“A maioria dos políticos não aprendeu a trabalhar com números na administração pública”

Secretário-executivo do Consórcio Brasil Central diz que Marconi Perillo é referência em termos de gestão com práticas inovadoras 

Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

Aos 35 anos, Thiago Ca­margo pode parecer muito jovem para ocupar um cargo importante no setor público — a secretaria executiva do Consórcio Interestadual de Desenvol­vimento do Brasil Central. Mas, no currículo já há muita experiência e qualificação. Ele esteve tanto no governo municipal (nas gestões, em Goiânia, de Iris Rezende (PMDB) e Paulo Garcia (PT), de 2007 a 2011) como no estadual (a partir de 2011) e nesta entrevista mostra, por seu conhecimento da realidade local e global e em meio aos desafios dos novos tempos, por que recebeu a função de destaque no consórcio que, em torno de projetos comuns e parcerias, reúne Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Tocantins, Rondônia e o Distrito Federal.

Thiago Camargo é formado em Direito pela Pontifícia Universidade Católica de Goiás (PUC-GO), especialista em Direito Ambiental e mestre em Administração Pública pela Universi­dade de Columbia, nos Estados Unidos. Foi chefe de Gabinete da então Secretaria Municipal de Meio Ambiente (Semma) até 2007, quando a pasta se tornou agência (Amma) na reforma administrativa daquele ano e ele passou a ser diretor do órgão, até 2011. Nesse período, foi presidente da Câmara Técnica de Resíduos do Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama) por três mandatos seguidos e também membro da delegação brasileira de negociações de mudanças climáticas na COP 15 (em Copenhague, na Dina­marca, em 2009) e COP 16 (em Cancún, no México, em 2010).

No Estado, foi chefe de Tecnologia na Secretaria da Educação, de 2011 a 2013, onde colaborou para a pasta conquistar o prêmio nacional de melhor “case” de Tecnologia Aplicada ao Setor Público. Também elaborou algumas ferramentas que possibilitaram o Estado a evoluir no conceito do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) do 16º ao 1º lugar. Depois de passar pela superintendência executiva de Planejamento na Secretaria de Estado de Gestão e Planejamento (Segplan), neste ano, assumiu a secretaria do Consórcio Brasil Central, com mandato até o final do ano, e a superintendência executiva de Ciência e Tecnologia, desde junho.

Cezar Santos — O Consórcio Brasil Central começou com uma articulação goiana, capitaneada pelo governador Marconi Perillo (PSDB). Já há algum resultado prático a ser mostrado?
Temos vários resultados práticos. Já fizemos três publicações neste ano, sendo o mais sólido um estudo bem detalhado de todos os números do bloco, mas também das exportações. Não é apenas uma análise, o que seria fácil, mas fomos além. O estudo contempla o que não exportamos e que poderíamos exportar; analisamos ainda os possíveis concorrentes do bloco, como Argentina e São Paulo; analisamos os players mundiais que estão comprando muito, o que eles estão comprando e por que não estão comprando de nós. Esse foi o ponto inicial para termos, agora, dois novos produtos aprovados na última reunião do consórcio.

Primeiramente, uma estratégia unificada de comércio exterior. A partir desse estudo, vamos fazer um levantamento das barreiras fitossanitárias dos principais compradores que temos e dos que queremos prospectar, para fazer a unificação dos padrões dessas barreiras dentro do bloco; criar o selo de origem dos produtos da região e começar a promover missões internacionais em conjunto. A ideia é, partindo dessa análise, podermos eliminar intermediários, que temos no setor do farelo de soja, e conquistar novos mercados, como é o caso do soro do leite, um produto bastante exportável e que seria o próximo “pulo” nosso, já que temos facilidade para produzir e para obter ganho de mercado, em um setor que está crescendo muito.

A segunda estratégia, já começando este ano também, é a criação do mercado comum do Brasil Central. Partimos de uma análise, e já iniciamos os levantamentos, de todos os produtos e serviços que o bloco contrata de fora. Queremos, antes, arrumar soluções para algumas tarifas interestaduais e também para equalização de tarifas, para fazermos uma espécie de substituição de importações daquilo que compramos de fora, a fim de tornar mais competitivo os produtos para quem está dentro do bloco. Numa segunda linha, direcionar os instrumentos financeiros de fomento à industrialização que temos para essas áreas que poderiam ser prioritárias.

Cezar Santos — Já há benefício efetivo dessa inciativa?
Cito um exemplo que já aconteceu, na área de fertilizantes. Rondônia comprava do Paraná. O produto saía do Paraná, passava por Mato Grosso para então chegar a Rondônia. Agora, Rondônia e Mato Grosso, que também produz fertilizantes, assinaram um acordo para redução das tarifas do produto.

Queremos usar esse modelo para todos os produtos e criar uma cadeia de valor dos produtos de dentro do bloco. E alguns outros acertos mais complexos surgiram. Partiu do consórcio a articulação do pacto interestadual de Segurança Pública. Hoje são 11 Estados e há uma central de inteligência única em Brasília, com Estados cedendo servidores para essa unidade. Em Mato Grosso do Sul foi assinado um acordo de 10 secretarias, mas que vai se estender a 12, compartilhando a mesma base de dados sobre a Segurança Pública. Estou falando de compartilhar itens como registro de reconhecimento facial, registros biométricos, mandados de prisão. E isso é coisa que o governo federal deveria ter feito nacionalmente.

No caso dos registros biométricos, Distrito Federal, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e agora Goiás ou já fizeram ou estão fazendo o Afis [“automated fingerprint identification system”, ou, em inglês, sistema de identificação automatizada de impressões digitais], que é o registro biométrico utilizado pelo FBI [polícia federal dos Estados Unidos] para reconhecimento facial e digital. Se tivéssemos isso tudo pronto, Tiago Henrique [serial killer que matou dezenas de pessoas em Goiânia] poderia ter matado duas e não 40 pessoas, porque já tínhamos uma digital parcial dele e a enviamos para a Secretaria Nacional de Segurança Pública (Senasp) buscar no banco de dados. Só que eles não acharam. É um modelo que pode salvar vidas em todos os Estados.

No caso da segurança, o consórcio já fez operação conjunta, com 150 mandados de prisão cumpridos num dia e 56 prisões em flagrante, nos sete Estados, porque o Mara­nhão também participou. Também houve compartilhamento de recursos. Para o Tocantins, por exemplo, que tem problema de pessoal, saíram efetivos de Goiás e de Mato Grosso.

