“Humor é 90% em economia. E há interessados em fabricar uma crise no País”

De volta a Brasília depois de passar pela Prefeitura de Goiânia, protagonista do PT goiano no Planalto refuta crise econômica e diz que investiria seu dinheiro na Petrobrás

Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

Depois de encarar a disputa à Câmara dos Deputados e de cinco meses como chefe de Gabinete do prefeito Paulo Garcia (PT), Olavo Noleto está de volta a Brasília. Foi lá, como subchefe de Assuntos Federativos da Presidência da República, que ele participou dos três governos petistas — dois de Lula e um de Dilma Rousseff — como o principal ator político goiano no Palácio do Planalto.

É para essa função, ligada ao coração do Executivo, que ele retorna. O cenário, porém, é bem mais turbulento: no pico de uma crise política e com outra crise, a econômica, em andamento. Uma crise que Olavo refuta: “Não trabalho com agenda de crise, não acho que o Brasil a viva. Isso é um absurdo”, resume. A economia brasileira, que é um dos temas principais desta entrevista ao Jornal Opção, está sujeita ao humor fabricado por interessados no fracasso do governo, acredita ele.

Olavo Noleto também ressaltou positivamente o discurso de Marconi Perillo durante a visita da presidente Dilma a Goiânia. “Não foi surpresa para mim. Era o que eu esperava dele, pelo tratamento que sempre recebeu da presidente. Marconi mostrou que é um ator político nacional.” Por fim, ele deu uma dica ousada: “Se eu tivesse dinheiro, compraria hoje ações da Petrobrás, porque vão subir”.

Cezar Santos — Como o sr. avaliou as palavras que o governador Marconi Perillo dirigiu à presidente Dilma Rousseff em Goiânia, há dias atrás? O objetivo foi apenas administrativo ou vai além?
Primeiro, o governador mostrou ao Brasil e ao seu partido que ele é um ator político nacional, que ele não é comandado. Mostrou que ele tem de estar na mesa de comando de seu partido, em seu campo político. Foi uma demonstração de autonomia do governador.

Em segundo lugar, foi um gesto que deve servir de exemplo.O que aconteceu na solenidade de lançamento do BRT [transporte rápido de ônibus, com sigla em inglês] em Goiânia, não foi um jogo combinado na hora, foi o resultado de uma história, de um trabalho e de um reconhecimento.

O governador foi tratado pelo governo federal da maneira com que eu sempre disse aqui, nesta mesa, que tratamos todos os governadores, inclusive os de oposição, com o respeito e com a lealdade que os governantes brasileiros têm de ser tratados.

O que houve naquele dia foi o reconhecimento desse trato. A presidente Dilma sempre o tratou com muito respeito e com muita lealdade; ela, como presidente da Repú­blica, e ele, como governador. Ele, num gesto de grandeza e de autonomia, reconheceu isso.

Fico feliz, porque sempre bati nessa tecla em Goiás: de que a política aqui é medíocre e nós precisamos fazer as coisas com mais grandeza. Articulação política não é a que detona o outro, mas sim a que constrói pontes. Diferenças ideológicas e de projetos eleitorais existem mesmo, fazem parte do jogo democrático em qualquer lugar do mundo. Mas respeito e tratamento leal não podem ser vistos como demagogia, isso está errado.

Trato leal e respeito são obrigações dos governantes. Então, quando alguém faz isso, todo o mundo estranha. Para mim, foi um gesto nobre, leal, de grandeza, à altura do que Marconi recebeu o tempo todo. Eu tive a oportunidade de ser um dos interlocutores de Goiás no governo federal. Para mim não foi surpresa: o governador falou o que ele sempre disse na minha frente ou nos espaços públicos em que ele frequentou. Não foi um ato inusitado.

Elder Dias — Mas seria surpresa se o PMDB de Goiás fizesse a mesma coisa, considerando que uma parte do partido ficou muito rancorosa com a composição das chapas da oposição no ano passado, em Goiás?
De forma alguma. O PMDB tem toda a legitimidade de reclamar de tratamento, de mais espaço, o que não significa que eu concorde com isso. O PT também reclamou. Todos os partidos da base aliada nos perguntaram por que esse tratamento tão republicano. E respondi que isso não era tática, era princípio.

