“O rumo da economia passa pelo Senado. Quero trabalhar lá com esse foco”

Ex-ministro da Fazenda acredita que em 2022 os eleitores terão uma percepção mais apurada em relação às demandas econômicas e sociais, o que lhe garante maior destaque na campanha

Elder Dias e Marcos Aurélio Silva

Inflação em alta, perdas no PIB, ameaças de furo no teto de gastos, ICMS de combustíveis, são temas que nunca estiveram tão presentes no cotidiano do brasileiro. Há um ano das eleições, não há dúvidas que esses assuntos serão as principais pautas tratadas nas campanhas eleitorais de 2022. O pré-candidato ao Senado por Goiás, Henrique Meirelles (PSD), aposta nisso. Seu currículo e  Know-how no setor econômico compõem sua plataforma de campanha.

Mesmo ocupando a função de secretário Estadual de Fazenda, no Estado de São Paulo, Henrique Meirelles tem reforçado sua agenda em Goiás. Em entrevista ao Jornal Opção, ele fez seus apontamentos sobre os rumos da economia no Brasil e de como sua candidatura será pautada neste tema. Ele revela que as pesquisas lhe são favoráveis e o colocam em primeiro entre os possíveis adversários. Entretanto, ele afirma que ainda não há definição sobre a chapa que ele irá compor.

Marcos Aurélio Silva –  O eleitorado goiano tem uma percepção que sua candidatura ao Senado tem relações com seu conhecimento da economia nacional e global – em razão da sua história e currículo. O setor econômico é um dos mais  fragilizados dentro do governo federal. O senhor, ocupando a vaga de senador , poderia de fato  contribuir para a economia?
Não há dúvida. Se olharmos o que precisa ser feito para o Brasil voltar a crescer, veríamos que são as reformas fundamentais. Essas reformas passam pelo Senado. Veja como exemplo a reforma tributária, a reforma administrativa, e outras nesta linha.

Na medida em que eu seja senador, e também sendo uma pessoa que trabalhou intensamente na elaboração da reforma tributária enquanto estava no Ministério da Fazenda, tenho um nível de interesse e conhecimento muito maior. Esse será um diferencial para que os projetos possam caminhar no Senado Federal. 

Não há dúvidas de que como senador vou contribuir para o setor econômico nacional e goiano. Além disso, há outras questões econômicas que não estão na pauta, como a reforma administrativa. Fizemos uma em São Paulo que foi extremamente bem sucedida. Diante de toda gestão econômica do Estado, conseguimos ter em caixa quase R$ 50 bilhões para investir, seja em infraestrutura, hospitais, segurança ou educação. Tudo isso são coisas que também precisam ser discutidas no parlamento de forma ampla e com contexto nacional.

Estamos vendo um protagonismo cada vez maior do parlamento brasileiro, como ocorre em outros países do mundo que tem uma estrutura política similar à brasileira. Não há dúvida de que o rumo da economia passa pelo Senado. Quero trabalhar lá com esse foco.

Elder Dias – Como o senhor avalia a gestão do ministro Paulo Guedes na economia brasileira?
Tenho uma postura administrativa e econômica que chamo de foco no resultado. Não perco tempo com teorias ou avaliações subjetivas, ou o que chamo de jogo de opiniões. Mas eu olho o resultado, que é inquestionável. Como já dizia Nelson Rodrigues, ‘nada mais brutal do que o fato’.

“Sobre o ICMS, o que o presidente fez foi se desviar do assunto. Ele jogou para os estados”

Essa é minha forma de agir, inclusive com meu próprio trabalho. Quando falo de minha gestão no Banco Central, no Ministério da Fazenda ou na Secretaria de Fazenda de SP, eu falo do resultado. Quando estive no Banco Central, por oito anos, foram criados 11 milhões de empregos, a inflação esteve na meta durante todo o período, 50 milhões de brasileiros cruzaram a linha de pobreza para cima. Esses são resultados. É isso que interessa.

Quando estive no Ministério da Fazenda, o Brasil estava em uma recessão que nos 12 meses precedentes o país tinha caído 5,2% do PIB. Se olharmos mais a frente, especificamente do começo ao final de 2017, crescemos 2,2%. É um salto. 

Eu olho os resultados, e ao olharmos para a economia neste momento o resultado não está bom. Quer dizer que se olharmos as combinações que é: em 2019 o país cresceu 1%. É pouco. Isso foi antes da pandemia. Na pandemia o Brasil caiu 4,1%. São Paulo, por exemplo, cresceu 4%. Ao combinar a expectativa de 2021 com o que ocorreu em 2020, o Brasil vai chegar, se muito, a 1% de crescimento –  falando dos dois anos combinados. Já em São Paulo, se combinarmos os dois anos, vai ter um crescimento de quase 8%. 

