“Goiânia é uma obra de arte em forma de cidade que estamos perdendo por não preservar seu patrimônio”

Idealizador da rota turística da arquitetura art déco na capital diz que valorização das fachadas e dos prédios antigos é ponto de partida para que o Centro se revitalize

Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

No dia 9 de janeiro, uma publicação do jornal “The New York Times” fez referência a um tesouro goianiense a que poucos se atêm. Com o título “The Fading Art Deco Dreams of Brazil’s Heartland” (ou “Os decadentes sonhos da art déco do coração do Brasil”, em português), o relato das impressões do jornalista Simon Romero ao visitar a cidade trouxe lamentações sobre a destruição da paisagem urbana e a hegemonia da especulação imobiliária, ao mesmo tempo em que descreveu os monumentos como “pedras preciosas” (“gems”, em inglês).

Gutto Lemes é um dos que conhecem bem o sentimento que o texto externaliza. Logo depois voltou da Europa, onde aprendeu a valorizar a memória e a educação patrimonial, os prédios desse estilo arquitetônico em Goiânia foram tornados patrimônio nacional pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), em 2003. Ele, então, se tornou um dos maiores batalhadores por sua preservação, recuperação e valorização. Como artista plástico, realizou projetos como o “Patrimônio Adormecido” (cobertura de prédios tombados com tecidos de cetim) e o “Galeria Noturna” (pintura em portas de aço dos comércios da região central). Como guia turístico, criou recentemente uma rota art déco que abrange 19 monumentos e se estende por sete quilômetros, desde o Trampolim e a Mureta do Lago das Rosas, no Setor Oeste, até a Estação Ferroviária, na Praça do Trabalhador.

Ele diz que a cidade tem perdido dinheiro ao não investir no que é considerado, por muitos — inclusive por ele — como o segundo maior patrimônio art déco no mundo, atrás apenas da coleção de Miami, nos Estados Unidos. Gutto Lemes está à frente da Sociedade Art Déco de Goiânia, que, em um levantamento do qual participaram Rodrigo Lima, mestre em Turismo, e a publicitária Carolina Mael, buscou detalhar a quantas anda a preservação das construções art déco. O que viu não foi bom. “Goiânia é uma obra de arte de Attilio Corrêa Lima. Estamos perdendo essa obra de arte por não preservar a art déco. Queremos reagir a isso e incentivar as pessoas a reocupar o Centro”, resume. Para a região central, ele agora tenta viabilizar outro projeto, a Zona Integrada de Desenvolvimento (ZID) e busca tanto o poder público como empresários. Não por acaso, há mais estrangeiros que nativos interessados na ideia.

Marcos Nunes Carreiro — O sr. é artista plástico, guia turístico e autor de projetos ligados à preservação do patrimônio art déco de Goiânia. Fale um pouco sobre esses projetos.
Morei por algum tempo na Europa e, quando retornei para Goiânia, em 2001, tive a intenção de fazer algo por nosso patrimônio histórico. Na Europa, o patrimônio é muito valorizado e respeitado. Assim, logo após o tombamento do Centro Histórico de Goiânia, que ocorreu em 2003, busquei a Lei de Incentivo com um projeto chamado “Patrimônio Adormecido”, que visava fazer com que a população de Goiânia se despertasse para o nosso riquíssimo patrimônio art déco. O projeto fixou tecidos de cetim em dez dos prédios tombados e realizou uma exposição com registros do primeiro registro tombado — os desenhos foram escolhidos justamente para que crianças e adolescentes fossem conscientizados para a educação patrimonial. E fizemos também um documentário, que cobriu duas intervenções: nos prédios e no Grande Hotel.

Entre 2005 e 2014, percebi que a questão do patrimônio entrou em um perigoso ostracismo. A reforma da Praça Cívica e a promessa de revitalização da Estação Ferroviária, na Praça do Trabalhador, retomaram minha atenção para o tema. Assim, em 2015, fiz um roteiro art déco da região central de Goiânia. Isso foi feito para facilitar a vida dos turistas e também como ofício de trabalho, já que tenho ainda a atividade de guia de turismo. É um roteiro que começa no trampolim do Lago das Rosas e termina na Estação Ferroviária. São sete quilômetros, em um trajeto com cinco paradas e que contempla 19 prédios tombados como patrimônio nacional. O foco principal do roteiro é abranger a arquitetura e a história de Goiânia, especialmente em torno de duas personagens principais: Pedro Ludovico, o idealizador da capital, e Attilio Corrêa Lima, o arquiteto da cidade.

Marcos Nunes Carreiro — Que critério o sr. usou para formatar esse roteiro?
O patrimônio art déco é disperso e até então não tinha uma ordenação. O critério que usei foi a divisa entre Campinas e Goiânia, pois foi onde começou a cidade. O primeiro parque da cidade feito para recreação foi o Lago das Rosas, onde havia competições de natação e vários outros esportes aquáticos. Então, começando ali, fui ordenando o roteiro por prédios e contando a história relativa a eles. É muito simples: pegamos a Avenida B, ao lado do Lago das Rosas, e vamos até o Teatro Goiânia. Depois seguimos até o Grande Hotel [na Rua 3 com a Avenida Goiás] e subimos a Avenida Goiás, onde contemplamos a Torre do Relógio, o Coreto, na entrada da Praça Cívica, que depois contornamos e contém 11 patrimônios art déco tombados. Descendo a Avenida Araguaia, à direita, vemos o Colégio de Lyceu de Goiânia, que é um dos prédios art déco destinados à educação. Voltamos para a Avenida Araguaia e vamos até o prédio do antigo Cefet [Centro Federal de Ensino Tecnológico], hoje IFG [Instituto Federal de Goiás]. De lá, partimos rumo à Estação Ferroviária, que é o último prédio do roteiro.

