“O PMDB precisa sair da pauta negativa ou vai mesmo sofrer uma debandada”

Nome mais promissor e recordista de votos do partido, deputado critica caça às bruxas e é taxativo ao dizer que Iris Rezende não deve mais disputar mandato

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Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

Daniel Vilela tem apenas seis anos com mandato — dois como vereador e quatro como deputado estadual —, mas já mostra claramente, a todo bom entendedor político, que não pode mais ser considerado simplesmente “o filho de Maguito Vilela”. É inocência creditar sua votação estrondosa à Câmara Federal — praticamente 180 mil votos, ofuscada pelo fenômeno do PSDB, delegado Waldir Soares, com quase 275 mil — à influência de qualquer parentesco. “Sem falsa modéstia, tive o desprendimento para construir isso. Se ficasse quieto em Goiânia esperando que os votos aparecessem, não iria acontecer nada”, resume. Resultado: foi votado em 237 dos 246 municípios goianos.

A administração bem avaliada do pai em Aparecida de Goiânia pode ter ajudado nas eleições (teve 55 mil votos no município), mas Daniel hoje tem brilho próprio, como mostra nesta entrevista ao Jornal Opção: bem articulado, mostra raciocínio rápido e um discurso consistente e moderno. Enxerga que é preciso um novo jeito de fazer política, o que, em sua avaliação, os caciques de hoje não conseguem mais captar. Aos 31 anos, o peemedebista já está investindo na própria atualização, concluindo pós-graduação em Administração Pública na Fundação Getúlio Vargas (FGV).

Depois de perder as últimas cinco eleições ao governo do Estado, ninguém de dentro ou de fora do PMDB duvida que o partido precisa se reinventar. E isso não virá com a expulsão de quadros infiéis na disputa estadual, acredita o deputado. “Não defendo expulsão, o partido tem de sair dessa pauta negativa e pensar para frente”. Em relação a outra medida para o futuro próximo, Daniel é contundente: nada de Iris para prefeito de Goiânia. “Sou radicalmente contra uma candidatura de Iris e quero crer nas palavras dele, feitas publicamente, de que não será mais candidato.”

Cezar Santos — Após a quinta derrota consecutiva, o PMDB não corre o risco de virar um partido nanico, por causa da crise sem precedentes em que está? O sr. concorda que há uma crise no PMDB?
Estou em constante contato com os companheiros no interior e não acredito que o partido viva uma crise de desidratação. Uma quinta derrota é um fato grave, o partido precisa se repensar, olhar para trás apenas para identificar os problemas, mas não para punir ou fazer caças às bruxas. Temos de tirar lições das derrotas e não cometer os mesmos erros. Talvez o PMDB goiano seja um “case” a ser estudado. Como um partido sobrevive a 16 anos de seguidas derrotas, enfrentando um adversário extremamente competente politicamente para enfraquecer seus opositores e ganhar eleições — inclusive se recuperando de reveses que ninguém imaginaria possível — e, mesmo assim, conseguir nesse período todo eleger o maior número de prefeitos, de vice-prefeitos e de vereadores no Estado? Outra: até a eleição de 2010, conseguimos fazer a maior bancada de deputados estaduais e federais. Ou seja, o partido é muito forte; se não fôssemos, provavelmente hoje já seríamos uma sigla nanica. Mas concordo que o risco de viramos nanicos existe hoje, após a quinta derrota. Tudo vai depender de nossas atitudes nos próximos quatro anos.
É um momento favorável para que o partido se revigore. Quando há um grupo adversário com um líder forte que consegue atrair alianças, que aglutina, mas que não vai mais ser candidato, isso abre nova perspectiva política para o Estado. A possibilidade de em 2018 haver um novo rearranjo partidário em Goiás é muito grande, porque os aliados do governador vão buscar espaço para protagonismo a partir do fim deste mandato. Nesse processo, vão ocorrer muitas fraturas. O PMDB precisa estar desprovido de vaidades, de preconceitos, para construir uma aliança significativa para ganhar as eleições. Mais uma vez ficou claro que em Goiás não se ganha campanha sozinho. Vanderlan Cardoso é um exemplo: bom candidato, bom recall, mas não vai ganhar eleição enquanto não se unir a um grupo consistente. Ninguém precisa se unir com qualquer um e a qualquer preço, mas por que o PTB não pode ser nosso aliado em 2018? O PR, que já foi aliado nosso há muito tempo, pode voltar a ser. O partido que tiver esse “feeling” vai sair na frente dos demais nos próximos projetos estaduais.

Elder Dias — Quando Iris Rezende (PMDB) perdeu essa capacidade de aglutinar os demais em torno de si?
Estar no poder facilita isso. E Marconi sabe fazer essa aglutinação. O poder atrai partidos e traz facilidades, como para ajudas para campanha eleitoral. Isso dificulta muito para a oposição. Não é que Iris tenha perdido a capacidade de liderar ou aglutinar, não é isso. Iris é a referência da oposição, mas não tem as ferramentas de que o governo dispõe e as quais o atual governador sabe usar como ninguém. O governo hoje tem tantas secretarias para agasalhar os aliados que nem vocês que acompanham a política sabem o nome de todas. Há políticos que ninguém conhece, do Estado inteiro, ocupando cargos de primeiro escalão. Marconi sabe usar isso com muita competência política, é inegável. Lembro que é assim também no governo da presidente Dilma, para quem pedi voto, todos falam de seu grande número de ministérios. Lula, que também é muito competente, percebeu a necessidade de compor e disse para Dilma que precisava ter tempo de TV na campanha. Por isso, buscou atrair tantos partidos. Por isso, foi atrás do PP de Paulo Maluf. No fim, Dilma teve um tempo de TV muito maior do que os adversários no primeiro turno, o que possibilitou ao PT virar em cima de Marina Silva (PSB). Não estou entrando no mérito da qualidade da propaganda da Dilma, só estou dizendo que o tempo foi fundamental. Dilma conseguiu se recuperar por duas vezes durante a campanha, eu nunca tinha visto isso.

