“O setor imobiliário tem de ser revisto em Goiânia. Tem de acabar e recomeçar do zero”

Um dos deputados estaduais mais polêmicos fala, sem papas na língua, que a relação de construtoras com o poder público beira à máfia. E sobrou também para seu partido, o PSL

Foto: Renan Accioly/Jornal Opção

Foto: Renan Accioly/Jornal Opção

Menino de rua, lavador de carros, porta-voz do esperanto, quiropraxista e político. Tudo sempre em meio a uma bela gargalhada. Esse poderia ser um miniperfil do deputado Santana Gomes (PSL), hoje um dos parlamentares importantes da base de sustentação do governador Marconi Perillo (PSDB) na Assembleia.

Esta entrevista ao Jornal Opção, entremeada por seu bom humor aprendido nas ruas como mecanismo de defesa — “menino de rua precisa estar sempre rindo para as pessoas, porque quando vai pedir alguma coisa nunca se sabe se vai ser maltratado” —, pode ser dividida em duas: a parte amena, em que Santana fala de sua vida pessoal e de casos desde a infância; e a parte “bruta”, onde o deputado abriu o jogo sobre questões relativas ao jogo imobiliário em Goiânia e à política interna de seu partido.

Euler de França Belém — O sr. foi vereador, agora é deputado estadual, e se mostra um político muito articulado, fala muito bem. O sr. é uma pessoa que se pode chamar de vencedora, pois foi menino de rua. Conte um pouco de sua história.

Nasci em Pium [cidade do antigo Norte de Goiás, hoje Estado do Tocantins], em uma família de maranhenses. Meu pai saiu de lá e veio em busca de emprego, mas ficou no caminho, em um garimpo. Minha mãe veio para Goiânia, comigo e um irmão mais velho. Mamãe foi trabalhar de lavadeira de roupas nas casas. Com 3 anos, fui para uma creche no Setor Pedro Ludovico, em vaga arrumada por dona Lourdes, esposa do ex-governador Mauro Borges. Eu era “levado” demais, fugia da creche e ficava pelas imediações mesmo, nunca me dei muito bem com essa questão de ficar preso (risos). À noite, minha mãe me buscava. Às vezes, uma tia me levava em casa, outras vezes eu dormia na casa dessa tia. E assim fui me distanciando da creche.

Depois de uns três ou quatro anos, meu pai veio do Tocantins. E aí, eu nem o conhecia direito e ele quis me impor regras. Coitado, era uma pessoa bondosa, mas aí ele começou a me bater. Na verdade, naquela época pai não batia, espancava, e eu apanhei demais. Um dia, numa surra dessas, para ter ideia, um vizinho andou mais de dois quilômetros para dar queixa dele. De­pois disso, comecei a sair de casa. Na primeira fuga, fiquei uma semana fora. Minha mãe sofreu demais.

Elder Dias — Como foi essa experiência de sair de casa?

Era a época do movimento hippie, e eu me tornei uma mascote deles (risos), ali pela Praça Cívica. Comecei a lavar carros por ali, dormia lá mesmo, no coreto. Quando eu via minha mãe, eu corria, me escondia. Uma ou outra patroa dela me via e me dava alguma coisa. Acabei ficando na rua mesmo, me tornei menino de rua, já não tinha sentimento familiar. Tratavam-me bem, e quando eu precisava pedia comida às pessoas.

Aqui eu abro um parêntese: pedir voto é pior que pedir comida. Quando se pede comida, a pessoa pede para esperar um pouco, diz que não tem arroz e feijão, mas tem um pão, alguma coisa. Mas quando se pede voto, a pessoa fala “agora vocês aparecem, né, seus malandros?”. (risos) É assim que falam, principalmente aqueles que têm certa intimidade com a gente. Pedir voto é pior do que pedir esmola. A pessoa não tenta humilhar um pedinte, mas um político a pessoa não vê problema em humilhar.

Euler de França Belém — E como foi a sequência de sua infância?

Ali pelos meus 12 anos, um patrão de minha mãe, engenheiro, a pedido dela intercedeu para que eu fosse para um colégio interno. Esse engenheiro convenceu o administrador de uma fazenda em Alto Paraíso [município no Norte de Goiás], chamada Fazenda-Escola Bona Espero, de uns 300 alqueires de terra, onde se ensinava o esperanto. O proprietário, chamado Renato, era um idealista e acolhia meninos de rua para difundir esse idioma. Cada menino tinha um padrinho na Europa. Fiquei entusiasmado de ir para uma fazenda-escola, que era bem rústica. Fui e não fugi mais (risos). Tinha meninos de rua de vários Estados. Todos estudavam o esperanto, que era a nossa língua lá. Aprendi esperanto, cheguei a dar aula. E acho que o esperanto teria de ser mesmo a língua universal, por ser neutra, muito fácil de aprender e sem o peso político que outras línguas têm; ela não tem um país “dono” dela.

Na Bona Espero, então, eu me alfabetizei, fiz o ensino fundamental, e fui fazer o ensino médio em Alto Paraíso. Fui a dois congressos internacionais de esperanto. Fui à Europa, morei nos Estados Unidos um bom tempo, para fazer um curso de quiropraxia. Eu aprendi muito rápido e passei a ser representante da Bona Espero em reuniões de esperantistas, era como uma propaganda da fazenda. Estava seguindo bem no propósito da fazenda-escola, de difundir o esperanto, e virei o “garoto-propaganda”. (risos)

Elder Dias — E esse trabalho lá continua?