Cezar Santos — E na área da saúde, o que o consórcio conseguiu fazer?
Na saúde, alguns Estados também já estão fazendo compartilhamento de recursos. Em Ron­dônia realizamos a primeira reunião da Câmara Técnica da Saúde, com todos os secretários. A SAP [empresa que desenvolve soluções para simplificação de processos] vai nos doar o software deles, o Fast Hana, que foi utilizado para combater epidemia de ebola, na África, com modelos de predição. Mas ele é mais conhecido por ter sido o software da seleção da Alemanha na Copa de 2014 — os jogadores recebiam no intervalo das partidas os dados de probabilidades dos adversários, estatísticas, essas coisas. É um software muito caro, mas a SAP vai ceder a licença para os seis Estados do consórcio.

Elder Dias — Qual seria a utilidade desse software para Goiás?
O SAP será para combater o Aedes aegypti, a doação é para isso. A ideia inicial seria pegar esse modelo de monitoramento que a Secretaria de Saúde implantou em Goiás — que tem tendência de ser expandido para todo o Brasil, por conta do êxito alcançado — e digitalizar isso num sistema que aprende “per se” e daí aponta não só onde tem foco, mas reúne todas as informações exponencializadas, com geolocalização, para ordenar ações físicas de combate mais localizadas.

Futuramente, um software como esse poderá ser utilizado para rastreamento bovino e para combate à febre aftosa, por exemplo. No uso das ferramentas de “big data” [o equivalente em inglês a “megadados”, um grande conjunto de dados armazenados], o céu é o limite. O mundo começou a fazer isso ainda no século 20 e o Brasil precisa aprender a trabalhar melhor com dados. O uso desse tipo de software é para isto: ter dados de todas as áreas.

Cezar Santos — Voltando ao consórcio, o que mais tem consolidado?
A Câmara de Educação já está muito consolidada. Já captamos neste ano, em projetos para os seis Estados, R$ 12 milhões aproximadamente da iniciativa privada. Há uma iniciativa muito legal, chamada Agenda do Futuro, em que herdeiros de grandes famílias empresariais de São Paulo financiam estudos sobre melhor aproveitamento dos cargos comissionados nos Estados. O primeiro Estado em que fizemos diagnóstico foi Rondônia e a ideia é fazer uma proposta de instituir uma meritocracia lá, para preenchimento desses cargos — semelhante ao que ocorre em Goiás, mas mais ainda com o que existe no Chile — para a ocupação dos cargos de alta direção. Os avanços concretos existem.

Eu brinco dizendo que o consórcio é uma “start up” do governo. A gente tem uma estrutura enxuta, que é o ideal, e que trabalha sempre com parcerias para atingir propostas específicas. O próximo grande passo será trabalhar com projetos de infraestrutura. O consórcio pode ser o modelo adequado para que os Estados encontrem a segurança para fazer projetos nessa área, em conjunto, porque hoje, se quisermos construir uma ponte entre Goiás e Mato Grosso, terá dois modelos.

Cezar Santos — Aliás, a consorciação para obras de infraestrutura foi o mote para a criação do Brasil Central…
Exatamente, a ideia de ter um consórcio partiu justamente daí. Para fazer uma ponte entre Mato Grosso e Goiás, ou se chamava o governo federal para fazer ou Mato Grosso fazia sua parte, Goiás fazia sua parte e todos torciam para encontrar no meio. O consórcio possibilita esses novos modelos de atração de parceiro e de aplicação de recursos. O momento econômico é um pouco complicado para se falar em grandes investimentos em infraestrutura, mas parte do consórcio a possibilidade de criação de uma área estruturadora de projetos e agora temos focado mais em equalização da gestão nos seis Estados, que já têm marcos legais de organizações sociais (OSs), muito inspirados no Estado de Goiás, com projetos comuns em Educação, em Segurança Pública e vamos partir agora para projetos de desenvolvimento econômico, comércio exterior e de saúde. A experiência tem sido exitosa.

Elder Dias — O sr. vem da área ambiental e, também, da tecnológica. Há algum software que possa nos dar a dimensão da perda do Cerrado e, a partir daí, da “hemorragia” de água dos nossos reservatórios, por exemplo, o que está ocorrendo — por causa de desmatamento, desvio de água etc. — com os afluentes do Rio Araguaia? O Estado tem controle sobre os recursos hídricos e o avanço da fronteira agrícola?
Não posso falar pelo Estado como agente público, porque não é minha área, mas como cidadão, digo que Goiás foi pioneiro na aplicação do Cadastro Ambiental Rural (CAR), já com imagens por satélite. Conseguimos implantar o cadastro rural antes de todos os outros Estados. Então, avançamos muito nisso. Não sei se existe um software para medir o impacto da perda do Cerrado, mas geralmente os cientistas trabalham sempre com modelos de predição, tomando todos os dados que eles já têm do passado em relação a desmatamento, variação da temperatura, variação da cultura, variação da produtividade etc. e, com isso, fazerem projeções. O que é notório hoje é que uma redução acentuada do Cerrado — que durante vários anos sofreu desmatamento maior até do que a Amazônia — alteraria todo o regime de águas do País, com impactos significativos, porque as três grandes bacias hidrográficas brasileiras nascem aqui. Com esses regimes de água sendo muito afetados, vamos ter problemas com a agricultura e com a temperatura. Mas não sei se temos um software específico. Obviamente não é muito positiva essa perda que se tem.

Augusto Diniz — Até que ponto o uso da terra é responsável pela destruição ambiental?
Uma coisa que se discute muito hoje no setor ambiental é o uso da terra, a mudança do uso da terra e o desmatamento. Não vou dizer que as mudanças no uso da terra têm ocorrido de forma inconsequente — até porque o setor agrário brasileiro, sobretudo em Goiânia, é muito responsável, e eu sempre fui um crítico quando se diz que esse é o grande vilão do aquecimento global, os estudos são quase sempre enviesados. Acredito que com um zoneamento econômico-ecológico adequado poderemos ter uma forma mais racional, sem alterar necessariamente a produtividade. E também o avanço de técnicas de agricultura permitiu que a gente tivesse três safras, coisa que não se encontra em outro lugar no mundo.

