“Muito do que o Jornal Opção produziu trouxe influência direta nas ações de políticos”

Desembargador do DF e ex-repórter do semanário – que completa 40 anos de existência em dezembro – fala de seu tempo como jornalista em Goiânia e destaca papel pioneiro desempenhado pelo veículo fundado por Herbert de Moraes

Marco Antônio da Silva Lemos, desembargador do Tribunal de Justiça do Distrito Federal e dos Territórios (TJ-DF)

Marco Antônio da Silva Lemos, desembargador do Tribunal de Justiça do Distrito Federal e dos Territórios (TJ-DF)

Em seus 40 anos, a se­rem completados em de­zembro, o Jornal O­p­ção viu passar por sua redação excelentes quadros, profissionais de várias áreas que acabaram por se dedicar também ao jornalismo – ou que a partir dele partiram para outras vocações. Um deles foi Marco Antônio da Silva Lemos, que hoje é desembargador do Tribunal de Justiça do Distrito Federal e dos Territórios (TJ-DF).

A partir desta edição, o jornal pu­blicará entrevistas, artigos e re­portagens alusivas a seu aniversário. O hoje desembargador era a­pe­nas um jovem jornalista em 1975, quando entrou na redação daquele “recém-nascido” semanário da capital. Agora retorna, co­mo entrevistado, para rememorar os fatos da época e registrar sua vi­são da história do veículo e da con­juntura por que passou – eram anos difíceis, no regime militar, ainda que no projeto de distensão do governo de Ernesto Geisel.

Nesta entrevista, concedida na redação do jornal na terça-feira, 27, Marco Lemos lembra seu percurso co­mo jornalista e destaca o valor do semanário. “O Jornal Opção era um veículo que buscava convencer seu leitor, e não persuadir. Esse é um valor que continua até hoje.” Ele faz especial referência à figura de Herbert de Moraes, fundador do veículo – hoje conduzido por sua filha, Patrícia Moraes Machado –, a quem considera um homem dotado de especial dom para descobrir valores e talentos para a comunicação.

Patrícia Moraes Machado — Como o sr. conheceu o jornalista Herbert de Moraes?
Eu trabalhava no jornal “Cinco de Março” e ele era secretário de Im­pren­sa do governador. Na época ele estava encarregado de divulgar o trabalho do governador Leonino Caiado, em especial as grandes obras, como o Centro Adminis­trativo [hoje Palácio Pedro Ludo­vico], o Autó­dro­mo e o Estádio Serra Dourada. Lembro-me de que, quando eles foram instalar no estádio um sistema mais moderno, que consistia dos chamados tubulões, uma estrutura de suporte que era moderna à época. Ocorre que um desses tubulões explodiu e morreu alguém, provavelmente um trabalhador da obra.
O coordenador da obra era o engenheiro Lamartine Reginaldo. Aquilo repercutiu mal e eu fui conversar com Herbert. Sugeri a suspensão do uso dos tubulões. Então, a partir daí, Lamartine resolveu inverter totalmente o sistema, que passou a ser de estacas. Daí, superou-se aquela crise. Outra obra paralela era a do autódromo, que, na época, não teve grandes problemas em sua construção. Era uma obra grande e muito chamativa, porque vivíamos o auge de Emerson Fittipaldi na Fórmula 1 – Nelson Piquet ainda despontava nas categorias menores do automobilismo. Por fim, havia ainda o Centro Administrativo, outra grande obra que foi recuperada por Leonino.
Herbert, ainda como secretário, me repassou a ideia de que pretendia fundar um novo jornal. Nós discutíamos aquilo e eu meu interessei, principalmente porque eu era um produto do “Cinco de Março”, do qual eu conhecia suas limitações, como a falta de espaço para matérias que eu queria fazer. O jornal vivia basicamente de denúncias. Já o Jornal Opção, então, seria uma opção para que pudesse escrever o que eu queria e que achava que era preciso ser escrito, uma abertura que eu não tinha no “Cinco de Março”.

