“Não é questão de dinheiro. Saúde piorou na organização do sistema”

Vereadora diz que oposição que faz ao prefeito Iris Rezende (MDB) é responsável, o que garante que sua independência seja respeitada pelo emedebista

Vereadora Priscilla Tejota | Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

Presidente da Comissão de Saúde e Assistência Social da Câmara, a vereadora Priscilla Tejota (PSD) é uma crítica ao trabalho da Prefeitura de Goiânia no atendimento às necessidades médicas da população. Em dois anos e meio de gestão, a pessedista vê avanços, como na retomada do serviço de odontologia nas unidades públicas municipais, mas relata que a população sofre bastante com a centralização da especialidade pediátrica pela Secretaria Municipal de Saúde.

Integrante de uma oposição enxuta, que diminuiu com saída de Jorge Kajuru (Patriota), que foi para o Senado, e Elias Vaz (PSB), que se tornou deputado federal, Priscilla diz que a demanda aumentou, mas o trabalho continua a ser feito com a mesma independência, cobrança e seriedade. Sobre seu futuro político, a vereadora diz que pretende continuar no PSD, mas que tudo depende da formação de chapa para 2020.

Rafael Oliveira – Houve uma especulação de que um terreno que pertence ao empresário Helon Soares próximo a Trindade, na GO-040, estaria classificado como rural e seria transformado em área de desenvolvimento urbano para ser transformado em um condomínio horizontal ou polo empresarial. Foi o que aconteceu com a região no projeto de revisão do Plano Diretor de Goiânia?
Não tomei conhecimento de informações pontuais. Foi montada uma comissão na Câmara para participar da elaboração do projeto de revisão do Plano Diretor. Foram três vereadores indicados. Como eu estava à frente da Comissão de Saúde, não fui indicada para aquele grupo. Mas participei de 70% da elaboração da proposta, mesmo não sendo da comissão. O projeto ainda não tem um parecer da Procuradoria da Câmara.

Como o projeto chegou à Casa há 60 dias, mas não tem parecer. Ainda não analisamos os anexos. Na CCJ, vamos votar somente a constitucionalidade. Não haverá discussão de mérito na comissão. A discussão será feita nas comissões temáticas e no plenário com apresentação de emendas.
A maior preocupação de lobby é com relação às áreas urbanas. O foco hoje do Ministério Público e dos órgãos de imprensa deve se dar justamente nessa parte que será exigida maior transparência. Os outros eixos não são tão polêmicos e emblemáticos.

Euler de França Belém – A sra. não acredita que os condomínios fechados tendem a criar uma sociedade feudal em Goiânia? Daqui a pouco não existirão mais passagens. Há bairros em que as voltas que são dadas chegam a ser enormes. Os vereadores não se preocupam com isso?
Eu particularmente me preocupo. Recebemos muitos pedidos, e não são só para área de condomínio. Mas para permitir que bairros já estruturados sejam condominização. Para o gestor, há um entendimento de que seja algo positivo. Desobriga a prefeitura de certas coisas, como coleta seletiva e segurança. Você praticamente terceiriza para o morador que vai fazer o pagamento desses serviços.

Socialmente a cidade vai ficando mais dividida e agrupada. É uma preocupação da sociedade pela falta de o poder público de cumprir o seu papel. A pessoa vai para um condomínio buscar segurança. Como o poder público não oferece segurança para o cidadão, ele busca de outras maneiras. É uma preocupação social e de mobilidade urbana.

Rafael Oliveira – A vereadora Sabrina Garcêz (sem partido) fez um discurso recente sobre uma verba que a prefeitura perdeu para construção de um centro público. De acordo com os dados da CGU [Controladoria-Geral da União], a prefeitura perdeu R$ 301 milhões em 2017 e 2018. Qual o trabalho a Câmara faz para fiscalizar as obras da prefeitura?
Fui servidora do Tribunal de Contas do Estado de Goiás (TCE-GO) por 12 anos. Minha especialidade é em gestão pública. É também minha formação profissional. A Associação dos Membros dos Tribunais de Contas do Brasil (Atricon) já não considera improbidade administrativa apenas a corrupção. Quando o gestor perde receita, ele também comete crime de improbidade administrativa e responde juntos aos órgãos de fiscalização, como TCM e TCE. O prefeito prejudica a população da mesma maneira.

Uma das questões que critiquei muito durante a campanha eleitoral foi o ex-prefeito Paulo Garcia (PT) ter perdido muita verba. Fizemos um levantamento junto ao TCM na CPI das Contas Públicas. Foi para o relatório. Inclusive com solicitação de punibilidade por esse motivo. E isso vem ocorrendo. Além do relatório na CPI, com denúncia e pedido de medidas de rigor na lei, podemos notificar por meio de ofício para avisar que a verba será perdida.

É um problema extremamente grave, principalmente para a educação. Geralmente é dinheiro de CMEIs que estão paralisados por falta de projeto. Um político às vezes diz que não fez determinada obra por falta de dinheiro. Quando um político perde recurso, ele afirma a incompetência da gestão que ele comanda em não conseguir usar um dinheiro destinado.

Rafael Oliveira – O prefeito Iris Rezende (MDB) anunciou as obras de asfaltamento do bairro Xangrilá. Serão usados R$ 6,2 milhões em recursos do município. São recursos perdido de uma emenda do ex-deputado federal Jovair Arantes (PTB). O recurso ficou dois anos parado.
Temos recursos que foram perdidos para reforma de Cais [Centro de Atendimento Integral à Saúde]. Na quarta-feira, 4, a secretária de Saúde, Fátima Mrué, disse que usará dinheiro da prefeitura porque foi perdida a verba. Perdeu um dinheiro federal de reforma de unidade de Saúde. A unidade do Jardim Guanabara perdeu R$ 1,5 milhão recentemente e fizemos a notificação por ofício. Dessa maneira, ao realizar obra com recurso próprio depois de perder recurso da União, a gestão está andando para trás.

Rodrigo Hirose – A secretária está dando prejuízo para o município?
De todas as formas possíveis. Financeiramente e principalmente socialmente. Quando o cidadão não encontra o serviço que precisa e a política não chegar até ele, o prejuízo é muito grande. No começo da gestão, foi muito revoltante ouvir a secretária desmerecer o trabalho dos vereadores ao dizer que os parlamentares pediam favores. Falei para Fátima que dissesse qual vereador pediu favor, mostrasse o ofício ou quando o parlamentar esteve na Secretaria.

