“Infelizmente, a cultura do fogo é muito presente”

Em meio às tragédias ambientais, tenente-coronel do Corpo de Bombeiros alerta que o brasileiro não tem uma cultura de prevenção

Tenente-coronel Caramaschi: “O brasileiro leva a prevenção na brincadeira” | Foto: Fábio Costa / Jornal Opção

Considerada uma das instituições mais confiáveis pelos brasileiros, o Corpo de Bombeiros atua em diversas frentes: combate a incêndio, resgate de acidentados de trânsito, resgate de vítimas de acidentes ambientais e até mesmo no salvamento de animais domésticos.

A corporação tem também um importante papel preventivo, ao emitir certificados que comprovam a segurança de estabelecimentos, desde um shopping center até uma boate. Nessa entrevista ao Jornal Opção, o assessor de Comunicação dos Bombeiros em Goiás, tenente-coronel Fernando Augusto Caramaschi, dá dicas de segurança e pede um envolvimento maior da população e empresários.

Augusto Diniz – Quais são as dicas básicas de segurança que os Bombeiros dão às pessoas nesse período chuvoso?
Prever uma estrutura abalada é complicado, mas, de maneira geral, a recomendação é muito cuidado nas baixadas, onde há uma canalização de todas as águas de uma chuva. Sejam em rodovias, onde passam os rios, ou nas cidades, sempre há essas baixadas, e o volume de água todo é canalizado para esse local para chegar aos rios.

Infelizmente, temos perdido pessoas que se aventuram, achando que dá para passar de carro ou de moto e, quando se deparam com a força da água, não conseguem se segurar e são arrastados. As bocas de lobo e os sumidouros causam uma correnteza muito grande. É praticamente impossível uma pessoa sair sozinha.

As tempestades têm um grande volume de água em pouco tempo. Durante esse período, é recomendável que as pessoas aguardem em um local seguro, principalmente os motociclistas. Perdemos uma criança em Arenópolis, no interior de Goiás, justamente porque o pai tentou atravessar [uma enxurrada].

Isso acontece porque as pessoas subestimam a força da água. É melhor chegar atrasado do que não chegar.

Rodrigo Hirose – Quantas áreas de risco existem em Goiânia e quais são as mais perigosas?
Esse mapeamento é de responsabilidade da Defesa Civil municipal. O Corpo de Bombeiros têm um papel secundário nesse dispositivo, porque coordena o Estado. Temos contato permanente [com a Defesa Civil municipal], eles têm todos os locais e famílias cadastradas e contato direto com elas.

Rodrigo Hirose – Qual é o nível de interação entre a Defesa Civil estadual e a municipal?
A Defesa Civil municipal conversa com o Estado, que faz a ligação com o sistema de Defesa Civil nacional. Sempre que há algum tipo de desastre, mandamos equipes para auxiliar. Há todo um rito também para solicitar verbas federais e também auxiliamos nisso, bem como ajudar na formação da Defesa Civil dos municípios. Houve um fortalecimento dos sistemas de Defesa Civil municipal, para que cada município soubesse de seus problemas, para poder intervir sem depender do Estado.

Augusto Diniz – Qual tipo de ocorrência e mais comum no período chuvoso?
Temos um grande número de ocorrências de queda de árvores, algumas de alagamento, em que as pessoas ficam ilhadas. De maneira geral, nessa época também há um grande número de afogamentos. São ocorrências que são evitáveis se as pessoas tomarem cuidado.

“Infelizmente, uma família é retirada de uma área de risco e, pouco tempo depois, outra ocupa o lugar” | Foto: Fábio Costa / Jornal Opção

Rodrigo Hirose – Quais são os bairros de Goiânia com maior número de ocorrência?
As margens do Rio Meia Ponte e do João Leite, caso ocorra um grande volume de água, pode trazer riscos às pessoas que por ali vivem. Em Goiânia, ao longo do tempo, ocorreram liberações de áreas para construções próximas ao leito de córregos. Há condomínios bem à margem, onde podem ocorrer desabamentos. A Vila Coronel Cosme é uma área de risco. São diversas áreas onde há algum tipo de problema ou em que pode haver em caso de um grande volume de água, que pode fazer o córrego subir.