Patrícia Moraes Machado — Qual era a proposta editorial inicial do Jornal Opção?
Uma grande variedade de assunto e principalmente aquilo que os outros jornais não tinham condição de fazer. Era uma questão de paradigmas: não tinha como fazer o que se fazia no Jornal Opção em um jornal como “O Popular” ou na “Folha de Goyaz”, onde só se agia dentro do esquema tradicional da época. O “Cinco de Março” era mais ousado, mas nele tinha muito de matérias policiais. Para se ter ideia, nós não tínhamos na época a tradição do contraditório. A denúncia era feita sem que se ouvisse o denunciado. Imagina como era isso falando de um político ou de uma autoridade. E mesmo assim se publicava. Só depois que já tinha sido publicado é que, então – depois que a pessoa afetada já tinha virado “uma onça” [risos] – se dava voz aquela outra parte. Eu achava aquilo errado, mas determinadas coisas, se não fossem feitas daquele jeito, nunca sairiam na imprensa. Imagine: se, no momento em que alguém poderoso soubesse que havia uma denúncia contra si, é claro que impediria aquilo de ser publicado. Conforme o contexto, muitas vezes éramos obrigados a ceder, mesmo que a matéria fosse excelente. Estávamos proibidos de explorar o assunto. Os jornalistas tinham essa limitação: ora, se sou muito seu amigo, como eu poderia publicar algo contra você? Existia muito compadrio e muita “igrejinha”; não poderíamos ser contra certo viés ideológico. Naquela época já tinha começado a haver essa divisão ideológica. Naquela época, o grande celeiro de literatos e intelectuais em Goiás era o Partido Comunista Brasileiro (PCB), que era clandestino.

Patrícia Moraes Machado — Quando Herbert propôs a criação de um novo jornal, o sr. disse que “novos estavam chegando e velhos estavam saindo”. Quem eram esses novos e esses velhos? Políticos, jornalistas?
Eram tanto políticos quanto jornalistas. Estávamos no meio da experiência revolucionária – eu ainda uso este termo, “Revolução de 64”, para me referir ao regime militar, acho mais prático, vivi isso tudo. Houve uma geração que foi derrotada e muitos talentos se perderam porque se envolveram com opções políticas extremadas: gente que ia para militância, para a guerrilha, ou então ficava dentro do próprio Partidão. E havia gente que acreditava em luta armada. E ficavam divididos dessa forma. A grande maioria dos novos queria uma coisa diferente. A diferença fundamental era se se queria fazer aquelas mudanças, alterar aquele estado de coisas, de forma revolucionária ou pela via conservadora.

galeriaPatrícia Moraes Machado — Dentro deste raciocínio, qual era a linha editorial do Jornal Opção?
Eu diria que o Jornal Opção procurava forçar novas alternativas. Isso era sensível. Tentávamos fazer algo que fugisse daquele padrão tradicional, o que se percebia em “O Popular”, na “Folha de Goyaz” e no “Cinco de Março”. O “Cinco de Março” era popularesco demais e os outros jornais se acomodavam dentro daquele esquema. Nós não tínhamos grandes empresários; o grande financiador era o governo, volta e meia nós teríamos de esbarrar no governo. Quando o Jornal Opção começou, inevitavelmente precisaria de anunciantes, mas o grande cliente era o governo. Em 1975, chegava ao fim o governo de Le­o­nino Caiado, que foi de 1971 a 1975. Lo­go em seguida, veio Irapuan Costa Junior para sucedê-lo. Herbert se deu muito bem com Ira­puan. O governador tinha uma dificuldade de legitimidade, era considerado como a “besta negra” pela oposição – na época o MDB [Movimento Democrático Brasileiro]. Isso remontava a algo que tinha ocorrido alguns anos antes. Pouca gente se lembra de um fato sobre Iris Rezende [que tinha sido cassado em 1969, quando era prefeito de Goiânia]: é que ele deveria se filiar à Arena [Aliança Renovadora Nacio­nal, que representava a posição do re­gime militar] em 1969 e seria, en­tão, candidato ao governo do Estado com apoio do regime. Aliás, nem precisaria ser candidato, ele certamente seria nomeado governador de Goiás.

