacional para que seja seguida por Estados e municípios, tudo bem. Mas, para mim, o conceito de “polícia militar” não é claro: ou se é polícia ou se é militar, porque a filosofia de um militar e a de um policial são diferentes. O militar é moldado para ir à guerra, para o enfrentamento, dialoga com um inimigo; o policial é formado para a paz, para a tranquilidade e dialoga com um cidadão. O conceito “inimigo” não existe na polícia; a polícia tem, como conceito, o serviço à cidade, de maneira que são duas coisas totalmente diferentes. Há muitos anos, a polícia militar tinha o conceito de “a polícia para cuidar, controlar e direcionar os militares”, não os cidadãos.

Isso se dava de maneira que, em cada batalhão militar, havia um grupo de homens que eram encarregados de controlar a conduta de seus colegas militares, não de cidadãos. Mas isso foi se transformando e apareceu o conceito de que a polícia é militar. Então, encontramos militares se achando policiais e policiais se achando militares. É uma forma híbrida que não dá clareza alguma aos cidadãos.

Marcos Nunes Carreiro – Então, para o sr., policiais e militares têm ideologias diferentes: estes estão para o enfrentamento e aqueles, para a paz. Nesse sentido, quem é que faz o combate ao tráfico de drogas?
O narcotráfico é um delito de diferentes estados: é delito cultivar a droga, é delito processá-la e é delito comercializá-la. Como delitos, quem os deve enfrentar é a polícia. Na polícia existem as várias especialidades, como a polícia de vigilância, que cuida das ruas; a polícia investigativa, que se encarrega dos crimes, como homicídios e roubos, que é a mesma polícia judiciária. Da mesma forma, há uma seção da polícia que cuida da inteligência.

Quando surge o narcotráfico na Colômbia, a polícia inicia seu trabalho e começa a combatê-lo. À medida que foi se redimensionando o tamanho do problema, os Estados Unidos, mediante um convênio, estabeleceu um apoio à polícia colombiana na luta contra o narcotráfico. Foi dessa forma que caíram os grandes cartéis — pelo trabalho da polícia. Alguns desses narcotraficantes organizaram-se como forças armadas a serviço do crime, e a polícia nacional os enfrentou. Isso foi uma situação clara.

Em um outro momento, de subversão, com esse movimento armado chamado Farc [Forças Armadas Revolucionárias Colombianas] e outros, estão levantados em armas, era uma frente de guerra. Quem os teria de enfrentar? O Exército, não a polícia. Disso resulta que essas organizações começaram não somente a assaltar os povos, mas a delinquir, fazendo sequestros, extorquir, assaltar postos policiais, por exemplo. Tudo isso era tarefa para ser combatida pela polícia. Até que esses movimentos chegaram a trabalhar com o narcotráfico.

Quando a subversão chega ao narcotráfico, encontra um grande negócio e inicia um novo ciclo. Nesse momento, passamos a ter as Farc enquadradas em duas frentes: a dos subversivos e a dos narcotraficantes. Então, tanto a polícia como o Exército teriam de lutar contra elas. Nesse momento, demonstra-se que se justifica a polícia estar, como o Exército, unificada pelo Ministério da Defesa. Portanto, os militares estavam enfrentando a subversão e a polícia está ajudando o Exército, porque os subversivos estão delinquindo. Não há mais remédio do que unir todos em uma só frente contra eles. Mas é uma frente passageira, não é nem a filosofia da polícia nem a do Exército: é eventual para a situação de conflito que se vive na Co­lômbia.

Cezar Santos – As Farc estão sendo desmobilizadas? A nova forma de o governo lidar com elas está obtendo sucesso? A busca pela paz, por meio da negociação do presidente Juan Manuel Santos, está sendo bem-sucedida?
É preciso ser o mais imparcial possível, pois não é fácil. Nós todos queremos paz. A paz é importante para o país. Um país com paz é diferente. A subversão tem uma tendência socialista marcada e eles não deixaram de pensar que o socialismo é a forma de governo ideal. Eles estão sentados falando de paz, falando de abaixar as armas, de acordos de paz, mas nunca disseram que vão deixar de ser socialistas.