Sim, do mesmo jeito. Lembro-me de que um casal europeu, Giuseppe e Ursula Grattapaglia, foi visitar a fazenda para ver o trabalho e ficaram tão entusiasmados que voltaram para a Europa, venderam tudo o que tinham e foram para lá para assumir a fazenda, onde estão até hoje. Essa fazenda existe agora em um nível muito melhor, e assim que assumi como deputado fui lá com a minha família, cheguei a apresentar Marconi Perillo (PSDB) ao pessoal de lá. Ensinei ao governador uma palavra em esperanto que ele achou muito interessante, um cumprimento que não tem tradução, “samideano”, que significa “meu querido irmão de coração”, ou seja, pessoas que têm o mesmo ideal. É muito bonito.

Euler de França Belém — Então, o sr. é uma prova de que a educação salva as pessoas?

Tenho certeza disso. (risos)

Euler de França Belém — O sr. está sempre sorrindo, gargalhando. De onde vem essa sua alegria, esse bom humor?

Menino de rua precisa estar sempre rindo para as pessoas. Quando ele vai abordar alguém, pedir alguma coisa, nunca se sabe se vai ser maltratado, então aborda rindo. Acho que meu bom humor veio daí.

Euler de França Belém — Inte­res­sante é que o sr. também não perdeu a doçura, a rua não o deixou a­mar­go. E sabemos que o sr. é posicionado, firme, mas se dá bem com todos.

A rua me ensinou que você tem de ser dócil. A gente tem de ter posicionamento, firmeza, mas não pode perder a doçura. Para ser tratado com respeito, tem de tratar com respeito também. A pessoa tem de ter lado, independentemente de estar certo ou errado, tem de se posicionar. Não tenho dificuldade nenhuma de me tornar inimigo de uma pessoa em meio segundo, dependendo do posicionamento. Eu não faço joguinho, esse tipo de coisa.

Euler de França Belém — E co­mo foi sua entrada na política?

Tornei-me quiropraxista e vim para uma clínica em Goiânia, chamada Korpo Sana, de médicos que tinham uma visão diferenciada. A quiropraxia se encaixava nesse projeto. Tinha homeopatas, como o dr. Danilo Maciel Carneiro — um dos que mais entendem de medicina védica no Brasil —, psicólogos, pediatras e outros profissionais. Cito também o dr. Geraldo Mascarenhas, a dra. Clênia, o dr. Carlos Lima, dr. Irma e vários outros. Foi o primeiro movimento de medicina alternativa em Goiânia. Tivemos bons resultados. Eu devo ter tido mais de 5 mil pacientes, a quiropraxia dá uma resposta rápida, tira o paciente de uma crise em 24 horas.

Cezar Santos — Então, essa clientela é que foi abrindo as portas para a entrada na política?

Eu ajudava muita gente, realmente. E eu era viciado em peladas de futebol, era um meia-esquerda habilidoso. (risos) Nessas peladas eu conheci gente como o cantor Leonardo e o hoje prefeito de Aparecida de Goiânia, Maguito Vilela (PMDB), que era vice-governador na época. Jogá­vamos duas vezes por semana, eu me divertia, mas não bebia — não bebo até hoje, embora eu não tenha nada contra quem beba. Funda­mos o Clube dos 50, com 50 só­cios acima de 35 anos, e Magui­to era sócio. Eu levava muitos amigos, médicos, advogados, minhas relações de consultório.

O pessoal viu que eu agregava muito e Maguito começou a dizer que eu deveria entrar na política. Eu nunca tinha pensado em fazer política partidária, não tinha nada a ver comigo. Acho que foi na eleição de 2004 que o PMDB estava sem candidatos e Maguito me intimou. Ele me apresentou a Iris Rezende, com quem tive uma relação muito boa. E entrei na política, com a ajuda dos amigos. E é uma coisa engraçada: na primeira eleição os amigos investem em você; na segunda, eles estão fora. (risos)

Cezar Santos — Por quê?

Eu jogava bola com o pessoal do Ministério Público, tinha uma relação muito boa com eles, eram amigos mesmo. No dia que lancei minha campanha, foram lá cinco promotores de Justiça e dois procuradores, juntamente com Iris, então candidato a prefeito. Naquela eleição tive uns 18 votos de promotores e procuradores. Depois disso, mudou… (risos)

Mas eu até entendo, com a eleição a gente acaba ficando sem tempo de dar atenção a eles. Na primeira eleição, tive cerca de 1,2 mil votos na 1ª Zona Eleitoral, que é a região do Centro, Setor Sul, Setor Oeste. Depois nunca mais tive essa votação lá. (risos) Então, os meus amigos me deram a primeira eleição para vereador em Goiânia pelo PMDB, eu não gastei nada, foi uma campanha na base da relação pessoal mesmo. Depois, já na política, começa a ter grupos de interesse, o pessoal não ligado à política vê uma ou outra atitude da gente com que não concorda, alguém faz uma crítica, essas coisas. Esse pessoal da classe média, mais elitizado, começa a se afastar.

Euler de França Belém — O sr. já foi eleito em 2004?

Não, o PMDB fez três vereadores apenas e eu fiquei como primeiro suplente. Mas veja que interessante: tive 2.480 votos e já assumi o mandato no primeiro dia. Ocorre que Paulo Cezar Martins, que tinha sido eleito, renunciou à Câmara de Goiânia para assumir a vaga na Assembleia por conta de um deputado que tinha sido eleito prefeito no interior do Estado [Zé Gomes, em Itumbiara]. Cheguei a vereador sem conhecer ninguém no mundo político.

Euler de França Belém — E como foi sua passagem pela Câmara?

