“Não é porque Iris entregou tantas obras que se torna imbatível”

Presidente da Câmara de Vereadores de Goiânia, Romário Policarpo se declara aliado prefeito, mas não descarta compor com um grupo que tenha candidato próprio em 2020

Romário Policarpo, presidente da Câmara de Vereadores de Goiânia | Foto: Fábio Costa

Presidente da Câmara de Vereadores de Goiânia, Romário Policarpo elogia o prefeito Iris Rezende, de quem se diz aliado. Mas não descarta compor com um grupo que tenha candidato próprio, inclusive como adversário, do emedebista. Esse grupo, inclusive, está em construção e tem vereadores e deputados estaduais e federais. A decisão sobre como se comportará no ano que vem, contudo, ainda será tomada.

Policarpo concedeu a seguinte entrevista ao Jornal Opção, na qual fala que dificilmente o Plano Diretor será votado ainda nessa legislatura:

Augusto Diniz – A Câmara aprovou, há poucos dias, um projeto de sua autoria que obriga que empresas que fazem obras para a Prefeitura de Goiânia contratem pessoas em situação de rua. Como surgiu essa ideia e como está a negociação com a Prefeitura para que ela seja sancionada?
Essa ideia foi inspirada em um projeto do Eduardo Suplicy quando vereador, sancionado pelo Fernando Haddad (PT) e que teve prosseguimento com o João Doria (PSDB). Foi, inclusive, um dos primeiros projetos do Doria para retirar moradores da cracolândia. Lá deu muito certo e se estendeu, com isenções [fiscais] para empresas particulares que contratavam essas pessoas. Nosso projeto é um pouco mais tímido e fala apenas de obras públicas. Mas a ideia é expandir. Há uma conversa com a Prefeitura e a expectativa é de sanção.

Hoje temos apenas um tratamento tímido, não há uma política de retirada dessas pessoas da rua. A política existente é apenas de alimentar e dar condições de um banho e de vestiram. Isso não vai resolver o problema. A ideia é que Semas [Secretaria Municipal de Assistência Social] faça uma grande campanha e que a gente possa aproveitar essa leva de grandes obras na cidade para atender aqueles que realmente queiram sair das ruas e constituir novos lares.

Augusto Diniz – Há um limite de vagas por obra?
Cinco por cento das vagas não especializadas serão destinadas à contratação dessas pessoas.

Rodrigo Hirose – Mesmo não sendo vagas especializadas, um mínimo de qualificação é necessária. Existe, no projeto, um plano de qualificação desses servidores? E como será o trabalho de convencimento dessas pessoas? E se a empresa não conseguir atingir esses 5%?
Muito se fala que os moradores de rua não querem sair dela. Isso é mentira. Boa parte deles deseja largar as ruas. A parte do treinamento será de responsabilidade da Semas. Certamente serão abertas oficinas. Tive um conversa muito boa com o Sesc e o Senac para que esses cursos sejam ofertados por eles.

Nesse momento Goiânia tem muitas obras, mas há momentos que não. A estimativa é que tenhamos entre 2 e 3 mil pessoas em situação de rua. Não será tão difícil preencher esses 5%, porque muitas pessoas querem esse trabalho.

Rodrigo Hirose – E haverá um acompanhamento posterior dessas pessoas, para quando não houver trabalho nas obras?
A Semas terá a missão de acompanha-las durante as obras e depois disso. Um dos critérios para que a pessoa mantenha seu emprego é deixar as ruas. A ideia desse serviço é que ele não continue morando nas ruas. A Semas acompanhará se o trabalho fez com que ele realmente mudou de vida com o novo emprego.

Augusto Diniz – Recentemente, houve casos de morte em abrigos da Prefeitura. A Câmara chegou a realizar uma Comissão Especial de Inquérito sobre a situação da Semas. O que mudou desde então?
Não mudou absolutamente nada. As condições das casas de acolhida continuam precárias, péssimas. Já trabalhei nelas como Guarda Metropolitano e acho até que demorou muito para acontecer essas mortes. Não houve mudanças, não há expectativa de mudanças. Da forma como a Semas trabalha – e não é um erro dessa gestão, mas também de gestões passadas –,  as casas de acolhida não são casas de passagem, como deveriam ser. Elas viraram casas de moradia. O conceito delas é que a pessoas ficasse, no máximo, 27 dias. Mas temos moradores que estão há dois ou três anos. Não existe uma política para que essas pessoas deixem o local.

Outro problema grave é que existe uma grande interferência do Ministério Público em relação à Justiça, que obriga a abrigar pessoas na casa de acolhida, superlotando o local. Às vezes a casa de acolhida tem capacidade para 180 pessoas e chega uma ordem judicial obrigando que se abrigue mais 30 pessoas. Vai superlotar, gerar insegurança e fatos lamentáveis como as mortes.