Augusto Diniz — O sr. fala de “patrimônio adormecido” quando se refere ao art déco de Goiânia. Por que essa definição?
A razão é que nós temos um patrimônio riquíssimo, que poderia ser fonte de renda para a cidade, por meio do turismo, mas que não é visto dessa forma pelas pessoas. Nem poder público, nem escolas, nem universidades nem os empresários têm essa visão. Estão todos em um sono profundo em relação à potencialidade desse patrimônio e, assim, perdendo turistas que, quando vêm à capital, não são atraídos pelo que há no Centro, mas acabam indo para os shoppings da cidade, quando não param em Pirenópolis e ou na cidade de Goiás. Nesse sentido, o Centro continua marginalizado e sucateado. Temos uma cidade escondida no Centro que poderia fomentar o turismo, o que seria benéfico para todos: Prefeitura, empresários, artistas e a população em geral.

Marcos Nunes Carreiro — O ex-prefeito Pedro Wilson (PT) implantou um projeto que revitalizou a Ave­nida Goiás e fez várias proposituras para valorização do patrimônio art déco. Porém, com sua saída da Prefeitura, esse tipo de ação não foi levado adiante. Vez ou outra, ouvimos falar do projeto Cara Limpa ou de propostas de lei que visam retirar os letreiros e fachadas dos prédios art déco do Centro, e alguns empresários até já restauraram seus prédios, a exemplo da Far­mácia Artesanal, na Rua 4. Po­rém, ainda existe uma forte resistência dos empresários e comerciantes. É possível restaurar os prédios art déco de Goiânia? O que falta?
Sim, é possível fazer essa restauração. Miami tem um título parecido com o que foi dado pelo Iphan a Goiânia, em 2003, mas desde 1979. Lá, as pessoas acreditaram e viram a possibilidade de a cidade se tornar um sítio turístico também por essa motivação. Hoje falamos muito na questão do chamado “turismo de descoberta”. Goiânia poderia seria uma descoberta, inclusive, para as pessoas que moram aqui. A cidade está pronta para isso e só precisaria que se procedesse a limpeza das fachadas para mostrar a cidade que temos. É claro que isso demandaria também outras intervenções de infraestrutura, como calçadas, sinalização e segurança. Isso levaria Goiânia ao status de cidade mundialmente conhecida. Considero Goiânia ainda mais importante que Miami, pois a cidade já foi construída com esse estilo desde sua origem.

Na época, nem se falava em art déco. O nome foi dado, de­pois, por Le Corbusier, o arquiteto francês que trouxe essa de­nominação, isso nos anos 1970. Goiânia foi a primeira cidade moderna do Brasil, pois antes as cidades eram construídas unicamente nos estilos barroco e colonial, como foram Pirenó­polis e a cidade de Goiás. Então, Goiânia veio para revolucionar: planejada, moderna e, repito, a única construída no mundo inteiro desde sua fundação no estilo art déco. Infelizmente, esse dado não é valorizado.

Augusto Diniz — O que é preciso para que a população entenda essa importância? É preciso que haja uma intervenção do poder público?
De 2001 a 2004, na gestão do ex-prefeito Pedro Wilson (PT), o projeto Cara Limpa ganhou notoriedade, mas isso não foi seguido pelo prefeito que o sucedeu [Iris Rezende, prefeito de 2005 a 2010]. Em 2016, o ex-prefeito Paulo Garcia (PT) juntou um projeto seu com outro do vereador Elias Vaz (PSB) chamado “Cidade Limpa”. O projeto está na Câmara Mu­ni­cipal para ser votado. Também no ano passado, propus a primeira audiência pública sobre essa questão e o vereador An­selmo Pereira (PSDB), à época presidente da Câmara, foi incisivo ao dizer que iria colocar o projeto para ser apreciado, mas ainda estamos aguardando, pois precisamos de uma lei nesse sentido, para que se cumpra a preservação. A lei não é apenas para que as pessoas gastem, pois elas também terão retorno.

Marcos Nunes Carreiro — O que diz esse projeto citado pelo sr. e que está na Câmara? Os empresários terão algum tipo de incentivo para restaurar os prédios?
A publicidade dos comércios precisa ser readequada, pois está extrapolando a medida. Um dos efeitos da lei será padronizar, então, as dimensões dessa publicidade do comércio. Isso já liberaria grande parte das fachadas. A questão é quem vai bancar isso porque, quando tirarem as placas, os prédios precisarão passar por uma restauração.