O povo pergunta por que Goiás não tem silo. Ora, porque não dá tempo de armazenar, a gente produz muito e acaba vendendo. Então, não é necessário ter uma estrutura de controle de preço, como é o caso do silo. Mas o avanço das técnicas culturais vão permitir que tenhamos melhor aproveitamento. Uma coisa que ainda estava muito em estudo é sobre a terra preta, porque ela aprisiona bastante carbono e, se misturada, tende a aumentar a produtividade pelo ganho de matéria orgânica, também poderia aprisionar carbono.

As técnicas vão evoluir e eu não acho que a agricultura vá ser o grande vilão do futuro. O que é o grande vilão, em minha opinião, é o pouco cuidado que temos sobre a situação da água. Acho que todos os Estados têm de avançar mais na proteção de seus mananciais. A gente está agora com Brasília sob risco de racionamento, o que pode também afetar as operações no Entorno do Distrito Federal, por causa do consórcio de saneamento. Quando se falava em racionamento de água era uma realidade tão distante, coisa de Nordeste, e isso agora está batendo à porta de todo mundo. Mas Goiás se antecipou, construindo reservatórios, mas isso apenas não será suficiente em nenhum lugar do País. A gente precisa avançar culturalmente, inclusive na cultura das próprias empresas de saneamento. A Sabesp [companhia paulista de saneamento] foi multada em São Paulo porque estava poluindo alguns mananciais de água, porque ainda tem despejo de esgoto “in natura” feito pelas próprias empresas de tratamento, que às vezes não encontram a viabilidade técnica necessária para encaminhar para o tratamento.

Cezar Santos — Mas, enfim, o que fazer?
A gente vai ter de avançar nisso. Todos os grandes centros urbanos do mundo passaram por problema de falta de água. Hoje o que mais salta aos olhos é a bacia da Cidade do México, que criou uma espécie de exclusão social hídrica. É hoje onde tem um grande problema. Mas Cingapura, Londres, Nova York, todas essas cidades passaram por isso. Todos os grandes centros urbanos passaram ou vão passar por problemas de água, porque é uma questão de distribuição de recursos.

Elder Dias — Como essas cidades solucionaram esse problema?
Vou dar dois exemplos, Nova York e, agora, a Califórnia. A Califórnia não racionou água, mas está tendo uma campanha fortíssima para economia de água. Os restaurantes na Califórnia já não servem automaticamente o copo d’água, como é comum em qualquer restaurante dos Estados Unidos. Já começam a dizer que a bacia da Califórnia está com um problema de água e então orientam a só pedir água se você realmente estiver com sede.

Em Nova York, eles resolveram o problema aumentando a captação e a capacidade de tratamento. E eles se orgulham demais da capacidade de tratamento de água deles. Existe toda uma cultura de beber água da torneira. E isso criaria essa conscientização necessária para se ter o melhor uso da água.

As instalações mais novas já têm soluções mais inteligentes para economia e reuso de água. Hoje há o vaso sanitário com uma descarga diferente para o uso que é feito, o aproveitamento da água da máquina de lavar, que vai para o vaso, o aproveitamento da água da chuva. Vamos precisar discutir a questão de impermeabilização dos solos em algum momento, principalmente nos grandes centros urbanos, que sofrem muito com isso. A gente vai precisar discutir a duração dos banhos, o uso geral que fazemos da água. Isso é fundamental.

Elder Dias — No caso de Goiás, principalmente Goiânia, a gente tem uma bacia que vem da Região Norte da cidade, principalmente o Rio Meia Ponte e o Ri­beirão João Leite, que são ma­nanciais de captação e abastecimento. Há o interesse da expansão imobiliária ou industrial para a Região Norte. Uma região de chácara, na qual o verde ainda é preservado em parte, como uma espécie de cinturão para a cidade. Mas também é uma região que já sofre com a polução da Cargill e da Estação de Tratamento de Esgoto (ETE). Como fazer um projeto sustentável, para uma região assim?
Quando a gente discute a questão ambiental, pouco se fala sobre o meio ambiente criado. Isso tem de ser discutido. É extremamente importante a participação do setor imobiliário, porque foi ele que tornou Goiânia o que ela é hoje, já que se faz a valorização da cidade a partir da valorização artificial do espaço. Isso é de fato o que acontece.

Em relação à expansão, conceitualmente sou contra. Não porque eu seja contra a expansão urbana, contra as imobiliárias, mas por defender que se verticalize ao máximo as cidades. As cidades modernas são verticais, compactas. E existe um motivo, desde que a gente começou a criar cidades: tornava-se mais eficiente a distribuição de recursos — a água, a energia etc. Goiânia ainda tem espaço para se verticalizar mais, o Centro, por exemplo, ainda pode ser requalificado. Outras áreas da cidade ainda podem ser verticalizadas. Nas cidades mais compactas, as pessoas moram mais perto de onde trabalham, de onde o filho tem aula, de onde elas têm de se deslocar. Vão se deslocar por menos tempo. Então, o carro vai ficar menos tempo na rua emitindo poluentes, os serviços públicos vão ficar mais baratos, vai ter impacto positivo no trânsito. Mas o maior impacto no trânsito vai ser sentido por quem utilizar o transporte individual. Sou a favor de cidades verticais, mas com forte priorização do transporte público.

Elder Dias — Mas uma expansão urbana em Goiânia, no atual momento, é algo necessário?
Independentemente do que eu acho — se é possível ter um desenvolvimento sustentável com expansão —, sou contra a ideia de a gente discutir expansão enquanto a gente ainda pode ter uma requalificação do Centro, quando a gente ainda puder ter políticas de adensamento, que era o que o Plano Diretor previa em 2007, quando colocaram o adensamento para as faixas de aceleração das grandes vias. Era uma solução muito inteligente. Mas o Plano Diretor tem dez anos. Ele já deveria ter sido regulamentado, mas não foi, e agora em 2017 é o ano de ele ser revisado. A gente se perdeu no tempo na discussão do planejamento da cidade, da ocupação imobiliária.

“Não veremos o Plano Diretor sair do papel”

img_0012-vertElder Dias — E o que o sr. diz em relação à forma de lidar com a Região Norte de Goiânia, entre a preservação e a ocupação?
Respondendo à pergunta sobre a Região Norte, sou favorável à ocupação, porque assim se delimita a forma com que essa ocupação pode ocorrer. Uma ocupação ordenada é muito positiva. E hoje já há todas as técnicas necessárias para fazer com que a produção seja a mais limpa possível. Eu acredito, sim, na atividade industrial sustentável e sustentada.

