“Goiânia é ‘digital’, mas o casal Iris a governa no sistema analógico”

Um dos nomes mais respeitados da Câmara, vereadora tucana faz críticas à administração municipal e à política tradicional. Sobra puxão de orelhas até para seu próprio partido

Vereadora Cristina Lopes | Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

A vereadora Cristina Lopes (PSDB) foi a mulher mais votada para a Câmara de Goiânia em 2016. Mais do que isso: ficou com a segunda maior votação, atrás apenas do fenômeno Jorge Kajuru (PRP), que foi impulsionado pelo cenário de insatisfação com os políticos tradicionais. Por isso, a façanha obtida por Cristina é ainda mais grandiosa: ela poderia estar incluída nesse rol, já que buscava seu segundo mandato, mas aumentou em mais de 50% seu alcance, com 9.114 votos.

Ela faz questão do número exato. “Qualquer voto é sempre precioso”, diz. O que diferenciou a Dra. Cristina – seu nome na urna eleitoral – de seus colegas de Câmara, quase todos menos votados do que nas eleições anteriores? Pode ser algo que a coloque como uma política diferente da maioria dos demais: seu trabalho transparente por causas como o empoderamento da mulher, a dignidade das pessoas com deficiência e o respeito ao meio ambiente, bem como pela busca de aproximar a política das pessoas.

Ela acredita nas causas que defende e acredita que é possível fazer uma nova política. Mesmo sendo filiada a um partido, foge dos rótulos de “esquerda” e “direita” – “entre aspas mesmo, porque são conceitos que deveriam estar ultrapassados no Brasil” – e se declara a favor do fim das coligações e pela instituição das candidaturas avulsas. Sobram críticas até ao próprio partido: “O PSDB perdeu o bonde e a chance de ter o protagonismo político ao não sair do governo Temer.” Claro que, como boa oposicionista em Goiânia, não faltam contestações ao prefeito Iris Rezende (PMDB): “Ele governa como se ainda estivéssemos na época dos mutirões, mas o mundo mudou e Goiânia também.”

Elder Dias – A sra. está em seu segundo mandato e nossa entrevista anterior tinha sido no começo do primeiro. O que houve em termos de “bagagem” como vereadora?
Um grande aprendizado. Faço muitas palestras e viagens para falar sobre a questão política e o que é o Legislativo no Brasil. Como pessoa que tem duas faculdades e uma grande experiência no atendimento à população e com a organização da sociedade civil, sempre tive proximidade com a política social, trabalhista, inclusiva. Mas vou dizer com toda a honestidade: quando me tornei vereadora, eu realmente não sabia nada, assim como tenho certeza de que a maioria que chega ao cargo não compreende o que é esse Poder, como trabalhar nele e quais são as possibilidades que ele oferece. Portanto, sem dúvida aprendi muito nesse período e uma escola de resultados rápidos é a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ). Quem passa por lá vive um “intensivão”, porque todos os projetos passam por lá.

Há, então, a oportunidade de conhecer a natureza dos projetos e os pareceres da Procuradoria e de quem os relata. É realmente uma escola sobre os termos, sobre o formato da lei – o que é um projeto de emenda à Lei Orgânica, o que é quórum simples ou qualificado etc. Isso me fez crescer muito tecnicamente e politicamente falando também, porque é preciso lidar com a imprensa, com os agrupamentos que se interessam pelas matérias em questão, sejam servidores públicos, ONGs [organizações não governamentais, estudantes, ambientalistas. Ao mesmo tempo em que a gente se torna mais conhecida, também aumenta a bagagem técnica e política.

Cezar Santos – Não houve uma dissonância entre a expectativa e a realidade? A sra. não se decepcionou com muita coisa que ocorreu ao contrário do que esperava?
Com certeza. Na verdade, sempre trouxe para mim as questões. Milito na área da proteção à mulher e do paciente queimado já há 31 anos e minha reflexão é sempre a seguinte: a situação está ruim, então o que eu posso fazer? Foi essa motivação que me levou à política. Minha carreira como profissional da área da saúde, fisioterapeuta, é muito sólida. Tenho publicações internacionais e muito reconhecimento na área, que é muito específica, não é uma especialidade, são poucas as pessoas que têm condições de treinar uma equipe. Então, durante 23 anos nessa área, no atendimento ao paciente, na reabilitação, na universidade, na Sociedade Brasileira de Queimaduras, tive um crescimento muito importante. Se for pensar economicamente, foi um retrocesso. Saí de três empregos já em uma situação sólida, já bem depois do início de carreira, mas sempre trago essa questão comigo: o que posso fazer, se a situação está ruim? Foi assim que me decidi por uma candidatura e, nisso, tive contato com Denise Carvalho. Ela é minha amiga desde a época da faculdade, nos anos 80, uma política de grande experiência e que faz muita falta no cenário parlamentar. Já foi deputada, poderia ter chegado muito mais longe e agora senti muito o fato de ela não ter sido eleita [Denise foi candidata a vereadora em 2016 pelo PCdoB, em Goiânia, e teve 1.819 votos]. Então, quando ela se desligou do PCdoB e se filiou então ao PV – quando o par­tido era comandado por Eve­raldo Pastore [professor da PUC-GO e candidato a governador em 1998] e John Mivaldo [primeiro presidente do Conselho de Arquitetura de Goiás (CAU-GO)], que morreu recentemente [4 de março], uma enorme perda para todos nós. Fomos para o PV. Apesar de eu ter sido exercido a política estudantil e militante da UNE [União Nacional dos Estudantes], nunca havia me filiado, porque muita dificuldade com a política partidária.

