“Hoje, a Câmara Municipal está subordinada às vontades do prefeito Iris Rezende”

Vereadora do PSDB apoia um Legislativo “independente” e confirma que pode ser candidata à Prefeitura de Goiânia em 2020, mas provavelmente por um outro partido

Dra. Cristina: “Enquanto a mulher não estiver nos espaços de decisão, teremos muitos prejuízos” | Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

Uma das vereadoras mais votadas nas eleições de 2016, Dra. Cristina (PSDB) está em seu segundo mandato e garante que não haverá um terceiro. A parlamentar diz que deve ser candidata a prefeita de Goiânia em 2020 e não descarta que o atual prefeito, Iris Rezende (MDB), seja candidato à reeleição.

Nesta entrevista ao Jornal Opção, Dra. Cristina revela que deve mudar de partido e critica a relação da Câmara Municipal com o prefeito, que, segundo ela, é praticamente de subserviência. Fisioterapeuta, a vereadora avalia a gestão da saúde na capital como “desastrosa”.

Marcelo Mariano Um dos principais assuntos das últimas semanas é a possibilidade de a sra. ser candidata a prefeita de Goiânia em 2020. Quais são as motivações que a levam a pensar nisso?
As últimas eleições me colocaram em uma posição de liderança em Goiânia, onde fui a segunda mais votada para deputada estadual por meio de uma campanha feita com o chamado boca a boca. As pessoas viram, no meu trabalho, a possibilidade de uma administração municipal diferente, inovadora. Está todo mundo muito cansado. Goiânia está abandonada, com buraco e lixo para todo lado, além de uma previsão de epidemia de dengue. O fato de não ter sido eleita faz com que me lancem automaticamente a uma outra eleição. Isso tem sido algo muito natural nos lugares onde chego. As pessoas já dizem que querem votar em mim para prefeita, o que me traz muita responsabilidade.

Meu princípio é de ser contrária a mandatos intermináveis. Política não é carreira, mas sim contribuição. Acho quatro anos pouco, mas oito anos já é tempo suficiente. Sempre defendi dois mandatos e eleições unificadas, o que, a propósito, não interessa quem está no poder, porque eleições de dois em dois anos permitem que o jogo possa mudar. Portanto, muita gente não quer que eu saia da política e, por isso, seja candidata a prefeita.

Marcelo Mariano Se a candidatura a prefeita não for viabilizada, a sra. descarta ser candidata a vereadora mais uma vez?
Totalmente. Não há possibilidade de ocorrer o contrário. Abri meu segundo mandato dizendo que não teria o terceiro. Uma das minhas metas também é preparar e incentivar pessoas. Tenho o maior prazer de ter pessoas que estão próximas ao meu mandato como candidatas. A renovação é fundamental.

Marília Noleto O histórico mostra que a participação feminina na disputa pela Prefeitura de Goiânia é inexpressiva. Recentemente, houve candidaturas de Marina Sant’anna, Isaura Lemos e Adriana Accorsi. Por que a sra. acha que existe esta tradição em Goiânia e o que a sra. pretende fazer para que o seu caso seja diferente?
Há também uma conjectura de partido que interfere muito. Acho que o fato não é ser mulher, mas também o partido pelo qual a candidata se lança. A Adriana, que tem um respeito muito grande dos goianienses, se viu prejudicada pelo momento de seu partido. Esta é uma das grandes barreiras para as mulheres. Muitas vezes há o apoio da população, mas não há o apoio partidário. Há um conflito partidário interno que deixa a mulher em segundo plano. Eu vivo isso diariamente. Acontece também com homens, como ocorreu com o Geraldo Alckmin, que não teve muito apoio dentro do próprio partido.

