Barbara Noleto e Elder Dias

Se tivesse um título especial para definir da melhor forma Pedro Wilson Guimarães, talvez “Enciclopédia dos Direitos Humanos em Goiás” fosse um aposto adequado. Hoje no comando da Superintendência Estadual do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), ele já se considera um “ex-político”. Pelo menos no sentido de voltar a se candidatar a algum cargo eletivo.

Aos 81 anos, Pedro Wilson é alguém que deve ser visto como um homem público por excelência: desde a adolescência e juventude se envolveu com a militância, primeiramente no movimento estudantil. Viveu na pele, literalmente, os dramas da repressão pelo regime ditatorial cívico-militar dos anos 60 e 70.

No processo de redemocratização, foi figura central no erguimento do Partido dos Trabalhadores: enquanto Luiz Inácio Lula da Silva protagonizava o debate nacional pela nova sigla, por aqui Pedro Wilson, Darci Accorsi, Valdi Camárcio, Reinaldo Pantaleão, Niso Prego, Mindé Badauy, Antônio Carlos Moura, entre outras tantas figuras importantes, faziam a “estrela” aparecer.

Pedro Wilson foi candidato muito bem votado contra Nion Albernaz, então no MDB, em 1988, mas só ganhou a Prefeitura de Goiânia em 2000, contra o então ex-companheiro e também ex-prefeito Darci Accorsi, tornando-se o primeiro gestor da capital no novo milênio. Sua passagem pela administração da cidade foi marcada, especialmente nas áreas de planejamento urbano, cultura e educação.

Nesta entrevista ao Jornal Opção, o ex-prefeito conta detalhes sobre sua gestão, em que, entre outras ações, levou à frente diversas obras de unidades escolares e de educação infantil; revitalizou a Avenida Goiás e deu novo lugar aos ambulantes e à Feira Hippie; e transferiu com dignidade moradores de uma área ocupada no Jardim Goiás, por ocasião do prolongamento da Marginal Botafogo. Do alto de sua experiência, ele também fala sobre as próximas eleições municipais.

Elder Dias e Barbara Noleto entrevistam o ex-prefeito Pedro Wilson na sede do Iphan em Goiás | Foto: Leoiran / Jornal Opção

Elder Dias – O sr. foi o primeiro prefeito de Goiânia do novo milênio, de 2001 a 2004 e segue ativo como figura histórica e militante dentro do PT. Como o sr. avalia o partido para as próximas eleições em Goiânia? A pré-candidata escolhida para a disputa, a deputada Adriana Accorsi, tem chances de vencer o pleito?

Eu acredito que tenha chances, sim. Eu me baseio em alguns fatores para ter essa convicção. Um é a retomada do governo federal pelas forças progressistas, com o presidente Lula. Outro é a necessidade de renovação premente que temos no município de Goiânia. Adriana, claro, também tem seus méritos, com seu desempenho como deputada estadual em dois mandatos e agora, como deputada federal, além da própria história no PT e na capital, que já teve seu pai, Darci Accorsi [prefeito de Goiânia de 1993 a 1996], como um gestor muito bem avaliado. Há um nítido desejo de mudança e a população segue impactada com os efeitos da morte do prefeito eleito Maguito Vilela (MDB), que não chegou a governar. Com todo o respeito ao prefeito Rogério Cruz (Republicanos), tivemos e estamos tendo no governo uma pessoa que a população não escolheu diretamente, porque ninguém vota no vice.

Dentro do PT, pessoalmente, eu estava apoiando a pré-candidatura do professor Edward Madureira, uma pessoa muito bem preparada para o cargo. Alguém que já foi gestor de uma instituição como a UFG [Universidade Federal de Goiás] por três vezes tem muito mérito para gerir uma cidade como Goiânia. Adriana foi escolhida, aprovada pelo partido, e vejo que também está muito bem colocado seu nome para a disputa. Há um desejo de Goiânia em retomar o que tivemos no passado e precisamos concentrar as ações políticas nesse sentido.

Certamente vamos ter um processo eleitoral em dois turnos

Barbara Noleto – E como o sr. enxerga o roteiro para as eleições de 2024 na capital?

Certamente vamos ter um processo eleitoral em dois turnos. Então, quando a disputa afunilar em dois nomes, vão se juntar forças políticas diversas em torno de cada um dos nomes. De nosso lado, é seguro que vamos ter aliados do espectro da centro-esquerda. Do outro, isso vai variar de extrema direita ao centro.

