“Iris faz apostas de um gestor arcaico em projetos arcaicos”

Vereadora, uma das poucas vozes de oposição ao prefeito na Câmara, diz que o emedebista pode ser batido nas eleições de 2020

Vereadora Sabrina Garcêz (sem partido) | Foto: Augusto Diniz/Jornal Opção

Com o fortalecimento do prefeito Iris Rezende (MDB) na Câmara de Vereadores, movimento que coincide com a melhoria na capacidade de investimento por parte da Prefeitura, a oposição tem tido poucas vozes. Sabrina Garcês é uma delas.

Em seu primeiro mandato e sem partido, ela critica a atuação do prefeito nas áreas da saúde e educação. Para ela, as obras em infraestrutura, como viadutos, em andamento em Goiânia não resolvem o problema da mobilidade, mas acredita que, se concluído, o BRT será importante.

Em relação às eleições municipais do ano que vem, Sabrina ainda considera a possibilidade de que o senador Vanderlan Cardoso dispute o cargo. Para ela, Iris Rezende tem presença quase garantida em um possível segundo turno, mas aposta que o emedebista pode ser vencido. Abaixo, a entrevista completa concedida ao Jornal Opção:

Elisama Ximenes – Por que sair do PTB?
Minha ida para o PTB foi pensando em eleição, havia chance de eu ser candidata a deputada. Foi uma combinação político-eleitoral. Mas não fui candidata e minha construção partidária não coincidiu com os planos do PTB, que queria ir para a base do prefeito [Iris Rezende]. E eu não consigo ir para a base, tenho uma posição de independência. O PTB à época tinha cargos no Município. Para evitar qualquer constrangimento do partido ou meu, achei melhor sair.

Elisama Ximenes – Está conversando com algum partido de oposição?Tenho conversado com algumas pessoas: o [senador] Vanderlan Cardoso, que é do PP; o [deputado federal] Elias Vaz, do PSB, que fez um convite para montar um bloco em Goiânia. O PROS também me chamou. Tive algumas conversas pontuais com algumas pessoas do PSD. Mas nada muito direcionado ainda.

“O Vanderlan é um conselheiro político meu, conversamos muito sobre o partido. Mas temos de ver um projeto que consiga representar o que pensamos para a cidade”

Augusto Diniz – A sra. vai para o PP?
Não há uma definição. O Vanderlan é um conselheiro político meu, conversamos muito sobre o partido. Mas temos de ver um projeto que consiga representar o que pensamos para a cidade. Não sei como está o PP, o presidente não tem falado muito sobre o assunto. Mas irei para um partido que tenha uma candidatura contrária ao Iris.

“O prefeito Iris mudou completamente a forma de atuar politicamente e já está em pré-campanha” | Foto: Augusto Diniz/Jornal Opção

Elisama Ximenes – A Câmara de Vereadores está retornando do recesso e tem algumas pautas importantes, como o Código Tributário e o Plano Diretor. Hoje, os vereadores estão, na maioria, na base do prefeito. Qual a avaliação que a sra. faz desse momento?
O prefeito Iris tem trabalhado nos últimos dois ou três meses. Ele mudou completamente a forma de atuar politicamente, inclusive mudou a equipe de comunicação nas redes sociais. Ele já está em uma pré-campanha.

O normal é que os vereadores se juntem ao redor desse projeto, que já larga na frente. O prefeito tem uma ampla maioria na Câmara, mas ela é inconsistente. Tivemos o Código Tributário em debate e, por causa de uma briga da própria base, esse projeto tão importante foi retirado da Câmara.

O Plano Diretor será da mesma maneira. Não será uma discussão de base e oposição. Vai ser uma discussão voltada para os nichos de cada vereador e não pensando no que a Prefeitura quer.

Rodrigo Hirose – Quando a sra. diz que o prefeito larga na frente, significa que ele já superou os desgastes dos dois primeiros anos de gestão? Ele já pode ser considerado favorito para a reeleição?
O Iris será o candidato que estará no segundo turno, se for candidato. Mas é o mais fácil de ser batido no segundo turno. Ele não recupera o desgaste, principalmente por causa da saúde. Tenho andando em toda Goiânia e o desgaste dele está muito grande.

“O Iris estará no segundo turno, mas é o mais fácil de ser batido” | Foto: Lívia Barbosa/Jornal Opção

Na última eleição [em 2018], o governo [estadual] investiu muito em obras nos últimos anos e fracassou [eleitoralmente]. Hoje a população não vê obras mais como algo como o poder público está fazendo de bom grado; ela percebe isso como obrigação.

Nas questões mais importantes, que são a saúde e a educação, o prefeito não conseguiu modificar. E não vai modificar, porque os secretários não foram trocados e esse é o estilo de eles fazerem política.

A saúde vem sofrendo muito. Estamos falando de vidas, as pessoas estão morrendo nos Cais,  não conseguem consulta, as crianças estão sofrendo. Isso a população não esquece.

Augusto Diniz – Nem mesmo se ele conseguir entregar as obras que está tocando neste terceiro ano de mandato, ou parte delas, ele se fortalecerá?
Isso não garante a ele a vitória, como está pensando.

Rodrigo Hirose – A sra. diz que o prefeito Iris Rezende é o candidato mais fácil de ser batido em um segundo turno. Nas eleições presidenciais, dizia-se o mesmo do presidente Jair Bolsonaro (PSL). A oposição não está subestimando a força eleitoral prefeito?
Pelo contrário, subestimando jamais. Tanto que é o candidato que já sai na frente de todas as pesquisas, mas as pesquisas mostram também que é o mais rejeitado. O problema é ele conseguir vencer no primeiro turno e não ser possível fazer o debate polarizado no segundo turno.