Felipe Cardoso Como a sra. avalia a situação do PSDB após as últimas eleições?
Situação muito difícil. O PSDB ficou com a marca de um partido que não toma decisões e não sabe para onde caminha. O partido vem perdendo o seu rumo já há algum tempo. Sou da Executiva Nacional do PSDB Mulher e, dentro do partido, a ala feminina foi muito pouco ouvida. Quando houve o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff, a nossa posição era a de que o partido deveria desembarcar do governo Temer, porque não o vejo separado da Dilma. A justificativa para a permanência era de que havia pautas tradicionais do PSDB. Mas, para defendê-las, não era necessário estar dentro do governo, assim como defendi pautas dos governos Iris Rezende e Paulo Garcia mesmo sendo oposição. O PSDB, dessa forma, perdeu o discurso e, especialmente, a confiança da população. Houve também casos envolvendo Aécio Neves que contribuíram para desconstruir a imagem do partido. Hoje, a grande liderança do PSDB é uma pessoa que se diz não política. É a mesma coisa que estar em sala de aula e dizer que não é professor. É um discurso mentiroso e enganoso. Tenho desconfiança de quem não assume o que faz. Esta liderança nova do PSDB, com a qual discordo em todos os pontos, não me agrada. Vejo que está se encerrando um ciclo dentro do partido. Sempre fui muito dedicada e participativa, mas, localmente, tive muito pouco apoio.

Marcelo Mariano Em Goiás, a liderança do PSDB está em aberto. A sra. pensa em permanecer no partido e tentar uma reestruturação ou se filiar a outra legenda?
Vejo que o PSDB está persistindo nos mesmos caminhos e começo a passar a entender que o meu ciclo está acabando. O espaço para a minha prática política está se encerrando.

“[PSB] é um partido com o qual tenho muita afinidade ideológica”

Marcelo Mariano A sra. já recebeu convite de outros partidos?
Conversei com a senadora Lúcia Vânia, presidente estadual do PSB, que elegeu Elias Vaz para deputado federal. É um partido com o qual tenho muita afinidade ideológica. Também vejo o PDT como uma sigla importante tanto nacional quanto regionalmente. Sou muito amiga da deputada federal Flávia Morais, que é uma grande liderança no Estado. Além destes, Rede e PPS, que elegeu Virmondes Cruvinel para deputado estadual, já sinalizaram que gostariam da minha presença. Isso tem que ser conversado. É preciso chegar com uma condição de desenvolver um bom trabalho.

Marília Noleto Voltando à questão da mulher, houve uma redução da presença feminina na política goiana. Apenas duas parlamentares foram eleitas para a Assembleia Legislativa e outras duas para a Câmara dos Deputados. O que Goiás tem a perder com este cenário?
Perde muito. Quando se tem menos mulheres em posições de tomada de decisão, não há o olhar feminino para determinadas causas. Isso é um problema, um desequilíbrio. Os fóruns de decisão estão ocupados majoritariamente por homens. Não é questão meramente de ter mais poder, mas sim de decisões que possam equilibrar nossa sociedade, porque a mulher pensa e decide completamente diferente do homem. Por mais que haja um entendimento e uma sensibilidade por parte do homem em relação a algumas causas, a forma que ele vê é diferente. Quem sofre mais com questões de saúde e educação, por exemplo, é a mulher. Em casa, quem tem que resolver é a mulher. No Brasil, isso é cultural, apesar de estar mudando nos últimos tempos. Essas pautas precisam de um olhar feminino, assim como a de transporte público, onde as mulheres vivenciam uma situação de horror, de assédio. Nas minhas palestras, venho dizendo que a forma de comunicação tem que mudar. Hoje, digo que 12 homens matam suas mulheres a cada 24 horas, que um homem espanca uma mulher a cada 24 segundos e que um homem estupra uma mulher a cada três horas. Se falo que uma mulher é morta ou estuprada, não coloco homem no processo. Temos que mudar esta lógica. Nos últimos anos, uma das coisas mais fenomenais que ocorreu no País foi a campanha “Não é Não”. A juventude conseguiu compreender que ser feminista é dizer “não” quando não se quer. Foi a partir daí que comecei a refletir sobre a linguagem que devemos utilizar.

Marília Noleto — É importante que essas este tipo de pauta chegue aos espaços de decisão.
Fundamental. Enquanto a mulher não estiver nos espaços de decisão, teremos muitos prejuízos.