Elder Dias – O sr. acha que Adriana Accorsi, hoje, estaria em um segundo turno?

Muito provavelmente. Mas agora é a hora de ela se encorpar como opção. Estamos no momento em que teremos o que chamo de “ministério das perguntas cretinas” (risos). Adriana está preparada para isso, tem desejo de ser prefeita – o que, a meu ver, é algo essencial para uma pessoa que se candidata a esse cargo – e precisa agora buscar um apoiamento maior, fora dos partidos, em movimentos diversos, como lideranças religiosas que queiram o bem-estar social, que lutem por melhorias para suas comunidades, em termos de equipamentos públicos, de transporte etc.

Barbara Noleto – Como se deu o processo para o sr. se tornar superintendente estadual do Iphan, uma estrutura tão estratégica e cobiçada dentro de um partido como o PT?

Ao contrário do que possa parecer, eu não trabalhei para ser indicado. Houve disputas e nomes buscando o cargo. Gente da Universidade Católica [Pontifícia Universidade Católica de Goiás (PUC-GO)], gente da Universidade Federal de Goiás, da sociedade. Tudo isso foi um processo que levou uns dois ou três meses. Cada um se apresentando, mas eu mesmo não fiz nada. Fui designado pelo ministro Padilha [Alexandre Padilha, ministro-chefe da Secretaria das Relações Institucionais], junto a Olavo [Noleto, secretário-executivo de Relações Institucionais], Zé do Carmo [advogado e militante petista histórico em Goiás] e Serjão [Sérgio Dias, ex-vereador em Goiânia pelo PT], que apresentaram nomes para o presidente Lula. Eu tive o prazer de ouvir um relato de que o presidente olhou meu nome e então falou: “Será que o Pedro Wilson aceita?”. Eu aceitei porque acho que, como militante político que sou, poderia contribuir com essa missão.

Além da vida política, é preciso lembrar que fui reitor em uma universidade particular [PUC-GO] que criou um programa cultural que marcou época em Goiânia, com vários artistas da periferia. Isso me ajudou a desenvolver depois, já como prefeito, o mecanismo dos pontos de cultura. E veja: nesta semana, estive em Pires do Rio e encontrei lá um cantor de hip hop que me disse que deve a carreira dele ao projeto dos pontos de cultura, o que o possibilitou deixar o anonimato e fazer sua história como artista. Então, quando me chamam para algo assim – e eu fui chamado, não fiz campanha para ter o cargo –, assumo sabendo que minha trajetória na universidade, na luta social, na luta cultural, tudo isso me deu a experiência necessária para executar o que for preciso à frente da função.

A obra de Bernardo Sayão é muito grande em Goiás e no Brasil

Barbara Noleto – Quais são os planos que o sr. tem para o futuro próximo do Iphan?

Teremos várias ações pela frente. Por exemplo, vamos buscar recursos, por meio do Iphan nacional, para fazer um grande memorial para Bernardo Sayão [engenheiro que chegou a ser governador interino de Goiás e foi um dos grandes responsáveis pela expansão da infraestrutura do Estado na década de 50]. Mas, para mim, memorial tem de ser igual àqueles que a gente vê quando vai à Europa. Quando lá se fala em memorial, falam de uma coisa grandiosa. E a obra de Bernardo Sayão é muito grande em Goiás e no Brasil. Nós também vamos nos unir com o prefeito de Anápolis [Roberto Naves (Republicanos), com os deputados [Antônio] Gomide (PT), de Anápolis, e Issy Quinan (MDB), de Vianópolis. Eles estão nos ajudando a criarmos o Memorial JK. Eu vou a Brasília conversar com o marido da neta do Juscelino Kubitschek [presidente do Brasil de 1956 a 1961]. Nas estradas reais, para ir de Ouro Preto (MG) ao Rio de Janeiro, se desenvolveram pousadas e centros culturais. Nossa arqueóloga, Margareth [Souza] sugeriu fazer algo similar de Goiás a Salvador, depois até o Rio de Janeiro. Vamos cuidar bastante do patrimônio imaterial.