Hoje não. Depois de quase três anos de gestão, é possível perceber que é uma questão com todos os organismos, instituições e conselhos. Inclusive com boicote de edital que foi um dos que mais pagou pediatria no Brasil. A secretária aumentou o valor do salário em praticamente 60% e não houve adesão. Vieram profissionais de Belo Horizonte, São Paulo e Rio de Janeiro. Na semana passada, Fátima não quis dizer na Câmara o número de goianos. A adesão foi só de médicos de fora.

Com boicote em decorrência da gestão, por perseguição em unidade de saúde. São problemas que refletem na classe toda. Isso não é comum, não é um complô de Goiânia contra a secretária. É uma incompetência que reflete em todas as instituições.

“Assistência social talvez seja pior do que a situação da saúde na cidade de Goiânia”

Vereadora Priscilla Tejota (PSD) em entrevista aos jornalistas Rodrigo Hirose, Euler de França Belém e Augusto Diniz: “O profissional pode estar ocioso sem agendamento, mas não atende a criança que chegou sem hora marcada” | Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

Augusto Diniz – Como está a contratação dos pediatras por meio do edital?
Não teve adesão. Foram só 12 profissionais que entregaram documentação. A secretária prorrogou o prazo de adesão à época. Pedi que ela enviasse por escrito. Mas na quarta-feira a secretária disse que achava que chegaram a 12 os inscritos.

Rodrigo Hirose – E continua o atendimento pediátrico centralizado em duas unidades?
A secretária afirmou na Câmara que há uma ociosidade de consultas. E o atendimento ambulatorial é feito quando a mãe faz o agendamento da consulta pediátrica por meio do teleconsulta. A secretária alega que sempre sobra vaga. O que é muito comum. Acordei para dar uma entrevista e tive de levar meu filho de 11 anos ao médico porque ele passou mal. Você não prevê isso.

O menino passou mal e você não busca atendimento ambulatorial. O ambulatorial não atende sem hora marcada. O profissional pode estar ocioso sem agendamento, mas não atende a criança que chegou sem hora marcada. E aí vai para a emergência. E é de responsabilidade do Estado quando é de alta complexidade. Então é encaminhado ao Hospital Materno Infantil (HMI). O Materno é uma unidade de porta aberta.

Mas quando é emergência de baixíssima complexidade, entra, inclusive, em uma consulta, no caso de uma otite [infecção no ouvido]. Hoje você não compra um remédio na farmácia para uma criança com dor de garganta, você não compra um antibiótico. A secretária disse que isso é do Estado. Mas é do município. Essa emergência de baixíssima complexidade atende só em Campinas. A secretária concentrou em uma unidade só. Geralmente você descentraliza.

Pediatria é especialidade, residência, igual neurologia e outras. O Ministério da Saúde nas outras cidades brasileiras, inclusive no restante do Estado de Goiás, atende com clínico geral. O clínico geral atende a criança e avalia se existe a necessidade de especialidade. Igual atende alguém que convulsionou e avalia que o paciente precisa ser encaminhado a um neurologista. O Brasil todo atende assim porque não tem pediatra para toda a demanda.

Pedimos muito que a secretária implantasse esse modelo. Inclusive temos médicos que atendem crianças em Senador Canedo, Aparecida de Goiânia e Trindade, mas em Goiânia não atende. O profissional pode fazer e encaminha quando a criança precisa do especialista. Mas atende dor de barriga, vômito, diarreia, dor de garganta, que é hoje o que mais lota uma unidade de saúde. É gerado um transtorno muito grande. Isso gera um fluxo para um lugar só que não consegue atender uma cidade de 1,5 milhão de habitantes.

Euler de França Belém – Do início da gestão do Iris até agora, houve melhoria na saúde ou não?
Houve um investimento maior de recursos nos últimos meses. Houve uma melhoria na parte odontológica, porque estava paralisada. Não tinha praticamente nenhum atendimento. A parte odontológica, que estava sem suprimento, voltou a funcionar. Mas a concentração do atendimento é um problema.

Algo que tem atrapalhado muito os serviços é a falta de raio-X nas unidades. O aparelho e o insumo estão lá, mas a pessoa não consegue fazer. O paciente tem de pegar um chequinho. Isso gerou um caos na gestão. Não é uma questão de dinheiro. Piorou na organização do sistema. Injetou-se dinheiro e, ao mesmo tempo, não conseguiu melhorar o serviço.

Rodrigo Hirose – Desde o começo da gestão, o calcanhar de Aquiles da gestão parece ser a saúde. Muitos vereadores reclamam do tratamento e da forma de gestão administrativa e pessoal da secretária. Por que o prefeito bancou a permanência da Fátima Mrué no cargo por tanto tempo se houve até boicote na adesão de médicos?
Por ter começado a carreira política na oposição, talvez não consiga entender isso porque não acompanho as reuniões do prefeito. Em seus discursos públicos, o prefeito diz que confia muito no trabalho da secretária e considera que tem funcionado às mil maravilhas. O governo do Iris funciona muito baseado nos mutirões, que o prefeito acredita ser uma fórmula que funciona e nos asfaltos. A gestão tem aumentado o número de obras de asfalto, algo que é muito focado. Isso melhorou.

E sempre deixa para última hora fazer dois viadutos, o que já estamos vendo. É até meio profético no governo do prefeito porque Iris tem uma maneira de trabalhar e já governou por várias vezes. O prefeito entregará a Maternidade Oeste, que é um ganho para nós mulheres, mas não foi construída na gestão do Iris. A unidade estava 60% pronta. Iris está equipando e vai entregar a obra. Mas é uma maternidade que veio de obras da gestão passada.

Euler de França Belém – Considerando que no Brasil os sucessores não gostam de terminar as obras…
É uma vantagem enorme.

Euler de França Belém – … dos seus antecessores, tivemos caso de governador que não quis terminar a construção do prédio do Tribunal de Justiça e deixou a obra deteriorar por anos. Não é uma vantagem? Hospital não é só a estrutura. Equipá-lo é fundamental. E o prefeito tem feito isso. Não é um avanço?
Demais. Pedimos muito. Até porque a maternidade está em uma localização que tem uma densidade populacional desassistida do serviço da unidade. Temos as maternidades Dona Iris, Nascer Cidadão, mas são unidades que atendem pelo SUS e estão em outra região, bem longe do Vera Cruz.