Esse trato não foi só em Goiás, mas com todos os Estados. O governo de Minas teve esse mesmo tratamento, o de São Paulo também. E eu disse isso aqui, nas duas vezes que dei entrevista ao Jornal Opção. Apontei números evidenciando isso.

Esse trato é princípio do que pretendemos. O fortalecimento da democracia no Brasil tem na relação republicana um pilar fundamental. Relação republicana não pode ser conveniência. O trato mútuo de um presidente da República com governador ou com prefeitos não pode ser de conveniência, tem de ter agendas concretas, estruturantes, para o Estado brasileiro. Fazer o que é nossa obrigação não pode ser surpresa.

Frederico Vitor — Mas até há pouco tempo, nas entrevistas, o prefeito Paulo Garcia (PT) se referia de forma um pouco agressiva ao governador Marconi Perillo. Após essa solenidade, ele deve minimizar esse tom?
Paulo Garcia foi o grande anfitrião desse encontro. Ele pensou esse evento. A agenda do BRT é a maior obra de intervenção da história da cidade de Goiânia, não há nada parecido. Esse evento foi pensado para dar a essa obra o tamanho que ela deve ter. A postura do prefeito no evento foi a que ele sempre quis ter, mas nunca tinha tido o palco necessário, ou as condições para isso.

Em Goiás há aqueles que se comportam de forma mais realista que o rei, fazem política de baixo nível e tensionam as relações entre os atores. Paulo Garcia apanha de manhã, de tarde e de noite, mas o tom de voz que ele usa ao apanhar tanto é o de um médico que tem muita paciência. Médico tem de ter muita calma, principalmente um neurocirurgião como ele, tem de ser frio. Paulo tem muita paciência.

A construção dessa agenda da cidade de Goiânia resultou numa grande festa. Mas a agenda não é o evento, mas sim a intervenção urbana que está sendo feita. Será R$ 1 bilhão em obras de mobilidade urbana, os corredores, a priorização do transporte coletivo. E isso em parceria com o governo do Estado. O prefeito Paulo Garcia viveu um dia de celebração do conjunto da obra, do resultado. De dizer “está aqui, eu plantei, estamos colhendo”.

Cabia a ele liderar esse ato de grandeza. E as primeiras palavras foram dele: antes que o governador falasse qualquer coisa, ele reconheceu a lealdade do governador no trato com a presidente, a parceria com o governo do Estado. A rixa da política ficou pequena diante da agenda de obra, do governo brasileiro, da mobilidade urbana. Isso é política grande. Esse Paulo Garcia é o Paulo Garcia pleno, governando com o coração cheio de amor.

Cezar Santos — Paulo Garcia parecia ter saído da personalidade dele ao adotar um posicionamento agressivo, às vezes com críticas infundadas, típicas de quem se sente acuado. Na solenidade do BRT, parece que ele voltou a ser o que era, uma pessoa de fino trato.
Paulo tem a sabedoria de reconhecer suas fragilidades, suas necessidades. Ele tem pedido à sua equipe, ao seu primeiro time de conselheiros, uma avaliação coletiva sobre como construir pontes, como distensionar relações.

Mas nos preocupa como o ódio e a intolerância têm sido plantados (em relação à gestão). Não é algo espontâneo: é plantado e isso rebate muito sobre ele, rebate no PT, rebate sobre o governo da presidente Dilma. É um ódio plantado e, para mim, é um ódio de classe.

Mas eu diria que o Paulo está numa fase de superação. Neste ano, tudo o que ele tinha para colocar para andar ele o fez. As coisas estão acontecendo e serão entregues. O principal problema de obra não é a execução, mas começa-la. É tirar do papel; aliás, não é nem isso: é botar no papel, porque a maior parte das obras não tem nem projeto.

Elder Dias — Nesse aspecto, também não é uma dificuldade a questão das licenças ambientais? Não acaba impactando nesse prazo também?
É problema da legislação brasileira. O número de exigências para licenciar uma obra parece infinito. O ciclo de uma obra pela Caixa Econômica Federal, hoje, é de três anos. Um ano desse ciclo é só para habilitar o projeto, é no papel. Um ano, no mínimo, falando de obra com verbas federais.