Outra ação é que nós queremos abrir um concurso, com nome de um fotógrafo e uma fotógrafa, uma mulher e um homem, para um prêmio anual. A fotografia não é só pegar a máquina na mão e fazer um clique, é preciso se qualificar. Não temos muito dinheiro, talvez precise arranjar um órgão ou instituição para manter um patrocínio todo ano, a cada edição do prêmio. Mas é importante traduzir, com isso, a importância da fotografia para a cultura. Em nível nacional, agora o Iphan voltou a fazer um concurso que antes era realizado todo ano. Há também o Prêmio Rodrigo Melo Franco, um grande escritor brasileiro que entre as décadas de 30 a 40 foi fundamental para a criação do Iphan. No próximo ano, também queremos colocar nos meios de comunicação uma propaganda do Iphan, porque é uma instituição que as pessoas conhecem muito pouco, justamente porque não faz publicidade de si.

Barbara Noleto – O que o sr. teria a dizer sobre a recente denúncia de assédio moral feita por parte de uma servidora do Iphan?

Eu tenho uma frase há muito tempo, desde quando entrei na vida pública: você não é obrigado a entrar na política, mas, se você entra, é obrigado a dar satisfação. Então, tem muita gente que me procura e, de maneira geral, eu sempre respondo. Se estou num cargo público, eu tenho de dar minha versão, a explicação do porquê eu ter participado de tal ato, feito tal coisa ou não. Nós todos sabemos que os fatos existem, mas deles se fazem muitas versões, que podem ser interpretadas de maneiras diferentes, às vezes. Mas o que eu sempre pautei é que nós devemos falar a verdade, e é o que temos para revelar para um veículo como o Jornal Opção.

Com a modernização e o advento das novas mídias, o que temos tido com frequência, infelizmente, são interpretações distorcidas da realidade, o que nós chamamos de fatos verdadeiros e “fatos” mentirosos, as fake news ou notícias que não correspondem à verdade. Nem sempre o jornal consegue publicar tudo sempre, todo dia, mas nas redes saem coisas que “parecem” notícia toda hora, todo minuto. Então, chegam até a população várias versões sem vínculo com o que realmente aconteceu. E qual é a verdadeira versão? Essa distinção, que é papel dos jornais e demais veículos de comunicação, acaba se tornando apenas mais uma entre tantas.

No caso em questão, o que aconteceu recentemente foi que assinalei 13 pontos de pauta para uma reunião, os quais eu considerava importante discutir até o final deste ano (neste momento da conversa, a assessoria do Iphan repassa uma cópia da referida pauta para cada repórter). Isso que vocês têm em mãos são planos para o Iphan para 2024, projetos que queremos trabalhar com quilombolas, com os povos indígenas, com os movimentos estudantis, as fiandeiras. Então, eu estava em uma reunião na sala ao lado discorrendo sobre isso quando fui interrompido pela funcionária em questão, com ela dizendo que não aceitava isso aqui que foi colocado. A coisa foi repassada à imprensa de forma equivocada, mas são campanhas de difamação que não vão prevalecer sobre a verdade.

Criamos os Cmeis, uma sigla que hoje está em todo o País

Elder Dias – Já são mais de 20 anos desde que o sr. assumiu a Prefeitura de Goiânia, em 2001. As pessoas mais jovens não têm como se lembrar de sua administração na capital. Como prefeito, qual o sr. considera seu maior legado para a cidade?

Três legados que ajudei a construir marcaram bastante para mim aquele período. Sou filho das músicas de libertação dos anos 60, a geração de [Geraldo] Vandré, de Chico [Buarque], de Caetano [Veloso], de Elis [Regina]. Por meio disso que vivi, acessei os direitos humanos e meu ofício de ser professor. Portanto, um desses legados, evidentemente, se refere a cultura e educação. Quando assumi a Prefeitura, para executar nosso projeto chamei pessoas comprometidas com esse universo, que é o universo de Paulo Freire [o patrono da educação brasileira, criador de um método de alfabetização de adultos considerado revolucionário]. Para mim, educação é fundamental. E, no município, se trabalha apenas com o que se chama, não por coincidência, de ensino fundamental. Dentro desse ensino, escolhi priorizar uma área: a da educação infantil.

Criamos os centros municipais de educação infantis, os Cmeis, uma sigla hoje que está em todo o Brasil. Até então, quem trabalhava com criança eram as “tias”. Com todo o respeito a elas, mas como é que uma professora fica sozinha numa sala de aula, com 40 meninos e meninas? Então instituímos duas profissionais em cada sala, tudo orientado pela professora Walderês [Nunes Loureiro, secretária municipal da Educação na gestão de Pedro Wilson]. Com isso, fui o primeiro gestor premiado como Prefeito Amigo da Criança, pela Abrinq [Associação Brasileira dos Fabricantes de Brinquedos]. Trabalhar a educação foi a prioridade número 1 em meu governo.

