“O PMDB vai lançar candidato a prefeito, com DEM e PT ou sem DEM nem PT”

Vice-prefeito de Goiânia diz que salários milionários da Comurg não impactam substancialmente a folha e garante que número de comissionados foi drasticamente reduzido

Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

Ele foi o vice-prefeito escolhido a dedo por Iris Rezende (PMDB) para a chapa encabeçada pelo prefeito Paulo Garcia (PT). A vitória em primeiro turno foi a única facilidade que o jovem Agenor Mariano encontrou nestes dois anos e meio compartilhando a administração municipal. Os tempos de bonança, porém, parecem voltar a dar sinais de que passaram pelo Paço: o petista tem se mostrado bem mais desenvolto à frente da gestão e a atual boa relação com o governador Marconi Perillo (PSDB) parece ser bem mais do que uma breve trégua.
Na semana em que assumiu a cadeira do titular — que foi ao Vaticano para uma reunião com prefeitos do mundo inteiro, a convite do Papa Francisco —, o peemedebista falou também ao Jornal Opção sobre as dificuldades que, agora, estão sendo superadas pela Prefeitura, da conjuntura nacional — em que seu correligionário Eduardo Cunha, presidente da Câmara dos Deputados, é protagonista — e da movimentação em torno da sucessão municipal.

Elder Dias — A aliança entre PMDB e PT em Goiânia ficou abalada, a partir da possibilidade de Ronaldo Caiado passar a ser aliado dos peemedebistas. De um lado e de outro há quem queira manter e quem queira romper a aliança, embora o PMDB tenha cargos na administração, incluindo o de vice-prefeito, como é o seu caso. Como o sr. vê essa questão?
Em toda questão há opiniões divergentes, até numa família. No caso dos partidos políticos e dos processos eleitorais, há prazos a serem cumpridos. Podemos brigar hoje com o PT e fazer as pazes amanhã. Podemos convidar o DEM para aliança hoje, e brigar com ele depois. Tudo isso e muito mais pode ser feito até o dia 30 de junho de 2016, que é o prazo da Justiça Eleitoral. Só depois disso teremos uma verdade. Por agora, nem perco tempo com isso, porque não vai haver definição.

Cezar Santos — Mas o sr. acha melhor manter a aliança com o PT ou partir para aliança com o DEM?
Politicamente para o PMDB é estar ao lado do povo. Nossa agenda é a agenda do povo. Mas o povo muda…

Cezar Santos — Mas qual é a sua opinião?
Minha opinião hoje é manter a aliança com o PT, já que ajudamos a elegê-lo e fazemos parte da administração. Peemedebistas estão na Prefeitura, a convite do prefeito Paulo Garcia, e ajudamos o PT a governar e eu sou vice-prefeito. Mas, eleitoralmente, os partidos vão sinalizar no tempo certo o que pretendem fazer.

Cezar Santos — O PMDB vai ter candidato a prefeito no ano que vem, independentemente do que o PT faça?
Nesse momento a nossa sinalização é que vamos lançar candidato a prefeito, com DEM, sem DEM, com PT ou sem PT. Veja que estou tendo uma posição imperativa agora, mas isso pode mudar lá na frente. Minha posição hoje é essa, mas daqui até a eleição, o cenário pode se transformar, o PMDB poderá até abrir mão de cabeça de chapa. Mas, hoje, o PMDB terá candidato.

Frederico Vitor — E se o PT também disser que vai ter candidato?
É um direito do PT lançar candidato, aliás, como foi ao governo no ano passado. Entendo que a imprensa busque saber dos atores políticos as nossas posições agora, mas nada que fizermos neste momento tem garantia de que se consolidará no ano que vem.

Marcos Nunes Carreiro — Ronaldo Caiado já está trabalhando a eleição municipal para o PMDB no interior. A aliança com o DEM já está feita. Com Caiado na mesma aliança, seria incoerência das três partes: PMDB, PT e Caiado. Como fica?
Se ele já está trabalhando pelo PMDB, ótimo, que bom, vou agradecê-lo. Mas já ouvi que seria impossível uma aliança do PT com o PMDB, e ela foi feita. Aliás, o que mais ouço é sobre impossibilidades, que acabam se tornando possíveis na prática. Acho possível sim que PMDB, DEM e PT caminhem juntos. Até porque não será uma eleição ideológica. O problema do PT com o DEM é ideológico, o que se acirra muito no cenário federal, nos embates legislativos. Mas quando se vem para as eleições municipais estamos falando sobre aspecto mais operacional, de gerir uma cidade. Não acho que haja um impeditivo ideológico para PT e DEM estarem juntos numa chapa municipal, vai haver isso em alguns dos 246 municípios goianos, sem dúvida, embora falem mais de Goiânia por ser a maior vitrine.