Se falarmos de inflação, que é a combinação da política fiscal e monetária, vamos ver que está subindo cada vez mais. Estamos em cerca de 10%. Olhando os resultados da equipe econômica, chega-se à conclusão de que não vai bem. 

Marcos Aurélio Silva – E quando se fala em teto de gastos, algo que foi o senhor que criou, mas que hoje é algo que não é respeitado e que causa muitos impasses para o governo federal. Qual sua opinião?
O teto foi que permitiu que o Brasil saísse da recessão e voltasse a crescer em 2016, mas também tem servido de âncora para evitar que se vá para baixo de vez. O teto é fundamental. Voltas, furos, pedaladas no teto, ou seja o nome que for, enfraquece as defesas da economia brasileira e piora o desempenho. 

Elder Dias –  O teto de gastos é uma experiência que o senhor conduziu durante o governo de Michel Temer. Esse modelo é utilizado em outros países?
Normalmente, nos países em que a economia funciona bem e que existe uma gestão fiscal responsável, não é necessário um teto. Isso porque é uma gestão focada em manter a dívida pública sob controle. O Brasil adotou o teto exatamente porque a dívida pública estava subindo e ficando insustentável, assim como as despesas. 

Temos países que vão bem e que, portanto, não é necessário o teto. Os países que não vão bem, não tem teto. O teto foi uma solução que funcionou no Brasil, pois colocou um limite constitucional a um problema crônico que o país tinha há 25 anos, que era o crescimento de sua despesa pública. Minha expectativa ainda é de que o teto fique por um tempo suficiente. estava previsto por 10 anos, renovável por mais 10. Ele ficando um tempo interessante ele não será mais necessário, ou seja, vai ser incorporado a própria cultura de gestão fiscal do país.

Elder Dias –  Vivemos um momento em que há duas forças polarizadas, consideradas por muita gente como extremos. O senhor viveu o governo Lula durante oito anos e depois o governo de Temer. O senhor acredita que Lula realmente é extremista?
Não. Quando ele foi presidente, particularmente no primeiro mandato, você vai ver nomes que não são de esquerda. Eu estava no Banco Central, tinha o Luiz Fernando Furlan no Ministério de Indústria e Comércio. Tínhamos o Roberto Rodrigues que foi ministro da Agricultura. Ou seja, eram líderes empresariais. O primeiro mandato foi um governo de centro.

O segundo mandato ele foi mais à esquerda, que foi com a gestão de Guido Mantega na Fazenda. Mas o que será o Lula em um eventual novo governo eu não sei. Vai depender muito das escolhas que ele for fazendo daqui até a eleição e depois da eleição também. A formação da sua equipe vai dizer. Vamos aguardar.

Marcos Aurélio Silva –  Em uma recente entrevista de Lula ele disse que acreditava em um reencontro com o senhor. Como o senhor recebe isso?
Eu tive uma experiência de trabalho com Lula que foi muito positiva. Não tenho dúvida. Tenho satisfação em conversar com ele. Nos últimos anos não temos conversado. Não quer dizer que a gente concorde em tudo, mas as conversas sempre houveram e não tem problema.

Elder Dias – Quando o senhor esteve à frente do Banco Central, o senhor notou algum intervencionismo da parte dele?
Não. Eu sentia uma discordância e visões diferentes. Em 2005, ele estava se preparando para disputar a reeleição, e me disse que se continuássemos com uma política dura iria perder as eleições. Eu respondi que tínhamos um acordo para ele dirigir o país e eu o Banco Central. Falei que a inflação estaria na meta e que o Brasil cresceria. E foi isso. 

“Furo no teto de gastos enfraquece as defesas da economia brasileira e piora o desempenho”

Nunca houve interferência e eu também não aceitaria se houvesse. Nosso acordo na época foi de que teríamos independência. Foi uma coisa chamada de autonomia operacional. Eu honrei o acordo. 

Elder Dias – E com o presidente Temer a conversa era mais tranquila?
São perfis diferentes em gestões diferentes. O Lula era mais um político executivo. O Temer era mais negociador e parlamentar. Temer também teve uma boa gestão. A relação com ele era muito boa. Muitas vezes ele também me questionava se alguma medida era necessária. Eu explicava para ele, esclarecia e tudo seguia.