Rodrigo Hirose – Com as novas regras eleitorais, a tendência é termos muitos candidatos a prefeito. Isso aumenta ou diminuiu as chances de que ele vença no primeiro turno?
Eleitoralmente, e estamos falando a um ano da eleição, para a oposição e os independentes o ideal era se fortalecer em torno de uma candidatura. Ele é o favorito, mas, se a oposição se reunir, do PT ao PSDB, poderíamos ter uma vitória eleitoral.

“Os grandes partidos deveriam se unir em torno de uma candidatura a prefeito em 2020” | Foto: Augusto Diniz/Jornal Opção

Os partidos menores, até por questão de sobrevivência, lançarão suas candidaturas próprias, por causa da cláusula de barreira. Mas os grandes partidos teriam de se unir em torno de uma candidatura.

Augusto Diniz – Então há essa consciência de que quanto mais candidaturas houver na oposição, mais o Iris se fortalece eleitoralmente?

Com certeza.

Augusto Diniz – O prefeito teve muita dificuldade até definir quem seria o líder na Câmara de Vereadores. Passou-se quase um ano até ele escolher o Tiãozinho Porto (PROS) e agora é o Oséias Varão (PSB). Como presidente da Comissão de Constituição e Justiça, como a sra. avalia a atuação desses dois líderes e essa demora do prefeito de decidir quem seria o seu líder na Casa?
Como um descaso do prefeito em ter uma boa comunicação com a Câmara. Foi um ano em que houve vários problemas, o prefeito não tinha maioria para qualquer tipo de debate, porque faltava a conexão com o Paço [Municipal]. Havia secretários que não dialogavam bem com os vereadores. Isso começou a mudar a partir de quando o Tiãozinho Porto foi colocado como líder.

São perfis completamente diferentes. O Tiãozinho Porto é conciliar e conversa bem com todos. O Oséias é mais técnico. Na CCJ, por exemplo, tive mais a presença do Oséias enquanto líder. Hoje vemos um debate mais técnico nas comissões e no plenário.

Rodrigo Hirose – Faltava conexão do líder do prefeito com a Câmara ou recursos para a Prefeitura investir, se tornando atraente para os vereadores?
Faltava interesse da Prefeitura em estabelecer essa conexão política, de bandeira e projetos da Prefeitura. A gente [vereadores] carrega demandas da população, nenhum vereador vai à Prefeitura resolver um problema particular. Quando ele vai lá, está representando uma série de pessoas. E a Prefeitura simplesmente ignorava esses anseios, que não são do vereador, são da população.

Nós estamos em contato com a base diariamente, sabemos o que aquela população precisa. São coisas mínimas, como uma faixa de pedestre, instalação de um semáforo, poder uma árvore. Coisas básicas do dia a dia e que a Prefeitura simplesmente ignorava por ser enviadas pelos vereadores.

Elisama Ximenes – Havia muitas queixas dos vereadores em relação aos secretários, hoje não há mais. O que houve?
Teve um processo de gestão do Paulo Ortegal, chefe de gabinete da Prefeitura, para que os vereadores fossem atendidos. Por isso, há menos reclamações, mas ainda tem, principalmente na área da saúde.

“Na gestão do Andrey, a gente percebeu manobras para facilitar o processo legislativo para o Paço Municipal. Com o Policarpo, há mais independência da Câmara”

Augusto Diniz – O que mudou na gestão da Câmara, da presidência do Andrey Azeredo (MDB) para a do atual presidente, Romário Policarpo (sem partido)?
É uma Câmara mais independente. Na gestão do presidente Andrey, em alguns debates importantes, como a Lei do IPTU, a gente percebeu algumas manobras para facilitar o processo legislativo para o Paço Municipal, havia interferência em algumas comissões.

Hoje, o presidente Romário Policarpo se mantém independente como presidente. Na discussão do Código Tributário, foi pedido que ele avocasse o projeto da CCJ, mas ele garantiu que não iria fazer isso. É uma maneira de manter as prerrogativas da Casa, nossa independência e o tempo para fazer as discussões necessárias.

Augusto Diniz – O que tem de projeto importante na CCJ hoje?
O grande projeto que irá entrar em pauta é o Plano Diretor. No primeiro semestre, discutimos praticamente somente o Código Tributário. Muitas pessoas reclamam da demora, mas se esquecem de que houve uma troca na comissão a partir de janeiro. Então tivemos de rediscutir o Código, são mais de 200 artigos, é um trabalho exaustivo.

Foram apresentadas quase 50 emendas e caberia mais, pois é um Código muito arrecadatório, só pensa na Prefeitura, não pensa no contribuinte, que é tratado sempre como vilão. Tentamos fazer a correção dessas distorções.

Como o Plano Diretor, o trabalho será o mesmo. Tive uma reunião com os membros da CCJ para tratar da tramitação do plano, que é fundamental para a cidade, assim como o Código Tributário.

Esse será o grande legado dessa legislatura: entregar o Código Tributário, que o atual é da década de 1970, e terminar a análise do Plano Diretor.

Condomínio Alphaville: Código Tributário mudará a cobrança do IPTU | Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

Marcos Araken – O há de mais importante nesse novo Código Tributário?
Ele mexe totalmente com nossa política fiscal e tributária do município. Ele trouxe grandes conquistas, como a saída das zonas fiscais. Hoje o IPTU é baseado em zonas fiscais, o que é injusto. Você tem o Alphaville e o Vale do Araguaia, que são dois bairros divididos por um muro. Só que ambos, hoje, pagam a mesma alíquota [de IPTU]. Isso é injusto.

Com a alteração, o IPTU será baseado no valor dos imóveis, o que garante justiça fiscal. É claro que as alíquotas ainda estão pesadas, mas só de fazer a mudança, acabando com as zonas fiscais, já há uma melhora.