Uma das grandes pressões foi porque a maternidade deu um pontapé muito grande com a devolução de parte do duodécimo da Câmara pelo vereador Clécio Alves (MDB) quando foi presidente da Casa. Se não me engano, foram R$ 12 milhões destinados à Maternidade Oeste. Foi o que deu origem à obra. Andrey Azeredo (MDB) também devolveu recursos do duodécimo. Romário Policarpo (Patriota) com certeza devolverá.

Não estava nesse pleito, mas a Câmara considera a Maternidade Oeste uma unidade de saúde entregue pelo Legislativo.

Augusto Diniz – Qual avaliação a sra. faz do trabalho da Secretaria Municipal de Assistência Social (Semas), a atenção dada aos moradores em situação de rua e a situação das Casas de Acolhida?
É desumano. Se pudesse elencar os cinco principais problemas de falta de competência da gestão do prefeito Iris, com certeza a Semas seria um desses pontos. A Semas talvez seja pior do que a Saúde. A injeção financeira foi menor, dá menos visibilidade do que Cais. Tivemos um crescimento enorme da população de rua. Precisa ser uma política forte, não no sentido de ser forte, bruta, mas ter continuidade.

É preciso gastar, porque é uma política difícil de ser feita. Não é fácil tirar a população da rua. É preciso ser feito de acordo com padrões internacionais e nacionais de respeito à pessoa humana. As pessoas às vezes pensam que retirar uma pessoa que está na rua trata-se de deixar a cidade limpa. Não. É uma questão social, é uma pessoa.

Esse trabalho é feito porque é um ser humano que está morando na calçada. É um trabalho lindo que exige respeito, até porque aquela pessoa tem o direito de fazer o que ela quer da vida dela. Até de ficar onde ela deseja. Sinto muita falta disso. Os abrigos estão completamente precários, cheios de doença, de violência. Vejo hoje que tem cachorro vivendo melhor do que uma pessoa que vai para o abrigo. Muitas vezes a pessoa não quer ir para o abrigo por isso. Não teve uma política de reinserção social.

Não sei se vocês acompanharam. Achei muito bonito. Não estava em Goiânia infelizmente. Só vi depois. A Paola Carosella, do MasterChef Brasil, tem um programa social que trabalha junto às minorias. E aqui a Paola fez um trabalho de reinserção, houve contratações. Ela tem um trabalho com as mulheres em situação de rua. E a reinserção é automática.

Mas é um ciclo. Para isso é preciso ter um abrigo decente para a pessoa poder tomar um banho, se sentir capaz de ir para o curso, acolher, arrumar uma documentação e inserir no mercado de trabalho. Não se faz um pedaço só do trabalho.

Não está funcionando. Não funciona porque é inexistente. Se não acolhe, na ponta não vai ter resultado. É um trabalho que demanda muito e que precisa ser feito. Por questões humanas, por diretrizes dos órgãos internacionais e porque a cidade não pode viver dessa maneira.

Euler de França Belém – A sra. não considera que a Câmara é muito cara para a sociedade? A Câmara não poderia ser mais barata em seu custeio?
Toda estrutura do governo. O foco da gestão é economizar, atender com qualidade e gerar economia. A Câmara e outros órgãos têm como objetivo modernizar seu funcionamento. Se você visitar outros lugares do mundo, o poder público tem como uma das maneiras de ser mais eficiente justamente enxugar e reverter em serviços para a população.

Nosso gabinete já adota práticas que na Câmara não tem. Eu pago a internet. Tenho a preocupação de não onerar a Câmara. Com isso, a Casa economiza e acaba por devolver recursos à Prefeitura de Goiânia no final da Legislatura.

“O transporte se chama público, mas não tem investimento do poder público. Não é subsidiado”

Fotos: Fernando Leite/Jornal Opção

Euler de França Belém – Em termos de improbidade administrativa, como a sra. avalia a gestão do prefeito Iris?
A gestão do Iris não é marcada por denúncias e por corrupção. Iris é um gestor que tem um histórico muito grande. Posso dizer isso porque a CPI das Contas Públicas retroagiu dez anos de investigação e pegou parte dos mandatos passados. É um gestor enxuto, que não costuma aumentar a dívida do município. Apesar de que Iris aumentará um pouco o endividamento por ter pego um empréstimo grande. O que poderia considerar improbidade na gestão do prefeito é o grande fluxo de dinheiro perdido por falta de projetos.

É muito para Goiânia, que tem um orçamento pequeno, perder R$ 300 milhões em dois anos. Quando colocamos no papel o que poderia ser entregue não apenas em obras – é como você falou, uma obra tem um custeio -, mas em serviços e para a sociedade, temos cirurgias paradas, fila de catarata, de cirurgia eletiva, de exames. Hoje uma das principais dificuldades da gestão é aumentar vagas em CMEIs. É algo que anda a passos de tartaruga.

Euler de França Belém – No geral, não há uma preocupação com o ser humano na cidade de Goiânia. Vemos sempre a lógica da construção de mais viadutos e obras que pensam nos carros como prioridade. O que a sra. tem a propor para melhorar a experiência das pessoas com o local em que elas vivem?
Gosto muito de mobilidade urbana porque reflete diretamente na vida da população. Temos assuntos temáticos que a população não sente que diz respeito a ela. Quando falo de creche, talvez um pai não queira saber do assunto. Mas quando discutimos o trânsito, é um assunto que reflete na cidade como um todo.

Goiânia está muito na contramão de uma melhoria de mobilidade urbana porque envolve um ciclo que tentamos colocar no Plano Diretor para criar outras zonas de desenvolvimento em microrregiões para não concentrar tudo. O que aconteceu com cidades jovens da América Latina? Estive em São Paulo e ouvi muito isso de especialistas em mobilidade urbana.

Cria-se emprego, comércio e escola em um só lugar, a cidade cresce demais, o IPTU aumenta, a região valoriza. Você faz um parque caro e expulsa a pessoa para morar bem longe. A pessoa vai para um lugar só. Depois não tem dinheiro no mundo que reverta isso. Em Goiânia nós temos esse ciclo evidente de muitas pessoas morando que moram em determinada região e se deslocam para trabalhar em outra área da cidade.