Rodrigo Hirose – Por que tem aumentado a quantidade de pessoas em condição de rua em Goiânia?
Existe uma falha da Prefeitura, do Estado e da União. Não existe no Estado nem na União nenhum programa de retirada de moradores de rua ou de reinserção deles no mercado de trabalho. O que existe é uma política assistencialista dos municípios, que encaminham pessoas que estão nas ruas para outros municípios. Isso já ocorreu em Goiânia.

Tem aumentado não só em Goiânia, como em todo o Brasil, por causa da crise econômica e o desemprego. Goiânia é vista como uma cidade atrativa. O País inteiro vem para Goiânia e aquelas pessoas que chegam aqui e não conseguem emprego e moradia com certeza vão acabar na rua.

Esse número não é meu, é de ONGs. Particularmente, acho que há muito mais gente. Nós temos pessoas nas ruas em locais que não havia antes. O Centro da cidade foi tomado. Coisa que não se imaginava há cinco anos.

Rafael Oliveira – Há uma quantidade alta de venezuelanos nessas casas. O que pode ser feito por elas?
A Venezuela afetou o Brasil inteiro. A Rua 44 e o Ceasa atraem pessoas que, mesmo não falando o português, conseguem emprego. Não são apenas venezuelanos, há muitos haitianos. São parte frequente do mercado informal de camelôs, principalmente na Avenida Anhanguera e em Campinas.

Não existe nenhuma política da Prefeitura e do Estado para dar cidadania ou acesso desses imigrantes na rede de saúde. Não existe estudo do impacto. Provavelmente, em um futuro próximo, haverá mais transtornos, pois estamos falando de famílias que chegam, geram filhos que vão precisar de escola, e hoje não têm ao menos a documentação. A Prefeitura e o governo do Estado têm de se preocupar com isso.

Augusto Diniz – O que há na Câmara de propostas para atender essa população de rua?
Confesso que meu projeto é o único que tratou desse assunto nos últimos anos. O que é preocupante. Talvez [isso ocorra] porque esse público não vote e, assim, geralmente não tem tantos olhos da classe política. É um problema social que atinge a todos.

Rodrigo Hirose – Desde que a Feira Hippie foi transferida para a reforma da Praça do Trabalhador, tem aumentado o número de feirantes que se instalam ali. Como a Câmara está acompanhando a situação? Os feirantes que estão lá há muito tempo têm a segurança de que terão suas vagas na feira reformada?
Já alertei a Prefeitura diversas vezes. Não há um cadastro confiável da quantidade real de feirantes na Feira Hippie. Frequento o local quase diariamente. O centro da Feira Hippie é praticamente vazio, não existem mais 5 mil feirantes e nem há a necessidade de 5 mil pontos de feira. Defendo a unificação de todas as feiras da região dentro da Feira Hippie, para que ela volte a ser forte como já foi.

O que mais preocupa é a questão dos pontos. Algumas pessoas pegaram os pontos da parte externa da feira, que são os mais valorizados. A Prefeitura não tem a informação de onde é o ponto de cada um. Ela sabe que há 5 mil pessoas cadastradas, mas não sabe de fato onde é o ponto delas. São entidades que cuidam dessas localizações. Inclusive é normal ver a venda de pontos na Feira Hippie, algo que não deveria acontecer.

A Câmara tem acompanhado, há muitos vereadores empenhados em dar uma solução a esse problema. Mas acho que essa crise, infelizmente, talvez aumente, porque não existe um controle real de quem é o feirante e de quem é o dono ou o local do ponto.

Rodrigo Hirose – Há, portanto, o risco de um conflito no momento em que for feita a transferência para a feira nova?
Existe, inclusive, se não fosse a presença da Guarda Metropolitana e da Polícia Militar no local, esse conflito já teria ocorrido várias vezes. Muitas das pessoas que não estavam nas quadras mais valorizadas no momento da retirada da feira foram desprestigiadas e foram parar em outros pontos. Só não houve conflito por causa da interferência policial.

O retorno para a Praça do Trabalhador, uma feira que obviamente será menor, se não houver a mão do poder público, pode virar um campo minado no local, que hoje é a principal região econômica do Estado.

Augusto Diniz – A região reuniu a Praça do Trabalhador, Rua 44, Feira da Madrugada, ambulantes e a rodoviária. Com as obras recentes, ela ficou ainda mais confusa. Existe solução para aquela região?
A região, na verdade, é a solução para boa parte dos problemas de Goiânia. O primeiro passo é a Prefeitura terminar urgentemente as obras. Enquanto não se definir os dias, horários e o tamanho real da Feira Hippie e da Feria da Madrugada, é impossível fiscalizar. Não é possível distinguir quem é feirante da Feira Hippie e quem é ambulante.

