“As gestões de Marconi para a cultura deram a autoestima que o goiano não tinha”

Superintendente de Cultura afirma que a área nunca deixou de ser prioridade para o governo estadual, mesmo com a perda do status de secretaria

Superintendente estadual de Cultura, Nasr Chaul | Foto: Fernando Leite / Jornal Opção

Nasr Chaul é um dos companheiros de primeira hora de Marconi Perillo (PSDB). O historiador e professor aposentado da Uni­ver­sidade Federal de Goiás o acompanhou, inclusive, durante seu período no Senado, como assessor parlamentar. Portanto, poucos podem falar com tanta propriedade e proximidade do governador, com quem ele convive desde quando o tucano era um adolescente apaixonado pelas ideias políticas de Henrique Santillo.

Assim como sua inspiração na carreira pública, Marconi também é alguém dedicado à cultura de forma prioritária. “Nossa área sempre esteve entre as cinco mais importantes dele no governo”, diz Chaul. Projetos como o Festival Internacional de Cinema e Vídeo Ambiental (Fica), bem como estruturas como o Centro Cultural Oscar Niemeyer, no entanto, são menos importantes do que a grande conquista dos últimos 18 anos que é vislumbrada pelo historiador: o surgimento de uma autoestima do goiano por sua própria identidade.

Nesta entrevista ao Jornal Opção, o atual superintendente de Cultura da Secretaria de Estado da Educação, Cultura e Esporte (Seduce) diz estar satisfeito com a atenção recebida e os recursos encaminhados à área, mesmo depois que ela perdeu seu status de pasta independente e foi incorporada em outra estrutura. “Foi a tábua de salvação neste momento de crise tão forte”, afirma.

Euler de França Belém – À exceção de artistas “hour-concours” como Caetano Veloso, Gal Costa e Maria Be­tânia, a música baiana em geral não tem a mesma qualidade – letra, composição, melodia etc. – da música que se faz em Goiás. Minha teoria é de que a música goiana não consegue entrar no mercado nacional por ser boa, por exigir participação do ouvinte. É o que sinto ao ouvir um trabalho como o último álbum de Fernando Perillo, cuja qualidade vai sendo percebida aos poucos, exige tempo e maturidade. O sr. concorda com esse ponto de vista?
São vários fatores que levam a isso. Está havendo um retorno, nas trilhas sonoras de seriados e novelas, a uma MPB de qualidade. Isso é muito bom, porque há uma diferença grande entre uma música que se faz e uma obra. São poucos os autores do País que têm uma obra, tal qual Noel Rosa, Chico Buarque e outros. Podemos pensar em Villa-Lobos [Heitor Villa-Lobos, maior compositor brasileiro de música clássica, um dos artífices do modernismo no Brasil] como uma grande praça de onde saem grandes avenidas – como Noel, Lamartine Babo, Do­rival Caymmi, Tom Jobim – e pela qual passam algumas transversais – Chico, Caetano, Milton Nascimento, Gilberto Gil, Djavan etc.

Em Goiás, faltou uma maior unidade daqueles vinculados à música chamada popular. A Bahia chegou unida ao Eixo Rio-São Paulo, primeiramente com Caetano, Gil, Gal e depois com os Novos Baianos; o Nordeste, como um todo, também fez esse movimento conjunto, com Fágner, Belchior, Alceu Valença, Elba Ramalho, Zé Ramalho etc.; da mesma forma fez o Clube da Esquina [movimento musical brasileiro surgido na década de 1960 em Belo Horizonte e que reuniu nomes como Milton Nasci­men­to, Wagner Tiso, Fernando Brant, Tavinho Moura, Toninho Horta, Beto Gue­des, Lô Borges e Flávio Venturini, entre outros] para os mineiros.
Goiás não teve um fenômeno assim. Quem foi para o Eixo teve um trabalho individual – é o caso de Ricardo Leão, que hoje coordena a parte de musicais e trilhas sonoras de novelas, ou de João Caetano, que foi para o Rio não apenas para se dedicar à música. Juntamente a isso, há o fenômeno ímpar do sertanejo, cujo boom ocorreu quando a música popular feita em Goiás começou a ter o nível de esmero que tem hoje. Trabalho há 40 anos com mais de 15 compositores daqui e vivi todo esse processo, então essa é uma análise a partir desse pressuposto.

Goiânia é uma capital extremamente nova e moderna, elaborada com o que havia de mais avançado em arquitetura na época, com seu art déco, e foi inaugurada com um batismo cultural [ocorrido em 1942]. Ao mesmo tempo foi cravada no que era, então, o interior – Campinas, localidade com mais de 200 anos. As primeiras casas particulares de nossa cidade eram réplicas de fazenda. Somos frutos de uma simbiose entre o urbano e o rural, o campo e a cidade, o sertão e o litoral, a tradição e a modernidade.

