“Nunca houve tentativa de unir as oposições em Goiás”

Ao dizer que o filho está mais preparado do que ele para ser governador, Maguito defende que Daniel Vilela tem maturidade e preparo para comandar Goiás

Maguito Vilela | Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

Falta diálogo à classe política, que se esquece dos problemas do povo e agrava o momento de demonização que vivem os ocupantes de mandatos eletivos no Brasil. É assim que Maguito Vilela, um dos líderes históricos do MDB goiano, vê a desconfiança vivida pelos poderes Executivo e Legislativo no País. “Defendo o diálogo de todos os partidos com todos os partidos para acabar essa crise.”

Crente de que seu filho, o deputado federal e pré-candidato ao go­ver­no Daniel Vilela (MDB) está mais preparado do que ele para ser gov­ernador, Maguito defende que o MDB continua unido. Para o ex-governador, que já ocupou os cargos de senador, prefeito de Apa­re­cida de Goiânia e vice-presidente do Banco do Brasil, os cinco contrariados – e que resolveram apoiar o senador Ronaldo Caiado (DEM) – não representam a história do partido. “Do MDB histórico, ninguém tirou o pé do partido. Não deixam, deixaram ou vão deixar de apoiar a pré-candidatura do Daniel”, rebate.

Sobre a possibilidade de abrir negociação com o PSDB para as eleições em Goiás, Maguito descarta essa possibilidade. “Dialogar não se trata de apoio eleitoral. E nem pode ser. O PSDB tem o seu candidato, o DEM tem o seu candidato e o MDB tem o seu candidato.” E lamenta a ida do senador Wilder Morais para o Democratas: “Wilder tinha uma convivência muito boa com o Daniel, comigo e com os prefeitos do MDB. De repente ele toma uma decisão que ninguém esperava”.

Augusto Diniz – Como o sr. avalia este momento de animosidade com o presidente Michel Temer (MDB), que tem apenas 5% de aprovação e foi hostilizado na última semana ao visitar o local do desabamento de um prédio público ocupado no Largo do Paissandu, em São Paulo?

Eu não diria que o momento é ruim para o governo Temer. Posso afirmar que o momento é ruim para toda a classe política. Por tudo que tem acontecido ultimamente no Brasil, a classe política está demonizada. Em parte com razão. Todos os escândalos que surgiram no País nos últimos anos, o próprio impeachment da presidente [Dilma Rousseff-PT] e a prisão do ex-presidente Lula (PT). Agora esse episódio com o Temer.

Isso tudo em função do acirramento político que temos no Brasil de uns contra os outros. Falta muito diálogo na classe política. É preciso pregar o diálogo e mostrar que a classe política precisa se unir realmente para resolver os problemas do povo, senão esse linchamento à maioria dos políticos brasileiros. Não é só o Temer, qualquer político envolvido hoje em grandes problemas vai ser hostilizado em qualquer lugar que for. Estão sendo hostilizados.

Cezar Santos – Tem havido uma demonização da política?

Sem dúvida. E a culpa é dos próprios políticos. Político só xinga um ao outro. Só fala que o outro é ladrão, corrupto, corno. Político só tem essa linguagem. Enquanto tiver essa linguagem, as coisas ficarão em terra arrasada.

Marcelo Mariano – Nas eleições deste ano, o sr. vê a possibilidade de um não político, um técnico, como Henrique Meirelles (MDB), ser eleito presidente?

É lógico que se trata de um técnico, mas um técnico que tem experiência política. Foi presidente do Banco Central, ministro da Fazenda e já foi eleito deputado federal. Meirelles tem contatos com o Congresso Nacional constantemente, tanto na Câmara quanto no Senado. E é um político que não está envolvido em nenhum escândalo. Ele tem muita chance. Como outros também que estão postulando.

Cezar Santos – A pré-candidatura a reeleição de Michel Temer pode ser levada a sério?

Acredito que seja muito difícil. Sou amigo do presidente, fomos colegas na Câmara Federal, disputamos convenções no MDB. Mas posso afirmar que não está fácil para Temer. Quem está no comando da nação e dos Estados, quase todos — são raríssimas as exceções – estão desgastados. Dos mais de 5,5 mil prefeitos, posso assegurar que 5 mil sofrem desgaste. A grande maioria dos políticos que está no Poder Executivo está desgastada, assim como grande parte dos que estão no Legislativo.

Patrícia Moraes Machado – O sr. foi um dos grandes defensores da aliança do MDB com o PT. Diante de tudo que foi investigado e revelado de corrupção, o sr. se arrepende do apoio declarado ao PT?