Augusto Diniz – E ainda há os donos das lojas, que montam bancas nas ruas para competir.
Acho que eles estão dando um tiro no próprio pé. Boa parte dos vendedores na frente das galerias é de funcionários das lojas. Eles estão atraindo o comércio informal para a frente das lojas. Se os próprios lojistas não entenderem que têm de se policiar, a situação pode se tornar caótica.

A galinha dos ovos de ouro de Goiânia pode ser extinta, como ocorreu na Bernardo Sayão. Estamos falando de uma região que gera 15 mil empregos formais em oito quadras e 150 mil indiretos em todo o Estado.

Augusto Diniz – A rodoviária deve continuar naquele local? Ou a retirada prejudicaria o comércio da Rua 44?
A rodoviária é fundamental no arranjo da região. Aquele local não funciona sem a rodoviária, a Feira Hippie e as lojas e galerias. O que necessita é de organização. Nos fins de semana, a rodoviária é prejudicada com o fechamento do trânsito.

Mas não é atrativo retirar a rodoviária da região. Ela é uma das partes desse corpo que faz funcionar e gerar o comércio local.

Rodrigo Hirose – Milhares de pessoas circulam no local. Shoppings são rotineiramente liberados. Essa ocupação levou em conta questões como o impacto de trânsito?
Tudo em Goiânia foi feito sem impacto e estudo nenhum. Não houve planejamento para nenhuma das áreas comerciais da capital. Aquelas que surgiram foi graças à visão empreendedora daqueles que decidiram montar seus comércios. Quando existe uma omissão, alguém vai preenchê-lo.

Não existe [estudo] de impacto de trânsito naquele local. As ruas que cortam a 44 e a Avenida Contorno já deveriam ter sido fechadas e se tornado grandes calçadões de pedestres. Os sentidos das ruas já deveriam ter sido alterados. Muitas galerias não têm a certificação de segurança do Corpo de Bombeiros nem da Defesa Civil.

Isso foi fruto de uma omissão do Município, que viu que a região estava crescendo e, ao invés de ter entrado, deixou a coisa correr solta. Hoje, infelizmente, o que se pode fazer são remendos, pois precisamos dessa região. Goiânia talvez não viva um grande problema de desemprego porque tem a 44, que, mesmo com a crise econômica do País, gera emprego dia a dia com a construção de novas galerias e abertura de novas lojas.

Augusto Diniz – Como o sr. vê a questão de a Prefeitura tocar tantas obras ao mesmo tempo nas mesmas regiões. Isso era o ideal ou não havia alternativa?
As obras teriam de ser feitas e é melhor fazer tudo de uma vez e o sofrimento acabar em um ano e não voltar que fazer várias obras em sequência. Assim, algo que teria um transtorno de um ano e meio ou dois se prolongaria por seis anos. É como uma reforma em casa: é melhor fazer de uma vez que aos poucos, senão o incômodo vai durar por muito mais tempo.

Augusto Diniz – A Câmara de Vereadores teve de realizar sessões extraordinárias para aprovar mudanças no contrato de empréstimo de R$ 780 milhões da Caixa para a Prefeitura. Havia possibilidade de prejuízo a alguma obras em andamento caso não fosse feita essa votação?
Todas as obras de Goiânia dependem desse empréstimo, inclusive as que já foram iniciadas. Tem dinheiro desse empréstimo para o BRT e para a extensão da Avenida Leste-Oeste. São obras empenhadas, licitadas e que estão sendo executadas. A Prefeitura abriu licitação para asfaltar diversos bairros e depende também desse empréstimo.

Augusto Diniz – A Câmara acompanha a execução desse contrato?
A Prefeitura enviou todos os contratos [para a Câmara]. A alteração contratual foi culpa da União e da Caixa, que mudaram as regras e a parte fiadora, por isso houve necessidade dessa mudança. A expectativa é que esse contrato seja assinado em 15 ou 20 dias.

Augusto Diniz – Esses empréstimos podem comprometer as futuras gestões?
O prefeito Iris Rezende é muito responsável. O secretário de Finanças, Alessandro Melo, tem tido muito cuidado com o impacto do pagamento dessa dívida nos próximos anos, até porque não será a atual gestão que pagará. Goiânia não ficará inviabilizada por causa desse empréstimo, ela se planejou e se adequou para receber esse dinheiro. Houve votações duras, como a da Previdência, mas que foram necessárias para que Goiânia atingisse a nota B e pudesse pegar esse recurso.