Augusto Diniz — Existe algum diálogo entre Prefeitura e governo do Estado em relação a esse projeto?
Não sei. Estou vendo uma parceria entre Estado e município, mas não sei se isso vai englobar o projeto. No dia da audiência pública, apresentei um projeto chamado ZID [Zona Integrada de Desenvolvimento], que tem o apoio da Sociedade Art Déco de Goiânia. Pensei nesse projeto antes das eleições, mas deixei para apresentar depois, quando o prefeito já tivesse sido eleito. Nele, falo sobre dedução de impostos dentro do chamado “Manto de Nossa Senhora”, no Centro, para empresas que quiserem restaurar a fachada e adequar sua publicidade. Além disso, haveria mecanismos de atração de empresas do setor de turismo, cultura e educação para fomentar a questão turística e cultural do Centro.

Marcos Nunes Carreiro — E hoje o centro se esvaziou.
Sim, está esvaziado. Sou de uma época, antes dos shopping centers, em que o Centro tinha várias galerias de arte, shows ao vivo, exposições, escolas de idiomas e teatros. Hoje não há mais isso. Então, o projeto contempla que haja galerias, restaurantes temáticos, escolas de idiomas, agências de turismo e casas de câmbio. Há duas casas de câmbio no final da Avenida Goiás. Se há casas de câmbio, pela lógica devem ter turistas estrangeiros no Centro buscando trocar seus dólares e euros. Isso mostra que o Centro pode se tornar viável nesse sentido.

Marcos Nunes Carreiro — O sr. chegou a apresentar esse projeto para alguém depois da audiência pública?
Depois da reunião na Câmara de Goiânia, em audiência conduzida pelo vereador Anselmo Pereira, tive o prazer de apresentar o projeto recentemente para o secretário municipal de Cultura, Kléber Ador­no, e para o secretário municipal de Turismo, Alexandre Magalhães.

Augusto Diniz — A última gestão da Prefeitura de Goiânia começou um projeto embrionário que era o “Domingo no Centro”, que fechava o trânsito no anel interno da Praça Cívica e na Avenida Goiás, nos moldes do que é na Avenida Paulista, em São Paulo, aos domingos. O Grande Hotel chegou a receber pequenas apresentações culturais de grupo locais. Ações assim são suficientes para promover a reocupação do Centro da cidade?
Não são suficientes. Eu trabalhei na Secretaria Municipal de Cultura e fui o idealizador do projeto “Galeria Noturna”, que trazia a pintura nas portas de aço dos estabelecimentos comerciais. Isso foi há dois anos e era uma iniciativa para fomentar o turismo e para valorizar nosso centro histórico. O projeto foi interessante e contemplou mais de 170 artistas, com quase 200 portas pintadas. Então, realmente houve essa manifestação cultural no Centro. A Agap [Associação dos Artistas Plásticos de Goiás], que estava enterrada, ressuscitou com esse projeto Galeria Noturna. Hoje, há muitas exposições de arte na cidade, o que nos faz pensar que uma coisa puxa a outra. Então, precisamos de projetos e ideias que puxem as pessoas para o Centro. Precisamos movimentar para atrair, inclusive, novas empresas para fomentar a economia.

Augusto Diniz — O que é preciso fazer para que a população entenda, reconheça e aproveite esse patrimônio art déco que existe na cidade?
Há crianças e mesmo pessoas mais velhas que nem conhecem o que é isso, e não só em relação ao art déco. É preciso fazer para que a população entenda, reconheça e aproveite o patrimônio arquitetônico que existe na cidade. Não só em relação ao art déco, como também o que há de estilo moderno e outras arquiteturas.

Elder Dias — É possível que esse projeto se viabilize sem o auxílio do poder público? Os comerciantes se disporiam a ajudar?
Nós já temos feito algumas ações no Centro, pela Sociedade Art Déco. Fizemos um levantamento de três quarteirões no centro da cidade, sendo dois deles ao lado da Rua do Lazer, visitando um total de cem lojas. Os comerciantes têm grande interesse e o sr. José Carlos, da CDL [Câmara de Dirigentes Lojistas], é um exemplo. Ele tem sido nosso parceiro nesses eventos e demonstra realmente muito interesse. Mas também há a questão financeira, a crise por que passamos, e por essas coisas, de certa forma, a maioria não quer acreditar que um projeto assim possa dar certo.

Elder Dias — Ninguém quer bancar uma aposta…
Exatamente. Sendo assim, tentamos do modo que estamos, por meio da Sociedade Art Déco de Goiânia, tentando por meios jurídicos criar projetos de leis de incentivo para poder efetivar isso. Quando se fala em art déco, podemos pensar, por exemplo, em Miami, que reúne, em uma entidade, várias associações de art déco do mundo. En­tão, Miami superou todos no mundo, inclusive a França, em termos de valorização do art déco, após o tombamento feito em 1979.

O que nos falta é isso, fazer essa aposta para ter essa valorização. Aqui em Goiânia nós temos professores da área que vêm dizer que art déco é “arte de cocô”. Uma arquiteta já disse que nosso patrimônio não é art déco. E outro dia uma pessoa também disse que o nosso patrimônio não é o segundo maior. E eu pensei “fale baixo, não diga que não temos nem o segundo, diga que pode vir a ser até o primeiro”. Para isso, basta fazermos o trabalho que tem de ser feito, com desobstruções das fachadas e recuperação desse patrimônio no Centro da cidade.