A estratégia deles é chegar ao poder por todas as formas de lutas. Então, a estratégia armada já cumpriu sua função. Aqui estamos, somos fortes e temos capacidade de luta, temos capacidade de ganhar. Então, o que vamos fazer? O governo então fala: “Venha, conversemos, eles dizem que aqui não há derrotados nem vencedores.” Mas as forças militares não aceitam esse conceito. Elas dizem “sim, vocês estão derrotados”, porque seu projeto de chegar armados ao poder não vingou. Se não vingou, há uma derrota. Façamos um corte e comecemos em uma nova estratégia, a de chegar ao poder pela política. Mas eles estão negociando a paz para passar à política e chegar ao poder pela política e, então, implantar o socialismo. Isso quer dizer que o objetivo central deles não mudou. É importante ter paz. Eu escrevi uma vez que as forças armadas estão entregando um país democrático que tem forças revolucionárias ou subversivas que não tiveram êxito de chegar pelas armas ao poder. Agora, são os políticos que têm de enfrentar a subversão, que agora quer, politicamente, chegar ao poder para implantar o socialismo. Minha pergunta é: estão os políticos preparados para essa luta que fizeram as Forças Armadas anteriormente, de outra forma? Estão os políticos prontos para continuar combatendo e vencendo esse tipo de guerrilha ou subversão? Essa é a grande pergunta.

Fotos: Fernando Leite/Jornal Opção

Fotos: Fernando Leite/Jornal Opção

Euler de França Belém – O que o sr. acredita que vai acontecer? Os guerrilheiros têm um projeto socialista e hegemônico, distinto desse projeto democrático.
Bem, eu sou convencido de que vamos firmar um documento de paz. Mas firmar um documento não é alcançar a paz. Firmar um documento é firmar um acordo. A paz se alcança depois de terminado o pós-conflito. E nisso estamos falando de cinco, sete, dez anos, porque é preciso estabelecer isso em várias localidades. As Farc está organizada por camadas. Há a camada superior — formada pelos pensadores, o secretariado, os filósofos, que aspiram chegar ao Congresso. A camada seguinte são os desmobilizados, que querem a civilidade e aspiram que se cesse a guerra civil. Nela, têm um papel muito importante os comerciantes, os industriais e todos aqueles que executam um trabalho pelo país. Na última camada estão os dissidentes: os que não vão se desmobilizar, os que não vão entregar as armas, os que continuarão vivendo e lucrando da delinquência. Decerto, vão se chamar “Farcrim” [uma expressão irônica, como “Forças Armadas Revolucionárias Criminosas”]. De maneira que será um processo supremamente difícil para a Colômbia. Agora, a camada superior, uma vez que se firme, tem de desenvolver uma estratégia para que sua passagem ao Parlamento e à política seja representativa e consistente, porque eles vão ocupar suas cadeiras por um período e, por esse período, têm que corresponder e se sustentar. Quem serão a base política deles, os dissidentes armados ou os reinseridos à civilidade que lutaram por eles? Essa é uma incógnita que eles têm, seu futuro político.

Frederico Vitor – O regime chavista do presidente Nicolás Maduro, na Venezuela, é um adversário para o governo colombiano, já que representa seu contrário. O chavismo tem abastecido com armas as Farc, haja vista que há uma identidade ideológica com as Farc?
É um tema que tem sido muito tratado, pois se diz que muitos membros da Farc passaram para a Venezuela, a fim de permanecer um tempo para se reciclarem, como capacitação. Mas isso não deixa de ser especulação — que passam o rio, a fronteira é certo. É uma estratégia muito utilizada pelas forças beligerantes: quando a situação se torna difícil, se atravessa a fronteira, descansam e depois voltam à luta. O governo chavista hoje, de Maduro, é simpatizante da Farc. E nós sabemos que muitos membros das Farc ficaram na Venezuela por muito tempo. Mas o governo colombiano não terá justificativas suficientes para se manifestar contra se não tem informações seguras.

