“Máscara dá uma falsa sensação de proteção contra o novo coronavírus. Se não lavar as mãos, de nada resolve”

Superintendente de Vigilância em Saúde alerta que máscara é recomendada para pacientes confirmados do novo coronavírus, diz que medo é normal, mas que pânico atrapalha porque gera desespero

Superintendente em Vigilância de Saúde da Secretaria Estadual de Saúde, Flúvia Amorim

Superintendente em Vigilância de Saúde da Secretaria Estadual de Saúde, Flúvia Amorim | Foto: Fábio Costa/Jornal Opção

A superintendente de Vigilância em Saúde da Secretaria Estadual de Saúde (Suvisa-SES), Flúvia Amorim, trocou a mesma área de atuação na Prefeitura de Goiânia para assumir o cargo no governo no momento em que o novo coronavírus fez surgir milhares de casos da doença Covid-19 pelo mundo.

Os primeiros contágios foram confirmados no início de janeiro na China, mas a doença já chegou ao Brasil, com dois casos confirmados de pacientes em São Paulo. Ao mesmo tempo, o pânico e a desinformação levaram as pessoas a uma corrida às farmácias para comprar máscaras. “É muito mais importante lavar as mãos do ficar usando máscara o tempo inteiro”, destaca Flúvia.

A epidemiologista titular da Suvisa vê avanços na experiência com outros casos novos e graves de gripe, como a H1N1, que trouxeram protocolos de atuação, tratamento e coleta de material para análise de novos vírus, como é o caso do SARS-CoV-2. Flúvia observa o que leva um paciente a ser considerado como caso suspeito do novo coronavírus: “Se a pessoa esteve em um país considerado de transmissão sustentada nos últimos 14 dias, tem febre e tosse, ela entra como caso suspeito”.

Rodrigo Hirose – São quantos casos suspeitos em Goiás de contágio do novo coronavírus?
Estamos até agora com dois [após a entrevista, concedida no final da tarde de quinta-feira, 27, a Secretaria Estadual de Saúde (SES) descartou três casos suspeitos em Goiás. Na contagem do Ministério da Saúde, ainda consta que Goiás tem cinco suspeitas em análise].

Inclusive foram feitas coletas dos dois pacientes e estamos aguardando resultados de exames [já divulgados, com suspeitas descartadas], que podem sair em até 72 horas. Mas geralmente têm saído antes, como foi feito no caso dos repatriados, que a previsão era de 72 horas, mas os resultados saíam entre 24 horas e 36 horas.

Augusto Diniz – Os dois casos suspeitos não consideram aquele que foi descartado na quarta-feira, 26, pelo Hospital de Doenças Tropicais (HDT)?
Todos são encaminhados para o HDT.

Rodrigo Hirose – O caso de suspeita que surgiu em Formosa está entre os dois que foram descartados?
Precisamos esperar o paciente chegar ao HDT para avaliar e saber se se tratava de um caso de contágio no novo coronavírus. O que se verificou é que não se trata de um caso da doença Covid-19.

Para ser suspeito tem todos os critérios de definição de caso pelo Ministério da Saúde. Há um equipe avaliando outros que foram notificados para saber se entrarão ou não. Repassamos para o Ministério, que valida para que possamos considerar como um caso realmente suspeito.

Rodrigo Hirose – Quais são os critérios?
Tem de apresentar febre e um sintoma respiratório, que pode ser tosse ou falta de ar e ter histórico de viagem para países que apresentaram transmissão nos últimos 14 dias que antecederam os sintomas.

Hoje são 16 países considerados com transmissão sustentada. Se a pessoa esteve em um desses países nos últimos 14 dias, tem febre e tosse, ela entra como caso suspeito.

Rodrigo Hirose – Febre e tosse são sintomas comuns de diversas gripes.
A diferença, neste momento, é o histórico de viagem. O que estamos vivendo agora é igual ao que vivenciamos em 2009 com o H1N1. Também foi desse jeito. Todas as síndromes gripais eram notificadas e investigadas. Depois que a doença se dispersou, passamos a investigar só casos graves.

Hoje, para H1N1, só investigamos e coletamos material de caso grave.

Augusto Diniz – Qual a diferença entre o exame inicial e aquele realizado pelo Laboratório Central de Saúde Pública Dr. Giovanni Cysneiros (Lacen) no tempo de conclusão do laudo?
Por que o Lacen demorava para chegar aos resultados dos exames? Porque a equipe estava sendo capacitada e realizando análises de material coletado ao mesmo tempo. Por isso tínhamos a demora de até 72 horas.

A partir do momento em que já tivermos um know-how, uma experiência maior, os resultados passam a sair mais rápido. É possível que cheguemos em determinado momento a dar resultado em 24 horas.

Rodrigo Hirose – É um teste que identifica o vírus?
O vírus. É um cotonete com uma haste grande que entra profundamente nas duas narina e na garganta. O material vai em um meio de transporte em um tubo e no laboratório é feito todo o processamento da amostra para identificar o vírus.

É um exame muito específico. A chance de dar falso positivo é praticamente nenhuma. Quase zero. A especificidade é de 99%.

Augusto Diniz – Tem aumentado a quantidade de informações distorcidas ou falsas divulgadas nas redes sociais e aplicativos de mensagem sobre casos de Covid-19 e o novo coronavírus. Como a Suvisa, a Secretaria de Saúde e o Ministério têm trabalhado para tentar combater as mentiras e fazer com que a informação oficial chegue com mais facilidade à população?
Hoje quem quiser ter alguma informação, o site do Ministério da Saúde tem disponível e de fácil acesso. O Ministério lançou um serviço que serve para avaliar fake news. Se você recebe uma mensagem e tem dúvida se é verdade ou não, você manda para o site e o Ministério responde se é fake ou não.