Na questão cultural, há a ideia de fazermos um festival de cinema patrimonial, que é uma ideia única no mundo. Não existe no mundo um festival de cinema patrimonial — existe de cinema ambiental, como o Fica [Festival Internacional de Cinema e Vídeo Ambiental, realizado anualmente na cidade de Goiás], apenas. Mas imagine um festival de cinema patrimonial em de Goiânia, valorizando nosso art déco. Isso se tornaria uma data na agenda.

Marcos Nunes Carreiro — A Sociedade Art Déco chegou a ter ou ainda têm algum diálogo com o Iphan [Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional] com relação a esses projetos, já que é a instituição que cuida do traçado tombado de Goiânia?
Ou o que deveria cuidar, não é? Desde o governo do ex-prefeito Pedro Wilson [2001-2004] já estava prevista na Agenda 21 uma lista de ações de curto, médio e longo prazo em relação ao patrimônio e à educação patrimonial. E já estamos com o médio prazo acabando e nada foi feito. Isso diz respeito ao Iphan, bem como ao Conselho de Patrimônio da Prefeitura, também. Estou tentando fazer essas ações desde 2004, mas sozinho. Não represento nenhum trade turístico, nem associação de hotéis, ou bares e restaurantes, tampouco de agências de viagem etc. Sou apenas um guia turístico e artista plástico que tenta fazer isso desde essa época. Agora vejo o governo disponibilizar R$ 2 milhões em recursos para o trade de turismo. Tenho certeza de que, se eu tivesse R$ 500 mil, conseguiria fazer uma revolução nessa questão do patrimônio histórico.

Elder Dias — Ao que parece, a questão passa primeiramente por uma disputa de espaço, talvez até acadêmica, entre os próprios urbanistas, em relação ao que é e ao que não é — ou ao que é ou deveria ser — objeto de preservação. Isto é, apesar de termos belas construções de art déco em Goiânia, não me referindo apenas às construções públicas, como o Coreto da Praça Cívica, o Tram­polim do Lago das Rosas e outras, mas também às residências, como algumas da antiga Rua 10 [hoje Avenida Univer­sitária], aparentemente não existe um acordo para definir isso em conjunto. Essa disputa enfraquece as iniciativas?
Enfraquece pelo seguinte motivo: há os proprietários que querem fazer outras coisas, como destinar a casa para estacionamento ou comércio etc. Assim, deixam o imóvel se sucatear ao máximo. Daí, então, a Defesa Civil é chamada para condenar a construção. As pessoas não acreditam que o poder público ou qualquer instituição possa ajudar a fazer com que seus imóveis se valorizem, só percebem que possa haver ganho se tiverem um estacionamento ou um prédio de vários andares. Mas, ao contrário, a valorização deveria estar na própria essência do patrimônio.

Augusto Diniz — Tivemos a discussão sobre o abandono no patrimônio de art déco de Goiânia reacendida com uma matéria recente no “New York Times”. É necessário que a imprensa internacional tenha de dizer que não damos valor ao patrimônio arquitetônico, para que a sociedade local passe a prestar atenção e para que o poder público, nem que seja ao nível do discurso, dê início ao debate de políticas públicas para isso, inclusive com relação a essas casas que vão se deteriorando, até chegar ao ponto de a Defesa Civil ter de decretar sua demolição?
Infelizmente, temos um patrimônio assim, mas que só ganha repercussão dessa forma. Vale lembrar que hoje nosso traçado é um dos únicos ainda preservados no Brasil. Já imaginou se outro Plano Diretor for apresentado e autorizar que o restante das casas em art déco possa ir para o chão? Por isso, a rediscussão do Plano Diretor, este ano, será muito importante para a sobrevivência do patrimônio, porque o DNA da cidade é seu centro histórico. É onde a cidade surgiu. Faltam realmente interesse e vontade. Não sei até que ponto o trade turístico de Goiâ­nia não consegue vislumbrar algo como o turismo de descoberta, por exemplo. As pessoas não querem mais apenas ir visitar a Torre Eiffel, em Paris, ou a Tower Bridge [ponte construída sobre o rio Tâmisa, em Lon­dres], a Torre de Pisa [famosa torre inclinada, construída em 1174, na Itália]. Se aparecer uma coisa inédita, nova, certamente que vão querer conhecer, também. Nesse sentido é muito importante valorizar o que ainda não conhecemos totalmente. E que venham mais reportagens do “New York Times” com esse viés, isso é positivo.

“Iphan não tem feito muito em relação ao art déco”

Augusto Diniz — O sr. lembrou que este é o ano em que a Câmara de Goiânia tem como prerrogativa discutir a atualização do Plano Diretor, já que faz dez anos que o último Plano entrou em vigor. Qual é sua preocupação com relação a isso? Que tipo de alterações podem ser feitas e podem levar à degradação do patrimônio art déco em Goiânia?
O primeiro Plano Diretor foi elaborado quando Jaime Câmara era prefeito de Goiânia (1959-1961). De lá para cá realmente muitas coisas mudaram com especulações. A construção de prédios de vários andares no Centro da cidade não deveria passar de forma alguma como proposta. A especulação pode acabar com o restante do patrimônio que ainda resiste de pé. Há várias questões que podem ser trabalhadas e é preciso que a população seja chamada a discutir esse Plano Diretor. Na visita ao secretário de Turismo, que é do PSDC, ele garantiu que os vereadores de seu partido [Kleybe Morais, Jair Dia­mantino e Anderson Sales] estão interessados nesse cuidado com a parte histórica.