Euler de França Belém – Há algum tempo, o setor do narcotráfico da Colômbia, especialmente o grupo do narcotraficante Pablo Escobar, passou a ter negócios com o governo de Cuba, que participava diretamente. Porém, quando o então presidente dos EUA Bill Clinton revelou a história para o próprio Fidel Castro, este fez o julgamento do principal herói do exército cubano em Angola, Arnaldo Ochoa, que, com seu grupo, usava Cuba como um porto para chegar à Flórida (EUA). Ele foi condenado e fuzilado. Embora Cuba seja um Estado policial, foi como se Fidel e Raúl Castro não soubessem o que estava acontecendo. Como foi a repercussão na Colômbia desses negócios do Cartel de Medellín em Cuba?
Os cubanos sempre se demonstraram muito rígidos frente ao tema das drogas e os traficantes tinham temor da lei cubana. Quando houve essas acusações dos Estados Unidos, muitas pessoas na Colômbia interpretaram isso como uma estratégia deles para desgastar os irmãos Castro. Pablo Escobar sempre negou qualquer vínculo com Cuba. E tinha mesmo que negar. Primei­ramente porque, se estava utilizando a ilha como entreposto, não lhe interessava que soubessem que estava fazendo isso. E, também, porque se tinha alguma relação com os Castro, não lhe interessava tampouco que revelasse essa relação. Essa foi uma situação um pouco nebulosa que se viveu no tema do narcotráfico, pois Pablo Escobar nem teria intelectualmente como tratar isso com Fidel Castro. É quase impossível pensar algo assim.

Euler de França Belém – Para reforçar, Fidel Castro não negou que Cuba estava sendo usada como entreposto; ele só negou que ele e Raúl estivessem envolvidos, tanto que ele fuzilou Arnaldo Ochoa, um herói de guerra de Cuba. Mas gostaria de perguntar ao sr. se, com a morte de Pablo Escobar e a prisão dos chefes do Cartel de Cali, a droga está mais sob controle atualmente na Colômbia?
Enquanto existir a demanda, sempre haverá produção. O narcotráfico é um negócio piramidal. Há um chefe, há os subchefes, mas todos querem chegar lá no topo, querem ser os “capôs”, os que mandam, os reconhecidos narcotraficantes. Então, como todo mundo quer estar no lugar do chefe, quando um chefe cai, imediatamente ele é reposto por um emergente. Não há nada a fazer. Em Cali, não obstante tendo caído Rodríguez [Gilberto Rodrí­guez Orejuela, principal líder do cartel e conhecido como “Enxadrista”] e seu grupo, o narcotráfico segue.

Uma observação: uma coisa é Cali como Cali e outra é Valle [del Cauca, Estado colombiano do qual Cali é capital] como Valle, sendo que os de Cali não dizem respeito aos de Valle e vice-versa. E estávamos vendo que, todos os dias, apareciam novas organizações ou as mesmas, mas com outros nomes e com novos mandantes. Mas desde os anos 1980 sempre existiu um grupo de narcotraficantes em Valle, assim como em Cali e em Medellín. O escritório de Medellín sempre seguiu funcionando, porque era um negócio extremamente rentável.

