“Goiás será beneficiado pela mudança no comportamento do turista”

Na análise do presidente da Goiás Turismo, Fabrício Amaral, o setor ainda aguarda uma retomada, mas Goiás pode se destacar nos próximos anos em razão dos destinos naturais e do trabalho de estruturação que foi feito

Sem a folia do carnaval muitas cidades goianas recalculam os prejuízos para o setor de turismo. Empresários do ramo amargam uma situação crítica de fechamento e redução de público desde o início da pandemia, em março do ano passado. E mesmo com a chegada da vacina, o ano de 2021 ainda não deve ser positivo para o setor, que deverá ter uma retomada gradual.

Os municípios turísticos goianos reabriram devagar e limitando o número de pessoas ainda no final de julho de 2020, depois de ficar sem receber visitantes oficialmente desde a decretação da quarentena pelo Governo do Estado, em março, por causa da pandemia do novo coronavírus. Havia uma forte expectativa que com a estabilização no número de infectados e a chegada da vacina, o início de 2021 poderia representar a reabertura do setor, dando novo fôlego. Mas acabamos por vivenciar a segunda onda, com uma subida no número de casos, o que resultou no primeiro impacto: cancelamento do carnaval em todas as cidades do Estado.

Apesar desse balde de água fria no setor, o presidente da Goiás Turismo, Fabrício Amaral, avalia que o segundo semestre deste será de estabilização. “O primeiro semestre é ainda de dificuldade. O segundo semestre de recuperação. Recuperação significa pagar conta. Vamos ver ali uma média maior de empresários buscando estabilizar e recuperar. E aí sim em 2022 a gente aposta em investimentos maiores e mais contratações”, diz em entrevista ao Jornal Opção.

Goiás pode se destacar nessa retomada, principalmente graças a uma nova tendência para o setor, que é o turismo de natureza. Para isso, o Estado tem trabalhado para fortalecer e divulgar pontos turísticos que tenham como atrativo trilhas, cachoeiras e espaços de contemplação, que tem recebido uma grande procura por parte dos turistas. 

“Existe uma demanda reprimida. Em Goiás existe uma característica que é o fato da gente gostar muito de praia. As pessoas querem em suas folguinhas ir para o nordeste. Estou sentindo que as pessoas estão mudando o comportamento nesse sentido da seguinte maneira: muita gente não conhece o Araguaia, não conhece Caldas Novas e agora estão viajando mais localmente com suas famílias”, avalia o presidente da Goiás Turismo. 

Nesta entrevista ao Jornal Opção, Fabrício Amaral falou sobre os desafios do setor, o que tem sido planejado para que Goiás possa retomar a força do turismo e quais as tendências que tem agradado aos turistas. Acompanhe:

O setor de Turismo está entre os mais afetados pelo cenário de pandemia. Já é possível fazer um balanço desse impacto para Goiás?
A pandemia começou em março, o governador publicou o decreto no mesmo mês. Então de março a julho foram quatro meses que o turismo parou 100%. Isso demonstra que realmente foi o setor mais afetado, inclusive no mundo. Estamos falando de mais de 50 segmentos econômicos diretamente ligados – Hotéis, viação, aeroviário, restaurantes e por aí vaí. O segundo semestre começou devagar com uma reabertura em Caldas Novas e as coisas foram retomando.

O desemprego foi muito alto. Estamos falando numa faixa de 15% de desemprego em todo o setor de turismo, ou seja, seguramente são mais de cinco mil desempregados, cinco mil famílias e centenas de empresas fechadas. Iniciou uma volta relativamente bem, porque as pessoas estavam desesperadas para sair, viajar, mas com protocolos e capacidade mais baixa para o atendimento. 

Agora vem a segunda onda. Estamos muito preocupados e as empresas não abrem e fecham a hora que quer. Isso envolve planejamento. Então é um cenário muito preocupante. O setor de eventos, dentro do turismo, foi disparado o mais afetado. Ele não voltou ainda. Enquanto o bar ou hotel funciona com 50%, o setor de eventos está totalmente fechado. As empresas fecharam as portas. A pandemia realmente arrasou o turismo e eu acredito que só em 2022 para a gente ter números próximos do que era 2019. Tivemos um ano que consideramos uma tragédia para o turismo. Voltou algumas coisas, estamos vendo que algo está funcionando, mas empresas não é assim. Tem uma estrutura complexa por trás e em função disso a retomada do turismo vai demorar um pouco mais em relação aos outros segmentos. 