Em relação ao ISS, a Prefeitura aumentou demais para algumas categorias e tem cobrado para entidades que não pagavam antes, fez uma bagunça e aumento a pressão sobre os contribuintes. Há algumas correções que devem ser feitas.

Foi um código pensado para quem arrecada, para arrecadar mais. Temos de fazer esse equilíbrio na Câmara.

Rodrigo Hirose – Arrecadar mais significa que o contribuinte pagará mais?
Exatamente.

Augusto Diniz – Como fica a discussão se o prefeito Iris tomou a decisão de retirar o Código da Câmara no final do semestre?
Fica paralisada, o que é um erro, única e exclusivamente por causa de briga na base. Como que os vereadores deixam seus interesses pessoais influenciarem em uma lei tão importante?

Augusto Diniz – Há alguma sinalização da base ou da Prefeitura de retomar a discussão do projeto?
O que escutei é que a Prefeitura fará um esforço para mandar o Código novamente para a Câmara. Mas, só se a base se entender em seus conflitos.

Marcos Araken – Há prestadores de serviço da capital que estão instalados na Grande Goiânia, por causa de incentivos fiscais, especialmente em relação ao ISS. É possível afirmar que, se o sistema tributário da capital fosse mais justo, haveria uma atração desses contribuintes, aumentando a arrecadação?
É nisso que a gente acredita. Não adianta a Prefeitura cobrar 5% de ISS de hospitais e clínicas, pois, se o empresário cruzar a Avenida Rio Verde, vai pagar 2,5% em Aparecida de Goiânia. O sistema da Prefeitura está afugentando os empreendedores de Goiânia.

Temos de diminuir as alíquotas, para ter mais contribuintes. Não adianta cobrar muito e poucos pagarem. Temos de cobrar um valor justo para todos pagarem. Mas o que o Código Tributário faz é justamente o contrário, aumento as alíquotas do ISS, e vai afugentar ainda mais quem traz emprego e renda para o Município.

Augusto Diniz – A proposta do Plano Diretor chegou à Câmara com mais de dois anos de atraso e a CCJ decidiu dividir a relatoria entre sete vereadores, uma situação inédita. O projeto tem cerca de 2,5 mil páginas. Quanto tempo será necessário para analisar todo esse projeto?
Alguns vereadores acreditam que seis meses, eu acredito que levará pelo menos um ano para fazer uma análise profunda. Agora, pode ser que a base consiga aprovar antes se quiser ser um rolo compressor. Mas aí, infelizmente, não entregaremos para a população o que é necessário.

O Plano Diretor mexe com toda a população, projeta a cidade para os próximos dez anos. A população deveria participar [das discussões], mas não participa. O papel da Câmara seria simplificar a leitura do Plano e fazer audiências públicas descentralizadas nos bairros.

O debate técnico já foi feito, mas não adianta os técnicos dizerem em uma determinada região o que é preciso, se a população achar que outra coisa é necessária. O debate técnico já foi feito, agora é preciso ouvir a população e a Câmara fazer disso um resultado positivo no Plano Diretor.

A CCJ vai tentar fazer esse processo. Já falei isso com o vereador Lucas Kitão (PSL), que é o presidente da Comissão Mista, para que tenhamos trabalhos coordenados, para darmos uma celeridade na tramitação, mas sem fazê-la a toque de caixa.

Augusto Diniz – O projeto foi disponibilizado no dia 19 de julho, no site da Câmara. Já foi possível fazer uma avaliação, ver se há algum ponto preocupante?
A expansão urbana que foi proposta privilegia apenas uma região. Temos de ter mais polos de desenvolvimento, levar emprego e renda para a periferia.

Também foram propostos três índices de ocupação (baixo, médio e alto). É preciso rever isso. Há algumas questões de ocupação no Parque Flamboyant e no Jardim Goiás. Tudo isso deve ser revisto.

Rodrigo Hirose – Qual é essa região?
Jardim do Cerrado.

Rodrigo Hirose – E por que essa região foi privilegiada?
Estamos tentando [entender]. Fazer leitura de mapa é complexo para quem não é da área e os mapas que foram entregues têm qualidade péssima. Solicitei à Prefeitura que repasse esses mapas em mídia digital, para que possamos entender quais são as áreas incluídas e se o critério foram os mesmos para outras regiões.

Augusto Diniz – Essa questão de haver apenas uma área de expansão urbana parece ser contraditória, pois o secretário Henrique Alves [Planejamento Urbano e Habitação) defendeu que o plano seria feito com base nos eixos de mobilidade e ocupação dos vazios urbanos existentes. Onde está a incoerência nisso?
A Prefeitura colocou a expansão e o polo de desenvolvimento na região do Jardim do Cerrado, que realmente tem uma área que é um vazio urbano. Na região Leste, temos a mesma situação na região do Irisville. Há um vazio e essa área não foi incluída na expansão nem em um polo de desenvolvimento. Qual é o critério utilizado? Vamos rever esses critérios e entender se a área deve ser mantida ou retirada [da expansão urbana].

Ordenamento e o crescimento da cidade têm de passar pelos vereadores, teremos de chegar a um consenso, para a gente entender a cidade que a gente quer.

Rodrigo Hirose – O Plano Diretor foi enviado com dois anos de atraso. Na sua opinião, é necessário mais um ano para ser avaliado. Então, serão três anos de atraso. É bom lembrar que o Plano Diretor em vigor nunca foi colocado totalmente em prática. Não estamos, novamente, perdendo a oportunidade de realmente planejar uma cidade melhor?
O Plano Diretor [em vigor] não é ruim, só não foi executado. Depende de quem vai estar no comando da Prefeitura de Goiânia, de ter isso como um parâmetro e executar o que está sendo proposto. Não é a demora da análise que afetará isso; mas a vontade política de executar ou não.