“O pior erro do narcotráfico foi entrar na política”
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Luis Ernesto Vargas, no Jornal Opção: “É preciso ser preventivo ao delito. A prevenção é a rainha da segurança” | Fotos: Fernando Leite/Jornal Opção

Euler de França Belém – Houve um momento em que o narcotráfico matava candidatos a presidente e juízes, por exemplo. Isso acabou? Como está isso hoje?
O pior erro que o narcotráfico cometeu, graças a Deus, foi ter entrado na política (enfático). No momento em que os narcotraficantes começaram a almejar entrar para o Congresso e para a política, se rompeu o cordão umbilical dos políticos com eles. Isso ocorreu porque os narcotraficantes apoiavam diferentes setores da política nas campanhas. Davam dinheiro para as campanhas. Assim, os políticos estavam muito cômodos. Porém, quando os narcotraficantes decidiram que eles poderiam disputar as campanhas, fizeram as coisas mudarem. Se eles não tivessem cometido esse erro, hoje a Colômbia poderia viver em um narco-Estado, pois veria políticos importantes manejados pelos narcotraficantes. Isso não aconteceu, graças a Deus. Mas a entrada dos narcotraficantes na política se deu porque eles queriam lutar contra a extradição, porque antes a temiam; hoje, já não a temem. Havia políticos que queriam implantar a extradição e isso representou para os narcotraficantes um estado de ameaça e de alerta para evitar que esses políticos chegassem ao poder. Hoje, as coisas mudaram e os narcotraficantes já não temem a extradição, porque descobriram uma saída para a extradição colaborando com o governo dos Estados Unidos, tanto porque as penas são menores quanto pela cultura do país, que é diferente da Colômbia, que tinha a corrupção instalada em sua estrutura e suas instituições. Assim, muitos problemas foram descobertos.

Cezar Santos – Os governos brasileiro e colombiano têm parceria para a vigilância da fronteira comum entre os países?
Há uma organização das polícias do continente que firmaram um acordo de informação e colaboração. Isso foi muito útil porque os policiais romperam a fronteira e começaram a se comunicar com muita fluidez, tanto que se conhecem e se reúnem uma vez por ano e isto está funcionando. Sonhou-se, em algum momento, com a patrulha simultânea. Na região do Amazonas, passamos a ter, a partir de 1984, polícias combinadas com os peruanos, colombianos e brasileiros, cada um patrulhando o país que lhe correspondia. Acho que isso poderia ser permanente, mas é algo que depende de acordos binacionais em que os presidentes deveriam se reunir e fazer projetos sustentáveis para saber como seria feito isso. Mas é algo que necessitaria de reforços econômicos para que funcionasse. Penso que é uma ideia interessante.

Frederico Vitor – Recentemente, a força aérea colombiana adquiriu da empresa brasileira Embraer uma aeronave militar chamada “Super Tucano” e alguns especialistas após a entrada desses aviões nas comunidades colombianas, o governo conseguiu um êxito maior na luta contra as Farc. O governo colombiano enxerga no Brasil um parceiro no fornecimento de armas para defesa e segurança?
Enormemente. Os apoios tecnológicos são importantes para a Colômbia e essas indústrias, que trazem equipes para desenvolver estratégias interessantes, são bem-vindas, pois agregam conhecimento ao país. Quando um país não tem tecnologia, tem gente que sustenta sua indústria e tem capacidade de fazer grandes negociações, sempre para demonstrar resultados como os que vemos agora e que são muito bons.

Frederico Vitor – Vivemos no Brasil uma crise de segurança pública. Por ano, cerca de 50 mil brasileiros são assassinados. E os gestores brasileiros — Estados e até mesmo o governo federal — vão constantemente à Colômbia por causa de seu modelo de combate à criminalidade. A capital, Bogotá, por exemplo, é uma referência disso. O que seu país pode nos ensinar em relação ao combate ao crime?
Definitivamente, a ferramenta mais importante para confrontar a delinquência é a inteligência. Quando se têm informações, se têm muitos bons resultados. Mas a inteligência está concentrada na tecnologia e na força humana, de maneira que, se as forças não se aproximam da cidadania e se há um perigo social, a força pública e a cidadania devem estar integradas.

