“Nunca propus pagamento do salário em cinco parcelas. Seis era o esforço máximo que o Estado poderia fazer”

Secretária da Economia reconhece dificuldade para manter execução de políticas públicas, mas garante que tem trabalhado para melhorar situação

Cristiane Schmidt - Foto Fernando Leite Jornal Opção 144

Secretária Estadual da Economia, Cristiane Schmidt | Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

Cristiane Schmidt havia definido seu ano de 2019. Se mudaria para os Estados Unidos para estudar. Mais especificamente para New Haven, no Estado de Connecticut, como aluna da Universidade Yale. Usaria a quarentena no Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) para voltar à academia.

Mas aceitou o desafio de se tornar secretária da Fazenda (Sefaz) no governo de Goiás na gestão de Ronaldo Caiado (DEM). Com a primeira etapa da reforma administrativa concluída, se tornou titular da nova pasta da Economia, que fundiu a Sefaz à Secretaria Estadual de Gestão e Planejamento (Segplan).

O cenário é de dificuldade. O governo ainda não terminou de pagar o salário atrasado de dezembro dos servidores, tem uma dívida que gira em torno de R$ 3,4 bilhões, alega não ter condição de recuperar os trechos problemáticos das rodovias goianas e encara uma crise milionária no Hospital Materno Infantil (HMI).

Em entrevista ao Jornal Opção, a secretária fala sobre as dificuldades da gestão, a falta de recursos, as polêmicas, críticas e se Caiado continua ou não no palanque seis meses depois das eleições.

Quero começar por uma frase dita pela sra. no domingo ao Jornal Opção: “Vamos resgatar financeiramente Goiás e já começamos a arrumar a casa”. De que forma o Estado vai ser resgatado em suas finanças e o que vem a ser arrumar a casa?
A primeira ação é voltar a fiscalização em vários lugares. Tanto é que a nossa arrecadação no primeiro trimestre de 2019 em comparação com o mesmo período de 2018 aumentou em função de uma maior fiscalização. Vamos arrumar a casa com a melhora da receita.

Para reduzir as despesas, temos feito diversas contenções. Optando, por exemplo, por mudar delegacias de locais com alugueis caros por lugares mais baratos. Uso correto do recurso público, que não é de graça. É pago pelo contribuinte. Temos de valorizar o que temos. Estamos fazendo o pagamento da folha de dezembro de 2018, que é nossa prioridade, e ajustar o fluxo de caixa para conseguir em algum momento – ainda não sei como -, nossa segunda prioridade, deixando de depender da entrada de recursos do mês posterior para pagar coisas do mês anterior.

Precisamos repor o fluxo. Não conseguimos reorganizar as contas se não houver um choque de recursos para poder começar de novo. Isso nos possibilitaria ajustar o mês e o restante ficaria para que nos programássemos. Hoje a programação é diária, o que nos impossibilita de fazer a programação mínima mensal. Falta muita coisa? É claro que falta.

Quando o governador Ronaldo Caiado (DEM) assumiu o Estado com o discurso de que a dívida herdada girava em torno de R$ 3,4 bilhões e R$ 3,6 bilhões. Mas quando foi apresentar as ações dos cem dias de governo, o democrata falou em R$ 4 bilhões. Como está a dívida que ficou de gestões passadas?
Continua a mesma. Acredito que naquele momento o governador pode ter arredondado o número apresentado. Os números da dívida são os números que nos foram apresentados na Alego [Assembleia Legislativa do Estado de Goiás]. Do período anterior para agora, a dívida está entre R$ 3 bilhões a R$ 3,4 bilhões. Vai depender das despesas que serão incluídas, se os restos a pagar e outras contas. Há alguns detalhes que alteram o total da dívida, mas é nessa ordem de grandeza.

R$ 3,4 bilhões é o valor que herdamos em consequência dos salários atrasados, que acumularam com outras dívidas. Além de restos a pagar, despesas que foram efetuadas, mas não foram empenhadas. Entregamos para o TCE [Tribunal de Contas do Estado] os mesmos números. Há alguns detalhes sobre o que é do Tesouro, o que é do Estado, o que é empenhado, liquidado, pago. Há diferenças, mas por conflitos da Secretaria do Tesouro Nacional.