Não me arrependo. Membros de quase todos os partidos estão envolvidos em corrupção. Não é só o PT, MDB ou PSDB. Defendi alianças com o PT no passado e não tenho nada a reclamar do PT. Quando fui prefeito de Aparecida de Goiânia, tanto a presidente Dilma quanto o presidente Lula me ajudaram muito. Tanto é que Aparecida asfaltou 112 bairros. Nenhuma cidade do Brasil teve esse feito. Fez todos os eixos estruturantes, 29 Unidades Básicas de Saúde (UBSs), três Unidades de Pronto Atendimento (UPAs), um hospital, muitas creches. Quadras de esporte cobertas e com iluminação foram 33. Nenhuma cidade ou governos estaduais fizeram tanto. Não posso ser ingrato nem injusto. Por que eu não seria grato aos presidentes Lula e Dilma? É lógico que sou grato a eles.

E foi o presidente Lula que me convidou para exercer a nobre função de vice-presidente de governo do Banco do Brasil. Foi a época em que o banco mais cresceu em contas públicas. Me lembro de comprar todas as contas públicas de Minas Gerais e Bahia. A folha salarial de Goiás eu cheguei a comprar do Estado, mas o governador Alcides Rodrigues não sustentou o negócio. Mas comprei Goiânia, Aparecida e fui comprando as folhas das cidades. Muitos outros Estados e cidades brasileiras. Foi uma época boa, na qual o Banco do Brasil cresceu muito em contas públicas.

Isso não quer dizer que eu compactuo com nenhum ato de corrupção de um membro ou de outro do PT. De forma nenhuma.

Augusto Diniz – Fui publicado em março o livro “A Verdade Vencerá – o povo sabe por que me condenam” (Boitempo, 2018), que é a última grande entrevista de Lula antes de ser preso. O ex-presidente diz o seguinte sobre Dilma: “Eu cheguei a ponto de dizer pra companheira Dilma: ‘Olha, você vai passar para a história como a única presidente que nem os ministros defenderam’”. É uma declaração acertada? De fato, o governo Dilma foi um desastre?

Faltou diálogo. Faltou diálogo com o Congresso, com os políticos, governadores. Isso é público e notório. De repente, a classe política foi se revoltando contra Dilma. Isso contaminou a população, o povo foi para as ruas e a situação dela ficou praticamente insustentável. Isso aconteceu com Fernando Collor, aconteceu lá atrás com Jânio Quadros, com Getúlio Vargas. O político tem de ser muito correto e muito hábil. Tem de dialogar muito, porque senão ele tem voo de pato, curto.

Patrícia Moraes Machado – A corrupção do governo do PT é exclusiva ao período em que o partido esteve no poder ou sempre fez parte da história do Brasil?

Não. Isso vem lá de trás. A corrução começou na reeleição [Emenda Constitucional número 16, de 4 de junho de 1997]. Compra de votos no Congresso para reeleger o presidente Fernando Henri­que Cardoso (PSDB). Foi quando começou todo o processo de corrupção. E o grande câncer que assola a política brasileira chama-se reeleição. Quem é eleito já começa a pensar na reeleição. Começa a não fazer obra no primeiro ano e no segundo para deixar tudo para fazer no final para ter o que mostrar e ser reeleito. O projeto do PT, e antes do PSDB, era ficar de 20 a 30 anos no poder.

E para ficar de 20 a 30 anos no poder é preciso acumular recurso para as campanhas dos senadores, dos deputados federais, dos governadores e dos candidatos a Presidência da República. E é aí que vem a corrupção. Ao meu ver, a corrupção grande no Brasil surgiu na reeleição, com a compra de votos para aprovação da reeleição de Fernando Henrique Cardoso. Qualquer deputado e senador na época era cooptado pelas grandes empresas do Brasil para poder votar a reeleição.

Patrícia Moraes Machado – O sr. não quis disputar a reeleição quando era governador.

Fui contra. No Senado, apresentei dois projetos de lei contra a reeleição. Fui voto vencido. Eu e Mário Covas (PSDB), por São Paulo, fomos os dois governadores da época que foram contra a reeleição. No final, Covas cedeu e foi candidato a reeleição. Não aceitei concorrer novamente. Aceitei a reeleição em Aparecida como prefeito porque era uma cidade grande, mas problemática demais, e havia muitas obras em andamento.