Estamos falando de uma cidade que, em meio a uma crise nacional, inclusive do Estado, vive uma tranquilidade. Enquanto se fala em aumento de alíquota e taxas adicionais na Previdência do Estado, Goiânia resolveu seus problemas previdenciários sem essas novas regras. A Prefeitura zerou um déficit previdenciário que era de R$ 40 milhões e passou a gerar um superávit de R$ 30 milhões por mês.

Rodrigo Hirose – O pagamento será feito em quantos anos?
Dez ou 20 anos, se não me a engano.

Augusto Diniz – O futuro prefeito, portanto, pegará uma Prefeitura em boas condições financeiras?
Nenhuma prefeitura brasileira está em situação boa, mas a situação de Goiânia é de razoável para boa.

Augusto Diniz – Após sua troca do Pros para o Patriota, como está encaminhada sua situação política para o ano que vem?
Minha mudança de partido ocorreu porque faço parte de um grupo que tem pessoas de vários partidos, inclusive do próprio Pros. A ideia é ter uma candidatura majoritária em 2020. Minha ida para o Patriota se deu pela liberdade. Não é o momento de se discutir isso, mas temos um projeto para Goiânia que envolve vereadores, deputados estaduais e federais. Queremos colocá-lo para a sociedade goianiense discutir no ano que vem.

Não sei se eu como candidato a prefeito ou se outra pessoa, mas nesse momento a ideia é focar nas eleições de 2020 com vistas à eleição majoritária para prefeito.

Augusto Diniz – Antes de sua saída do Pros, sua relação com o deputado Vinicius Cirqueira era muito boa. Continua a mesma relação? Ele ainda faz parte do mesmo grupo?
Nossa relação é de amizade, nos falamos todos os dias. É um cara que sempre estará nos meus projetos políticos e certamente sempre estarei nos dele. É claro que existe a possibilidade do Pros ter um candidato, mas nosso projeto é apartidário.

Assim como na eleição para governador, quando estava no Pros, não apoiei o Ronaldo Caiado, mas o Daniel Vilela, acredito que as decisões desse grupo vão se nortear por algo maior que simplesmente questões partidárias.

Rodrigo Hirose – Quais são os vereadores e legendas que formam esse grupo?
São 12 vereadores, alguns já se manifestaram, como o Wellington Peixoto (MDB). Mas é melhor que cada manifestação venha de cada vereador, no momento em que se sentir confortável.

Rodrigo Hirose – Esse grupo lançará um candidato para disputar com o prefeito Iris Rezende?
É complicado falar isso, vejo a política de forma diferente. Sou aliado do prefeito Iris Rezende, mas isso não impede de que eu dispute uma eleição contra ele. Não queremos fazer uma campanha entre o certo ou errado, mas de propostas. O prefeito Iris ser ou não candidato não influencia em nada o grupo e nem pessoas que estão na gestão.

Um projeto que não fala de ataques, não critica a gestão, mas que mostre alternativas e caminhos para a cidade. Esse tem de ser o ponto para encabeçar as eleições de 2020, para que ela tenha um nível melhor. Tivemos uma eleição muito dura para a Presidência, que parece que não terminou. Também uma eleição muito dura para o governo do Estado, que parece que ainda não terminou.

A política é algo a mais que a briga eterna do cão e gato. Temos de evoluir e levar a política para o campo das ideias.

Augusto Diniz – O que muda no quadro tendo ou não Iris na campanha?
Estamos falando de um cara com 61 anos de vida pública que nunca perdeu uma eleição em Goiânia. Obviamente, disputar com o Iris é um cenário de uma eleição sem ele. Não dá para fazer uma projeção nesse momento, mas o que posso dizer é que uma eleição com Iris Rezende é um pouco mais complexa e que deve ser estudada por nosso grupo.

Augusto Diniz – Se o cronograma de obras for cumprido, o prefeito Iris Rezende se torna um candidato imbatível à reeleição?
Não existe ninguém imbatível na política. A história tem demonstrado isso. Temos um presidente que ganhou uma eleição na rede social. O cenário político é muito volátil, a realidade pode mudar de uma hora para outra. Não é porque o prefeito Iris Rezende entregou tantas obras que ele se torna imbatível. Isso é a política das ideias. Não é porque entregou obras que o faz ser eleito, mas aquilo que se mostra para a cidade de um modo geral.

O Brasil tem surpreendido muito nas eleições. Para se eleger um presidente, foi preciso uma faca, um wi-fi no hospital e um doido. Esse é o cenário político do Brasil. Todo mundo imaginava há cinco anos que o Lula seria o presidente do Brasil – e ele está preso. Ninguém imaginava que Marconi Perillo poderia perder uma eleição e ele perdeu.