Marcos Nunes Carreiro — Caiado fez seriíssimas críticas ao prefeito Paulo Garcia, taxando-o de incompetente, ao que o prefeito respondeu no mesmo tom. Eles “esqueceriam” isso numa aliança?
Ronaldo Caiado já apoiou Marconi Perillo, ajudou a elegê-lo; e já xingou Iris Rezende. O fato de haver uma rusga pontual neste momento entre Caiado e o prefeito Paulo Garcia, não quer dizer que daqui a um ano não possam… Paulo não será candidato, e Caiado estar com o PMDB não será necessariamente um apoio dele ao Paulo. Estamos falando de composição de partidos para uma eleição, e partido não é de uma pessoa. O próprio PT, por exemplo, tem várias tendências. Lembre que a aprovação do PT para entrar na aliança com Iris em 2008, na reeleição, se deu por um voto de diferença. Então, tudo é possível. Aliás, neste momento, o que talvez não seja possível é uma aliança entre PMDB e PSDB, mas amanhã eu não sei a conjuntura nacional, o que pode virar.

Cezar Santos — Iris é o pré-candidato do PMDB em 2016?
Se depender dele não.

Cezar Santos — Como assim, ele está doente?
Não, pelo contrário, ele está muito forte. Mas se depender dele, neste momento, ele não é candidato. Mas o partido entende que ele é o melhor nome.

Cezar Santos — Há uma grita desde sempre pela renovação no PMDB e aí se diz que Iris pode lançar um nome jovem. Quem seria? O sr. está nessa possiblidade?
O partido tem vários possíveis pré-candidatos no caso de não ser Iris. Dizem que eu, por ser vice-prefeito, teria possibilidade. Mas essa fila anda com consenso do partido, ninguém é candidato de si próprio. Você precisa angariar apoios, ter recursos, ter densidade eleitoral e cada um deve fazer essa análise. No momento, o partido vê que Iris é o nome que reúne todas essas características. Amanhã pode ser que Iris não queira ser candidato — e eu acho muito difícil que ele não seja. Todas as vezes que o PMDB precisou de Iris ele atendeu, e talvez na eleição do ano que vem seja a vez que o partido mais vai precisar dele. Acho difícil ele se negar a mais uma vez atender o PMDB. Hoje, a candidatura de Iris a prefeito é unanimidade entre os peemedebistas.

Cezar Santos — Até Maguito e Daniel Vilela pensam assim?
Eles pensam também acham que Iris é o nome. Maguito esteve comigo ontem e me falou isso. Quem tem chance de ganhar a eleição pelo PMDB é Iris.

Marcos Nunes Carreiro — O sr. não tem articulado o seu nome?
Nem eu nem ninguém. Aliás, nem o próprio Iris tem articulado. Mas o partido tem Iris como o nome mais forte e as pesquisas mostram isso. E o PMDB quer ganhar a eleição, partido foi feito para ganhar a eleição, não tem isso de só participar de eleição. Tirar Iris é igual tirar Neymar do jogo. Ninguém é doido de tirar o Neymar, não vamos tirar o Iris.

Frederico Vitor — Se o PMDB precisa de Iris para 2016, Iris precisa de Caiado como principal cabo eleitoral em Goiânia?
Se Iris for o candidato precisa sim, porque não conheço candidato que não precise de apoio. Nós precisamos de Caiado, precisamos do PT, precisamos de todos que queiram nos apoiar.

Elder Dias — O PMDB aceita qualquer apoio?
Não, já falamos que não aceitamos apoio do PSDB. Acho que nem para estas eleições municipais nem para a próxima (ao governo) não vamos aceitar, a não ser que eles queiram desistir de candidatura para nos apoiar sem receber nem a vice (risos).