Rodrigo Hirose – Há alguma mudança importante na questão da mobilidade?
Ainda não foi possível analisar profundamente essa questão, mas muito se fala e pouco se faz para a integração dos modais. Um grande exemplo são as ciclovias. Não adianta dizer que elas são, atualmente, um modal de mobilidade, pois elas não estão ligadas a terminais [de ônibus], não há onde deixar as bicicletas nem carrega-las nos ônibus.

Terminal de ônibus lotado em Goiânia | Foto: Danilo Bueno

Temos de apostar nos transportes de massa, o que não é feito pela Prefeitura de Goiânia. Só poderemos falar em mobilidade quando invertermos a lógica: dar qualidade ao transporte de massa e deixar caro ter um carro. É isso que ocorre nos países em que a mobilidade é melhor.

Augusto Diniz – O presidente da Câmara Deliberativa do Transporte Coletivo (CDTC), Jânio Darrot, pretende levar adiante a proposta da criação de um fundo estadual para financiar as gratuidades do sistema. Como a sra. avalia essa possibilidade? Há facilidade de se discutir com a população o aumento do licenciamento anual de veículo para bancar isso?
A lógica, primeira, é de investimento público. Não sei se criando ou aumentando a taxa de licenciamento. Mas há essa distorção desde o governo federal, que dá isenção de IPI para carros particulares. Por que não há incentivo para os veículos de massa?

Na primeira prestação de contas do prefeito Iris na Câmara, perguntei quanto do orçamento ele destinaria ao transporte público. Ele disse que nada. Quem deve investir no transporte público, primeiramente, é o pode público. Caso seja necessário aumentar a taxa de licenciamento, acho que é válido. A gente tem de incentivar o transporte de massa e fazer com que o transporte individual seja uma exceção.

Marcos Araken – Como envolver os municípios da Região Metropolitana nessa questão da divisão de custos, quando há municípios com baixa capacidade de investimento?
A participação dos municípios tem de ser proporcional. Os que não têm condições têm de ser apoiados pelo Estado. Hoje isso é feito.

Quando o Passe Livre estudantil foi criado pelo ex-governador Marconi [Perillo], foi acertado que os municípios arcariam com 50%. Eles não conseguiram e o Estado assumiu os 100%. Então, é usar essa mesma lógica, aumentar o controle e rever algumas gratuidades que não são necessárias.

Rodrigo Hirose – Quando o Estado fala em sair dos órgãos gestores do transporte coletivo e devolver o Eixo Anhanguera para a Prefeitura de Goiânia, para que ela possa privatizar a linha, ele não está lavando as mãos e sendo omisso?
Claro. O Estado deveria chamar a discussão, ele tem esse poder. O Estado tem de ter um olhar específico em torno da mobilidade na Região Metropolitana. São 19 municípios contemplados pelo transporte.

Quando [o governador Ronaldo Caiado] fala que vai sair do transporte, está sendo omisso e vai prejudicar a população. A Metrobus é uma empresa viável. Ela tem a melhor linha. Só precisa melhorar e modernizar a sua gestão.

Augusto Diniz – Quando se fala em mobilidade, há também a questão do transporte aplicativo, que não é novidade mais, existe há pelo menos três anos. Segundo decreto do prefeito Iris para regulamentar o serviço, a fiscalização deve começar este mês, com possibilidade de multa. Há também projetos dos vereadores Andrey Azeredo e Carlin Café. O decreto do prefeito é realmente o ideal ou o projeto dos vereadores deve ser discutido?
O STF [Supremo Tribunal Federal] decidiu que a regulamentação deve ser feita por projeto de lei enviado pela Prefeitura. O decreto é um instrumento errado, porque está inovando na legislação, e já tenho um decreto legislativo para derrubá-lo.

Rodrigo Hirose – Essa é uma questão puramente formal ou há outros problemas no decreto do prefeito?
A questão jurídica é porque há uma incongruência legislativa. Mas a gente tem de discuti-lo. Um dos grandes problemas é exigir que o carro do motorista de aplicativo tenha, no máximo, dez anos. Vários motoristas têm me procurado, pois serão afetados.

Não podemos deixar os aplicativos de transporte sem regulamentação, mas deve ser feita da maneira correta: a Prefeitura envia e a Câmara tem a oportunidade de discutir com os interessados e fazer uma lei. Se o prefeito tivesse enviado o projeto para a Câmara quando editou esse decreto, provavelmente ele já teria sido votado. Não entendo o porquê de o prefeito não ter feito isso.

Rodrigo Hirose – Por que em Goiânia essas coisas são tão morosas? Vemos agora, por exemplo, a discussão em torno das patinetes elétricas. Vários municípios já regulamentaram o serviço e, aqui em Goiânia, nada foi feito ainda. Por que essa demora em resolver problemas que atingem diretamente a vida do cidadão?
É um reflexo do gestor, do prefeito. Estamos falando de novidades, uma era em que todo dia há uma revolução. Infelizmente a Prefeitura não consegue acompanhar. O chefe do Poder Executivo não consegue acompanhar essas novidades e há essa demora.

Augusto Diniz – A novidade do Iris ainda são as trincheiras e viadutos?
Exatamente. Ainda é essa lógica, que não resolve.

Marcos Araken – Existe uma falta de representatividade dos motoristas de aplicativos e uma forte representação dos taxistas na Câmara?
Essa influência [dos taxistas] existiu, com toda certeza, na Prefeitura de Goiânia. Quando se discutiu o decreto do Uber, a foto do prefeito foi com os taxistas. Esse decreto em momento foi discutido com os motoristas de aplicativo e, muito menos, com a população, que é quem usa e quer.

Na primeira discussão, a Prefeitura retirou o decreto na Câmara, discutiu com os motoristas d e aplicativo e fez algumas mudanças. Só que, agora nas férias, incluiu novos artigos, que prejudicam ainda mais esses profissionais. A Câmara hoje funciona como ponto de pressão a favor dos motoristas de aplicativo.