Marcos Aurélio Silva – Falando em inflação, além da alimentação, o que mais dói no bolso do brasileiro é o combustível. Há muita discussão em torno disso, e uma delas é a transferência da responsabilidade para os estados, colocando a culpa no ICMS. Qual sua opinião?
O governo federal tentou desviar o assunto de onde o problema está. Os impostos federais ninguém fala. Ninguém fala no Pis/Cofins e o Cide. São impostos que incidem sobre o combustível. Sobre o ICMS, o que o presidente fez foi se desviar do assunto. Ele jogou para os estados. 

Temos também a margem de lucro da Petrobras. Ela trabalha com um custo de produção que está em um nível, que não se alterou com o custo internacional do Petróleo. O preço do barril sobe, mas o preço da produção não se alterou. Ou seja, a margem de lucro da empresa está altíssima. A Petrobras declarou e distribui para os acionistas algo em torno de R$31 bilhões. 

Então agora ficou claro que o problema não é nos estados. Outro fator é que o preço do combustível está atrelado ao dólar. E essa política fiscal, com debates sobre precatórios e furar teto de gastos, faz com que a moeda estrangeira suba. Tudo isso causado pelo governo federal. 

Os estados agora fizeram sua parte ao congelar o ICMS. Não vai fazer grande diferença. Agora tirou o assunto dos estados, e o governo federal será obrigado a enfrentar o problema.

Marcos Aurélio Silva – O senhor tem concentrado agendas em Goiânia e cidades vizinhas, mesmo estando residindo em São Paulo. Essa presença cada vez mais constante no Estado significa que sua pré-candidatura se mostrou viável? É irrevogável a decisão de se lançar ao Senado?
Do ponto de vista jurídico eu sou pré-candidato, pois candidatura apenas a partir das convenções. Está indo muito bem o trabalho de pré-campanha. Primeiro que tem dado resultado das reuniões com lideranças políticas, empresários e religiosas. Essa parte está indo muito bem.

Por outro lado, também estou falando muito com a imprensa goiana. Existe um interesse das rádios e jornais em falar comigo e isso ocorre mesmo estando a distância. Essa é uma vantagem do mundo digital. Existe uma série de trabalhos que foram intensificados. São reuniões, contato com a imprensa, além das redes sociais. 

As pesquisas demonstram que minha candidatura está crescendo. Já há um movimento ascendente de posição nas pesquisas. Os dados ainda diferem um pouco a depender de quem se coloca no quadro eleitoral. As últimas pesquisas apontam que estou liderando em todos os cenários. 

Existe um quadro com evolução no nível de conhecimento do eleitoral acerca do meu nome como pré-candidato. À medida que se começa a configurar o quadro eleitoral há uma ascendência nas intenções de voto. Há também mais gente sabendo do meu trabalho, principalmente por Goiás.

Tenho tido mais presença em Goiás nas últimas semanas. Nestes últimos dias tive dezenas de reuniões, foram mais de cinquenta. É uma maratona, recebendo prefeitos, líderes e grupos de políticos. Tem sido uma dinâmica boa, tem funcionado bem para as discussões que pretendemos trazer. 

Elder Dias –  O senhor é reconhecido pelo seu pragmatismo, não seria diferente na condução de uma pré-campanha. O senhor deve ter também um radar de como estão os demais pré-candidatos ao Senado. O que o senhor espera deste quadro que se desenha na concorrência entre os pré-candidatos?
Eu acho normal uma disputa. Faz parte do processo. Estou liderando as pesquisas quando comparado a outros pré-candidatos, como o delegado Waldir Soares, Alexandre Baldy e João Campos. Nestes quadros eu tenho uma liderança tranquila. 

“As últimas pesquisas apontam que estou liderando em todos os cenários”

O delegado Waldir era quem estava mais próximo a mim nas pesquisas, mas nos últimos meses ele caiu um pouco e eu subi bastante. Isso ocorreu exatamente depois que comecei a fazer esse trabalho mais intenso de agendas em Goiás. Nas pesquisas estimuladas, que colocam alguns nomes que não são candidatos, o único que hoje estaria próximo ao meu nome, é o de Daniel Vilela (MDB). Mas ele é candidato a vice-governador. Então ele não será meu concorrente, certamente. 

As pesquisas estimuladas sem o nome do Daniel Vilela trazem números que me colocam em liderança sólida. Com o nome dele presente ficamos juntos ou às vezes ele com um ponto a frente. 

Em resumo, estamos bem. Mas agora, é evidente, que há uma campanha muito antecipada. Normalmente, neste período, não estaríamos tão engajados em uma pré-candidatura. Mas estou tranquilo, é positivo, pois, tenho mais tempo para divulgar as propostas e meu nome. E temos tido o retorno que há o interesse do eleitor em ouvir e discutir política. A medida que se adianta a campanha mobiliza muito o interesse do eleitor. De certa forma, isso possibilita que eu faça a divulgação e conversas que em eleições anteriores não seria viável nesta fase. 