Elder Dias – E a sra. foi para o PV incentivada por Denise?
Sim, por apoio a ela, pela situação em que ela foi preterida no PCdoB, por outro nome. A política é muito masculinizada e, com toda sua bagagem, Denise foi preterida por um candidato homem. Eu me filiei ao PV em um evento de muito apoio a ela e naquele momento eu gostei muito do partido, de seus princípios, de tudo que simbolizava – e ainda simboliza, porque o Partido Verde não é só um partido, é uma marca mundial. Só que a decepção é enorme, porque as siglas pequenas são comandadas por uma executiva de quatro ou cinco pessoas que define tudo: se vai coligar, com quem vai coligar, quem será candidato, tudo. Acaba sendo uma ditadura. Já os partidos grandes têm seus caciques, tem a “fila”, gente com mais mandatos, mas há o espaço e o político pode criar seu grupo e ter voz e voto. É bem diferente dos pequenos, há garantido um certo direito à participação, por mais contradições que hajam.Entrei nesse mundo com a disposição de ampliar o espaço das mulheres e levar outras ao meio, com uma forma diferente de fazer política. Entretanto, temos tudo isso ocorrendo em nosso País no momento e não é diferente em Goiânia, que é um microcosmo que reflete essa prática política comum. Ainda temos o sistema do “toma lá dá cá”. Foi contra isso que discursei na cerimônia de diplomação dos vereadores eleitos, sobre a necessidade de abandonar essa prática, que vemos de forma evidente no cenário nacional – troca de ministros, busca de cargos, negociação de diretorias, tudo sem avaliação de critério técnico, da condição de certa pessoa ocupar aquele determinado posto. Só que isso é serviço público, tinha de ser levado a sério, mas são colocações que acabam apenas sujeitas à base de apoio a esse ou àquele.

Elder Dias – Tivemos, na semana passada, uma festa da base aliada simplesmente porque o PTB fechou acordo visando a eleição do próximo ano. E isso, nós sabemos, envolve cargos. Não é privilégio do governo, basta ver que Michel Temer busca se salvar loteando todo o mi­nistério e seus escalões. Da mesma forma, essa farra existe isso para o microcosmo da Câmara de Goiânia.
Totalmente. Uma coisa que me marcou muito foi quando o então vereador Tayrone di Martino [hoje secretário estadual de Governo e filiado ao PSDB] se desligou do PT. Foi isso acontece e imediatamente caírem todas as diretorias e demais cargos da Prefeitura que eram ligados a ele. Ou seja, não se observa se as saídas vão prejudicar o andamento dos trabalhos, se essa ou aquela pessoa está fazendo um bom trabalho. Não há qualquer transição, fica claro que tudo aquilo só existe em função da questão política. Isso é muito danoso para as pessoas e para o patrimônio público, mas não há qualquer disposição em mudar essa lógica. Já elaborei projetos com exigência de qualificação técnica para ocupação de cargos. Nada contra a indicação política, mas desde que isso se condicione à capacidade para estar naquele posto. Não se pode, por exemplo, nomear alguém fora da área da Saúde para dirigir um Cais.
Alexandre Parrode – E é exatamente o que está para ocorrer agora, com a nova determinação do prefeito Iris Rezende (PMDB).Sim, e vai ocorrer exatamente porque esse projeto não foi aprovado.

Elder Dias – Mas é, de fato, um tipo de projeto de interessa da administração…
Não, o problema é que isso não é de interesse dos vereadores, pois a Câmara teria autonomia para votar esse projeto. Claro, ele poderia ser vetado pelo prefeito, mas os vereadores depois poderiam derrubar o veto. Mas, de fato, eles não estão interessados nisso.

Elder Dias – Então podemos dizer que a renovação das cadeiras da Câmara de Goiânia, que foi de dois terços nas últimas eleições – foi apenas de nomes e não de ideias?
Nem digo de ideias, mas de práticas políticas, que é o mais sério. Chegaram pessoas de primeiro mandato até com ideias diferenciadas, mas com a mesma prática. Particularmente, me assustou foi o caso do projeto do Refiz, uma proposta de acordo para pagamento de dívidas com o Fisco municipal por parte de grandes devedores. Goiânia tem um problema, o sujeito já fica devendo por saber que em um momento terá o perdão fiscal. A pessoa sabe que vai renegociar a dívida e terá a anistia, com possibilidade de pagar o mesmo valor só que um ano depois e em parcelas. Então, me impressionou muito a indisposição dos novos vereadores para resolver essa questão. Na legislatura passada, nós definimos o problema da prescrição da dívida. Muita gente bem conhecida na cidade nunca tinha pagado imposto municipal, porque sabia que, em cinco anos, essa dívida estaria prescrita. Então, as pessoas recorriam o tanto que podiam e apostavam na ineficiência do poder público e na demora do julgamento. Então, passavam-se cinco anos e tudo estava zerado.