O que vai precisar ser medida é a capacidade da Prefeitura de fazer esse controle, porque hoje não tem controle sobre nada. Se tiver um caso de poluição para denunciar, não vai conseguir falar no telefone da Prefeitura, seja poluição sonora ou qualquer forma de poluição. Não há como denunciar, não existem esses canais.

E então a população vai ficar extremamente dependente da Dele­gacia Estadual de Meio Am­biente (Dema), que é a esfera criminal; vai ficar muito dependente do Ministério Público, que tem um poder de atuação limitado. Por isso, quem tem de fazer algo é quem cuida da esfera administrativa.

Elder Dias — O que é possível fazer, dentro das limitações do poder público?
A gente tem de avançar nas técnicas de licenciamento, mas precisamos avançar também nas técnicas de cadastro de empresas. Não gosto da ditadura do controle, sou favorável a estabelecer regras e o empresário estar de acordo com aquelas regras já na instalação. Se fizer alguma coisa errado, hoje ninguém faz mais nada escondido. Se fizer tudo com transparência, é possível ter uma ocupação legal.

Se não for assim, a ocupação ilegal vai acontecer, de uma forma ou de outra. Quando se fala em periferia tem um livro clássico da década de 1960, chamado “Morte e Vida de Grandes Cidades” [de Jane Jacobs, ativista dos anos 50 que criticou duramente as práticas de renovação do espaço público nos Estados Unidos], bem interessante, que fala muito da gentrificação [fenômeno em que alteração das dinâmicas da composição de um bairro, valorizando a região, afeta e afasta a população de baixa renda local] ocorrida em Nova York, Chicago, São Francisco.

Elder Dias — É a luta entre as questões social e econômica…
Analisando para nosso contexto, a periferia não é um fenômeno social, como ela tentou provar, mas econômico. Eu entendo a periferia com um fenômeno de custo de oportunidade. Se alguém tem um imóvel em uma região mais central e isso se valoriza, a pessoa não muda por não dar conta de pagar o IPTU, mas porque passa a ser economicamente mais viável alugar e com o dinheiro morar em outro lugar e ter aquela sobra para outras coisas. Ou até mesmo vender e achar que resolveu a vida.

Intuitivamente, eu vejo a periferia sempre existindo e sempre crescendo. A partir do momento em que se urbaniza, o bairro fica mais valorizado, alguém vai chegar ao custo de oportunidade de sair dali e ir para um lugar mais distante. Tem gente que mora em chácara, por exemplo. Aquela ocupação vai acontecer, mesmo se for só pelo setor habitacional, do qual se tem a impressão de não causar danos grandes, o que é um erro, porque hoje a grande poluição do Meia Ponte, por exemplo, não é por dejetos industriais, mas domésticos.

Esse dano vai acontecer de toda maneira. A expansão urbana é um meio de a gente controlar essa ocupação. Na primeira fase, eu não acho que essa expansão seja necessária porque a gente ainda tem muito que verticalizar e, das áreas que ainda têm, é possível fazer um uso misto. Mas, no caso de haver essa necessidade, eu acho que é possível ter um desenvolvimento sustentável e que é possível a Prefeitura coordenar esse crescimento de uma forma que a ocupação seja de forma racional. Mas depende, sim, de atualizar todos os instrumentos de controle urbano que a Prefeitura tem.

Augusto Diniz — O próximo prefeito vai assumir a cidade em um contexto no qual o governo estadual começa a elaborar o Plano da Região Metro­politana. A Prefeitura contratou uma empresa para começar a criar o Plano de Mobilidade Urbana de Goiânia e a gente tem um Plano Diretor, que é perfeito no papel, mas muito do que está incluído nele não foi regulamentado até hoje e nem se sabe o que vai acontecer com a atualização a ser feita em 2017. O que Iris Rezende vai ter de desafio básico para começar a aplicar esse Plano Diretor de Goiânia, do qual quase nada que está na lei a gente vê na prática?
A gente quase nada vê e vai continuar não vendo, porque ano que vem vai haver uma Câmara nova, que não vai abrir mão da prerrogativa de discutir de novo o Plano Diretor, porque é o ano da revisão. Está na lei de 2007 que é preciso revê-lo a cada dez anos. Eu creio que a gente vai ver muito pouca coisa sair do papel.

Dentre os desafios que eu enxergo, o primeiro é a mobilidade urbana. E, independente da análise que se faça da atual gestão do prefeito Paulo Garcia (PT), é inegável que ele foi o primeiro prefeito a, de fato, tocar na questão da mobilidade. Pode-se fazer qualquer crítica em relação à implementação de ciclovias ou de corredores para ônibus, mas ele implantou. Isso é de uma importância política muito grande e, no futuro, outras pessoas vão reconhecer essas obras dele. Foi algo importante para cidade, causando um desconforto necessário. Nessa questão ainda, temos de começar a entender quem são os donos da cidade, se as pessoas ou os carros e, sendo as pessoas, como elas querem se locomover? O problema do goiano de sair de seu carro é que o veículo não é apenas meio de locomoção, mas também é, na análise cultural de Goiânia, o único real símbolo de status que se tem. Por ser uma cidade nova, o sobrenome não importa muito, não diz se alguém tem poder aquisitivo ou não. Em relação a condomínios fechados, há de várias classes. Então, o carro passou a ser sobrenome de alguém — eu brincava de dizer, antigamente, que tinha o “Pedrinho do Gol”, o “Joãozinho do Uno” (risos). Se esse é o único status que o goianiense de classe média tem, é até comum o carro valer muito mais que o apartamento que ele tem, ou nem tem. O que fazer para que esse goianiense não enxergue o carro como símbolo de status? É preciso mostrar que, se por um lado é símbolo de status, por outro é falta de praticidade; e, para que se torne menos prático, precisamos que seja prático andar de ônibus.