Euler de França Belém — Por que houve essa virada?
Por causa disso, do tempo maior na TV no primeiro turno. E o marqueteiro [João Santana] soube fazer a leitura qualitativa do quadro, fazendo o contraponto de Marina naquele momento e a enfraquecendo. No segundo turno, além das estratégias contra os adversários, com questionamentos e comparações, houve também o peso do voto do Nor­deste, sem dúvida.

Elder Dias — Reformulando a pergunta anterior, Iris continua sendo o mesmo líder de 20 anos atrás, com a mesma capacidade de aglutinar, só que sem poder?
Sobre aglutinação, como falei, é preciso ter ferramentas, não é só capacidade pessoal. Infelizmente, o jogo político exigiu dos candidatos nas últimas eleições negociações, vamos dizer assim, “não republicanas”. Não estou dizendo que houve gente “comprada”, mas se negociou espaço político dentro do governo, o que faz toda a diferença para aglutinar.
Entendo que Iris, Maguito Vilela (PMDB) e até o governador Marco­ni já não estão tendo mais a capacidade de se atualizar em relação à per­cepção da sociedade com a classe política. Quando um político foge de entrevista, quando não dá conta mais de ser questionado, tem algo errado, começou a perder essa sensibilidade. As pessoas estão muito mais críticas e essas críticas ficam muito mais expostas, através das redes sociais, que proporcionam maior alcance. As pessoas estão querendo mais qualidade da classe política, querem resultados, eficiência. O re­cado das manifestações do ano passado foi nesse sentido: “queremos serviços públicos de qualidade, vo­cês vão ficar aí com o poder cheio de anomalias, de artifícios e mordomias, e nós aqui com serviços precários?”.
Alguns políticos nossos não estão tendo mais essa percepção. Na campanha à Presidência, Aécio Neves (PSDB) deu aquela virada no fim do primeiro turno porque se sobressaiu de forma discrepante no debate da Rede Globo, em relação aos demais. Ele foi muito melhor do que Marina Silva e Dilma Rousseff (PT), com dificuldade de sintetizar o que quer dizer. Aécio se saiu muito bem, e digo isso para exemplificar o quanto as pessoas estão sensíveis e atentas ao que o político expressa e se ele expressa bem, com sinceridade. O político tem de dizer o que as pessoas querem ouvir. Em contraste, nossos discursos foram equivocados, principalmente o de nosso candidato a governador.

Elder Dias — O discurso explica a diferença de votação, no PMDB, entre sua votação e a de Iris de Araújo, que não conseguiu se reeleger?
Acho que não. Ou talvez sim, mas não por ela. O grande fator que levou ao insucesso de dona Iris foi a candidatura do delegado Waldir Soares (PSDB), que teve, na principal base dela, Goiânia, uma votação inimaginável. Foram 180 mil votos. Na região noroeste, onde historicamente dona Iris sempre teve votação muito forte, ele arrasou, com um discurso muito latente sobre a sensação de insegurança que Goiânia e o Estado vivem. Foi um discurso forte, de radicalismo em relação às políticas na área de segurança.
Cezar Santos — Sabe-se nos bastidores que a deputada Iris de Araújo reclamou que o sr. tirou votos dela e, portanto, também teria sido um dos responsáveis por sua derrota.
Não vi essa manifestação dela e não posso responder em tese. Acho que fundamentalmente o insucesso dela se deveu à votação do delegado Waldir. Quem também foi afetado pela votação estrondosa de Waldir foi Sandes Júnior (PP), que sempre teve muito voto em Goiânia. Sandes estava dentro do mesmo público que, acredito, votou em Waldir.
Voltando à pergunta anterior, não acho que minha votação tenha se dado por estar com um discurso adequado. Não que eu não tenha tido um discurso adequado, mas não acho que isso tenha sido o fundamental. Minha votação se deve à força do partido e a construção do trabalho que fiz na sigla. O PMDB tem capilaridade em todos os municípios. Nasci dentro do PMDB e conheço praticamente todos os líderes políticos peemedebistas e suas particularidades nos municípios. Eu vim construindo minha candidatura com esses líderes. Fui eleito majoritariamente pelo partido, que tem um anseio por novas lideranças. Isso facilitou que as pessoas me procurassem e o PMDB me apoiasse nos municípios. A minha campanha se de­ve ao meu partido e, sem falsa mo­déstia, tive o desprendimento para construir isso, porque, se ficasse quieto em Goiâ­nia esperando que os votos aparecessem, não iria acontecer nada.

Cezar Santos — Muito se fala nas defecções do PMDB, o que teve pe­so na derrota. Muitos peemedebistas, inclusive seu amigo Hum­berto Machado, prefeito de Jataí, apoiaram Marconi Perillo ou cruzaram os braços em relação a Iris Rezende…
(interrompendo) Humberto não apoiou Marconi. Ele até declarou voto para Iris na rádio de Jataí. Ele disse que não iria participar da campanha de Iris.

Cezar Santos — Mas quando um prefeito aliado de uma cidade importante cruza os braços, isso não reforça o adversário?
Sem dúvida, mas não acho que tenha sido o fator determinante para a derrota de Iris. Humberto reuniu a executiva, comunicou que não iria trabalhar porque não estava satisfeito com a escolha de Iris como candidato e defendia a tese de nova alternativa para o PMDB. Era a forma de ele se manifestar perante o partido, que não ouviu o interior, as bases do partido, segundo palavras dele. Humberto não declarou apoio a Marconi e o partido lá trabalhou para Iris.