Elder Dias – E uma receita grande perdida…
Enorme. Eu, após pedir vistas, iria apresentar um substituto, juntamente um grupo de vereadores – Jorge Kajuru (PRP), Elias Vaz (PSB), Priscilla Tejota (PSD). Outros vereadores foram até Iris – e isso me foi relatado por eles próprios, até porque eu não frequento o Paço e não teria como saber – e o prefeito lhes disse que não tinha interesse no projeto e que eles poderiam votar como quisessem. Uma vereadora chegou a se queixar da relação com secretariado, da falta de atendimento. Ele respondeu, “olha, você sabe que sou centralizador, gosto de saber das coisas, então ligue para mim que eu te atendo”. Imagine com que ânimo eles voltaram para a Câmara. No dia seguinte, tive 24 votos a favor do pedido de vistas, o que eu não teria no dia anterior. Por isso, digo que estamos num momento positivo, dada a não construção de base por parte do prefeito e de ele não ter nomeado uma liderança. Vejo isso como um ganho para a população, porque os vereadores têm votado de acordo com o que acreditam ser realmente melhor para a comunidade e não para seus interesses pessoais. Digo isso porque infelizmente a prática brasileira é a de “se sou base, voto sim; se sou oposição, voto não”. Isso sem nem ao menos ler o que está votando, sem nenhum cuidado técnico.
Elder Dias – Então isso seria um efeito colateral positivo da indiferença de Iris em relação à Câmara?Para mim, sim. Já tivemos várias pautas nas quais o fato de ele não ter essa base no Legislativo contribuiu para a melhora da cidade. A liberdade que o vereador tem em votar faz uma pauta positiva.

Alexandre Parrode – Muitos vereadores estão se sentindo com essa es­pécie de liberdade justamente pela insatisfação com o prefeito Iris por ele não os atender e por não ter nomeado pessoas ligadas a eles. Quanto tempo essa “independência” vai durar?
A projeção é de que esta legislatura seja uma das menores bancadas de oposição da história da Câmara.Com essa falta de articulação do Paço com a Câmara, já foram construídas duas frentes de oposição. E vêm ampliando, ainda que não seja por convicção. Porém, creio que, no primeiro aceno do prefeito, isso se desmancha. Quem conhece Iris mais intimamente me diz que essa prática é própria dele e que só vai começar a trabalhar com a Câmara a partir do sétimo mês. Então, estaria dentro do prazo, segundo essa pessoa, que era da “cozinha” de Iris e hoje está na “cozinha” de Marconi.De qualquer modo, vejo uma total falta de diálogo, de aproximação, por parte do prefeito. E toda vez que Iris vai à Câmara faz questão de dizer que tem orgulho de ter sido vereador. Valoriza o Legislativo verbalmente. Da última vez que lá esteve, uma coisa me assustou muito: ele se referenciou à situação política brasileira como um “mar de lama”. Então, eu o questionei: “Mas, prefeito, o senhor já teve todos os cargos políticos, até o de ministro, e o que o sr.  fez para evitar esse mar de la­ma?”. Porque o que mais a gente vê são pessoas com mais de 50 anos de trajetória na política criticando o que acontece agora como se estivesse chegando nesse mundo, como que dizendo “isso não é comigo”. É uma coisa maluca.

Elder Dias – Mas Iris nunca foi recolhido, introspectivo, como parece estar ocorrendo desta vez. Ainda que tenha retomado os tais mutirões, às vezes demonstra até estar desinteressado com a própria cidade. A sra. consegue interpretar o que está acontecendo com ele?
Creio que seja um conjunto de fatores. A idade mais avançada prejudica, claro que interfere em todos nós, é inegável. Iris também tinha dito, desde o começo, que não queria ser candidato, mas acabou se vendo em uma situação de ter de assumir essa condição. Só que agora não está tendo energia para tocar seu mandato. Porém, o mais danoso, em meu entender, é que Iris não acompanhou a evolução. Ele ainda tem um formato de administrar dos anos 70 ou 80. O mutirão teve repercussão nacional quando ele foi governador mais de três décadas atrás. Eu morava em Curitiba e me lembro de ver na TV a divulgação da construção de mil casas em um dia. Só que esse tempo já passou. Hoje vejo, por parte dele, uma resistência ou mesmo uma falta de disposição – o que não combina com ele, pois o prefeito sempre foi uma pessoa muito proativa. Iris não acompanhou a evolução, fez escola com a ideia do mutirão – copiada inclusive por faculdades, entidades e até veículos de comunicação atualmente. Mas por que hoje gastar dinheiro público com isso? O que foi investido em três dias no mutirão do Setor Balneário Meia Ponte e bairros vizinhos poderia ter recuperado totalmente o Cais do Urias Magalhães e atender as demandas de saúde daquela mesma população durante todos os dias do ano (enfática).