Eu acho que fiz um bom trabalho. Penso que o Legislativo é o poder mais forte. Já vi vereador cassar prefeito, deputado cassar governador e presidente…

Elder Dias — Como está ocorrendo agora, inclusive.

Exatamente. (risos) Então, o Legislativo não sabe o poder que tem, por fazer acordos demais e acabar virando uma secretaria desprestigiada do Executivo. Às vezes, um secretário que nunca teve um voto na vida e tem um líder forte, como era Iris, começa a se achar mais importante do que todos. Por isso, sempre briguei pela independência do poder Legislativo. Na época, perdi a eleição para presidente da Câmara por uma articulação do próprio Iris, e formamos um grupo chamado G-14. Como eu era o líder do PMDB, para não falar que era de oposição, nos dizíamos independentes. E assim eu achava que deveria ficar mesmo no Legislativo.

“Na época do plano diretor, Iris estava com um grupo que começou a vender a cidade. venderam aquelas áreas ao redor do Paço”

Euler de França Belém — E o sr. disputou novamente pelo PMDB em 2008?

Sim, fui o único com mandato que disputou a eleição pelo partido em 2004 e novamente quatro anos depois. Os demais que foram eleitos pelo PMDB — Bruno Peixoto, Izídio Alves, Samuel Belchior e outros — tinham aderido a Iris durante o primeiro mandato.

Euler de França Belém — Iris é mesmo muito sedutor?

Sim, um grande populista. Vou contar uma história a vocês para dar como exemplo. Teve uma votação para a cassação de Amarildo Pereira, que estava para ser afastado. Um vereador conseguiu convencer outro, meu amigo, a votar a favor de Amarildo. Depois, foram os dois conversar com Iris. Então, o meu amigo, então vereador, foi apresentado a Iris, que começou a falar coisas assim “nós tivemos uma vida juntos!” e coisas assim. O vereador começou a pensar que tinha trabalhado a vida inteira com Iris. Depois que saiu de lá e entrou no carro — ele me contando depois — lembrou, bem espantado: “Puxa, eu nunca tinha visto esse homem antes!”. (muitas gargalhadas) Ele não conhecia Iris e me contou que saiu de lá se sentindo um amigo de infância do prefeito. (risos) Eu rolei de rir.

Euler de França Belém — Têm mais histórias com Iris?

Eu era vice-presidente da CCJ [Comissão de Constituição e Justiça] e Iris me chamou em seu gabinete. Tinham me “queimado” com o prefeito. E eu nunca tinha visto Iris espumar na boca como aquele dia. “Esses vereadores estão fazendo você de bobo!”, “você está pensando o quê?”, essas coisas. E eu sou muito amigo de Humberto Aidar [então vereador, hoje deputado estadual pelo PT], de quem sou padrinho de casamento e fazia oposição dura a Iris, e ele falando “Esse grandão [Humberto] ainda vai fazer você chorar lágrimas de sangue!”. Tinha também o presidente da Câmara, Cláudio Meirelles [hoje também deputado pelo PR], que era oposição a Iris. Então eu disse “prefeito, eu sou novo ainda, não estou entendendo o sistema, esse povo me envolveu demais!. (risos) E Iris: “Mas têm dois anos que você está lá e ainda não aprendeu?”. (gargalhadas) Então eu falei: “Me tira de lá, prefeito, e me arruma uma secretaria”. (muitas gargalhadas) Quando ele viu que eu estava quase chorando ali, ele se acalmou e disse: “Eu não vou te tirar, mas você tem de aprender!”. (risos) Do jeito que ele estava comigo, o jeito era me fazer de bobo, eu pensei que ele iria me bater! (gargalhadas)

Euler de França Belém — Além disso, como gestor, Iris Rezende também deixou um aspecto muito negativo, em relação à expansão urbana e à construção de prédios por toda a parte. O Setor Marista está sendo destruído pelas construtoras. O sr. nunca se preocupou com essa questão, como vereador?

Eu tanto me preocupei que fui um dos desarticuladores da venda de áreas de que a Prefeitura queria abrir mão. Em 2006, fui membro da co­missão que discutiria o Plano Diretor. Colocamos algumas regras, mas, naquela época, Iris estava com um grupo, que começou a vender a cidade. Por exemplo, venderam aquelas áreas ao redor do Paço.

Cheguei a entrar com uma ação no Ministério Público, com outros vereadores. A Prefeitura fez uma permuta com uma ONG [organização não governamental] para regularizar a negociação.

Euler de França Belém — Mas a Câmara não foi conivente com essa negociação?

Não, ele fez por decreto. A Câmara tinha um posicionamento muito firme.

Elder Dias — Mas não tinha como derrubar esse decreto na Câmara?

Iris tinha a maioria. É difícil fazer isso contra líderes populistas. Vou contar outra história de Iris. Nós tínhamos uma CEI [comissão especial de inquérito] do ITU e IPTU, da qual o vereador Maurício Beraldo era presidente — eu era o vice. Desco­brimos que um grupo de empresários estava lesando a Prefeitura.

Goiânia é dividida por zonas, para o pagamento dos impostos. Então, naquela época, o sr. Sebastião Juruna, que está aí na Prefeitura hoje [secretário de Planejamento Urba­no], mais o sr. Lourival Lousa [megaempresário] conseguiram pegar a estrutura da Comdata [Companhia de Proces­samento de Dados do Município] para jogar todas as áreas dele na zona 4, que era a de alíquota mais barata para ITU e IPTU. Ou seja, se em um ano pagaram R$ 2 mil de um lote, no ano seguinte passaram a pagar R$ 300.