Agora, não basta apenas o apoio do cidadão, ou a polícia ou os militares fazerem seu trabalho. É preciso que eles estejam respaldados pelas administrações e pela Justiça. Todos os procedimentos — processos, interceptações, apreensões — devem ter sustentação da Justiça, e é necessário que os fiscais não sejam comprometidos. Se essa cadeia estiver funcionando — cidadãos, força pública e autoridades —, e com as administrações repassando recursos, então temos aí um componente integrado para combater a delinquência. Por outro lado, é importantíssimo se atentar para as penas. Se os delinquentes sabem que terão uma pena pesada e uma Justiça rápida e eficiente, as coisas funcionam melhor. Agora, algo anterior é ter o controle permanente da cidadania. Há algo na Colômbia que se chama assistência militar, que é quando a polícia não conseguir cobrir a situação, ela chama seu “amigo”, seu “primo” e diz “me ajude”: então o Exército dá seu suporte e a polícia continua fazendo o seu trabalho. Mas, para ter êxito nessa tarefa, é necessário envolver a cidadania. Se não envolver o cidadão, faltará uma parte, porque a informação não chega. Não há outra alternativa.

Cezar Santos – Colômbia, Chile, Peru e México formam a Aliança do Pacífico, bloco econômico que faz frente ao Mercosul, formado por Brasil, Paraguai, Uruguai e Venezuela. Essa aliança está mudando o dinamismo da economia e a situação financeira da Colômbia?
A união dos países permite abrir fronteiras econômicas e comerciais muito importantes, o que beneficia todos. As coisas precisam funcionar sobre vários pontos de vista, concordam? Os acordos que são feitos sem que se prejudique a economia local são sempre muito bons.

Marcos Nunes Carreiro – A Colômbia também teve avanços na área educacional e isso tem um reflexo direto na diminuição da violência. Como o sr. tem avaliado a questão educacional em seu país?
A ministra da Educação [Gina Parody] é muito comprometida e empenhada. Anteriormente, a educação da Colômbia não estava muito bem, conforme avaliações realizadas, e apresentava uma situação caótica. Na Colômbia foram criados e reformados colégios e estendida a jornada de estudos. Antes havia duas jornada, entre as 6 da manhã e as 6 da tarde. Não havia resultados muito bons, porque as crianças tinham muita liberdade e acabam por não aproveitar o tempo livre. Então, a ministra decidiu implementar uma jornada única. Agora, estão fazendo isso e também uma estratégia agressiva com alocação de recursos para a construção de novos colégios em ensino integral, ou seja, de jornada única.

Outra questão foi a dignificação da profissão de professor. Até então, na Colômbia a profissão não era bem paga. Mas sabemos que são os professores que formam o futuro do País. No momento, há um esforço de capacitação e aprimoramento dos professores para que eles sejam melhores docentes, para que eles possam formar melhores estudantes que vão ter melhores resultados educacionais no futuro.

Cezar Santos – O sr. vem a Goiânia para falar mais sobre a experiência da Colômbia, com essa aproximação da polícia com o cidadão, que desenvolveu a inteligência policial, cercou as áreas de maior incidência de crimes e aumentou a segurança pública. O que se pode falar mais sobre isso?
Quando vemos que os índices de criminalidade disparam, o cidadão perdeu a fé na instituição que pode lhe dá a segurança, que é a polícia, e perdeu a fé nas autoridades, vemos que não há outro caminho senão chegar até a cidadania. Temos de chegar até os cidadãos e estar com eles. Para estar com eles, o policial tem de ir até sua porta, ou seja, a autoridade é que tem de ir até o cidadão. Isso é definitivamente muito importante. Tomemos o exemplo de um edifício, que tem quatro pisos e oito apartamentos. Então, perguntamos se os moradores de cada um dos dois apartamentos de cada piso se conhecem. Descobre-se que eles não se conhecem, embora se vejam. Mas não sabem quem são seus vizinhos dos outros andares. A segurança de todos se sustenta em um zelador, um senhor que está sentado na porta do difícil controlando quem chega e quem sai, conhecendo a todos pelo apartamento.