Elder Dias – A sra. acredita que procedem os rumores de que Dona Iris (PMDB) seja quem governa de fato, quase que como uma “primeira-ministra”? Qual a real influência dela no mandato?
Eu estive no gabinete do prefeito por duas vezes e em ambas ela estava presente. Dona Iris sempre me recebeu muito bem, mas, por não ter sido da campanha dele, não tenho propriedade para falar com exatidão do que ocorre. O que fica claro é que a presença dela é constante no Paço. Certificar que é ela quem está decidindo não posso, mas é o que outras pessoas me dizem, mais próximas da administração. De minha parte, o que sugeri é que Iris Araújo fosse nomeada para um cargo. Seria o mínimo, até para seus atos não fossem questionados mais à frente. É uma segurança jurídica para ela própria. Se ela tem até se locomovido em carro oficial, é preciso que haja uma regularização disso, porque de outra forma tudo isso poderá ser questionado para o ano que vem, como campanha eleitoral antecipada, uso da máquina pública. Será que mesmo vendo tudo o que está acontecendo hoje no Brasil vão mesmo manter essa prática antiga? Tudo poderá ser usado contra ela.
Cezar Santos – O que a gente percebe é o casal Iris continua com a mes­ma prática que sempre tiveram desde muito tempo, sem se ater ao fato de que os tempos mudaram, inclusive em termos de fiscalização do poder público. É exatamente o que eu disse agora há pouco, sobre não acompanhar a modernização. É um casal político que está ainda no sistema analógico. A cidade está “digital” há muitos anos e precisa de alguém que a entenda dessa forma, com perspectiva de futuro. A Goiânia deles já não existe mais.

Alexandre Parrode – Por que Iris foi eleito, mesmo com esse descompasso em relação aos novos tempos?
Iris ainda exerce um fascínio enorme sobre muitas pessoas. Andando durante a campanha, vi muita gente chegar até mim e dizer “olha, doutora, voto na senhora, mas meu voto pra prefeito é do ‘velhinho’, não tente mudar isso”. Ele tem a política no sangue, ainda que com uma visão ultrapassada, mas temos de admitir isso. Outro fator que pesou foi o fato de a campanha de Vanderlan Cardoso (PSB) ter crescido muito, mas chegado a um ponto, já no segundo turno, que ficou estacionada. Eu tive a segunda melhor votação para a Câmara, com 9.114 votos. Coloquei-me à disposição para tudo – para organizar reuniões, fazer caminhadas, aparecer no programa eleitoral pedindo voto – e, se isso servisse para as pessoas que me apoiaram darem seu voto também a ele, creio que seria importante. Aliás, qualquer voto é sempre precioso. Eu poderia falar sobre os queimados, sobre a estrutura do Hugol [Hospital de Urgências Governa­dor Otávio Lage], que é referência para o Brasil em queimaduras e está no coração da região noroeste, que é altamente identificada com Iris Rezende. Eu poderia ter aparecido na TV para falar disso – até porque não sou só especialista, mas também vítima [em 1986, Cristina Lopes foi agredida com ácido pelo então namorado e sofreu queimaduras graves]. Poderia falar da violência contra a mulher, da presença feminina na política, mas nunca fui chamada, sequer para uma reunião.Claro, toda campanha é exaus­tiva e eu via o candidato visivelmente cansado após tantos compromissos. Compreendo isso, mas não só eu como outros vereadores – Elias Vaz (PSB), Anselmo Pereira (PSDB) e outros – estávamos à disposição, bastaria falar “estou precisando de vocês”.

Alexandre Parrode – Mas e agora, o que pessoas dizem da gestão Iris?
Muita gente se diz arrependida. Não é incomum escutar, tanto de servidores como de outras pessoas, “saudade do Paulo Garcia” [prefeito antecessor, que terminou o mandato com popularidade baixa]. Isso é sé­rio. Chegamos a julho e Iris ainda não mandou o projeto da data base para a Câmara. Ora, data base não é decisão de governo, é reposição salarial por lei. Isso pode significar até abertura de um processo de impeachment. Se um grupo de servidores ou alguém da Câmara resolver questionar dessa forma, isso pode ser votado, sim, ainda mais sem ter base nem liderança na Casa.

Augusto Diniz – A gestão não fica emperrada quando o prefeito não nomeia um líder na Câmara?
Bastante. Basta ver que o único projeto do Paço tramitando na Casa é o do Refis. Já estávamos analisando o projeto do Código Ambiental – que venho acompanhando desde o ano –, eu pessoalmente conversei com várias entidades ligadas à causa, com o Ministério Público, tivemos audiências. E o prefeito retirou o projeto de pauta. Isso traz muito prejuízo para a cidade, porque não ter um Código Ambiental é coisa muito séria, principalmente no ano em que haverá a revisão do Plano Di­retor. Há áreas em Goiânia que precisam ser preservadas, nós corremos risco real de ficar sem água em muito pouco tempo. Isso, imagine, em uma cidade que é cortada por cursos d’água. Uma das coisas que me im­pres­sionam aqui, desde que vim para cá, em 1986, é o fato de a ca­pital não ter água corrente aparente. Não temos uma orla, uma pon­te bacana. O mais grave é que muitas das principais edificações públicas e comerciais foram construídas em cima de água, por meio de drenagem.