O Ministério criou esse serviço justamente para tentar diminuir a desinformação. E temos orientado as pessoas a não compartilhar qualquer informação. Estou o dia inteiro em grupos de mães da escola, dos moradores do meu prédio respondendo perguntas se tal informação é verdadeira ou não. E vamos respondendo.

Rodrigo Hirose – Pena que não tem uma Flúvia em cada grupo escolar ou de condomínio.
Na medida do possível eu respondo. As mães perguntam se uma mensagem procede. Não busque em determinado lugar, pesquise no site do Ministério da Saúde. Repasso, inclusive, os boletins para não ter problema.

Mas é algo que temos de trabalhar. E orientar a população.

Augusto Diniz – No geral, é possível sentir o nível de pânico da população com a possibilidade de chegada em Goiás do novo coronavírus?
O medo é algo natural do ser humano quando se tem algo novo que é desconhecido. O vírus SARS-CoV-2 não é conhecido, mas não é totalmente desconhecido. Já vivemos outras epidemias no mundo por essa família de vírus. Esse, especificamente, é uma cepa nova.

O Brasil e o mundo tiveram uma experiência com H1N1. Vivemos uma experiência anterior que nos serviu de base para trabalhar agora. Não estamos partindo do zero. Quando falamos de protocolo dentro de um hospital, como a reunião que acabei de sair no HDT, a fala é a mesma: temos de fazer a mesma coisa que fazemos para H1N1.

O equipamento de proteção individual para o profissional da saúde é o mesmo, o protocolo de coleta é o mesmo. O tratamento é diferente porque para o novo coronavírus não tem um tratamento específico. Para H1N1 tinha, que é o Tamiflu (Oseutamivir). No restante é praticamente a mesma coisa.

Augusto Diniz – Quais são os equipamentos de proteção individual exigidos?
Depende da situação. Se for gotícula nós falamos em precaução para gotícula. Um exemplo é a conversa aqui com vocês. Mascara, principalmente para quem está sintomático. A primeira medida é colocar máscara no paciente.

O profissional usa luvas. Se for fazer procedimentos, é usado um outro tipo de máscara, avental de proteção, óculos protetor. Depende da situação.

Rodrigo Hirose – A divulgação das imagens do profissional todo protegido não ajuda a espalhar um pouco de pânico? A pessoa assiste à TV e vê um médico todo coberto.
Ajuda. Gera muito pânico, gera muito medo. Vivemos isso com o H1N1. Não foi diferente. Quando surgiram casos de ebola em outros países. O que podemos trabalhar para evitar o pânico?

O medo é normal. Não pode ter pânico. Porque o pânico é o desespero. Vi reportagens mostrarem que não tem máscara nas farmácias.

Rodrigo Hirose – Isso é pânico?
Isso é pânico. A máscara dá uma falsa sensação de proteção. Vi em várias reportagens a pessoa com máscara. Aí a pessoa abaixa a máscara para coçar o nariz. Abaixa a máscara e coça o olho. Não adiantou nada usar a máscara.

Se a pessoa não lavar as mãos, de nada resolve. É muito mais importante lavar as mãos do ficar usando máscara o tempo inteiro.

Rodrigo Hirose – Estamos há quase dois meses de quando foi confirmado o primeiro caso. Nesse período, o que foi possível aprender sobre o novo coronavírus?
Tudo que é feito em relação a protocolo na Organização Mundial da Saúde, Ministério da Saúde e Secretaria Estadual de Saúde se baseia em evidências científicas, que são estudos de fontes confiáveis que são publicados. Inclusive estou com dois estudos interessantes sobre quanto tempo o novo coronavírus sobrevive em superfície.

A medida que os estudos saem os protocolos também são modificados. Se tem alguma novidade, muda-se o protocolo baseado nos estudos. Hoje sabemos que a forma de transmissão é via gotícula de saliva. Sabemos que o período de incubação vai de zero a 14 dias, mas a grande maioria entre sete e dez dias.

Entre o momento que a pessoa entra em contato com o vírus a desenvolver sintomas, até 14 dias com média de sete a dez dias. Em dez dias, a maioria das pessoas que desenvolvem a doença apresentam sintomas nesse período.

Os casos graves têm se concentrado em faixas etárias mais altas e em idosos. Isso é o que sabemos até o momento. Isso pode mudar? Pode.

Augusto Diniz – Crianças estão incluídas nas faixas etárias com maior risco de contágio?
Nos casos na China, não vimos relevância em relação a casos em crianças. Estamos vendo isso agora na Itália. A Itália já tem divulgado casos nos primeiros grupos em crianças. Na China não vimos isso com tanta relevância como temos visto na Itália.

Não sabemos se na China é porque realmente não ocorreu ou se os casos na foram relatados e divulgados.

Rodrigo Hirose – A informação na China é algo mais complicado.
Exatamente. Vamos ter certeza do perfil do vírus quando ele se manifestar fora da China.

Rodrigo HIrose – E o que ainda não sabemos sobre o novo coronavírus?
Não sabemos quanto tempo antes de desenvolver sintomas a pessoa começa a transmitir. Não sabemos se causa problema em gestante, como o H1N1 teve. Muita gestante é acometida pelo H1N1, inclusive com aumento de mortalidade materna no ano por causa do H1N1.