Cezar Santos — Fala-se na expulsão em massa de peemedebistas que aderiram a Marconi. O sr. defende esse expurgo?
Não, e já falei isso publicamente. As defecções não foram o fato relevante que nos levou ao insucesso. Isso é natural, em todas as eleições acontece. Quando o PMDB reassumir o comando administrativo, vai acontecer em nosso favor. Já aconteceu no passado. Não julgo que isso foi preponderante na derrota do PMDB. Em alguns municípios, houve o inverso: a declaração de apoio ao adversário e a incoerência de alguns prefeitos até fortaleceram o PMDB e acabamos por ter uma votação que não teríamos com o apoio de alguns desses filiados ao partido.
Mas eu não defendo expulsão de ninguém, acho que o partido tem de sair dessa pauta negativa e pensar para frente, para o futuro. O partido tem de construir uma pauta que motive os peemedebistas do interior. Se fizermos caça às bruxas, vamos desmotivar ainda mais e aí então a debandada será grande, mesmo.

Cezar Santos — Em resumo, os infiéis devem ser perdoados?
Resumindo, a história vai colocar os infiéis no devido lugar que eles merecem. A história já mostrou que a política não perdoa a traição e a incoerência, e coloca cada um em seu devido lugar de acordo com suas atitudes. O PMDB não precisa punir ninguém, não é o momento. Não precisamos dar pauta por causa de dissidências. Quem está no partido quer é se motivar.
Em toda eleição há um punhado de políticos que adere imediatamente ao vencedor. Em 1998, quando Marconi venceu a eleição, dezenas de deputados peemedebistas aderiram. Mas nenhum dele se consolidou como liderança expressiva na política goiana, tornaram-se periféricos. Jardel Sebba (PSDB) foi presidente da Assembleia, mas ele tinha amizade com o governador e havia razões fortes para ele romper com a base em Catalão, pelo que Adib Elias (PMDB) fazia com ele lá. Dou o exemplo de 1998 porque sempre ouvi isso de Iris Rezende. O partido não precisa se preocupar: a história vai colocar cada um eu seu lugar.

Euler de França Belém – O sr. não acha muito duro chamar Júnior Friboi de traidor?
Eu não disse que Júnior Friboi é um traidor.

Euler de França Belém — Mas o sr. disse que quem declarou voto a Marconi foi traidor. Friboi declarou voto, votou e liberou o pessoal dele para votar em Marconi. Pela lógica, o sr. está dizendo que Friboi é traidor.

Estive com Júnior Friboi depois das eleições e lhe disse: “Acho que você se equivocou quando emitiu uma nota para fazer questionamentos a nosso candidato a governador e ao partido.” Independentemente de os companheiros do partido no interior terem ficados satisfeitos ou não com a retirada de seu nome, o candidato a governador era Iris e nossos adversários políticos eram os mesmos e essas pessoas estavam trabalhando e lutando para que ganhássemos as eleições. O que Júnior me disse foi que teria sido mal interpretado, que não havia declarado voto para Marconi e que teria dito era que a candidatura de Iris era equivocada, adjetivando aquela nota. Falei-lhe que ele precisava se expor para o partido, porque, de fato, o que ficou parecendo é que ele havia mesmo declarado voto para Marconi. Júnior vai ter oportunidade de se manifestar. Precisa pedir uma reunião com a executiva e relatar o que quis dizer. Se ele confirmar que declarou voto a Marconi, provavelmente terá sepultado qualquer pretensão dentro do PMDB.

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Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

 “O PMDB não foi correto com Friboi”

Euler de França Belém — O sr. chegou a ler o que ele publicou?
Li e realmente fiquei, em um primeiro momento, com a impressão de que ele tinha mesmo declarado voto para o governador, e relatei isso pessoalmente a Júnior.

Euler de França Belém — O sr. me parece uma voz isenta para esclarecer uma questão: Iris diz que Friboi não foi candidato por conta da dívida com o Estado de sua empresa, a JBS/Friboi; já o empresário diz que Iris “atropelou” sua candidatura; sua empresa, Qual é a verdade?
Talvez eu tenha isenção, mas não tenho conhecimento em relação à situação empresarial de Júnior, se de fato isso teve alguma relevância para ele não ser candidato. A mim não chegou nada. Eu considero que a condução do processo dentro do PMDB não foi leal com Júnior. Iris Rezende, na minha visão, sempre foi candidato a governador, mas negava, talvez por estratégia política, a qual, para mim, não foi a melhor forma — mas quem sou eu para questionar uma estratégia de Iris, que tem 60 anos de vida política. Só que, naquele momento, o mais correto era que Iris tivesse manifestado com antecedência sua intenção e buscasse construir isso politicamente no partido.
A política precisa ser mais transparente entre os próprios políticos, até porque não tem ninguém que seja bobo entre nós, todos sabem o interesse e o projeto de cada um. Então, se eu quero ser candidato a deputado federal e digo “não, se o partido quiser…”. Não, todo mundo sabia que eu queria postular uma vaga de deputado federal e todo mundo sabia que Iris queria ser candidato a governador. Por isso é que digo que a estratégia de Iris não estava correta, e acabou colocando a pré-candidatura de Júnior de uma forma negativa, pejorativa. Ora, Iris não era candidato, mas em seu escritório havia manifestações contrárias, negativas, ao nome de Júnior. De fato, essa forma de atuação política teve influência, sim, na retirada de Júnior como pré-candidato. Foi o que eu percebi dentro do PMDB. Com relação ao aspecto da situação empresarial de Júnior Friboi, porque não tinha esse tipo de relação com ele, nem tive qualquer “feedback” da parte dele sobre isso.