“Inexperiência prejudica a gestão de Andrey”

Vereadora Dra. Cristina, fala ao Jornal Opção: “Rótulos são bobagens. Precisamos de menos rótulos e mais respeito”

Elder Dias – Realmente, o que temos de água visível são espelhos d’água.
Sim, os lagos dos parques, como o Vaca Brava, o Flambo­yant, a tentativa de fazer o mes­mo no Parque Cascavel. Mas não vemos água correndo. Muita gente da minha faixa etária diz que, na infância, nadava e pescava em córregos da cidade. Ou seja, foi muito tempo para que esse patrimônio ambiental fosse destruído. E se nós continuarmos nesse ritmo acelerado de degradação, em muito pouco tempo Goiânia vai ficar sem recursos hídricos.

Elder Dias – Tudo tem ônus e bônus na vida. O aparente desinteresse de Iris em relação à Câmara tem feito a casa usar bem essa “liberdade”? A Casa tem explorado isso da forma ideal e produzido a contento? Há bons projetos saindo dos gabinetes dos vereadores?
Sim, temos tido um número até expressivo de projetos por conta dessa ponte do Legislativo com a comunidade de forma mais direta. Temos três comissões especiais de inquérito (CEIs) em andamento. Isso é algo até impressionante e mostra a ausência de base e a inexperiência da presidência da Câmara e da mesa diretora. Temos uma CEI sobre contas públicas, outras sobre a SMT [Secretaria Munici­pal de Trânsito] e uma terceira sobre transporte público. Três frentes importantíssimas e trabalhos que podem ter bons resultados. As audiências públicas também têm tido resultados melhores, o que, no fim, tem se traduzido em melhores projetos, que regulem de forma mais adequada as contas públicas, o meio ambiente, entre outras coisas. Quando não há que se resolver problemas individuais, a prática passa a abranger o coletivo. A lógica da política como balcão de negócios está, neste momento, sendo trocada por uma atividade forte que dê reconhecimento coletivo. O trilhar tem sido nesse sentido, com a ausência da base do Paço. Vejo isso como muito saudável.

Elder Dias – Ao contrário do que ocorre com a Assembleia Legislativa, que, muitas vezes, atua apenas como despachante do Executivo.
Espero sempre que as pessoas não olhem apenas para seu umbigo. A política não pode ser pequena, é essencial para o convívio em sociedade e maravilhosa em sua essência, embora deturpada no dia a dia.

Alexandre Parrode – Como a sra. avalia a gestão de Andrey Azevedo (PMDB) à frente da Câmara?
O fato de ele não ter experiência como vereador prejudica o próprio andamento da Presi­dência. Falei isto na primeira entrevista após a eleição da mesa diretora: vai ser uma condução sofrível – seja para a Prefeitura, para o coletivo de vereadores, para a população e até para ele mesmo. Vejo que não dá para pular etapas. Dilma Rousseff se tornou presidente sem nunca antes ter disputado um cargo eletivo. É muito complicado. A experiência torna o caminho mais curto, não que não haja dificuldades.

Augusto Diniz – Quando Clécio Alves (PMDB) assumiu a Câmara, com a licença de Iram Saraiva, tornou-se um presidente da Casa que era também o líder do governo. Saía da cadeira de presidente, liderava a bancada e voltava para a mesa. Caberia a Andrey fazer esse papel, na ausência de um líder do prefeito?
Já vi alguns movimentos dele nesse sentido, tentando ocupar espaço, falando com alguns vereadores e abrindo a presidência para o vice ou para o secretário. Mas, quando Iris foi à Casa e delegou aos vereadores a escolha de sua própria liderança, ele deu fim a esse tipo de manobra de Andrey ou de qualquer outro. Ele passou a mensagem de que deixava nas mãos dos vereadores a nomeação do líder dele. Ora, isso é um absoluto desprezo com a Casa. Se alguém dá ao outro o direito de exercer o papel que lhe caberia, nesse caso, é sinal de que não se importa com o que vai ser feito.

Para ter ideia de como o quadro está, ouvi uma declaração de Ro­gério Cruz (PRB) e de Leia Klébia (PSC), ambos da mesa diretora, de que teriam ficado quatro horas na sala de espera do prefeito sem serem recebidos. E estavam lá para levar uma pauta positiva para o Paço. Parece que Iris acha que todos os que o procuram vão lá para pedir cargos ou alguma coisa que seja. É um tipo de falta de paciência em estabelecer o diálogo, porque nem todo mundo vai lá para pedir, tem gente que luta por causas. Eu tenho causas, Kajuru tem causas, outros da mesma forma.