Como sabia que em quatro anos não dava para consertar uma cidade daquele tamanho e estava com uma boa avaliação, aceitei o desafio da reeleição. Sabendo que, por princípio sou contra. A regra é reeleição, porque eu seria exceção? Aceitei porque sabia que faria o segundo mandato com muito mais êxito. A minha proposta nem é de quatro anos, é de cinco anos, que é um tempo bom. Mandato de cinco anos sem reeleição foi o que sempre preguei.

Marcelo Mariano – O sr. optou por não disputar a reeleição ao Es­tado em 1998, que foram as eleições vencidas por Marconi Pe­rillo (PSDB). Desde então o mesmo grupo político governa Goiás. Se o sr. tivesse se candi­da­­tado, o resultado poderia ter sido diferente? O sr. se arrepende de não ter disputado a reeleição?

Não me arrependo. Fiz o governo que eu quis fazer. Atingi os objetivos que tinha de atingir. Sabia que a reeleição seria um mal muito grande para o País, como está sendo.

Augusto Diniz – Lula trata Temer na entrevista publicada no livro como traidor, que teria jogado contra o governo Dilma. Como o sr. avalia o governo do emedebista, iniciado em 12 de maio de 2016, e que se propôs a ser uma gestão reformista?

Em primeiro lugar, acredito que Temer enquanto vice-presidente nunca teve força nenhuma para colocar multidões nas ruas contra a presidente Dilma. Ele não foi o culpado. Precisa­mos ser honestos e justos. Temer não teve influência nenhuma no impeachment da Dilma. O problema do impeachment foi falta de diálogo com o Congresso e, a meu ver, tanto Dilma quanto Lula acabaram sendo censurados ideologicamente. A aproximação com a Venezuela, com Cuba e os países socialistas e comunistas enfureceu grande parte da população contra Dilma e Lula.

Cezar Santos – Principalmente a classe média.

A classe média alta também. Temer não tem culpa. Para sermos corretos com a história, ele não tinha força e nem poder, nem mesmo para incitar a população contra a presidente. Temer não fez isso.

Marcelo Mariano – O ex-presidente da Câmara, Eduardo Cunha (MDB-RJ), teve essa força?

Também não. Cunha era um deputado que, mesmo sendo presidente da Câmara, não tinha expressão política. Era um deputado de poucos votos.

Patrícia Moraes Machado – O sr. não acredita focar só na falta de trânsito da Dilma com o Congresso não diminui os resultados da Operação Lava Jato. Se ela tivesse uma boa relação política, Dilma teria contido a Lava Jato?

De forma nenhuma. A Ope­ra­ção Lava Jato demorou muito. De­veria ter surgido há muito tempo. Bem antes. Não é agora que a Pe­tro­bras financiou campanhas políticas, Odebrecht e outras grandes empresas. A Petrobras vem financiando campanhas políticas há 20 anos. A Lava Jato não podia ter demorado tanto tempo para surgir. Isso é uma falha de todo sistema.

Patrícia Mores Machado – Se a Dilma tivesse bom trânsito no Congresso, ela travaria as investigações de alguma forma?

Não acredito. A coisa já estava muito escandalosa e escancarada. Deu no que deu.

Cezar Santos – A analogia poderia ser feita com o mensalão, em que Lula não conseguiu parar as investigações.

Mas o mensalão também não começou com o Lula. Começou em Minas com [ex-governador] Eduar­do Azeredo (PSDB) há 20 anos. O mensalão do Congresso vem de Minas. Não foi inventado pelo PT.

Cezar Santos – Tem know-how tucano o mensalão.

E esse mensalão existiu em muitos Estados e muitas prefeituras. É preciso ir fundo contra essas coisas.

Patrícia Moraes Machado – Qual é a perspectiva política, com todos os escândalos e sem reforma? O quadro continuará o mesmo?

Acredito que esse é um ciclo encerrado. Isso está acabado. Nenhum público usará mais o que foi feito no passado. O Ministério Público ficará muito mais atento. O Poder Judiciário estará muito mais atento. Eles também estavam tranquilos no passado com relação a tanta corrupção.

Augusto Diniz – Com a prisão do Lula e com a continuidade das in­vestigações de casos de corrupção na política, qual é o cenário presidencial que pode se desenhar para a eleição de outubro? Quem pode se fortalecer a partir de agora?

São os políticos que tiverem um histórico de honestidade. Não adianta falar que é honesto, tem de provar que é honesto. Esses candidatos podem levar vantagem. Acredito que o povo fará uma reforma muito grande no Senado, na Câmara e nos governos estaduais. Estou com esse sentimento, de que o povo votará contra os que estão no poder hoje.