Temos hoje uma cena de rock fantástica, de nível internacional e uma música erudita que tem um público surpreendente – basta dizer que nossa Orquestra Filarmônica está entre as cinco maiores do País, com espetáculos abertos a 5 mil pessoas, e nossa Orquestra Jovem faz apresentações regulares no exterior. Enfim, temos em Goiás um público para cada um desses estilos – MPB, pop rock, eruditos e o sertanejo, que extrapolou qualquer fronteira.

Augusto Diniz – A MPB não pode ser considerada exatamente uma música popular, já que tem um nicho. Essa música popular aqui, de fato, não seria o sertanejo?
O sertanejo de hoje é um fruto lapidado da Jovem Guarda [movimento cultural brasileiro dos anos 60, puxado por Roberto Carlos de modo especial, e que mesclava música, comportamento e moda]. Po­demos dizer que é um projeto urbano da música caipira de raiz com a influência da Jovem Guarda, dependendo do arranjo que for feito vira o que a outra já foi.

Cezar Santos – Esse sertanejo é um “crossover” com baixa qualidade, quase monotemático.
Sim, mas seus integrantes têm uma coisa que não tivemos antes entre os músicos goianos: chegaram em bloco, unidos, em um processo histórico de conquista de mídia e caíram no gosto popular. Na cultura se reclama muitas vezes que se faz uma peça fantástica, por exemplo, mas não vai ninguém. Há alguma coisa errada: ou o público não está preparado para aquilo ou o autor não conseguiu se comunicar com esse público de modo adequado. Talvez faça sentido dizer que a música popular em Goiás tenha realmente chegado a um nível alto demais, com uma exigência alta por parte dos compositores e músicos. Eu às vezes faço até cinco letras para atender satisfatoriamente uma demanda. A ficha técnica de qualquer disco da primeira linha da MPB em Goiás não deve nada a um Chico, a um Milton, a um Caetano, são quase os mesmos músicos que trabalham.

Euler de França Belém – O sr. ouve o rock produzido em Goiás?
Embora meu gosto musical de fato seja de algo de décadas atrás, eu ouço bastante, sim. Nosso rock fala uma linguagem altamente contemporânea para uma capital de 83 anos e vem do processo histórico iniciado nos anos 80, com a ascensão do pop rock nacional.

Euler de França Belém – Quais suas bandas e seus artistas preferidos desse estilo?
Gosto do Boogarins e gosto muito do Carne Doce. Ouço Bruna Mendes e também gosto muito. Também escuto Niela e aprecio Diego Mascate, que é de outro segmento e tem Kleuber Garcêz como parceiro musical.

Cezar Santos – A MPB produzida em Goiás de 20 ou 30 anos atrás sempre me deu a impressão de estar ouvindo a música mineira, o pessoal do Clube da Esquina, Paulinho Pedra Azul…
Goiás se parece muito com Minas. A mesma ausência de mar, a mesma forma de pão de queijo, o mesmo “bom demais da conta”. Mas temos processos históricos distintos. A herança da mineração de Minas foi totalmente diferente da que houve para Goiás. Essa simbiose, portanto, é natural. O que acho saudável é que temos as mesmas qualidades musicais dos mineiros, são fronteiras quase siamesas. Sou natural de uma cidade que era o “Sertão da Farinha Podre” [expressão que chegou a designar o Triângulo Mineiro] no século 19 e que Dona Beja [Ana Jacinta de São José, mulher in­fluente na região, no século 19] aju­dou a separar Catalão do Triângulo Mineiro. Mas a relação da cidade com Uberlândia é mui­to mais estreita do que com Goi­â­nia. Se alguém gosta da música feita em Minas vai gostar, também, da música feita em Goiás.

Augusto Diniz – Alguns pesquisadores dizem que o sertanejo universitário conseguiu entender o gosto das massas, das classes C, D e E, que ascenderam na última década. Sendo assim, é por causa disso que vem dominando o mercado de tal forma nos últimos dez anos. O sr. entende também dessa forma?
Temos de tirar o chapéu para o movimento sertanejo, porque eles souberam se unir, trabalhar com o mercado, contagiar as pessoas e se renovaram. Tivemos as duplas clássicas, depois veio o sertanejo universitário e, quando se pensava que a fonte havia secado, vêm as duplas de mulheres. Ou seja, eles têm um “ti­ming” muito bom para mercado. Só que, por parte deles, não há uma obra como há em Chi­tãozinho e Xororó ou Zezé di Camargo e Luciano. Dos novos, veremos quem deles ficará daqui a 10 ou 20 anos. Muitos desaparecerão pelo desgaste de uma música sem essência para permanecer. É o contrário do que vemos com Noel Rosa, que é ouvido hoje com a mesma sensação de qualidade que nossos avós apreciavam. Nós, historiadores, não temos a mania de analisar um processo no calor da hora, porque é um erro. A anistia, em 1979, era a coisa mais importante daquele momento histórico. Observada depois de dez anos, virou um resíduo de um processo mais amplo daquele período.