Augusto Diniz — Mas como enfrentar essa cultura?
Eu até propus a um candidato prefeito, Francisco Júnior (PSD), que os grandes eixos não tivessem sobreposição de linhas; que tivéssemos a linha exclusiva e que fosse só ela — por exemplo, a da Avenida 85, apenas a Avenida 85, ou a T-63, apenas a T-63. Assim, aprenderiam a pegar uma alimentadora, chegar à Avenida 85 ou à T-63 e chegariam de forma muito mais rápida. É o que se faz onde tem BRT, onde tem metrô — você troca de modais, troca de linhas.
Eu morei a vida inteira no Conjunto Aruanã 3 e a maior vitória recente que um vereador conseguiu foi uma linha Aruanã 3-Flamboyant. Com uma linha de ônibus, uma estrutura grande e de baixa ocupação, faz-se uma linha para levar as pessoas a um shopping. Isso não pode ser correto, precisamos de um modelo de transporte público que seja de fato rápido e tenha um conforto mínimo, para depois fazer a mudança de cultura. Nos países desenvolvidos, as pessoas aos poucos foram deixando os carros. Não se faz duplicação de vias, mas se diminui seu tamanho e se faz duplicação de calçada — isso sim! É muito pouco provável que Goiânia consiga avançar com metrôs pelo custo que eles têm hoje, mas podemos discutir VLT, BRT, monotrilho, que são estruturas mais baratas e que, eventualmente, teremos mesmo de discutir, ainda que com a iniciativa privada.

Elder Dias — Goiânia está em crise em relação a sua vocação econômica?
Esse é outro desafio. Goiânia precisa ter uma identidade. Não somos uma cidade só de serviços, temos vocação para exportar produtos também e, hoje, a nossa grande matriz de exportação é a parte de carnes. Já tivemos antes comércio de guindastes, de peças para aviões, de cosméticos. Há como fazer uma metodologia de predição das próximas atividades econômicas baseadas nas que já são realizadas e estariam, então, “maduras” para acontecer. No caso, Goiânia produz e exporta produto para cabelo; o próximo produto seria o de barbear, o que não produzimos. Ocorre que o Brasil importa só da Argentina mais de US$ 200 milhões em produtos para barbear. Ou seja, temos uma indústria pronta para produzir isso, um mercado significativo — sobretudo para o tamanho da cidade — e poderíamos estar abastecer esse mercado, o que não fazemos. Precisamos rediscutir a vocação econômica de Goiânia e isso está na discussão do Plano Diretor, do zoneamento, se permitiremos a instalação de grandes fábricas e, se sim, como e quais atividades permitiremos.

Elder Dias — Qual é a parcela de responsabilidade e de participação que o setor imobiliário deve ter na política de planejamento urbano da cidade?
É muito comum o vermos como um vilão, o que eu não vejo. É um setor que pode ser parceiro e que transformou todo grande lugar naquilo que este lugar é. Nova York, por exemplo, no final da década de 1970, era uma cidade totalmente falida, quebrada e foi o emparceiramento que fez de lá o que é hoje. Começou em Battery Park, Bronx, Harlem e outros. Foi o setor imobiliário que fez tudo crescer, com a salvaguarda necessária. Penso então: tem chão em Goiânia, Rio de Janeiro e Belo Horizonte; por que um vale mais que o outro? Por conta da especulação imobiliária. Por que o Parque Vaca Brava, que antes era uma chácara; o Parque Areião, com os japoneses, do nada, passaram a valer mais? E não só o chão, mas também o espaço aéreo. E temos de discutir até a questão da altura dos prédios, de possibilidades, pois, quando se limita muito a altura, como Goiânia fez por muito tempo, se afeta economicamente por criar uma valorização artificial do espaço aéreo. Se tivessem 30 ou 40 andares, ao contrário de 18, teríamos mais estoque de apartamento, que afetaria, claro, o preço do apartamento, bem como o valor da área. Tornaria a vida de quem já vive ali economicamente mais positiva e ele poderia fazer uso disso no futuro. O setor imobiliário, portanto, tem de ser visto como um parceiro e não um vilão. Nessa discussão, está inclusive a questão do adensamento da cidade. Precisamos requalificar algumas áreas. O Centro de Goiânia, por exemplo, está abandonado, sobre o qual conversei recentemente com Thiago Peixoto. O Centro está feio, é muita placa, muito fio, fica muito feio.

Cezar Santos — E existe um fenômeno também, pois os preços de imóveis no Centro são caros também, mesmo sendo feio.
Isso vai mudar, pois a taxa de adensamento no Centro está muito baixa. Aqui de novo me vem o livro “Morte e Vida de Grandes Cidades”: a melhor política de segurança é ter gente na rua. Portanto, precisamos incentivar que o Centro de Goiânia tenha mais gente e, para isso, é preciso ter outros tipos de comércio, de atividades sociais, bar, apresentações artísticas, e outras coisas que levem pessoas para lá. O Centro é o lugar de morada do estudante ou do jovem casal, aquele que não tem necessidade de fato de carro, pois ali não tem garagem. Se conseguirmos requalificar o Centro e requalificar os imóveis, o Centro terá coisas bonitas. Existe ali o Cine Santa Maria, que foi o primeiro cinema da história de Goiânia, com sua art déco. Hoje é um cinema pornô com uma grande placa de “vende-se”. Será que não dá para aproveitar aquilo? Eu fui, recentemente ao Beco da Codorna, em uma quadra que tem saída para a Avenida Anhanguera, e lá tem uma cena interessante. Mas as lojas, ali em frente, estão todas fechadas, são de uma mesma dona que não quer mais alugar, pois deseja montar um estacionamento. Isso é importante, é preciso, mas é essa a cidade que queremos? Precisamos ver as atividades que vamos permitir ou não, a maneira que trataremos a verticalização e tudo o mais.

Não dá para relegar ao setor imobiliário o papel de vilão. Ele poderia ser vilão quando falamos de cidade “paliteiro” ou quando falamos de corrupção — que é a crítica geral que geralmente se faz. Mas temos de ver esse setor como parceiro.

Elder Dias — Há uma discussão sobre quem manda na cidade. O capital é necessário, mas ele não pode ser predominante em relação às políticas públicas. Concordo que as empresas e o setor imobiliário são fundamentais para a recuperação do Centro, para o crescimento desses eixos de adensamento, mas temos a opressão do capital imobiliário, o qual considero vilão, sim, ao fomentar uma expansão urbana via loteamentos e assim tornando a cidade mais cara.
Mas quem define o que o espaço vai se tornar é a classe política. O setor imobiliário pode ser um parceiro.