Patrícia Moraes Machado – Como será possível qualificar um candidato como honesto?

Pelo histórico, a vida, o patrimônio. Tudo isso dá para aferir.

Augusto Diniz – Já que o sr. acredita que a busca será pela honestidade do candidato, qual o possível desdobramento no cenário estadual?

É obrigação. Não é favor nem vir­tude ser honesto. É obrigação. Não só dos políticos, de qualquer ci­dadão. Os eleitores estarão muito mais atentos. A população investigará a vida dos candidatos, o patrimônio, o passado e tomará sua decisão.

Marcelo Mariano – A associação do deputado federal Daniel Vilela (MDB) com o governo Temer pode ser prejudicial para a pré-campanha a governador do emedebista?

De forma alguma. Temer toma suas decisões no Palácio com os ministros. Daniel é apenas um deputado federal que está no Congresso apresentando emendas, projetos, liderando processos como presidente da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), mas não tem qualquer vínculo com as decisões do governo Temer.

Cezar Santos – A pré-candidatura de Daniel tem cumprido o que o sr. esperava ou já deveria ter atingido um porcentual maior de intenção de votos?

Está dentro do esperado. Daniel é conhecido por 20% da população goiana. Falta 80% ainda para conhecê-lo. É agora na pré-campanha e na campanha que ele poderá mostrar suas ideias, projeto de governo, o que Daniel quer para Goiás. Só assim os eleitores poderão avaliá-lo.

Cezar Santos – Mas Daniel não conseguiu pacificar o MDB. Há uma ala dissidente importante no partido.

Mas se vocês se atentarem à história, Adib Elias [prefeito de Ca­ta­lão] foi meu concorrente, disputou convenção comigo, quis ser o candidato naquela época. Eu tive muita paciência, muita tolerância. Foi até a convenção com ele sem criar o menor problema. Depois Adib foi candidato ao Senado. Adib sempre quis criar um probleminha dentro do partido. E se você for mais longe, Adib não teve origem no MDB. Ele veio de outros partidos. Não tem a história que eu, Iris Rezende, Da­niel e Iris de Araújo temos no MDB.

Ernesto Roller veio agora para o MDB com a intenção de facilitar a eleição de prefeito em Formosa, mas esteve no governo durante 16 anos. Renato de Castro da mesma forma. Era do PFL, depois do PT, mas não tem origem no MDB. Foi para o MDB em Goianésia para ganhar fácil a eleição de prefeito e ganhou. Paulo do Vale era do PSDB até pouco tempo e foi eleito prefeito de Rio Verde pelo MDB. É a mesma história. Nenhum deles tem vínculo tão forte e histórico com o partido. Todos eles muito vinculados às elites, como a do agronegócio. É um caminho fácil. Não tem justificativa para os quatro.

O MDB apresentou um pré-candidato jovem, com um perfil que o partido sempre quis, que é o de renovação. Desculpe a modéstia, mas um candidato preparado. Daniel estudou e se preparou. Ele não está entrando do nada. Se fosse um qualquer nem eu deixaria ser candidato. Se eu soubesse que seria um fiasco. Percebi que Daniel tem ideal, ideias e um bom projeto. O que esses quatro prefeitos do MDB têm para apresentar contra esse pré-candidato? Se eles quisessem realmente lutar por uma candidatura ou por outra que não a do Daniel, é preciso fazer isso dentro do partido. Não é declarando apoio a um pré-candidato de outro partido. Não tem sentido.

Do MDB histórico, que vem com Iris Rezende em Goiâ­nia, com Gustavo Men­danha em Aparecida, que é filho do Leo Mendanha, Hum­ber­to Machado em Jataí, Gil­mar Alves em Quirinópolis e tantos outros, ninguém aluiu o pé do partido, não deixam, dei­xaram ou vão deixar de apoiar a pré-candidatura do Daniel. Isso se limitou a esses cinco — com a saída do deputado estadual José Nelto, agora no Podemos —, que têm uma história diferente da história do MDB.

“Políticos têm de se unir para resolver problemas do povo”

Patrícia Moraes Machado – Diante da análise que o sr. fez, era esperada a atitude do senador Ronaldo Caiado (DEM) junto ao MDB de entrar e tentar esvaziar o partido?
Pela porta dos fundos. Isso não é procedimento correto de político nenhum. O político pode dialogar, buscar alianças, mas com toda transparência e tranquilidade. Fazer intriga em um partido para querer o apoio da legenda não é atitude de político sério. Político sério entra pela porta da frente. Conversa com as lideranças, tenta ganhar o partido como um todo, e não um pedaço. E explorando justamente junto àqueles que não têm história no partido.

