O motivo da renúncia: “Cansei de votar a favor de Paulo Garcia e contra Goiânia”

O vereador sustenta que o PT de Goiás vive uma esquizofrenia política. Ele diz que o principal prefeito do partido no Estado não apoia o candidato Antônio Gomide, mas, sim, Iris Rezende (PMDB) para governador

Vereador petista Tayroni di Martino

Vereador Tayrone di Martino: “A gestão de Paulo Garcia vai muito mal. É um consenso em todos os lugares e até no PT”

Euler de França Belém

O vereador Tayrone di Martino, por enquanto filiado ao PT, concedeu uma longa en­trevista ao Jornal Opção na sexta-feira, 3. Ele explicou, detalhadamente, por quais motivos renunciou à vice do candidato do PT a go­vernador de Goiás, Antônio Gomide. “Quero contar toda a história para que a sociedade possa avaliar corretamente meu posicionamento e o do prefeito de Goiânia, Paulo Garcia.”

“Quando me tornei vereador, a partir de 2013, sempre discuti internamente as questões políticas e administrativas. Nunca externei críticas públicas, porque avalio que, antes de expressar uma discordância, é preciso discuti-la com os companheiros do PT. Em reuniões partidárias, sempre reclamei da gestão do prefeito de Goiânia, Paulo Garcia, que não dá respostas eficazes às aspirações da população. Frise-se que, na questão do recolhimento do lixo, o prefeito Paulo Garcia portou-se mal, não dando respostas satisfatórias de imediato. Mas parece que a maioria não quer ouvir e que, mesmo com um desgaste imenso, Paulo Garcia está governando uma Shangri-La. Parece que o prefeito e alguns de seus auxiliares estão numa redoma de vidro e totalmente distantes do que a sociedade diz em todos os lugares. A gestão de Paulo Garcia vai muito mal. É um consenso em todos os lugares e pessoas… até no PT.”

Votações no Legislativo

“Por respeitar o PT e o prefeito Paulo Garcia, que era um aliado, passei a votar a favor de todos os projetos da prefeitura, mesmo quando discordava parcial ou inteiramente deles. Sacrificava, então, a consciência para defender a gestão de Paulo Garcia. Eu era contra a venda das áreas públicas, mas votei seguindo a determinação do partido e do prefeito. Fiz o mesmo na questão do Plano Diretor e da educação. O vereador, por ser partidário, vai perdendo identidade com a sociedade.”

Motivo da renúncia e as ameaças

“O motivo exato da minha re­núncia à vice de Antônio Gomide tem a ver com a votação do IPTU. O projeto do prefeito Paulo Gar­cia é confuso e parece que nem mesmo ele entende o que está fazendo. O que se sabe é que o valor do IPTU vai ficar muito alto para a população de Goiânia. Não se pode resolver a grave crise de gestão da prefeitura onerando as pessoas. Um aumento de até 300% não é justo com a sociedade. Com minha franqueza habitual, eu disse ao prefeito que não tinha condições de votar a favor do projeto sem a definição da planta de valores. Paulo Garcia então me disse: ‘Tayrone, fique tranquilo, vai ter um acordo com os empresários’. Ele insistiu: ‘Fiquei tranquilo’. Em seguida, consultei o promotor de justiça Fernando Krebs, advogados, aliados políticos e setores da Igreja Católica. Eu queria sa­ber da consistência do projeto. Nin­guém, dos que consultei, era a fa­vor do projeto da prefeitura. Ao contrário do que o prefeito havia me dito, os empresários não ha­viam concordado em apoiar o projeto. Apenas os empresários do se­tor imobiliário, devido ao fato de que o ITU será reduzido, decidiram apoiar o projeto da prefeitura.”