Marília Noleto — A sra.  vê a cota de 30% de mulheres candidatas foi um tiro no pé, uma vez que algumas mulheres nem sequer sabiam que eram candidatas e eram usadas pelos partidos?
Acho que as cotas são fundamentais, porque se trata de um processo de educação. Vejo as cotas como um processo que tende a ser finalizado. Abriu-se uma possibilidade para candidaturas. A Executiva Nacional do PSDB Mulher, em parceria com a Fundação Konrad Adenauer, conseguiu preparar várias mulheres para serem candidatas. Foi um avanço. Além disso, o repasse dos 30% do fundo eleitoral consagrou as candidaturas femininas. Antes, as mulheres poderiam até ocupar espaços, mas não tinham dinheiro. Agora, há dinheiro, que, se for distribuído de maneira democrática, é suficiente para fazer uma boa campanha.

Lembro que quando fui eleita vereadora, escutei mulheres que admitiram ter recebido dinheiro para se candidatarem. É lamentável que a pessoa se sujeite a isso, mas não podemos generalizar e dizer que todas as mulheres adotam este tipo de postura.

Marcelo Mariano — Mas, como dito, há casos de mulheres que nem sequer sabiam que eram candidatas e foram usadas para cumprir a cota dos 30%. Como evitar que isso ocorra nas próximas eleições?
É preciso cobrar da Justiça Eleitoral. As mulheres que são usadas têm que ir até o fim do processo para punir o partido. A punição tem que ser grande, como retirada de repasse do fundo partidário. Se candidatar não é algo simples, especialmente do ponto de vista jurídico, porque há um CNPJ emitido no nome do candidato e é preciso fazer prestação de contas. Crime eleitoral pode causa um dano irreparável.

Felipe Cardoso — Há quem diga que a Operação Cash Delivery tenha gerado um impacto negativo em algumas candidaturas do PSDB. Foi este o caso da sra.?
Foi o caso de todos os candidatos do PSDB. Não tenho a menor dúvida disso. Houve gente que me ligou dizendo que não votaria no 45. É preciso dizer que há uma espetacularização de processos judiciais, tanto é que Operação Cash Delivery foi deflagrada na semana da eleição. É um denúncia grave e apoio que seja investigada. Defendo a investigação, mas também defendo a herança política do ex-governador Marconi Perillo, que trouxe um grande avanço para o Estado em várias pautas. Eu vim para Goiás me tratar em 1986 e as pessoas nem sabiam direito onde ficava o Estado, que, hoje, está entre as dez maiores economias do Brasil. Marconi tirou o Goiás de uma condição predominantemente agropecuária para um patamar de desenvolvimento muito alto. Não podemos descontruir o patrimônio político do ex-governador.

Marília Noleto — É interesse este fato de as pessoas te ligarem para dizer que não votariam no 45 porque, no Brasil, costuma-se dizer que não se vota em partido, mas sim em pessoa. Pode-se dizer que o eleitorado está mudando seus padrões?
Houve as duas coisas. Muita gente votou em mim apesar do partido e me disse que foi a primeira vez que votou no PSDB. Tenho um eleitorado que é personalizado, mas, naquela semana, a Operação Cash Delivery de fato levou pessoas a falarem que não votariam no 45.

Marcelo Mariano — A oposição ao prefeito Iris Rezende na Câmara Municipal se viu enfraquecida após o resultado das urnas, com as eleições, por exemplo, de Elias Vaz para deputado federal e Jorge Kajuru para senador. Como a sra. avalia que será o trabalho da oposição nos dois últimos anos da atual gestão?
Perdemos muito com as saídas do Elias Vaz e do Jorge Kajuru. São forças muito importantes na Câmara, de uma fiscalização intensa, de várias denúncias e de uma prática que atende ao coletivo. Tivemos uma parceria muito grande. Houve uma confluência de confiabilidade. Nós nos amparávamos e nos complementávamos. Com a saída deles, sem dúvida fico um pouco isolada. Foi até engraçado ouvir de uma aliado do Iris dizendo que o prefeito deveria ter me ajudado na eleição para me tirar na Câmara.