Elder Dias — O sr. veio da administração federal e está, agora, encerrando um ciclo de cinco meses na Prefeitura de Goiânia. A estrutura do poder nos municípios geralmente é menos organizada que na União. Como o sr. percebeu essa questão?
As estruturas municipais são realmente mais precárias. Não dá para comparar o Palácio do Planalto ao gabinete de qualquer prefeito do Brasil. São estruturas diferentes, geralmente proporcionais ao tamanho dos desafios. A Prefeitura de Goiânia vive um momento de transformação de seu perfil. Ao longo dos anos, construiu-se um mosaico do funcionalismo público que não é algo moderno. São pessoas que ganham mal, mas que constituem uma folha mensal pesada.

Você pode dizer que a Pre­feitura está inchada, mas não de comissionados. Na média das prefeituras, a de Goiânia está bem abaixo no número de comissionados. A estrutura física e tecnológica é precária, mas a Prefeitura tem um corpo funcional muito dedicado. Por exemplo, no gabinete, desde que entrei, não mudei um servidor.São pessoas apaixonadas e não sei há quanto tempo eles estão lá, talvez 15 ou 20 anos.

O que ocorre no poder municipal é muito diferente do que acontece em âmbito federal. Um exemplo: na Prefeitura, a pessoa liga reclamando de um buraco na rua. Então, ligamos no órgão responsável e mandamos cobrir aquele buraco. Na Presidência da República, na função que eu exercia, por exemplo, as pessoas ligam reclamando da situação das prefeituras no Brasil, ou desejam mudar uma regra de contratação na Caixa Econômica Federal.

A dimensão é totalmente diferente. A complexidade é outra. É como comparamos o posto de saúde à neurocirurgia. Para discutir a dificuldade dos municípios brasileiros, é preciso medir o quanto eles estão arrecadando e quanto estão gastando; quais são as curvas de evolução da arrecadação e da despesa; a participação dos municípios no bolo tributário nacional. Por exemplo, uma parte dos municípios brasileiros não cobra IPTU e vive de FPM [Fundo de Participação dos Municípios], que é uma mesada.

Sobre o perfil técnico da equipe que trabalhava comigo em Brasília, tenho pessoas que poderiam estar em qualquer universidade do País. Sobre a burocracia da qual falamos, eu participei da elaboração da Portaria Interministerial 507, que substituiu a Instrução Normativa 01 do Ministério da Fazenda. Ela estabeleceu as regras de contratação para governo federal e municípios.

Aliás, a portaria é mais ampla, pois vale também para ONGs [organizações não governamentais]. Nós fizemos 180 reuniões com CGU [Con­troladoria-Geral da União], TCU [Tribunais de Contas da União], Ministério Público, Caixa Eco­nômica, área jurídica do Ministério da Fazenda e da Casa Civil etc. Foram 180 reuniões para mudar uma portaria de 200 páginas.

Frederico Vitor — O Brasil é um país continental e, de fato, tem muitos desafios. Porém, o Estado brasileiro precisa de 39 ministérios? Não está inchado demais?
Para mim, essa é uma discussão errada e um tanto preconceituosa. Porque, quando se fala em cortar, os tucanos não têm coragem de falar, mas cogitam em cortar o combate ao racismo, às mulheres, pesca. Ou seja, atingir as minorias.

Cezar Santos — Não só os tucanos. O PMDB também já fala em reforma.
Estão comprando uma tese pronta, que tem sua natureza na direita, que sempre advogou o corte de ministérios. Eu lhes digo: esses ministérios são baratos para o Estado brasileiro, principalmente se considerarmos os resultados que essa estratégia rende para o povo.

O que custa, em valores menores, a Secretaria Nacional de Combate ao Racismo em relação ao Ministério de Combate ao Racismo? Um montante ‘x’ a menos de reais. Mas quanto de avanço essa diferença significou no combate a esse tipo de situação, comparado há cem anos? Compro­vadamente, essa estrutura acelerou o combate à desigualdade.

Cezar Santos — Por que o PT, então, não faz um Ministério da Segurança Pública?
Já temos o Ministério da Justiça, que compreende a Polícia Federal e a Força Nacional de Segurança, que se articula com as secretarias nacionais de Segurança Pública. Assim, podemos chamar o Ministério da Justiça de Ministério da Segurança, semanticamente.

Agora, além disso, a presidenta Dilma foi além. Nestas últimas eleições, ela propôs alterar a Constituição para alterar essa responsabilidade que hoje é dos Estados brasileiros. Nos anos 90, houve uma grave falha em relação a isso, o que propiciou a criação das máquinas e organizações do narcotráfico no Brasil.