O trabalho de cadastramento e descolamento de famílias é constante. Infelizmente, uma família é retirada e, em pouco tempo, outra família ocupa o mesmo lugar. Mesmo o cadastramento sendo constante, muitas vezes a Prefeitura não consegue impedir.

Augusto Diniz – Em dezembro, houve muitos casos de cabeça d´água nos rios de Goiás. Quais cuidados básicos as pessoas que frequentam esses locais têm de ter?
Esse fenômeno é muito rápido. Temos uma bacia hidrográfica e um turismo muito intenso, como na Chapada dos Veadeiros e em Pirenópolis. A primeira coisa que deve ser observado é o clima na cabeceira do rio, rio acima. Às vezes está sol no local em que se está, mas o tempo está fechado adiante, pode estar chovendo.

Ao chegar a um local para banho, observe o nível da água. Marque um ponto e verifique constantemente. Apesar de ser um fenômeno muito rápido, há um aumento no volume antes da cabeça d´água.

Um fator decisivo e que talvez seja o mais fácil de visualizar é que, quando a cabeça d´água começa a se formar, surgem detritos, folhagens e sujeira na água. Se a quantidade de folhas e galhos está aumentando, pode acontecer de estar vindo uma cabeça d´água.

É importante que não se use dessas águas no período chuvoso, pois há muito risco. A força da água é muito grande. O aumento do volume se dá de forma muito intensa. Mesmo sabendo nadar, não há muito que fazer.

Ton Paulo – Estivemos em Pontalina, onde houve o rompimento de uma barragem, e a moradora de uma área de risco disse que foi cadastrada. Mas, dias depois, ninguém entrou em contato com ela novamente. Como é feito esse acompanhamento?
Há quatro fases de trabalho: a prevenção, a construção, a resposta e a reconstrução. A Defesa Civil atua mais diretamente na resposta. Quando o Corpo de Bombeiros faz o cadastramento, ele é encaminhado às prefeituras, que são responsáveis por dar encaminhamento. Tem de ver cada caso específico. O Corpo de Bombeiros não tem como realocar essas pessoas, salvo em uma grande catástrofe, em que podemos levar as pessoas para um ginásio esportivo, por exemplo.

Por vezes, as pessoas precisam, mas não querem sair [da área de risco em que moram]. É muito comum voltarmos durante anos e as mesmas famílias continuam no mesmo lugar.

Ton Paulo – A corporação não pode fazer nada nesses casos?
Se for uma área de risco iminente, podemos interditar e retirar. Há níveis de risco. Se houver uma situação de que há sinais de movimentação de terra, que pode haver um desbarrancamento ou de que a água vai invadir, pode-se fazer a interdição. E o retorno só ocorrerá quando for detectado que não há risco.

Rodrigo Hirose – Como é feito esse monitoramento prévio para se identificar se há risco iminente e de retirada das pessoas?
Há um problema muito grande na mata ciliar. As pessoas foram invadindo essas áreas e isso fragilizou toda a estrutura. A movimentação de terra vai ocorrendo a cada chuva, afeta até mesmo o leito do rio e todo o ambiente. Mas, de maneira geral, é feito um “fatiamento”. O barranco que tinha 20 metros de distância de uma casa, chega a 10 metros, vai se aproximando. Observado isso, é feita a interdição e a pessoa é desalojada e a prefeitura deve encontrar um local para abriga-la.

Moradores de Pontalina caminham em meio ao caos deixado pela água da represa que rompeu. / Foto: Fábio Costa

Ítalo Wolff – O Corpo de Bombeiros tem um levantamento do número de barragens? Como é feito esse acompanhamento?
Temos um cadastro dessas barragens, mas a fiscalização não é atribuição do Corpo de Bombeiros. Quem autoriza a construção das barragens é a Secretaria do Meio Ambiente [Semad], que é responsável por fiscalizar se há impacto no meio ambiente e se a estrutura está em conformidade.