Com as Emendas Constitucionais 54 e 55 o valor é um. Sem as ECs, o total muda. Sem as Emendar, já teríamos ultrapassado o limite da Lei de Responsabilidade Fiscal.

Dos R$ 3,4 bilhões em dívidas, o que já foi pago até agora?
É difícil dizer. Por exemplo, 55% dos salários de dezembro foram pagos – o que vai chegar a 70% a partir de terça-feira, 30. Há a dificuldade de pagar algo que não foi empenhado. Discutimos como faríamos para cumprir com os restos a pagar. Devemos dar prioridade para segurança pública, saúde e educação depois de ser feita a parte de arrecadação.

Primeiro foi baixado um decreto de calamidade para depois elencar as prioridades. E temos também a ordem cronológica dos contratos. Existe uma regra para que o pagamento de restos a pagar seja feito. Não consigo precisar quanto deste total já foi pago.

A primeira prioridade seria pagar os 44% da folha de dezembro dos servidores que ainda estão em aberto. O salário atrasado tem sido o maior desgaste sofrido até aqui na avaliação da sra.?
Sim porque esse dinheiro corrói cerca de R$ 160 milhões mensalmente. Isso impede que possamos utilizar o recurso para outras rubricas, como por exemplo em políticas públicas. É muito frustrante. Gostaríamos que não tivéssemos uma folha deixada sem pagamento no nosso orçamento, que já é pequeno, e sofre o impacto de mais de R$ 1 bilhão.

É um orçamento comprometido com dívidas, como por exemplo a Previdência. Se não equacionarmos a nossa dívida e o déficit da Previdência, o dinheiro é drenado. Fora a folha, que é enorme. Afeta nossa capacidade de fazer investimentos em outras áreas.

O desgaste do pagamento do salário de dezembro já não poderia ter sido superado?
Com que dinheiro? O que precisa ser entendido é que só há dinheiro para pagar uma folha. E você pode escolher se pagamos dezembro, janeiro, o mês que quiser. Fez-se a opção de pagar tudo que é referente ao governo Caiado em dia e parcelar dezembro. Teria acontecido a mesma coisa se tivéssemos optado por pagar dezembro e parcelado janeiro. Do ponto de vista técnico, avaliando o caixa, isso independe.

Isso do ponto de vista de caixa.
Podemos entrar na esfera política. Mas essa eu já não domino. Meu âmbito é a esfera técnica. E na esfera técnica tanto faz. Vamos imaginar que em um mês você receba tanto de salário. Não importa se será pago janeiro ou fevereiro, porque o caixa não comporta duas despesas. Se colocarmos duas despesas vamos dobrar o gasto. E não temos recurso agora para pagar duas folhas.

É um desgaste que teremos de qualquer maneira. Se não fosse com o salário de dezembro, seria com o de qualquer outro mês. Não teríamos como pagar. O desgaste vai existir, não importa qual. O fato é que a reclamação sempre ocorrerá. Não temos arrecadação para pagar duas folhas no mesmo mês. Não tem não existe. Se existisse, o governador anterior não teria deixado a folha sem empenhar. Só fez isso porque não tinha dinheiro para pagar.

A presidente do Sindicato dos Trabalhadores em Educação no Estado de Goiás (Sintego), Bia de Lima, disse que a negociação com o governo para chegar ao pagamento da folha de dezembro teria sido descartada, já que houve uma proposta de quitar o salário atrasado em cinco parcelas, mas o governo adotou a quitação escalonada em seis vezes. Faltou clareza nessa discussão?
Eu nunca propus pagamento do salário de dezembro em cinco parcelas. Sempre falei que seis parcelas era o esforço máximo que o Estado poderia fazer. O governo fez uma tentativa de comprometimento além do possível para conseguir pagar a folha atrasada. E há uma dificuldade grande para conseguir pagar o salário de dezembro junto com a folha do mês atual.