Elder Dias — Falando sobre a gestão, após uma crise grave, o Paço Municipal dá sinais de recuperação, com obras do BRT e outras. O Paço, aparentemente, tem tido mais autonomia. Faz sentido, já que, de agora até o fim da gestão, Paulo Garcia não precisa firmar nenhum acordo para eleições. Essa administração mais livre, tem contribuído positivamente com a cidade. Ao mesmo tempo, existe uma relação mais republicana com o governador Marconi Perillo. Como o sr. analisa este ano da Prefeitura, com o Brasil em crise e a Prefeitura com a indicação de estar “saindo das cordas”?
Na verdade, o conhecimento da crise se deu em 2015, mas seus sintomas vêm desde 2013, quando já sentimos uma grave dificuldade econômica no município. Em relação à liberdade política gerencial e administrativa, Paulo Garcia sempre a teve. Ele assumiu o governo em 2010, mais precisamente no dia 1° de abril, e desde então é o prefeito de Goiânia. É bem verdade que — por ser vice e ter assumido o governo, mais o sentimento de gratidão apurado que tem pelo ex-prefeito Iris, naqueles primeiros dois anos e meio, concluindo o governo para o qual Iris tinha sido eleito — talvez ele tenha ficado mais acanhado ou algo assim. Porém, Paulo foi reeleito em 2012 no primeiro turno, disputando eleição entre sete candidatos e com 54% dos votos.

Ou seja, ele foi extremamente aprovado já com quase três anos à frente do governo. Foi a população que o elegeu. Quando 2013 chegou, ele já teve 100% de liberdade para formatar o governo dele, com suas conjunturas e tudo mais. Desde o primeiro dia, ele já sabia que não teria mais reeleição, já tinha essa liberdade.

Cezar Santos — Por que os índices de popularidade de Paulo Garcia caíram tanto desde então?
Eu imagino que vários fatores podem ter levado a esses índices que você relata. Primeiramente, a dificuldade financeira por que o país passou e com a qual houve queda de arrecadações. Houve também crescimento vegetativo da folha de pagamento dos servidores, de benefícios. Vocês sabem que tivemos greves que implicaram negociações em que houve ganho para os servidores. Despesas de folha de pagamento são mensais, é um ato continuado, ou seja, não é algo que pode simplesmente ser reduzido. Para ter ideia, o número de comissionados na Prefeitura é insignificante frente à quantidade de servidores efetivos. A Prefeitura tem mais de 50 mil servidores efetivos e apenas mil comissionados. Portanto, porcentualmente falando, estes representam quase nada em relação aos demais. Isso já é fruto de uma redução que vem acontecendo, pois, com cada reforma administrativa, se reduzem mais e mais cargos comissionados.

Cezar Santos — Ainda assim, continua havendo salários milionários na Comurg.
Os salários milionários da Comurg nada mais são que amorais. São vencimentos de acordo com a lei e, porcentualmente, não colocaram a Prefeitura em dificuldade. O que há é apenas uma necessidade que nós, como cidadãos, precisamos ter de compreender o porquê alguém pode ganhar tanto.

Cezar Santos — O sr. fala de forma a minimizar o problema…
Não é questão de minimizar. Quem minimiza não sou eu, são os cálculos. Vamos calcular todos os supersalários e, então, cortar todos; você verá que a Prefeitura continuará com alta dificuldade. Por isso, eu disse que não é ilegal, é amoral, pois você vê pessoas ganhando R$ 1 mil e outras ganhando R$ 80 mil reais. Isso é o que causa uma repulsa da sociedade, uma revolta. Quais são os motivos de aquela pessoa ganhar tal supersalário? Eles estão dentro dos processos que correram na Justiça, não sou eu, Agenor Mariano, que acho que é ou não legal. De forma alguma: isso é porque a Justiça deu causa ganha a eles e eu, de meu lugar de gestor e o prefeito, do lugar dele de prefeito, temos de cumprir as decisões da Justiça.

Se falarmos de uma crise econômica, matematicamente, os altos salários não são os culpados. Muitas vezes, são mesmo os salários de R$ 1 mil muito mais responsáveis, por sua quantidade; afinal temos 50 mil servidores. Por exemplo, todos os dias as pessoas cobram vagas no Cmeis e eles precisam de servidores; é preciso contratar mais pessoas para tocá-los. Construir Cmeis é fácil, o difícil é colocar as pessoas lá dentro e pagá-las todo mês para cuidar do local. E isso é pelo resto da vida. Antes, tinha 36 Cmeis e, hoje, tem mais de 120 unidades.

Outro exemplo: os Cais antigamente funcionavam apenas 12 horas por dia. Automaticamente, isso significa que tivemos de dobrar a quantidade de funcionários para atender a população quando as unidades passaram a ser 24 horas. Foi preciso contratar mais servidores, além dos que entram de férias e licenças. Quando perguntam “por que vocês têm tanto servidor?”, a resposta é: porque a Prefeitura avançou muito na prestação de serviço na área social. Por que ainda reclamam, se você está gastando quase 20% com a saúde, quando a obrigação era 15%? Por que ainda vemos pessoas reclamando? Porque cada vez que se avança, mais pessoas saem dos hospitais particulares para procurar o serviço público. Isso só chegará ao fim quando tudo for público e não tiver mais nada particular, que é o que diz a Constituição.