Marcos Araken – O Jornal Opção entrevistou alguns pré-candidatos a prefeito de Goiânia. Um assunto que deve voltar à discussão a criação de administrações regionais na capital. A cidade é tão grande e difícil de administrar que é preciso essa gestão descentralizada?
Falar em subprefeituras é uma bobagem, pois aumenta a máquina pública. Estamos na era da tecnologia, meu mandato em um aplicativo (chamado Goiânia do Meu Coração) e qualquer pessoa da cidade pode fazer a foto de um buraco, fazer uma denúncia. O que precisamos é investir em tecnologia, fazer com que a Prefeitura esteja dentro da casa das pessoas por meu de um celular, tablet, computar ou televisão, e não criar uma estrutura, criar cargos.

Em Goiânia, o índice de uso de smartphone é muito alto. A pessoa pode mandar uma reclamação à Prefeitura da porta do Cais. Se ela não tiver um smartphone, pode usar outro meio e fazer sua reclamação.

Augusto Diniz – A Prefeitura tem um problema grave desde o início da gestão, que é a concentração do atendimento pediátrico no Cais de Campinas. A Prefeitura anunciou a contratação de pediatras, mas a procura foi muito baixa. Como está essa situação? O que os vereadores apresentam de solução para resolver isso?
Um dos primeiros projetos que apresentei foi a descentralização do atendimento pediátrico, mas foi vetado pela Prefeitura, que alegou que o atendimento já era descentralizado. Infelizmente, os vereadores votaram pela manutenção do veto.

Não adianta a Prefeitura contratar 50 pediatras e mantê-los em dois Cais, como é hoje. Estamos falando em moradores da periferia, que são os que usam a saúde pública. Estamos falando de uma mulher que pega o ônibus à noite para levar uma criança doente para o Cais de Campinas. Isso não existe. O pediatra tem de estar em todas as regiões.

O segundo ponto é que o edital de chamamento desses médicos é muito ruim, pois coloca toda a responsabilidade em cima dos médicos e tira da Secretaria Municipal de Saúde. Não podem faltar insumos. A Prefeitura pode colocar o salário que quiser, que o médico não virá para assumir a responsabilidade pelo caos de uma gestão que deixa faltar dipirona, máscara e equipamentos.

Augusto Diniz – Mas legalmente é possível incluir esse tipo de responsabilização a um profissional em um edital de chamamento?
Acredito que isso é contestável, mas a Prefeitura fez esse edital e a maioria dos médicos não quis correr o risco.

Rodrigo Hirose – Vários municípios da Grande Goiânia têm seus próprios hospitais municipais. Aparecida de Goiânia acaba de inaugurar o seu. Não passou da hora de Goiânia ter um hospital municipal?
Goiânia é a única capital [brasileira] que não tem leito de UTI própria, depende toda da rede conveniada e do Estado. Infelizmente, é uma escolha da Prefeitura. Por isso acredito que o calcanhar de Aquiles é a saúde e isso não vai mudar, pois seria preciso mudar de paradigma: construir um hospital, descentralizar, ter o atendimento na ponta. Hoje, o sentido que o prefeito Iris dá é o contrário.

Augusto Diniz – Caberia uma proposta de pactuar um convênio com a Prefeitura de Aparecida de Goiânia para que o morador da capital pudesse utilizar o hospital que foi recém-inaugurado [pelo prefeito Gustavo Mendanha]?
A Prefeitura de Aparecida está dando um banho na Prefeitura de Goiânia. São gestores com perfis completamente diferentes. Esse processo de as pessoas irem a Aparecida buscar atendimento, já começou.

[Uma parceria] pode ser uma saída para o prefeito Iris para resolver os problemas da saúde, especialmente na questão das UTIs e atendimento primário.

Marcos Araken – Qual é o grande problema da regulação? É falta de tecnologia? Falta de leito?
A falta de leito é um dos componentes, mas o principal problema é a falta de investimentos e de tecnologia. Na CEI da Saúde, levei um requerimento para que o Estado assumisse a regulação. O Estado tem uma central de regulação fantástica, tecnológica e integrada. É possível ver on-line se há uma UTI desocupada. Mas o prefeito Iris foi contrário e a base aliada atuou contra esse pedido.

Augusto Diniz – Goiânia tem um problema histórico, que é a emissão do chequinho, documento que autoriza as consultas e cirurgia. Primeiro, a Prefeitura comprou um software e distribuiu nas unidades de saúde. Depois a Prefeitura centralizou a emissão do chequinho no Paço Municipal. Como está essa situação e no que isso melhorar ou dificulta o atendimento?
Hoje as pessoas não conseguem fazer exame de alta complexidade em Goiânia. Cirurgia, então, esquece. Na gestão do Leonardo Vilela [ex-secretário estadual de saúde], havia vagas disponíveis no HGG [Hospital Geral de Goiânia] que não eram utilizadas pela Prefeitura de Goiânia. Havia vaga, mas não havia organização da Prefeitura de Goiânia para ocupa-las.

A centralização [da emissão de chequinho] foi pensada para diminuir as fraudes que existiam. Mas a população continua não tendo acesso ao atendimento e não sei se o combate às fraudes foi efetivo.

Rodrigo Hirose – Quais são as demandas que a sra. mais recebe por meio desse aplicativo que o seu mandato disponibiliza?
Duas grandes demandas são a saúde e tapa-buracos e asfaltamento. Em terceiro, vagas em escolas e CMEIs.

Marcos Araken – A sra. tem vontade de ser prefeita?
Claro (rs). Esse é meu maior objetivo.
Marcos Araken – Em 2020?
Mais para frente, ainda está cedo.