Aí eu pus o pé na parede. Tínha­mos levado vários e vários funcionários e técnicos à CEI, e então falamos que tínhamos de ouvir Lourival Lousa. Quando isso foi divulgado, o mundo veio abaixo, Lourival Lousa não poderia pisar o pé na Câmara para depor, era um “intocável”. Então, quiseram fazer uma visita de vereadores para o empresário e eu ameacei: se fizerem isso, então vou à polícia e falar que tem dinheiro na história.

A vereadora Jacyra, representandele, me disse: “Vereador, estive falando com o Lourival e acho que não é o momento de envolver imprensa, televisão etc.”. Eu respondi: “Jacyra, se fosse com a gente, não teriam esse pensamento dos empresários em relação aos políticos. Então, estou fora”. Aí, então, foram até Iris. E então o prefeito resolveu me chamar, durante uma inauguração. Ele me disse: “Ve­reador, estão me dizendo que você está atrapalhando o Lourival. Ele tem colaborado mui­to conosco, veja isso aí…”. Eu respondi: “Olha, prefeito, ele deu um prejuízo de mais de R$ 5 mi­lhões e todo mundo que está indo depor na CEI diz que ele fez ‘rolo’ na Comdata.” Iris continuou falando e então eu arrematei: “Tudo bem, prefeito, se for um pedido seu para a gente, acho que não precisa levar o Lousa para depor”. Iris, esperto, andou dois metros, se virou para trás e me disse: “Então, fica à vontade para fazer o que você quiser.” Claro, ele não quis ficar com a bomba no colo. E Lou­rival Lousa foi depor lá na Câmara. No fim, essa CEI evitou um prejuízo de mais de R$ 5 milhões anuais.

Euler de França Belém — E por que tinha sido aberta essa CEI?

A Câmara tinha pedido um levantamento dos maiores devedores de ITU e IPTU. E o maior devedor, na época, era Lourival Lousa. Então, fiz a seguinte pergunta a ele na CEI: “Sr. Lourival, estou aqui com o documento da Pre­fei­tura dizendo que o sr. é so­negador e tem um débito de quase R$ 5 milhões. O sr. vai pro­cessar a Prefeitura por essa ca­lúnia?” Ele ficou vermelho. E eu, irônico, disse: “Sr. presidente, se o sr. Lourival não quiser processar, acho que nós temos de fazer isso por ele”. (risos)

Euler de França Belém — Mas não falou nada?

Claro que não, ele sabia que estava errado. Eu queria muito que ele falasse. (risos)

Euler de França Belém — Porém, o caso de Lourival Lousa não é um fato isolado…

Não, tanto que na época foram quase todas as grandes construtoras à CEI. Ele foi apenas o sujeito que mais se mobilizou politicamente para não depor. Mas é a mesma quadrilha que está aí até hoje. Eu só não conhecia ainda o pessoal da Construtora Consciente.

Euler de França Belém — Como foi a história da construção do prédio da Borges Landeiro em frente ao Colégio Visão, no alto do Setor Bueno? Houve uma mudança estranha na lei.

Foi por decreto. Mas, nesse caso específico, creio que houve uma perseguição mesmo a Iris.

Euler de França Belém — Como assim?

É que todas as áreas ao redor tinham gabarito para a construção, menos a quadra para a qual houve o decreto. Então, Iris incorporou o gabarito àquela área. Acho que não podemos ter dois pesos e duas medidas. Eu fui contra, mas apenas por ser contra. Se for analisar bem, não fazia sentido. Está certo que era a irmã de Iris que seria beneficiada, mas o terreno dela estava prejudicado em relação às quadras vizinhas.

“Nexus vai expulsar todos os moradores do Marista”

Euler de França Belém — Como o sr. vê a força da Consciente Construtora com o setor público?

Uma vez estávamos Iris, o então vereador Maurício Beraldo e eu conversando. Beraldo disse: “Prefeito, o sr. tem de extinguir a Seplan [Secretaria de Planejamento Urbano], porque aquilo é um antro de corrupção.” Ora, um homem público que trabalha oito horas por dia em uma repartição, ganhando de R$ 2 mil a R$ 3 mil, se tem bens de R$ 15 milhões ou R$ 20 milhões está fazendo alguma coisa errada. Basta ver que uma parte chegava a morar no Aldeia do Vale [condomínio de luxo].

Fiz um pronunciamento, na quinta-feira (dia 28/4), porque estão tentando mudar o relatório da CEI das Pastinhas. As construtoras tinham entendido que estavam protegidas. Só que a CEI das Pastinhas envolveu muitos funcionários da Prefeitura. Quando a coisa começou a “apertar”, estes falaram em delação premiada. Por isso, os donos das construtoras estão desesperados. A preocupação deles não é tirar o nome deles, mas de não pegar os servidores — afinal, as pessoas estão sentindo pressão; tem gente sendo intimada.

Ora, tem documentação comprovando. Vimos que prazos que venciam em 2006, mas o empresário só apresentou a documentação em 2010 e foram válidas. Na minha concepção, essa relação não se tornou promíscua, mas ma­fiosa. O setor imobiliário tem de ser re­vis­to. Tem de acabar e recomeçar do zero, porque essa visão do empresário de que ele tem de ganhar tudo, independente da situação da cidade, faz com que te­nhamos mais de 100 mil lotes vazios em Goiânia.

Elder Dias — O próprio Anselmo Pereira [vereador pelo PSDB e presidente da Câmara Municipal de Goiânia] diz que existe uma pressão popular para expandir as áreas de loteamentos em Goiânia.