Elder Dias — E esse é o problema: a política em Goiânia tem sido movida a dinheiro.
Eu não ignoro a importância do capital. Aliás, ele é extremamente importante. Ao se analisar, por exemplo, o Parque Flamboyant — que, sim, foi construído em parceria com imobiliárias, como vários outros parques e eu acompanhei o processo, pois estava na Agência de Meio Ambiente (Amma) naquela época —, a primeira crítica que se fazia era justamente isto: “São os quintais dos grandes prédios”, mas não se olha para o que era aquilo. Era uma região de invasões, pantanosa e não aproveitada. A partir do momento em que se criou o equipamento urbano e o setor imobiliário ocupou, dá para ter uma ideia de quanto de IPTU e de Imposto de Transmissão foi gerado? E esse imposto vira escolas, postos de saúde, ou seja, toda a população se beneficia duas vezes. Ela ganha um equipamento urbano que é gratuito e ela pode utilizar e ainda ganha na aplicação dos serviços públicos — é uma parceira fantástica. “Ah, mas tem alguém ganhando dinheiro com isso”, ainda bem que tem alguém ganhando dinheiro com isso, pois, em um segundo momento, a redistribuição do dinheiro se dá por meio da arrecadação de impostos, na geração de empregos.

Elder Dias — Mas essa é uma visão apenas pelo lado do empreendimento. Mas pela visão ambiental, por exemplo, ali tem uma nascente, um córrego chamado Sumidou­ro. Hoje a água aflora e os prédios bombeiam água de suas garagens, jogando-a nas ruas. Estão matando um córrego. Como fica isso?
Mas, para isso, existem métodos. No próprio Parque Flam­boyant, um dos utilizados diz para as empresas bombearem a água para o vertedouro da nascente do Córrego Sumidouro. Há formas inteligentes de mitigar e compensar os impactos ambientais causados pela ocupação urbana. No caso da pressão para expansão e para criar novos loteamentos, é questão de custear a oportunidade. O capital procura uma maneira de se remunerar, o que pode ser feito fomentando a expansão urbana ou aproveitando alguma oportunidade de uma parte mais central da cidade. Então, não avançamos ainda nas discussões, por exemplo, sobre operação urbana consorciada (OUCs), que é uma discussão que começou em relação ao Jardim Botânico, mas não se concretizou. Precisamos avançar nisso, assim como na requalificação de áreas da cidade. E o capital vai achar outras maneiras de se remunerar ali. Mas vai sempre existir o espírito empreendedor de ganhar dinheiro mais fácil e alguém querendo facilitar isso. E não é apenas no setor imobiliário, isso existe em todas as atividades humanas. Quem controla, nesse caso especificamente, é a classe política.

Augusto Diniz — Já é possível imaginar qual o impacto dessa “renovação” da Câmara Municipal, ou é preciso primeiro ver a atuação dos 22 novos vereadores que entraram na discussão do Plano Diretor?
Jamais poderia dizer qual o impacto disso, mas acho que será interessante, porque é uma composição jovem e, supostamente, de uma geração um pouco mais atenta às questões de sustentabilidade. Não posso dizer que as pessoas que foram eleitas têm esse pensamento, mas muitas são representantes dessa geração que enxerga o meio ambiente de outra forma. E não só o meio ambiente, mas também a ocupação. Então, eu sou otimista em relação a essas pessoas, mas não poderia qualificar a Câmara. Acho que será divertido acompanhar as sessões, porque tem gente de todo tipo e a tendência é de que essa Câmara seja mais política do que técnica. São pessoas novas para rediscutir a cidade, então será uma intensa articulação o tempo todo.

Dizem que o otimista é o pessimista com menos informação. Eu tento me informar bastante, mas não deixo de ser otimista quando vejo a nova geração, que estava ausente da discussão política, participar do processo. Teve gente que fez campanha na cara e na coragem e conseguiu 2 mil votos em uma campanha baseada somente em ideias. Então, não posso deixar de ser otimista.

Elder Dias — Goiânia já tem seus “sobrenomes políticos”, que colocam seus herdeiros na política. Logo, podemos chamar isso de renovação? Como o sr. avalia isso?
Acho que podemos falar em renovação, pois mesmo quando se vem de uma cepa política já estabelecida, novos pensamentos são trazidos. Quando se pensa a história de Dom Pedro I e Dom Pedro II, eles são pessoas radicalmente diferentes e que tinham pensamentos sobre o Brasil completamente diferentes. Então, muitos desses sobrenomes são filhos de pessoas que nem nasceram em Goiânia. Mas eles nasceram e viveram aqui e têm amigos que nasceram aqui. Eles têm uma relação diferente com a cidade. Os filhos e netos são muito mais afeitos às redes sociais do que os pais. Então, o parentesco político afeta, mas o meio exerce uma influência sobre essas pessoas como não exercia nas gerações passadas; eles vão pensar duas vezes antes de colocar parentes nos gabinetes, nem que seja de forma cruzada, e não vão criar funcionários fantasmas. Vão pensar mil vezes antes de fazer alguma besteira com o dinheiro público, deixando recibos que possam resultar em alguma condenação no futuro. Essa geração chega ao parlamento ao mesmo tempo em que acontece a Operação Lava Jato e vendo o PT não eleger nenhum vereador em Goiânia. Então, essa geração sabe os efeitos do mau uso da coisa pública e levará isso em consideração, mesmo que tenham sobrenomes tradicionais.

Se você me perguntar se acho positivo colocar os herdeiros na política, eu digo que não tenho ninguém da minha família na classe política ou que sequer tenha ocupado algum cargo na administração pública. Nenhum (enfático). Então, para mim, é fácil dizer que sou contra. Seria casuísmo e limitador da minha parte, logo jamais diria isso. Têm alguns vereadores que eu nunca ouvi falar. Se eu for pegar os que conheço por causa de sobrenome, são três ou quatro. Ou seja, não dá 20% da Câmara.

Elder Dias — A maioria dos novos vereadores dessa futura Câmara, com essa renovação, pode se aliar facilmente ao novo prefeito. Como será isso?
Vejo um forte apelo comunitário na eleição desses novos vereadores. Brinco dizendo que a região leste de Goiânia é a nova região noroeste, porque foram muitos os eleitos Ander­son Bokão (PSDC), Tiãozinho Porto (Pros), Felisberto Tavares (PR), que é muito forte na região, o reeleito Anselmo Pereira (PSDB), além de Tiãozinho (PRTB) e Dill Oliveira (PTC), que são primeiros suplentes, que teve muitos votos. Então, era uma região que tinha poucos representantes e que agora terá uma fatia expressiva. Agora, o prefeito sempre acaba tendo uma influência na Câmara por conta da expectativa de poder.