Estabelecer uma parceria com a Prefeitura pode trazer vantagens para a prefeitura, para várias questões. Temos a causa dos animais de rua, a causa dos diabéticos, entre outras, mas parece que o Paço não se importa, não quer nem tocar mais no assunto. Uma das minhas solicitações é a da criação de uma gerência em fisioterapia na rede de saúde municipal. Temos muitos profissionais da área atuando, mas sem uma coordenação específica. Isso limita bastante o trabalho, poderíamos estar oferecendo um serviço muito melhor para a população, mas não somos nem ouvidos. Da mesma forma, a questão do Plano Diretor, que é para este ano ainda, mas na qual estamos chegando sem produzir qualquer discussão. Isso não pode.

Alexandre Parrode – Mas a sra. acredita que a gestão vai deslanchar na segunda metade do ano? Há uma especulação de que Iris estaria guardando dinheiro para fazer política pensando nas eleições de 2018.
Quero acreditar que, sim, vai deslanchar, apesar de desconfiar disso. Sobre a questão de guardar dinheiro, isso não é especulação: o próprio Iris falou, em um evento na Rua 44: “Estão dizendo que eu sumi, mas estou trabalhando, juntando dinheiro para fazer os serviços.” Ou seja, não há especulação, ele mesmo declarou publicamente. Por sua prática política antiquada, tenho certeza de que ele está realmente fazendo isso. Outros vereadores também já alertaram para esse tipo de manobra.
Temos todos essa previsão de que Iris vai mostrar serviço no ano que vem, quando tem eleição e Dona Iris será candidata. Isso é extremamente danoso, porque as pessoas estão morrendo por falta de assistência na saúde. O prefeito tirou os pediatras da rede, bem como os estagiários, teve a crise dos médicos demitidos. Enfim, atitudes sem qualquer planejamento. Andamos pelos Cais e vemos um desespero absoluto. Nos Cmeis, as filas aumentaram, até porque, com a crise, muitos saíram da educação privada para a pública – e todos temos direito à educação infantil pública, é uma obrigação municipal.

Elder Dias – Guardar dinheiro para politicagem e afetar serviços como saúde e educação é claramente um crime. Não é o caso de a Câmara, o Ministério Público e todas as instâncias fiscalizadoras agirem com mais efetividade diante dessas ações?
Temos uma série de questões judicializadas. Temos as três CEIs em andamento, apresentamos a representação em relação à data base e estamos progredindo para judicializar várias questões. O prefeito Iris terá de responder tudo isso.

Elder Dias – Mas e até lá?
Até lá é padecer. Eu realmente não esperava que Goiânia fosse viver. Mesmo não tendo apoiado sua eleição, achei que Iris, com sua experiência, produziria uma boa gestão. O que há de positivo? Uma limpeza melhor da cidade, principalmente em ruas e praças – os parques ainda não foram recuperados. Houve uma operação tapa-buracos que era urgente, troca de lâmpadas. Pequenas melhoras, mas a saúde, a educação e a infraestrutura da cidade estão padecendo. Veja a Marginal Botafogo, está com uma grande erosão, literalmente despencando.

Elder Dias – O que está havendo nesse trecho interditado da Marginal? Só há cavaletes de isolamento, não estão trabalhando em reparos.
Eu já pedi esclarecimentos, já estive lá, mas não há resposta. Ninguém responde e já tem mais de mês que o local está interditado. E aquilo ali pode desmoronar a qualquer momento, tem uma erosão enorme ali embaixo.

Alexandre Parrode – Um jornal diário da cidade propagou várias obras de Iris Rezende, várias frentes de trabalho que a Prefeitura estaria fazendo. Mas tudo o que está lá ou são obras que já tinha começado no governo de Paulo Garcia ou obras que não vão acontecer no tempo em que ele promete. Como a sra. vê esse tipo de coisa?
Eu visito regularmente um Cmei em obras no Residencial Jardins do Cerrado, local de uma população extremamente carente. Isso já tem dois anos e só falta colocar janelas, mas a obra nunca termina! O que a experiência me mostra? Que só não concluem o prédio porque, se isso ocorrer, terão de estabelecer sua abertura, o que envolve custos com pessoal, equipamentos material de serviço etc. Isso, por sua vez, envolve contratações, chamamento de concursados e outras questões. E parece que não é do interesse da Prefeitura ter esse tipo de “gasto”, que na verdade é algo essencial para aquela população. O que vemos é uma ausência total de vontade política para servir aquela comunidade.

Alexandre Parrode – A sra. acredita que haja R$ 200 milhões sendo investido em obras hoje em Goiânia, como divulga essa matéria?
Claro que não. A não ser que estejam computando tudo o que se colocou no BRT, que agora foi ampliado para passar pelo Centro da cidade.

Elder Dias – E como estão seus projetos pessoais na Câmara?
Estou trabalhando na ampliação do espaço da mulher no Legislativo. Isso para mim é uma prioridade e temos um projeto tramitando para incentivar, por exemplo, a ocupação de cargos, inclusive na mesa diretora. Preocupo-me com a equiparação não somente antes da eleição, mas também no pós-eleição, já no trabalho legislativo. É preciso que busquemos cada vez mais a proporcionalidade entre homens e mulheres.