Euler de França Belém — Apesar das dependências econômicas que existiam, o Jornal Opção procurava manter – e manteve – uma instância crítica.
Em jornalismo, principalmente impresso, faziam-se as ousadias. O Jornal Opção era amplo, um jornal de ideias. Antigamente, uma redação de jornal era necessária. Acordava-se às 9 horas e se passava na redação. Era preciso saber quem estava ali, qual o fato que estava acontecendo, qual era a repercussão do dia, o que podíamos fazer ou deixar de fazer. Então, fazíamos um “brainstorming” [termo em inglês para a expressão “tempestade de ideias”]. A redação era um lugar de convivência. Se havia um jornalista de direita e outro de esquerda, todos eram honestamente de esquerda ou de direita. Ou seja, eu não desprezaria ninguém por ser de esquerda ou de direita, nós fazíamos a dialética da coisa. Daquele confronto e daquela mistura sairia um produto melhor, uma síntese.

Euler de França Belém — Percebo, lendo as cinco primeiras edições do jornal, que vocês queriam contribuir para uma modernização do Estado, isso no aspecto amplo – na economia, na política, na gestão e na cultura. Vocês tinham essa visão, o que aparece logo na primeira edição do Jornal Opção, onde se discute um metrô para Goiânia.
Uma das grandes figuras daquela época era Homar Rassi, um urbanista. O urbanismo naquela época era algo distante, ligado a Jaime Lerner [arquiteto que se tornou prefeito de Curitiba], às experiências que ele fazia no Paraná, as novidades no mobiliário urbano. Lerner representava o avanço. E Rassi tinha uma concepção urbanística para Goiânia. Não sei se daria certo, mas ele queria retirar o chamado núcleo de Goiânia – representado pelo Eixo Anhanguera, pela Avenida Araguaia, a Praça Cívica etc. – e expandir a cidade para os lados. Isso, no entender dele, evitaria o caos do transporte, que à época já começava a se mostrar problemático. Essa era a ideia dele, que nunca foi para frente e não pudemos saber se daria certo ou não. Em um dos primeiros números do Jornal Opção, esse urbanista deu uma entrevista em que detalhou seu projeto. E o Jornal Opção fez a opção pelo projeto de Homar Rassi. Depois, criou-se um outro contexto, baseado também no experimento de Curitiba, com o conceito da Transurb, em que se investiu em corredores, a partir de 1976.