Marcos Nunes Carreiro — Ainda quanto à Comurg, o prefeito Paulo Garcia disse que despacharia, pelo menos por um dia na semana, de lá. Parece-me que a Secretaria de Finanças também vai passar para lá, o que significa que o Paço Municipal está fechando o cerco para não ter mais nenhum tipo de escândalo, como os dos últimos anos. Ou seja, a Prefeitura ainda tem preocupação com a questão da Comurg?
Primeiramente, é preciso dizer que o salário é apenas um dos itens da pauta da Comurg, que é extremamente heterogênea. O salário, tanto da Comurg como da Secretaria de Cultura, da Saúde etc., em qualquer órgão, será sempre motivo de nossa preocupação e nosso controle. Ao dizer que estará de forma mais presente na Comurg — o que ele não conversou ainda comigo —, imagino que o prefeito demonstra com isso o quão importante é para Goiânia esse órgão, seja em sua eficiência de prestação de serviço ou na questão dos salários.

Acredito que o prefeito queira dar um ritmo de gestão à Comurg, com diminuição de custo e aumento da efetividade, o que é natural. Geralmente, os governos quando querem dar uma nova roupagem e mostrar empenho do próprio chefe do Executivo, essa é uma ação que se faz, para dizer algo como “eu estou preocupado e essa é minha prioridade”. Por exemplo, Iris ganhou a eleição com o mote de que iria asfaltar todas as ruas de terra do município de Goiânia. Mais do que nunca, ele montou sua administração fortalecendo a Secretaria de Obras e o Der­mu/Com­pav [o extinto Depar­tamento de Estradas de Rodagem do Município], para garantir sua promessa de campanha. Iris alocou orçamento e buscou um ex-senador da República, Mauro Miranda, para ser seu secretário. Tudo por esse objetivo. Se nossa gestão agora tem uma visão de melhorar sua imagem, e eu acredito que ele tenha, é preciso fortalecer a própria Comurg com sua presença.

Marcos Nunes Carreiro — Um problema, falando da Comurg, é que a Prefeitura tinha esse serviço terceirizado antes da gestão Iris Rezende. Este a tomou de volta para a gestão, o que fez com que mais pessoas tivessem de ser pagas pelo poder público. E os problemas da Comurg começaram, justamente, naquele momento. Não seria a hora de a Prefeitura pensar em terceirizá-la, novamente?
Os escândalos da Comurg não são uma inovação. Eles sempre existiram, inclusive quando os serviços eram de uma empresa terceirizada. Foi nesse período da terceirização que existiu aquela história de mais de 7 mil comissionados. Portanto, não é coisa nova. Porém, quanto a ser terceirizada ou estatizada a administração, isso depende muito do momento, do gestor e da economia que ele quer fazer. Por muito tempo, a Comurg recebeu críticas da imprensa goiana devido a um contrato que existia com uma empresa que fazia, anteriormente, todo o trabalho com o lixo. Talvez, Iris tenha entendido, naquele momento, que o melhor seria romper o contrato, até mesmo para dar uma demonstração que o governo vinha para sanar qualquer dúvida que a sociedade tinha quanto à lisura dos processos. Quando ele encerrou o contrato e fez concurso para a Comurg, Iris, de certa forma, cessa qualquer possibilidade de desconfiança.

Isso, para começo de governo, é muito bom, porque mostra à sociedade que o político veio para fazer o que deve ser feito e não está com rabo preso com ninguém. Iris teve coragem de fazer essa interposição. Mas as decisões não são absolutas, cada governo que assume pode, dentro de sua visão gerencial, compreender o que é melhor. Não sei se o prefeito tem essa visão, nunca falamos sobre isso, mas o que percebo é que ele quer dar mais agilidade à administração da Comurg e emprestar à companhia seu prestígio como gestor.

Elder Dias — Em reportagem para o Jornal Opção, a vice-presidente do Conselho de Arquitetura e Urbanismo (CAU) Maria Ester de Souza disse que em Goiânia o planejamento só ocorreu de fato até meados da década de 40.
Talvez ela tenha dito isso porque justamente em 1950 a cidade já tinha 50 mil habitantes. O planejamento da capital não foi feito para uma data, mas para essa quantidade de pessoas. Então aconteceu um fenômeno que pode se repetir agora: em dez anos, Goiânia passou de 50 mil para 150 mil habitantes. Cresceu três vezes em uma década. Eu imagino que os gestores daquele tempo jamais esperavam que isso ocorreria nesse curto período e, talvez, não tiveram condições para segurar esse planejamento. Isso é algo parecido com o que vai acontecer agora.