Euler de França Belém — Naquele momento, o sr. apoiava a pré-candidatura de Júnior Friboi?
Sim, sempre declarei isso. Eu via Júnior como uma alternativa muito boa para o PMDB, primeiramente por seu sucesso como agente da iniciativa privada, por representar uma administração gerencialista, bem-sucedida. Desde as manifestações do ano passado, por uma prestação de serviços públicos de qualidade, percebe-se que esse perfil de Júnior Friboi é o que as pessoas estão propensas a escolher para o Executivo. Ficou caracterizado que a população queria uma mudança em 2014, mas não encontrou opções para isso. Então, quando não há uma perspectiva melhor do que o que aí está, ela escolhe ficar com o que já tem.
O PMDB completou este ano 24 anos das mesmas candidaturas a governador: ou é Iris ou é Maguito. Em minha visão, não iriamos — como não conseguimos — apresentar um discurso de renovação e mudança com os mesmos candidatos dos últimos 24 anos. Foi a lógica que eu defendi dentro do partido, fiz a minha parte. Fui fiel à candidatura de Iris, me dediquei, pela figura que ele é, pelo administrador que ele é. Eu acreditava que Iris poderia ser o governador que eu queria para meu Estado nos próximos quatro anos e fui até o último minuto junto com ele.

Euler de França Belém — Mas o sr. acreditava 100% na possibilidade de Iris vencer?
Eu achava difícil esse discurso de renovação e mudança ser absorvido pela população por meio do nome de Iris. Não pela falta de mérito dele — pelo contrário, Iris teria muitos requisitos para ser essa alternância de poder. Mas, por essa questão da repetição de candidatos nos últimos 24 anos e, em segundo lugar, por uma campanha de 16 anos de desconstrução de seu nome por quem está no governo.

Elder Dias — Tenho uma tese segundo a qual Marconi Perillo ganhou a eleição no dia da convenção do PMDB, aprovando a candidatura de Iris Rezende. Isso por ser já um nome saturado, mas que, pela expressiva quantidade histórica de votos que tem, fecharia as portas a qualquer outro nome da oposição. Funcionaria, como funcionou — e o Jornal Opção destacou isso em Editorial —, como uma pedra no caminho dos demais, no caso Antônio Gomide (PT) e Vanderlan Cardoso (PSB). A posição do PMDB serviu para estancar a renovação em Goiás. O sr. vê dessa forma também?
Eu vejo que você tem razão, ainda que eu não perceba isso exatamente no momento da convenção. O que houve é que Marconi imaginava um cenário eleitoral que fosse o ideal para ele, e esse cenário se consolidou da melhor forma. Toda a conjuntura levou a isso. Eu penso que ele queria enfrentar Iris de novo, exatamente porque Iris não conseguiria absorver esse discurso de renovação e mudança.
Penso também que ele tinha muito receio de encarar um duelo com Gomide, por representar o novo e vir de uma administração muito bem avaliada e eleitoralmente aprovado com a maior votação proporcional do Brasil. Gomide poderia até ser candidato, mas desde que fosse de forma isolada, como realmente aconteceu — o povo goiano mostrou mais uma vez que não dá mandato a ninguém que não tenha uma estrutura partidária e política forte, não temos característica de escolha radical, de eleger alguém novo, sem partido, sem tempo de televisão.
Marconi também poderia ter receio de Vanderlan, mas, além de estar isolado, poderia lhe impor como discurso negativo o fato de compor com um grupo que saiu mal avaliado do governo do Estado. Ou seja, o cenário que se consolidou foi o que Marconi sonhava. Mas vejo que tanto Vanderlan como Gomide tomaram a decisão correta ao saírem candidatos, porque ambos sabiam que havia espaço para o novo. No caso de Gomide, ainda, ficaria muito mal para ele não ser candidato depois de deixar a prefeitura de Anápolis.
O PMDB ainda conseguiu agregar com Armando Vergílio (SD) e Ronaldo Caiado (DEM), mas não foi suficiente, porque, como eu sempre digo, quem ganha eleição é o candidato, seu perfil, seu discurso, sua credibilidade, a expectativa em torno dele. Iris Rezende, por conta dessa campanha de desconstrução feita contra ele pelo governo há tanto tempo e também pela falta de busca de alternativas dentro do partido, não conseguiu construir esse discurso.

Euler de França Belém — O sr. falou que quem ganha é o candidato, e é verdade. Só que, em 1998, Marconi era o “novo”, mas teve uma grande frente política lhe dando sustentação. Esta eleição sugere que, em Goiás, esse “novo” precisa surgir em um partido com estrutura, como o PMDB.
Estrutura partidária é o princípio de uma candidatura de sucesso, mas não basta só isso. Algumas pessoas chegaram a levantar meu nome para ser candidato ao governo. Eu respondi que não me considerava preparado para ser candidato naquele momento, mas, principalmente, eu sabia que isso não adiantaria, porque não havia sido construída uma aliança política que desse a sustentação devida para nosso nome.

Euler de França Belém — João Santana, o marqueteiro de Dilma Rousseff, mudou o eixo da campanha pelo menos três vezes. Já a campanha de Iris foi unidimensional, apenas no ataque. Não se percebia o que Iris queria para o Estado, não havia uma agenda positiva. A população não estava interessada na briga de Iris com Marconi, mas em saber o que o Estado seria com ele à frente. Isso também não foi outro sério erro?
Sim, acho que também foi. Não tive muitas oportunidades durante a campanha, mas, quando tive, alertei sobre isso no segundo turno, quando pude participar um pouco mais. Achava que precisávamos apresentar propostas inovadoras. Mas não poderia ser também só “paz e amor”, porque se você na oposição não faz críticas é melhor então declarar apoio ao candidato da situação. A campanha de Dilma tinha um tom propositivo, mas era focada no resgate do que vem sendo feito pelos governos do PT e também na desconstrução de seus adversários. Ela passava uma mensagem como “olha, posso não estar fazendo o melhor dos governos, mas veja o que esse candidato fez em Minas Gerais e olha como aquela candidata muda de opinião”.