A arrecadação do Estado compromete o cronograma mensal de pagamento escalonado de dezembro?
O cronograma foi feito e estamos cumprindo. Inclusive vamos pagar a segunda parcela em abril. A informação que estamos prestando é que estamos aumentando a fiscalização e o controle dos gastos para cumprir com grande esforço os compromissos com os servidores. Apesar de dizerem o tempo inteiro que não há cronograma ou que o governo está mentindo, o Estado tem cumprido as parcelas do cronograma que foi apresentado.

Em consulta à transparência estadual, verificamos que o total da folha tem crescido. Qual seria o fator que justifica esse aumento?
Há um aumento vegetativo da folha. O governador também cumpriu uma promessa de campanha com relação à adequação dos servidores da segurança pública.

O impacto da correção dos salários dos chamados policias de terceira classe é muito grande?
Qualquer variação causa impacto. Como ainda temos 84% da receita do Tesouro comprometida com salário, qualquer reajuste que seja feito impacta a folha. Impacta a capacidade do governo fazer investimento. Cada hora que uma categoria de servidor requer aumento, quem perde é a sociedade com a redução do investimento público em obras de rodovias, saneamento e qualquer outra política pública. O governo acaba sendo administrador de folha. Sobra dinheiro para a cultura, esporte, infraestrutura? Não sobra.

O comprometimento que a sra. descreve com a folha…
É o comprometimento do Tesouro, não do Estado. Quando digo comprometimento do Tesouro é aquilo que o governador pode gastar. Por exemplo, o dinheiro que entra na Saneago o governador não pode gastar. Ao avaliar pela Lei de Responsabilidade Fiscal, vemos o impacto com pessoal. Considerando as Emendas Constitucionais 54 e 55, o Estado já ultrapassou a Lei de Responsabilidade Fiscal em seu limite prudencial. Estamos hoje em 64,33%. Na hora que a análise é sobre o caixa do Tesouro, destinado para gastos do governo, o valor sobe enormemente. 

Quais serviços a sra. considera como prioritários no Estado e que estão comprometidos?
O Estado não chega a ficar sem fazer nada, mas realiza ações mínimas. Nossas rodovias estão boas? Conseguimos entregar serviços adequados no esporte e no lazer? Como está nosso asfalto? Sua vida no dia a dia está boa? Falta serviço? Você consegue ir a um hospital público e ser bem atendido? O problema é que a folha e as dívidas estão sugando todos os recursos, consomem 97% da receita. É muito complicado!

“Não conseguimos reorganizar as contas se não houver um choque de recursos para poder começar de novo”

Cristiane Schmidt cineminha - Fotos Fernando Leite Jornal Opção

Fotos: Fernando Leite/Jornal Opção

A gestão anterior chegou a discutir a possibilidade de privatizar algumas empresas estatais. Em entrevista ao O Popular na semana retrasada, a sra. falou sobre a situação da Celg G&T [Geração e Transmissão]. O que o governo já discutiu? Quais empresas podem ser privatizadas?
Trabalhamos em conjunto com a Goiás Parcerias. Estamos analisando as possibilidades. Mas não há nada concreto. Quando tiver algo definido, vamos anunciar.

O Estado tem conseguido na Assembleia retirar alguns aportes financeiros que foram concedidos à Enel na privatização da Celg D [Distribuição]. É uma discussão que o governo deve fazer ou deve ser travada na Justiça?
Pagamos R$ 200 milhões por mês de serviço da dívida da Celg para sanear a companhia. Vamos imaginar que a companhia seja vendida por R$ 1 bilhão. Acumula-se a todos os problemas o crédito outorgado concedido à empresa. Lógico que tudo isso deve ser questionado na Justiça. Sou uma economista liberal. Acredito que tudo que puder ser administrado pelo setor privado é melhor do que na mão do Estado. Mas precisamos ter cuidado, porque queremos o melhor para os goianos.

Quando é feita uma privatização, a ideia é melhorar a vida dos goianos. No momento em que essa melhoria não vem, há algo a ser questionado. Não cabe a mim dizer o que é certo ou errado, mas cumprir o que a Justiça determinar.