Elder Dias — Fala-se muito sobre a necessidade de uma nova postura por parte dos políticos. Na opinião do sr., o que falta à classe política?
Falta à classe política um pouco mais da figura do intelectual para decodificar as ações políticas no significado social e histórico que elas possuem. Admiro muito a forma de governar de Marconi Perillo, pois é definitivamente a pessoa mais inovadora que já vi passar num governo. Quando olhamos para 1999, Marconi criou o Bolsa Universitária. Milton Friedman [economista estadunidense] já defendia a adoção dos vouchers para a educação. Então, o Bolsa Universitária é basicamente isso: financiar vagas para estudantes universitários na iniciativa privada e aumentar a população universitária do Estado. Na época, eu era membro de centro acadêmico e ouvia críticas dizendo que esse dinheiro tinha de ser investido na universidade pública. Mas, investido na universidade pública, esse dinheiro iria para o ralo (enfático). E a prova que essa política deu certo é que ela foi copiada e se estendeu para o nível federal com altíssimo nível de aprovação.

O Renda Cidadã, que foi o primeiro programa de “cash transfer” [transferência de renda] do Brasil, funcionava dando o dinheiro ao cidadão e confiando em que ele saberia como utilizá-lo, como que a dizer “compre o que acha melhor para sua família”. Por muito tempo, muitos eram contra esse tipo de programa, os economistas mais clássicos já defendiam isso, principalmente os adeptos de microeconomia, e foi uma política que fomentou o comércio local e deu dignidade a muitas famílias, sendo copiado por todo mundo e depois virando o Bolsa Família.

Cezar Santos — O Renda Cidadã foi um programa que deu muito mais dignidade ao cidadão.
E tem um detalhe que as pessoas não falam sobre o Renda Cidadã ou sobre a política de industrialização que se intensificou demais a partir do Produzir e das missões internacionais feitas pelo governo Marconi: Goiás é o Estado que mais reduziu a pobreza nos últimos dez anos e o segundo nos últimos 15 anos — o primeiro é o Paraná, que reduziu um ponto porcentual a mais que Goiás. Mas quais foram as estratégias diferentes? O Paraná apostou em outra teoria muito forte entre economistas, que é a melhor maneira de reduzir a pobreza no Brasil é aumentar o salário mínimo. Então, o Paraná, a partir da aprovação da legislação de que os Estados podem definir o salário mínimo, foi o que mais aumentou o mínimo estadual. O aumentou real do salário mínimo no Paraná foi mais que o dobro do governo federal.
Goiás apostou na estratégia do emprego. O incentivo fiscal é isso, trocar imposto por emprego. E o custo do emprego gerado na iniciativa privada é muito menor do que na esfera pública — sendo que o emprego é a melhor política social que existe. Outro ponto foi o empoderamento das pessoas mais pobres, que, a partir do momento em que passam a ter o poder de comprar o que querem e como querem, acabam por incentivar o comércio local e gerar empregos. Isso foi muito inovador.

Essa inovações no governo Marconi continuaram em outros pontos. Veio o Vapt Vupt, no tempo em que a internet era discada ainda. A gente usava a internet só da meia-noite às 6 horas da manhã para cobrar só um pulso telefônico, era uma noite inteira para baixar uma música de arquivo MP3. Pois foi nessa época que foi criada em Goiás uma central unificada para atendimento ao cidadão com todos os serviços de que ele necessitava. Depois, veio a primeira experiência de emparceiramento. O professor Mangabeira Unger defende — e eu acredito muito nisso — que houve três momentos da administração pública.

Elder Dias — Quais são esses momentos?
O primeiro foi no século 19, que foi o momento da meritocracia e do profissionalismo, quando se acabou com o modelo de ocupação britânica na Índia e houve o fim do sistema de despojos nos Estados Unidos, com a Lei Pendleton, chamada também de Lei do Serviço Civil [Civil Service Act, promulgada em 1883], que determinou que os cargos públicos deveriam ser ocupados por competência.

Depois veio, já no século 20, o governo da eficiência, aquele que monitora, que avalia, que usa “big data”. Em 1992, começou em Nova York o grande sistema de dados para fazer predição de vetores de violência. Isso fez Nova York sair de uma situação de quase 32 homicídios por grupo de 100 mil habitantes e fechou o último ano com 4 homicídios para esse mesmo grupo.
Agora, no século 21, temos o governo do emparceiramento, do experimentalismo. Se tomarmos esses três modelos, vamos perceber que o Brasil não tem ainda nem o primeiro ainda, que é o da meritocracia, do profissionalismo. E então, quando se analisa aqui no País, quem fez esse governo da meritocracia, quem fez uso das ferramentas de tecnologia e monitoramento e quem fez experimentalismo, com novos modelos para realizar a administração pública, teremos sempre o nome de Marconi Perillo à frente. Portanto, Marconi é o gestor mais inovador que existiu em políticas públicas.

Por isso, no meu ponto de vista, faltou a alguns candidatos, nesta última eleição, defender esse legado, essas ideias, esse modelo que deu certo.

Thiago Camargo: “Falta à classe política mais intelectualidade para decodificar ações políticas no significado social e histórico”

Thiago Camargo: “Falta à classe política mais intelectualidade para decodificar ações políticas no significado social e histórico”

Elder Dias — E por que não defenderam?
Para mim, pesou o corporativismo. Quando há medo em discutir a regulamentação do transporte privado individual por temor de perder voto de taxistas, isso é corporativismo; quando não se discute o emparceiramento para gestão das unidades de saúde e de educação, isso é corporativismo. E precisamos vencer isso, porque o corporativismo não pode superar as inovações em nenhum lugar, muito menos na administração pública.

João Doria (PSDB) foi o primeiro prefeito eleito em primeiro turno na cidade de São Paulo e sua mensagem foi muito clara: a de terceirizar até administrações de cemitérios. E existe um lado racional atrás disso, que é o contrato social entre cidadãos e o poder público. Esse contrato só existe pelo motivo de proteger os mais fracos dos mais fortes. Um governo moderno cuida dos mais fracos, porque a atividade econômica já tem quem a exerça. Quando ela é exercida pela iniciativa privada há uma vantagem: só paga pela atividade quem a utiliza. Por que defendo a privatização das rodovias? É que, a partir do momento que se privatiza, quem vai pagar por ela é só quem a utilizará. Antes, todos pagavam, até quem não tem carro. O modelo de emparceiramento torna mais justo o pagamento pelos equipamentos públicos.