Rodrigo Hirose – Existe alguma documentação exigida pelo Corpo de Bombeiros para liberação da construção de barragens?
Não. O que temos é o cadastramento, pois, se houver rompimento, temos de saber qual é a área. A legislação exige que os proprietários das barragens criem mecanismos de alerta e que orientem as pessoas que podem ser afetadas, para evitar um mal maior no caso de alguma tragédia.

Deve haver um plano de emergência, que determine, por exemplo, para onde as pessoas devem ir, onde a água deve passar. É uma situação complicada, pois muitas barragens estão fora do conhecimento da corporação e da própria Semad.

Ton Paulo – Existe um período padrão para atualização do mapeamento das áreas de risco?
Esse trabalho é feito diante da resposta. Quando chove, é feita a relação das áreas alagáveis. No ano seguinte, pode haver mudanças, pois há novas construções, obras de infraestrutura, asfaltamento e várias situações que modificam o meio ambiente e faça surgir um novo local alagado.

Há uma densidade maior, há mais pessoas utilizando, a área verde, onde a água seria absorvida, diminui e, assim, aumentam os locais onde a água ficará parada.

Augusto Diniz – Muitas vezes, há até uma memória afetiva das pessoas em relação ao local ondem moram. É muito difícil lidar com essa situação e convencê-las de que devem mesmo sair?
Há, porque, muitas vezes, o local que vai ser ofertado [para nova moradia] é distante e toda sua vida está próxima. A pessoa se estabilizou em uma região por alguma facilidade e não quer abrir mão disso. A prefeitura, muitas vezes, destina uma casa em uma região distante. Então, a pessoa prefere correr o risco.

É comum ouvir as pessoas dizerem que preferem morrer que deixar o local onde sempre moraram. Às vezes as pessoas são retiradas, mas voltam logo após o fim do período chuvoso.

Ton Paulo – Normalmente as pessoas que vivem nessas áreas são mais vulneráveis socialmente.
Exatamente. Como as pessoas não conseguem ter uma moradia melhor nas proximidades, acabam ficando onde não deveria haver ninguém e colocando suas vidas em risco.

Rompimento da barragem em Brumadinho, MG

Augusto Diniz – O rompimento da barragem de Brumadinho completou um ano, inclusive Bombeiros de Goiás atuaram lá. Há alguns anos, houve também o rompimento da barragem de Mariana. O que foi feito desde então em relação aos cuidados em relação às atividades de mineração em Goiás?
De maneira geral, é a Secretaria de Meio Ambiente que tem de fazer a liberação das barragens. Em relação ao protocolo de resposta, mudou muita coisa. Brumadinho é a maior operação de Corpo de Bombeiros da história. As buscas estão sendo feitas há um ano, há corpos sendo encontrados a dez quilômetros de distância da barragem.

A coordenação e as técnicas de resgate evoluíram muito. Estamos bem mais preparados. Formatamos cursos para capacitar melhor nossos Bombeiros. Minas Gerais recebeu Bombeiros de Goiás, São Paulo, Espírito Santo. Houve um apoio muito grande da própria Vale. É uma ocorrência sem precedente, por isso foi um grande aprendizado.

Ton Paulo – Segundo os dados do próprio Corpo de Bombeiros, houve um grande aumento no número de registros de incêndios no ano passado, em relação a 2018. Por que isso ocorreu?
É difícil apontar uma causa específica. Há alguns sinais. Grande parte da causa dos incêndios é a ação humana. Quando há uma diminuição de casos em um ano, a vegetação cresce e a tendência é haver aumento no ano seguinte.

Mas, infelizmente, a cultura do fogo é muito presente. As pessoas, ao invés de fazer a roçagem de um lote, preferem colocar fogo. Ao invés de mudar um plantio, preferem limpar utilizando fogo. E isso é feito na pior época, em que o vento é mais forte, a umidade é baixa, a vegetação está desidratada e a temperatura elevada.

[Os focos] sempre estão muito próximos a fazendas. As pessoas utilizam o fogo, perdem o controle, e ele acaba atingindo reservas e o próprio patrimônio das pessoas.