Rafael Oliveira – O nome do senador Jorge Kajuru vai ter peso na eleição do ano que vem?
Durante muito tempo o nome de Jorge Kajuru terá peso decisivo em qualquer eleição no cenário goiano. Não vejo hoje, com exceção talvez do prefeito Iris Rezende, alguém com condições de galgar voos como o Jorge Kajuru. Ele é novo na política do Estado, mas tem mostrado esse grande poder na transferência do voto.

A transferência de voto é muito complexa. Às vezes o candidato tem muito votos, mas não consegue transferir. O Kajuru consegue os dois: além de ter uma votação expressiva é também um político que passa credibilidade para quem indica. Ele terá participação muito importante não apenas em 2020, como também em 2022.

Rodrigo Hirose – Com o fim das coligações proporcionais, os partidos precisam de candidatos majoritários. Como fica esse grupo nesse contexto, pois ele é formado por gente de vários partidos?
A proibição das coligações atrapalha todo o cenário político. É natural então um grupo de vereadores se formar nesse ano na Câmara para tentar montar chapas competitivas. Partidos que têm um cabeça de chapa que brigue por votos têm mais facilidade para montar suas chapas para a Câmara.

Nesse momento, o ideal não é pensar em quem será o cabeça de chapa, mas montar as chapas de vereadores competitivas. É necessário concentrar em ter candidatos que entrem realmente para disputar votos.

Rodrigo Hirose – À medida que a administração do prefeito Iris foi deslanchando, principalmente lançando obras, a temperatura da Câmara em relação a ele também foi baixando. O prefeito ainda tem oposição?
Posição sempre vai existir e é importante para o processo. É óbvio que ela é mais tímida nesse momento. Durante a crise que a Prefeitura viveu, o prefeito tinha 18 votos contra 17. Era uma Câmara dividida. Mas é complicado ser oposição em uma administração que deslanchou e tem feito tanto. A tendência agora é a Câmara enriquecer o discurso nas matérias. A própria oposição ajudou a Prefeitura a ter o empréstimo de R$ 780 milhões.

Augusto Diniz – O que mudou na relação da Prefeitura com a Câmara com a troca do líder do prefeito, que era o Tiãozinho Porto e agora é o Oséias Varão?
O tratamento é o mesmo. Não culpo o Tiãozinho Porto pelos problemas. Ele foi líder em um período que tinha votação da Previdência, do IPTU, um período desagradável para ser líder, pois a Prefeitura não conseguia também um buraco em Goiânia. É muito fácil ser oposição em um momento desses. Esse clima mudou porque os vereadores entenderam que não adianta bater em quem está fazendo.

Talvez o vereador Oséias Varão tenha assumido a liderança em um momento mais tranquilo. Mas vale ressaltar que as grandes vitórias que a base do prefeito teve foram na época do Tiãozinho Porto. A maior vitória dessa gestão foi ter conseguido aprovar a [reforma da] Previdência por 18 votos a 17. Na época, a articulação toda foi feita pelo líder, que era o vereador Tiãozinho.

Foto; Fernando Leite/Jornal Opção

Augusto Diniz – Um ano após o fim da CEI da saúde, podemos dizer que ela mudou algo no atendimento no município?
Talvez como um alerta. Nada que se faça na saúde vai representar uma melhora em seis meses ou um ano. Tudo vai gerar um benefício em dois ou três anos. Talvez seja por isso que a secretária Fátima [Mrué] tenha sofrido tanto desgaste. A gestão dela pouco vai ser vista nessa atual gestão, as principais mudanças que ela vez só vão representar algo positivo daqui a três ou quatro anos.

O que foi feito na saúde deveria ser feito em algum momento. Dou como exemplo o descredenciamento de hospitais. Muita gente bateu nela, mas ninguém explicou o porquê do descredenciamento. A Prefeitura de Goiânia sempre pagou fatura fechada, dentro de uma cota. O hospital mandava a fatura para a Prefeitura e nunca informava o que de fato foi consumido. A Fátima botou um pé no freio. Isso trouxe economia porque muitos hospitais não conseguiram comprovar que realmente tinham gasto o que informavam.

Outra briga no meio político ocorreu por causa da quantidade de máquinas de chequinho espalhadas em igrejas, associações e sindicatos. As filas que se formavam nas portas dos Cais no início de cada mês eram normais, porque as máquinas estavam nas mãos de alguns poucos. Ela tirou isso e colocou um sistema online, que começou a mostrar melhorias nessa gestão, mas que, quando estiver aprimorado de fato, vai solucionar esse problema.