Elder Dias — Mas se o sr. está dizendo que vai acontecer agora, não é o caso de a gestão ser pega de surpresa, como ocorreu na década de 50.
Espero que isso não aconteça com os governantes, até pela velocidade das informações. Mas hoje não há, em minha opinião, uma forma concreta de gerenciar essa questão da expansão urbana. Haverá momentos em que se deverá ser contra e em outros a favor de uma expansão.

“Opção da Prefeitura é pelo adensamento urbano”

galeriaElder Dias — Goiânia tem 789 quilômetros quadrados (km²). Buenos Aires tem 202 km² de superfície territorial. Nossa cidade tem praticamente a metade da população da capital argentina. Ocorre que esse contingente lá, de pouco mais do que o dobro de nosso 1,4 milhão de habitantes, vive em uma área quase quatro vezes menor. Ou seja, é uma cidade oito vezes mais compacta. A população goianiense poderia estar condensada e, ao contrário, buscam espalhar mais seus moradores. E, de tempos em tempos, surgem bairros longínquos, que são aberrações em termos de ocupação urbana, como o Conjunto Vera Cruz, o Setor Madre Germana, o Residencial Orlando Morais e o Jardins do Cerrado, cada um em uma década diferente. A Prefeitura sofre, em termos de recursos, para levar estrutura para essas áreas distantes. E na Câmara de Goiânia está surgindo uma pressão por nova expansão urbana, enquanto na mancha já ocupada tem 100 mil lotes vagos. Por que esse apelo por uma nova expansão urbana?
O prefeito Paulo Garcia gosta de citar um autor que disse que toda a população do mundo poderia viver no Estado do Texas (EUA), com a densidade populacional de Nova York. Sobraria, então, todo o restante do mundo para não ser degradado. A matemática provou isso. Então, há uma tese com certo sentido. O Plano Diretor de Goiânia em vigor favorece o adensamento, especialmente em torno dos eixos, que é uma forma de facilitar o acesso ao transporte.

A Prefeitura tem essa visão. Mas o fato de ter essa visão não significa que a ocupação vai se dar exatamente dessa forma. Como poder constituído, estabelecemos o Plano Diretor e determinamos como se quer que a cidade cresça. Mas a questão da expansão urbana não é só uma questão técnica ou arquitetônica. Não é somente o governante que está envolvido nisso.

A última expansão urbana aprovada foi em 2007. Estamos falando, então, de uma cidade que só se autorizou a fazer novos loteamentos há quase dez anos. Nesse tempo, a população aumentou em 300 mil pessoas. Vamos supor então que queiramos montar uma padaria, e que o melhor lugar seja numa esquina como a T-1 e a T-10, no Setor Bue­no. Exatamente no lugar onde está hoje a loja do Fujioka [empresa de equipamentos eletrônicos e fotografia]. Nessa hipótese, todos os estudos técnicos dizem que ali é o lugar de uma padaria e não de uma loja. Mas como fazer? Quiséramos nós, do poder constituído, que todas as decisões fossem pautadas tão somente no que fosse o melhor ou o ideal.

Ocorre, no entanto, que ao mesmo tempo em que não fizemos uma expansão urbana nestes últimos anos, todos os municípios vizinhos fizeram. E na divisa com Goiânia, como foi o caso de Goianira, que fez isso com um bairro enorme em que moram dezenas de milhares de pessoas. Todos ali trabalham em Goianira? Claro que não, quase todos trabalham na capital, mas seus impostos ficam para lá, não para nós. E utilizam o sistema de transporte ao qual damos suporte.

Recentemente, em Senador Canedo, foi lançado um grande empreendimento de condomínio fechado, que vendeu 1,2 mil lotes em um dia só. Foi um sucesso. Quem comprou essas unidades, moradores de Senador Canedo? Não, todos são daqui, do Setor Bueno, de outros bairros, que vão pagar ITU e IPTU para outro município. Ficamos protegendo o perímetro urbano de Goiânia, então, como se além dele não existisse nada.

Outra questão são as invasões. Já temos dois casos recentes de processos de ocupação de área em Goiânia. O que é isso? Pressão. Enquanto a situação social estava tranquila, com a expansão realizada, havia lotes disponíveis para que o indivíduo comprasse, para juntar economias para construir. A partir de quando não há mais essa disponibilidade, a coisa muda. Hoje não há loteamento em Goiânia. Ninguém acha um lote para comprar e pagar em parcelas.