Isso aconteceu porque não houve um olhar nacional sobre o assunto. Agora, isso não acontece mais, pois o Ministério da Justiça cumpre esse papel integrador das políticas de segurança pública. Mas temos de ir além e modificar a legislação é um grande passo, pois ela nos impede de sermos mais agressivos nesse combate. Na Saúde, por exemplo, o ministério cumpre um papel muito mais pesado de indução em relação à construção da rede de assistência à saúde por conta da legalidade que está colocada nesse processo.

"Que me perdoem as 'Miriams Leitões' da vida, mas não dá para  chamar isso de crise, se compararmos a outros momentos da história” | Foto: Divulgação

“Que me perdoem as ‘Miriams Leitões’ da vida, mas não dá para
chamar isso de crise, se compararmos a outros momentos da história” | Foto: Divulgação

Cezar Santos — Na última vez que esteve aqui, o sr. disse que a economia do País estava ótima. Como o sr. avalia a economia agora?
Na última vez, eu disse que a economia é uma questão de humor e que muita gente plantava o humor para puxar a economia para baixo. Acho que essa plantação se apresenta agora. O pessimismo gera menos investimento e desconfiança. Os empresários não empregam, a indústria demite. Acredito que a sensação térmica sobre a economia está mais fria que o frio real.

Outra coisa: não trabalho com agenda de crise, não acho que o Brasil viva uma grande crise. Isso é um absurdo. Se olharmos em perspectiva o que está acontecendo no mundo e como o Brasil enfrentou e tem enfrentado a crise mundial, acho que é um absurdo dizer isso (enfático). Antigamente, os Estados Unidos gripavam e a gente pegava uma pneumonia. Se há alguma oscilação, seja no PIB [Produto Interno Bruto] ou no emprego, que me perdoem as “Miriams Leitões” [jornalista e analista econômica] da vida, mas não dá para chamar isso de crise, se compararmos a outros momentos da história brasileira.

Frederico Vitor — A economia estaria então estagnada?
Nós vivemos um período de péssimo humor da economia brasileira. Têm resultados negativos? Têm. Mas o nome disso é crise?

Elder Dias — Então é só questão de humor?
Em economia, humor é 90%.

Cezar Santos — Quando o dólar sobe, as famílias estão endividadas e sem poder de compra, isso não seria crise?
Isso é resultado do humor, mas falar de famílias endividadas sem poder de compra, para mim, não é uma verdade estabelecida. Muito tranquilamente, prefiro olhar em perspectiva. Estamos falando de um País que não é o do desemprego, temos índice de pleno emprego. E a renda dos brasileiros não caiu. A desigualdade caiu, não aumentou. Os números que me pautavam, quando estive aqui da última vez continuam me pautando.

Para mim, grande crise vive a Europa, a Grécia e a Espanha. Acho que é legítimo um profissional de imprensa repercutir esse humor como crise, mas é mau caratismo de alguns economistas propagarem que o Brasil vive uma crise. Estão apostando nisso para derreter o País, mas nós jogamos firme.

Temos US$ 500 bilhões de dólares de reserva. Quando este País teve isso? Se é especulação internacional, que venham. Nós estamos enfrentando o capital especulativo internacional com altivez. Isso compõe o cenário que chamam de crise, e é um achaque à nossa economia. Eles lucram na entrada e na saída, mas o Brasil não quebrou como outros países quebraram.

Frederico Vitor — Nesta semana foi divulgado um índice no qual o Brasil continua sendo o quinto maior destino de investimentos no mundo. Isso não demonstra que a crise é política e não econômica?
Acho que há aqueles que estão a serviço de uma agenda política e que estão interessados em reproduzir esse humor. Especulam contra o Brasil e contra a moeda brasileira. Nosso papel é enfrentar isso, jamais é o de passar pessimismo para nossa população. E por isso repito: 90% da nossa economia é humor.

Elder Dias — Se existe ou não uma crise econômica, não podemos negar que exista uma crise política. Gostaria que o sr. analisasse sob seu ponto de vista a saída do ministro da Educação, Cid Gomes. O governo pode tirar algo positivo disso?
Sobre isso não posso falar muito, pois estou voltando agora para o Palácio do Planalto. Acho que a política brasileira tem seus marcos. Acho que, independente de concordar ou não, precisamos respeitar a autonomia dos poderes e fortalecer as instituições. Não interessa a um governo democrático destruir a imagem do Legislativo de seu País.