Levar no Plano Diretor o desenvolvimento para outras regiões para começar a reverter e mudar o trânsito de lugar. Algumas medidas são extremamente impopulares. Se fosse prefeita, eu tomaria uma medida dessas, apresentaria discussões e explicaria o benefício. Aumentar o preço do estacionamento na Região Central só pode acontecer se tivermos transporte público. Porque você vai como: voando ou a pé?

Vivenciei essa experiência quando morava no Jardim Planalto e pegava a Avenida T-9 até a Praça Cívica. Trabalhei por 12 anos na Praça Cívica. Foi inaugurava a van que tinha ar condicionado e custava um pouco mais caro [Citybus]. Muitos servidores do Tribunal passaram a usar o serviço de transporte público. Eu mesmo batia ponto na entrada às 12h30 e saía às 18h30, não tinha para onde ir a não ser trabalhar e voltar para casa. Era muito melhor ir sentada de van. Passei a não levar meu carro para a Praça Cívica.

Se você não tem o transporte público como opção, você não fará isso, não mudará a rota. E o goiano vivencia o transporte público em outro lugar e adora, fala “é muito bom chegar a São Paulo e pegar o metrô” ou “viajei para tal lugar e peguei um ônibus”. A história mostra que o político não gosta de investir em trânsito, considera um desperdício. Entre construir um hospital, uma escola… Não querem também construir presídio.

São coisas que se completam. Não podemos pensar a cidade de uma maneira só. O transporte chama público, mas não tem investimento do poder público. Não é subsidiado. Quando é subsidiado, informa que se subsidia, mas não paga. Não licita. Não toma medidas para garantir que o transporte melhore. Goiânia tem solução. É uma cidade ainda pequena, que pode vivenciar qualidade de vida e reverter a situação. Mas se não tiver o investimento não acontecerá.

Rodrigo Hirose – A CMTC tem uma proposta de subsidiar o transporte por meio da criação de um fundo extratarifário. A sra. apoia a proposta?
Quando falamos em aumentar o valor do licenciamento, temos a famosa problemática brasileira. Nós não aguentamos mais aumento de taxa. Porque aumenta a taxa, mas não melhora. Nos outros países, as pessoas coadunam com a divisão das obrigações, então aumenta o valor do licenciamento, mas em um limiar de um ano isso retorna em melhora no trânsito e no transporte público. A pessoa pode até optar por vender o carro e usar o ônibus que passa no bairro em que ela mora. O contribuinte sabe que aquilo será revertido em benefício.

O nosso problema é cair na mesma de sempre: aumentar o licenciamento e não reverter em melhoria. Não sou especialista em trânsito. Quando entrei na Câmara, era um assunto que não tinha muito paixão. Gosto muito da educação. Minha formação maior é na área da saúde, de conhecer os programas. Passei a me apaixonar pela questão da mobilidade urbana, do urbanismo e do trânsito porque tem solução, mas não é simples.

Quero muito participar em setembro de um congresso chamado Cidades Inteligentes, em São Paulo. Em visitas a outras cidades e conversas com técnicos, verificamos que não existe transporte que funcione sem subsidio. Não tem como! O transporte público tem uma característica que é ser marcado por injustiças incorrigíveis. Você não sabe quantos quilômetros a pessoa andou. Não é simples calcular isso. Não é todo lugar do mundo que consegue fazer isso. Ainda são várias as cidades que adotam a tarifa cheia.

Vem com uma série de questões que não são simples de serem revertidas, mas tem solução. Goiânia é uma cidade que é referência de desenvolvimento, mas que corre o risco de minguar economicamente se não melhorar sua condição de desenvolvimento.

Rodrigo Hirose – Só Goiânia e as cidades limítrofes ganharam 410 mil habitantes em oito anos, de acordo com o IBGE. É quase uma nova Aparecida de Goiânia anexada nesse conglomerado. Não seria melhor discutir um Plano Diretor mais focado na Região Metropolitana do que projetos separados por município?
Não sei se conseguiríamos ter um parlamento tão coeso para discutir. Mas com certeza na discussão do Plano Diretor, que tem de levar em consideração a Região Metropolitana, não se pode pensar em um eixo de desenvolvimento ou colocar uma área de confecções, por exemplo, em uma região que não converse com a Região Metropolitana. Seria extremamente importante levar em consideração a Região Metropolitana.

Inclusive, algumas reuniões das discussões temáticas podem ser feitas em outras cidades. Levando em consideração as pautas da CMTC, que tem outras cidades na discussão, vemos a dificuldade em fazer as reuniões. Não sei como vereadores conversariam em um superparlamento desses, mas temos de discutir a situação de Trindade como cidade-dormitório, as pessoas que vêm para Goiânia e sobrecarregam a Região Noroeste, o impacto no Eixo Anhanguera.

Tem todo um efeito dominó que é preciso ser considerado. Até para entender melhor a Região Metropolitana.

Augusto Diniz – Ficou estabelecido que o projeto de revisão do Plano Diretor deve ser votado em plenário até dezembro. Quatro meses é tempo suficiente para discutir e aprovar uma proposta tão importante e que tem 2,5 mil páginas divididas em oito volumes?
O projeto não tem tudo isso de informação porque tem anexos, como os mapas. Entendo que seja tempo suficiente. Não vejo que precisamos apressar a discussão. Não temos só até dezembro. Se virarmos o ano não seria um problema. É um objetivo discutir até dezembro.

A questão da legalidade do texto é uma tramitação mais rápida. Estivemos com o presidente da OAB [Ordem dos Advogados dos Brasil, Lúcio Flávio de Paiva], que montará uma subcomissão independente para elaborar uma nota técnica em relação à legalidade da proposta. Isso fará com que o projeto caminhe na análise da constitucionalidade na CCJ.

Nos eixos temáticos, não podemos apressar as discussões. São debates que devem ser feitos integralmente. Temos eixos de cultura. A revisão precisa incluir demandas, temos os anexos. Fizemos alguns levantamentos de trechos que precisam ser substituídos porque estão desatualizados. Também dependerá da resposta da prefeitura. A prefeitura teve todo o tempo para enviar a proposta de revisão do Plano. Queríamos o projeto ainda em 2017.

Se tiveram tempo para construir a proposta, não votarei o Plano de qualquer maneira. Se o parecer for pela legalidade, voto positivamente na CCJ. E tivemos o exemplo do Código Tributário, que foi retirado de tramitação daquela forma abrupta quando recebeu emendas da sociedade. Não eram emendas de interesse pessoal de vereador, foi interesse de desenvolvimento. Se isso ocorrer com o Plano, nem voto. Vou me abster. Não voto uma lei que norteia a cidade se não for construída no Legislativo, se tiver manobra e não receber emenda.