Uma vez, eu estava indo para uma exposição de ZéCésar [artista plástico e professor] na UFG, uma mulher me parou na Vila Itatiaia para dizer “Pedro, quero agradecer a você porque meus filhos estudaram todos nos Cmeis e escolas públicas, tiveram uma base e todos entraram na universidade”. E contou que filhos de várias amigas, que estudaram em colégios particulares, haviam fracassado na busca pela faculdade.

Elder Dias – Esta com certeza foi uma das marcas de sua administração: a construção de várias unidades escolares e de Cmeis que se tornaram referência pela qualidade das obras. Eram mesmo de um padrão superior ao que havia?

Vou dar um exemplo. Teve um amigo, empresário da educação, que uma vez me questionou sobre a qualidade das escolas. Todo mundo se queixava das salas de aula de placas [de construções antigas], porque quando era época de calor ninguém suportava, e no tempo frio ficava ainda mais desconfortável. Eu cheguei a visitar uma escola no Residencial Primavera quando ainda nos primeiros dias depois da posse, estava toda tomada pela água. Uma das primeiras medidas foi mandar consertar o que podia, em termos de urgência, para depois reformar e ampliar. Fui a Brasília, briguei por recursos e, assim, a reinauguramos tempos depois. Durante a gestão providenciamos várias reformas de unidades escolares e de educação infantil e também muitas novas escolas.

Sem dar um tapa em camelô, conseguimos liberar todas as calçadas da Av. Goiás

Barbara Noleto – As mudanças na Avenida Goiás em sua gestão também são lembradas com carinho…

É verdade. Esse é outro legado que considero bastante positivo, a potencialização do Centro de Goiânia, tendo como eixo a revitalização da Avenida Goiás. Sem dar um tapa em camelô, nós conseguimos a liberação de todas as calçadas da Goiás, bem como da Avenida Anhanguera e das Ruas 3 e 4. Eu conversei com os ambulantes e, pelo diálogo, acertamos como seria feito. Construímos o Mercado Aberto na Avenida Paranaíba e, aos sábados e domingos, acertamos de ter atividades culturais por ali, com ônibus com passagem gratuita vindos das regiões periféricas para incentivar o comércio. Isso, aliás, foi um dos segredos do sucesso da 44, que se inspirou nisso, juntando as lojas, com preço mais barato e com estrutura para as pessoas ficarem por lá, vindo de vários lugares.

Também outra grande inovação ligada ao Centro de Goiânia foi levar para lá vários pontos de cultura. Fomos a Brasília, com muita gente ligada ao setor, como Sandro di Lima [secretário de Cultura na gestão de Pedro Wilson], Zé do Carmo, que era nosso chefe de gabinete, também Olavo, e transferimos o Grande Hotel [na Avenida Goiás com a Rua 3] para a Prefeitura, sob regime de comodato. Então, transformamos o espaço em um centro cultural que, à noite, passou a receber shows, especialmente de chorinho, samba e jazz. Foi uma batalha, porque o INSS [Instituto Nacional de Seguridade Social, que detinha o imóvel] não queria entregá-lo de jeito nenhum.

Outro exemplo em relação ao Centro veio de um dono de hotel na Avenida Goiás, próximo à Paranaíba. Essa pessoa chegou para mim quando lancei o projeto de revitalização e disse que iria vender seu empreendimento, mas que tinha visto no jornal sobre a proposta da Prefeitura para a região. “Você vai tirar os ônibus?”, ele perguntou. Eu disse que não, que não tinha jeito de tirar os ônibus da Goiás. “Mas vai revitalizar o quê, vai colocar plantinha igual o Nion [Albernaz, o prefeito do mandato anterior], só isso?”. Eu disse que não, que haveria um espaço mais confortável, arborização, bancos para as pessoas, paisagismo. E ele dizendo que estava pensando em largar o negócio. Passou muito tempo, fizemos a obra e uma vez encontrei-o na rua novamente. “Poxa vida, já mandei dez recados para você almoçar lá no hotel. Eu multipliquei por dez a clientela”. É que o pessoal que anteriormente iria ficar na região da rodoviária passou a querer se hospedar por lá, por conta das melhorias.

