“O mais grave é que o novo modelo de distribuição de bolsas da Capes vai destruir o sistema”

Coordenador de pós-graduação com a maior nota do Centro-Oeste em Ecologia e Evolução aponta mudanças na Capes que aceleram redução no número de bolsistas

Professor José Alexandre Felizola Diniz Filho fala sobre nova metodologia de distribuição de bolsas da Capes | Foto: Ana Clara Diniz

Professor José Alexandre Felizola Diniz Filho | Foto: Ana Clara Diniz

Bolsista de produtividade em pesquisa nível 1A do CNPq [Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico], a nota mais alta no órgão ligado ao Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações, o professor José Alexandre Felizola Diniz Filho tem dedicado muito tempo no levantamento de dados e análise do novo método de distribuição de bolsas de mestrado, doutorado e pós-doutorado da Capes [Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior].

Coordenador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia (INCT) em Ecologia, Evolução e Conservação da Biodiversidade, José Alexandre se mostra preocupado com o desmonte do sistema de bolsas promovido pelo ministro Abraham Weintraub e pelo presidente da Capes, Benedito Aguiar.

Também coordenador do Programa de Pós-Graduação em Ecologia e Evolução da UFG, detentor de nota 7, a melhor avaliação no Centro-Oeste pela Capes, o professor relata em entrevista ao Jornal Opção como a nova gestão da fundação vinculada ao Ministério da Educação tem mudado os critérios de distribuição de bolsas. “No nosso caso, que é o curso de maior nota no Centro-Oeste, o processo de perda de bolsas duraria de três a quatro anos. Agora vamos perder em dois anos.”

Gostaria que o sr. explique o que tem ocorrido nas mudanças que a Capes [Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior] fez na distribuição de bolsas de mestrado e doutorado?
A distribuição de bolsas é algo que nunca teve muito padrão. Há cerca de 20 anos se pensa em fazer um modelo para começar a padronizar. No ano passado, quiseram introduzir o modelo que foi publicado no dia 20 de fevereiro. Os critérios utilizados são muito ruins. Conversei com integrantes do Fórum Nacional de Pró-Reitores de Pesquisa e Pós-Graduação (Foprop) que participaram, mas não endossaram o modelo. Fui membro do Fórum quando era pró-reitor da UFG há três anos.

É um modelo que não foi discutido, não é consensual. Os critérios usados para criar o modelo são muito ruins. Os parâmetros são meio malucos. Este modelo de distribuição de bolsas tem uma série de problemas. É um modelo que seria aplicado gradualmente. Fiz uma série de análises, com dados, que apontam que, ao longo do tempo, isso daria problema.

Na semana retrasada, a Capes soltou uma nova portaria que aumenta as perdas. Acelerou a implementação do modelo. No nosso caso, que é o curso de maior nota no Centro-Oeste, o processo de perda de bolsas duraria de três a quatro anos. Agora vamos perder em dois anos. Neste ano já levamos uma pancada.

Pelas regras anteriores, a previsão era de perder as bolsas em quanto tempo?
Chegaríamos no valor que a Capes acredita que deveríamos ter em quatro ou cinco anos. Agora vamos perder em dois anos. O problema todo é que estão dizendo que nenhum aluno perdeu bolsa. Essa é a grande mentira. Os alunos que já estavam no curso desde o ano passado não vão perder suas bolsas. O problema é que estão tirando as cotas dos cursos.

Quando abri o sistema para dar as bolsas para os novos alunos, elas já tinham sumido. As cotas dos alunos que estão em fase de conclusão já estavam marcadas como empréstimo. E os alunos terminaram em fevereiro. Não consegui informar à Capes que estes alunos já tinham defendido as teses e conseguido a titulação porque o sistema estava fechado. Mas assim que abriu, as bolsas sumiram.

Os alunos que já estavam matriculados para começar este ano e vieram para Goiânia, como ocorreu em outros cursos, em que as pessoas pediram demissão dos empregos para assumir a bolsa, de repente ficaram sem bolsa. O mais grave é que este modelo vai destruir o sistema. Benedito Aguiar não é uma pessoa bem intencionada. A própria Capes, internamente, está contra o presidente. Tanto que saiu uma nota dos coordenadores de área e uma nota da associação de técnicos da Capes contra a portaria.