Eu discordo dele, porque entendo que precisamos tomar as rédeas da cidade. Goiânia tem de ser programada. O setor imobiliário é muito forte e banca as campanhas. Um exemplo: esse rapaz, Ilézio [Inácio, da Consciente Constru­tora], mandou na prefeitura durante os últimos seis anos. Ele despachava da Prefeitura. Isso é um absurdo. (enfático) Ele é que fazia os projetos de lei que iam para a Câmara. Isso não pode acontecer. O Poder Legislativo tem de ter autonomia. Eu sou de uma geração muito dura com empresários que têm relações com o poder público, porque eu penso que esses empresários querem fazer rolo.

Elder Dias — Podemos falar que temos uma bancada das imobiliárias na Câmara de Goiânia?

Essa CEI das Pastinhas provou que não. Podemos dizer que existem movimentos, mas eles não conseguiram “entrar” na CEI, o que acabou provando que essa bancada não tem força. Eu vi o relatório, que envolveu todo mundo. Por exemplo, eu sou contra esse projeto deles aqui na Praça do Ratinho, o Nexus. Isso é um absurdo. (enfático) Como colocar 2 mil ou 3 mil salas ali? E o impacto de trânsito? E o morador que tem 20 anos ali, sem saber que isso poderia? Ora, tem de respeitar.

Fotos: Renan Accioly/Jornal Opção

Fotos: Renan Accioly/Jornal Opção

Euler de França Belém — Se o sr. fosse prefeito de Goiânia, o Nexus seria construído?

Seria, mas perto do autódromo. (risos) Por que não? Nós temos uma cidade que não foi planejada, mas foi se adensando. Esse Nexus vai expulsar todos os moradores e tirar toda a história dali.

Euler de França Belém — Quem olha de fora, pensa que se trata de algo aleatório. Mas não existe um projeto para tomar o Setor Marista e transformá-lo em um “paliteiro”, uma área de prédios como os setores Bela Vista e Bueno? Porque as pessoas que vão ficando acabam tendo de vender seus imóveis.

Esse tipo de construção tem um impacto de trânsito muito grande e to­dos sabem a situação de Goiânia. En­tão, acho que, mesmo os empresários tendo essa ideia, ela não prospera. Se­não não tem como trafegar na cidade.

Euler de França Belém — O Ministério Público teve um papel importante ao pedir o embargo da obra do Nexus?

Para provocar a situação. Vou contar como tudo começou, inclusive com a participação deste nobre deputado que vos fala. (risos) Eu moro no Conjunto Sonho Verde, perto do Setor Riviera, depois da prefeitura. Ali do lado fica o Alphaville. Um dia, eu passando, vi torres sendo construídas. Eu falei: “Eu fui vereador e não estou vendo como eles conseguiram fazer isso aqui”. Não entendi e comecei a ligar para as pessoas e achei Elias [Vaz (PSB)] e Geovani [Antônio (PSDB)]. Levei-os lá e mostrei. Porque naquela região em que moro, o impacto de trânsito também é muito grande. A CEI das Pastinhas começou ali, quando descobriram que esse esquema tinha sido capitaneado por Ilézio, lá atrás. Descobriram documentos falsos, enfim, era um esquema.

Eu moro lá. Você sabe quantas saídas existem daquele lado da BR para cá? Quatro: uma no Novo Mundo, uma por baixo do viaduto [perto do Serra Dourada], uma na Vila Redenção [perto do Flamboyant] e outra lá embaixo [no Jardim Botânico]. As pessoas não sabem, mas o pessoal de Senador Canedo vem para Goiânia agora. Às 7 horas da manhã, ninguém consegue sair. Fecha e estrangula, porque não tem saída.

A saída por baixo do viaduto do Serra Dourada, antes, era uma rotatória. Eu consegui colocar um semáforo lá, quando eu era vereador, depois de falar com Iris. Conclusão: eu comecei a entender que aquilo era uma agressão para a gente.

Euler de França Belém — Quem é o espanhol Juan Angel Zamora Pedreño, um dos donos do Eurogroup Empre­endimentos, empresa responsável pelo projeto da Europark, no Parque Lozandes?

Esse espanhol tem contato direto com o Ilézio. Foi o grupo dele que trou­xe. Esse é o esquema. Esse é o ver­dadeiro golpe (risos), o golpe do setor imobiliário no povo goianiense. Ilézio tinha muito poder na Prefeitura. Como presidente da Ademi [Associação das Empresas do Mercado Imobiliário de Goiás], tinha um poder maior que o do prefeito. A entidade conseguiu fazer isso.

Elder Dias — Isso ocorreu na época da mudança do Plano Diretor de Goiânia?

Sim. Ilézio foi quem fez os projetos, na época que ele era presidente da Ademi. Nós temos de ter um prefeito que pense na cidade para daqui a 50 anos. Não podemos ter políticas de governo, porque o governo passa de quatro em quatro anos. A cidade fica.

Euler de França Belém — Sobretudo, a Prefeitura não pode ser pensada como negócio.

Nem pensar. (enfático) A Prefei­tu­ra tem de ser pensada com projetos e o mais importante: o prefeito precisa ter um projeto para a cidade para daqui a cinco, dez anos. Eu, por exemplo, vou ter um embate sério com meu partido. O PSL não tem nenhum vereador hoje em Goiânia.