Marcelo Mariano — Este trio, formado pela sra, pelo Elias Vaz e pelo Jogre Kajuru, estará unido nas eleições de 2020 em torno da sua candidatura ou até mesmo da do Elias Vaz, que também é cogitado como possível candidato?
Esta é a nossa intenção. Queremos unir forças. As urnas mostraram que eles têm a confiança da população.

Marcelo Mariano — Como a sra. avalia a postura do prefeito em relação à emenda de sua autoria que garante o pagamento retroativo da data-base dos servidores municipais?
O prefeito, que já não pode mais colocar a culpa no Paulo Garcia, enviou um projeto como se ele tivesse esquecido de 2017 e 2018. Como não tem como jogar para outra pessoa, ele finge que não conhece o assunto. Não sei se os vereadores não viram ou se fizeram de conta que não viram. Apresentei uma emenda aprovada por unanimidade na Comissão de Trabalho e Servidores Públicos e depois na Plenária, mas prefeito vetou já enviando um segundo projeto. Como não podia mandar um projeto exatamente igual, ele atendeu a uma reivindicação que era parcelar em seis vezes. No começo da negociação, ele propôs pagar em 12, os servidores pediram seis e ele acabou fechando em oito, que era o que previa o projeto que ele vetou por causa da minha emenda. O prefeito vem usando o discurso de que eu teria impedido os servidores de receberam a data-base. Isso não é verdade. Estou tentando fazer justiça para que a integralidade do data-base seja cumprida. Estão alegando que é vício de iniciativa, que eu não poderia propor, mas isso já é súmula vinculante do Supremo. Se o Executivo descumpre uma lei federal, cabe ao Legislativo fazer uma correção. Foi justamente o que eu fiz. O Iris tem mão de ferro, tanto é que ele tirou todos os estagiários e a progressão de carreira, não paga o piso dos professores e desmontou o serviço de saúde. A prefeitura está agindo com desrespeito total à população e aos servidores.

Marcelo Mariano — Como fisioterapeuta, qual é a avaliação que a sra. faz da gestão Iris na saúde e o que esperar dos dois últimos anos de mandato do prefeito nesta área?
Desastrosa. Esperava-se muito da gestão da secretária Fátima Mrue por ser médica, mulher e cientista, mas não há gestão alguma, e sim um desmonte. A secretária desativou todos os laboratórios, serviços odontológicos e Raio-X dentro dos Cais. Hoje, tudo é terceirizado. Ela desativou o sistema de informatização e comprou um novo sem licitação que não funciona. O nome do sistema é Viver, mas, se perguntar aos pacientes que estão nos Cais neste momento, eles dirão que se chama Morrer. O que se fazia em 15 minutos agora leva uma hora, porque o sistema não corresponde e não atualizada. Não há mais critério de gravidade. Para encerrar o ano, ela está fechando o CRDT, que é um serviço de referência existente desde 1989 para tratamento de Aids, DSTs [Doenças Sexualmente Transmissíveis], tuberculose e hanseníase e com serviços de proctologia e endocrinologia. E ela ainda disse na semana anterior que não fecharia. É um absurdo. Parece psicopatia.

Marcelo Mariano — Por que o Iris insiste tanto em mantê-la no cargo?
Porque ele é teimoso. Até pessoas próximas ao prefeito dizem que a secretária é um fator de descrédito, mas ele não faz nada. Essas pessoas me dizem que ela entrega relatório falso, maquia informação e não deixa ele ver muita coisa. Alguém muito próximo ao prefeito me disse recentemente que ela entregou um relatório de aumento de produtividade. Mas deveria ter entregado o relatório de aumento de morte. Claro que a produtividade aumentou, os pacientes morreram. Instalou-se um corredor da morte. Iris fala desde o começo do mandato que a motivação para ser candidato se deu quando ele viu as notícias sobrea a saúde. Na CEI [Comissão Especial de Inquérito], mostrei notícias sobre a situação da saúde no mandato dele, mas o prefeito não disse nada.