Patrícia Moraes Machado — É fato que o Jornal Opção foi um dos primeiros a dar espaço para a defesa da anistia, que ocorreu em 1979. O sr. se lembra de como foi esse período?
Vivíamos uma época de censura, então tínhamos de ter material para fazer duas edições, a versão original ou uma alternativa. Tínhamos de preparar matérias frias, para o caso de sermos obrigados a retirar alguma reportagem ou texto da edição do dia. Não tínhamos condição nem iniciativa para fazer aquela loucura do jornal “O Estado de S. Paulo”, em que seu dono, Júlio de Mesquita, dizia que poderiam proibi-lo de publicar alguma coisa, mas fazia questão de publicar o que queria. Ele chegou a publicar poemas de Camões, receita de bolo, nos espaços de matérias censuradas, ou até deixava os espaços vazios. Nenhum outro jornal fazia isso, imagine então um jornal de província. O “Estadão” podia fazer isso, nós não.
Mas a gente, digamos, fazia um jornalismo de trincheira, mandávamos o material, a gente não se autocensurava. Se alguém suspeitava que determinada matéria talvez fosse vetada, se ela viesse vetada a gente teria de substituir, não tinha outro jeito, não tinha como argumentar. Em algumas ocasiões, muitíssimo raramente, se conversava com o censor militar. A gente mandava o material para o 10º BC (10º Batalhão de Ca­çadores), que se tornou o 42º BIMtz (Batalhão de Infantaria Motorizada), ou seja, o chefe do BIM era o chefe militar da região, que coordenava todas aquelas coisas.
E houve até algo muito curioso, naquela que seria a fase mais repressiva do período militar no Brasil, no governo Médici [general Emílio Garrastazu Médici, presidente do País de 1969 a 1974], que pintou e bordou sem dar satisfação a quem quer que fosse – se quisesse matar, matava, se quisesse dar sumiço, dava. Mas houve uma inversão. Médici escolheu para governador de Goiás o homem mais bonachão possível, que era Leonino Caiado, um sujeito sem ódios. Mesmo com Médici tendo a imagem de um deus, que eu me lembre, naquele período entre 1971 e 1975 Leonino não se valeu do poder para perseguir ninguém. Pelo contrário, ele conseguiu liberar uma série de coisas, havia uma “respirada” melhor. Os problemas que eventualmente existiam não eram nos órgãos estaduais. As questões federais eram duras, mas as locais estavam tranquilas. Se você era comunista conhecido, fichado, com uma ficha “deste tamanho” no SNI [Serviço Nacional de Informa­ções] e tivesse, digamos, um cargo numa prefeitura, você não seria molestado, mas não poderia ocupar um cargo federal, porque, a qualquer momento, aquele P2 [agente do serviço de inteligência] do órgão o de­nunciaria e você seria expelido. Hou­ve uma época, em qualquer emprego público que eu tivesse, eu era expelido. Eu ficava por algum tempo, mas, de repente, a coisa acontecia.
Por quê? Porque tinha mudado o go­verno: Irapuan tinha sido eleito em 1974. E quem o escolheu para assumir foi a ala mais reacionária das For­ças Armadas, a Aeronáutica, a mais linha dura. E Irapuan incorporou isso. E o curioso é que naquela época Médici saiu e veio Ernesto Geisel, que veio aquela política de abertura lenta, gradual e segura, aquele esquema de Golbery do Couto e Silva [homem forte do governo Geisel]. Mas, aqui em Goiás, o tempo fechou. Houve uma inversão: en­quan­to na área federal tudo parecia mais brando, localmente ficou muito mais acirrado. Se alguém tivesse qualquer suspeita de comunismo, seria implacavelmente perseguido. É curioso observar essa duplicidade: um governo federal mais radical tinha um governo local ameno; logo depois ocorreu o contrário.

Patrícia Moraes Machado – E como era o jornal nesse período em termos de linha editorial, de pensamento?
Não mudou. No período em que estive no jornal, entre 1976 e 1977, que eu me lembre publicávamos tudo o que queríamos publicar. Até porque o Jornal Opção era bem aceito, respeitado, não era considerado “um perigo”.