Esta é uma situação. O sistema é ruim, mas Aguiar vai destruir o sistema. A outra coisa é a mudança após na implementação do sistema. As perdas ocorreram depois da divulgação do resultado original. No dia 3 de março, disseram para nós que só teríamos cinco bolsas para os dez alunos que fizeram a seleção. Dois já desistiram por não estarem entre os cinco primeiros na classificação. Avisaram que, como não conseguiriam bolsa, não se mudariam para Goiânia por não ter como sobreviver aqui.

Explique por favor a diferença entre bolsa e empréstimo.
Imagine que você tem um curso. Empréstimo é a figura que a Capes usa para tirar a bolsa. A cada quatro anos fazemos uma avaliação em todo o sistema. Se o curso ficar muito mal, é fechado. A Capes dá uma nota 2 e o curso fecha. Tivemos casos de um curso na Engenharia, outro na Botânica que, quando saiu o resultado da avaliação o curso tinha fechado. Recebeu nota 2. Só que são cursos que tinham alunos com bolsas.

No meio do caminho, a Capes não tira a bolsa do aluno que já recebeu. Só que o nome do aluno consta como se a bolsa fosse emprestada. Assim que o aluno defender a sua tese, a bolsa desaparece do curso. E o que fizeram agora foi a mesma coisa. O que estão dizendo agora é um artifício para argumentar que não houve corte de bolsas. É uma maldade. Não houve corte de bolsas que estão em andamento.

O que mudou do resultado anterior e o novo resultado em números?
No resultado de março, tínhamos 47 bolsas e ficamos com cinco de empréstimo. Agora temos 38 bolsas e nove de empréstimo. As nove de empréstimo já não existem mais. Os alunos que ocupavam estas cotas já encerraram o curso. Estão usando figura de linguagem para dizer que não foi cortado. E foi cortado brutalmente, como mostrei com alguns números.

Mas estamos vendo isso ocorrer no Brasil todo. É algo que eu já havia previsto em publicação anterior. Só que isso seria algo gradual. Na minha interpretação, quando a aplicação do modelo é devagar, em um primeiro momento não tem muita mudança. O que ocorre é que os cursos grandes perdem bolsas e os pequenos ganham.

Como são muitos cursos pequenos, isso pulveriza as bolsas do sistema. Os cursos grandes são os mais afetados. Mas fica mais ou menos em equilíbrio. Viram que não teriam ganho de dinheiro. E aí aceleraram o processo.

O sr. descreve em um dos textos publicados na semana passada o momento de valorização da ciência, principalmente a desenvolvida pelas instituições públicas no atendimento a necessidades de combate e prevenção ao novo coronavírus. Inclusive um grupo de alunos e professores da UFG desenvolveu uma máscara de plástico para suprir a necessidade de equipamentos de proteção individual nos hospitais. E o presidente da Capes alega que os cursos na área de saúde, principalmente a pesquisa voltada ao combate à Covid-19, têm sido valorizados. Pelos dados que o sr. analisou, é o que de fato tem ocorrido?
Não. Isso é mentira. Não existe. Não está no modelo. O que estão fazendo é dizer que darão prioridade para estes cursos, o que é uma bobagem. Agora dizem que estão tirando cotas para colocar nos cursos que trabalham na área de saúde. Vão usar esse discurso. Mas a portaria é do dia 9 de março. E o modelo é do ano passado.

É tudo falacioso. Essas mudanças foram feitas há tempo no modelo. A Capes tem outros programas. Tem bolsas que podem ser oferecidas em um edital para quem for estudar o novo coronavírus. Daqui a três meses, o coronavírus acabou. As bolsas de mestrado são de dois a quatro anos. O que não se pode fazer é desmontar a ciência. A Capes pode dizer que vai tirar bolsas aqui e conceder depois, o que não tem ligação com o modelo.