Desde o começo do ano, o governo apostou na proximidade da sra. com parte da equipe econômica do governo federal, inclusive com o ministro Paulo Guedes, para buscar uma ajuda para os cofres do Estado. Há uma solução mais próxima e possível de ocorrer?
Divergimos do governo federal no entendimento, mas houve a avaliação de que Goiás não se enquadra em uma das exigências para entrar no Regime de Recuperação Fiscal (RRF). Se o Tesouro Nacional considerasse a folha em atraso, provavelmente estaríamos na regra da RRF. A União vive o mesmo drama dos Estados: está sem dinheiro. O que está em estudo é a possibilidade de um novo modelo de empréstimo. Como ainda não existe a lei, não sabemos exatamente os detalhes. Mas aguardamos que assim que a medida for aprovada pelo Congresso possamos receber essa ajuda da União.

Quando o Estado apresentou o decreto de calamidade financeira, o texto tinha apenas duas páginas e não deixava clara a aplicação do documento. Qual foi a finalidade e qual a justificativa para que o decreto exista?
Se não estamos vivendo uma situação de calamidade financeira eu não sei mais o que é. Não conseguimos entregar serviços públicos de qualidade. Você está satisfeito com os serviços públicos prestados pelo governo? Você é pagador de imposto como eu. Você vai ao médico? Vá só ao serviço público de saúde para ver a situação.

Mas qual a aplicação efetiva do decreto?
É mostrar à sociedade e aos Poderes que o governo, na esfera Executiva, não tem dinheiro para gastar com políticas públicas. Por isso não conseguimos entregar aquilo que a população mereceria receber.

O decreto seria mais um comunicado público?
Essa é uma das vertentes.

O decreto deveria vir acompanhado de medidas a serem adotadas?
A Assembleia entendeu e aprovou que o Executivo está em situação de calamidade financeira. O Legislativo avalizou o decreto. É o povo insatisfeito com a situação do Estado. Se o povo estivesse satisfeito, os deputados jamais teriam aprovado. Está todo mundo insatisfeito com as rodovias. Sabe quanto pagamos de imposto no Brasil? 33% do PIB [Produto Interno Bruno]. É muita coisa.

A sra. é uma defensora do compliance nos órgãos públicos, que é uma iniciativa consolidada na iniciativa privada. Já dá para apresentar algum resultado da prática no governo de Goiás?
O programa de compliance do governo ainda será elaborado. Isso leva tempo. As coisas não são feitas da noite para o dia. É preciso criar procedimentos, maneiras de realizar o monitoramento. A Petrobras se gabava porque tinha um compliance maravilhoso, mega robusto. Mas foi efetivo? Não foi. E há razões para não ter dado certo.

Goiás corre o risco de seguir o exemplo da Petrobras: elaborar um programa de compliance bonito no papel, mas que foi comprometido por interferência de forças políticas?
No governo Caiado não. Governador é uma pessoa extremamente republicana e correta. Não é à toa que escolheu um secretariado técnico, sem nenhum problema político, sem agenda de bandeira. Todo mundo veio para ajudar a fazer com que Goiás cresça e saia da situação em que se encontra. Goiás é um Estado super-rico, com pessoas são educadas, simpáticas e do bem. Não tem por que Goiás dar errado. Só dava errado porque tinha gestão ruim. Mas vai dar certo. Já deu no passado e vai voltar a dar certo.

A forma como a sra. definiu o governador, sendo uma pessoa correta e republicana, de alguma maneira ajudou com que Caiado se tornasse a figura de importância nacional que é hoje, quase como um líder dos governadores nas negociações com o governo federal?
Sim. Se Deus quiser será o próximo presidente do Brasil. Precisamos de mais governadores com perfil republicano, com o espírito público que Caiado tem.