Euler de França Belém – Porque não era um jornal panfletário, fazia uma crítica inteligente. Era um jornal de ideias.
Exatamente. Não era panfletário, não tinha uma “causa” para vender. E pela primeira vez o público goiano tinha um jornal que se preocupava em convencer e não em persuadir. Convencer-se é analisar algo exposto e, então, tomar uma decisão ou um posicionamento por conta própria. Persuasão é diferente, porque utiliza as três mentes do ser humano: a mente do macaco, a mente do gato e a mente do cachorro. A principal é a do macaco, que é o que se encontra em qualquer camelô de esquina. Eles são mestres da persuasão, não querem convencer, não querem que você siga sua própria ideia, mas querem que você se deixe ao comando deles. Assim é a cabeça do macaco, que visa vantagem. Você compra algo de um camelô porque é barato, porque você pode ter algum lucro. A mente do macaco é a visada por todo vendedor, que sempre quer mostrar uma vantagem no produto que oferece – por exemplo, um carro.
Já a mente do gato representa a preguiça, o conforto, o charme, a luminosidade. Vender um carro ou uma casa para alguém que tenha cabeça de gato significa convencê-lo a partir disso, do design, da vaidade. O gato gosta de conforto, de facilidade.
Por fim, tem a cabeça de cachorro. É um animal leal, idealista. É como um sujeito que vendia enciclopédia e questiona seu possível cliente, para que pense no futuro dos filhos. A pessoa tenta convencer pela lealdade, pela integridade, pela responsabilidade. Todos nós temos essas três cabeças, e qualquer camelô sabe disso. Em qualquer caso, você foi persuadido.
O Jornal Opção nunca te­ve essa preocupação de persuadir, nunca quis vender gato por lebre, não saía “criando” coisas. O que o jornal oferecia tradicionalmente eram matérias honestas, voltadas para convencer o leitor, que podia concluir por ele mesmo. Isso representava uma grande novidade. Um grande mal da imprensa é trabalhar com persuasão, são ideologizados. Não há muita gente acostumada a trabalhar na imprensa com uma nova situação, que é a internet. As redes sociais são incontroláveis, têm vida própria. É a filosofia de mercado aplicada às redes sociais. Ninguém é forçado a optar pelo Uber, ou pelo Facebook, ou pelo Twitter. A pessoa escolhe. Lo­gicamente, existe uma técnica propagandística, mas não há como estabelecer isso de forma fechada, porque a internet é um espaço livre, a ser ocupado com a melhor estratégia a se definir.
Até hoje, o Jornal Opção nunca cedeu a ser um jornal popularesco. O leitor pode até não gostar de determinadas posições, mas indubitavelmente temos no veículo uma radiografia geral do panorama de interesse do eventual leitor. Podem até dizer que há algo mais favorável a “A” ou a “B”, mas é diferente do que sai, porventura, em uma “Folha de S. Paulo” ou um “Estadão”. O leitor tem faro, e o do Jornal Opção tem isso mais desenvolvido, sabe onde uma matéria é mais tendenciosa ou não. Há a vantagem em ter suas limitações, mas, se conseguiu sobreviver 40 anos, é porque há aí uma qualidade, há uma marca. Muita coisa do que o Jornal Opção produziu causou influência direta nas ações de políticos, por exemplo. Não é pelo jornal em si, mas pelo grupo de pessoas, os cérebros e talentos que participaram disso. Eu me sinto orgulhoso de ter participado dessa história, apesar do pouco tempo que passei no veículo.

Euler de França Belém – E com quem o sr. trabalhava no Jornal Opção?
Eu trabalhava mais diretamente com José Luiz Bittencourt, que era editor-executivo. Eu definia com ele o que fazer, dentro do planejado. E José Luiz era extremamente eficiente, a gente se dava muito bem.

Euler de França Belém — O Jornal Opção ainda pauta muito a imprensa em geral. E é um jornal citado também em todo o Brasil, inclusive em livros de Elio Gaspari e Luiz Maklouf Carvalho. Em sua época isso também ocorria?
Sempre considerei “O Popular” o jornal mais “inlível” do mundo — e falo de uma época boa do diário, não desse “zumbi”, um jornal morto-vivo em que se transformou agora. Mesmo naquela outra época “O Popular” era “inlível”, eu diria que não tinha identidade. A “Folha” (de Goyaz), sim, tinha. A “Folha” era polêmica. “O Popular” não fazia nada que desagradasse ao governo. Já a “Folha de Goyaz”, bem ou mal, fermentava suas notícias, comprava causas. “O Popular”, não, desde que Jaime Câmara [sócio-proprietário do jornal] fez a única coisa estúpida de que me lembro que ele tenha feito na vida, que foi ter publicado uma foto — acho que de uma autoridade militar, não me lembro bem — que causou sua cassação. À época, ele era superintendente da Reforma Agrária (Supra), no governo de Castello Branco [primeiro presidente do País durante a ditadura militar]. Creio que não foi ele que mandou pôr a foto, mas quem fez talvez não tenha avaliado que aquilo pudesse ofender alguém. Mas naquele tempo foi uma coisa completamente contra os padrões de Jaime Câmara e de sua organização. Ele sempre foi uma pessoa que buscou preservar os amigos e deixava de publicar determinadas coisas por causa disso. Entretanto, por esse erro acabou pagando com a própria cassação.