Há interesse das pessoas em conversar comigo. Muitos querem saber de nossos projetos. Há prefeitos que viajam até a capital para poderem conversar e reuniões. Isso permite que haja uma eficiência grande na comunicação. Essa é uma vantagem que eu tenho que é despertar essa disposição nas pessoas em conversar comigo.

Marcos Aurélio Silva – Os números das pesquisas, a necessidade de reforçar sua presença em Goiás e o interesse em lideranças em manter um diálogo contínuo com o senhor, de alguma maneira forçar sua demissão do governo de João Doria (governador de São Paulo), para se dedicar à campanha? O senhor já tem uma data para pedir a exoneração?
Não tem uma data marcada. A data limite, do ponto de vista legal, é o mês de abril. Mas de forma prática e pensando na política, essa decisão de deixar a gestão tem que ser antes. Isso deveria ser mais próximo ao início do ano. 

O que me dizem é que o mês de janeiro não é uma data que acontece muita coisa na política. Mas a partir de fevereiro já se afunilam muitas discussões. A minha ideia é que a partir de fevereiro eu esteja em período integral na campanha.

Marcos Aurélio Silva –  Nestas reuniões com lideranças, em algum momento houve negociações para indicações de seus suplentes? Já há alguma conversa neste sentido?
Existem algumas pessoas que não falam diretamente, mas que certamente seriam nomes possíveis para suplência. Não estou entrando nesse debate ainda. Creio que deve ser um assunto que venha na devida hora e momento. Essa definição ainda não há. Será levado em consideração os fatores que agregam a chapa.

“Há interesse grande em relação a minha suplência”

Há um interesse grande em relação a minha suplência. Isso ocorre, pois há uma percepção de que minha candidatura será vitoriosa. Isso, por si só, faz com que a vaga de suplente tenha grande interesse.

Elder Dias – Para vaga de suplente, o senhor prefere um político, uma liderança religiosa ou alguém do setor econômico?
Eu não tenho essa definição ainda. Eu estou fazendo neste momento o levantamento. Conversar e dialogar para chegar aos possíveis perfis que estariam interessados e o que elas adicionam à chapa.

Elder Dias – Essa escolha será do senhor ou do partido?
Será minha em conjunto com o PSD. 

Marcos Aurélio Silva – Boa parte da imprensa trata sua candidatura como certa na chapa que vai buscar reeleger Ronaldo Caiado. Mas quando olhamos atentamente a sua agenda, vemos que o senhor tem conversado com diferentes forças políticas, inclusive com um possível adversário do governador, que é o Gustavo Mendanha (sem partido). Isso quer dizer que não há uma definição?
A minha definição e do partido será tomada só no início do ano. No momento estou fortalecendo a minha candidatura. Essa definição será posterior.

Marcos Aurélio Silva – Mas qual a sua preferência?
Eu não trabalho com hipótese. Eu vou por etapas. Não gasto meu tempo pensando em “se”. Sempre me concentro no trabalho do momento e no próximo passo. E nossa caminhada no momento é em função da minha candidatura. 

Marcos Aurélio Silva – Mas o senhor tem se pautado pelas pesquisas, o que elas dizem em relação a qual lado seria melhor para sua candidatura?
É um levantamento que não fizemos. As pesquisas não abordaram esse recorte. Inclusive as candidaturas estão em fases muito diferentes. O governador Ronaldo Caiado está em uma gestão de quatro anos. O Mendanha é um prefeito de uma cidade importante e que está se lançando agora para o estado. Por enquanto eu não tenho analisado esse aspecto. 

Elder Dias – O senhor tem um projeto sobre o que faria no Senado para Goiás. O que o senhor vê de prioridade para o Estado?
É algo para todo o Brasil, mas para Goiás também, a prioridade agora é a criação de emprego e renda. As pessoas estão esperando isso para hoje. Sou muito procurado por investidores e empresários nacionais e internacionais, que se consultam comigo em razão da minha experiência de gestor. Eles me perguntam onde devem investir no Brasil. E eu posso dar uma opinião qualificada e séria, com as vantagens comparativas de Goiás, por região, que companhia deve investir em Goiás.

Tudo isso é algo que posso de uma forma correta e tecnicamente bem colocada, direcionar investimento para Goiás. Acredito que posso colaborar com a geração de um grande número de empregos no nosso estado. Eu acho que é isso que a população espera hoje. Essa é uma das razões para que exista receptividade a minha candidatura.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.