Fotos: Fernando Leite/Jornal Opção

Patrícia Moraes Machado – E o MDB ajudou Caiado a se eleger senador.

Nem entrei nesse mérito ainda.

Marcelo Mariano – Essa questão afasta a possibilidade de união das oposições em Goiás?

Por isso que temos de ser coerentes. Nunca houve tentativa de unir as oposições em Goiás. Nunca. Para tentar unir as oposições, é preciso chamar à mesa o MDB, DEM, PT, PCdoB e os outros partidos que estão na oposição. Nunca houve essa iniciativa de chamar todos os partidos. Inclusive o PT sempre foi discriminado. “O PT não pode participar das reuniões.” Então não é união das oposições.

Augusto Diniz – A negativa do deputado estadual José Nelto em apoiar a pré-candidatura de Da­niel Vilela e a saída dele do MDB para o Podemos prejudica as intenções eleitorais do seu filho?

De forma alguma. O MDB tem uma história com Goiás de muita responsabilidade. MDB foi o partido da redemocratização, das diretas, e isso começou inclusive aqui em Goiás. Hoje toda cidade tem MDB, e um MDB que tem história. José Nelto naturalmente tinha a confiança do partido e se elegeu pelo MDB, mas todos que o apoiaram no passado estão encaminhando cartas a ele retirando o apoio. Tenho o conhecimento de muitas cidades que já retiraram o apoio à candidatura de José Nelto.

Ele não vai provocar estrago no MDB. José Nelto vai se prejudicar com essa atitude que tomou. Mas não estou aqui dizendo que ele não podia tomar essa decisão. A decisão é dele e temos de respeitar. Mas acredito que ele tenha ficado contra ele mesmo. Deixou uma história junto com o partido e foi buscar uma nova história. Acredito que forçado pelos prefeitos que prometeram reelegê-lo. Não sei se irão entregar a promessa.

Patrícia Moraes Machado – Como o sr. avalia a posição de Iris Rezende em relação à pré-candidatura de Daniel Vilela? Dizem que Caiado seria o nome do coração do prefeito de Goiânia e o Daniel mais pelo pragmatismo para eleger a primeira-dama deputada federal.

Iris sempre foi um político muito coerente. Iris nunca vacilou. Ele sempre esteve à frente de to­das as grandes iniciativas do MDB, como as diretas, a redemocratização. A coerência do Iris, a história dele, é muito bonita. Ele não iria nunca manchar essa história.

Patrícia Moraes Machado – Em contrapartida à boa gestão de Aparecida, que Gustavo Menda­nha herdou do sr., Goiânia tem demonstrado um caos administrativo com Iris na prefeitura. Isso pode prejudicar a pré-candidatura de Daniel ao governo?

De forma nenhuma. Lógico que todo mundo sabe das dificuldades que a prefeitura passou e tem passado, mas Iris vai colocar tudo no lugar e fará uma grande gestão. Não tenho dúvida nenhuma disso. Iris é um excelente gestor, um grande político. Podem esperar que a gestão será primorosa. Já iniciou essa mudança. A situação da cidade era muito pior. Tinha muito mais buraco, muito mais sujeira. Hoje já é outra realidade. Amanhã será muito melhor.

Augusto Diniz – Daniel não teme que a situação da saúde em Goiânia seja explorada contra ele na campanha?

Mas não adianta criticar a saúde sem apresentar solução. O problema da saúde é grave, mas não é só aqui em Goiás, é no Brasil inteiro, em todas as cidades. A situação da segurança pública é grave, mas não é só aqui. A infraestrutura de saneamento básico, de água e esgoto, é complicada no Brasil. E aqui não é diferente. O que Daniel tem de fazer a partir de agora é dizer como ele vai resolver o problema da segurança pública. E não é com falácia. É com algo perceptível, palpável.

Como ele vai resolver os problemas da saúde? Quando falo que a classe política tem de dialogar e me criticam, é justamente por isso. Se dialogarem os prefeitos com o governo estadual e o governo federal, resolve o problema da saúde. O problema é que uns gastam mais e outros menos. Uns gastam o que a Constituição prevê, outros não gastam e ficam um jogando a culpa para o outro. E a população sofrendo e pagando pela falta de entrosamento entre os políticos.