É preciso esse interesse, para que tenhamos como palavra chave na Câmara a preservação do patrimônio da cidade, especialmente no Centro. Frequentemente, há movimentação para derrubar prédios ou até quadras inteiras no Centro. E alguns quarteirões são quase que totalmente em art déco, ainda, por incrível que pareça.

Marcos Nunes Carreiro — Mas não é proibido fazer qualquer modificação no Centro de Goiânia sem autorização do Iphan?
Deveria ser.

Elder Dias — O Iphan está sendo omisso com relação a essa questão?
Acho que sim. O Iphan não tem feito muito em relação ao nosso patrimônio art déco.

Elder Dias — Não parece ser uma questão técnica, ou dos técnicos do instituto, mas, sim, um problema político.
Um exemplo de negligência é em relação à educação patrimonial. O que eles fazem?

Augusto Diniz — Qual seria a função do Iphan na preservação do patrimônio arquitetônico? O que o Iphan deixa de fazer e o que ele deveria fazer?
O que o Iphan deveria ter feito, quando lançou o dossiê [em 2003], era intensificar a questão da educação patrimonial, justamente em relação aos comerciantes do Centro da cidade. Ou seja, há muito tempo atrás já deveriam ter pensado em algo nesse sentido, para poder coibir a derrubada desse patrimônio. De lá para cá vários prédios já foram jogados no chão. Ali mesmo na Praça Cívica, na esquina com a Rua 10, tinha um prédio onde funcionou o comitê de partidos políticos e o jogaram no chão.

Também é preciso que haja ações nas escolas. Elas deveriam receber atenção por parte do Iphan, tanto as unidades públicas estaduais como municipais, mas não existe nada nesse sentido. A gente tem que valorizar lá no início, na infância, para que as crianças cresçam conscientes da riqueza que sua cidade tem.

Elder Dias — Goiânia é uma das cidades do mundo com o maior patrimônio de uma arquitetura relativamente rara, que é o art déco. O que o sr. vê como impedimento pa­ra o poder público assumir isso como uma atração da capital? Seria falta de vontade política ou de visão, ou as duas coisas?
Tanto falta de vontade do poder público como de visão da iniciativa privada. O setor de turismo não percebe esse potencial. As pessoas que fomentam o turismo deveriam chamar a população para o Centro, para conhecer a cidade, mas ficam paralisadas. Não sei se são pessoas formadas, técnicas, especializadas, mas não conseguem fazer com que isso realmente aconteça. Eu acho inacreditável! Se fosse na Europa ou nos Estados Unidos, em uma cidade igual a Goiânia, já teriam feito milhões de coisas para que a cidade se tornasse superinteressante, simplesmente agregando essa valorização do patrimônio. É algo plenamente rentável.

Eles não conseguem enxergar esse potencial — ou talvez nós estejamos fazendo com que essa mensagem sobre o potencial esteja chegando de forma errada, para que eles consigam ver isso. Os empresários precisam entender que o retorno é positivo. Um exemplo: o dono do Goiânia Palace Hotel, na Ave­nida Anhanguera, é um francês [Jean-Luc Riedberger] que resolveu manter e valorizar a fachada original do prédio. Faz a propaganda de seu estabelecimento usando o art déco como chamativo. Entretanto, muitos empresários goianos, que conhecem outros lugares do mundo, não conseguem ver que é possível juntar a atividade do turismo hoteleiro com a história da cidade, enquanto o estrangeiro vê a importância de preservar aquele patrimônio e ter retorno disso.

Por meio da Sociedade Art Déco de Goiânia, queremos fazer algumas ações, que são difíceis de acontecer. Buscamos uma parceria com a Aliança Francesa, por meio da diretora-geral, Dinah Opo­czynski, que é uma belga. De imediato, ela comprou a ideia. Estamos combinando algumas ações e uma delas é um passeio que vou fazer com alunos e professores de forma gratuita, além de uma palestra, para promover e chamar atenção para outras instituições educacionais. Só que eu enviei material para 30 escolas particulares e universidades de Goiânia no ano passado, mas não tive retorno de ninguém.

As pessoas precisam conhecer o lugar em que moram por outro olhar. Veja o quanto é interessante a propaganda da Unimed, sobre as bicicletas públicas, em que uma pessoa pede à outra para tirar uma foto e esta pergunta de onde ela é. “Sou do Sul.” E a questão seguinte: “Sul, Rio Grande do Sul?”. “Não, sou do Setor Sul aqui” (risos). Seria interessante que aparecesse este sentido em relação ao patrimônio histórico, muito mais ainda para alunos: buscar o lado educacional da história arquitetônica da cidade.