Ton Paulo – O prefeito de Santo Antônio do Descoberto chegou a decretar calamidade pública no município por causa da quantidade de incêndios. A situação lá foi resolvida?
Temos a operação Cerrado Vivo, que começa agora. É um trabalho de conscientização junto aos fazendeiros e pessoas que estão no campo. Pedimos que não utilizem o fogo, mas é comum que eles utilizem. Então, mostramos como eles devem agir, ensinamos a usar abafadores, a fazer um aceiro bem feito.

Essa operação preventiva começa no período chuvoso. Em junho, julho, começamos a lidar com uma grande quantidade de incêndios, que chegam ao ápice em agosto.

O problema maior é a cultura. Este ano prendemos algumas pessoas. Mas mesmo a intenção, quando não é dolosa, pode ser culposa, porque ao tentar resolver o problema de uma fazenda, [o fazendeiro] acaba perdendo o controle e o fogo se alastra. Há momentos em que a corporação tem de trabalhar em várias frentes ao mesmo momento.

Augusto Diniz – Que tipo de punição existe, além da prisão, para quem é responsável pelo início de incêndio, mesmo que essa não tenha sido sua intenção?
Ele vai responder pelo crime ambiental e penal. Mas isso fica a cargo da polícia. É difícil identificar. Tivemos quase 10 mil focos de incêndio [em 2019]. Uma boa parte deles é dentro da cidade. A pessoa usa o fogo para limpar o lote e o risco de isso passar para o lote do vizinho e virar um incêndio urbano é grande.

Rodrigo Hirose – Outro aniversário trágico é o dos sete anos do incêndio na Boate Kiss. Na época, o Corpo de Bombeiros de Goiás fiscalizou várias boates e casas noturnas. Quem frequenta esses locais, em Goiânia, pode se sentir seguro?
Pode, desde que as pessoas verifiquem se o local está certificado. Goiânia tem uma situação peculiar, que surgem casas noturnas constantemente, às vezes à margem da legislação. As pessoas que frequentam devem de verificar se elas têm o certificado de conformidade. O certificado avalia se há saídas adequadas para a quantidade de pessoas, a lotação máxima do local e se o material de construção não é tóxico, como o da Boate Kiss – o que provocou a morte de muita gente rapidamente.

A legislação é preparar por nichos e é dinâmica. Os Bombeiros têm um serviço de perícia, que identifica a causa e verifica a necessidade de mudanças na legislação. Não é uma perícia criminal, que é de responsabilidade da polícia. Assim, fecha-se o ciclo: a prevenção, o incidente, a resposta e a perícia, que pode apontar melhorias na prevenção.

Não adianta nada, porém, se o Corpo de Bombeiros checarem que está tudo em ordem, emitir o certificado e depois o dono do estabelecimento fechar a saída de emergência com um cadeado. Esse foi outro problema na Boate Kiss.

O segundo passo importante é verificar se os dispositivos existentes não foram adulterados. Se existe a placa de extintor de incêndio, mas o equipamento não está lá ou se a saída de emergência está fechada com cadeado, é suficiente para a própria população denunciar.

É importante que a população seja, também, uma fiscal. A vistoria do Corpo de Bombeiros é feita uma vez por ano e com a casa não funcionando. Os equipamentos, os hidrantes, são testados. A responsabilidade do proprietário não termina nessa vistoria, ele tem de manter esses dispositivos funcionando durante o ano até a próxima vistoria. A pessoa que frequenta esses locais ajuda o Corpo de Bombeiros verificando se os equipamentos estão em perfeitas condições e denunciando, quando preciso.

Rodrigo Hirose – Esse certificado tem de ficar em local visível?
Sim, geralmente na entrada.

Rodrigo Hirose – Não há uma ação ativa do Corpo de Bombeiros para fiscalizar esses novos estabelecimentos que são abertos cotidianamente em Goiânia?
Às vezes, nem tomamos conhecimento. É importante o papel da sociedade em cobrar. Temos uma demanda muito grande. A vistoria funciona de formas diferentes.  A pessoa, para abrir um estabelecimento, tem de chamar o Corpo de Bombeiros para fazer a vistoria. Ou então, se recebemos uma denúncia, vamos ao local, a qualquer hora do dia. Há, ainda, as vistorias proativas.