Não sabemos se a gravidade está só ligada à idade ou tem algum outro fator que pode interferir na gravidade do caso. Principalmente em populações com características diferentes. Uma coisa é a população da China, outra coisa é a população da Europa. Vamos ver na população da Europa agora.

E agora começamos a verificar como vai se comportar na América. E aqui nós temos uma população de idosos menor do que na Europa.

Augusto Diniz – Há uma preocupação maior ou menor com relação à sobrevivência do vírus em países com temperaturas mais elevadas?
Normalmente, tanto os vírus desta família, corona, e outros vírus não têm uma resistência a altas temperaturas. Não sobrevivem muito tempo em temperaturas acima de 25, 26 ou 30 graus. O novo coronavírus nós ainda não sabemos. Geralmente são horas. Não duram dias nem meses. Só não sabemos quantas horas o vírus sobrevive em uma superfície em determinada temperatura.

Augusto Diniz – Como tem funcionado o Plano Nacional de Contingência do novo coronavírus?
Os planos, tanto os nacionais quanto municipais e estaduais, falamos em três componentes básicos. Um deles é vigilância, monitoramento e laboratório, um de assistência, que é como preparar a rede para atender aos pacientes, e outro é o de comunicação.

Em relação ao Ministério da Saúde, a parte de comunicação tem liberado dados diariamente. Foi inclusive o que mudou. No H1N1 era uma vez por semana. E agora o ministério libera todos os dias um boletim com informações novas.

O que compete ao ministério é o fomento aos Estados e municípios para que se preparem, porque quem executa é principalmente o município e depois o Estado ao receber os pacientes. Compete aos municípios e Estados se prepararem para esse atendimento.

“Hoje estamos no nível zero no Plano de Contingência: sem caso confirmado”

“Hoje, no nível zero, a porta de entrada é o Cais, mas a referência é o HDT” | Foto: Fábio Costa/Jornal Opção

Rodrigo Hirose – Como vai funcionar o atendimento? O que será feito quando a pessoa chegar a um Cais [Centro de Ação Integrada à Saúde]?
Vou dizer como já tem ocorrido, porque os casos suspeitos que chegaram ao HDT passaram por Cais em Goiânia e Aparecida de Goiânia. O paciente sintomático respiratório, ao chegar à unidade, que está tossindo, o que é fácil perceber, coloca-se máscara nele. Oferecer uma máscara cirúrgica para o paciente até ele ser atendido.

Hoje estamos no nível zero no Plano de Contingência: sem caso confirmado. Foi atendido, avaliou e o paciente entra no critério de avaliação de caso, encaminhamos a pessoa com suspeita para o HDT. Hoje, no nível zero, a porta de entrada é o Cais, mas a referência é o HDT.

Rodrigo Hirose – E os hospitais particulares também?
Nos hospitais particulares temos um protocolo para o H1N1 desde 2009 que será o mesmo adotado com o coronavírus. O paciente chegou ao hospital particular, é um caso suspeito, a unidade liga para o plantão, que funciona 24 horas, e no interior o plantão do Estado, que é o Cievs [Centro de Informações Estratégicas e Resposta em Vigilância em Saúde].

O profissional liga para o plantão, informa o caso e verificamos se trata-se de um caso suspeito. Confirmada a suspeita em Goiânia, uma equipe vai até o hospital particular fazer a coleta. Hoje isso já é feito no caso de H1N1. Seguirá a mesma norma para o coronavírus.

Augusto Diniz – O ministro Luiz Henrique Mandetta falou na quarta-feira, 26, porque o primeiro caso confirmado do novo coronavírus no Brasil foi orientado a ficar em isolamento domiciliar. O mundo aprendeu com o que o Japão fez com as pessoas que estavam no cruzeiro Diamond Princess?
Por uma questão de racionalização de leitos, que é um problema no Brasil a quantidade de leitos hospitalares públicos, não é lógico manter uma pessoa ocupando um leito se ela não precisa estar no hospital. Precisamos deixar o leito disponível para quem precisa.

Quem precisa é aquela pessoa com dificuldade para respirar a e baixa oxigenação no sangue, que é o agravamento que o coronavírus e o H1N1 causam, chamada de síndrome respiratória aguda grave.

O paciente com suspeita de coronavírus, veio de outro país, tem sintoma, mas não tem indicação de leito, é feita toda uma orientação de isolamento domiciliar de como ele deve se comportar em casa. A equipe do município fará um monitoramento com ligação todo dia: “O sr. está bem? Teve febre? Melhorou? Foi a algum lugar? Não receba visita”.

Rodrigo Hirose – O recomendável é que o paciente com novo coronavírus em isolamento domiciliar não saia de casa?
A recomendação durante o período de isolamento é não sair de casa e evitar aglomerados de pessoas: shoppings, festas, reuniões familiares. Usar máscara e manter contato só com o grupo familiar.

Rodrigo Hirose – Que orientação é feita à família que vai conviver com essa pessoa doente?
Na verdade, os familiares já estavam com aquela pessoa antes da confirmação da doença. Como não sabemos quanto tempo antes de desenvolver sintoma a pessoa transmite, elas já tinham um contato prévio. A partir do momento em que o paciente entra em isolamento domiciliar, ele tem de usar máscara.

Ao usar máscara, o paciente evita que, ao conversar, tossir ou espirrar, a gotícula de saliva caia na mesa ou em algum objeto. Os utensílios dele devem ser separados, de uso individual. E evitar grandes reuniões familiares.

Vamos imaginar que alguém esteja com o novo coronavírus e o marido esteja em isolamento domiciliar. A pessoa deve se comportar do mesmo jeito. Só que ele vai usar máscara, sempre lavar as mãos e observar por 14 dias.