Marcos Araken – Por quê?
[Preciso] ter mais experiência, consolidar o trabalho. Fui candidata [a vereadora] de última hora e a população confiou em mim. Tive uma votação expressiva. Quero conhecer melhor a cidade, todo fim de semana estou em um bairro diferente, quero conhecer as demandas da população e representar, na Câmara, aqueles que são esquecidos, invisíveis, que muito provavelmente o poder público nunca chegará até eles.

Marcos Araken – Existe um movimento entre os vereadores para terem um nome entre eles para disputar a Prefeitura, como o Romário Policarpo, por exemplo?
Não vejo esse movimento fortalecido na Câmara. O que tenho percebido é um movimento em relação ao [senador] Vanderlan Cardoso. Ele diz que não quer ser candidato, mas acredito que seria um nome, o [ex-prefeito de Aparecida] Maguito Vilela, o [deputado federal] Elias Vaz e o [deputado federal] Francisco Júnior.

“O Vanderlan é o nome ideal para disputar a Prefeitura” | Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

Augusto Diniz – Entre esses nomes, a sra. publicamente está mais próxima ao Vanderlan. Ele é o nome ideal?
Sim, seria o nome ideal. Fora ele, tem o Maguito, que é experiente, fez uma boa gestão em Aparecida, e traria o MDB. Mas o grande nome seria o do Vanderlan.

Augusto Diniz – Mas a sra. vê chances do Maguito disputar a eleição, tendo em vista que o Iris deve ser o candidato e tem o apoio do governador Ronaldo Caiado?
Acho muito difícil [o Maguito ser candidato].

Rodrigo Hirose – E quais as chances de o Vanderlan deixar o Senado para tentar novamente a Prefeitura de Goiânia ou o projeto dele é para 2022?
Ele tem se interessado muito pela política em Goiânia. Todas as vezes em que ele me demandou foi no sentido de entender as demandas, saber as expectativas. Tivemos uma reunião com o prefeito Iris, e o Vanderlan vai trazer recursos para a Leste-Oeste, o BRT, uma unidade de saúde no Jardim Curitiba, que eu solicitei. Ele está se movimentando em Goiânia. Não falo por ele, mas tem despertado interesse e eu fico muito feliz.

Augusto Diniz – Na última prestação de contas do prefeito Iris, a sra. reclamou do fim do tempo integral nos CMEIs. Como está a situação dessas crianças que foram levadas para as escolas regulares de ensino fundamental, que não têm a estrutura física nem equipe específica para trabalhar com essas crianças?
Essa decisão causou muitos problemas para as famílias. Parte desse pessoal teve de contratar uma escola no contra turno, para que pudesse trabalhar. A CEI da Educação apurou que existe uma falta de qualidade, essas escolas não estavam preparadas, foram feitos arranjos. Infelizmente, essas crianças ficaram prejudicadas.

Na campanha, o prefeito Iris prometeu a ampliação do ensino de tempo integral, mas ele tem feito o contrário: tem diminuído o tempo integral para criar mais vagas e dizer que está diminuindo o déficit de vagas.

Rodrigo Hirose – As crianças estão se adaptando bem nas escolas modulares, feitas em contêineres?
Visitei alguns desses contêineres. São muito quentes, são necessários dois aparelhos de ar-condicionado para manter a temperatura ideal. Eles não tinham cortina e sol incidia diretamente sobre as crianças. E o custo foi muito alto. Uma sala modular custou, em média, R$ 80 mil. Com esse valor, é possível construir uma sala de alvenaria, que vai durar por muitos anos.

O contrato de manutenção dessas salas é de um ano. Será que após esse período a Prefeitura terá capacidade técnica de manter esses contêineres ou terá de contratar a empresa novamente? Foi uma escolha política e um gasto público mal feito, tratando a educação como algo temporário.

Outro exemplo de má qualidade no gasto público é no fornecimento de transporte escolar para as crianças. Anualmente, gasta-se R$ 15 milhões. Com esse valor, era possível construir uma escola no bairro desses alunos.

Augusto Diniz – Essas salas modulares não deveriam ser uma medida paliativa, usada por um tempo específico?
O que a gente tem percebido é que elas ficarão como algo perene. Estive no Corpo de Bombeiros, que farão uma visita [às escolas que têm esse tipo de sala]. Não há uma regulamentação para esse tipo de instalação. Quando fui lá, havia chovido, e estava vazando água.

Não há uma qualidade bacana para se colocar um filho. São crianças de três, quatro anos. Há apenas uma porta pequena de saída. Vimos o que ocorreu no Flamengo [no início do ano, dez jogadores da base morreram em um incêndio], se ocorre alguma coisa, como vai ser a saída de emergência dessas crianças.

Rodrigo Hirose – O prefeito prometeu, em campanha, diminuir o déficit de vagas em CMEIs. Porém, há muitas obras paradas. Como está essa situação?
Depois que o Ministério Público Federal entrou com uma ação de improbidade administrativa contra o secretário [da Educação] Marcelo Costa e o prefeito por causa dessas obras paradas, a Prefeitura retomou. Foram identificadas nove obras paradas, que estavam quase prontas. Por que deixa-las deteriorar, para se gastar mais dinheiro público?

A Prefeitura tem dito em sua propaganda que está diminuindo o déficit, colocando crianças em contêiner e tirando do tempo integral e passando para meio período.

“Antes, a gente via a presença constante da Dona Iris no Paço. Hoje, a gente nem ouve falar”

Augusto Diniz – No início da gestão, falava-se muito da presença da [primeira-dama] Dona Iris na gestão. Isso ainda acontece ou mudou após ela não tem tido êxito na eleição para deputada federal?
Hoje a gente não percebe nem ouve falar da presença dela no Paço. Antes, a gente via a presença constante dela. Mas estive no Paço três vezes após a eleição e ela não estava lá. Acredito que ela realmente não esta mais interferindo como esteve no início do mandato.