Patrícia Moraes Machado – Quem era o jornalista Herbert de Moraes?
Eu diria que ele era alguém à procura de uma identidade.

Patrícia Moraes Machado – Identidade pessoal ou jornalística?
Identidade pessoal e jornalística. Ou seja, quando eu o conheci, Her­bert estava no começo da vida. Ele tra­balhava com jornalismo, tinha o so­nho de ter um jornal, mas basicamente possuía uma visão empresarial. Ele tinha condição e jeito para fazer isso. Nunca tive essa veleidade empresarial. Para mim, quanto mais poder você tem em mais limitações vai esbarrar. Herbert sempre quis ter essa visão que o jornal acabou representando, mas posso intuir que ele teve de fazer determinadas concessões.
Por exemplo, no governo de Ary Valadão [1979 a 1983], ele se refugiou no grupo de Irapuan Costa Junior. Foi quando o Jornal Opção virou diário. Na época, havia o “Diário da Manhã”, “O Popular” e a “Folha de Goyaz” ainda existia, quase que só para constar.

Patrícia Moraes Machado – O Jornal Opção era um jornal empresarial ou com ideologia jornalística? Qual era a visão de Herbert de Moraes para Goiás, ao criar o jornal, qual seu projeto?
Herbert sempre foi jornalista e isso era admirável. Mas ele pensava em ter um jornal. Quando alguém tem essa visão é porque possui uma visão empreendedora. Então ele se associou, procurou uma base, fez as ligações que precisava fazer. Ele queria algo diferente do que já existia.
Uma coisa que me atraía no Jornal Opção era a diagramação de Wilson Silvestre. Eu era fascinado por seu trabalho, ele fazia minhas matérias ficarem bonitas, legíveis. No Jornal Opção existia um respeito, uma preocupação em dar valorização à matéria, torná-la mais atraente, mais atrativa. Nós discutíamos se para determinada matéria era mais confortável uma foto ou uma charge, se deveria ter uma página, duas ou se deveria ter meia.
Era assim a equipe com quem trabalhávamos. Nós dávamos pauta e dávamos palpites. Todos participavam em todas as áreas. Se tinha alguém que trabalhava com cinema, então nós todos discutíamos sobre cinema, sobre os filmes, os lançamentos, qual era a nova onda. Está­va­mos “antenados” e querendo pe­gar aquela onda nova –– é bom nos lembrarmos de que, naquela época não existia internet, era algo extremamente difícil obter coisas dos Estados Unidos, da Europa. Che­ga­vam aqui, mas chegavam atrasadas.

Patrícia Moraes Machado – Costu­ma­vam dizer que Herbert de Mo­raes foi um visionário do jornalismo atual, pois o jornal de dezembro de 1975, quando foi criado, até hoje sobrevive da mesma forma, com a mesma linha, a qual hoje outros jornais estão buscando para sobreviverem; é um jornalismo de análise.
É verdade. Uma das coisas que posso dizer sobre o jornal é ele ter sido fiel a si próprio. Veja, quando o “Cinco de Março” acabou, ele exauriu um modelo. Acabou.

Euler de França Belém – Outra característica de Herbert, que sempre observei e respeito, é que sempre teve olho clínico para talentos. Basta ver no expediente das edições e anotar quem trabalhou com ele: Antônio José de Moura, José Luiz Bittencourt Filho, Marco Antônio da Silva Lemos, Haroldo de Britto e, mais tarde, José Maria e Silva.
É verdade. Veja o exemplo de José Luiz: era um colega novo, muito talentoso, e que tinha uma capacidade de trabalho e de produção impressionante. Ele era um sujeito com quem eu fazia “ponta e dupla”. Talvez ele tenha sido o profissional com quem eu mais me identificava, porque tínhamos uma transmissão de pensamentos –– eu sabia o que ele queria e ele sabia o que eu queria.