Augusto Diniz – Qual a orientação para pessoas que têm contato e convivem com alguém que tiver o caso confirmado?
No surgimento de qualquer sintoma, febre principalmente, comunicar imediatamente o serviço de saúde. Fazemos coleta apenas quando o caso é sintomático. Não coletamos de pessoas que não têm sintomas. Apresentou sintomas, fazemos a coleta de material do paciente.

Rodrigo Hirose – Qual a capacidade de atendimento de exames do Lacen no nível zero, sem casos confirmados?
Hoje ainda não temos kits comercial para exame PCR, que é o que temos feito. A China descobriu o novo coronavírus e fez o sequenciamento genético em tempo recorde. Em um mês conseguiram fazer todo o sequenciamento genético do vírus. Isso facilitou para a identificação em amostras.

A produção é praticamente acadêmica, de pesquisa. São poucos kits no Brasil. Quanto tivermos comercial, poderemos fazer uma quantidade maior de exames. Hoje dependemos do Ministério da Saúde.

O Lacen tem hoje alguns kits para analisar as amostas e aguardamos a chegada de mais kits do ministério.

Augusto Diniz – Há diversas iniciativas de pesquisas que trabalham com o desenvolvimento de uma vacina. Algumas começarão a ser testadas. Mas já há uma previsão de quando as vacinas estarão disponíveis no mercado após a fase de testes?
Não vi em que fase de teste estão estas vacinas. A discussão mais recente que acompanhei entre cientistas é de que em menos de um ano seria quase impossível. Para se colocar uma vacina no mercado, o produto passa por cinco fases.

As primeiras avaliam segurança e eficácia. Primeiro a vacina é testada em animais e depois em humanos. Primeiro em um grupo pequeno e depois em um grupo maior para só então liberar. Não é algo rápido.

Augusto Diniz – O que do protocolo adotado na quarentena na Base Aérea de Anápolis passou a ser adotado? O que deu certo e o que deu errado?
A coleta e o processamento nós aprendemos e conseguimos liberar com mais rapidez. O fato de estar em Goiás facilita muito, porque antes tínhamos de pegar a amostra, colocar no avião e mandar para o Instituto Adolfo Lutz (São Paulo) ou a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) no Rio.

Só o transporte já demorava, que era feito uma vez por semana. Era preciso esperar juntar amostras para mandar. Isso nos traz uma facilidade de ter uma rapidez maior com o Lacen no processo das amostras.

Augusto Diniz – Enquanto uma pessoa contaminada com o novo coronavírus pode passar o vírus para duas ou três pessoas, o sarampo atinge até 18 pessoas que tiveram contato com o doente. A campanha de vacinação do sarampo ficou um pouco apagada com a chegada do novo coronavírus?
Ficou. Infelizmente. Quando temos uma doença nova, as pessoas ficam tão preocupadas que se esquecem do resto. Esquecem que tem dengue. Esquecem que o sarampo está circulando e a letalidade é muito maior. A transmissibilidade é muito maior. A chance de agravamento também é muito maior.

E para o sarampo nós temos vacina. As pessoas se vacinarem é uma preocupação a menos. Porque os sintomas iniciais do sarampo são febre e tosse. Igual ao Covid-19. Isso pode gerar uma confusão enorme ter sarampo, H1N1 e coronavírus. Porque está para começar a nova temporada de doença respiratória pelo Influenza A.

Quanto menos doenças tivermos que nos preocupar melhor. Se as pessoas se vacinarem contra o sarampo e quando a vacina contra a gripe chegar, são preocupações menores. Ainda estamos no verão. Nossa preocupação é no inverno, que é quando aumenta o número de casos de doenças respiratórias.

Rodrigo Hirose – A tendencia é de que o novo coronavírus se torne tão comum quanto o H1N1?
A tendência é essa. Provavelmente é o que deve ocorrer. No início havia um temor muito grande. Os últimos coronavírus que circularam em 2002, 2003 e 2012 até 2015 tinham uma letalidade muito maior do que o novo coronavírus. A Mers [síndrome respiratória do Oriente Médio] mesmo chegou uma letalidade de quase 30% dos casos.

Existia uma grande preocupação com o novo coronavírus. Pelo o que vimos até agora, a doença não é esse bicho de sete cabeças. A maioria dos casos é de leve a moderado. Graves são poucos.

Rodrigo Hirose – E isso pode mudar de acordo com o momento em que a doença atinge populações diferentes, como você citou a Europa?
Quando pegamos os dados do Irã e comparamos com a China e a própria Itália, a letalidade é muito maior. Uma das possíveis respostas é dificuldade de acesso ao serviço de saúde. Se eu diagnostico muito tardiamente e trato tardiamente, a chance do agravamento evoluir para óbito é muito grande. Especialmente em idoso.

Mas se temos um serviço que consegue receber o paciente rápido, diagnosticar e tratar, mesmo que não tenha um tratamento específico, a chance de sobrevida é maior. O diretor-geral da Organização Mundial da Saúde [Tedros Adhanom Ghebreyesus] falou sobre a preocupação de o novo coronavírus chegar à África.

Porque a África apresenta uma outra situação de dificuldade de acesso a serviços de saúde, com desnutrição, guerras civis. Tem todo conjunto de fatores que pode potencializar a ocorrência de casos graves e óbitos.