Em 2019, o ministro da Educação falou em “balbúrdia” em universidades federais, o que depois gerou um contingenciamento de recursos em todas as instituições públicas de ensino superior. Desde então, qual foi o impacto desta medida na UFG?
Quando falamos em pesquisa, os salários dos pesquisadores são as bolsas. Isso ainda não foi muito afetado, pelo menos por enquanto. A parte de projeto de pesquisa não é feita com dinheiro da universidade. O que a universidade nos dá, o que varia a depender da instituição e instituto, é tentar garantir a infraestrutura básica: internet de qualidade, energia, água, espaço físico. Mas tudo isso está ficando cada vez mais precário.

Em tese, o apoio da universidade à pesquisa é em infraestrutura. Dinheiro para pesquisa se consegue em agências como Capes e CNPq. São agências que também foram desmontadas. O CNPq, que é a principal agência de fomento à pesquisa de uma maneira geral, está ligado ao MCTIC. E o ministro da Ciência e da Tecnologia, Marcos Pontes, não é tão ruim quanto os outros. É ruim porque uma pessoa boa não fica no meio destas pessoas. Mas não é um maluco.

Quando o sr. cita “maluco” seria dizer que a Terra é plana?
Pelo menos o ministro sabe que a Terra é redonda. Já a Capes está ligada ao Ministério da Educação. E a Capes é que sustenta a pós-graduação, que acaba por estar ligada à pesquisa, porque o grosso das pesquisas se dá nos programas de pós-graduação. E o apoio é por meio de bolsa para aluno, um pouco de recurso. Mas o principal é bolsa para aluno.

Soube nos últimos dias que estamos com problema sério nas bolsas de pós-doutorado da Capes. O sistema não abriu para renovar. Estamos falando de um pesquisador que já fez doutorado e também ficou sem bolsa.

A palavra bolsa pode ter uma conotação um pouco pejorativa. Mas, na realidade, as bolsas de mestrado e doutorado são um salário baixo para se manter um profissional aprendendo a fazer pesquisa. Na Ecologia e Evolução, os pesquisadores já são biólogos. Poderiam estar trabalhando na sala de aula. Mas optaram por se qualificar mais dois anos em um mestrado e quatro anos em um doutorado.

A bolsa hoje é de R$ 1,5 mil para mestrado e R$ 2,2 mil para doutorado. Muitas vezes as pessoas falam em apoio. Mas não. Na realidade, é o salário do pesquisador. Eles têm a bolsa, mas não têm plano de saúde, férias, nenhum direito trabalhista. Para o governo isso é barato. É uma enorme mais-valia. É o que temos. E agora até isso tem sido questionado e cortado.

Um doutorando bolsista ganha bem menos do que é pago em uma bolsa de residência médica. Não sei o valor atual, mas uma bolsa de residência era mais de R$ 3 mil. Mestrado e doutorado são pós-graduações stricto sensu. São pós-graduações acadêmicas para avançar nos conhecimento. As especializações costumam ser mais técnicas, aplicadas.

As bolsas são o sustento dos pesquisadores.
Exatamente. E precisam ter dedicação exclusiva. Bolsista da Capes não pode ter outro emprego. No caso da Pós-Graduação em Ecologia e Evolução, nós somos um grupo internacional, estamos na ponta da nossa área, com pessoas do mundo inteiro vindo para cá e gente indo para fora. Como espera-se que mantenhamos um nível internacional se nem os alunos de doutorado estão o tempo todo trabalhando? Isso não é hobby.

A pessoa precisa estar dedicada o tempo inteiro para estudar, fazer experimento. Ninguém chega a um nível de mestre e doutor fazendo isso nas horas vagas. A pessoa trabalha 40 horas por semana e durante a noite dá uma estudadinha. Não é assim.

Em um dos textos mais recentes sobre a portaria da Capes, o sr. lembra que o presidente da agência é adepto à hipótese do design inteligente, que alega que um trecho do DNA poderia trazer contido o nome de Deus. Nas suas palavras, o sr. trata as ideias do presidente da Capes como “negacionismo” e “pseudociência”. Pode explicar melhor o que o sr. vê de negacionismo e pseudociência na atuação do Benedito Aguiar?
Benedito Aguiar era o reitor da Universidade Mackenzie até o final do ano passado. O presidente da Capes é um defensor da ideia chamada de design inteligente, que é uma visão de pseudociência. Quer revestir uma ideia que é puramente religiosa, que é a ideia do Genesis, bíblica, dizer que isso é ciência. A teoria da moda agora é o design inteligente, que é algo do século XVIII.