No Setor Marista, por exemplo, é muito comum uma casa ser transformada em um bar ou boate, com apenas algumas modificações, e os Bombeiros não tomam conhecimento. Por isso, é importante a população nos informar, que iremos ao local imediatamente.

Rodrigo Hirose – Por outro lado, muitos empresários reclamam que há uma demora grande para emissão do certificado. Quanto tempo leva entre o pedido do empreendedor, a vistoria e a entrega do documento?
Esse era um problema que enfrentávamos, porque a vistoria era feita por unidades. Tínhamos um prazo de 10 dias em uma unidade, noutra de 20 e, o máximo, de 30 dias. É difícil, então, especificar o tempo. Com a centralização, vamos padronizar esse tempo.

O processo de vistoria, na verdade, é muito simples. Mas, algumas vezes, falta alguma coisa. Então não são os Bombeiros que estão demorando. Esperamos, então, 30 dias para que o empresário se adeque e, então, retornamos. Ou, se ele fizer antes, ele nos informa.

A vistoria era feita por bairros, para evitar custos, diminuir os deslocamentos e ter mais eficiência. Com a centralização, termos um tempo padrão. Mesmo hoje, não demora mais que 30 dias, mas a média é de 10 a 15 dias. Os processos que têm mais tempo é porque o empresário não faz as adequações.

Augusto Diniz – Como a corporação tem acompanhado as investigações da Operação Desconformidade, em que houve denúncia de possível venda de certificados de conformidade e que causou a saída do ex-comandante-geral?
A corporação, ao tomar conhecimento da operação, imediatamente afastou as pessoas envolvidas. Mas é bom registrar que este ainda é um processo inicial. O Ministério Público está investigando e não ofertou denúncia. Ninguém foi processado até agora.

O nosso comandante atual, o coronel [Esmeraldino] Lemos, assumiu a corporação com a responsabilidade de blindá-la ainda mais. [Corrupção] É algo que não faz parte da corporação não aceitamos esse tipo de conduta.

Se, nesse caso, houve ou não [corrupção], cabe esperar o processo. Mas, como foram detectadas possibilidade, o comandante tomou medidas no sentido de que isso não ocorra mais. O complience do governo começou no Corpo de Bombeiros ano passado. Este ano, vamos fazer nessa área [de liberação de certificados], para mapear os riscos, definir os remédios, quais os potenciais problemas que podemos ter.

O serviço de análise de projeto vai ser centralizado. A distribuição será feita por sorteio. Foram criados mecanismos para impedir qualquer possibilidade [de fraude]. Haverá também a centralização e padronização dos processos de vistoria.

O comandante quer coibir qualquer possibilidade de desvio.

Augusto Diniz – Os certificados emitidos durante a gestão do ex-comandante-geral estão sendo revisados?
Fizemos uma grande operação na Rua 44, algumas empresas foram notificadas. Inicialmente, fizemos por amostragem, mas, como a revisão é anual, logicamente vamos verificar todas as empresas. Algumas têm pendências, outras não. Montamos uma força-tarefa, trouxemos Bombeiros do interior, para verificar algumas das possíveis denúncias, pois o Ministério Público não apresentou quais eram os estabelecimentos [investigados].

A 44 é, sim, um problema. Há muita gente trabalhando ali que está à margem, não tem CNPJ [Cadastro Nacional da Pessoa Jurídica], não tem registro na Prefeitura e nem autorização dos Bombeiros. A própria questão do trânsito é complicada, se houver um incêndio a viatura tem dificuldade de chegar. Mas tudo isso está sendo trabalhado. Há um grupo, inclusive com participação da Polícia Militar e da Prefeitura, para tentar organizar a 44.

Em relação à questão de incêndios, estamos, sim, preocupados. Algumas empresas foram notificadas, terão de fazer modificações, senão terão o estabelecimento interditado.