Augusto Diniz – A saúde básica em todo o Estado tem condição de oferecer o primeiro atendimento e fazer os testes preliminares para constatar os possíveis casos do novo coronavírus?
Hoje, no nível zero, concentram-se todos os testes e a coleta, inclusive, aqui no HDT. A partir do momento em que tivermos o primeiro caso confirmado até 100 casos, aumentamos o atendimento em cinco hospitais, inclusive no interior, para serem referência, fazer coleta e receber os pacientes.

Nível três, que vai de 100 a 500 casos, aumentamos para 14 hospitais. Vamos aumentando à medida que o número de casos aumentarem. São hospitais que já foram chamados para se preparar. Capacitamos médicos, enfermeiros e outros profissionais na semana anterior ao carnaval no Conselho Regional de Medicina. Foram mais de 400 profissionais da capital e do interior.

Os profissionais voltam para os seus municípios para repassar o treinamento e capacitar suas equipes. Com as redes sociais, a tecnologia e a informação, é muito fácil ter à informação correta. O Ministério da Saúde já disponibilizou vários cursos de manejo clínico de paciente, de vigilância, da parte de uso de equipamento de proteção individual. As pessoas conseguem ter acesso mais fácil hoje independente de onde esteja.

“A partir do momento em que tivermos o primeiro caso confirmado até 100 casos, aumentamos o atendimento em cinco hospitais, inclusive no interior”

“Se eu diagnostico muito tardiamente e trato tardiamente, a chance do agravamento evoluir para óbito é muito grande. Mas se temos um serviço que consegue receber o paciente rápido, diagnosticar e tratar, mesmo que não tenha um tratamento específico, a chance de sobrevida é maior”| Foto: Fábio Costa/Jornal Opção

Augusto Diniz – A campanha de vacinação contra o sarampo vai até quando? E quando começa a campanha contra alguns tipos de gripe?
A campanha de vacinação contra o sarampo vai até 13 de março. Até o dia 13 de março, vacinaremos prioritariamente de 5 a 19 anos. Por que essa faixa etária? No ano passado trabalhamos com outras faixas etárias, menores de 5 anos, de 20 a 29 anos.

As idades de 5 a 19 ficaram de fora da campanha do ano passado. Como têm baixa cobertura, são idades prioritárias. Mas pessoas que estiverem em outras faixas etárias que não estão com o cartão de vacinação em dia podem procurar o posto de saúde.

Augusto Diniz – E a campanha de vacinação contra a gripe?
Estava prevista para o final de março. Na semana passada, o Ministério da Saúde antecipou para o dia 23 de março o início da vacinação em 2020. O ministério passou um cronograma preliminar, que depende do laboratório.

Não é que o ministério não quer comprar as doses da vacina. Depende do laboratório, que precisa de um tempo para produzir. As doses começam a ser liberadas em março. Nem a rede particular tem. Chega ao Ministério da Saúde, que repassa para os Estados. E os Estados para os municípios.

Augusto Diniz – No ano passado, o ministro Luiz Henrique Mandetta disse que havia uma possibilidade de se propor ao Congresso uma punição às famílias que não vacinam seus filhos. Essa discussão avançou?
Temos um problema legal, que inclusive já foi tentado no Estado de Goiás, que era atrelar a matrícula na rede de ensino ao cartão vacinal. Mas a Constituição prevê que não se pode impedir o acesso à escola. Não se pode criar nenhum entrave de acesso à escola.

Mas podemos criar a exigência entre os documentos do cartão de vacinação. É uma possibilidade que pode ser estudada.

Rodrigo Hirose – Há a informação de uma pessoa na China que contraiu o novo coronavírus pela segunda vez.
Ainda não temos confirmação dessa situação.

Rodrigo Hirose – A tendência é que a pessoa que pegou a doença Covid-19 uma vez fique imune e não contraia a mesma doença novamente?
Normalmente, em casos de vírus respiratório, inclusive o corona, você cria uma resistência para ele. A medida que muda a cepa, você perde a imunidade. Por que é preciso tomar vacina todo ano contra o H1N1. Porque é um vírus muito muito mutante. Sofre mutação muito facilmente porque é RNA.

Todo vírus RNA tem uma capacidade na sua composição genética de mutação maior. Por isso é preciso tomar todo ano a vacina da gripe. Na maioria das vezes muda o vírus, sofre mutação e muda. Ainda não temos essa resposta para o novo coronavírus.

O caso divulgado da mulher na China teria tido um intervalo de um mês entre uma doença e outra pode ser na verdade uma reativação da primeira infecção que ela teve. Pode ocorrer de o vírus ficar latente e depois reativar. Temos alguns vírus que fazem isso.

Ainda não vi estudo que confirme se tratar de uma reativação da infecção primária ou se realmente é uma nova infecção. Essa informação ainda não foi confirmada. Estamos aguardando.

Augusto Diniz – Qual é o tamanho do problema no Estado das pessoas que chegam a um consultório médico ou a um posto de saúde e dizem, como se fosse verdade, que vacina causa câncer e que por isso não vão se vacinar ou levar os filhos para vacinar?
Quando atuava pelo município, tive a oportunidade de ficar em alguns postos de saúde e ouvia de tudo de algumas mães. Houve o caso de uma mãe que chegou à sala de vacina durante a campanha contra o sarampo e disse que só daria a vacina contra o sarampo, mas as outras ela não queria dar para o filho. Ela disse que só tinha levado o filho porque o marido brigou com ela.

Sentamos, explicamos, falamos porque conseguimos ficar tanto tempo sem sarampo porque a vacina funciona, assim como poliomielite, mas ela não acreditava. Temos hoje alguns grupos altamente resistentes à vacina. E não só vacina, tratamento alopático – tratamento com medicamento -, pessoas que acreditam que têm de adquirir a infecção naturalmente, que só têm de usar fitoterápicos. Existe uma parcela da população que tem esse pensamento.