Tem uma chapa com 20 pré-candidatos, a qual talvez não eleja ninguém. Mas o PSL re­cebeu agora a direção da SMT [Se­cre­taria Municipal de Trânsito, Trans­portes e Mobilidade]. Isso é um absurdo. (enfático) Eu não sou contra acordo político. É normal, mas para dar sustentação ao governo. Então, qual é a sustentação política que o PSL vai dar para a Prefeitura, se não tem vereador? Eu, que sou deputado, faço oposição ao projeto da Prefeitura. Então, isso pode ser só um mero acordo.

Euler de França Belém — Não consultaram o sr. como deputado?

Ninguém do partido me ligou. Por isso, estou tranquilo para falar. Recebi uma ligação; me ligou uma pessoa da executiva nacional do partido. Eu vi pelos jornais: “Benitez Calil pega cargo na Prefeitura”. Eu achei um absurdo. (enfático) Agora, veja: estamos falando de um partido que não tem um vereador, só uma chapa com 20 pré-candidatos. Qual o acordo político que po­deríamos fazer? Nenhum. No serviço público, se faz acordos políticos, sustentação política, defesa política. Não algo desse jeito como querem fazer.

Elder Dias — O que a Prefeitura ganharia com isso?

É o que eu gostaria de saber.

Elder Dias — O que a cidade ganharia?

Zero. Se precisam de uma pessoa competente, não precisa ser de partido político para levar toda a estrutura de um partido.

Cezar Santos — O sr. conversou com o deputado Lucas Calil (PSL)?

Não. Nunca me preocupei com gestão de partido. Eu fui convidado por Dário Paiva [ex-presidente do PSL] para disputar eleição de deputado pelo PSL. Ele me recebeu muito bem. Depois, articularam para tirá-lo. O vice-presidente da época, o Raniery [Nunes] foi quem o tirou. Eu recebi o convite para aderir a essa articulação, mas fui contra. Não tinha relação de amizade com Dário, mas tinha consideração. Depois, fizeram um movimento para tirar Raniery. Lucas [Calil] me convidou: “Santana, esse Raniery está fazendo tal e tal coisa, vamos conversar com o partido”. Conversei e dei suporte dentro de uma linha. Agora, eu estava no jogo, articulando. Fomos falar com a nacional, em Recife. Então me perguntaram: “Deputado, o sr. quer assumir o partido?”. Respondi: “Não”. “Então, quem o sr. indica?”. Benitez [pai de Lucas Calil] foi com a gente, junto com outro rapaz. Por entender que ele tinha interesse em ajudar o partido, indiquei Benitez.

Elder Dias — Essa conversa foi com Luciano Bivar, o presidente nacional do partido?

Luciano não estava no dia, mas foi com toda a executiva do partido. O presidente ia só bater o martelo. Não me pediram uma balinha. Eu nunca vi isso. A discussão, no dia, foi: queremos caminhar com o governador Marconi Perillo e fazer um deputado federal. Esse pessoal do PSL é diferente, discutimos apenas política. Esse Bivar me parece ser um idealista.

Euler de França Belém — Ele apoia o governo da presidente Dilma Rousseff?

Radicalmente contra. Voltando à questão, não fiquei mais em Recife, porque me ligaram e precisei voltar. Mas Benitez ficou e já tínhamos batido o martelo. Fizemos a chapa: eu indiquei o vice-presidente, que é meu chefe de gabinete, e Lucas indicou o secretário, que é chefe de gabinete dele. Na época, Benitez fez uma ponderação que agora eu entendi: é que eu iria indicar o tesoureiro, mas ele disse: “Não, o tesoureiro tem de assinar com o presidente, então tem de ser de confiança”. (risos) Aí, então, pôs o filho. (risos)

Sempre fui desprendido dessas questões, mas acabou que o segundo tesoureiro ficou ligado a mim. Mas nunca me ligaram para marcar uma reunião. Nunca. Se tivessem me ligado, eu diria que era contra, porque eu sou oposição à Prefeitura, mas diria: “vou continuar na minha linha e vocês fazem a de vocês”. Agora, desse jeito que estão querendo fazer, não. Metade de Goiânia já me ligou para não fazer um pronunciamento contra o partido. A executiva nacional do partido me ligou: “Deputado, como é essa história aí em Goiânia?”. Contei. Aí: “Deputa­do, o sr. sabe de nossa linha. O filho do Bivar [Luciano Bivar, presidente nacional do PSL] é ligado ao PSDB e vai ser candidato a vice aqui em Recife. Nós não temos ligação nenhuma com o PT.

Que­remos ver o PT é pelas costas. Pre­serve o partido.” Falei para ele: “Amigo, eu preservo o gru­po. De partido de aluguel, estou fora”. O que se pode fazer, então? Primeiro, sair de perto do PT, que está podre, o bolo está envenenado. As pessoas es­tão fazendo chacota comigo na As­sembleia, dizendo que a Adriana Accorsi [pré-candidata do PT à Pre­feitura] manda em mim agora. Aí não dá. (enfático) Não vou comer sapo. Se tivessem me ligado, eu poderia me posicionar. Uma situação dessas, na minha concepção, é malandragem.

Marcos Nunes Carreiro — E como fica a situação do sr. no partido? Continua?

Vou partir para o enfrentamento, mas continuo no partido. Eu não mudei; quem mudou foram eles.

Euler de França Belém — E o que a cúpula nacional vai decidir sobre isso?

Só informei a eles do meu posicionamento. Eu vou para o enfrentamento, porque sou radicalmente contra essa aliança com o PT. Não quero ser tachado como alguém que esteja traindo meu grupo político, porque o PT era oposição em 2014 e o PSL entrou no projeto de Marconi Perillo. Se o candidato dele é bom ou ruim, essa preocupação não é minha. O que tenho de fazer é andar dentro da mesma linha. Se o partido mudou sua linha, quem tem de se explicar é o partido, não eu.