Estamos na oposição em poucos vereadores, com a Dra. Cristina (PSDB), Lucas Kitão (PSL). Hoje talvez sejamos cinco vereadores se a base impedir votação de emenda minha. Não vou fazer isso dessa maneira.

“Estamos no setembro amarelo, com preocupação mundial com doenças graves e o ambulatório psiquiátrico de Goiânia está sem psiquiatras”

“Muitos acreditaram que o trabalho do Policarpo seria de oposição, mas não é. Vejo que o trabalho do presidente é de alinhamento, mas é de independência” | Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

Augusto Diniz – De forma geral, há uma regra de limitação da ocupação de áreas próximas a parques e prédios históricos no texto de revisão do Plano Diretor, até para evitar que um novo Jardim Goiás seja habitado de maneira tão descontrolada. Já há a informação da pressão do setor imobiliário e de construtoras para que isso seja alterado. Esse lobby se faz presente na Câmara?
Eu mesmo fiz uma audiência sobre o patrimônio cultural e nos reunimos com o Conselho de Arquitetura e Urbanismo (CAU) para incluir no Plano Diretor um documento feito pela UFG que seleciona 500 prédios que não são tombados, mas que são patrimônio da cidade. O Plano Diretor desperta interesse em todos os eixos na parte temática.

As denúncias de influência antirrepublicana vêm muito relacionadas ao setor imobiliário. Na revisão que está na Câmara, existem denúncias. Mas considero extremamente irresponsável e vazio vereador afirmar e não dar nomes, não ir à polícia. Quando faço uma denúncia, eu a registro de forma séria: fui abordada por fulano neste horário. Isso denigre muito tanto o setor imobiliário quanto a Câmara.

Não recebi nenhuma proposta. Também não podemos pintar uma mancha quando se reúne com um setor importante que diz respeito a nós. Ocupar a cidade é algo que precisa ser feito com transparência. Vamos convidar a imprensa para acompanhar reuniões a portas abertas. Emendas que forem apresentadas serão acatadas por escrito. Não quero monstrualizar reunião com o setor imobiliário, mas repudio vereador que sobe na tribuna e que não dá nome aos bois. Chega a ser calúnia.

Augusto Diniz – A oposição perdeu força e ficou mais tímida em sua atuação com a saída de Elias Vaz (PSB) e Jorge Kajuru (Patriota) da Casa?
Não acredito que ficamos tímidos, avalio que nosso trabalho dobrou, ficou mais pesado para nós. Era mais fácil quando éramos mais vereadores na oposição. Ligávamos para Elias e perguntávamos qual projeto estava com quem. Ficou mais raquítico. Temos menos companheiros para derrubar um veto, fazer um barulho com cinco vereadores… Nem sei se somos cinco na oposição. Com poucos vereadores, perdemos mais. Ganhamos espaço com um presidente que é mais democrático, que nos deixa trabalhar mais.

Fui para a CCJ. Foi o cumprimento da eleição da mesa por causa do bloco, que não tinha sido contemplado. Inclusive nem votei no Romário Policarpo (Patriota). Quando entramos na Justiça e pedimos, o presidente da Casa cumpriu sem decisão judicial. Foi um atendimento republicano, não tem barrado de maneira arbitrária.

Mas fica muito mais difícil. Tem um líder de governo mais intenso, que cobra mais, tem um perfil mais rígido. Porque Tiãozinho Porto (Pros) tinha um perfil muito mais de colega. Mas é natural, porque a figura do líder é uma figura forte. Ficamos com mais dificuldade. Tem hora que apresentamos projeto e o texto cai da pauta, porque não conseguimos voto.

Augusto Diniz – Que avaliação a sra. faz da condução dos trabalhos da Casa na gestão do Andrey Azeredo (MDB) e do Romário Policarpo?
Não tenho uma experiência enorme de Câmara, não vi os outros presidentes. Meu sogro veio do Legislativo [conselheiro do TCE-GO, Sebastião Tejota], foi presidente, meu esposo [vice-governador Lincoln Tejota (Pros)]. Sinto que Romário consegue fazer a Câmara ser dos vereadores. Tem atendido no máximo possível os vereadores com isonomia. A própria TV Câmara e a imprensa trabalhando em todos os projetos.

Andrey é um grande colega, mas fez uma gestão mais voltada para o Paço. Muitos acreditaram que o trabalho do Policarpo seria de oposição, mas não é. Vejo que o trabalho do presidente é de alinhamento, mas é de independência. É de valorizar o trabalho do vereador, é de respeito, de conversar. Não vejo nenhum vereador se sentindo ferido pelo Romário ou preterido por ter sido tratorado.

Digo que Policarpo preside sem vaidade, porque deixa outros vereadores assumirem o comando das sessões enquanto fica no plenário. Gosta de ser vereador. É uma pessoa que gosta do Legislativo, que gosta do debate. A Casa ganhou muito com isso. Teve um crescimento de valorização das nossas atividades.

Augusto Diniz – Quais projetos a sra. apresentou que estão em tramitação na Casa?
Não estou com nenhum projeto em tramitação na Casa. Meus projetos foram aprovados. Tinha alguns projetos em análise que precisaram ser reapresentados, o que foi péssimo. Acreditamos que o Código Tributário seria aprovado. Quando o Código Tributário foi apresentado pela prefeitura, todos nós vereadores caímos em um conto, retiramos os projetos e apresentamos emendas. O que era o certo, até para ficar dentro do tema. E o Código Tributário foi retirado de pauta.

Voltamos com os projetos porque não tem mais Código Tributário em discussão. Mas a maioria dos meus projetos foi aprovada, da descentralização da merenda escolar e outros, e agora estamos na cobrança para que seja feito o pagamento da emenda impositiva.

Augusto Diniz – Em 2017, a sra. presidiu a Frente Parlamentar em Defesa dos Animais. Como se deu esse trabalho e o que gerou de resultado?
Foi um trabalho fantástico que consolidou um tema que não tinha formalidade para ser discutido na Casa. Formamos um grupo grande e desde a primeira reunião tínhamos por objetivo que fosse feita a transferência a cada seis meses a condução dos trabalhos por um vereador. Promovemos incríveis debates. Os assuntos tiveram encaminhamento.