Venho trabalhando também muito na questão do meio ambiente, es­pecialmente sobre o Código Ambiental e com as cooperativas de re­síduos sólidos, por meio de um planejamento que fizemos em conjunto com o Ministério Público. Conseguimos aprovar um projeto de transformação das cooperativas já organizadas em entidades de utilidade pública. Hoje elas têm autonomia para seu trabalho e buscamos estabelecer parcerias para elas, sejam com o setor público ou com o privado.

Outro ponto que busco, esse em conjunto com o vereador Jorge Kajuru, é a aprovação de um projeto de lei que impossibilite que pessoas condenadas se candidatem ou exerçam mandatos. Infelizmente, ainda há essa brecha, mas é fundamental que mudemos essa lógica. O cargo se torna uma blindagem, uma proteção que faz aquele que foi eleito deixe de ser uma pessoa comum. No Brasil, todas as pessoas são iguais perante a lei – menos as que fazem a lei. A lei é muito frágil em nosso País, ela muda muito facilmente, basta haver a presença do interesse econômico.

Alexandre Parrode – O próprio Plano Diretor mostra essa fragilidade. Basta aparecer um empreendimento para surgir uma lei suplementar ou algo assim.
Exatamente. Infelizmente, ainda vemos isso.

Alexandre Parrode – A sra. também tem tido destaque nas questões ligadas à inclusão. Isso está caminhando?
Tenho uma luta grande à frente da Comissão da Pessoa com Deficiência, da qual sou presidente. É a primeira vez que ela foi instalada em Goiânia e temos encaminhado vários projetos de inclusão das pessoas, seja no campo de trabalho, seja na política, na acessibilidade. Estamos lutando pela instalação das chamadas lombofaixas, que têm um nivelamento com o passeio – já temos algumas pela cidade. Também na área da inclusão, destaque também para a questão LGBT, para a qual estamos trabalhando as indicações para a formação do Conselho LGBT, que vai orientar políticas públicas voltada para essas pessoas.
Infelizmente, hoje ainda não podemos abrir mão de políticas de inclusão, com leis que protejam os mais fragilizados. Vivemos em um País que ainda precisa de cotas. Quero chegar ao dia em que isso não necessitemos mais dessa política, mas hoje ainda, com certeza, precisamos de cotas para pessoas deficientes, para negros, para mulheres, porque as decisões ainda têm sexo, gênero e cor. Ainda há a hegemonia dos homens brancos.

Elder Dias – Sobre as cotas, ainda que necessárias, as leis que as regem por vezes causam efeitos colaterais. Foi o que ocorreu na eleição municipal de Goiânia, em que o PTN – hoje rebatizado como Po­demos – fraudou o processo para completar a cota de gênero, aliciando mulheres para serem candidatas à Câmara.
Acho ótimo que isso tenha acontecido, é fantástico. Serve para mostrar que essa prática não será mais aceita. Se a Justiça Eleitoral não condenar isso definitivamente, ela vai se voltar contra si própria. Eu participei de vários cursos preparatórios para esta campanha e foi muito claro: quem burlasse as cotas de gênero, quem cometesse erros de prestação de contas, quem fizesse caixa 2 e isso fosse descoberto, todos seriam punidos com cassação. Ou seja, se a Justiça não punir, vai estar agindo contra o próprio discurso.

Essa investigação em Goiânia, em particular, tem rés confessas. As mulheres confessaram que não foram candidatas e que aceitaram um determinado acordo para colocarem seu nome para constar como se fossem, em troca de dinheiro, cerca de R$ 1,5 mil. Ou seja, tudo está mais do que provado. Isso deveria gerar uma reflexão para a mulher, que novamente se deixa ser usada por homens, por meio de seu nome, de seu CPF, para se safar de uma obrigação legal. Se a lei for levada a sério e a punição ocorrer, os partidos terão de identificar lideranças femininas e dar oportunidade a elas.

Augusto Diniz – A sra. apresentou um projeto polêmico, sobre a proibição de valor diferenciado para mulheres no ingresso em bares e boates. Esperava essa grande repercussão?
Tive muitas críticas nas redes sociais. Mas, veja, o que parece bom – não pagar para entrar em boates, ou pagar um valor bem reduzido –, na verdade é um uso da mulher como chamariz para que haja mais homens naquele ambiente. As mulheres precisam refletir sobre esse aspecto. Ora, se estou pedindo igualdade tem de ser em tudo, não posso querer que haja desigualdade em meu benefício. Na verdade, nesse caso o que há de fato é uma comercialização da mulher.

Augusto Diniz – Esse projeto da sra. é uma forma de busca pelo respeito à mulher? E como os donos dessas casas o receberam?
Um jovem foi quem provocou todo esse movimento, por ter se indignado ao ter de pagar um valor maior pelo ingresso. Ele provocou toda uma ação judicial e a Constituição é muito clara: todos são iguais perante a lei e, no caso, há um tratamento diferenciado. Não vejo como os proprietários questionarem e, por isso, apresentei isso como projeto de lei no município de Goiânia. Não recebi questionamentos de empresários, mas apenas alguns retornos deles indicando que farão uma adequação, modificar essa prática. Não vi nenhuma resistência até esse momento. De qualquer forma, terão de buscar outro atrativo que não seja o de garantir a presença de mulheres no estabelecimento dispostas a serem “escolhidas”.