Augusto Diniz – Na pré-campanha de 2016, a sra. e sua mãe [a ex-vereadora Cida Garcêz] eram candidatas. Mas sua mãe teve um impedimento e desistiu. Ela ainda pensa em voltar a ser candidata a algum cargo?
Minha mãe passou por duas cirurgias por causa de câncer, na tireoide e na coluna, o que a deixou com mobilidade reduzida. Quando a gente se deparou com uma campanha de um mês e meio, [concluímos] que a saúde dela não a permitiria enfrentar a eleição.
Tenho uma irmã de 13 anos e minha mãe está se dedicando a ela, pois a adolescência é uma fase muito difícil. Mas minha mãe é muito jovem, tem um pensamento político fantástico e carisma, se quiser voltar, as portas estarão abertas.

Augusto Diniz – Há alguma área que representa um avanço do prefeito? E alguma outra que represente problema, além das já citadas?
Um avanço, que não foi construído por ele, mas pelo ex-prefeito Paulo Garcia [2010/2016], foi o Alvará Fácil, que está sendo implantado.

A Comurg tem um grande problema, que está sendo resolvido apenas cortando salários e gratificações de quem ganha pouco. Além disso, o aterro sanitário está com sua vida útil no fim. A Comurg também tem de ser informatizada.

Também estou recebendo muitas denúncias de licitações problemáticas, com indícios claros de superfaturamento. A Prefeitura tem de tomar conta disso, pois é dinheiro público.

Augusto Diniz – A sra. citou a gestão do ex-prefeito Paulo Garcia, que terminou o mandato em situação financeira muito ruim, inclusive paralisando serviços básicos, como a coleta de lixo. Houve alguma injustiça com o legado do Paulo Garcia? No futuro vamos olhar a gestão dele de uma forma menos pesada ou de fato ela foi tão ruim como muita gente fala?
A gestão do Paulo não foi ruim como se fala. Na época estava na juventude partidária e, apesar de minha mãe estar na base dele, fui muito crítica ao Paulo Garcia. Mas hoje a gente percebe que o Iris assumiu, com muito mais experiência e tempo de gestão, e patinou nos mesmos problemas.

O Paulo trouxe uma modernização da Prefeitura, com a questão dos alvarás, as ciclovias e ciclofaixas, que apesar de não integrar um modal, foram importantes para a cidade, para começar a mudar o pensamento de mobilidade da cidade. Essas foram grandes contribuições da gestão Paulo Garcia.

“O Paulo Garcia pegou uma gestão já caótica financeiramente. Agora, o Iris joga toda essa carga para cima dele”| Foto: Fernando Leite/ Jornal Opção

A injustiça maior é quando a atual gestão fala do déficit que Paulo Garcia deixou, colocando isso na conta dele, o que não é verdade. O Paulo Garcia pegou uma gestão já caótica financeiramente e, em nenhum momento, foi para cima do prefeito Iris ou fez algum tipo de acusação.

Agora, o Iris joga toda essa carga para cima do Paulo Garcia. O que não é verdade, principalmente na questão da Previdência. Iris foi prefeito desde 2004, não pagava a Previdência, não fazia os repasses.

O prefeito Iris criticou muito o Paulo Garcia em relação ao aumento do IPTU e a primeira coisa que fez, de maneira velada, foi o aumento do imposto, com a retirada dos deflatores. Esse grupo político fez as principais coisas que criticava no Paulo Garcia.

Augusto Diniz – No início da gestão do Iris, discutiu-se muito a situação da infraestrutura da Marginal Botafogo e a Prefeitura falou muito em expandi-la. A Prefeitura abandonou essa discussão?
Ainda discute, tanto que há um problema de desapropriação de casas de alguns moradores da região. Mas o grande foco do prefeito é terminar o BRT e a Leste-Oeste, pois ele abriu um grande canteiro de obras em Goiânia e, se não conseguir concluir, será problemático.

Augusto Diniz – Vai dar tempo de o prefeito entregar todas essas obras, especialmente o BRT? Não seria melhor ele continuar o projeto do Paulo Garcia ao invés de abrir obras na outra ponta de Goiânia?
Acredito que não. Isso é a velha política, querer mostrar serviço no último ano, véspera de eleição, colocar máquinas na rua para dar impressão de que a Prefeitura está resolvendo os problemas da população.

Se fosse gestora, terminaria o que se começou. Não adianta estar em uma ponta e começar a abrir obra em outra. Estamos prejudicando o trânsito para os moradores. Não vai entregar a obra.

O prefeito começou a fazer viaduto, que sabemos que é uma obra com prazo de validade de cinco anos e não resolve o problema da mobilidade. Infelizmente, essa é aposta de um gestor arcaico com projetos arcaicos.

Augusto Diniz – Mas qual é a importância do BRT para a população?
A mobilidade. Se conseguir entregar, vai ligar Goiânia nos sentidos Norte-Sul e Leste-Oeste, com o Eixo-Anhanguera, de uma maneira fantástica. Será possível cruzar a cidade com esses dois eixos.

“A gestão Caiado está totalmente perdida, não conseguiu mostrar qual é o seu projeto para o Estado”

Augusto Diniz – Qual avaliação a sra. faz desses sete primeiros meses da gestão do Ronaldo Caiado?
Uma gestão completamente perdida, que não consegue resolver as principais coisas. Grandes conquistas da população estão sendo deixadas de lado, como o Vapt Vupt, a Metrobus e as rodovias. A UEG está sofrendo um desmonte. Os servidores públicos têm reclamado da falta de estrutura e do pagamento, que o governo não conseguiu estabelecer uma rotina e nem terminar o pagamento de dezembro.