Isso tem muito na Europa. É muito forte naquele continente a existência de grupos antivacina. E nos Estados Unidos também. Tanto que os norte-americanos viveram uma epidemia de sarampo em 2018 e 2019, principalmente em Nova York, porque as pessoas são muito resistentes em receber a vacina.

Rodrigo Hirose – As pessoas negligenciam a vacinação, mas todo ano lotam os postos de saúde após a confirmação do primeiro caso de gripe. Por que não conseguimos mudar esse comportamento das pessoas?
Trabalho na saúde pública há 21 anos. Nosso grande desafio é mudança de comportamento. O que tenho visto nesses 21 anos de profissão é que um fator que muda comportamento é o medo.

Quando tivemos os casos na Vila São Cottolengo, em Trindade, com mortes por Influenza há dois anos, surgiram filas quilométricas nos postos de saúde. As pessoas morrendo de medo de morrer. Medo de morrer. No ano passado não teve. O que ocorreu? Sobrou vacina.

Infelizmente hoje no Brasil um fator que gera mudança de comportamento é o medo. Por que com o novo coronavírus está todo mundo correndo para comprar álcool gel e máscara? Medo. Mas não tem medo do sarampo. É como se o sarampo fosse ainda algo distante. A maior das pessoas que tem menos de 45 anos não sabem o que é sarampo. Não sabem o que é poliomielite.

Por mais que tenham vivido agora, não viveram naquela proporção que tínhamos antigamente. Muitas pessoas hoje ainda estão vacinadas. Tivemos um surto maior em São Paulo, mas aqui foram 14 casos no ano passado e um caso neste ano. E as pessoas não estão vacinando.

Augusto Diniz – Nas últimas duas décadas, quando o sarampo chegou a ser uma doença erradicada no Brasil, houve uma diminuição do poder público nas campanhas de vacinação enquanto não surgiram novos casos?
Esse pode ter sido um fator. Enquanto serviço público de saúde temos sim uma parcela de culpa. Quando temos uma doença que está erradicada, como a poliomielite, e as pessoas não sabem o que é a doença, não há uma campanha como fazíamos antigamente, da gotinha. Tínhamos 400 postos de vacinação, em shopping, supermercado, esquina, feira.

Vacinava todo mundo. Indiscriminadamente inclusive. Independente se a criança tinha recebido duas, três, quatro doses. Não interessa. Na campanha recebia mais uma. Éramos modelo mundo afora por nossas campanhas. A partir do momento em que erradicamos a poliomielite, deixamos de fazer as campanhas.

Às vezes, no entendimento das pessoas, se não tem campanha não precisa vacinar, porque não deve ser tão importante. Também nunca viu a doença, não sabe o que é poliomielite. Fica algo muito distante para a pessoa. “Para que vou vacinar?” Surgem junto informações que dizem que vacina causa autismo, que vacina causa doença, que é um lobby de laboratório falar que precisa vacinar, que na verdade criam a doença para depois vender vacina.

Junta tudo isso e faz com que as pessoas deixem de vacinar. Foi o que vimos nos últimos anos, uma diminuição gradativa nas coberturas vacinais.

Rodrigo Hirose – O que as epidemias de Sars e H1N1 ensinaram para a comunidade científica e a área médica que torna a atuação no caso do novo coronavírus mais eficiente ou mais fácil de lidar na hora de uma epidemia?
No caso do novo coronavírus, o exame de identificação saiu muito rápido. Temos um exame que conseguiu identificar mais rápido do que o zika vírus, por exemplo. Para o zika vírus demorou um pouco mais.

Tudo isso graças à experiência do H1N1 na preparação, monitoramento, vigilância. Conseguimos ter um serviço que é mais rápido, que faz com que a rede funcione de uma forma mais rápida. Por mais que digamos que é a mesma orientação do H1N1, precisamos lembrar os profissionais que o procedimento não muda. Porque as pessoas se esquecem e acham que o fato de vírus ser novo muda tudo.

Como temos essa base, isso também nos ensinou as medidas de prevenção que não víamos antes do H1N1: lavar as mãos, etiqueta respiratória. Começamos a ouvir isso em 2009. Não me lembro de nenhuma campanha falar sobre isso.

E vimos, em 2009, que por causa do H1N1 tivemos uma redução de praticamente todas as doenças de transmissão pessoa a pessoa porque todo mundo lavava a mão, usava máscara, não ia a locais aglomerados. Isso ajudou em outras doenças também.

Rodrigo Hirose – Por que o Lacen foi um dos escolhidos? É uma questão geográfica ou está ligada ao serviço oferecido pelo laboratório? Porque são só quatro unidades no Brasil.
Foram dois fatores. O primeiro é a questão dos repatriados. Era preciso dar uma resposta mais rápida para os exames que eram coletados. Mas o laboratório só poderia fazer se tivesse capacidade técnica e estrutural para fazer.

Foi avaliada a capacidade técnica dos recursos humanos que temos. Se tínhamos capacitação para fazer, se a estrutura física dava condições para os exames serem processados. Com todos esses detalhes, o Lacen foi escolhido. E foi um ganho muito grande para Goiás com certeza.

Rodrigo Hirose – Comprar máscara e álcool gel resolve, ajuda?
A principal medida individual de proteção hoje tem de ser lavagem de mão. Por que as mãos? Uma pessoa infectada, ao tossir e espirrar em uma mesa, em um telefone, maçaneta de porta, escada, é uma forma de transmissão para outras pessoas. A outra pessoa depois coça o olho, passa aquela gotícula infectada da mão para o olho.