No prédio, estão todos muito pouco comprometidos com sua segurança, e deixam sua segurança nas mãos deste senhor zelador, que está lá fora. Então, uma manhã chega alguns sujeitos, dão a desculpa de que vão levar um televisor ao 3º andar e atacam o porteiro, o amarram e o tiram do posto, colocando um comparsa em seu lugar. Este, aos que moram ali, fala que o zelador não pôde ir porque ficou doente e o está substituindo. Então, por meio desse artifício, então, o bando invade o apartamento número 1, o vizinho e, por fim, todo o edifício. Essa é uma possível consequência do pouco comprometimento dos moradores do prédio com sua própria segurança.

O exemplo deste edifício pode servir para uma rua ou para a própria cidade. Então, nós começamos a ensejar uma estratégia, que era fazer a aproximação entre os vizinhos até o ponto de se conhecerem, se identificarem e de se tornarem amigos. Hoje, infelizmente, a tecnologia separa as pessoas. Antes, as pessoas se conheciam e compartilhavam informações e sentimentos entre si. Hoje, com a TV, o computador e a internet, ninguém sai de casa, ninguém vai até a rua.

Então, seria necessário romper esta cerca que havia sido criada. Assim as pessoas começaram a dar as mãos, trocar informações, trocar o número de telefone e se sentirem parte integral da comunidade. Primeiros alguns, depois integrando os demais. Mas para que as pessoas venham a se comprometer é preciso motivá-las, e as pessoas se motivam muito fácil.

Todo mundo gosta de ter amigo policial. O primeiro passo é disponibilizar a comunidade uma lista dos policiais da área, além de escolher um líder da comunidade para coordenar a questão de segurança de uma quadra, quarteirão ou edifício. Assim, foi crescendo uma amizade entre eles, com o compromisso com a cidadania. Como os policiais não podiam estar em todas as ruas, a própria comunidade ajudava a cuidar das próprias ruas, nos emprestavam seus olhos e seus ouvidos. Dessa forma, qualquer atitude suspeita ou anormal na vizinhança, logo já havia alguém para verificar o que estava acontecendo, logo a polícia era chamada. Desse modo, a polícia estava conectada com uma comunidade que os conhecia, que os estimavam e os respeitavam e, desta forma, eles eram obrigados a dar uma resposta satisfatória à comunidade, no menor tempo possível.

Se, porém, por força do destino, os policiais não conseguirem chegar a tempo, a comunidade e os cidadãos estão preparados para prevenir a ação de criminosos. Se todos se ajudam, observam o que se passa na comunidade, torna assim qualquer área totalmente segura. Os cidadãos comprometidos com a segurança do bairro precisam ser reconhecidos, condecorados, o prefeito precisa visitá-los em sua casa como sinal de agradecimento (enfático). Assim, o prefeito está fazendo política e está apoiando o trabalho dos policiais. E os policiais também precisam ser motivados para que possam continuar seu trabalho. Hoje as condecorações e os prêmios são para os policiais que capturam ladrões, recuperam carros roubados, que pegam assaltantes de banco e resolvem sequestros. Mas, aqueles que estão de porta em porta conversar com os cidadãos, motivando-os ao trabalho da segurança, não recebem nada. É preciso inverter isso. Antes de ser ativo ante ao delito, é preciso ser preventivo ao delito. A prevenção é a rainha da segurança.

Cezar Santos – É assim que acontece na Colômbia?
Sim, são chamadas frentes de segurança. Lamentavelmente, as administrações mudam, e como não existe uma política de segurança pública, um plano e programa de segurança pública, ao mudar as administrações os programas desaparecem. Um país que tem uma política de segurança pública organizada e reconhecida com certeza tem resultados. E a única forma de alcançar o resultado é com cidadãos e policiais unidos. Quando o Exército assume o papel de polícia, isso se torna um problema grave, porque, vocês sabem, os homens do Exército ficam aquartelados treinando para uma guerra que nunca vai acontecer. A saída é envolver o cidadão para atuar junto com a polícia num passo a frente da delinquência, numa estratégia preventiva.

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