A sra. tem acompanhado as diversas agendas do governador em Brasília, que tem trânsito fácil com o presidente Jair Bolsonaro (PSL) e com os ministros. Como se deu a relação do presidente com o governador?
O governador, por ser uma pessoa muito correta e por ter passado pelo parlamento, tem assumido essa posição porque quer ver o Brasil melhorar, quer ajudar o País. Não é uma pessoa vaidosa. Caiado é uma pessoa que veio para ajudar a tirar o Brasil da lama. Governador Caiado é respeitado desde o gari, do ascensorista do Congresso até o presidente da República. Esse é o nosso governador. Uma pessoa que respeita o ser humano. Não está buscado algo para ele. Quer algo mais neste momento para Goiás. E espero daqui quatro anos poder votar em Caiado para presidente.

A crítica que é feita ao presidente Jair Bolsonaro com frequência também ouve-se sobre o governador: os dois não desceram do palanque até hoje. Como integrante da gestão Caiado, como a sra. avalia as duas figuras nos cargos que ocupam: os dois ainda estão no palanque?
Governador Caiado desceu do palanque no dia 1º de janeiro, quando assumiu o cargo. O homem trabalha como um louco. É um supertrabalhador. Trabalha 24 horas por dia 7 dias na semana. Sempre está pronto para buscar soluções ou discutir ações do governo. A equipe do governador trabalha insistentemente, corriqueiramente e permanentemente.

Do governo Bolsonaro posso falar de alguns grupos que conheço. No Ministério da Economia, as pessoas estão trabalhando, antes mesmo de janeiro, todo fim de semana desde a transição. A equipe do Banco Central é maravilhosa. O presidente do Banco Central [Roberto Campos Neto] não precisava da posição em que está. Poderia se aposentar por estar bem de vida. Está ali por amor ao Brasil.

Vejo que o governo Bolsonaro tem muitas pessoas que estão trabalhando fortemente para que o Brasil dê certo. Muitos deles não são políticos. E é quando vemos o que chamamos de curva de aprendizado. A pessoa nunca trabalhou no serviço público, não sabe exatamente como as coisas funcionam e tem uma curva de aprendizado. Mas são profissionais inteligentes que aprendem rápido. Se acostumam, entendem as idiossincrasias, se adaptam ou tentam modificá-las.

Como a sra. analisa as ameaças do ministro Paulo Guedes em deixar o governo e a forma como o titular do Ministério da Economia tem lidado com o Congresso? A sra. concorda com o sigilo dos documentos que embasam a necessidade da Reforma da Previdência?
Paulo Guedes é uma pessoa extremamente inteligente. É de uma praticidade e uma comunicação fora do comum. Até eu que o conheço a mais tempo fico impressionada como Guedes consegue se comunicar com a população que não entende do assunto. Fala de uma maneira mais fácil do que a média dos economistas consegue se comunicar com a sociedade. O ministro de fato tem tentado articular e passar para a sociedade tudo aquilo que Guedes como economista tem visto. É muito sincero.

Guedes está no governo para ajudar, fazer o Brasil melhor, para que as gerações tenham uma vida melhor. É uma pessoa que está no governo para tentar equacionar os problemas do Brasil. Sabendo que há vários problemas e entraves, tenta solucionar um a um. O ministro não é um ser político. Chega no Congresso sem uma bancada para ajudá-lo na parte política, o que complica pelo fato de ser um técnico, não um político.

Guedes não precisa ser educado, não precisa ser formal. Fala aquilo que acredita que tem de dizer. Guedes fala o que está pensando. Esse modo espontâneo muitas vezes assusta as pessoas. A mim não assusta. Ministro tem agido de uma maneira muito republicana. Quando é autêntico e fala o que pensa não está agredindo absolutamente ninguém. É uma maneira de se mostrar indignado que as pessoas não estejam vendo o que ele tem enxergado.

O sigilo ou não das informações é mais uma questão do grupo técnico do que qualquer outra coisa. Segundo colocam, é uma questão para uma análise preliminar de que não cabe todo mundo ficar olhando os dados. Na hora que passa a ser algo discutido no Congresso, pode-se no parlamento exigir essas informações. A depender da justificativa, essa informação é dada. Inclusive foi passada a pessoas que conheço e que estão fazendo tese de doutorado.