Elder Dias — Quando o assunto é Centro, uma das principais preocupações do comerciante é a questão do fim do estacionamento na porta de sua loja. Ele não consegue entender que a pessoa pode chegar a seu estabelecimento sem precisar existir uma vaga para automóvel em frente a seu comércio. E daí vem agora a etapa mais complicada do BRT, que será passar pela Ave­nida Goiás, no Centro. Ao mesmo tempo, há agora a bicicleta pública, que pode ajudar bastante na mobilidade. Mas por que o comerciante não se convence de que é possível fazer compras no Centro sem que o cliente esteja de carro?
É questão de educação e cultura. Aqui ainda não há isso. Tem gente que fala que ainda não temos história, mas já vamos completar o primeiro centenário de Goiânia em uma década e meia. Eu sugiro no projeto do ZID, dentro da Zona 40 [região conhecida como Manto de Nossa Senhora — a área delimitada pela Praça Cívica e avenidas Araguaia, Paranaíba e Tocantins, em que o trânsito é limitado a uma velocidade de 40 km/h], que haja um ônibus a preço popular que só rode dentro dessa área. As pessoas passariam a deixar seus carros ao redor dessa área e a andar — pagando 1 real, por exemplo — e conhecendo a cidade desse jeito. São apenas 44 quarteirões dentro da Zona 40, é algo viável. Outra ideia é ter um ônibus que venha direto do aeroporto para o Centro.

Elder Dias — Seria interessante um projeto de mobilidade urbana específico para o Centro, mas também para as áreas do Setor Sul e locais próximos, talvez incluindo o carro e tendo a opção de outras modalidades de transporte de forma integrada. A ZID contempla algo assim?
Não nesse sentido, mas seria uma coisa a se pensar também. Eu fiz esse projeto pensando na região que tem 44 quarteirões. Tenho uma reunião marcada com o secretário municipal de Trân­sito, Felisberto Tavares [vereador licenciado pelo PR], para quem vou sugerir — e isso faz parte do projeto — a primeira ciclorrota do art déco no mundo. Se ele fizer pintar essa ciclorrota no chão já seria uma ação pioneira, inédita, com essa temática. O que pode ser adotado também é a mesma ideia das ciclofaixas já existentes, com períodos em que a circulação naquela faixa da rua ou avenida ficaria restrita às bicicletas, em dias e horários com menor fluxo de veículos.

Elder Dias — No projeto, há a previsão de restauração do que ainda existe de art déco no Centro ou de reconstrução do patrimônio arquitetônico destruído?
Não. Porque, se houver a execução de pelo menos 30% dessa proposta, já seria um avanço incrível. E depende muito da vontade do poder público. Esse patamar já seria um pontapé importantíssimo. E depois, se Goiânia passar a ser a cidade realmente conhecida por seu patrimônio arquitetônico art déco, poderíamos utilizar nossos futuros arquitetos para implantar algo como um “new art déco” para ser aplicado ao Centro. Seria uma nova onda do art déco para a cidade. O moderno em relação ao que já foi feito na capital no início da cidade. Seria interessante, por exemplo, para ser utilizado em lotes vagos que ainda existem no Centro da cidade. Quem sabe os arquitetos pensariam em uma arquitetura voltada realmente para o nosso estilo.

Elder Dias — E quanto do patrimônio original do art déco de Goiânia ainda existe?
Da época do dossiê ainda, em 2003, o Iphan fez um levantamento que somaria entre 250 e 280 prédios. Creio que cerca de 80 já foram derrubados desde então, embora seja necessário alcançar uma informação mais atualizada.

Elder Dias — Então, de quanto seria essa perda do patrimônio, desde 2003?
Confirmado esse número, seria uma perda de praticamente 30% do patrimônio art déco do que havia sido levantado naquele ano. O Iphan tem essa informação mais exata.

Augusto Diniz — Goiânia tem mais de 1,4 milhão de habitantes e uma frota de mais de 1 milhão de veículos. Não tem um trânsito de São Paulo ou de outros grandes metrópoles do mundo, mas já é um trânsito aterrorizante. Pode-se imaginar que haja, em prazo não muito longo, a proibição na capital da circulação de veículos motorizados particulares no Centro?
Acredito que sim, mas isso ocorreria apenas se fosse assegurado um transporte público digno, por meio de modais como o BRT [sigla para “bus rapid traffic”, que significa, em inglês, significa “tráfego rápido de ônibus”] e o VLT [sigla para “veículo leve sobre trilhos”].

Elder Dias — É uma ideia viável em curto prazo?
Não para curto prazo. Isso seria complicado.

Elder Dias — Até mesmo porque no Brasil não há nenhuma grande cidade com restrição total — nem mesmo em São Paulo, no Rio ou em outra capital — à circulação de veículos em sua região central…
É verdade. Isso ocorre em cidades históricas, como Ouro Preto (MG), mas é algo que ainda não foi implantado no Brasil em uma metrópole.

Elder Dias — Ao contrário do que ocorre no centro de Londres ou Paris, onde há espaços cerceados ao trânsito de carros.
Eu morei em Londres durante algum tempo, por dois anos. Quando saí de lá, há cerca de 12 anos, já estavam em elaboração um projeto no qual, com um símbolo pintado no asfalto, já se restringia a permanência do automóvel por, no máximo dois minutos, em cima daquele local. Mas o fato é que a capital da Inglaterra tem uma malha de metrô incrível, uma das maiores do mundo, um transporte público decente e percebe-se a grande presença das bicicletas pelas ruas.