Seria uma atualização do criacionismo?
Não é bem uma atualização. Seria uma atualização no sentido de querer dar uma roupagem científica para uma ideia que não é científica. É uma ideia religiosa ultrapassada. Não faz sentido no contexto religioso, muito menos no contexto científico. E o presidente da Capes é um dos adeptos do design inteligente.

Saiu artigo até na Science, assinado pelo jornalista científico Herton Escobar, o questionamento de como se coloca alguém na principal agência de fomento à pesquisa e à ciência que defende o design inteligente. E não é por se tratar de uma pessoa religiosa. Cada um pode ter a sua fé. Mas quando alguém acredita ou define algo como design inteligente, a questão se complica.

É querer convencer as pessoas com argumento errado, dizendo que aquilo é científico quando você deveria saber, como cientista, que aquilo não é ciência. O presidente da Capes precisa ser um cientista de renome. Como sempre foi desde que me conheço como gente no meio acadêmico de pesquisa. Nos últimos 30 anos, o presidente da Capes sempre foi uma pessoa altamente respeitada na comunidade científica.

O atual presidente da Capes é um político, na verdade. Do ponto de vista científico, é uma pessoal completamente equivocada.

“O mais grave é que este modelo vai destruir o sistema. Benedito Aguiar não é uma pessoa bem intencionada”

"Benedito Aguiar era o reitor da Universidade Mackenzie até o final do ano passado. O presidente da Capes é um defensor da ideia chamada de design inteligente, que é uma visão de pseudociência" | Foto: Gabriel Jabur/MEC

“Benedito Aguiar era o reitor da Universidade Mackenzie até o final do ano passado. O presidente da Capes é um defensor da ideia chamada de design inteligente, que é uma visão de pseudociência” | Foto: Gabriel Jabur/MEC

O Ministério da Educação apresentou em 2019 o Future-se, que ainda não se sabe bem o que será feito com o programa. Que tipo de influência o Future-se pode ter no ensino brasileiro?
A ideia do Future-se tem um monte de problemas. Foi tanta reação negativa, que a proposta não caminhou. Veio uma segunda versão, mas fizeram tanta coisa que o foco deixou de ficar no Future-se. Mas o que basicamente o ministro da Educação quer é que as universidades se transformem em empresas. Em uma definição simples, Weintraub quer que as universidades sejam empresariais e quer reduzir o apoio do governo.

O ministro sinaliza que vai tirar a bolsa para que as instituições procurem iniciativa privada por meio de projetos para apoiar os alunos financeiramente. A lógica do Weintraub é a de buscar pesquisa aplicada. Talvez este seja o problema mais importante.

O que as mudanças previstas pela Portaria 34 da Capes no sistema de bolsas representam para os laboratórios da UFG?
De uma maneira geral, o colapso no sistema é absurdo. Tenho acompanhado os depoimentos dos colegas. Há um problema de concepção. Dizer que vai apoiar o combate à pandemia de Covid-19 dizendo que vai dar bolsa de mestrado e doutorado para curso de saúde é uma bobagem. Tudo bem fazer isso, mas não está no modelo.

E outra grande bobagem é que não é isso que se precisa agora. Mestrado e doutorado são para fazer pesquisas de longo prazo. A Capes tem várias linhas, não são só para fomento a mestrado e doutorado. A Capes também apoia mestrado e doutorado em áreas temáticas. Se for entendido que a demanda social do Proex [Programa de Excelência Acadêmica] irá destinar bolsas para uma linha de saúde. Mas não é isso que tem ocorrido. É tudo retórica.

Os cursos de saúde também estão perdendo bolsas. Se alguns ganharem, é por coincidência. A Enfermagem da UFG, que é um curso novo, ganhou três bolsas. Porque são um curso novo, tem pouquíssimas bolsas de doutorado. Foi criado em um momento em que a Capes já não concedia muitas bolsas. Está muito abaixo do que deveria ter e por isso ganho três bolsas. Mas perceba: três bolsas é um número muito baixo e não vai resolver em nada a situação.