Ton Paulo – Recentemente, houve um incêndio em uma galeria comercial em Campinas. Como funciona a emissão de certificados nesse tipo de estabelecimento?
A galeria ou o shopping tem de ter um projeto. No caso, a galeria tinha. E cada estabelecimento [que funciona na galeria ou no shopping] tem de ter seu próprio projeto. Em alguns casos, o Corpo de Bombeiros nem vai ao local. É caso, por exemplo, de quando a exigência é para apenas um extintor, e que basta ao proprietário enviar a nota fiscal e a foto do equipamento instalado para o Corpo de Bombeiros.

Há locais que não apresentam riscos. Então, o processo é muito simples. Em uma galeria, por exemplo, o extinto dela pode ser suficiente, pois os estabelecimentos podem ser apenas um balcão. A responsabilidade em garantir a segurança é do proprietário. O Corpo de Bombeiros é o fiscal.

Muitas vezes, o proprietário resolve ampliar o local, construir mais um cômodo, após a vistoria. Nesse caso, exige-se uma nova vistoria, o certificado anterior perde o valor. O mesmo ocorre quando há mudança no produto vendido. O proprietário tem de entender que, se fizer alterações no projeto inicial, aprovado pelos Bombeiros, ele precisa informar que fez.

Rodrigo Hirose – Nos últimos anos, Goiânia ganhou vários prédios muito altos, com 40 andares ou mais. Isso muda o trabalho dos Bombeiros? Os equipamentos existentes na corporação são suficientes para atuar em incêndios no topo desses prédios?
Quanto mais o prédio sobe, mais dispositivos de segurança ele tem de ter. As pessoas pensam sempre no tamanho da autoescada que temos, que é de 42 metros. Os prédios têm de ter células de proteção, que protegem as pessoas por duas ou três horas, no caso de incêndios. O elevador tem de ser protegido.

Criam-se locais pressurizados, que não deixam a fumaça entrar. O concreto tem maior resistência ao fogo. Os prédios mais altos que estão surgindo são mais seguros que os anteriores que existiam em Goiânia.

Augusto Diniz – Como é feita a triagem nas ligações ao 193 [telefone de emergência dos Bombeiros], para se decidir se o atendimento será telefônico ou se uma equipe será deslocada até o local?
Na maioria das ocorrências, uma equipe é enviada. É muito comum conseguirmos ajudar uma pessoa por telefone, em um caso de engasgamento, por exemplo, em que o tempo é precioso. Conseguimos dar dicas de segurança e do que fazer no caso. Mesmo assim, enviamos a viatura.

Quando não é uma responsabilidade nossa, passamos orientação. É o caso, por exemplo, de um cavalo na rua. Quando é um animal silvestre, nós fazemos a captura e levamos para o centro de triagem do Ibama.

Na dúvida, é importante a população ligar no 193.

Augusto Diniz – Muitas vezes as pessoas acham que está havendo desperdício de recursos públicos quando o Corpo de Bombeiros resgata um animal.
Depende muito de cada situação. Os animais mexem muito com a emoção das pessoas, os pets fazem parte das famílias. Por vezes, enviamos uma equipe para ajudar, mas cada situação é analisada, avaliamos também se existe demanda de outro tipo de ocorrência.

São comuns os casos de cachorros presos em tubulações, gatos que entram em um buraco e não conseguem sair. Aí, fazemos o atendimento e a pessoa [que solicitou] fica muito feliz. Mais complicado é quando o animal não tem dono e não temos para quem entrar.

Ton Paulo – Não são incomuns, também, casos em que cobras ou outro animal entrem em uma residência. Como a pessoa deve agir?
Há dois procedimentos. Se ele estiver ferido, levamos para o Centro de Triagem de Animais Silvestre, o Cetas. Se não estiver ferido, soltamos em um reserva mais distante, no habitat natural. O que nos espanta hoje é que as pessoas querem morar no meio das matas, mas não querem ter contato com animais.

Recentemente, houve o caso de um jacaré que estava no lago de um condomínio. Fomos lá, orientamos os moradores, levamos o pessoal da UFG [Universidade Federal de Goiás]. Mas ele estava no ambiente natural dele, se alimentando de peixes, não há o que fazer. Se ele estivesse fora da água, poderíamos captura-lo.