Há vários atores que insistem nesse papel destrutivo: tem um coronel reformado da Polícia Militar de Goiás que está no WhatsApp chamando os militares para pegar em armas. Quando algumas pessoas que não têm compromisso com a democracia e puxam para esse lado, não podemos titubear. Não interessa ao governo brasileiro enfraquecer o Parlamento brasileiro. Enfra­quecer a democracia hoje é enfraquecer nosso governo. O jogo que está se fazendo é de enfraquecer a democracia brasileira.

Elder Dias — Por outro lado, há um processo em curso de desestabilização do Executivo pelo Legislativo no Congresso, liderado pelo presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha (PMDB-RJ). Quan­do o ministro Cid falou que há de 300 a 400 achacadores naquela Casa, ele repete a fala de mais de 20 anos atrás do presidente Lula. Na repercussão, a imprensa contestou a atitude dele de falar o que falou, mas não o conteúdo de sua fala. E, enquanto esses achacadores estiverem lá, tanto o Executivo quanto o povo brasileiro estará reféns desses lobos.
Você, como jornalista, tem condições de análise objetivas para formular essa pergunta. Eu, como agente político, tenho obrigação de não amplificar o que ele (Cid Gomes) disse. Não se trata de jogar a culpa no colo do outro. Não podemos fazer isso, porque assim todas as instituições perdem. Isso não pode me influenciar como membro do governo para ter uma postura que destrua a imagem do Parla­mento.

Eu conheço câmaras municipais e assembleias legislativas: temos problemas. O modelo de representação legislativa tem de melhorar, tem que mudar. Mas isso não significa que nós brasileiros, ministros, secretários, presidente da República iremos, para nos defender, destruir o formato de representação do Parlamento. Isso não pode acontecer. Eu discordo. Alguém pode dizer “ah, Olavo, mas existem coisas erradas, posturas?” Sim, mas essa não pode ser minha palavra.

Elder Dias — Na Análise do Discurso [subárea da Linguística], isso chama “lugar de fala”.
Exatamente. Lula, quando falou o que você citou, não estava sentado na cadeira de presidente da República.
Cezar Santos — O ajuste fiscal é dado como algo imprescindível para enfrentar a “não crise”, já que, afinal, o sr. disse que não existe crise. Mas há uma dificuldade para que ele passe no Congresso. Tem resistência, inclusive do PT. Como o sr. analisa esta esquizofrenia?
É o momento. O PT, primeiramente, tem sua autonomia. O partido sempre esteve e sempre estará à esquerda de seus governos. Cabe ao PT tensionar seus governos para a agenda socialista em que acredita. O governo não é socialista, é de centro-esquerda. Alguns acham que nem de centro-esquerda é. Nós acreditamos que somos, sim, um governo de centro-esquerda e temos uma agenda assim, com referência mundial, inclusive. Mas o PT está no papel dele, de tencionar o governo à esquerda. Então, a reação do PT a um pacote de reajuste fiscal é a de um partido de esquerda. Está dentro da naturalidade.

Ocorre que, agora, o governo tem de dialogar. Tem o PT com sua agenda e tem o conjunto do Congresso, com sua agenda ideológica e de interesses. Infelizmente, têm horas que a agenda de interesses ganha valor. Nós gostaríamos, inclusive, que todas as tensões fossem de natureza ideológica, como a que o PT coloca. Seria, para nós, muito mais fácil. Porém, trabalhar com essa complexidade entre diferenças ideológicas, interesses, crises, rumores etc. é o desafio da coordenação política do governo para esse período. Faz parte e teremos de tratar disso.

Cezar Santos — Esse quadro ainda não tende a se agravar? Não vai ficar mais complicado? Afinal, o próprio Renan Calheiros [PMDB-AL, presidente do Senado] disse que o pacote, do jeito que está, não vai passar.
Cabe ao governo negociar. Cabe a ele dialogar, tratar, ouvir. Nos meus 12 anos em Brasília, eu já vi tratativas, negociações que eram tidas como impossíveis de acontecer, mas que aconteceram. Por quê? Por um simples gesto de respeitar aquele senador ou aquele deputado e ouvi-lo de fato, o respeito à formulação daquele sujeito que foi eleito por voto popular. Isso não pode ser um faz de conta.