É corriqueiro ouvir que a universidade está distante da realidade da sociedade. Isso de fato é uma realidade? O que tem sido feito para quebrar essa ideia ou a prática?
Nunca comprei muito esse discurso. Existem alguns problemas. Mas o que temos na verdade é um problema educacional no Brasil. No último ano, este tipo de colocação ficou muito forte, de que a universidade está distante da população. Faz parte de uma propaganda do próprio governo de desmoralizar o sistema.

Formamos praticamente todos os profissionais de nível superior no mercado inteiro, tanto a UFG quanto a PUC. Como assim ninguém sabe o que a universidade faz? Você precisa saber o que cada professor faz em suas pesquisas? Lógico que não. Não faz sentido. Há uma confusão nessa discussão.

Uma coisa que ocorreu em 2020 foi que os professores e pesquisadores não viram – as pessoas estão trabalhando, fazendo as suas pesquisas, dando aula -, não enxergaram, certas coisas acontecerem na sociedade, certas mudanças para pior. Fomos omissos no sentido de não termos percebido.

A partir deste ano, as pessoas ficaram mais conscientes de que temos um problemas muito sério de educação básica. Por isso que temos problemas na hora que os alunos chegam à universidade. É difícil pensar nisso. Existe, em parte, um distanciamento. Do outro lado, temos a sociedade sem muita educação formal.

Dirão que tenho de explicar minha pesquisa para a sociedade de um jeito fácil. De maneira geral, não interessa porque, na realidade, as pesquisas não são todas aplicadas. Mesmo quando interessa, a pessoa que vai receber a informação não tem background (bagagem). O que faz sentido seria fazer com que as pessoas tenham conhecimento sobre o que vem a ser ciência.

E o que estamos vendo no Brasil e no resto do mundo é uma crise de credibilidade na ciência. Aí surgem com essa história de que ninguém sabe o que a universidade faz, se é importante ou não. Porque, na verdade, as pessoas não entendem a importância da ciência com um todo. Não é só de um projeto.

Claro que os pesquisadores começaram a ficar incomodados e começaram a fazer blogs, vídeos, para mostrar à sociedade. O problema não é a sua pesquisa, o problema é a visão de ciência. É um problema de falta de credibilidade na ciência. Mas é claro que, quando vem uma pandemia como agora, as coisas mudam.

Na semana passada, vi uma postagem no Facebook dizendo que agora cientista voltou a ficar na moda. Houve um avanço de fundamentalismo religioso no mundo todo de várias correntes e o avanço do negacionismo. E o negacionismo é como exemplo muito forte que temos é a negação das mudanças climáticas. Temos gente dizendo que não existem mudanças climáticas por interesse econômico, ideológico ou outros motivos.

E temos toda a comunidade científica que diz que há um problema sério de mudança climática. As pessoas ficam sem entender o que está ocorrendo.

O sr. citou que há uma campanha do governo para tentar desmoralizar a ciência. Vez ou outra, vemos o ministro da Educação e o presidente da República dando declarações de que a maior parte da pesquisa produzida no Brasil está na Mackenzie, que é privada, o que contraria os números do programas de pós-graduação em todo o País. Como é possível contrapor essas frases inverídicas?
É difícil. Porque não adianta mostrar os números. No caso do corte de bolsas, em um dia saiu uma nota do Fórum Nacional de Pró-Reitores com todos os pró-reitores do Brasil. No dia seguinte, foi publicada uma nota da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) endossada por 60 entidades científicas. Saiu uma nota dos coordenadores de área da Capes que dizia que o modelo não funciona e que traria vários prejuízos. A autoridade do setor vai ao Twitter dizer, após a publicação das notas, dizer que não tem problema nenhum.

Não adianta apresentar número para essas pessoas. Este é o problema do pessoal da pseudociência e do negacionismo. Eles acreditam no que querem. Distorcem os fatos para mostrar que você está errado e eles certos. É muito difícil. Um amigo usou uma frase interessante: “Temos de contra-atacar essas pessoas com dados e panelas”. O que estamos tentando fazer é mobilizar a sociedade para contarmos com os parlamentares, porque são menos estúpidos do que essas pessoas.