Elder Dias — Como pessoa interessada pelo comportamento do cidadão em relação à cidade, como o sr. avalia o projeto das bicicletas públicas, implantado recentemente, no fim do ano passado?
Eu ando muito a pé pelo Centro e percebo que a adesão da população foi surpreendente. É uma iniciativa muito boa que parece ter emplacado de forma muito rápida por aqui. Alguns estudos parecem demonstrar que, proporcionalmente, o uso tem sido maior até mesmo do que o de grandes cidades, como Buenos Aires, São Paulo e Rio de Janeiro.

Elder Dias — No Centro há três estações de bicicletas públicas — na Praça Cívica, na Praça do Bandeirante e no cruzamento da Avenida Goiás com a Avenida Paranaíba. Como essa facilidade de acesso a um outro modal pode contribuir para melhorar o trânsito da região central?
Eu creio que a adesão à bicicleta dependa de alguns fatores. Um deles gira em torno da velocidade máxima permitida aos carros. Hoje temos a Zona 40, que é a velocidade máxima em km/h no Centro. Mas é preciso que o novo secretário municipal de Trânsito, Felisberto Tavares, tenha a sensibilidade para não buscar alterar essa velocidade. Eu, que ando muito pela região, nunca mais presenciei acidentes graves após a instauração da Zona 40, apenas ocorrências de quedas de moto com escoriações, mas nada que fizesse o acidentado ter de ir para o Hugo [Hospital de Urgên­cias de Goi­ânia]. Minha sugestão é de que permaneça essa velocidade máxima para os carros e que os ônibus possam rodar a 50 km/h no corredor. A ideia é agilizar o transporte coletivo, incentivando seu uso, e, por consequência, inibir o transporte particular.

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Elder Dias — Em Goiânia, talvez mais do que em outras grandes cida­des, vivemos a cultura da he­ge­monia do automóvel. Quanto maior o carro, maior o poder. Quem tem uma caminhonete es­taria, portanto, no topo da cadeia do trânsito na capital. Enquanto is­so, nessa mesma cultura, o pe­destre e o ciclista não são ninguém. Por outro lado, se é torturante — e é — usar o transporte co­letivo, há também a falta de há­bito para mudar a forma de se locomover. Na década de 60 era muito grande a quantidade de bi­ci­cletas em Goiânia, mas isso pa­re­ce que se perdeu durante mui­to tempo. Esse movimento, ao que parece, começa a crescer no­va­mente, com as ciclovias e as bikes públicas. Mas falam que o ca­lor é uma dificuldade grande pa­ra que as pessoas pedalem para ir ao trabalho, por exemplo. O sr., que morou na Europa — onde a locomoção por bicicletas têm grande adesão, apesar de até nevar —, como vê isso? O calor é um fator que justifica não andar de bicicleta?
Não, não se justifica. Além de Londres, morei também em Bruxelas. Na Europa se anda muito de bicicleta de qualquer forma — e é bom lembrar que faz muito calor no verão europeu, mais do que aqui às vezes. Porém, mais do que essa questão de criar o hábito, é preciso entender que a forma de se locomover é uma questão de saúde pública: o sujeito da caminhonete cria para si um hábito sedentário e a probabilidade de ter vida saudável, dessa for­ma, é bem menor do que alguém que tenha a prática de se deslocar pedalando. Com mais esforço físico, inclusive para se deslocar, evitam-se diabetes e doenças cardíacas, entre outros males.
Elder Dias — Em Goiânia, a parceira do projeto das bicicletas públicas é a Unimed, uma empresa da área de planos de saúde, o que sinaliza alguma coisa nesse sentido.
Exatamente, enquanto em outras cidades que já vimos o projeto é bancado por um banco [Itaú]. É uma forma muito interessante de fazer o próprio marketing, partindo de uma entidade ligada à saúde.

Elder Dias — É uma propaganda institucional duas vezes, no caso: além de colocar a marca em algo positivo para a cidade — que é um novo modal, diferenciado —, vemos uma empresa passar uma mensagem de que as pessoas devem se cuidar, movimentar o próprio corpo. É bom lembrar que o sedentarismo sobrecarrega a rede pública de saúde e, consequentemente, o erário. Mas por que o próprio governo não faz um “link” mais próximo entre pedalar e melhorar o nível da saúde pública? Não parece haver um desinteresse do Estado em agir em prol de mais ações positivas nesse sentido?
É preciso entender a rede de interesses que existe por trás, seja do lado do governo como dos empresários, bem como das pessoas também. Vemos isso também em relação à questão do patrimônio propriamente dita. Um exemplo: quanto estávamos fazendo uma pesquisa nas ruas, um rapaz de uma loja na Avenida Goiás, ao ser questionado sobre o que poderia melhor no Centro, respondeu “acho que teria de tirar essa árvore aqui”. A justificativa? Estava atrapalhando a visão da logomarca da loja dele.