É possível, sim, mas, ainda assim, é difícil. É difícil por um lado ter o ideológico e, do outro, a insatisfação, o interesse. Mas faz parte, não é ilegítimo. É do jogo democrático, eles foram eleitos, a população, quando votou para que cada um fosse deputado federal e senador, sabia no que estava votando. Ninguém votou sem saber, infelizmente.

Nosso Parla­mento é a expressão da forma de pensar dos brasileiros. Se ficou um pouco mais conservador isso significa um retrocesso na agenda democrática do país. Quando temas como o aborto e o casamento gay entram para agenda nacional com tanta relevância, isso significa que a sociedade brasileira comprou essas pautas. É um retrocesso, mas é um movimento da sociedade brasileira. Mas isso está dentro do jogo. É melhor isso, um milhão de vezes, do que o que já vivemos antes, em tempos autoritários. Temos de jogar esse jogo.

“Se eu tivesse dinheiro, compraria ações da Petrobrás hoje”

Olavo Noleto em entrevista ao Jornal Opção: “A sensação térmica sobre a economia está mais fria que o frio real” | Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

Olavo Noleto em entrevista ao Jornal Opção: “A sensação térmica sobre a economia está mais fria que o frio real” | Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

Frederico Vitor — Nas eleições de 2002, no primeiro programa de Lula como candidato a presidente, ele estava em um estaleiro, criticando as políticas neoliberais do governo do PSDB. O governo federal tinha, naquela época, encomendado, a um estaleiro em Cingapura, a construção de uma plataforma de petróleo. Lula dizia que precisava ressuscitar a indústria naval brasileira…
E ressuscitou (a indústria naval).

Frederico Vitor — Mas, hoje, segundo as notícias, existe demissão em massa em um estaleiro no Rio de Janeiro, onde 28 mil trabalhadores foram demitidos. Ou seja, 28 mil famílias vão passar maus bocados. Diz-se que isso é uma interferência direta da situação da Petrobrás. A presidente Dilma tem anunciado um pacote anticorrupção. O que esperar desse pacote?
Primeiramente, as demissões são pontuais, são sazonais e esses empregos voltarão. Se existe uma reação ao escândalo da Petrobrás é pontual e a empresa vai recuperar toda a sua capacidade de intervenção, de investimento e tudo mais. Aliás, se eu tivesse dinheiro, hoje, eu compraria ações na Petrobrás.

Elder Dias — Hoje?
Hoje. Podem até falar, “ah, mas pode cair mais”. Pode, mas vai subir, pois o patamar da Petrobrás é de liderança mundial. Uma crise não a destruirá, por mais que alguns queiram — e alguns querem. A Petrobrás é um “player” mundial e metade do que está acontecendo lá dentro diz respeito a uma disputa de liderança de mercado mundial e tem um monte de sinais colocados nas redes sociais sobre isso e os quais a imprensa ainda não explorou para valer.

Cezar Santos — Mas quando sai dinheiro da Petrobrás para financiar partidos, isso não é exploração externa.
Não estou questionando isso. Estou dizendo que grande parte dessa história é jogo de interesse, sim, para derrubar a Petrobrás. Têm várias evidências disso e gostaria que a imprensa não negasse isso, mas nega. Aliás, muito oportuna a entrevista ser hoje [24 de março], quando sai essa história da Reuters [a agência de notícias havia enviado um texto para os veículos no qual estava, entre parênteses, a expressão “podemos tirar, se achar melhor”, após um trecho que ligava a corrupção na Petrobrás também ao governo Fernando Henrique Cardoso]. É a prova cabal de que o jogo está viciado dentro das redações dos principais jornais do País. Está aí a prova. Só um lado é mostrado, o outro lado da verdade não é mostrado nunca. (enfático)

Falo com a maior tranquilidade: quantos jornais fazem o que vocês fazem aqui, nesta mesa? Não estou negando os problemas; na verdade, tenho orgulho de fazer parte de um governo que, ao invés de 40 operações da Polícia Federal [número dos governos de Fernando Henrique Cardoso], fez mais de 2 mil operações para combater a corrupção do próprio governo. Um governo que criou a CGU, que criou mecanismos para combater a corrupção no Estado. Eu tenho orgulho, claro! (enfático)

Obviamente, quando se aumenta o aparato de combate, essa corrupção vai aparecer. Quando aumentaram o aparato de combate às drogas em Goiânia, foram presos muito mais traficantes. É igual com a corrupção. Qual a sensação vem? De que a corrupção aumentou. Mas isso não é verdade (enfático). O que aumentou foi o combate a ela, e esse governo é responsável por isso. Só que essa parte da verdade não é dita.