A gestão não conseguiu mostrar a que veio, qual é seu projeto para o Estado e o que o governador deseja. Ele ainda está na disputa política.

Augusto Diniz – E qual sua avaliação do governo Bolsonaro?
Também está patinando. A grande conquista é a reforma da Previdência, que se deve ao presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia. É um debate necessário para o País. O presidente Jair Bolsonaro tem de apegado a debates periféricos, que não vão resolver o problema da população.

Augusto Diniz – Como profissional do Direito, como a sra. vê a polêmica entre o presidente Bolsonaro e o presidente da OAB, Felipe Santa Cruz?
Parece que as pessoas tiveram uma amnésia do que foi o período da ditadura. Temos primos de 15 anos de idade que a tratam como algo corriqueiro. Há quem diga que [o regime] “pegou o cara porque era malandro”. Jamais podemos perder a memória histórica, mas infelizmente o presidente Jair Bolsonaro trata o assunto como se fosse algo menor, se não fosse um período crítico que o País passou.

“Só uma mulher sabe o que é pegar um filho doente, coloca-lo em um ônibus de madrugada para levá-lo a um Cais; só uma mulher sabe a dificuldade de fazer um pré-natal, ser violentada no transporte público.”

 Augusto Diniz – Na última eleição, houve uma diminuição na representação da mulher em todo o Brasil. Como é ser vereadora em Goiânia?
Sou uma privilegiada em relação a tantas mulheres que têm vontade de ocupar esse espaço, mas não consegue acessá-lo por causa de uma série de problemas históricos, como o financiamento de campanha, ausência de fala nos partidos políticos e estar na direção partidária.

Mas traz também uma responsabilidade maior, quando a gente discute a cidade na perspectiva da mulher. A importância da mulher na política é conseguir fazer políticas públicas que atendam as mulheres. Volto ao exemplo: só uma mulher sabe o que é pegar um filho doente, coloca-lo em um ônibus de madrugada para levá-lo a um Cais; só uma mulher sabe a dificuldade de fazer um pré-natal, ser violentada no transporte público. Nós temos de ocupar esse espaço para que a gente consiga transformar isso em políticas públicas.

Como a maioria das pessoas que estão lá não sente isso, esse não é o olhar da política. A gente tem de estar lá e esse é um peso maior, porque temos de representar os vários problemas que uma mulher enfrenta no dia a dia em sua vivência na cidade.

Augusto Diniz – A Câmara tem a sra., a Dr. Cristina, a Priscila Tejota, a Tatiana Lemes e a Leia Klebia. É difícil  discutir pautas e projetos, não só os voltados para as mulheres, ter voz para discutir em igualdade com os outros vereadores?
Eu e o Kitão somos formados pela PUC e ele foi meu calouro. Eu estava disputando a eleição da CCJ e ele, a da Comissão Mista. A única que foi questiona sobre a capacidade para assumir um espaço fui eu. O Paulo Magalhães, que depois me pediu desculpas e hoje é quem mais me defende na Câmara, falou em um jornal que eu não teria capacidade. Nós, mulheres, temos de provar todos os dias nossa competência. Infelizmente os homens não precisam.

Rodrigo Hirose – Essa bancada feminina costuma atuar em conjunto, em pautas específicas?
Em algumas pautas, trabalhamos juntas. Mas percebo que hoje existe uma sensibilidade dos vereadores. A Câmara de Vereadores hoje é realmente voltada para essas políticas públicas. Mas eles [os demais vereadores] apoiam, nós [as mulheres] é que temos de propor, pois somos nós que sentimos isso. Mas conseguimos ter uma ressonância na Câmara.

Augusto Diniz – A cota de gênero é necessária ou está sendo usada de forma errada?
A cota não garantiu o aumento de mulheres nos postos de mandato e ainda inviabiliza outras candidaturas, o que força os partidos a criar as candidaturas fictícias. O que deveria existir era uma cota na eleição, garantindo esse espaço nos partidos e nos partidos.

Quando o financiamento era privado e agora, com o financiamento público, as mulheres continuam recebendo menos recursos para campanha, porque quem está no comando dos partidos são os homens. Se houvesse uma disputa de cadeiras só para mulheres, poderíamos começar a igualar a proporção, como ocorreu na Argentina. Podemos começar com 30%, aumentar aos poucos até chegar aos 50%. Aí, vai chegar o momento em que não será mais preciso essa disputa diferenciada.

Adriana Accorsi, única candidata a prefeita de Goiânia em 2015 | Foto: Divulgação

Augusto Diniz – Em 2016, havia apenas uma candidata a Prefeita, Adriana Accorsi. No ano passado, havia apenas uma candidata a govenadora, a Kátia Maria, presidente do PT. Isso comprova que quem manda de fato nos partidos são os homens?
Esse é um reflexo da política interna partidária, que é o que define. Passar pela escolha de um partido e conseguir garantir sua candidatura a um cargo Executivo é muito trabalhoso.

Rodrigo Hirose – Na última eleição, muitos candidatos a governador procuraram mulheres para as chapas. Era uma busca genuína ou apenas para cumprir uma representatividade politicamente correta?
É valiosa uma candidatura feminina para o partido político. Virou modinha. Não há uma construção efetiva de investimento nessas mulheres. Tenho um projeto chamado “No meu lugar”, que selecionará uma mulher para que tome todas as decisões do nosso mandato e acompanhar as sessões na Câmara durante uma semana, para dar uma oportunidade para essas pessoas terem contato.

Vamos fazer uma formação para as mulheres que querem ser candidatas. Tenho de fazer meu papel, não adianta só fazer um discurso. Estou juntando mulheres que querem ser candidatas, para que possamos escolher esse partido juntas.

Marcos Araken – Se o Vanderlan decidir ser candidato a prefeito e te convidar para a vice, a sra. aceitaria?
Na hora (risos).

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