Cezar Santos — O sr. conversou com o governador Marconi sobre essa situação?

Não, só disse a ele, quando estava indo para esse encontro no Recife, que talvez eu pudesse assumir o diretório municipal para dar apoio ao grupo do governador. Na sexta-feira (dia 29 de abril), ele foi a uma sessão da Assembleia e eu lhe disse: “Go­vernador, fiz um pronunciamento duro em relação a esse posicionamento do PSL em Goiânia”. Ele me disse “você está correto”.

Euler de França Belém — Mas como fica a situação concreta agora? Eles vão apoiar Adriana Accorsi e o sr. apoiará Giuseppe Vecci (PSDB)?

Vou continuar em minha mesma linha.

Elder Dias — O PSL está obviamente dividido hoje.

Tem dois deputados. Não falei com aquele que é o líder do partido, mas é problema dele. Vou man­ter a mesma linha em que ganhei a eleição. Não faço política com oportunismo. Creio que, depois de todo esse movimento, qualquer pessoa ligada ao partido, deveria, se quisesse aceitar cargo do prefeito, se licenciar e deixar o partido e seguir o rumo do projeto em que estava. Foi isso que defendi quando pedi votos, em 2014. Não podemos ficar andando em ziguezague.

Euler de França Belém — O sr. tem se mostrado um bom analista político. No quadro de Goiânia, temos hoje, pelo que indicam, Iris Rezende (PMDB) e Waldir Soares (PR) à frente. As chances de Iris ir para o segundo turno são altíssimas. Mas a outra vaga não está decidida. O sr. não considera que os demais candidatos — Giuseppe Vecci (PSDB), Vanderlan Cardoso (PSB), Francisco Júnior (PSD), Luiz Bittencourt (PTB) e Adriana Accorsi (PT) — têm condições de estar na disputa?

Sua avaliação está correta. Goiânia hoje precisa de um gestor e esses que você falou têm esse perfil, são tarimbados. Em 2004, a cidade elegeu um populista, que foi reeleito em 2008. Depois, em 2012, esse populista passou seu capital para outro nome. Agora, creio que o povo goianiense fará outro tipo de escolha. Tenho conversado com as pessoas e vejo que o povo não vai cair mais nessa posição demagógica que fala que vai tirar os bandidos da cidade, que vai prender todo mundo, que vai asfaltar tudo em uma semana e outras bravatas.

Em minha avaliação, vejo o deputado Giuseppe Vecci como alguém muito tarimbado e como o melhor nome do PSDB para ser seu candidato a prefeito em Goiâ­nia. Vecci entrou na política agora, mas sempre foi gestor. O partido tinha vários quadros, como Jayme Rincón [presidente da Agetop] e Anselmo Pereira [vereador], mas vejo que, pelas condições atuais, o nome escolhido foi o melhor.

Euler de França Belém — O deputado Waldir Soares se coloca quase como um justiceiro. Como o sr. o vê?

Ele me parece um estelionato eleitoral.

Elder Dias — Por quê?

Porque a proposta dele, para a qual foi eleito, era de lutar por mudanças na segurança. Ora, só tem um lugar em que se pode fazer essas mudanças: o Congresso Nacional. Nós temos de mudar as leis, é lá que seria o lugar dele contribuir com nossa cidade, pela experiência que tem. Como gestor ele faria isso? Não, porque Goiânia não é uma delegacia. Temos uma cidade que precisa de alguém realmente com espírito de gestor.

Cezar Santos — O interessante é que não consta nenhum projeto de lei de autoria de Waldir Soares voltado para a área da segurança.

E não será em Goiânia que ele vai executar alguma coisa. Por isso falo em estelionato. O eleitor votou nele para a proposta que ele defende, e a qual não pode desenvolver na capital.

Elder Dias — Assim como Iris, o delegado Waldir também parece desempenhar um papel populista, para usar uma palavra a que o sr. se referiu. Cada um deles à sua ma­neira. Em 2014, Waldir foi “culpado” por peemedebistas pela não reeleição de Iris Araújo (PMDB), por ter “avançado” e conquistado votos em regiões dela, especialmente a periferia de Goiânia. Isso não poderia ocorrer também em uma eleição municipal, concorrendo com Iris? Não disputam o mesmo eleitorado?

Eu até concordo com esse pensamento, mas tenho um comentário a fazer: prefeito não pode ficar 24 horas fazendo política partidária. E esse voto que Dona Iris achava que tinha se mostrou volúvel. Ora, se eles vieram para o Delegado Waldir, podem mudar novamente. Popu­lista é bom para disputar eleição, mas não para administrar. Precisa­mos na capital de alguém que tenha experiência de gestão. O eleitor precisa ser conscientizado de que não é curral de um populista.

Cezar Santos — Podemos dizer que o próximo prefeito terá de ter um olhar cuidadoso sobre Goiânia?

Exatamente. Que tenha esse olhar para a saúde, para a educação, para a segurança, para o transporte coletivo. Não o olhar de que “vou prender”, “lugar de bandido é na cadeia”. Aliás, se for para falar sobre esse tema, temos de dizer que o dr. José Eliton (PSDB) está fazendo um bom trabalho na Secretaria de Segurança Pública. Estou decepcionado com a forma com que a política está sendo feita atualmente. Resta ao povo brasileiro dar uma boa resposta. Política não pode ser profissão.

Cezar Santos — Esse processo de impeachment não é uma consequência dessa cobrança?