A pandemia de Covid-19 tem revelado uma pequena mudança no discurso anticiência no Brasil. Quando as pessoas veem que nos Estados Unidos um teste de novo coronavírus pode custar de quase R$ 500 a mais de R$ 7 mil, aqui temos um Sistema Único de Saúde (SUS) que, mesmo com todas dificuldades, oferece exames e tratamento públicos. É mesmo uma mudança na compreensão e entendimento da importância da ciência?
É um problema um pouco diferente. É o problema do modelo econômico. A maior parte dos cientistas tem uma visão mais à esquerda, menos neoliberal, de que o Estado teria um papel importante em termos de saúde, educação e segurança do que em uma economia mais liberal. Os cientistas, de uma maneira geral, tendem a pensar mais nos serviços públicos. Mas não é uma ligação de toda a comunidade científica.

Saiu um editorial da revista Science há mais de duas semanas que diz que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, tem desmontado a ciência. Só que por lá há uma independência maior, existe um apoio maior da iniciativa privada. As empresas apoiam um pouco mais. E as universidades são mais independentes, assim como os Estados, e conseguem segurar um pouco mais a onda.

Trump começou a exigir nos últimos dias que fosse feita uma vacina contra a Covid-19. E o editor da Science escreveu um editorial dizendo que não é desta forma que a ciência funciona, citando que o presidente dos Estados Unidos tem retirado o apoio e o financiamento à ciência há três anos e feito campanha anti-vacina, o que é um crime, e agora quer que seja desenvolvida uma vacina em um mês.

Não é assim que a ciência funciona. É um trabalho acumulativo, tem de receber investimento constante. Tem de ser uma política de Estado e não uma política de governo. A mesma coisa vale para a saúde, para a educação. Aqui conseguimos encontrar a ligação para mudar o discurso.

Quando o sr. cita que os cientistas tendem a ter uma visão mais de esquerda ou uma preocupação maior com os serviços públicos à população, virá a acusação de que “a doutrinação esquerdista nas universidades está comprovada”. Como lidar com essa acusação?
O problema é dizer que se preocupar com os serviços públicos seria uma doutrinação. É uma questão de humanismo. É uma visão mais profunda do que é ciência. Estas pessoas não entendem isso. Se você estudar filosofia, história da ciência ou sociologia da ciência, entende porque os valores da ciência vêm de princípios.

E quando Benedito Aguiar assumiu a presidência da Capes, a preocupação de todos mundo era se o novo titular da agência iria incentivar o ensino do criacionismo e design inteligente. O problema é que os valores e postura de Aguiar como cientista são equivocados. Os valores que um cientista deve ter para lidar com o conhecimento científico fazem com que as pessoas tendam a ser mais à esquerda.

Isso não é um problema de doutrinação. É um problema de filosofia de vida, princípios, valores. O problema do Aguiar não é o fato de ele ser criacionista. O fato é que, ao ser criacionista e ao defender pseudociência, os valores do presidente da Capes como cientista não são confiáveis. É por isso que está no governo apoiando Weintraub e Bolsonaro.

Eu, por exemplo, nunca fui político, não sou de partido político e nunca tive ligação com nada disso. Agora, se fosse me filiar a um partido, não iria me filiar ao partido do Bolsonaro. Não faz sentido nenhum com os valores da ciência.

Desde o governo Dilma Rousseff (PT), passando pela gestão Michel Temer (MDB) até chegar a Jair Bolsonaro, cientistas têm deixado o Brasil para conseguir aporte às suas pesquisas em universidades em outros países. Esse processo é grande na UFG?
O pessoal costuma chamar de fuga de cérebros. Aqui não é muito forte porque ainda é uma coisa pequena. O que vemos são os alunos indo embora. Os bons alunos que têm a oportunidade, a não ser que tenham uma ligação familiar mais forte, estão tentando ir embora.

Muitos de nossos alunos brilhantes tem ido embora. E, nesta altura do campeonato, os estudantes têm de tentar ir mesmo. Nunca defendi isso, porque acredito que é preciso ficar e tentar lutar. Mas está ficando cada vez mais difícil.

É possível imaginar o futuro da ciência e da pesquisa de pós-graduação no Brasil?
Temos discutido um pouco essa situação. Ninguém esperava um movimento tão perverso da Capes. A Capes sempre foi uma instituição muito próxima dos cursos. Eu até disse em vídeo que “a Capes somos nós” porque estávamos sempre muito envolvidos. Claro que uma pessoa ou outra não concorda com isso. Mas são detalhes.