Frederico Vitor — E sobre o pacote anticorrupção?
Temos de entender que, apesar de tudo que o governo tem feito com seus próprios mecanismos para combater a corrupção, isso não é suficiente e a população quer mais. Temos de entender, nesse gesto da população, que todos nós, no mundo da política, precisamos fazer mais.

Qual é a vírgula desse “mais” na lei? Isso, para mim, não é o principal; o principal é saber se isso é concreto, se é real, se isso é para valer. Ao contrário de destruir o Congresso Nacional, destruir as instituições democráticas, de punir quem fiscalizou, a presidente manda uma proposta dizendo “vamos juntos, independente de partido, para encontrar um caminho de combate à corrupção”.

A análise política dos principais formuladores da imprensa nacional precisava levar isso em consideração. Qual a resposta que a presidente tem dado diante da crise política? Ao invés de ter uma agenda retrógrada e autoritária, ela sinaliza de maneira legítima e democrática para o conjunto do mundo da política. Que líder mundial faz isso? Qual seria a reação natural de um político? Isso é algo que deveria, sim ser considerado.

Elder Dias — Como o sr. analisou as manifestações de 15 de março? O jornalista Elio Gaspari disse que, em 1984, os militares afirmaram que o movimento das Diretas era conduzido por comunistas e que, agora, setores do governo tacham os protestos como reacionários, fascistas. Assim como não era uma maioria de comunistas nas Diretas, agora também não há uma maioria de fascistas. Que ponderação o sr. faz entre esses dois momentos? Há algum paralelo?
De forma alguma. Em 1984 havia uma utopia, uma luta por liberdade democrática, por um governo que não fosse autoritário, para que as pessoas não desaparecessem no meio da noite, presas, torturadas ou mortas. Hoje, as pessoas podem até falar bobagens, como pedir a volta da ditadura.

Recebo com tristeza manifestações como essas, porque 90% das pessoas que estavam nelas não votaram em Dilma e acumularam ódio. Só 10% votaram na presidente. Se tomarmos o eleitor de Aécio Neves com esse ódio e olhá-lo como o principal ator desses eventos, não descarto os superlativos que apareceram.

Mas a questão, para mim, é que o formato dessas manifestações atenta contra a democracia. Afinal, a eleição acabou ontem e já querem tirar a presidente. Ora, se querem tirá-la, a primeira via é o voto. O impeachment ou a destituição pode ser pedida, mas, para acontecer, tem de seguir o rito legal, não pode ser fabricada.

Você me diz que era uma minoria que pedia a volta da ditadura; mas, em 1964, era uma minoria também que carregava faixas “Fora Cuba”. E, nesta, os dizeres eram os mesmos. Ou seja, uma minoria cria um clima. Veja esse coronel aqui de Goiás, dizendo à presidente “vamos enfrentar seus guerrilheiros”. Noventa por cento das pessoas falariam isso? Não, mas ele está falando. Em que outro ambiente democrático brasileiro, de 1984 até hoje, alguém ousou falar o que esse canalha falou? (muito enfático)

É um canalha atentando contra a democracia. Por que ele se arvora a isso em pleno regime democrático? Porque as condições estão sendo criadas. Não vou dizer que o movimento é de direita, ou golpista. Mas há organizações que têm um viés golpista, conservador, preconceituoso, reacionário, e que estão soltando mentiras pela rede. O que esse coronel disse? Mentiras, além de chamar seus colegas para pegar em armas.

Elder Dias — Mas não chega a ser pitoresca uma declaração desse tipo? Não há qualquer contexto semelhante ao de 1964, com a guerra fria em seu auge.
Tomara que seja, mas me preocupa. E esse coronel tem de saber o seguinte: um sujeito que se atreve a convocar alguém para pegar em armas é inimigo do povo brasileiro. É nosso inimigo, inimigo do Estado brasileiro, é inimigo dos democratas de todas as raízes ideológicas. Alguém que chama para um golpe militar é nosso inimigo.