Em minha opinião, o gestor, para assumir sua cadeira, é preciso passar pelas urnas. Não pode, porém, imaginar que tem de vender sua alma para sentar ali. Ele precisa de uma proposta e nós, de seu grupo político, temos de dar sustentação a ele, para que então faça um bom trabalho para meus filhos, seus filhos, nossos netos, para nossa cidade. Assim para que, daqui a 20 ou 30 anos, Goiânia seja uma cidade planejada e bonita. Precisa de alguém que a planeje. Desde 2004, desde que estou na política, não vejo alguém que faça isso, que planeje a cidade.

Elder Dias — Quanto ao momento em que o Brasil vive nacionalmente, vemos reverberar uma insegurança da população em relação ao futuro. Retirar uma presidente de seu mandato, ainda que com todos os problemas, não é algo fácil. Colocar ou­tro no lugar, sabendo que daqui a dois anos teremos outra eleição, é um quadro difícil, muito instável. O sr. vê que vivemos um ponto-chave na história do Brasil? Algo como, ou o Brasil engrena, “toma jeito”, ou voltaremos a ser uma “república das bananas”?

Eu sou contra o “tapetão” e favorável à eleição.

Elder Dias — O sr. quer dizer favorável a novas eleições?

Sim, pois no momento que o País vive, em que as pessoas questionam tanto, os políticos que direcionam este processo poderão ser questionados daqui um mês, devido ao quadro jurídico-penal. A Dilma desenvolveu questões políticas de forma totalmente errada e outros estão envolvidos em questões criminais.

Precisamos ter uma resposta. Se o País continuar com este clima, caminharemos para a anarquia e perderemos as instituições. Vejo com muita preocupação este momento. Não estou à vontade com o atual clima e a maneira que está sendo desenhado um projeto para o Brasil, nos últimos dois anos. Acredito que seria muito melhor sangrarmos e sofrermos de vez agora, “zerar” isto e começar um novo caminho. Este não é um novo caminho, mas uma alternativa dentro do mesmo caminho. Penso que o homem pode até errar o alvo, mas não pode errar o rumo para o qual atiram. Tem de ir naquela direção do alvo, não dá para se desnortear. Eu vejo a política assim: erramos o alvo e estamos perdendo o rumo. Uma presidente nos enganou, mas o rumo tomado não é o que queríamos.

O momento que o Brasil vive é muito sério e merece uma reflexão. Antes de ser político, sou cidadão, com filho e filha, e vejo que estão desnorteados; os jovens não estão entendendo o que está acontecendo.

Cezar Santos — Há uma desesperança na política.

Exato. Você disse uma palavra-cha­ve, essa desesperança, essa descrença na política, de uma hora para outra pode virar uma onda, um movimento. A meu ver, é preciso zerar o jogo, criar um novo discurso e botar uma campanha nas ruas para que o povo brasileiro participe do processo, para que ele sinta isso; afinal, no último, ele se sentiu enganado.

Elder Dias — Tanto é que a retirada de Dilma não significa de forma alguma que as pessoas queiram Michel Temer. Isso está óbvio.

Este é um momento de reflexão. E eu também não sei o que acontecerá; é apenas a minha opinião.

Cezar Santos — E como o sr. vê o governo Marconi? Acredita que Goiás está reagindo bem a essa crise, sem sofrer como os demais Estados?

Eu era do PMDB e nunca acompanhei a história de Marconi Perillo. Mas, recentemente, tive a oportunidade de viajar e passar 18 dias com ele. Quando saí para a viagem, eu era um fã, alguém que conhecia de longe sua história; hoje, sou um admirador. Ele é um homem predestinado, que trabalha 24 horas. Nesses dias de viagem, ele fez 48 reuniões. Ele vende muito bem nosso Estado, tanto que as pessoas diziam que queriam vir morar aqui (risos). E ele me apresentou como membro do Parlamento goiano isso tinha muito respaldo na Europa, pois lá todos são parlamentaristas.

Marconi é um predestinado, um homem que está anos-luz à frente dos outros nossos políticos; e eu acredito que ele seria um bom presidente. No ano passado, prevendo já esta situação atual — não só no Estado, mas no País —, Marconi endureceu em muita coisa, e que mais sofreu com tais ajustes foi ele. Eu o defendo, pois acredito em sua proposta– e veja que ele nunca pediu para que eu o defendesse. Veja bem a situação de um pai de família que tem um padrão de vida “x” e começa a perder “y” e mais “y” todo mês dessa renda. O servidor público é o filho que não sabe que o Estado de Goiás (o pai de família), no mês passado, teve um déficit de arrecadação de quase R$ 200 milhões. Como um gestor explica isso? O povo não tem essa compreensão, acha que no governo tem uma mina.

O primeiro governo de Marconi foi para o servidor público; o segundo foi o governo do social; agora, temos um governo da gestão administrativa. Vejo o governador como alguém que tem sofrido muito por causa dessas dificuldades, por ser contra o governo do PT. Mas veja o quanto ele é estadista, a ponto de conseguir se aproximar da presidente, percebendo que governo não faz oposição a governo. Ele, então, levou propostas, antecipou projetos. Em Brasília não se consegue nada no “papo” é preciso ter projetos.

Com este quadro, vejo que não temos no Brasil nem cinco nomes com preparo político e administrativo e de estadista como tem Marconi. Eu defendo o governo dele, por acreditar na proposta dele. Ele sempre faz algo pensando lá na frente. Em relação às dificuldades que enfrentamos hoje, tenho certeza absoluta que ele está sofrendo mais do que qualquer outro. Mas nós teremos bonança.

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