Barbara Noleto – E qual foi o terceiro legado que o sr. disse considerar importante?

Isso eu coloco na conta da moradia popular, os “predinhos” que erguemos. Nós fizemos o [Residencial] Itamaracá e o [Residencial] América Latina. Eu os chamo de “os nossos conjuntos”.

Elder Dias – O Residencial América Latina é um caso muito especial. Foi a experiência de dar dignidade a moradores de uma área de risco que seria utilizada para uma obra urbana – no caso o prolongamento da Marginal Botafogo – retirando-os de suas moradias que deveriam ser desocupadas, mas uma estrutura muito melhor e praticamente no mesmo local, um condomínio no Jardim Goiás. Como foi isso?

Eu mudei para o Jardim Goiás assim que me casei. Como me tornei político, as pessoas da vizinhança “descobriram” que eu morava lá e passaram a me procurar. Eu, inclusive, me filiei à associação dos moradores daquela ocupação, que muitos chamavam de invasão ali, a Vila Lobó. Na época da obra da marginal, me ofereceram uma área muito maior, o dobro, na saída para Inhumas. Era só desalojar o pessoal e mandar para lá. Havia muita pressão, foi uma luta dura, porque diziam que, se construíssemos lá ao lado, o povo iria se mudar para o prédio e depois vender o apartamento.

Elder Dias – Quantas famílias moravam lá, na época da transferência?

No total, era uma população de cerca de 2 mil pessoas. Hoje, metade delas ainda está no prédio. Claro, houve também muita gente que queria dar um jeitinho para conseguir uma unidade para morar, dizendo que iria se casar e que a noiva colocava o apartamento como condição. Então, pensamos: por que não verticalizar? E então montamos várias equipes para cuidar do processo, desde o projeto – que ficou sendo de unidades de três andares, de modo que não fosse necessário ter elevador e fazendo com que famílias de idosos e de pessoas com necessidades especiais ficassem no térreo – até o “manejo”, a transição das pessoas da área de risco para o condomínio. Por ali, também fizemos um Cmei e um centro de confraternização para as pessoas.

Houve outro episódio sobre habitação, que eu pude presenciar: fomos inaugurar uma etapa do [Residencial] Jardins do Cerrado com Lula presidente e a presença de Dilma [Rousseff], que, salvo engano, já era pré-candidata a presidente. O prefeito já era Iris Rezende e o mesmo sujeito que havia oferecido várias vezes uma área para nós, conseguiu com ele para lotear ali. E Iris não gostou muito quando Lula virou para ele e falou assim: “Ô Iris, você faz a casa e não põe nem um alpendrezinho para o cara fugir da chuva ou do sol?”. Ele [Iris] não gostou muito, não (risos).

Elder Dias – Duas décadas atrás, em sua gestão, a questão religiosa, que hoje se politizou muito mais, já causava polêmicas, como foi na exposição dos orixás no lago do Parque Vaca Brava. O sr. passou por outras situações semelhantes como prefeito?

Teve um fato interessante uma vez. Um grupo de protestantes estava me pedindo para retirar a estátua do Anhanguera, na Praça do Bandeirante. Eu respondi com uma pergunta – se eles sabiam quem havia encomendado aquele monumento. Eles ficaram um tanto em dúvida e arriscaram que fora Pedro Ludovico [interventor do Estado quando da fundação de Goiânia]. Eu então disse que havia sido um grupo de estudantes coordenado por um futuro bacharel da Faculdade de Direito da USP [Universidade de São Paulo] chamado Ulysses Guimarães, que então era presidente do Centro Acadêmico XI de Agosto, além de Cunha Bueno e outras lideranças em São Paulo. Eles vieram a Goiânia, a convite de Pedro Ludovico, e doaram o monumento. Isso ainda no começo dos anos 40. E o nome da praça, pouca gente sabe, é Praça Attilio Corrêa Lima [autor do projeto urbanístico de Goiânia].

Barbara Noleto – Como deputado federal, quais propostas o sr. tem como frutos de seu trabalho parlamentar?