Cezar Santos — Concordo com o sr., mas, quando o ex-presidente Lula chama João Pedro Stédile para pegar o “exército” do MST [Mo­vimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra], isso também não é algo fora de propósito?
O MST, que é um movimento radical de esquerda, jamais fez o que esse coronel fez. Nem perto. Não se compara. Lula chamar militantes ideológicos para tomar as ruas não pode ser algo comparado a um coronel convocar seus colegas para um golpe militar.

Cezar Santos — Mas, institucionalmente, é papel de um ex-presidente da República chamar para ir para a rua brigar?
Chamar à mobilização de rua é da democracia, como ocorreu no dia 15 de março. O que me espanta é ver algumas instituições plantarem sementes antidemocráticas nesse seio, introduzindo no imaginário coletivo coisas absurdas como as que estão sendo plantadas.

Se 90% das pessoas que estavam nas manifestações não defendem esse ponto de vista criminoso, todas tiveram acesso a informações erradas de forma intencional, mentirosas e antidemocráticas. E não existe filtro para isso em lugar nenhum, porque estamos em democracia plena.

Elder Dias — A expressão “mídia golpista”, então, tem um fundo de verdade?
Para mim, sim. Mas é preciso esclarecer que os profissionais de imprensa seguram o sistema mais do que as empresas de comunicação. Já disse isso aqui ao jornal: o que temos hoje no Brasil ainda não é liberdade de imprensa, mas “liberdade de empresas”. A linha editorial ainda está à mercê dos interesses comerciais da empresa de comunicação.

Os profissionais de jornalismo, em sua maioria, com sua seriedade e seu compromisso histórico com a informação, ainda seguram isso. Ocorre que as grandes empresas jogam o jogo com covardia e falta de compromisso ético com a verdade da comunicação. Precisa­mos fortalecer a autonomia intelectual do profissional da imprensa, mas isso ainda tem de avançar muito.

Elder Dias — O sr. foi pela segunda vez candidato a um cargo proporcional, concorrendo a deputado federal. Criou-se uma expectativa sobre uma possível eleição, o que acabou não ocorrendo. Como o sr. avalia o processo eleitoral? O que pôde tirar de lição?
Política, para mim, é causa. O dia que não tiver uma causa que o mova, o sujeito não tem por que estar na política. Infelizmente, muita gente é político sem ter uma causa para valer, algo pelo qual transpire.

Elder Dias — Mas, então, voltamos à questão levantada pelo ministro Cid Gomes. Afinal, política é causa ou é negócio?
Para aqueles que a política é negócio, a eleição é muito mais fácil. Para os que acreditam na política como causa, tudo é mais difícil. Sou apaixonado e defendo assim o que penso. Pago um preço por isso. Tenho posição, tenho lado, e me considero um dos atores políticos com perfil ideológico mais consistente aqui em Goiás. Tive a ousadia de enfrentar as urnas tendo esse perfil, sem estar dotado de esquema financeiro. Sei fazer barulho, sei fazer comunicação, mas só isso não foi suficiente.

Cezar Santos — Podemos, então, esperar novas candidaturas?
Elder Dias — Aparecida [de Goiânia, domicílio eleitoral de Olavo] que o espere?
(risos) Não está nos meus planos. Estou indo para uma agenda nacional em Brasília. Então, eleições em 2016 não estão em meus planos.

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Epaminondas

“90% da economia é humor”, é espantoso que mesmo com a quantidade de palhaços que Dilma emprega, ela não consegue alavancar a economia.

arthur de lucca

Posso fazer um comentário sobre? Pensei em um geral, mas como o Sub Chefe de Assuntos Federativos da Presidência da República – vem cá…e quem é o Chefe que ninguém conhece, nunca ouviu falar? Não seria o caso do JO entrevistá-lo também?; o senhor Olavinho -presidenta Dilma trata-o de Olavinho ou Noletinho?; enfatizou que “Humor é 90% em economia” sou obrigado a acrescentar e dizer que “Humor é 99% em determinadas entrevistas”, inclusive esta, que, com os chutes que deu, comecei a rir e estou rindo até agora. Olhe, faltou a Pat aí na mesa para abaixar a bola do… Leia mais