Percebemos que era preciso uma aproximação com o Paço porque são projetos que demandam investimento financeiro. Zander Fábio (Patriota) é um vereador mais ligado ao assunto. Veio da junção e consolidação do trabalho o Hospital Público Veterinário. Não sei se veremos a unidade construída nesta gestão. A ordem de serviço já saiu.

Foi criada uma comissão voltada ao assunto na OAB, que não existia. Isso foi trabalhado em conjunto nas audiências públicas. No final de 2016, o tema saiu da pauta do meio ambiente e foi para o Ministério da Saúde. Mas a pauta de zoonoses e de bem-estar animal em Goiânia está vinculada à saúde municipal. Como a saúde e o bem-estar do animal vão concorrer com os problemas de saúde do ser humano? Tudo está incluído no mesmo orçamento.

Acabou que isso não foi bom para o Brasil. Vejo essa pauta como uma discussão do meio ambiente. Precisa estar ligado ao meio ambiente. É uma pauta com menos eixos problemáticos, o que facilitaria a inclusão do assunto. A secretária presta contas à Comissão de Saúde e não traz nenhum dado de zoonoses. Nada. Não existe um real gasto. Só tem o prédio, o servidor, nada mais.

Rodrigo Hirose – Vimos o ressurgimento de casos de sarampo. Como a prefeitura tem atuado para conter o surto da doença? Há a informação que em alguns Cais a vacina estava disponível, mas por férias de funcionário, não era possível fazer a vacinação.
Falta de logística. A secretária de Saúde falou sobre essa situação na Câmara. A questão do sarampo traz a discussão para outras doenças também, como o caso da dengue, que aparece em primeiro lugar com muito mais casos notificados do que as outras doenças. As epidemias pegam todos desprevenidos. Até o Ministério da Saúde.

O sarampo estava erradicado no Brasil há bastante tempo. Não era uma preocupação. Há o controle. A vacinação é feita em dose única. O medo do retorno da epidemia às vezes pega até o órgão federal desprevenido. A secretária garantiu que não vai faltar vacina. Até porque não é para toda população.

Só para os adultos que não têm certeza se foram vacinados, não têm cartão ou a mãe não sabe se o filho foi imunizado e daquela criança que não foi vacinada. A secretária disse também que está sendo feita a vacinação de grupos de risco.

A questão de logística tem outra situação grave. Uma questão absurda apresentada na Comissão de Saúde é que estamos no setembro amarelo, com preocupação mundial com doenças graves e o ambulatório psiquiátrico de Goiânia está sem os seis psiquiatras. Tem o servidor, mas todos estão de licença ou férias.

A secretária disse que há uma tentativa de contratar temporários ou fazer um remanejamento. Mas não há, por exemplo, fornecimento de remédio, porque é preciso haver prescrição médica. Isso em plena discussão da problemática que mais assola o mundo, que é a depressão e outros transtornos. 

“Não acredito que ficamos tímidos na oposição, avalio que nosso trabalho dobrou”

“Sou uma pessoa extremamente confortável no meu partido, gosto muito do PSD. É um partido que abraçou a minha campanha 100% e me deu bastante liberdade para trabalhar” | Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

Augusto Diniz – Quando o vice-governador Lincoln Tejota se torna candidato em 2018 na chapa do governador Ronaldo Caiado (DEM), não mais no PSD, já como presidente estadual do Pros, ficou a dúvida se isso poderia influencia a atuação da sra. como oposição ao prefeito Iris Rezende na Câmara. Há uma migração para a base irista ou continua na oposição?
Desde o dia em que eu decidi me candidatar, nós tínhamos consciência de que um trabalho político de casal não é fácil. Principalmente em instâncias diferentes. Haveria momentos em que o Lincoln votaria de forma diferente. Um exemplo é quando fui a autora da emenda impositiva na Câmara.

E na época, na oposição, não tínhamos esperança de que o projeto passasse. Militei, mostrei para os vereadores que era uma medida de independência, valorização e importante para nós. Não tive um voto contra. O projeto passou, as emendas não são 100% cumpridas, mas acredito que seja um passo gigantesco. Pouco tempo depois, Lincoln foi extremamente contra a emenda impositiva no Legislativo estadual como deputado.

Desde que eu saí candidata, definimos que um respeitaria o trabalho do outro. Sem definir pautas conjuntas. Não temos isso na nossa casa. Somos um casal que está há muito tempo junto. Temos 14 anos de casados. O conheço desde os 13 anos de idade. Fui vizinha dele a vida toda. Mas para trabalhar temos muito respeito. Até porque defendemos bandeiras muito diferentes.

Quando Lincoln veio [para o lado do Caiado] nem poderia imaginar que o dr. Ronaldo poderia se aproximar do Iris. Isso não estava sendo cogitado. Sempre fiz uma oposição ao Iris de muito carinho. Tenho muito carinho pelo prefeito. Pela idade que Iris tem, pelo simbolismo que representa. Ainda continuo sustentando que dificilmente outro político alcançará o sucesso que Iris alcançou na vida pública.

Porém critico pontos da gestão que considero ultrapassados. Quero continuar pensando dessa maneira. E o Iris tem muito carinho por mim. Podem ver que sempre fui ao Paço apresentar ideias. O prefeito sempre me respeitou muito. Até porque é um grande democrata. Gosta do debate. Não vemos Iris brigando com os outros de qualquer maneira.

Quando arquivei o IPSM [alteração no Instituto de Previdência dos Servidores do Município] foi uma crise na CCJ. Os vereadores queriam muito que o prefeito fosse cruel comigo e me criticasse. Iris disse “gente, ela fez o que acredita que é certo”. E isso foi público, durante a prestação de contas. Iris falou “deixa ela trabalhar”.

Tenho muito respeito pelo prefeito e faço essa oposição. Por isso que tenho um relacionamento bom com Iris. E vou continuar fazendo. Voto em projetos do prefeito? Voto. Aprovei vários. Não faço oposição para perseguir. Não é isso. Nem queria fazer oposição. Projeto era ser base do Iris desde o início. Quando ganhei a eleição, tentei de todas as maneiras, mas vi que minha maneira de pensar a cidade era muito diferente das atitudes que o prefeito ia tomar.

É um caminho natural. Uma vez você é base, na outra é oposição. Minha linha continua a mesma, com a mesma coerência. É a mesma coisa do Lincoln deputado e o Lincoln vice-governador.