Havia uma expectativa muito grande para que em 2021, ou antes, já nas festas de fim do ano,  o setor iniciasse uma retomada. Mas mesmo com a chegada da vacina o cenário me parece ainda incerto. Como o senhor vislumbra essa situação?
Eu acho que o futuro ainda é incerto. A imunização ainda não está totalmente clara. Se tivéssemos um cronograma com datas definidas e específicas, isso daria segurança para as empresas contratar e investir. O turismo é muito organizado, tem que ser assim para dar certo. Num é só abrir ou fechar. Então eu considero o primeiro semestre deste ano comprometido, até porque a imunização não exclui a doença, o vírus segue circulando.

O ponto positivo disso: estamos em um estado muito rico de natureza. Temos muita oferta de natureza, seja cachoeira, trilha, até Caldas Novas tem alternativas de natureza. Eu acho que dentro do cenário do Brasil, nosso Estado tende a voltar mais rápido. Mas não é como a gente gostaria. O primeiro semestre é ainda de dificuldade. O segundo semestre de recuperação. Recuperação significa pagar conta. Vamos ver ali uma média maior de empresários buscando estabilizar e recuperar. E aí sim em 2022 a gente aposta em investimentos maiores e mais contratações. 

Então: 2020 muito difícil. Em 2021 ainda será complicado. Já em 2022 efetivamente a gente pretende voltar ao mercado nacional. 

Estamos acompanhando o cancelamento de festas de carnaval nas cidades goianas, qual impacto?
Isso gera impacto. Cancelar o carnaval era inevitável em um cenário de pandemia que vivemos. Em lugar nenhum haverá carnaval. Eu converso com todos os secretários de Turismo do Brasil e não se tem notícia de nenhum lugar no País que terá carnaval. O impacto financeiro será grande. Você pega Goianésia, Pirenópolis, Cidade de Goiás, Caldas Novas, Goiânia que tem bloquinhos todos terão impacto. Acho que as pessoas continuam circulando, vão viajar, mas a gente acompanha e apoia o cancelamento das festas e do ponto facultativo da data porque isso minimiza a circulação de pessoas, evitando mais contaminações e consequentemente mortes.

As pessoas precisam ter consciência da necessidade de distanciamento. As pessoas estão achando que por conta da vacina a doença acabou e isso não é verdade. Então o carnaval é isso, não vai ter e terá seus impactos sim. Só acho que isso não muda o cenário das empresas. Elas continuam com dificuldades, mas o fato de não ter carnaval não vai piorar a situação que já é enfrentada. Cito um exemplo: Pirenópolis está exigindo barreiras sanitárias para as pessoas não invadirem a cidade e prejudicá-los. Por que eles não querem fechar uma segunda vez. Ou seja, o setor está consciente que a situação está difícil, que precisa ter bastante moderação e cuidado sob pena de fechar tudo novamente. Então o carnaval não será o fiel da balança. Terá prejuízo? Sim. Mas não vai ser o grande impacto de uma crise econômica que é a maior da história. 

“A segmentação e a promoção será o nosso caminho de trabalho para os próximos dois anos.”

Então o senhor crê que o empresário está consciente em relação a situação? Eles têm se envolvido nesse processo de enfrentamento a pandemia, mesmo isso significando prejuízos?
Mudança total de comportamento. Os empresários estão entendendo que essa pandemia não é uma disputa de posicionamento ideológico ou político. Nós do turismo entendemos isso. Os empresários nos dizem: vamos cumprir rigorosamente nosso papel, mas nos ajude. Eles decidiram seguir todas as regras e evitar um segundo fechamento, porque sabem que não suportaria se fechasse 100% novamente.

O grande parceiro que tenho hoje é o Ministério Público, o Estado com o policiamento e os empresários. São eles que colocam o protocolo em prática. É satisfatório a participação dos empresários nesse sentido. Eles são nosso parceiro para evitar as aglomerações.

O senhor acredita que o setor reúne todas as condições para liderar a recuperação econômica do país pós-Covid?
Eu acho que turismo dá resposta rápida. Se pegar por exemplo a indústria, que tem que instalar, demora um tempo para produzir. O turismo é mais rápido em relação à resposta social, ou seja, na geração de emprego e renda. Em questão de meses o empresário monta a pousada, já contrata, já tem várias famílias dependendo daquilo e indiretamente já movimenta produtores locais, lanchonetes, restaurantes e supermercados. 