Talvez ela tenha sido mal assessora em saber comunicar à sociedade o que fez. Vejo ainda muitos problemas na saúde. Precisamos definir como Goiânia receberá das prefeituras do interior. Há mais de 4 milhões de cartões do SUS em Goiânia, para uma população de 1,5 milhão. 70% dos atendimentos são de gente que não mora aqui. A secretária tem estudado uma forma de compensação financeira por parte dessas prefeituras.

Outro grande problema é que os hospitais estaduais são de porta fechada. Com exceção do Hugo, que é um hospital de trauma, se você chegar a qualquer outra unidade do Estado não vai conseguir atendimento, ao contrário dos Cais. Os Cais têm fila e os hospitais estaduais não porque eles atendem só quem eles querem. A Prefeitura de Goiânia tem de atender a todos que procuram a rede.

Rodrigo Hirose – A secretária recebeu muitas queixas por centralizar o atendimento pediátrico. Este ano, lançou um chamamento para atrair mais profissionais. Como está a situação hoje?
O salário oferecido não era tão atrativo e existe uma crise de falta de pediatras inclusive nos hospitais particulares. A ideia da centralização também foi mal compreendida. A criança que passava mal saía procurando por atendimento nos Cais. Havia dia que havia pediatra no Novo Mundo, outro dia no Bairro Goiás, noutro na Chácara do Governador ou Novo Horizonte. Por falta desses profissionais, não havia um local exato para esse atendimento. Quando ela centraliza, por mais que fique longe para algumas famílias, todos entendiam que deveriam procurar o Cais de Campinas.

Então, por mais que tenha havido problemas, foi uma decisão certa, pois não havia pediatras suficientes para todos os Cais – que obviamente era o correto. Mas foi feito o que era possível naquele momento. Certamente essa atitude evitou outros problemas.

O chamamento não obteve a adesão que achou que teria. Mas acredito que estuda-se fazer novo chamamento para que novos pediatras venham e todos os Cais tenham atendimento 24 horas. Isso seria o ideal de fato.

Augusto Diniz – A Câmara aprovou a criação de um fundo com dinheiro que sobrar do duodécimo, ao invés de devolvê-lo à Prefeitura. Por que foi tomada essa decisão?
Não é para não devolver. É para que a Câmara possa fazer um planejamento em longo prazo. Temos que, em algum momento, construir uma nova sede. A Câmara, no local onde está, atrapalha Goiânia. Precisamos modernizar a Câmara, que está muito distante da sociedade, por culpa dela própria, que não investe o que deveria.

Nessa legislatura, devolvi R$ 1,5 milhão à Prefeitura. Abri mão de uma dívida de R$ 4,5 milhões da Prefeitura com a Câmara, reconhecida pelo TCM [Tribunal de Contas dos Municípios]. Essa história de devolução não fica bem contada nem para a sociedade, que fica sem saber o que a Prefeitura fez com esse dinheiro.

Precisamos ter um legislativo forte, mais perto da sociedade, e não podemos ser hipócritas de dizer que isso pode ser feito sem recursos. A Câmara precisa de um site eficiente, de um aplicativo de celular e equipamentos para que sua TV funcione – pois os equipamentos hoje são emprestados pela Assembleia Legislativa.

Queremos uma modernização para que a sociedade possa acompanhar de fato aquilo que acontece dentro da Câmara Municipal. Se 100 pessoas foram perguntadas, provavelmente uma saberá o que aconteceu na Câmara. E eu estou sendo muito otimista. No decorrer dos anos, a Câmara se escondeu.

Augusto Diniz – Em que pé está esse projeto?
Ele foi aprovado e está na Prefeitura para ser sancionado ou vetado pelo prefeito. Nunca tiver uma conversa com o prefeito sobre isso, pois faz parte da liberdade dos poderes.

Augusto Diniz – Haverá uma compensação para a Câmara por causa do corte de parte dela para a passagem da Leste-Oeste?
Precisa haver uma compensação em relação a uma área. É uma perda de 30% da área da Câmara. Tem de ser feita esse compensação, obviamente de forma a não onerar os cofres da Prefeitura e nem atrapalhe os serviços da Câmara, que já tem uma sede muito pequena.

Rodrigo Hirose – Quais são os serviços que funcionam nesses 30% que serão cortados?
Principalmente o estacionamento. A partir do momento que a Leste-Oeste pegar parte desse estacionamento, a Câmara Municipal deixa de cumprir uma lei, que é destinar vagas de acordo com o tamanho da área ocupada. Há também parte do restaurante e dois ou três gabinetes de vereador devem deixar de existir.