Augusto Diniz – Quem a sra. tem mais proximidade ou tende a apoiar em 2020 na eleição para a Prefeitura de Goiânia?
Sou uma pessoa extremamente confortável no meu partido, gosto muito do PSD. É um partido que abraçou a minha campanha 100% e me deu bastante liberdade para trabalhar. Gostaria até de permanecer. A eleição do ano que vem tem uma dificuldade muito grande que é compor chapa única de vereador. Nenhum de nós passou por essa experiência. Nós coligávamos para atingir cociente eleitoral. A formação da chapa de vereador será o principal norte na hora de decidir o partido.

Meu objetivo é permanecer no PSD, fui fundadora do partido. Agora não sei se isso vai acontecer. Todos vereadores com mandato estão dificultando as chapas. O vereador com mandato vem, os outros não querem participar da chapa. Minha primeira decisão é partidária por questão de construir a chapa junto com o partido. E considero difícil dizer quem irei apoiar porque não temos candidato.

Apoiei o deputado Francisco Jr. (PSD) na eleição passada. Tenho uma convergência ótima com o deputado. Francisco Jr. é um grande gestor. Foi uma campanha extremamente positiva, ouvi-lo dialogar com a sociedade, aprendi muito com ele. Mas ainda não definiu se é candidato.
Me aproximei bastante do Elias Vaz. Tenho um ótimo relacionamento com Kajuru, mas também não definiu se é candidato. Estive recentemente com ele em Brasília. Leva vários fatores em consideração. Gosto demais do estilo de gestão do senador Vanderlan Cardoso (PP), mas também não definiu quem vai lançar ou se concorrerá. Só tem um candidato que fala que não é, que é o Iris.

Augusto Diniz – A tendência é que parte do grupo citado pela sra. caminhe junto em 2020?
Tem alguns que não caminham juntos. Vanderlan é um político extremamente diplomático e, se depender do senador, não seria brigado com ninguém. Mas não vejo aproximação do Vanderlan com o Kajuru. Kajuru é um fator extremamente importante na eleição do ano que vem. É um grande político, que tem feito um grande mandato. Vai definir a eleição em Goiânia. Não vejo esse grupo facilmente caminhando junto.

Rodrigo Hirose – A vereadora Sabrina Garcêz disse ao Jornal Opção que a oposição enxerga que Iris pode sair na frente na disputa para estar no segundo turno em 2020, mas que se trata de um candidato que pode ser derrotado na votação final. Sabrina considera o desgaste da gestão, a idade do prefeito, a vontade do novo entre os motivos que poderiam levar à eleição de um novo gestor. Qual avaliação a sra. faz sobre o cenário que se desenha?
Penso a mesma coisa que a vereadora. Iris tende a ter mais chances de ganhar a eleição, está no mandato, tem todos os fatores favoráveis. Porém, seria o candidato com o maior desgaste. Um exemplo é comparar com possíveis nomes. Que desgaste Francisco Jr. apresenta? É muito difícil ir para o embate com o deputado porque não tem pontos negativos, um grande gestor, tem experiência, representa o novo, nunca foi prefeito, foi gestor transparente, não responde a processo ou denúncia. Concordo plenamente com Sabrina. Iris é um excelente candidato para ganhar as eleições, mas tem chance de perder por todos os fatores, até por idade.

Na próxima eleição, Iris estará com 86 anos. São muitas gestões. Existe mais chance de sofrer desgaste e rejeição. Elias Vaz não é um candidato com desgaste, saiu da Câmara direto para o Congresso. Senador Kajuru, exceto o fato de ser polêmico, não tem desgaste político. Apesar de acreditar que Kajuru não venha a disputar a eleição de prefeito. Prefeitura não é um objetivo para o senador.

Precisamos muito ter candidato, de alguém falar “quero disputar a eleição”. Acredito que não seja uma boa estratégia guardar o nome para o final. Isso é bom para o Iris, que está no mandato. Mas para um candidato que quer disputar a eleição, não vejo como um fator positivo.

“Desde que eu saí candidata, definimos que um respeitaria o trabalho do outro. Sem definir pautas conjuntas”

“Gostaria de ir para o TCM. Estou quase pedindo voto, sabe? [risos]” | Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

Augusto Diniz – Qual é o futuro político da sra.? Pretende ser candidata a reeleição na Câmara, toparia ser vice de algum candidato a prefeito?
Compor chapa majoritária não depende de nós. Hoje você se candidatar a vereador depende exclusivamente de você e do partido o colocar na chapa, o que é muito difícil uma legenda rejeitar um candidato na chapa. Depende de você se filiar, compor e se candidatar. Compor uma chapa majoritária não depende disso. Depende de uma indicação do partido. Depende muito mais de terceiros do que de você.

Eu disputaria a prefeitura? Disputaria. Tenho muito carinho por Goiânia. Minha política é em Goiânia. Gostaria de ser vice? Não sei. Gosto mais da Câmara. Se você para ser candidata a vice não sei avaliar. Sem o candidato? Saberia responder se eu gostaria de ser vice de algum nome específico. Talvez sim. Em um contexto geral, não sei dizer.

Hoje, inicialmente, é disputar a reeleição. Para mim é um desafio. Quero medir meu trabalho. Reeleição é muito gostoso para quem está no primeiro mandato. É um termômetro. A reeleição nos julga naquele momento.

Augusto Diniz – A sra. disse que pretende permanecer no PSD, mas que depende das circunstâncias políticas. O vice-governador também afirmou que poderia deixar o Pros, o que ainda não foi descartado. Os dois têm conversado sobre o futuro partidário? Há uma possibilidade de o casal estar filiado em um mesmo partido, como foi antes no PSD?
Hoje para o Lincoln, como ocupante de cargo Executivo, não é fator primordial comandar um partido. Porque não tem uma eleição em vista. É confortável para o vice-governador esperar o momento para escolher um partido que convirja com seus ideais. Para mim, o alinhamento que tenho com o presidente do PSD, Vilmar Rocha, e com o partido é muito bom. Exceto por motivos de chapa, pretendo permanecer no partido. Não tenho procurado outro partido.

O que pesa às vezes é a composição de chapa. Infelizmente, há uma pressão enorme para nos tirar do partido. Tenho percebido que a eleição caminhará para um alinhamento de vereadores. Antigamente não tinha muito isso. Cada vereador queria ficar em um partido, coligava e OK. As chapas têm rejeitado vereadores com mandato porque não querem disputar com alguém mais forte. E isso acaba por pesar muito.