Por que minha gestão foi vitoriosa em Aparecida? Eu conversava com o governador toda semana. Conversava com os ministros, com o presidente Lula ou com a presidente Dilma todo mês. Eu dialogava com eles e resolvíamos os problemas. O diálogo tem de ser permanente. As três esferas de poder têm de estar dialogando constantemente. A saúde é 18% dos municípios, 12% do Estado e o restante da União. Só que o Estado muitas vezes não gasta, o município não gasta ou a União não gasta aquilo que é a sua obrigação constitucional.

Na educação nós temos problemas, mas bem menores, porque todo mundo é obrigado a gastar os 25% da arrecadação com a educação. Às vezes sobra dinheiro até para fazer, ampliar e reformar escolas, além do pagamento em dia do salário dos professores. Educação todo mundo cumpre a aplicação do recurso obrigatório. Na saúde isso não acontece. A União não cumpre, os Estados não cumprem e muitas vezes o município, como no caso de Aparecida, que tinha obrigação de gastar 18% do orçamento, chegava a gastar 25% a 30% dos recursos da prefeitura na saúde.

Esse diálogo é importante para resolver os problemas. Quando eu falo que a classe política tinha que disputar as eleições, e até a disputa tudo bem, mas depois conversar e unir para procurar resolver os problemas do povo, começam a me criticar. Eu já dei o exemplo. Aparecida está aqui do lado. Vá lá ver o volume de obras que foi feito, o crescimento da cidade de 20% nos últimos anos. Cres­cimento chinês no Brasil. É a segunda maior geradora de empregos no País. Mas isso ninguém comenta. Dizem que o Maguito prega isso ou aquilo, quando na verdade o que eu prego é diálogo.

“Daniel se preparou, estudou,
está pronto para ser governador”

Patrícia Moraes Machado – Uma das capacidades que o sr. defende como sua é a busca do diálogo, mas também de evitar o conflito. O sr. é tido como político de perfil conciliador. Já o Daniel tem um perfil de enfrentamento. Ele enfrentou o diretório estadual, Iris Rezende, Iris de Araújo, Caiado. O que se pode esperar do político e do gestor Daniel Vilela como pré-candidato a governador?

Daniel já foi vereador, deputado estadual e é deputado federal. Ele tem experiência política pela convivência nas três esferas do Poder Legislativo. Eu não diria que Daniel tem um papel de enfrentamento. Eu diria que ele faz críticas mais duras, mas todas construtivas. Não vi Daniel entrar na vida pessoas ou falar mal de alguém, a não ser quando há uma ação do governo que ele não concorde. Espero que ele apresente as soluções que quer para o Estado e que Daniel assuma o compromisso de ser governador de todos.

Depois das eleições não existe governador do MDB, é governador de todos os goianos. É quando será preciso buscar o diálogo com todas as entidades, instituições, igrejas e a comunidade toda. Esse é outro exemplo que eu dei em Aparecida, que é hoje a cidade mais unida de Goiás. Tanto as religiões, que se unem quando é em favor da cidade, as entidades de classe, como os clubes de serviços, a Câmara Municipal, a prefeitura, a Associação Comercial e Industrial de Aparecida de Goiânia (Aciag) são um exemplo.

Não falo isso para enaltecer o meu governo, porque eu não fiz isso sozinho. Fui eu, os vereadores, secretários, as entidades de classe. Conseguimos unir e pacificar a cidade. Espero que o Daniel consiga unir e pacificar o Estado para fazer o governo que o povo espera que seja feito em Goiás. Um governo gerador de empregos, de obras, que complete a infraestrutura, que dê atenção especialíssima para a saúde, para a segurança pública. Um governo que resolva realmente os problemas que estão a afligir a população goiana.

Augusto Diniz – O sr. defende o diálogo, independente de quem for eleito governador, mas em entrevista recente, o sr. disse que o MDB precisa conversar com os outros partidos, inclusive com o PSDB. Que diálogo seria esse? Há a possibilidade de um apoio eleitoral?

Dialogar é justamente isso. Não é apoio eleitoral e nem pode ser. O PSDB tem o seu candidato, o DEM tem o seu candidato e o MDB tem o seu candidato. Acho até que são poucos candidatos. Devem surgir mais nomes, o que é importante para a sociedade. Defendo o diálogo de todos os partidos com todos os partidos para acabar essa crise política que existe hoje em todo Brasil, de político falar mal de político.