De uma maneira geral, todos reconheciam a importância da Capes em direcionar para onde deveríamos ir em um país superimportante hoje em ciência e tecnologia. Só que perdermos isso com os malucos que lá entraram. Fiquei muito feliz com a carta dos funcionários da Capes, porque sempre convivemos com profissionais muito bons na agência, que são os técnicos, responsáveis por cuidar e pensar as políticas.

De repente, todo esse pessoal está parado. Não se ouve mais falar em ninguém. Só os malucos fazendo coisa errada. E na terça-feira, 24, os servidores se manifestaram. Fiquei supercontente. Conheço muita gente competente na Capes que deve estar bastante oprimido no órgão.

Ao olhar para o futuro, alguns amigos são mais otimistas, acreditam que a pandemia vai restaurar um pouco a credibilidade da ciência. Eu não sei. Tenho minhas dúvidas. Isso ocorreu antes, mas claro que a informação não se difundia tão rápido. Podemos tentar ser um pouco otimistas de que o cientista pode voltar a ser uma figura importante. Talvez.

Na terça-feira, saiu uma nova portaria que, por enquanto, ninguém está falando – deve começar a ser comentada nos próximos dias -, que são as linhas prioritárias do Ministério de Ciência e Tecnologia. Acabaram, por exemplo, com as humanidades. Ainda não li, preciso olhar com calma.

É o que o governo Bolsonaro falou desde o começo sobre a doutrinação: “Para que precisamos de sociologia, de filosofia, se os caras são todos comunistas e ficam pelados na universidade?”. E terça-feira isso ocorreu no MCTIC, mas ninguém está falando por causa da pandemia.

O mundo que vai surgir, a depender de como estaremos no Brasil em setembro ou outubro – temos de confiar que a ciência será capaz de lidar com a pandemia -, será muito diferente. Teremos uma economia totalmente colapsada, gente que perdeu emprego, perdeu tudo, atolada em dívida. Gente que perdeu parentes, filhos, esposas, maridos, pais, avós.

O que vai nos ajudar a lidar com isso? Não é a Enfermagem, não é a Medicina. Vão ser os sociólogos, os filósofos. Os gestores federais que estão no comando são muito limitados. O problema é como vamos passar pelo período de negação da ciência como um todo.

“O mundo que vai surgir, a depender de como estaremos no Brasil em setembro ou outubro – temos de confiar que a ciência será capaz de lidar com a pandemia -, será muito diferente”

José Alexandre Felizola Diniz Filho | Foto: Ana Clara Diniz

“Teremos uma economia totalmente colapsada, gente que perdeu emprego, perdeu tudo, atolada em dívida. Gente que perdeu parentes, filhos, esposas, maridos, pais, avós. O que vai nos ajudar a lidar com isso? Não é a Enfermagem, não é a Medicina. Vão ser os sociólogos, os filósofos” | Foto: Ana Clara Diniz

O Jornal Opção entrevistou no final de 2019 o professor Anderson Soares, doutor em Ciência da Comunicação e um dos fundadores da Faculdade de Inteligência Artificial da UFG. Soares falava sobre os dilemas da sociedade do big data e da internet das coisas, que terá conflitos que a automação não será capaz de resolver e precisará das humanidades para solucionar as interrogações desta nova realidade no mundo. Como imaginar a valorização das humanidades em um mundo automatizado e digital com a decisão do Ministério da Ciência e Tecnologia?
São pessoas que têm uma visão muito limitada do que é ciência. Até porque não sabem bem o que é ciência. E não é a mesma coisa. A tecnologia deriva da ciência, mas os valores são diferentes, a lógica é um pouco diferente. Por isso que fazem esse tipo de crítica, porque não entendem. Temos de tentar estancar isso.

A própria ciência tem problemas em relação à questão das humanidades. E isso abriu espaço para a pseudociência, para o negacionismo. Precisamos hoje, mais do que nunca, de sociólogos, filósofos, antropólogos. E vamos precisar de psicólogos no próximo semestre para ajudar a entender tudo que tem ocorrido. O mundo em agosto e setembro será muito diferente do mundo agora.