É preciso justificar a necessidade do acesso. Infelizmente existe um outro lado que quer pegar os dados apenas para criticar. Para colocar no liquidificador e tirar algo ruim. São críticas não construtivas. Se todas as críticas fossem construtivas não teria nem por que restringir o acesso. Mas sabemos que não é assim. Como está na fase preliminar, foi uma escolha adotada pelo governo. É algo que pode ser que seja essa a razão. Não quero tentar justificar uma escolha do governo federal. É o que todos nós temos lido.

Um exemplo é a entrevista que Paulo Guedes concedeu à GloboNews. É fantástico, direto, consegue se comunicar perfeitamente. Deixa até os jornalistas que estão mais contra o que o ministro fala em situação desconfortável, porque Guedes é muito direto. Sabe exatamente o que quer, tem ideias muito claras.

“Se não estamos vivendo uma situação de calamidade financeira eu não sei mais o que é”

Cristiane Schmidt - Foto Fernando Leite Jornal Opção 36

“Governador Caiado desceu do palanque no dia 1º de janeiro” | Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

A visão de que o jornalista está contra o entrevistado não é um pouco equivocada? Não é papel do jornalista fazer perguntas que podem soar como incômodas, mas que são necessárias?
O jornalista tem de fazer perguntas inteligentes para obter respostas que ele não sabe. Não é para ficar instigando. Há o jornalista que instiga e existe o jornalista que faz perguntas inteligentes. É preciso que os jornalistas façam perguntas que sejam eficazes, interessantes, que informem quem acompanham, vê, lê ou escuta. As perguntas precisam ter um viés explicativo sobre aquele assunto que é tratado.

Agora, pode fazer só perguntas que são pegadinhas. Perguntas para ver se o entrevistado cai em uma casca de banana. Não disse que houve perguntas assim na GloboNews, mas há jornalistas e jornalistas. São necessárias perguntas que são feitas para realmente ouvir quem é entrevistado, querem o seu argumento, não com um jogo de xadrez montado esperando determinada resposta. Isso é ruim. O ponto é esclarecer as questões. Ninguém quer ser ludibriado, as pessoas querem entender as coisas.

Tenho colegas que têm dúvidas sobre Previdência. E são dúvidas normais porque o assunto é muito árido. Não tenho dúvida de que nesse grupo de amigos as perguntas que serão feitas não são pegadinhas. São perguntas de fatos para entenderem seu argumento, o que a pessoa vai falar.

Outro integrante do governo que a sra. conhece é o presidente do BNDES [Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social], Joaquim Levy. Na iniciativa privada, os comentários são de que a carreira de Levy é inquestionável. Antes do governo Bolsonaro, ele esteve na gestão Dilma Rousseff (PT) em 2015, durante o período de aprofundamento da crise econômica. Para a sra., quem era o ministro da Fazenda e quem é o presidente do BNDES Joaquim Levy?
Levy é outra pessoa inteligentíssima. Uma pessoa do bem, que tentou fazer o melhor na gestão do Rio de Janeiro nesta situação caótica. Tem um currículo de Banco Mundial fantástico. Obviamente, ninguém consegue recuperar o que foi feito de errado durante sete a oito anos.

Quando Levy foi chamado para o Ministério da Fazenda, muitos colegas falaram “não vai, porque você vai se queimar porque não vai ter tempo para fazer nada”. Mesmo assim Levy disse que iria tentar. A equipe que Levy tinha era maravilhosa, um grupo técnico de primeira. Ele tentou fazer muitas coisas na Fazenda.

Se em um governo em que todo mundo pensa mais ou menos parecido já é muito difícil, imagine em um governo em que Levy era uma ilha em Brasília. Não tinha uma interlocução boa com outros ministros. É muito difícil tocar uma agenda neoliberal se não há apoio de um grupo ou principalmente do próprio presidente.

Bolsonaro está sempre apoiando o Guedes. O dia que não apoiar o Guedes acredito que o ministro vai embora. Guedes só fica na Economia porque tem o apoio do presidente. Levy não tinha esse apoio da Dilma de fato. Dilma chamou o Levy para o cargo porque a economia estava tão ferrada que só um economista liberal republicano para assumir um posto desse realmente. É de muita coragem.