Euler de França Belém — A derrota do PMDB foi acachapante. Além de perder o governo, vocês não tiveram candidato ao Senador e perderam também grande parte da base parlamentar em Brasília e na Assembleia Legislativa. Só que, mesmo assim, o partido já está discutindo o nome de Iris para a Prefeitura de Goiânia — conforme o próprio deputado estadual Bruno Peixoto falou ao Jornal Opção. Uma vitória de Iris em Goiânia é uma vitória dele, mas não do PMDB. O que o sr. pensa sobre isso?
Você está partindo do ponto de vista otimista, de que ele ganharia a eleição. E aí é pior, porque, se ele ganhar, a vitória é dele, mas, se perder, a derrota é do partido. Sou radicalmente contra uma candidatura de Iris Rezende à Prefeitura de Goiânia e quero crer nas palavras dele, feitas publicamente, de que não será mais candidato, como disse na própria propaganda eleitoral. Imagine um vídeo desses, com essa declaração, sendo usado na eleição municipal. Iris está na história de Goiás e precisa preservá-la, não pode fazer com que questionem sua biografia.
Iris tem uma história muito acima de outros nomes da política goiana. Por exemplo, reconheço o papel de Nion Albernaz [prefeito de Goiânia por três mandatos e que se retirou da política aos 70 anos] na capital, mas Iris tem um nome muito maior, de expressão nacional. Acredito que Iris não será candidato e isso dará oportunidade ao partido de se reinventar e se revitalizar. Qualquer movimento do partido nesse sentido de uma nova candidatura dele é prejudicial, principalmente no interior. As pessoas estão há 16 anos esperando por renovação e não suportarão mais se o PMDB não buscar revitalização. O que move esses filiados é a esperança de um novo cenário daqui a quatro anos em Goiás. Qualquer declaração vinda de alguém do partido que contrarie essa renovação, em uma opinião sincera, é prejudicial. Não é nem o momento de fazer esse debate. Acabamos de sair de uma eleição e já vamos falar de próximas candidaturas? Temos é de ser produtivos, a fazer valer o mandato. O contrário disso é desrespeitoso com os eleitores e com as pessoas que querem qualidade na política.

Cezar Santos — Mas o presidente do diretório metropolitano, vereador Mizair Lemes Filho, já está em campanha aberta para Iris em 2016.
Cada um tem o livre arbítrio para se manifestar. Mas é preciso dizer tudo de forma mais racional. Qualquer declaração que depois se configure prejudicial vai se voltar contra essas próprias pessoas que estão se antecipando, dizendo coisas sem fazer uma leitura do conjunto. O PMDB precisa de duas coisas neste momento: primeiramente, aproveitar esse momento de preparação para as eleições municipais e estar mais presente no interior. Há uma reclamação generalizada — e o atual presidente estadual, Samuel Belchior, não tem responsabilidade nisso, pois assumiu depois das últimas eleições municipais — de que o partido só se faz encontros regionais às vésperas das eleições estaduais. Então, qualquer projeto em termos de Estado passa, antes, pela revitalização nos municípios. Se elegermos uma bancada pequena de prefeitos e vereadores isso nos será extremamente prejudicial para o futuro. Precisamos também identificar novos quadros nos municípios, não podemos ficar repetindo nomes, seja em Goiânia ou no interior.
Em segundo lugar, precisamos de uma linha programática, um grupo pensante que possa configurar um pensamento do partido em relação às políticas públicas. Isto é, ser um partido de projeto, que defende bandeiras. Precisa­mos nos aproximar das universidades e trazer essas pessoas para o partido a fim de contribuir com a sociedade. Mas, se disserem que o partido tem dono, ninguém vai querer se filiar. A partir do momento em que deixarmos essa pauta de comando mais internamente, novas pessoas começarão a se achegar do partido. Acredito que precisamos agregar pessoas do segmento organizado e das mais variadas profissões para construir um discurso e passar a ter condições de dar um retorno à sociedade. O partido precisa ter uma diversidade, não podemos contar apenas com políticos profissionais, mas ter também bons médicos, bons gestores na saúde pública, pessoas que representem os advogados, que representem o setor rural, líderes de entidades importantes, entre outros. O PMDB precisa disso.

Cezar Santos — O sr. está explicitando um programa de direção partidária. Isso mostra interesse em ser candidato a presidente do partido?
Não necessariamente, isso que falei só acontecerá se for comigo na presidência do partido. Há outros quadros que podem alcançar esses pontos. O próprio deputado Sandro Mabel tem se manifestado nesse sentido também. O partido precisa ter, inclusive, pessoas remuneradas e que tenham metas, não apenas políticas, mas programáticas. A sigla precisa se profissionalizar nesse sentido e acho que muitas pessoas têm defendido essa questão dentro do PMDB, que tem muitos nomes para cumprir essa tarefa. Agora, se for vontade de um número significativo de membros e líderes do partido, tanto no interior como no capital, eu não fujo, tenho disposição. Sou um peemedebista convicto e apaixonado. Nasci dentro do PMDB, sei da força que o partido tem e sei que ele precisa ser revigorado para o futuro. Tenho capacidade e motivação para isso, até porque aspiro novas posições políticas no futuro e sei que, para isso, preciso de um partido forte. Então, minha dedicação é para o partido, mas é também para nossos projetos.

Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

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Elder Dias — O sr. está sintetizando o PMDB de Goiás nesta entrevista e, especialmente, fez isso de forma clara nessa última fala. Isso mostra que tem um grande conhecimento a respeito do partido. Mas temos uma questão: existem pessoas com condições de serem novas lideranças no partido, se levarmos em consideração a idade. Porém, algumas delas, mesmo novas, têm o pensamento envelhecido. Ou seja, é possível dizer que existe um PMDB dos novos em idade, mas velhos em atitude?
Nem todo mundo na política é franco e transparente. E eu acho que não é assim, pois, como eu disse, não há bobos nem na política nem no PMDB. Essas pessoas conseguem fazer uma leitura mínima da viabilidade de uma candidatura. Só que existem conveniências. Então, às vezes, precisamos interpretar algumas declarações pelo viés dos projetos pessoais de alguns.

Elder Dias — Mas são projetos pessoais, mas não uma visão em prol do partido.
Sim, mas esse é um problema que ocorre em qualquer partido e em qualquer área. Então, não posso dizer que existem dois partidos, mas, sim, que algumas pessoas se posicionam de acordo com suas conveniências. Existe uma margem de conveniência que é aceitável — afinal todos precisam trabalhar seus projetos pessoais —, mas essa margem não pode ultrapassar um certo limite e prejudicar o partido em prol do individual. E acho que, esmagadoramente, temos hoje um grande número de pessoas que defendem uma renovação no partido.

Euler de França Belém — O sr. está certo, o PMDB precisa de uma renovação. Porém, a discussão político-eleitoral não pode ser ignorada e, por isso, é necessário pensar na sucessão. E essa discussão começa por Goiânia, que é a caixa de ressonância no Estado. O senador eleito Ronaldo Caiado já citou seu nome como provável candidato à Prefeitura de Goiânia. O sr. poderia ser esse candidato?
Acredito que Goiânia é, sem dúvida, importante dentro de um processo político, mas não acredito que seja um fator decisivo para um sucesso estadual. Acho que o candidato é esse fator principal, com seu discurso, com sua credibilidade e com seu perfil. Dizem que a gestão de Goiânia vai mal, mas Iris Rezende venceu na capital, pois tem uma credibilidade acima de disso. Em Aparecida de Goiânia, cidade em que Iris teve a maior votação proporcional do Estado, historicamente, desde 1998, nós nunca perdemos uma eleição estadual em Aparecida. Se o governador, esteja bem ou mal, participar ativamente da campanha municipal, ele influenciará muito pouco. O que o cidadão vai levar em consideração é se o prefeito da cidade está bem avaliado ou não. Então, o contexto é muito regionalizado. Tanto que nas últimas eleições o PMDB estava administrando Goiânia e perdeu as eleições estaduais.
Não vi as declarações do Caiado em relação à minha candidatura. Só posso dizer que não sou candidato a nada. É cedo para isso. A declaração que vi dele foi dizendo que o candidato a prefeito dele era Iris Rezende. Eu entendi essa declaração como um aceno ao PMDB, de demonstração de lealdade, de reconhecimento pelo que o partido fez por ele nas eleições de 2010, mas não objetivamente por uma defesa à candidatura de Iris.
Meu projeto não é a Prefeitura de Goiânia, não tenho esse interesse. Acho que posso contribuir, até pela minha votação e pela vitória que tive, que ocorreu muito pela força do partido no Estado inteiro. Por isso, ajudarei mais se eu estiver presente nas cidades, tanto aqui como no interior. Eu tenho compromisso com essas cidades que me deram uma votação considerável. Além disso, fica incoerente eu, que acabei de ser eleito deputado federal para ficar quatro anos, abandonar isso pela metade para ser candidato a prefeito, por uma lógica partidária. As pessoas estão muito críticas a situações assim. Como ficaria Aparecida de Goiânia, que me deu quase 55 mil votos? E Jataí, que me deu a maior votação proporcional do Estado, com mais de 50% dos votos na cidade? E Catalão, em que tive quase 13 mil votos? E Pirenópolis? E Santa Helena, cidade cujo prefeito [Judson Lourenço, do PMDB], inclusive, vai precisar muito desse apoio em Brasília? Então, acho que serei mais útil ao partido ajudando em Brasília e no interior na formatação de novas candidaturas. E mais: nós, eleitos, precisamos ser produtivos. Não podemos acabar uma eleição e já partir para a discussão da próxima, senão iremos na contramão daquilo que as pessoas querem da classe política.

Euler de França Belém — O deputado federal geralmente é visto como um despachante, cuja função é encaminhar verbas para os orçamentos das prefeituras. Qual vai ser seu foco como deputado? Você será um “despachante” também?
Isso é uma anomalia que se tornou função de deputado federal e até mesmo de senador, hoje. Mas, pelo contexto político do Brasil, esse encaminhamento de verbas tem uma importância muito grande, pois os municípios estão sem capacidade de investimento. Mais de 70% dos nossos recursos ficam concentrados nas mãos do governo federal. Essa anomalia precisa ser exercida em prol dos municípios. O deputado federal não deveria ter nem emenda parlamentar, não é essa sua função, isso não é a essência do trabalho legislativo. Mas, devido à conjuntura administrativa e fiscal do Brasil, isso tem uma importância muito grande. Então não serei hipócrita em dizer que não vou fazer isso. Vou fazer, sim, porque os municípios precisam desse trabalho de destinação de recursos, não só por emendas parlamentares, já que têm as extraorçamentárias também. É preciso também um trabalho para conseguir outros recursos fora de emendas, porque só as emendas não resolverão os problemas dos municípios. Mais do que isso, é uma oportunidade de ter uma maior produtividade. Vou procurar fazer isso, participando ativamente dos debates importantes nacionalmente e sempre me posicionando no Congres­so. É muito importante a apresentação de projetos, mesmo com a cultura de hoje não conseguir aprovar projetos, de ter o Poder Executivo sempre como detentor da última palavra sobre qualquer coisa. Eu vou procurar apresentar projetos qualitativos e não só ficar projetos para chegar ao final do mandato e falar que eu apresentei “tantos” projetos. Não é por aí.
É preciso ter um foco dentro do mandato. Vou lutar por uma administração pública mais eficiente, mais gerencialista. Esse foi o foco das manifestações. Em fevereiro, eu entrego o trabalho de conclusão de curso em uma pós-graduação em Administração Pública na Fundação Getúlio Vargas (FGV) em Brasília. É um tema de que eu gosto e em que eu quero me aprofundar e acho que é extremamente necessário para o País. Se não tiver gestão de qualidade não haverá saúde de qualidade nem educação ou segurança pública de bom nível. Ter o foco na gestão vai facilitar o avanço em todas as questões.