Elder Dias — Mas há 100 mil lotes vagos em Goiânia.
Mas quem tem R$ 100 mil ou R$ 150 mil para poder pagar esse lote à vista, hoje?

Elder Dias — O papel do poder público não é facilitar esse acesso a esses lotes vagos, com o imposto progressivo, por exemplo?
A Prefeitura mandou o projeto do imposto progressivo para a Câmara, mas o Legislativo não encaminhou a questão. Vivemos em uma democracia.

Elder Dias — É culpa é da Câmara?
Não é culpa da Câmara. Ela representa o povo, e suas decisões têm que ser tomada quer eu goste ou não. Foi enviado para Câmara a questão do imposto progressivo e não foi aprovado. Na verdade, foi aprovado e depois foi desaprovado, estou lhe dando exemplos. Enquanto isso, quem está sem casa pagando aluguel não vai ficar esperando. Quem faz loteamento, com condições de pagamento justamente mais acessível, vai encontrar compradores que canalizam seus esforços para adquirir. Não se consegue comprar hoje em Goiânia lotes por menos de 70 mil reais. Quando a Prefeitura veio aumentar o IPTU e o ITU, este último que era para ser aumentado mais ainda, toda a imprensa foi contra.

Cezar Santos — Não foi a imprensa, mas a sociedade civil organizada. A imprensa noticiou os fatos…
Sim. Assim foi respeitado o desejo da sociedade. Só que no outro dia que amanheceu continuou tendo gente precisando morar. Com isso, começa a surgir as favelas e ocupações irregulares onde o individuo vem, ocupa e não tem nenhum tipo de ordenamento urbano.

Cezar Santos — O sr. disse que estão surgindo mais duas invasões. Onde?
Uma na saída para Goianira, no lado direito da rodovia. E a outra no residencial JK. Dizem que o dono do terreno vendeu de boca. Ou seja, quando tem a expansão, o indivíduo vem à Prefeitura, e se gasta quase cinco anos para aprovar, mas é aprovada com toda infraestrutura. Com asfalto, energia, esgoto. Todos que têm o projeto aprovado são obrigados a fazer a infraestrutura, pois a Prefeitura não a faz.

Elder Dias — Nem todos fazem estes serviços com qualidade. O asfalto é precário e os demais equipamentos são entregues com precariedade.
Mas uma vez não vai mudar o fato que o cidadão precisa morar. O que temos melhorar é a fiscalização da Prefeitura. Temos 100 mil lotes vagos na mancha de Goiânia. Se a Prefeitura tivesse dinheiro poderíamos comprar e dar para quem não tem dinheiro e começaríamos com estes 100 mil.

Elder Dias — Começaria se a Prefeitura tivesse conseguido aprovar o imposto progressivo.
Concordo com a visão dos eixos de nós fazermos prédios nestes eixos, em adensar. Mas acontece que isso não é lei, e não há aprovação de processo burocrático na Prefeitura que resolva. Se não resolver e a demanda continuar, as pessoas vão ocupar, sem asfalto, sem água, sem nada, fazendo necessidade em banheiro de buraco, para depois o poder público ter que ir lá para consertar o estrago. Depois há desocupações, e acontece igual no Parque Oeste Industrial, quando pessoas morreram naquele processo de desocupação. Muito antes de discutirmos o que está correto, não é a realidade do nosso País. Quando se permite ocupação de novas áreas, se minimiza os problemas. Os municípios lindeiros de Goiânia, todos aprovando loteamento, até um condomínio de rico foi feito fora de Goiânia.

Cezar Santos — Uma coisa mais próxima é a CEI das Construtoras. Os vereadores dizem que vão convocar o ex-prefeito Iris Rezende. Como o sr. vê esta questão?
O direito de convocar é uma prerrogativa do Legislativo. Se eles acharem que devem convocar, que façam. O Legislativo só não pode virar caluniadora oficial.

Cezar Santos — Convocar o ex-prefeito é calúnia?
Dizer que haveria problema no negócio sem ter o mínima fundamento? Porque não fala que tem problema primeiro de tudo, para depois convocar e ouvir. Conheço o processo a fundo, investiguei a fundo, e posso afirmar que, pelo que vi, não existe nenhum problema.

Cezar Santos — Nesse caso qual o problema do ex-prefeito ir à Câmara?
Não há. Só não pode tratar a coisa como os jornais falam. Só acho que os jornais divulgam o que os vereadores falam.