Sabrina está sem partido e avalia tudo isso. Tenho conversado na Câmara e tenho convergido para alinhamento de vereadores: juntar cinco e ir com seu grupo para um partido, disputar entre eles e ver no que vai dar. Parece que o cenário pode ser algo parecido. Sem coligação, não sabemos muito como será. Precisa de mulher na chapa. Antigamente coligava e somava percentual de mulher. Tinha totalmente a despreocupação. E agora que os partidos precisarão fazer os 30% exclusivos?

Augusto Diniz – Surgiu uma informação de que você poderia ser indicada a conselheira do TCM. Isso de fato existe? Há alguma discussão sobre esse assunto?
De todas as fofocas que fizeram, essa foi a que eu mais adorei [risos]. Mas fiquei tão feliz quando li isso. Porque às vezes falam do meu vestido, que errei a cor, que não deveria ter usado rosa na posse, que a flor vermelha era do PT. Fiquei magoada. Vou lá e brigo: “Isso é machismo”. Mas quando falaram que eu poderia ir para o TCM me dá até suadouro.

Falei: “Tomara que seja verdade, tomara que seja verdade”. Nunca neguei o carinho que tenho por órgão de controle externo. Quando entrei na Câmara, a primeira coisa que fiz foi visitar o TCM. Convidei o Tribunal a participar de CPI, levei requerimento, denúncia. Vou tanto ao TCM. Trabalhei em um órgão de controle externo. Fui estagiária do Tribunal.

Sou formada em Direito, em Gestão de Órgãos Públicos, trabalhei dez anos diretamente na atividade-fim, que é na auditoria, na inspetoria. Tenho muito carinho pelos órgãos de controle. É um órgão auxiliar da Câmara que é mal aproveitado. Precisamos aproveitar mais essa estrutura. Gostaria de ir para o TCM. Estou quase pedindo voto, sabe? [risos] Mas não é um objetivo. Isso nunca aconteceu. Nem sei qual conselheiro vai se aposentar, se já pediu aposentadoria ou não. Mas que eu ia gostar… Vai que cola. Estou doida para essa fofoca colar.

Augusto Diniz – Outro assunto comentado é um possível estremecimento da relação entre Caiado e Lincoln. Houve algum tipo de distanciamento entre governador e vice ou a situação continua a mesma?
Não tem desentendimento. Nem gosto muito de comentar esse assunto. Eu sou vereadora. Não lembro nenhuma vez a imprensa convidar a esposa do dr. José Eliton (PSDB) para falar de algo parecido. Neste momento, ocupo no Estado o papel de acompanhar o Lincoln no trabalho do vice-governador. Dou força como daria em qualquer trabalho que ele desempenhasse.

Não tem desentendimento. Os dois trabalham harmoniosamente. Tem espaço político e isso é normal. Faz parte da estrutura de governo. Lincoln tem andado sempre com o governador, representa, vai aos eventos, tem construído o trabalho na Vice-Governadoria.

Não fico no governo. É algo que fiz questão. Apoiei o Lincoln nas campanhas dele, nem era política. Apoiei como esposa. Levava dois menininhos. Na primeira eleição do Lincoln, Davi tinha um ano de idade. Levava o Davi em todas as reuniões. Nunca imaginei que me candidataria. Quando veio a eleição de vice-governador, fiz a mesma coisa, que é uma tradição da nossa família e já faço há anos.

Separei bem esse papel. Fiz questão de deixar claro para todos os órgãos de imprensa que não estou no governo. Não respondo, não tenho papel institucional, não tenho cargo, não vou a reunião, não faço trabalho no governo porque não sou deputada. Seria muito injusto com a cidade de Goiânia abandonar o meu mandato. Meu trabalho que é superpesado presidindo a Comissão de Saúde, participando da CCJ. Neste ano não tem CPI. Mas no ano passado participei de duas.

Acompanho meu esposo sempre no papel de esposa, não de política, porque eu não tenho mandato para responder por isso. Mas ele está feliz e tenho certeza que foi uma grande oportunidade para o Lincoln crescer politicamente e desempenhar o papel de vice-governador. Não existe esse desentendimento. Dr. Ronaldo Caiado tem muito carinho por nós. Muito mesmo. Vejo o governador pouco porque está muito ocupado. Tenho muito carinho pelo governador, muita admiração.

Augusto Diniz – Qual era a impressão que a sra. tinha sobre o que é ser uma mulher na política eletiva e que visão tem hoje do que é ser vereadora na busca por voz e espaço no Legislativo?
Acreditava que o maior problema seria conseguir espaço e voz. Sempre pensei isso. Não foi. Hoje vejo como maior responsabilidade o mandato ser mais visto por a mulher ser minoria. Somos menos vereadoras. Estamos em uma época de discussão do aumento da participação da mulher, que não sei se virá através de cotas.

Temos um direcionamento de fundo partidário de 30% para mulher. Me sinto mais responsável, porque nós acabamos por ser mais avaliadas. Quando vão avaliar os homens da Câmara, o conjunto é grande, são 30 parlamentares. Quando avaliam o trabalho das mulheres, somos apenas cinco. O que mais achava que seria problema era conseguir espaço. A Câmara não é um lugar machista de se trabalhar, tem muito companheirismo. Não foi essa a dificuldade. Pelo menos para mim não.

Logo fui indicada para a CCJ, participei de todas as CPIs que quis, o trabalho fluiu. Não sinto discriminação com relação a isso em nenhum momento. Achei que poderia ser. É muita responsabilidade, principalmente em um período de todo um incentivo e força que vem para inserir a mulher de uma maneira mais democrática no pleito. Não só na disputa. Até na discussão da proposta do senador Luiz Carlos do Carmo (MDB) de reserva de vaga no parlamento. É ótimo porque ganha-se mais oportunidade. E a mulher fica mais visível.

O mais difícil é conciliar com as funções de mãe, dona de casa e esposa. Porque a maior parte do tempo existe uma cobrança muito grande com relação à mulher do jeito que o cabelo está ou a unha, porque ela foi de um jeito. E nós não temos tempo para isso. Temos de trabalhar com o cabelo ensebado, sem ir ao salão porque corremos para levar o menino ao médico. Conciliar sem dúvida é um desafio. Nesse momento, a mulher trabalha triplicado.

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