Foto: Reprodução

Augusto Diniz – Quando o projeto chegou à Câmara, o sr. disse que acreditava que o projeto seria votado até dezembro. Hoje o sr. mantém essa previsão?
Ainda é possível, mas hoje é mais complexo. Achávamos que seria um projeto sem tantas modificações, mas ele mudou áreas que não deveriam. Não é mais uma prioridade a aprovação até dezembro. Mas pode acontecer de ele nãos ser votado nessa legislatura. O consenso na Câmara Municipal é que se a discussão do plano diretor for contaminada pelo ambiente político eleitoral, que a próxima legislatura vote esse projeto.

Não fui culpa da Câmara Municipal, pois ele deveria estar na casa desde 2017, mas ele não chegou. Não podemos também nos precipitar e votar a qualquer custo, pois esse projeto é muito importante para Goiânia. Ele só deve ser votado até dezembro se tiver as condições necessárias e a certeza de cada voto.

Augusto Diniz – Quais são essas modificações que não deveriam estar incluídas?
Há mudanças que são do Código de Posturas, outras que são do Código Tributário. Existe a recepção de decretos antigos. Há uma série de coisas que precisam ser modificadas.

A Prefeitura não conseguiu mostrar à Câmara Municipal o critério de crescimento da cidade, quais serão as áreas de aceleração e desaceleração. É necessário ter convicção do voto, pois se está falando de regiões que podem ficar travadas pelos próximos dez anos e de regiões que, se forem adensadas, podem ser prejudicadas.

Rodrigo Hirose – O sr. falou que ainda há dúvidas sobre os critérios de adensamento. Os vereadores não buscam os técnicos da Prefeitura e vice-versa?
Os técnicos da Seplan foram chamados por diversas vezes. Eles têm ido com frequência na Câmara Municipal, mas os vereadores ainda têm dúvidas em vários trechos, principalmente nessa questão do adensamento. Não estão claros os motivos da Prefeitura de adensar algumas áreas e outras não. O caso do Setor Sul é gritante, pois haverá a estagnação de novas construções. Os vereadores têm o direito de questionar o quanto for necessário, para que as dúvidas deixem de pairar e que eles possam votar com certeza.

Ítalo Wolff – Sabendo que é mais complexo votar até dezembro, o sr. mantém a posição de não votar o Plano Diretor no ano que vem?
Tenho o desejo de não votá-lo em 2020. Mas não sou o dono da verdade e se os vereadores assim o decidirem [será votado]. Só conduzo os trabalhos da casa, não sou a pessoa que toma a decisão final. Ouço todos, não há mandato maior que o outro. Estou como presidente, mas sou vereador como qualquer um. Continuo com minha convicção de que não é prudente uma votação de Plano Diretor em ano eleitoral. Acredito que a maioria dos vereadores tem a mesma convicção que a minha.

Ítalo Wolff – O sr. falou em contratar técnicos terceirizados para ajudar na análise do Plano Diretor. Isso foi feito?
Pedi ao TCM uma análise profunda da legalidade. Ainda está em estudo, não recebi a resposta.

Augusto Diniz – A Prefeitura anunciou que começaria a fiscalizar o trabalho de motoristas por aplicativos em Goiânia. Isso já está sendo feito?
A regulamentação não atende nem o que a Prefeitura nem o que os motoristas precisam. Goiânia precisa urgentemente debater esse assunto, não só pela segurança dos motoristas e dos passageiros. A quantidade de violência contra as mulheres é muito grande. A violência está pelos dois lados. Os motoristas estão sofrendo assaltos, alguns até sendo mortos.

É preciso coragem para enfrentar esse tema, que é muito delicado e mexe com outra classe, que são os taxistas. A regulamentação tem de ocorrer, a Câmara está aberta, mas o ideal é que seja um projeto do poder Executivo, que é a quem cabe a fiscalização.

Augusto Diniz – Um novo decreto ou um projeto de lei?
Um projeto de lei, pois o decreto não foi debatido. Como disse, ele não atende nem os motoristas nem a cidade de Goiânia.

Augusto Diniz – A CMTC fez uma proposta recentemente de criação de um fundo para financiar o transporte. Como o sr. avalia essa proposta? E o que fazer para melhorar o transporte coletivo em Goiânia?
Não vejo como viável nem prudente. Não consigo fazer um cálculo para explicar o porquê de um motorista de Itumbiara ter um aumento no IPVA para financiar o transporte coletivo na Região Metropolitana. Não vejo como solução. É óbvio que nos países de primeiro mundo que o proprietário do transporte particular ajude a pagar o transporte público. Mas não se pode onerar ainda mais a população, criar mais um imposto ou taxa inexplicável.