Cezar Santos — Há uma politização nesta CEI?
Sinto que há uma politização total. Mas cabe a cada um examinar a si mesmo. Quais são as suas reais motivações, quais são seus interesses em criar cenários, às vésperas do processo eleitoral, só porque sabem que o Iris é candidato. Como você vai chamar para falar de uma área, quando o processo está com toda aprovação no tribunal de contas? Como se vai chamar para falar de uma construção, quando todo o processo está aprovado. Mercado vive de credibilidade. Qualquer insinuação, uma vez comprovada lá na frente, dá um grande prejuízo para quem está neste processo. Tanto é prova disso que uma empresa, pelo que se tem conhecimento pelos jornais, tentou argumentar, mas não conseguiu, e sentindo-se ferida no seu direito, buscou a justiça. Tamanho o prejuízo.

Marcos Nunes Carreiro — O prefeito diz que vai entregar todas as obras prometidas na campanha. É possível, na medida que ele se afasta de Iris e se aproxima de outros gestores, como o governador Marconi?
Governo dura do primeiro ao último dia. Nesse intervalo de tempo se pode ter várias ações, vários comportamentos e agir de acordo com a música e com o cenário. Acho que o prefeito vivia um cenário muito difícil, está revertendo a situação, tentando organizar a casa e está perseguindo seu objetivo, que é o de cumprir suas promessas de campanha. O fato de ser o governador ir olhar obra, tanto faz ser ele, quanto a dona Cotinha, que mora lá e frente e tem direito de ir olhar a obra.

Cezar Santos — Dona Cotinha não faz parcerias administrativas.
Parceria com governador, nunca existiu até hoje. A única foi dos R$ 5 milhões que não vieram até hoje para os caminhões de lixo. Nunca entrou um centavo na Prefeitura por conta de ação do governo estadual.

Cezar Santos — Então a vistoria de obras com o governador foi só para mídia, uma ação de marketing do prefeito Paulo Garcia?
Não. Ele é um cidadão de Goiânia e tem direito de conhecer as obras. O prefeito foi conhecer o Hugol, uma obra importante, feita pelo governo do Estado, que teoricamente esperamos que venha aliviar o problema da saúde. O governador por sua vez foi visitar a obra do Macambira-Anicuns.

Cezar Santos — A Prefeitura não vai assumir a Vila Cultu­ral Cora-Coralina, no Centro da cidade, numa parceria com o governo?
Não tenho esta informação.

Marcos Nunes Carreiro — Qual a diferença principal entre as gestões de Iris e a de Paulo?
Cada época tem suas dificuldades e conjunturas. Paulo teve problemas de conjuntura que prejudicaram sua avaliação, mas ele ajusta a gestão, o que o está alavancando.

Marcos Nunes Carreiro — Consta que o prefeito Paulo Garcia pegou a Prefeitura num estado ruim financeiramente. Isso prejudicou o governo dele?
Não sei o que é estado ruim.

Marcos Nunes Carreiro — Uma dívida de 400 milhões de reais.
Ele disse isso?

Marcos Nunes Carreiro — Dados do TCM [Tribunal de Contas dos Municípios].
Do TCM? Você tem condições de nos passar isso, porque não temos conhecimento. Tinha R$ 140 milhões no caixa da Prefeitura no dia 31 de março de 2010. Então, não conheço os dados do TCM que mostram o déficit.

Vice-prefeito Agenor Mariano: “Até hoje não entrou nenhum dinheiro do governo estadual na Prefeitura de Goiânia” | Foto: Fernando Leite

Vice-prefeito Agenor Mariano: “Até hoje não entrou nenhum dinheiro do governo estadual na Prefeitura de Goiânia” | Foto: Fernando Leite

Elder Dias — O presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, é apontado como peça-chave para abrir uma crise maior ou menor no País. Como o sr. vê a figura de Eduardo Cunha?
Eduardo Cunha, até o momento, tem sido, do ponto de vista legislativo, o melhor presidente da Câmara desde o processo de redemocratização. Disparado. Sobre denúncias contra a sua idoneidade, não tenho como mensurar, pois são do delator da Operação Lava Jato, o qual, para fazer tais denúncias, terá o benefício de ficar menos tempo preso.

Cezar Santos — Mas esse benefício só vale se as denúncias se comprovarem verdadeiras.
Sim, mas ele ter falado antes de Eduardo Cunha poder se defender já condena o deputado para o País inteiro.

Cezar Santos — E como o sr. avalia o rompimento pessoal dele com o governo Dilma?
Ele tem todo o direito de fazer isso. E ele foi muito verdadeiro ao dizer que o seu rompimento era pessoal e não do partido. E o partido tem o direito de negar o rompimento até certo ponto.