Augusto Diniz – O problema é que já se criou uma cultura. Talvez o próprio dono não queira essa prática, mas o público já se acostumou…
Pois agora ele terá o amparo legal para justificar o fim da prática.

Alexandre Parrode – A sra. é apontada como pré-candidata a deputada estadual. Como estão os preparativos para 2018?
O preparativo só pode ser com trabalho. Na política de hoje, ou se tem muito dinheiro – que é um ciclo que, espero, realmente caminhe para o fim – ou tem de trabalhar muito. É isso que tenho feito. Tornei-me mais conhecida, com certeza como reflexo da atuação na legislatura anterior. Fui de 6.080 para 9.114 votos. É algo muito expressivo, considerando que meu formato de campanha foi o mesmo nas duas vezes. Vendo obras de arte para arrecadar fundos eleitorais. Siron Franco [artista plástico] é meu grande parceiro, assim como outros artistas – posso citar Rodrigo Flávio e Daniela Ktenas, entre outros. Mantive esse formato, sem grandes inovações, apenas com a ampliação do trabalho na internet. Não tive mais dinheiro, nem algum financiador em particular. No fim, recebemos uma expressiva votação, creio que por trabalhar com várias causas – as mulheres, o meio ambiente as pessoas com deficiência –, causas em que acredito e tem de ser assim.

Para ser candidata a deputada, uma dificuldade muito grande é que não sou goiana de nascimento, mas de adoção – fui adotada por essa terra, por minha escolha, também. Não nasci aqui, mas renasci em chão goiano. Só que não tenho família no interior, não tenho essa base fora da Grande Goiânia. O que tenho feito é ampliado minhas relações, que são muito fortes, com as universidades e com meus cursos no interior. Esse voto é o de quem passa a acompanhar o trabalho e até a fazer sugestões e questionamentos. Também tenho ampliado o trabalho com a maçonaria, da qual participa a família que me adotou em Goiânia. As duas grandes potências maçons – tanto a Grande Loja como o Grande Oriente – declararam um apoio que foi fundamental para meu sucesso nas últimas eleições e acredito que isso vá se refletir também na campanha do ano que vem.

Augusto Diniz – Caso realmente sua candidatura se consolide, a sra. preferiria disputar as eleições para o Legislativo nos moldes atuais, com coligações proporcionais e quociente eleitoral, ou entende que seria melhor o fim desses mecanismos?
Mesmo antes de ser candidata, eu sempre entendi que as eleições não deveriam ser pelo sistema proporcional. Se há 35 cadeiras para a Câmara de Goiânia, deveriam estar ali as 35 pessoas mais bem votadas, porque é essa a vontade das pessoas. Tem vereador que teve mais de 6 mil votos e não conseguiu ser eleito, enquanto outros chegaram ao mandato com pouco mais de 2 mil. A meu ver, isso é um desrespeito ao voto. O fortalecimento das coligações incentiva a prática nefasta de cargos e negociatas. Não é nada saudável para o andamento da política.

Eu acredito que um rumo para o qual Brasil parece estar caminhando, embora a passos muito lentos – e a população pode ajudar muito a acelerar esse processo –, é o das candidaturas avulsas. Isso precisa ser uma realidade.

Elder Dias – A sra., se tivesse a opção, sairia optaria por uma candidatura avulsa?
Eu acredito que sim, até porque tenho uma ligação muito forte com os movimentos sociais e amizade com muita gente considerada de “esquerda” ou de “direita” – com grandes aspas, porque esses já são conceitos ultrapassados no Brasil. Rótulos são bobagens. Precisamos de menos rótulos e mais respeito. O partido hoje serve para colocar um carimbo nas pessoas, para identificá-las como estando de um lado ou de outro e isso claramente não ocorre dessa forma.

Para ter ideia de como se dá isso, uma pessoa viu meu projeto sobre a questão do valor igual para entrada nas boates e se admirou, por, segundo ela, eu ser “uma mulher de direita” e ter uma ideia tão inovadora. Veja que loucura: eu, que sempre fui identificada com as causas das minorias, ser vista dessa forma.

Augusto Diniz – Como a sra. vê seu partido, o PSDB, na base de sustentação do governo Michel Temer (PMDB)?
Vejo isso com muita tristeza. A Executiva Nacional do PSDB Mulher tomou posição pela saída do governo, mas fomos vencidas na reunião geral. Muita gente não gostou, mas na ocasião eu disse que o partido teve a oportunidade de ocupar um vácuo no protagonismo político do País e deixou o bonde passar. Tínhamos três opções: ficar, sair ou talvez. O PSDB ficou no “talvez”.

Elder Dias – Os tucanos novamente ficaram em cima do muro?
Não há problema em estar em cima do muro em um determinado momento, para olhar os dois lados, isso é até saudável. O problema é permanecer nele. E isso já está demorando muito. Se o problema é defender as reformas necessárias para o País, elas podem ser apoiadas mesmo na oposição. Eu mesma apoiei vários projetos bons, de Paulo Garcia. Enfim, achei lamentável a posição tomada pelo partido.

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