Que novo mundo será esse? Que relações teremos a partir de superada a pandemia de Covid-19?
Se fizermos durante a pandemia o que essas pessoas estão fazendo, teremos muito trabalho para catar os cacos. Teremos muito trabalho para catar os casos, tentar juntar e fazer alguma coisa coerente.

No domingo, o filósofo Olavo de Carvalho disse em uma live no YouTube que a pandemia seria apenas suposta e que não haveria como comprovar que há mortos por Covid-19. Como lidar com esse tipo de conteúdo vindo de uma pessoa que é tratada como guru ou mentor intelectual do governo federal? Até que ponto isso atrapalha o trabalho de pesquisa científica?
Atrapalha totalmente. É exatamente o problema central do que temos enfrentado. Essas pessoas são muito ruins. A evidência maior disso é que o líder intelectual é esse maluco do Olavo de Carvalho, que não é nada, não tem nem graduação. Um cara que se diz filósofo, começou a enganar as pessoas, fazer curso e muita gente vai atrás. É muito complicado.

Para você criticar alguma coisa, é preciso ter respaldo. Para que eu critique um assunto, eu preciso dominar o assunto. Olavo de Carvalho critica o Einstein. Quem é Olavo de Carvalho para criticar o Einstein? Ele não é um físico. Tem gente que critica o Einstein? Claro que sim. Mas é preciso ser um físico gabaritado, que estudou 15 anos para abrir a boca e falar alguma coisa.

Olavo de Carvalho é um nada que representa esta nova geração de mídia digital. Começa a falar e as pessoas vão atrás. É um profeta. Estamos em um momento diferente porque a internet permite que essas coisas ocorram em escalas que antes não existiam. Sempre tivemos pessoas que lideram uma seita, inventam uma história e tem um monte de gente que vai atrás. Olavo de Carvalho é assim.

A partir do momento em que tivermos um novo mundo, superada a pandemia, pessoas que fazem outras acreditarem em ideias não necessariamente baseada em algo que não é cientificamente comprovado ou crível tendem a cair em descrédito?
A única chance que temos é que as pessoas se eduquem. Precisamos ter uma educação formal de boa qualidade para que as pessoas possam decidir se vão acreditar em um maluco ou não. E temos aqui um dos paradoxos da internet, que é a ideia do controle da informação.

A partir do momento em que eu controlo a informação – esse é um dos problemas que se discute na ciência -, não posso assumir que certas coisas são verdade porque a ciência de tal forma diz isso, porque caio no mesmo tipo de problema. Como eu diferencio a ciência de uma visão ideológica ou de uma visão religiosa? É exatamente pelo fato de a ciência não controlar informação.

Se eu começo a controlar a informação, aquela teoria científica vira um dogma. Se é verdade, tenho de convencer e as pessoas têm de acreditar que é verdade porque é verdade e pronto. Não é isso que queremos, a ciência não funciona assim. Talvez tenhamos dificuldade de lidar como pessoas como Olavo de Carvalho porque não acreditamos que ele deva parar de falar. As pessoas é que têm de parar de ouvir.

Mas não posso obrigar a pessoa a parar de falar nem as pessoas a parar de ouvir. Tem de ser algo que venha da própria pessoa, senão nós ferimos os princípios de liberdade intelectual, que é a coisa mais importante dentro da ciência.

A liberdade intelectual tem condições de contorno para que ela exista, que são as condições de como a ciência funciona. A única chance que temos é fazer com que a sociedade passe a ser cientificamente educada. Isso não significa que as pessoas não possam ser religiosas, não possam ter opiniões ideológicas. Claro que podem! Isso não tem nada a ver. É pensar racionalmente em como avaliar evidência. Isso que é ciência.

Como levar uma grande parcela da população, que tem dificuldade em interpretar textos básicos, a ter condições de compreender a ciência?
Este é o grande desafio que temos. Com certeza não vamos conseguir isso tirando investimento da educação, passando o ensino para o setor privado, que tem interesse puramente comercial em muitos casos. Por isso voltamos ao ponto em que isso tem de ser uma questão do Estado, para que a educação seja de qualidade, oferecida independente de interesses econômicos. É aqui que começamos a fechar o ciclo de todo o raciocínio.

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