Cezar Santos — Em face disso tudo, chegou a hora de o PMDB ter candidato à Presidência, ou o partido continuará a reboque dos outros?
Se dependesse de mim, que sou um grão de areia no universo do partido, o PMDB nunca deixaria de ter candidato à Presidência. Não é que sou intransigente com relação a alianças, mas o partido deveria ter tido candidatos.

Elder Dias — Quais peemedebistas têm consistência para disputar?
O nome mais consistente que se tem hoje é o do próprio Eduardo Cunha. Porém, evidentemente, é necessário agora averiguar a questão da sua idoneidade. Se ele conseguir comprovar sua idoneidade, continuará a ser um candidato forte, pois tem capacidade aglutinativa. Se as denúncias vierem a se confirmar, temos Michel Temer, na condição de vice-presidente, e outros que estão nesse momento intocados, que podem se apresentar no momento oportuno.

“É maravilhoso ser prefeito”

Agenor Mariano (centro), na interinidade como prefeito de Goiânia: vistoriando frente de serviços | Prefeitura/divulgação

Agenor Mariano (centro), na interinidade como prefeito de Goiânia: vistoriando frente de serviços | Prefeitura/divulgação

Cezar Santos — O que Goiânia ganhou com o sr. à frente da gestão nos cinco dias em que o prefeito Paulo Garcia esteve fora?
Minha missão foi dar sequência ao trabalho que o prefeito Paulo Garcia tem desenvolvido nesses últimos tempos. As pessoas costumam valorizar aquilo que é visível, mas a rotina de uma prefeitura é muito mais. Como prefeito, em poucos dias, por exemplo, eu devo ter assinado cerca de 30 aposentadorias. São pessoas que estão aguardando uma assinatura para desenrolar suas vidas. Então, se o prefeito viaja e fica cinco dias fora, inúmeros documentos burocráticos dos quais dependem a gestão, ficam acumulados. E as pessoas sofrem. Por isso, ter um vice-prefeito para assumir a gestão é importante.

Além disso, o prefeito pediu para que eu pudesse realizar ações em algumas regiões de Goiânia para agilizar obras já autorizadas, mas ainda não executadas. Então, assumi esse processo, que chamamos de Frente de serviço, em 12 bairros da região Sudeste, como Parque Atheneu, Jardim Mariliza, Arco Verde, Residencial Ville de France, Jardim Vitória, Chácara do Governador, Parque das Laranjeiras, Parque Santa Cruz, Jardim Bela Vista, etc.

Cezar Santos — Que tipo de obra?
Sinalização de trânsito, troca de lâmpadas, reforma de meios-fios quebrados e cruzamentos, que estavam provocando acidentes. Estive lá com a SMT. Além disso, realizamos a pavimentação de uma avenida de 1.500 metros de comprimento: a Avenida Barbosa Rodrigues, entre os jardins Athenas, Paris e o Jardim Mariliza. O local estava servindo de descarte de lixo e, agora, teremos uma avenida lá. Também estamos fazendo o recapeamento total da Avenida Flamboyant, no Parque das Laranjeiras, que há mais de 30 anos não era recapeada. Foi feito também a fiscalização de propagandas irregulares. A Amma [Agência Municipal do Meio Ambiente], por meio do secretário Nelcivone Melo, arrancou quase 500 outdoors irregulares em Goiânia. A SMT também desenvolveu ações no sentido de multar quem parar em vagas de portador de necessidades especiais e idosos. Então, são essas as ações, fruto de muitas reuniões que fiz com os secretários, e que foram realizadas nesses cinco dias.

Cezar Santos — É bom ser prefeito?
É maravilhoso ser prefeito quando se tem a oportunidade de fazer essas ações e de ir lá para a rua conversar com o povo e dar a ele a oportunidade até de se queixar, de desabafar e dizer do seu sentimento enquanto cidadão que paga imposto e quer ver o retorno disso. Graças a Deus eu tive a oportunidade de ir para a rua em um momento em que estávamos levando os benefícios. Por exemplo, chegamos a um ponto da Avenida Flamboyant e tinha uma árvore enorme e morta. O dono de um salão de beleza veio me mostrar o protocolo de solicitação para a retirada da árvore. E, como estávamos em um ritmo meio de mutirão de trabalho, estavam presentes a Amma, a Comurg, entre outros órgãos. Na mesma hora, chamei um técnico da Amma e ele constatou que a árvores estava morta. Falei então para o presidente da Comurg: “Arranque agora.” Na mesma hora, derrubaram a árvore. Então, esse tipo de oportunidade gera no cidadão uma credibilidade no poder constituído.

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