Levy foi extremamente corajoso, audaz, mas tinha um ano para arrumar a casa que já estava desarrumada por muito tempo. Mas deixou muitas coisas engatilhadas, por exemplo, para o governo [Michel] Temer (MDB). Cadastro positivo foi na época do Levy que foi encaminhado ao Congresso. Bolsonaro chegou agora e aprovou o cadastro positivo porque foi uma proposta amadurecida por muito tempo.

O próprio Guedes diz que aproveitou muita coisa, não tem vergonha de falar. “Aproveitei muita coisa do Temer.” Muitas medidas do Temer vieram do Levy, que também vieram do passado. Muita coisa foi elaborada, mas quem aproveita é o outro governo.

Trabalhei no Ministério da Fazenda por três anos. Trabalhei no Cade [Conselho Administrativo de Defesa Econômica] por mais três anos e meio. Sei o que é herdar legados e experimentar o que o antecessor deixou e outras coisas que você começa a resolver, acaba por não terminar e são aproveitadas pelo próximo.

Para encerrar a entrevista, gostaria de destacar a frase final do artigo mais recente que a sra. publicou no portal Jota – “A democracia das minorias e o papel dos três Poderes no Brasil“: “Os três Poderes têm um papel fundamental na transformação da democracia brasileira, que deve se balizar em garantir os direitos básicos da maioria da população, que paga caro para sustentar a máquina pública”. Já que a discussão proposta no texto é justamente uma democracia da maioria, o que impede a prática liberal da garantia de direitos às minorias, como resolver essa equação?
Boa pergunta. Realmente não sei. Escrevi um artigo sincero no qual coloco todo meu desespero sobre a questão da democracia que temos, que é não só complexa, mas que está muito disfuncional.

Qual seria a solução: aperfeiçoar essa democracia ou mudar o modelo?
Acredito aperfeiçoar o modelo. Não dá para mudar o modelo. A pior democracia é preferível à melhor das ditaduras [cita Ruy Barbosa]. É melhor uma democracia a uma ditadura e governos totalitários. Temos muitos problemas. O melhor caminho seria o parlamentarismo? Não sei.

Há problemas que são característicos da democracia brasileira, como o fato de ninguém controlar o Tribunal de Contas da União (TCU), que deveria ser um órgão muito mais restrito. Agora vemos a Procuradoria-Geral da República (PGR) questionando o Supremo Tribunal Federal (STF). Temos problemas.

No início do governo, houve uma crítica pelo fato de parte da equipe do governo não ser goiana. A sra. é uma das integrantes do secretariado que é do Rio e veio do Distrito Federal para Goiás. Agora a sra. tem título de cidadã goiana.
Era chamada de forasteira. Agora eu sou cidadã goiana, recebi o título, ninguém pode falar mais nada [brinca].

Ainda há esse tipo de crítica e questionamento? Incomoda a sra.?
Isso nunca me afetou. Nunca foi um problema. O blog que diz isso é o Goiás24Horas, que tem credibilidade zero. E é esse site que me chama de forasteira, cafona… cada dia é uma coisa diferente. Fico sabendo porque meu sogro fica indignado ou algum amigo me manda. Isso não é jornalismo. É um blog de fofoca para tentar destruir o governador Caiado e todo seu secretariado.

A vida é tão curta. Estou aqui para ajudar Goiás a sair dessa situação. Quero muito colaborar, agregar valor. Estou aqui para fazer parte de um time que será vencedor. E para ajudar um governador em que acredito muito. Teria ido trabalhar com poucos governadores. Não trabalho com qualquer um. Nunca fiz isso. Não preciso disso.

Inclusive abdiquei da minha quarentena no Cade. Estava com tudo engatilhado para estudar em Yale [universidade americana na cidade de New Haven, em Connecticut]. Estou aqui porque realmente acredito no governador Caiado. Acredito em Goiás. É um Estado no qual quero fazer diferença ajudando a trazer toda a grandeza que Goiás pode ter.

Deixe uma resposta

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.