Lavagens de mãos é o principal. De nada adianta usar máscara e não lavar a mão. Porque a pessoa acha que está protegida com a máscara, pega no corrimão da escada e não lava a mão, coça o olho e se infecta do mesmo jeito.

Mais importante do que máscara é lavagem de mãos. Quem deve usar máscara? Quem está doente. Quem está tossindo, quem está espirrando, com febre. Temos vários vírus respiratórios: Influenza A, Influenza B, rinovírus… São precauções que vão prevenir o contágio de outros vírus.

O doente com máscara evita que, ao falar, espirrar ou tossir, as gotículas se espalhem e contaminem o ambiente ou outras pessoas. Mas a principal forma de prevenção é a lavagem de mãos correta. Principalmente com água e sabão, cinco segundos para cada movimento, enxaguar da ponta dos dedos para o cotovelo. Essa é a técnica correta. E se estiver doente usar máscara.

Além da etiqueta respiratória. Tossiu, espirrou? Lenço de papel. Não tem lenço? Dentro da blusa. Nunca a mão.

“O que tenho visto nesses 21 anos de profissão é que um fator que muda comportamento é o medo”

“Principal forma de prevenção é a lavagem de mãos correta. Principalmente com água e sabão, cinco segundos para cada movimento, enxaguar da ponta dos dedos para o cotovelo. Essa é a técnica correta” | Foto: Reprodução Agência Brasil/Tyrone Siu

Augusto Diniz – Por exemplo, se a pessoa tiver uma atividade profissional que não a possibilita parar para lavar a mão com frequência.
Álcool gel. Na ausência da água e sabão, usar álcool gel 70%.

Rodrigo Hirose – No cenário atual, a dengue ainda é mais preocupante do que o coronavírus?
Ainda é. Pelo potencial que a dengue tem de dispersão através do vetor. Goiás no ano passado viveu em uma epidemia o Estado como um todo. Algumas regiões do Estado especificamente. E sabemos que há a possibilidade de novo neste ano.

As chuvas torrenciais do início do ano, com altos volumes, lavam criadouros, que transbordam e as larvas vão embora. Essas não são as chuvas de dengue. A chuva de dengue é aquela quando tem sol durante o dia e chuva a noite. De agora em diante, a tendência é ter mais situações chuvosas como essa. Não são dias inteiros chuvosos, mas sol durante o dia.

Até o dia 20 de fevereiro, tivemos 5 mil casos confirmados de dengue no Estado e 11.803 casos notificados. Há uma redução de 45% na comparação com o mesmo período do ano passado. No mesmo período do ano passado, a comparação com 2018 mostra que houve um aumento no número de casos de dengue em Goiás nas sete primeiras semanas de 2019.

Desde 2015, as sete primeiras semanas de 2020 registraram o menor número de casos de dengue.

Rodrigo Hirose – Qual é o subtipo de dengue mais predominante entre os casos confirmados em 2020?
Predominantemente o subtipo 2. Na dengue, para cada tipo de vírus você pega uma proteção permanente. Você só pode ter quatro tipos de dengue.

Rodrigo Hirose – Todos os quatro tipos de dengue já circularam em Goiás?
Todos. Não tínhamos ocorrência de epidemia pelo tipo 2 em Goiás, que ocorreu no ano passado. Agora já temos todos, que ocorreram de forma epidêmica em algum momento desde 1994.

Augusto Diniz – No caso do tipo 2, o que o paciente de dengue pode ter?
Existe uma escala de virulência, que é a capacidade que o vírus tem de causar formas graves. Dentro dessa escala, em primeiro lugar está o vírus 2, que é o que tem a maior capacidade de ter formas graves e morte. É a mesma doença, só que mais grave.

Rodrigo Hirose – Foram feitas experiências diferentes com o mosquito modificado. São pesquisas que deram resultado?
Algumas têm bons resultados. Precisamos ver como a experiência que tem sido muito avaliada pelo ministério se comporta nas diferentes regiões. Uma coisa é a região amazônica, outra coisa é Goiás. Uma coisa é o Rio Grande do Sul e Paraná, outra coisa é Goiás. São climas muito diferentes, estações do ano com perfis muito diferentes e condições urbanas também diferentes.

Quando se tem uma estratégia nova, o ideal é testar no local onde você quer usar para saber se vai ter a mesma resposta do outro. No município de Goiânia, a experiência que está sendo feita é com estações seminadoras. É um balde preto e um tecido com larvicida impregnado. Na hora que a fêmea vai depositar o ovo perto da água, ela impregna de larvicida e acaba esplando em outros criadouros que vai.

Os primeiros resultados foram bons, bem positivos. Depois de deixar a prefeitura não acompanhei o andamento da experiência. Estávamos avaliando os resultados. O projeto continua junto com a Fiocruz de Manaus (AM).

Rodrigo Hirose – Nas últimas epidemias de doenças respiratórias, os primeiros casos costumam ser registrados na Ásia. Por que dessa incidência de novos vírus naquele continente?
No caso do coronavírus, o hospedeiro natural da família do coronavírus é o morcego. E há o hábito alimentar de comer animais silvestres.

Augusto Diniz – Mas está confirmado que o novo coronavírus tenha como hospedeiro o morcego?
Não. Digo dos coronavírus anteriores. O coronavírus naturalmente fica hospedado no morcego. E pode estar em roedores. E tivemos na Mers os dromedários. Ficou confirmado no caso da Mers que a contaminação veio através da carne do dromedário.