Outro exemplo: saímos de uma loja de calçados, na Avenida A­nhanguera, tem um painel de DJ Oliveira [artista plástico goiano], que foi um achado para nós e é tombado pelo município. Do lado dessa loja, havia uma lona inteira na fachada de uma sala, creio que de clínica odontológica, tapando a art déco. Um senhor, então, ficou incomodado ao saber de nosso interesse em buscar expor mais a art déco. Só que, na cabeça dele, colocar um banner enorme com a marca vai atrair mais clientes. É que o goiano tem perfil “outdoor”, que com uma pro­paganda grande venderá mais, como a tal loja de calçados. En­tão, mostrei do outro lado da rua outra loja de calçados concorrente, do mesmo ramo, que manteve a fachada em art déco. O senhor simplesmente disse que a outra loja já era antiga. Mas parece que falta planejamento, falta vontade de fazer plano de comunicação.

Augusto Diniz — O art déco ainda sofre muita resistência, até dentro da área de arquitetos e urbanistas. Por que existe divergências sobre esse estilo de arquitetura em Goiânia ainda?
Uma arquiteta fez uma pesquisa sobre art déco em Goiânia e a publicou, para provar que não só o muro ou a fachada, mas também o projeto arquitetônico interno das casas é também nesse estilo. Se for levado esse fator, nossa capital poderia se tornar realmente a cidade com o maior patrimônio art déco no mundo, superando Miami. O problema é que Miami tem marketing.

De nossa parte, porém, não temos essa preocupação, se Goi­ânia será a maior ou a segunda maior, se fica em primeiro ou segundo lugar em relação ao patrimônio. O que de fato nos interessa é manter, preservar esse patrimônio. Não foi à toa que Attilio Corrêa Lima estudou esse estilo na França e o trouxe para cá. Goiânia era uma cidadezinha qualquer e continuaria a ser uma cidade qualquer se não fosse essa intervenção. Por isso, Goiânia é uma obra de arte. Estamos perdendo essa obra de arte por não preservar a art déco. Queremos reagir a isso e incentivar as pessoas a reocupar o Centro. É preciso que o empresário se conscientize de que não precisa de uma lona, de um banner, para que seu empreendimento esteja visível para o consumidor.

É preciso dizer que, de certa forma, ainda que inconsciente, esses empresários que cobrem suas fachadas com banners, outdoors e displays conservaram o patrimônio arquitetônico, já que atrás dessa publicidade está lá o estilo, mesmo que precisando de nova pintura, de alguma restauração.

Augusto Diniz — O art déco é a melhor forma de fazer o turismo “bombar” em Goiânia?
Costumo dizer que há três formas de fazer com que os turistas sejam atraídos bem rapidamente para cá, duas delas inviáveis e uma factível. A primeira é que haja uma descoberta arqueológica debaixo do solo, como uma pirâmide gigante, algo bem inviável; a segunda é descer um disco voador na cidade, o que também é improvável; e a terceira, que é totalmente possível, é explorar o patrimônio art déco que temos.

Goiânia, hoje, está conhecida em Buenos Aires, onde expus uma foto do Coreto da Praça Cívica, com a qual conseguimos o prêmio de Menção de Cola­boração Intera­mericana. Haverá agora um evento em Miami, um dos maiores do mundo do gênero, e nossa cidade estará exposta de forma positiva.

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Carlos Spindula

Interessante discussão, uma questão de cultura e de valorização do que temos, sem dúvida. Pessoalmente acho que o problema maior para o Centro “bombar” é a (falta) segurança pública, com nóias e ladrõezinhos perambulando à vontade pelo Centro, desestimula totalmente qualquer um a andar a pé. Acho uma utopia esse movimento de andar de bicicleta a não ser para lazer. Para trabalho ou deslocamento ainda é perigoso, por causa da violência (que está inviabilizando a economia de todo o país) e da falta de respeito dos motoristas. Um problema cultural, mas o clima quente não ajuda, uma coisa totalmente sem… Leia mais

Rubens Chagas

Sr. Gutto Lemes, parabenizo sua luta pela preservação do nosso patrimônio artístico, histórico e cultural da cidade de Goiânia, o Art Déco. Meu nome é Rubens Chagas, sou leitor assíduo do jornal Opção. Sempre observo as agressões a valiosos patrimônios da nossa querida Goiânia, sobretudo a Praça Cívica, que possui um legado precioso e que o poder público tem a obrigação de preservar e restaurar quando for agredido, degradado e até mudado, por vontade de gestores sem nenhum compromisso cultural e histórico com nossa capital. Minha indignação é com quatro edifícios da Praça Cívica: o prédio onde funcionava a Secretaria… Leia mais

Matias Lapell

O empenho do Gutto Lemes é admirável e o parabenizo pela iniciativa, entretanto ele está dando murro em ponta de faca. A população goianiense de fato não valoriza seu acervo arquitetônico histórico, não por desprezo ou desconhecimento, mas sim porque o movimento Art Déco dos anos 20 e 30 não faz e nunca fez parte da identidade cultural da população goianiense. Como comumente ocorre em cidades planejadas, houve uma grande discrepância entre os ideais visionários dos projetistas e o estilo de vida da população regional. Foi o mesmo fenômeno que ocorreu, por exemplo, com o projeto “cidade jardim” do setor… Leia mais