Você não vê jornalista falar mal de jornalista, juiz falar mal de juiz, promotor falando mal de promotor, assim como ministros, que no máximo têm uma pequena diferença e ali já resolvem. Mas os políticos são uns falando mal dos outros. E você há de convir comigo que quando a classe política é desagregadora e vive só digladiando, quem sofre com isso é o povo. os problemas da população não são resolvidos na saúde, educação, segurança. Os políticos só ficam brigando. É por isso que eu prego o diálogo. A política tem de ser civilizada. Política já é um negócio difícil de se fazer. Se for fazer política brigando, xingando, digladiando, o povo sofre muito com isso.

Cezar Santos – Mas que tipo de diálogo o MDB e o PSDB teriam em um momento de pré-campanha?

O diálogo dos prefeitos do MDB com o governador, igual o Iris fez. O governo não quis jogar a culpa da saúde nas prefeituras? O Iris não rebateu? No outro dia os dois estavam conversando no gabinete do Iris para buscar o entendimento. É esse o diálogo que eu defendo. Como os problemas da saúde serão resolvidos sem diálogo entre as três esferas de poder? Como o problema da segurança pública de Aparecida será resolvido se a Guarda Municipal não dialogar com a Polícia Militar, Polícia Civil, Federal? É esse diálogo que eu sempre preguei e prego, o diálogo para resolver os problemas do povo. E não essa brigaiada que não leva a nada.

Augusto Diniz – Na última entrevista concedida ao Jornal Opção por Marconi Perillo (PSDB), ainda como governador, o tucano fez críticas fortes ao pré-candidato do DEM, Caiado, e poupou Daniel Vilela. Disse até que o emedebista seria o único postulante ao governo que poderia levantar a bandeira de oposição o tempo inteiro em todos os mandatos que teve. Por que da boa relação da base aliada do governador José Eliton (PSDB) com seu filho, que é adversário eleitoral do PSDB?

Porque é a verdade. Daniel nunca saiu da oposição, nem mesmo xingando todo mundo. Daniel sempre esteve na oposição. Nasceu e está até hoje na oposição. O deputado federal nunca esteve do outro lado. Por isso que talvez o governador respeite essa posição do Daniel. Ninguém respeita quem muda de partido todo dia. O sujeito tem de ter norte, precisa ter coerência, tem de saber o que quer. Daniel sempre fez críticas construtivas. Não vi crítica destrutiva vinda do Daniel.

Marcelo Mariano – Daniel hoje tem dialogado mais com Caiado ou José Eliton?

Nenhum dos dois. Daniel está fazendo a pré-campanha dele. O que eu sei é que ele está dialogando com o PP, PSD, PSB, PTB, com todos partidos que ainda não lançaram candidato.

Augusto Diniz – O sr. disse que o PT começou a ser tratado na oposição como o patinho feito por tudo o que foi revelado na Lava Jato. Mas é o partido que tem a maior bancada na Câmara dos Deputados. Como estão as negociações entre Daniel e o Partido dos Traba­lhadores? É possível a retomada da aliança entre MDB e PT?

Eu não diria do MDB com o PT. Eu diria do MDB com vários partidos ou do PT vários partidos. As alianças são sempre conversadas. Conversa-se com os líderes. Tenho muito respeito pelos líderes do PT em Goiás: Pedro Wilson, Antonio Gomide, Adriana Accorsi, Luis Cesar Bueno, Rubens Otoni, Marina Sant’Anna. Sempre tive boa relação com todos eles. Gomide fez uma administração espetacular em Anápolis.

Aliás, as duas administrações que mais se sobressaíram em Goiás foram a dele em Anápolis e a nossa – desculpe a modéstia – em Aparecida. Antonio Gomide é também um gestor muito competente, muito eficiente, muito responsável. Eu não sei por que as oposições não se reúnem com o PT goiano. É um grande partido. Isso sem levar em consideração nada de cunho ideológico. Nunca gostei muito de extremos. Nunca fui de extrema direita ou esquerda. Acredito que a virtude esteja no centro. Estou analisando as pessoas do PT em Goiás com as quais eu já convivi e convivo. Gosto muito e acredito que são bons políticos.

Maguito Vilela fala aos jornalistas Augusto Diniz, Patrícia Moraes Machado, Cezar Santos e Marcelo Mariano: “É zero a possibilidade de eu ser candidato”

Patrícia Moraes Machado – Quando o nome Maguito é citado pelas pesquisas de intenção de votos, o sr. sempre aparece bem colocado. Ainda permanece a dúvida de que o sr. poderia ser o candidato do MDB ao governo com a união das oposições. Porque o sr. não colocou seu nome à disposição para as eleições deste ano?