Quero constituir um grupo dentro de nosso gabinete para que pessoas possam dar uma contribuição de forma voluntária no aprofundamento de várias discussões. Como deputado estadual, fiz um trabalho utilizando a verba indenizatória, que serve para substanciar seu mandato parlamentar. É verdade que essa verba é mal utilizada em vários casos, mas ela pode ser bem utilizada. Foi o que procurei, para agregar algo qualitativo ao mandato. Fiz uma parceria com a Funape [Fundação de Amparo à Pesquisa, da Universidade Federal de Goiás] e fizemos um escopo de projeto pelo qual contratamos técnicos e no qual se utilizou 85% de minha verba indenizatória. Tivemos seis professores doutores, cada um com um bolsista para operacionalizar esse trabalho e desenvolvê-lo em três etapas, ao longo de dois anos e meio. A primeira etapa foi um levantamento histórico sobre cada tema, especialmente visando o Estado de Goiás; a segunda, um retrato da atualidade, sobre nosso estágio de desenvolvimento; e a terceira, um momento propositivo, concluído há um mês, encaminhando alternativas. Procurei participar ativamente desse trabalho, pelo menos uma vez por mês, até para agregar conhecimento para mim mesmo. Agora vamos publicar este projeto como contribuição em relação às alternativas que o Estado pode ter para as deficiências existentes.
Vou levar essa iniciativa para o Congresso e buscar uma instituição, talvez a própria UFG ou mesmo outra, para que a gente possa especializar no foco da gestão. Vou usar a verba indenizatória nesse sentido, para um estudo aprofundado que tenha, consequentemente, apresentação de ideias e projetos para a gestão pública do País. Quero iniciar isso a partir de fevereiro e já procurei algumas instituições para conversar, como a Fundação Dom Cabral, referência em gestão privada e administração pública em nosso País. Vou procurar também a FGV — da qual sou aluno concluinte da pós-graduação —, a UFG e a UnB [Universidade Federal de Goiás], para elaborar esse planejamento e fazer um mandato realmente qualitativo.

Euler de França Belém — Sobre a reforma política, qual será seu posicionamento? Que teses o sr. vai defender?
Eu defendo a maioria dos tópicos propostos para a mudança. O voto distrital talvez seja o principal, juntamente com o financiamento público de campanha. Só vamos ser mais produtivos se regionalizarmos o processo eleitoral. É preciso criar mecanismos para a fidelidade partidária e a redução do número de partidos. Sou favorável à cláusula de desempenho e ao mandato de cinco anos sem reeleição. Apesar de novo, já fui vereador e deputado estadual e vejo que, sempre em inicio de mandato, há uma motivação e todos acham que vão mudar o mundo. Já observei isso no próprio PMDB, com a bancada nova. O problema é que vai passando o tempo e essa motivação fica para trás. A reforma política não aconteceu até hoje justamente por isso, e por líderes do Congresso que não querem mudar o modelo, pois talvez, se democratizar esse modelo, isso pode dificultar a ocupação de cargos por eles mesmos.
Se deixar apenas para o Congresso, não sei se teremos essa reforma. O que é diferente dos momentos anteriores é que a população, liderada por alguns segmentos, entendeu a importância da iniciativa popular. As redes sociais e novos serviços de comunicação causaram a democratização da informação do Brasil e agregar novas forças. Temos um projeto de iniciativa popular capitaneado pela OAB [Ordem dos Advogados do Brasil] e pela CNBB [Con­ferência Nacional dos Bispos do Brasil], já bem encaminhado. Se chegar um projeto assim, com uma força grande de cobrança por parte da sociedade, acredito que a reforma pode acontecer nos próximos quatro anos.

Euler de França Belém — E a questão do pacto federativo das prefeituras? Como isso pode ser mudado a favor delas?
Este é um debate complexo. O sujeito ganha a eleição para presidente e não quer abrir mão de seus recursos, não quer dividir. Essa semana eu estava em Brasília e vi a luta do Congresso para aprovar o aumento de 1% no FPM [Fundo de Participação dos Municípios]. O governo foi contra e trabalhou de todos os jeitos, mas foi aprovado e ainda dividiram, com 0,5% em 2015 e 0,5% em 2016. Aqui, o governador não quer abrir mão do pouco do bolo tributário que ele tem — sobretudo porque os Estados também não ficam com uma parte significativa, como deveriam ficar — em prol dos municípios.
Os próprios prefeitos não querem transferir os recursos para outras entidades, querem eles mesmos executar e promover as ações. Isso é cultural e, ainda mais com uma presidente reeleita, não vejo perspectiva nesse sentido, de uma redistribuição. O pacto federativo é muito discutido — o próprio governo fala muito, que hoje existe um novo pacto, que o governo federal está distribuindo maquinário para todos os municípios, independentemente de partido do prefeito, e realmente está fazendo —, mas eu acho que o pacto federativo que precisa ser discutido passa por transferir os recursos para Estados e municípios e dar autonomia financeira a eles, bem como capacidade de investimento. A justificativa é de que não tem órgão de controle, que os recursos serão mal utilizados. Mas a sociedade está passando uma peneira mais fina na escolha dos prefeitos: se o sujeito está com dinheiro e não faz nada, vai ser demitido nas urnas pelas pessoas. E os órgãos de controle estão cada vez mais se aperfeiçoando, se aprimorando. Para esse tipo de pacto federativo realmente não vejo perspectiva.