“A secretária da Educação, Neyde Aparecida, minha ami­ga, me procurou com o objetivo de me convencer a votar no projeto do IPTU mais caro para a população de Goiânia. Ouvi atentamente a ponderação da Neyde, pela qual tenho respeito, e disse-lhe a verdade: ‘Não tenho como apoiar um projeto que é contra o interesse da sociedade goianiense’. Frisei também que nem mes­mo o PT havia discutido o as­sunto, ou seja, o PT não de­fen­dia o aumento estratosférico do IPTU, que, aliás, prejudica, e muito, a campanha de Antô­nio Gomide e, até, dos candidatos a deputado do partido. Neyde saiu chateada e eu fui para o plenário da Câmara Municipal de Goiânia. Porém, em seguida, Neyde voltou e me passou seu celular, com Paulo Garcia na linha, falando de maneira enfática: ‘Tayrone, você precisa votar a favor do projeto. É importante para minha gestão’. Tratei bem o prefeito, mas disse claramente que não votaria a favor do projeto e frisei que o prefeito deveria dar respostas positivas aos principais problemas da cidade. Paulo Garcia perdeu o controle e declarou: ‘Se você não votar hoje, vou convocar uma coletiva, às 3 horas da tarde, e vou acabar com sua carreira política, vou demitir todos os seus indicados e vou pedir a sua expulsão do PT’. Ouvi em silêncio e, quando o prefeito terminou, perguntei: ‘Prefeito, o sr. está me ameaçando?’ Paulo admitiu: ‘Estou. Vou expulsá-lo do PT’.”

“No momento apropriado, mesmo ameaçado de ser ex­pul­so e de ver meus companheiros demitidos, decidi votar com a minha consciência.”

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‘“Ou eu ou ele’, disse Paulo Garcia”

“Numa decisão autoritária, o prefeito Paulo Garcia convocou uma reunião da Executiva do PT e disse: ‘Vocês devem penalizar os vereadores Tayro­ne di Martino e Felisberto Tavares, pois eles estão atuando contra uma gestão do PT’. Depois acrescentou: ‘Ou vocês ficam com eles ou comigo’. Sou filiado ao PT há vários anos, desde bem mais jovem, e tenho uma tradição de lealdade. Por isso, diante da pressão de Paulo Garcia, do ‘eu ou eles’, pedi a expulsão do prefeito. Ora, no momento, o infiel politicamente, ao partido, é Paulo Garcia, que apoia Iris Rezende para governador de Goiás e não, repito, Antônio Gomide, o candidato do PT.”

Companheiros petistas demitidos

“Paulo Garcia demitiu todas as pessoas ligadas a mim que estavam trabalhando na Prefei­tura de Goiânia. O prefeito se esquece que muitos deles são petistas. Então, antes de demitir puramente aliados do vereador Tayrone, Paulo Garcia está demitindo petistas. Ele se esquece que alguns dos demitidos, possivelmente a maioria, já estavam na prefeitura antes de eu ser eleito vereador. Alguns são ligados a mim, porque decidiram me apoiar para vereador, mas nem foram indicados por mim.”

“Ao assumir posições peremptórias, Paulo Garcia sequer consulta o PT. Ele às vezes confunde sua base na Câmara Municipal de Goiâ­nia com o PT. Ora, o PT é uma instância acima disso. E se sou­besse o que os petistas pensam de fato dele, não como pessoa, mas como prefeito, certamente fi­caria horrorizado. A opinião não di­fere muito do pensamento da po­pulação. ‘Coitado’ do próximo candidato a prefeito de Goiânia pelo PT.”

Paulo apoia Iris para governador

“Quando o prefeito Paulo Garcia me indicou para vice de Antônio Gomide, na convenção do partido, achei estranho, mas segui a determinação do PT. Aceitei a incumbência. Aos poucos, percebi que havia uma jogada. Ao me apoiar para vice de Gomide, Paulo Garcia poderia apoiar Iris Rezende [candidato do PMDB a governador] livremente, pois havia dado sua cota de contribuição para o candidato do PT a governador. O prefeito e alguns de seus secretários pedem votos para Iris abertamente. Não é segredo para ninguém que Paulo Garcia não gosta de Antônio Gomide e do deputado federal Rubens Otoni. Percebi, por fim, que eu estava fazendo papel de bobo.”