A população tem de entender que, com essa invasão [humana] no local dos animais tem consequências. No caso de surgir uma cobra, por exemplo, o ideal é que ela isole o ambiente em que o animal está e chame os Bombeiros, para que façamos a captura.

Rodrigo Hirose – Em países como o Japão, as crianças são orientadas desde cedo a como agirem em caso de tragédias naturais, como terremotos. No Brasil, mesmo que elas ocorram anualmente, sempre nos mesmos lugares, nunca sabemos como agir. Por que não temos a preocupação de educar as pessoas para que elas saibam como agir nesses casos?
No Brasil, até mesmo por causa das condições climáticas, acreditamos que as coisas não aconteçam aqui. A cultura é de que não vai acontecer conosco. A consciência preventiva é algo que o Corpo de Bombeiros tem trabalhado, temos ido a escolas, empresas.

Quando toca o alarme de incêndio, nós não nos preocupamos, pensamos que alguém mexeu. No Japão, se isso ocorre, ninguém para, só vai terminar no ponto de encontro. Aqui tudo continua normal. A consciência preventiva é algo que temos de lidar. Não convivíamos como casos de alguém entrar em uma escola e sair atirando. Para onde levar as crianças, o que tem de ser feito para resolver [a situação]?

Quando trabalhei no Palácio Pedro Ludovico [Centro Administrativo], as pessoas levavam na brincadeira os treinamentos de evacuação. As pessoas têm uma resistência muito grande [à prevenção]. É o caso do colete salva-vidas. A pessoa acha que o filho sabe nadar [e que não precisa do equipamento]. Assim, estamos perdendo pessoas morrendo afogadas.

Augusto Diniz – O Corpo de Bombeiros tem um projeto de conscientização, que é o Bombeiro Mirim. Quando serão abertas as inscrições? A participação é gratuita?
Devemos abrir ainda no início de fevereiro, em Goiânia. Ele é destinado a crianças de oito a dez anos de idade. Nossa perspectiva é atender de 300 a 400 crianças e as vagas são distribuídas por sorteio. O projeto funciona no contraturno escolar e segue o ano inteiro.

Augusto Diniz – O que é ministrado para essas crianças?
Elas têm noção sobre as atividades dos Bombeiros, acompanhamento escolar, noções de cidadania e civismo e atividades físicas. O resultado é formidável. Os pais brincam que o filho vira fiscal em casa, explica que determinadas coisas não podem ser feitas.

Elas passam um ano conosco. É uma transformação. É um projeto em que temos muito carinho. Não tem cobrança, pedimos, normalmente, a doação de algum alimento para fazer a inscrição.

Ton Alves – A corporação se deu por satisfeita com a Reforma da Previdência estadual?
Essa é uma questão muito complicada. Algumas mudanças foram realizadas. Há sempre algumas pessoas que reclamam, outras se dão por satisfeitas, outra conseguem analisar o cenário. A nossa atividade tem um monte de situações que a diferenciam de outras classes.

Hoje o servidor público é visto como inimigo, porque tem salários mais altos. Só que a contribuição também é mais alta, na mesma proporção. O INSS tem um teto, no nosso caso, paga-se 14,25% independentemente se o salário é de R$ 1 mil ou R$ 20 mil, mesmo que isso exceda muito o teto do INSS.

Há um sentimento de que é melhor assim que perder mais. Cada um tem uma opinião, é difícil fazer uma análise.

Ítalo Wolff – O sistema de monitoramento de queimadas do Inpe [Instituto de Pesquisas Espaciais] funciona?
Sim. Na Operação Cerrado Vivo, montamos uma sala de monitoramento, em que recebemos as informações sobre os pontos quentes do satélite do Inpe. Muitas vezes, mandamos equipes para verificá-los. Ele pega qualquer tipo de fogo, apenas uma pequena fogueira.

Quando o foco de calor está perto de uma reserva, mandamos uma equipe para verificar. Pois se conseguimos pegar no início, o combate é mais fácil.

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