Felipe Cardoso — Há quem diga que o Iris tenha jogado a toalha porque não tem mais condições continuar à frente da prefeitura, que estaria entregue a terceiros. A sra. acredita nisso?
Se o prefeito terceiriza as decisões, eu não sei, mas ele é atuante, vai trabalhar todos os dias, tem uma dedicação grande, recebe vereadores e está presente nos mutirões, que, a propósito, vejo como algo ultrapassado. Inclusive, acho que ele será candidato à reeleição pela postura e a forma como vem se colocando.

“Se ele [Iris Rezende] for reeleito, será uma escolha para se lamentar”

Vereadora Dra. Cristina, acompanhada do assessor Caíque Thomé, durante entrevista aos jornalistas Felipe Cardoso, Marcelo Mariano e Marília Noleto | Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

Felipe Cardoso — Na sua visão, ele teria condições de ganhar as eleições?
Se ele for reeleito, será uma escolha para se lamentar. Ele é uma pessoa que não consegue viver sem a política e, principalmente, sem o poder. Entendo que muita gente tenha admiração e paixão pelo Iris, mas ter competência para conduzir a cidade é uma outra coisa. Seria loucura da população confiar na candidatura dele. Ele faz 85 anos agora em dezembro e a eleição é só daqui a dois anos.

Marcelo Mariano — É claro que ainda é cedo, mas quais seriam os nomes mais competitivos para disputar a Prefeitura de Goiânia em 2020?
Vanderlan Cardoso, Jorge Kajuru, Elias Vaz e Francisco Jr são excelentes nomes, mas penso que foram eleitos agora para mandatos que têm uma grande importância de serem cumpridos até o final. Seria temerário interromper um mandato de deputado federal ou senador depois de apenas dois anos. Delegada Adriana Accorsi, Daniel Vilela, Maguito Vilela, Thiago Albernaz são outros nomes interessantes. Nomes não faltam. O que a sociedade tem que fazer é observar o projeto de cada um.

Marcelo Mariano — Falando em projeto, quando o Plano Diretor será entregue?
Se houvesse interesse, já deveria estar na Câmara. A prefeitura diz que está pronto, mas não protocola. Tem que ser aprovado até dezembro deste ano. Não sei se o ideal é ele protocolará de última hora. É algo que querer muito estudo. Tradicionalmente, Goiânia foi explorada pelas construção. É uma cidade marcada por construções irregulares. Goiânia merecia mais seriedade. Não sou contra grupo, mas acho que a construção civil deveria sentar em uma mesa para pensar a cidade junto aos conselhos de arquitetura e engenharia. Não há mais condições, a cidade está quase explodindo. A expansão tem que ser de uma forma mais consciente. Atrair pessoas para o centro para ocupar vazios urbanos é algo que também defendo muito. Uma experiência que eu conheço bem é a de Lisboa, onde houve uma ocupação organizada e coordenada pela prefeitura. O do Rio de Janeiro, que foi coordenado pelo Jaime Lerner, é outro muito bom. O de Salvador, também. Fui lá há dois anos e fiquei impressionada com a revitalização da cidade, que está iluminada e com policiamento, além de ter passado por uma reestruturação da orla. São projeto de longo prazo. Goiânia tem um grande potencial, mas precisa ser ordenado.

Marília Noleto — Obras que deveriam trazer qualidade de vida para a população viraram imbróglios que não se resolvem. Um exemplo disso é o BRT, que destruiu a paisagem e atrapalhou o trânsito. Quando esta questão se resolverá?
O BRT foi um projeto do governo federal, mas o dinheiro desapareceu. Ocorreu o mesmo em várias outras cidades, como Cuiabá. A única capital que teve começo, meio e fim foi Curitiba. O BRT foi uma fantasia criada de que as pessoas teriam mobilidade e de que seria algo moderno, mas quase nenhuma capital conseguiu construi-lo. Precisamos saber aonde foi parar o dinheiro. O vereador Alysson Lima constituiu a CEI das Obras Paradas para investigar isso.