Elder Dias — O que o sr. pensa sobre as subprefeituras?
Eu estava na Prefeitura em 2007 e sei o custo político que houve para aprovar as subprefeituras, porque Iris era contra. Só conseguimos essa aprovação porque o então secretário municipal de Governo, Thiago Peixoto. Mas o que ocorreu? Não houve a implantação das subprefeituras. Por quê? Por causa do corporativismo dos vereadores, que mais uma vez venceu a inovação.

Repetindo: é preciso usar modelos mais modernos de administração pública. Hoje, estamos na era do emparceiramento e do experimentalismo, mas estamos ainda discutindo meritocracia e eficiência, o que é algo do século 19. Já deveríamos ter vencido essa pauta há muito tempo.

Augusto Diniz — O sr. fala em não ficar preso a modelos antigos. O político hoje tem condições de enfrentar a batalha eleitoral apresentando projetos, ainda que pareçam impopulares?
Eu acho que sim, o que precisa é saber explicar. A maioria dos políticos ainda não aprendeu a trabalhar com números na administração pública, nem a mostrá-los à população. Vou dar um exemplo sobre funcionalismo público: quando há uma greve de categoria, geralmente todos apoiam, mas se esquecem de alguns conceitos que faziam sentido antigamente, mas não mais hoje. O quinquênio, por exemplo, servia para segurar as pessoas experientes no serviço público quando não havia a estabilidade. Com a Constituição de 88, só se pode entrar no serviço público. Ora, então não é mais necessário segurar alguém na administração pública porque esse servidor fez uma prova porque queria ter esse emprego para o resto da vida. Essa ferramenta do quinquênio passa a não ter significado para retenção de talentos.

Hoje, por conta disso, estão todos os governos reféns da folha de pagamento. Pelo relatório da STN [Secretaria do Tesouro Nacional] de 2015, Goiânia gastou, entre salários e encargos, os 60% da Lei de Responsabilidade Fiscal. O total de funcionários públicos e pensionistas não dá 3% da população total de Goiânia. Ou seja, esses 3% consomem 60% de tudo o que o município arrecada e os outros 97% têm de ficar com os 40% restantes. Isso não é racional, precisa ser repensado. Para isso, será preciso cortar na carne mesmo. Só que, apesar do desgaste, boa gestão dá voto, porque acaba anulando a crítica puramente política.

Augusto Diniz — Qual seria um exemplo?
Em 2014, na campanha ao governo, ao fim do segundo turno, o PMDB disse que anunciaria uma grande bomba, que seria o fato de que Ronaldo Caiado se tornaria o secretário de Segurança Pública caso Iris Rezende fosse governador. Só que, no dia dessa “bomba”, a polícia prendeu Tiago Henrique [o serial killer que aterrorizava a população na época, hoje já condenado por vários de seus crimes]. Qual virou a pauta da eleição, então? A prisão do serial killer.

Na outra semana, o PMDB fez toda uma pauta dedicada a criticar o ensino médio em Goiás. Só que, no dia do programa eleitoral do partido, saiu o anúncio de que Goiás estava em 1° lugar no Ideb [Índice de Desenvolvimento da Educação Básica] em ensino médio. Ou seja, tinha um programa de TV criticando o governo, mas os jornais estampavam que o Estado tinha o melhor ensino médio do País, em suas manchetes.

Ou seja essas ações podem não dar voto diretamente, mas anulam as possibilidades de crítica política. Será preciso enfrentar o corporativismo e grupos organizados barulhentos, mas o benefício ficará para mais pessoas. Em algum momento, a sociedade fará essa crítica, porque o eleitor sabe o que quer e vota exatamente naquilo que ele deseja.

Cezar Santos — Isso ocorreu em Goiânia nessas eleições?
Nesta eleição, Goiânia passou uma mensagem clara: queria um governante com perfil de gestor experimentado, talvez por não avaliar positivamente o atual momento da gestão em curso. Setenta por cento das pessoas apostaram nisso. Boa gestão dá voto, mas a coragem para executar o que é necessário passa pelo desprendimento.

No último módulo que fiz na Universidade de Columbia falamos sobre ética no setor público. Uma das coisas que mais se discute nos Estados Unidos, em termos de setor público, é a necessidade do legado. O político que quer deixar um legado é visto como um político tóxico, nocivo, porque, nessa necessidade, ele acaba sufocando outras políticas públicas que são mais necessárias. Por estar focado nisso, começa, então, a inaugurar obras inconclusas, inicia programas que não terão sustentabilidade.

Se tivermos uma geração de políticos que combata esse tipo de gestão — e o fim da reeleição vai colaborar nesse sentido, porque ninguém vai poder “quebrar a banca” no segundo mandato —, vamos avançar na ideia de que gestão é algo que deve ser contínuo, apesar de termos mudanças das pessoas. Isso é muito importante hoje em dia, temos disputas que criam heróis políticos, mas, na prática, na vida da cidade, isso não deixa boa coisa.

Cezar Santos — Existe algum lugar no Brasil onde o político tenha conseguido fazer essa mudança necessária, que haja essa geração nova surgindo?
A gestão do Estado de São Paulo é feita, há muito tempo, baseada em resultados. É o modelo do tucanato paulista, que deu resultado agora. A rejeição de Geraldo Alckmin é das mais altas entre os governadores nas respectivas capitais dos Estados que administram. Só que, em momento algum, João Doria escondeu Alckmin em sua campanha. Pelo contrário, o tempo todo ele deixou claro que o governador o tinha lançado, que iria fazer parcerias com o governo e ainda colocou o nome do governador na disputa presidencial em 2018. E Doria ganhou a eleição em primeiro turno. Em Goiânia, tínhamos o mesmo bom exemplo, com as políticas exitosas feitas pelo governo estadual. Elas deram resultado. Mas se, por causa da covardia de não ofender o corporativismo, não enfrentamos esse discurso, isso se torna muito ruim para a história da cidade, porque deixamos que o corporativismo vença. A educação não vai ser boa quando o professor tiver aumento de salário, isso é balela, não encontra correlação na literatura científica da administração pública. Tudo é sistêmico e é preciso analisar dessa forma. No fim, quando vierem os resultados, o marketing faz sua parte.

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