“Eu insisto: o PT de Paulo Garcia não está na campanha de Antônio Gomide. Nos bandeiraços de seu grupo, só há bandeiras de Dilma Rousseff, não de Gomide. Qual é o candidato de Paulo Garcia a deputado federal? Alguns pensam que é Olavo Noleto, mas todos sabem que é Iris Araújo.”

conexao.qxdResponsabilidade com Gomide

“Ao renunciar, optei por preservar minha dignidade e escancarar a contradição entre as tendências políticas do prefeito Paulo Garcia e do deputado Rubens Otoni. Não sou de ficar agachado por causa de cargos ou apoios. A verdade, para mim, é mais importante do que permanecer na política. Sou cristão e, como tal, abomino certos comportamentos. Disseram que renunciei e voltei atrás. Não é bem assim. Eu renunciei, mas havia decidido não apresentar a renúncia oficialmente, no Tribunal Regional Eleitoral, porque vários petistas disseram, numa reunião, que, se o fizesse, os votos de Antônio Go­mi­de seriam inválidos. Este é o verdadeiro motivo de, num primeiro momento, não ter apresentado uma renúncia formal.

Quando foi di­vulgada a informação de que eu havia voltado atrás, o que não ha­via ocorrido, decidi consultar al­guns advogados. Eles me disseram que, com a minha renúncia formalizada, não anularia os votos de Go­mide. A lei (ou resolução) seria para o próximo pleito. O advogado Edilberto Dias, do PT, auxiliar do prefeito Paulo Garcia, antes ha­via dito, numa reunião, que minha re­núncia prejudicaria Go­mi­de. Depois, talvez por ter consultado ou­tros advogados, mudou de opinião e disse que minha decisão, u­ma ‘decisão política’, não provocaria a anulação dos votos de Go­mi­de. A fala de Edilberto Dias es­tá gra­vada. Ao saber disso, não tive dú­vida e optei pela renúncia formal junto ao TRE. Portanto, não vol­tei atrás da renúncia — eu só não queria prejudicar o candidato An­tônio Gomide. E não prejudiquei. Ele sabe disso e sabe, sobretudo, quem está e quem não está apoiando, na prática, sua campanha.”

Permanência no PT

“Vou estudar juridicamente so­bre a minha permanência ou não no PT. Não vou me desfiliar, pois ti­ve 6 mil votos para vereador em Goiânia — alguns vereadores se e­le­geram com 2 mil votos — e sou respeitado pela sociedade. Num u­niverso de 35 eleitos, fui o 13º mais votado. Não vou jogar meu man­da­to fora. Vou solicitar que o PT peça des­culpas a mim. Vamos ver o que a­contece. Depois que deixar a Pre­feitura de Goiânia, perdendo o po­der de nomear e demitir, co­mo será que Paulo Garcia vai ser tra­tado pe­lo PT? Eu estou tranquilo e de ca­be­ça erguida. No final, vai pre­va­lecer a verdade. Não traí o PT, mas tem gente graúda traindo, e abertamente, mas fingindo que é vestal.”

“Nunca me encontrei com Rincón”

“Numa entrevista à Rádio 730, aparentando ter pedido o controle de suas emoções, o prefeito Paulo Garcia, que conspira o tempo inteiro com Iris Rezende, seu mentor, disse que eu havia ‘fechado’ com Jayme Rincón [presidente da Agetop] e, portanto, com o governador Marconi Perillo. Nunca me encontrei com Jayme Rincón ou com qualquer outro aliado do governador Marconi Perillo. O prefeito sabe disso, mas, ao esconder que está apoiando Iris Rezende e não Gomide, prefere distorcer a realidade. O voto pessoal de Paulo Garcia para governador é de Iris Rezende. Desafio-o a mostrar que votou em Gomide no dia 5, no domingo.”

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arthur de lucca

O Tayone ( ou seria Tayrone? ) Di Martino é novinho e talvez aprenda. Aprenda?
Em política, é difícil, senão impossível aprender. No partido dele teve diversas brigas e a mais traumática foi entre Darci Acorsi e dr. Pedro Wilson. E não é só no PT que acontece isso São em todos os partidos. Ninguém, que se considera “dono” quer largar o “osso. Duro, desgastante, caríssimo, como alegam todos, mas…largar, largar mesmo, nunca. Sem cogitações.