Eu tive dois projetos de lei que foram depois abraçados por outros parlamentares goianos. Um era o projeto [PL 115/95] para incluir o Cerrado, bem como a Caatinga, como bioma de patrimônio nacional, assim como são a Amazônia, a Mata Atlântica e o Pantanal. O então senador Demóstenes Torres conversou comigo para seguir adiante com a proposta e, claro, eu fiquei satisfeito de alguém tocar para frente. Outro projeto (PL 3413/08) se referia à questão do césio 137 [incluir membros das Forças Armadas, da Polícia Militar e do Corpo de Bombeiros Militar de Goiás expostos à radiação entre os beneficiários da pensão especial destinada às vítimas do acidente radiológico de Goiânia em 1987] e o então deputado Sandes Júnior [hoje vereador em Goiânia pelo pP].

Elder Dias – Goiânia hoje tem um Plano Diretor praticamente inócuo, totalmente subvertido pelo setor imobiliário. Como o sr. avalia essa situação, principalmente em relação à questão ambiental?

A lei diz que é preciso proteger as matas ciliares, que também são áreas de preservação permanente [APPs]. Então, a legislação estadual diz que se pode aumentar o tamanho de um APP, mas não reduzi-la. Em Goiânia, no momento, os vereadores estão diminuindo cada vez mais, de 30 metros para 20, de 20 metros para 10. O que isso significa? A morte do córrego, a morte da água e, por consequência, a morte da cidade. As pessoas em geral pensam que o bonito é o asfalto, não a árvore.

Elder Dias – O goiano costuma se orgulhar e fazer propaganda de uma casa, seja para venda ou para achar que a valoriza, dizendo que está “toda na cerâmica”, o que significa que não tem um palmo de terreno permeável, com grama ou terra…

E isso em uma capital que foi planejada para ser uma “cidade-jardim”. O ex-prefeito Nion Albernaz ganhou fama por urbanizar as praças, fazer canteiros de flores. Era a “florzinha do Nion”. Asfaltar tudo acaba com a lama, traz mais limpeza aparente? Talvez, mas também faz com que a água corra mais, que não se infiltre nos lençóis freáticos e cause mais problemas ao próprio cidadão que tem a casa “toda na cerâmica”.

Tive a honra de mudar a região noroeste, com o asfaltamento da Avenida Mangalô

Barbara Noleto – Mas em termos de pavimentação, que sempre foi a marca de seu sucessor em 2005, Iris Rezende, como foi sua gestão? Tem alguma obra em particular que o sr. registraria nesse aspecto?

Eu tive a honra de mudar a história da região noroeste, com o asfaltamento completo da Avenida Mangalô, hoje o principal eixo da economia daquele pedaço importante de Goiânia. A Mangalô, antes de nossa intervenção, era praticamente um brejo, não tinha nenhum elemento de urbanização, era barro puro. Também construímos uma escola municipal na avenida [Professora Leonísia Naves De Almeida].

Elder Dias – Procede que o sr. chegou a pensar em construir uma espécie de via de transporte de passageiros pelo Rio Meia Ponte?

Eu cheguei a pensar, sim, de forma bem preliminar, não levei para frente. Na minha cabeça, serviria de transporte, mas também como um bom passeio. Outra coisa: a população também poderia fiscalizar em que condições estava o rio, se estivesse mal cheiroso, os que estivessem sendo transportados dessa maneira seriam os primeiros a denunciar. Então, uma vez cheguei a solicitar um barco ao Corpo de Bombeiros para transitar pelo leito do Meia Ponte, ali na região da fábrica da cervejaria Antártica, no Jardim Balneário Meia Ponte. Acabamos por descobrir que estavam jogando dejetos na água. Eles negavam, diziam que era apenas “água de cerveja”. Na época, eles dominavam uma extensão de quase um quilômetro da margem do rio, no terreno que consideravam de sua propriedade. Só que a margem de proteção ambiental era de cem metros a partir do leito. Isso tudo sem contar que o Meia Ponte, até hoje, é manancial de abastecimento da cidade. Sobre isso, é preciso ressaltar que, na época da construção do reservatório do Ribeirão João Leite, fomos eu e o também deputado Aldo Arantes (PcdoB) os que mais enviaram dinheiro de emenda parlamentar para isso. A coisa mais importante que pedi foi para que fizessem uma barragem segura. Na inauguração do complexo, durante o governo de Alcides Rodrigues [governador de Goiás de 2006 a 2010], o presidente Lula veio para a solenidade.

Elder Dias – Em relação a seu futuro político, o sr. não pretende mais ser candidato a nada?

Nada, nada.