Essa possibilidade é zero. Não sou candidato este ano a nenhum cargo público de forma alguma. Já disse: Daniel é o pré-candidato a governador. Assim como os outros partidos já anunciaram seus pré-candidatos. Eu quero ajudá-lo na esperança de que ele possa fazer uma grande campanha, e se for eleito fazer um grande governo.

Patrícia Moraes Machado – Por que o sr. desistiu?

Porque o Daniel está maduro, ainda é jovem. Embora 34 anos não seja mais tão jovem. Cristo foi o maior líder religioso do mundo com 33 anos. Daniel está maduro, preparado. Ele se preparou para isso, estudou, lutou por isso. Tenho de incentivar. Com toda honestidade da minha vida, hoje Daniel está mais preparado do que eu para governar Goiás.

Patrícia Moraes Machado – Qual será o papel do sr. na pré-campanha de Daniel?

Papel de apoiador, conselheiro. Não terei papel especial na campanha e nem no governo, caso ele seja eleito.

Cezar Santos – Desde que o sr. deixou a Prefeitura de Aparecida, o que Gustavo Mendanha conseguiu avançar?

Está avançando muito. Está fazendo praças na cidade inteira, mantendo boas obras na área do asfalto, com creches. Eu tinha improvisado um prédio de dois andares, porque a prefeitura não tinha sede. Gustavo já construiu um prédio de oito andares para abrigar todas as secretarias, uma obra moderna e inteligente. Uma cidade com quase 600 mil habitantes tem de ter uma prefeitura decente, uma Câmara decente, e isso tudo está acontecendo.

Neste mês devem ser lançadas as obras do aeroporto, que será um dos mais modernos aeroportos executivos do Brasil. Gustavo está incentivando a criação do Clia, que é o Complexo Logístico Industrial Alfandegário. É um projeto com capacidade para gerar mais de 10 mil empregos. Gustavo está na linha correta. Está fazendo tudo aquilo que é possível fazer.

Patrícia Moraes Machado – O Hospital Municipal de Aparecida está pronto, mas ainda não começou a funcionar.

Deve-se à licitação de aparelhos. É a burocracia do poder público que amarra tudo e faz com que tudo seja demorado. A prefeitura faz uma licitação de milhões para a compra de equipamentos, por exemplo, de ressonância magnética. Uma empresa ganha a concorrência pública, outra impugna o resultado da licitação. É outra novela. Vem outra licitação. Se as licitações não forem modernizadas no Brasil, ninguém vai mais conseguir fazer obras.

Patrícia Moraes Machado – Como o sr. avalia a posição do Gustavo de apoiar o Daniel para o governo, mas estar ao lado de Wilder Morais (DEM) para o Senado?

Não. Gustavo é um político que tem um futuro grande demais em Goiás. Podem escrever o que eu estou dizendo. Ele ainda vai ser governador. Pelo talento e disposição de trabalho que ninguém tem. Gustavo conversa com todo mundo. É muito hábil. É um político agregador. Terá um futuro grandioso. E o mais importante de tudo é a coerência que ele tem mostrado. Gustavo não vai apoiar ninguém fora do MDB. Senador que for apoiado pelo MDB ele vai apoiar. Governador nem se fala. E os deputados também. Só do MDB. Ou de partidos aliados, que sejam apoiados pelo partido como um todo. Gustavo é um político muito coerente. É incapaz de apoiar um candidato que não esteja na aliança com o MDB.

Patrícia Moraes Machado – Houve muita negociação para trazer o senador Wilder Morais para a chapa do Daniel. O sr. se frustra com a ida dele para o partido do Caiado?

Eu lamentei. Porque o Wilder tinha uma convivência muito boa com o Daniel, Gustavo, comigo e com os prefeitos do MDB. De repente ele toma uma decisão que ninguém esperava. Mas tem de ser respeitada e não pode ser criticada. Eu só lamento, porque gostaria que Wilder estivesse conosco.

Patrícia Moraes Machado – Há coerência na aliança Wilder e Caiado?

Eu não consigo avaliar. Honestamente eu não sei.

Marcelo Mariano – Há uma informação de que o sr. estaria inelegível. Isso procede?

Não. Não existe isso. Eu sou ficha limpíssima. É só consultar o Tribunal Regional Eleitoral (TRE) ou o Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Isso é intriga.

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