Marcelo Mariano — Alysson Lima é outro vereador da oposição que se elegeu nas eleições de 2018.
Alysson Lima, Delegado Eduardo Prado, Vinicius Cerqueira. Vamos ter grandes perdas.

Felipe Cardoso — O feminicídio é um problema muito grave na sociedade. A Câmara tem aprovado projetos que beneficiam as mulheres?
Efetivamente, nada. Hoje, a Câmara está subordinada às vontades do prefeito. O que se vê são projetos para criar semanas e dias específicos. Sinceramente, acho que já temos vários e não vejo isso como uma possibilidade de mudar a situação trágica e dramática que é a do feminicídio. A única possibilidade é por meio de um processo educacional, porque as crianças reproduzem a violência contra a mulher que está sendo gerada dentro de casa. Estatisticamente, é comprovado que a maioria dos homens agressores viu a mãe apanhar e a maioria das mulheres que são vítimas também viu a mãe apanhar. É preciso conversar com as crianças sobre violência. O projeto do grupo reflexivo é um dos melhores criados, porque ele estabelece diálogo com os homens agressores. A educação machista atinge todo mundo, homens e mulheres. Ouvi depoimentos de homens que disseram ter sido criados podendo bater, mas não podendo chorar. A educação machista tem um reflexo muito grande na violência e grande problemática é a não punição. Três por cento dos latrocínios no Brasil são punidos. Crime contra a mulher está em torno de 1%. É um crime barato, cujas penas são inexpressivas. É por isso que venho mudando a linguagem utilizada, porque já é algo que ficou tão banalizado que as pessoas nem estão ficando chocadas. A apologia à violência também me assusta. Quando vejo uma pessoa que tem como símbolo uma arma chegar ao comando máximo do País, fico muito amedrontada, porque o subconsciente coletivo é incentivado a praticar a violência. Precisamos ter um diálogo de paz. Violência não resolve nada, só aumenta o problema. Os grandes projetos de recuperação de regiões violentas são por meio de cultura, esporte e educação. Não há outro jeito. E Goiânia, hoje, não tem nenhum projeto de esporte. E, além das práticas preventiva e punitiva, é preciso haver um relacionamento entre as ações municipais, estaduais e federais para trazer toda a sociedade para o debate sobre o feminicídio.

Marcelo Mariano — Quem a sra. apoia para presidente da Câmara?
Há três candidaturas com as quais tenho conversado, que são as dos vereadores Rogério Cruz, Wellington Peixoto e Romário Policarpo. E eu estou pleiteado a presidência da CCJ [Comissão de Constituição e Justiça]. Se eles de fato praticarem o que têm falado, a Câmara será melhor do que é hoje se qualquer um desses três for eleito presidente.

Felipe Cardoso — A sra. acredita que o que está sendo prometido será posto em prática?
Acredito. As últimas eleições assustaram os políticos. Hoje, ser político é perigoso. E todo mundo entendeu que, se não houver uma mudança de prática, ninguém será reeleito.

Marília Noleto — A sra. vê as eleições de 2020 como um termômetro das deste ano?
Sim. Isso leva a Câmara a ter um olhar mais coletivo. Acredito também em um volume grande de candidaturas novas.

Marcelo Mariano — Qual é a avaliação da sra. sobre o projeto de estágio da Câmara?
O Ministério Público fez uma recomendação sobre este projeto. Não era uma imposição, mas a Câmara aceitou. Este projeto é complicado porque é muito difícil um vereador colocar uma pessoa sem afinidade dentro de seu gabinete. Não se sabe quem está vindo. Processo seletivo do qual não se faz parte é muito complicado. A pessoa que está dentro de um gabinete tem acesso à intimidade de um vereador. É uma questão de confiança. Sou muito mais favorável a criar vínculos com algumas instituições específicas, como o Camp [Círculo de Apoio à Aprendizagem Profissional de Goiânia], a Associação Pestalozzi e a Apae [Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais].

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.