Marco Antônio da Silva Lemos: “O Jornal Opção nunca te­ve essa preocupação de persuadir, nunca quis vender gato por lebre, não saía ‘criando’ coisas” | Fernando Leite/Jornal Opção

Marco Antônio da Silva Lemos: “O Jornal Opção nunca te­ve essa preocupação de persuadir, nunca quis vender gato por lebre, não saía ‘criando’ coisas” | Fernando Leite/Jornal Opção

Euler de França Belém – Herbert tem essa capacidade de combinar, aglutinar, agregar pessoas.
Exato. Ele tinha essa capacidade de fluidificar e consolidar essas ligações. Veja aqui [mostrando a primeira edição do jornal] Anatole Ramos e Haroldo de Brito. Anatole era escritor, um escritor “da antiga”, mais que era talentoso. Uma vez, em 1972, houve um acidente aéreo com uruguaios que caíram nos Andes e eles tiveram de comer cadáveres para sobreviver; nós fizemos uma matéria sobre isso. Então, Sebastião de Abreu, que foi presidente da AGI [Associação Goiana de Imprensa] escreveu um artigo a respeito da tragédia ocorrida. Anatole foi o revisor e resolveu enfiar um “caco” no texto, escrevendo: “quanto ao colunista, ele prefere as mulheres, são mais tenras”. E isso deu uma confusão, porque saiu, foi publicado. Sebastião disse, indignadíssimo: “Isso é um desrespeito, onde já se viu algo assim, o que estão pensando de mim?” Mas saiu a molecagem de Anatole, publicada. Depois, Anatole conseguiu brigar com William Guimarães, da Rádio Riviera AM. Teve uma época em que havia a dupla, o Iberê Monteiro e William Guimarães.
Tinha um artigo em que o Anatole publicou uma piada, dizendo que a maior rádio de Goiânia era a Riviera, porque ficava no 8º andar. Eles ficaram possessos e escreveram um artigo, um editorial para ser lido no horário de meio-dia por Iris Mendes, que tinha uma voz belíssima e com quem trabalhei em rádio. Mas não tinham informação sobre Anatole. Apenas sabiam que ele era nordestino e que se chamava assim, com aquele nome. Então fizeram um texto assim: “Este editorial é para você, francês do Piauí!”. (risos) E então desancaram Anatole. Era uma típica bobagem daquela época.
Havia a história, fantástica, de co­mo se conseguia sustentar um confronto jornalístico. O escritor e jornalista Geraldo Vaz era duro. Quan­do ele brigava com alguém, ou ocorria qualquer entrevero, ele escrevia um editorial e dizia: “Primeiro de uma série de 64” (risos). Eram coisas fantásticas, maravilhosas daquela época.
Nós tínhamos uma redação em que, antes, nos encontrávamos em uma livraria. Quem vai a uma livraria? Só quem gosta de livros. E quem era intelectual acabava naturalmente levado para o jornalismo – e normalmente para um jornalismo panfletário, porque era ligado a um partido ou a uma ideologia, um projeto. Mas nós não sabíamos disso, porque isso não aparecia, mas existiam comunistas, fascistas, integralistas, PCB, PCdoB… Aliás, eu nunca consegui entender como podiam existir dois partidos comunistas em um só país. Nunca entendi. [Risos]

Euler de França Belém – Na verdade, eram bem mais que dois.
Mas não tinham nome de partido comunista. E mais: cada um deles se julgava o autêntico. Ambos têm a mesma data de aniversário.

Euler de França Belém – Ambos falam que foram fundados em 1922.
Sim, os dois falam isso, os dois se acham os originais e o outro, a réplica. Mas aquela época sempre me lembra essas passagens homéricas, gostosas.

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