Euler de França Belém — Barbosa Neto [ex-deputado e coordenador político da campanha do PMDB ao governo] diz que o deputado Sandro Mabel será candidato a prefeito em Aparecida de Goiânia. Mas o candidato preferido de seu pai, o prefeito Maguito Vilela, não é Euler Moraes?
Não há candidato. O prefeito deixou muito claro de que não quer saber de discussão política e acha que é preciso aproveitar muito bem o ano que vem. Existem muitos projetos em andamento, tanto no município quanto em nível federal. O momento da política é 2016. O que posso afirmar é que, se Sandro Mabel tiver esse desejo, com certeza Aparecida vai recebê-lo de braços abertos, porque ele é extremamente competente e preparado, tanto na iniciativa privada como na administração pública. É um deputado federal que conhece todos os ministérios, que sabe captar recursos. Então, seria muito interessante para Aparecida ter um prefeito com as qualidades e características do Sandro. Mas, até onde eu sei, ele não manifestou que tenha esse projeto. Pelo contrário, me disse que não será candidato nem em Aparecida nem em Goiânia.

Euler de França Belém — Maguito estará mesmo se aposentando da política em 2016?
Ele está dizendo isso. Meu pai é uma pessoa muito realizada politicamente. Ocupou praticamente todos os cargos eletivos aqui em Goiás e um cargo importante em nível nacional, que foi a vice-presidência do Banco do Brasil. Iris Rezende dizia algo quando era prefeito de Goiânia, que as pessoas passando por isso é que acreditam: que o cargo de prefeito talvez seja o que dê a maior sensação de realização para um político. Você acaba conseguindo ver de uma forma muito nítida e muito próxima toda realização.
Dilma Rousseff lançou a duplicação da BR-060 aqui em Goiás, inaugurou em três anos e meio, mas não veio aqui ver sua obra. Meu pai vai completar 40 anos de mandatos políticos. Então, acho que a declaração dele de que não irá mais disputar eleições é de fato um sentimento sincero. Hoje, o negócio do meu pai é a produção de leite, o que me deixa indignado. Leite vale hoje menos do que água mineral. (risos). Mas ele é apaixonado nessa atividade.

Euler de França Belém – Um amigo em comum que temos me disse que o sr. não pretende disputar mandato legislativo em 2018. Isso procede?
É verdade. Primeiramente, vou ter mais quatro anos para desempenhar um trabalho legislativo, o que já fiz como vereador (dois anos) e deputado estadual (por quatro anos). Não tenho interesse em ser parlamentar de profissão. Sou uma pessoa bastante disposta, mas quero buscar outras oportunidades, em que eu possa ter uma participação mais executiva, como realização. Posso me candidatar para um projeto no Poder Executivo, mas posso também ser companheiro de outros que poderão ganhar a eleição e depois me darem oportunidade de desenvolver um projeto como secretário de Estado ou como secretário de uma prefeitura. Tenho esse desejo, mas no momento estou muito motivado para esse mandato legislativo federal, em que posso dar uma contribuição muito grande, mas não quero ser parlamentar por profissão.
Se eu tentar outro cargo, mas não tiver oportunidade, outras pessoas terão e, então, vou desenvolver projetos pessoais. Hoje a política está bem diferente. Não nasci político e não me imagino completando 40 anos de mandatos. Pode ser que isso aconteça, mas dentro de uma normalidade, não só por desejo pessoal. Mais do que isso, particularmente tenho meus princípios e valores. A gente precisa estar na política com muito espirito público. Então, se para me manter na política for preciso me desvirtuar, é melhor sair fora. Hoje a exposição é muito grande. Vale a pena se você estiver disposto e estiver com vontade de ser produtivo e tiver as oportunidades dignas, corretas e honestas.

Euler de França Belém – Alguns grupos do PMDB acham que, no futuro, o partido pode caminhar junto ao PSDB. O que o sr. acha disso?
Acho muito difícil. Existe um antagonismo e um passado muito forte de agressões mútuas. É difícil, principalmente porque os líderes que protagonizaram esses embates estão ativos. O próprio governador Marconi Perillo está ainda relativamente novo. O que sei é que é preciso caminhar para uma relação política menos conflituosa e menos pessoal. Cada um pode ter uma relação pessoal amena, civilizada, independentemente da política. Eu posso ser amigo de um deputado federal do PSDB, posso ser amigo de outro que venha amanhã ocupar uma função importante no PSDB comigo e eu no PMDB. É preciso chegar a esse patamar. As pessoas não estão preocupadas com brigas de partido ou pessoais.
A política precisa evoluir para isso. Vejo que o governador Marconi Perillo contribui muito para esse acirramento, para esse clima beligerante entre os partidos. Têm pessoas de ascendência sobre ele que gostam de promover ataques pessoais e isso acirra os ânimos. O governador já teve momentos para construir um ambiente político melhor em Goiás, mas foi influenciado por essas pessoas. Agora, no quarto mandato, talvez ele consiga se livrar e ter um entendimento nesse sentido para o futuro. Ninguém quer atacar o governador ou outra pessoa, praticando ataques a pessoas e partidos. A discussão não deve ser essa. Eu fui eleito como oposição e vou fazer este trabalho de oposição administrativamente, vou contestar as questões de forma qualitativa. l

 

 

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