O que deve acontecer em Goiânia é simples. As mesmas empresas estão no serviço há 20 anos, alegam todo final de ano que tiveram prejuízo, nunca saem da licitação, sempre participam e sempre ganham. Ou a Região Metropolitana tem coragem para abrir para que empresas do País inteiro possam participar e explorar o transporte, ou vai continuar sofrendo.

Por que Goiânia até hoje não pensou em um VLT? Por que não entrou em projetos do governo federal para construir um metrô subterrâneo? Não vejo a solução apenas com o transporte que existe hoje, abaixar ou aumentar tarifa, nem colocar mais ônibus nas ruas, porque a velocidade de um ônibus no horário de pico é de 6 quilômetros por hora.

Goiânia errou demais ao fazer o BRT. Era a oportunidade de trazer algo novo e moderno, mas abrimos mão, colocamos mais concreto no meio da cidade para dar mais dinheiro para empresas de ônibus que estão acabando com a cidade e com a população e prestando um péssimo serviço.

Augusto Diniz – O senador Álvaro Dias apresentou uma Proposta de Emenda Constitucional para diminuir o número de senadores, deputados federais e estaduais e vereadores em todo o Brasil. Como o sr. é a favor ou contra essa iniciativa?
Tudo tem de ser muito bem debatido. A máquina política é muito cara, temos o parlamento mais caro do mundo. O Congresso tem um valor estrondoso. Não há porque ter uma casa legislativa e uma casa revisora que faz o mesmo papel. É um projeto que ajuda o governo a ter dinheiro para aquilo que de fato é prioridade. Mas não se pode pegar uma cidade com nove vereadores e colocar cinco. Vai transformar a Câmara Municipal num monopólio do prefeito, que terá liberdade para fazer o que quiser.

A quantidade de senadores, deputados federais e estaduais e vereadores em algumas cidades preocupa, porque é uma máquina muito cara e pesada. Em algum momento isso terá de ser resolvido. Mas, se você quer minha humilde opinião, acho que essa proposta do senador é engodo e talvez nem ele mesmo seja a favor.

Augusto Diniz – O presidente Jair Bolsonaro disse que pode, em algum momento, se tornar um presidente sem partido. A deputada federal Tábata Amaral (PDT) contrariou as decisões do partido. Como o sr. vê a tese das candidaturas avulsas? Essa é uma possibilidade?
Já temos um presidente sem cérebro então, sem partido, não muda muita coisa. Não vejo muita utilidade no Bolsonaro em ter ou não ter partido. Em relação às candidaturas avulsas, em um país em corrupção e compra de votos, talvez fosse o ideal. Mas em um país como o Brasil, onde o que impera é o poder financeiro, uma pessoa como eu, de origem pobre, negro e sem ligação política nenhuma jamais chegaria a ser vereador de uma cidade como Goiânia.

Defendo o sistema proporcional, ele é o ideal para o momento do Brasil. O sistema de distrito em cidades com mais de 300 mil habitantes é perigoso, porque trava o crescimento político de novas pessoas. Se passasse algo do tipo, nem candidato a vereador seria, pois acredito que em uma cidade como Goiânia, ele tem de cuidar da cidade como um todo.

O que população brasileira quer não é a mudança no sistema de voto, é a mudança de comportamento do político. O próprio presidente Jair Bolsonaro, que bateu o tempo inteiro no fundo eleitoral, colocou 40% a mais de fundo eleitoral no orçamento do ano que vem. Não adianta falar e não fazer. As pessoas estão pouco importando com a forma com que o político foi eleito, até porque 50% dela nem entendam como funciona o sistema proporcional.

O que precisa mudar é o que os políticos fazem, não a forma de votação ou de financiamento. Esse racha no PSL, por exemplo, é pelo dinheiro público. Ninguém fala e escancara, mas de fato é isso. O PSL no ano que vem terá direito a um fundo milionário e a briga nada mais é que por dinheiro público e escondem essa questão.

Não existe nenhum problema no PSL que não seja a discussão pelo dinheiro. Não sou nem pretendo ser do partido, mas como ele critica todo mundo, dá o direito também de ser criticado.

Ítalo Wolff – O sr. tem acompanhado a revitalização do Centro?
Uma das áreas que acho que devem ser adensadas é o Centro da cidade. Precisamos de novos empreendimentos sendo construídos, a população tem de voltar a morar lá. É o momento de pensar o Centro, a Vila Nova, são setores históricos, têm importância na cidade e que algum momento ficaram esquecidos. O comércio que existia nas Ruas 4 e 3 desapareceu. As pessoas sumiram.

A ideia é fazer uma padronização do Centro e da Vila Nova, pegando a extensão da Avenida Independência e quem sabe chegando até a Praça da Bíblia, quem sabe com algumas isenções e atrativos para quem deseja empreender nesses locais.

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