Ainda não temos certeza de onde veio o novo coronavírus. Só sabemos que o contágio foi em um mercado de frutos do mar, mas que tinha também animais silvestres. Essa proximidade do homem com áreas silvestres, seja com animais silvestres, indo à mata ou consumindo a carne desses animais com certeza facilita.

Vemos isso com febre amarela no Brasil. Desmatamos, desmatamos, desmatamos e hoje temos bairros próximos a áreas verdes enormes, como em vários parques, e existe essa possibilidade de contágio. Felizmente febre amarela tem vacina.

Mas aqui em Goiânia mesmo em 2013 teve um surto de malária no Parque Flamboyant. Tinha o vetor e alguém contaminado foi ao parque e ali começou a ter transmissão. Essa proximidade do homem com áreas silvestres e animais silvestres facilita a ocorrência.

E por que na Ásia os vírus se espalham tão rápido? A densidade populacional é muito alta. Uma doença transmissível dispersa muito rápido. E distribui para o mundo inteiro muito rapidamente.

No ano passado, fui aos Estados Unidos e Canadá. Lá é quase uma Ásia. Nunca vi tanto oriental no aeroporto, nos shoppings. Por essa densidade populacional ser muito alta, eles se dispersam também de uma forma muito fácil. Viajam, moram em outros países.

O trânsito, que hoje é facilitado por meios de transporte muito rápidos, e a melhora da condição econômica da China e da Ásia fizeram com que as pessoas fossem para outros lugares do mundo. E esse trânsito de pessoas mundo afora facilita o contágio. Um problema em qualquer lugar do mundo é um problema no mundo todo. É muito rápido.

Vários pesquisadores falam que o grande problema do mundo será os vírus. Diferente das bactérias, os vírus têm uma capacidade de adaptação e mutação muito grande. Nunca sabemos como vai ocorrer. Acaba que surge, estudamos, vemos como se comporta, mas no ano seguinte o vírus sofre uma mutação e vem como se fosse um novo vírus.

O seu sistema imune não reconhece como aquele vírus, mas como um novo que não tem proteção. Por isso o grande problema do mundo são as doenças virais.

Rodrigo Hirose – Por que a diferença e a dificuldade de se encontrar uma vacina para vírus como o HIV?
Temos vírus que são formados em sua constituição genética por RNA. E outros por DNA. Os seres microscópicos virais que são RNA sofrem mutação pela própria constituição genética do vírus. Dá a capacidade de o vírus sofrer mutação.

Na mutação, o vírus muda a sua capa, o seu envólucro, que é o que o nosso organismo identifica e produz células de defesa. Ao mudar sua constituição, o vírus sofre mutação. Em alguma parte da superfície, do envólucro, o vírus muda o receptor.

Ao fazer a modificação no receptor, nosso organismo já não reconhece mais o vírus. Aí não tem célula de proteção e não consegue matar o vírus. Os RNAs, que são o grande problema hoje, têm essa capacidade por causa da constituição genética. E isso é um problema, como é o caso do coronavírus e do Influenza.

Muitos desses vírus começam a ser transmitidos do animal para o homem, depois sofrem uma mutação no homem e passam a serem transmitidos homem-homem. Foi isso que ocorreu com o corona e com o H1N1.

Alguns pesquisadores são mais apocalípticos. Dizem que o novo coronavírus veio só para preparar para algo pior. Justamente pela capacidade de mutação.

Augusto Diniz – É uma característica única do novo coronavírus o contágio na forma incubada?
Não. O vírus Influenza. A pessoa já transmite o sarampo dois dias antes de surgir sintoma. Há estudos do Influenza que mostram que de dois a três dias antes de surgirem sintomas já começa a transmissão. Tem outros vírus que têm essa característica. Varicela, que é o vírus herpes zoster. Vários vírus têm essa capacidade.

Augusto Diniz – Dificultou o trabalho de prevenção e estudo do novo coronavírus a demora do governo chinês em divulgar os dados sobre os primeiros casos confirmados?
Sou epidemiologista com mestrado em epidemiologia de doença transmissível. Não foi demorado. Se pegarmos que foi divulgado no início de janeiro e que duas semanas antes teria sido recebido o primeiro comunicado, do comunicado de uma possível pneumonia de um caso desconhecido e ter certeza duas semanas foi rápido.

Augusto Diniz – Há informações que dão conta de que o governo da província de Hubei e as autoridades da cidade de Wuhan teriam demorado para divulgar os dados por uma questão de controle de informação.
Tem uma linha do tempo que criamos para fazer uma apresentação que mostra desde o dia em que começaram os rumores de uma pneumonia de causa desconhecida. Igual ao zika vírus em Salvador (BA), que era tratado como uma doença exantemática de causa desconhecida. Leva um tempo para descobrir realmente o que é.

Primeiro se detecta pessoas sendo acometidas por uma doença desconhecida. São feitos os testes para as causas conhecidas, que dão resultado negativo. É preciso testar até descobrir o que é. Mas como a China não é um país aberto, não temos certeza de tudo que ocorreu lá com o novo coronavírus. Vamos começar a ter certeza agora com o contágio em outros países o que realmente essa doença causa.

Rodrigo Hirose – A estrutura montada hoje tem quantos leitos para atender pacientes?
Depende do nível no Plano de Contingência. Hoje é só o HDT, onde temos cerca de dez leitos. A partir do momento em que tivermos casos confirmados e aumentarem o número de pacientes, aumentamos o número de leitos e hospitais, tanto de enfermaria quanto de UTI.

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