Eu acredito que o segmento de turismo está entre os três primeiros que tem capacidade de impulsionar esse novo normal. A gente gera muito serviço e gera muito emprego. Turismo não gera muita tributação quando comparado com setor energético ou indústria, mas ele dá resposta imbatível na geração de empregos. Para se ter ideia, 11% do PIB hoje no Brasil vem do turismo. 

Então com investimento, planejamento e com continuidade de política pública, Goiás estará muito bem no cenário mundial. Vamos voltar com tudo. 

Acredita que há uma demanda reprimida para o turismo?
Existe uma demanda reprimida. Em Goiás existe uma característica que é o fato da gente gostar muito de praia. As pessoas querem em suas folguinhas ir para o nordeste. Estou sentindo que as pessoas estão mudando o comportamento nesse sentido da seguinte maneira: muita gente não conhece o Araguaia, não conhece Caldas Novas e agora estão viajando mais localmente com suas famílias. 

A prioridade mudou. Agora é viagens de carro e em família. Isso tem sido feito de forma regionalizada, ou seja, dentro de 400 ou 500 quilômetros no máximo. As companhias aéreas estão sentindo muito esse movimento. Eu entendo, como profissional, que essa é uma tendência e não deve voltar como era antes. Eu acho que a natureza hoje é a grande bola da vez num cenário mundial. E quando eu digo natureza, praia não entra neste cenário. Nós estamos ganhando espaço, porque estamos num estado do Centro-oeste rico em trilhas, cachoeiras, gastronomia, a cultura… estamos conquistando espaço de turismo consagrados de praia. 

Temos uma demanda reprimida pela vontade de sair de casa da maioria da população e também o cenário tem mudado o comportamento do turista. Goiás será beneficiado pela mudança do comportamento do turista já em 2021 e ainda mais em 2022. 

O Turismo religioso em Goiás sofreu duas baixas. Uma diz respeito ao João de Deus e outra em relação ao Padre Robson. Isso tem um impacto, já dá para medir? Quais alternativas?
A Goiás Turismo está atenta. É uma situação muito complicada. Estive em Abadiânia e infelizmente o baque foi muito grande. Os hotéis estão fechados, o público reduziu demais e Abadiânia praticamente dependia do movimento promovido pelo João de Deus. Em Trindade o movimento caiu cerca de 80%. Trindade é mais fácil de voltar porque tem o Divino Pai Eterno que está acima do padre, mas é um trabalho de médio a longo prazo.

Carreiros da Romaria de Carros de Boi da Festa do Divino Pai Eterno de Trindade | Foto: Divulgação

Palmelo tem se destacado muito nesse tipo de turismo. Todas as semanas as pousadas da região estão lotadas. Lá não tem um líder religioso. É a fé do espiritismo mesmo, e tem levado muita gente para a região. Tem Anápolis também que tem eventos gigantescos com os evangélicos, mas pra voltar só depois da pandemia. Temos os católicos que promovem festas em Jaraguá, Pirenópolis, as próprias cavaladas. 

Mas temos a baixa dessas duas pessoas (João de Deus e Padre Robson) que sem dúvida é muito impactante. 

Internautas elegeram o Parque da Chapada dos Veadeiros um dos melhores destinos do mundo. É por conta desse movimento do turismo de natureza ou é fruto de um trabalho para divulgação do destino?
Acho que é parte dos dois. Acho que o primeiro ponto é  tendência do turismo de natureza se consolidando. Na Chapada se encontra personalidade do Brasil todo e até de fora. Esses turistas ficam admirados com nossa natureza. Então é a consolidação disso.

Apesar das dificuldades, acho que o grande trunfo da nossa gestão é o dialógico. Eu vim do mercado produtivo, então eu tenho como primor a governança e o diálogo. Então a gente conversa diretamente com os empresários, prefeitos das cidades… Isso facilita no alinhamento. Exemplo: se a Chapada vai num sentido, a gente tem que apoiar. Isso tem ajudado.

É a promoção e a consolidação de uma tendência, ou seja, a natureza bruta que as pessoas estão buscando que é contemplação, trilhas e cachoeiras. É um grande reconhecimento e acho que vamos ocupar esse espaço para sempre porque estamos sendo vistos num cenário mundial. Com certeza vai aumentar o fluxo turístico de lá e de outros pontos do Estado.

Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros é eleito o melhor do Brasil e o 25º do mundo, segundo site de viagens | Foto: Divulgação

Isso é reflexo do turismo de isolamento? Essa é uma aposta do setor para minimizar o impacto gerado pela pandemia?
Eu nem gosto dessa definição, mas o mercado usa e a gente tem que acompanhar. Mas essa é uma situação que já vinha acontecendo, que era pegar a família e ir, por exemplo, para o Lago de Corumbá e ficar por lá contemplando. A gente está vivendo um nível de intolerância, estresse e agressividade muito grande. Então a pandemia fez com isso se aflorasse mais ainda, então esse caminho é natural. As pessoas buscam contemplação, precisam de natureza e experiências diferentes.

Se formos a Pirenópolis hoje e observarmos, veremos a quantidade absurda de chácaras que estão se construindo ao redor da cidade. Os empresários já sentiram essa tendência e há de pousadas a logos para pescarias. O isolamento permite que as pessoas fiquem nesses locais com suas famílias e temos muito a oferecer neste sentido. 

A Goiás Turismo tem um plano para o setor? Quais os principais pontos desse plano?
Tivemos que atualizar. Tem segmentos que não se sustentam mais. Tínhamos programas e ações para os quatro anos e agora temos a previsão para 2021 e 2022. O que estamos primando é uma boa promoção. Estou fazendo banco de imagens, vídeos e campanhas para circular no Brasil e até fora. Isso já para os próximos 60 dias. Teremos essas imagens de Goiás em nossos trabalhos. Temos planejamento com influenciadores de peso para divulgar o Estado e suas características. São pessoas muito seguidas em redes sociais, a exemplo do Álvaro Garnero, da Record nacional e Record News internacional. São parcerias que estamos colocando em prática.

Temos o turismo rural, turismo de aventura que são as trilhas como o Caminho de Cora Coralina que está bombando em nível nacional. Estamos criando a rede estadual de trilhas, isso é inédito no Brasil. A tendência para os próximos dois anos é a gente colocar no circuito inúmeras pequenas trilhas. A cultura da pesca esportiva eu acredito muito e está no plano. Eu fui em vários e vários lagos. Temos também o Araguaia.

Também queremos montar o maior programa de gastronomias dos próximos dois anos. Queremos fazer nas dez regiões turísticas do Estado. ´Vamos fazer gastronomia em 79 municípios. É uma ideia pioneira que nenhum estado brasileiro fez isso e a gente quer estimular comida de raiz. Começando nas escolas, passando pelas competições entre bares e restaurantes e estimulando a gastronomia e inclusão social. 

Então a segmentação e a promoção será o nosso caminho de trabalho para os próximos dois anos. 

O que é a Casa do Turismo?
É uma sede. A sede da Goiás Turismo. Nós trouxemos a Polícia Militar para esse prédio para ampliar a segurança no Centro de Goiânia. Coincidentemente fica ao lado do Centro de Convenções, então tão logo volte a funcionar, vamos fazer eventos para vivenciar movimentos culturais. Dentro da Casa vamos colocar a central de informação ao turista.

Estamos planejando colocar na Casa um telão, de forma que a pessoa possa entrar e conhecer o Estado de Goiás de forma tecnológica. Vamos dar atenção especial a turista. E com isso vamos consolidar e estimular as pessoas a viajar. A ideia da Casa do Turismo é essa. 

O fechamento de hotéis, pousadas e pontos de turismo, fez com que muitos trabalhadores qualificados fossem buscar outra forma de trabalho. Haverá um trabalho para reconduzir essa força de trabalho de volta ao turismo?
Vamos lançar um programa chamado Academia do Turismo. O projeto já está pronto. Vai contar com a Secretaria da Retomada, Sesc, Senac e Sebrae. Vamos percorrer todo o Estado de Goiás. São dez regiões  turísticas qualificando  marketing, gerenciamento de projetos, cursos diversos como camareira, garçom, condutor… Esse será o maior programa de qualificação que vamos avançar.

E para o empreendedor? Tem algo nesse sentido?
Já tinha linhas de créditos. Foram R$ 71 milhões vindo do Ministério do Turismo. É a melhor linha de crédito do Estado. Então eu acredito que em 2021 teremos ainda verbas para atender, sobretudo, os pequenos com juros baixos e carência. Temos recursos da Goiás Fomento em parceria com a Goiás Turismo.

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