dizer que o centro cultural oscar niemeyer é longe… todas as atrações de qualidade lá são lotadas. as pessoas vão de patins, de bicicleta, podem ir até de cipó, mas vão” | Foto: Reprodução

Euler de França Belém – Uma das críticas que há ao Centro Cultural Oscar Niemeyer (CCON) é a de ser longe de tudo. Como o sr. recebe esse tipo de comentário?
Fui gestor lá e nunca teve nada feito com qualidade e que não lotasse. As pessoas vão de patins, de bicicleta, podem ir até de cipó, mas vão. Temos de prezar o parâmetro da qualidade, porque a outra opção é entrar no debate da influência da grande mídia, da indústria cultural. Até bem pouco tempo, o sertanejo controlava boa parte do que chamo de mídia marqueteira, em que hoje há predominância da música religiosa.

Cláudio Ribeiro – O sr. tem acompanhado a produção de teses e dissertações sobre a história de Goiás?
Sim, até porque muitos pesquisadores me procuram para entrevistas e conversas e eu tenho um livro que ainda é polêmico [“Caminhos de Goiás – Da Construção da Deca­dência aos Limites da Moder­nidade”], por questionar o tripé interpretativo dos marcos básicos da análise histórica, sociológica e literária. Ainda que aposentado, tenho uma relação afetiva, além da profissional, com a história feita em Goiás. Em 2007 eu voltei para a UFG e fui lecionar um curso para o doutorado de História, sobre música e sertão, disciplina que dividi com a professora Maria Amélia Garcia de Alencar, e abri um curso de núcleo livre para a graduação, sobre a história de Goiás. Eram 60 vagas e se inscreveram 180 candidatos. Tive de fazer uma seleção pelo currículo e fizemos um trabalho muito interessante com os alunos selecionados.
Fiz meu mestrado entre 1983 e 1984 e era muito difícil achar qualquer documentação, bibliografia so­bre a construção de Goiânia e a transferência da capital, a não ser por livros oficiais. Hoje temos uma produção não só na área de historiografia, mas também de arquitetura, mui­to boa e muito rica, refletindo sobre a art déco e o papel do urbanista.

Euler de França Belém – O sr. citaria alguma tese de destaque?
Fiz parte da banca de Jales Guedes, sobre a transferência da capital, Campinas e o autoritarismo ludoviquista na época. É um historiador com uma potencialidade muito grande e cujo trabalho vocês, do Jornal Opção, conhecem. Li também, com muita avidez, o trabalho de Marcela Borela sobre modernidade e a história das artes plásticas em Goiás. Estou lendo agora “His­tória Econômica e Política de Cata­lão e Outras Reflexões”, de Fernan­do Safatle, da qual farei o prefácio. É praticamente a história de vida dele, como militante e exilado no Chile.

Euler de França Belém – Couto de Magalhães [político, militar, escritor e folclorista brasileiro do século 19] foi presidente das províncias de Goiás e de São Paulo. Implantou hi­drovias e ferrovias, tentou empreender a navegação no Rio Araguaia. É uma figura única como desbravador. Não é uma personalidade que mereceria mais estudos aqui em Goiás, ou mesmo um filme?
Claro que sim, não só ele, mas outros personagens também, que merecem ser estudados. Eu reli agora “Apontamento de Viagem” [de Joaquim de Almeida Leite Moraes, também presidente de Goiás no século 19], que foi relançado há pouco. O livro tem um relato que é um rolteiro de filme, com a des­crição de cada local, cada tribo encontrada, cada tipo de jacaré, de outros animais. Temos figuras bastante emblemáticas na historiografia goiana, como Henrique Silva [historiador do início do século passado], da “Revista Informação Goyana”, e Zoroastro Artiaga [escritor, pesquisador e divulgador da história de Goiás entre as décadas de 30 e 60 do século passado], uma leva de personagens que podem e devem ser estudados.

As primeiras dissertações e teses em Goiás se preocuparam com a origem. Palacín [Luís Palacín, professor da Universidade Federal de Goiás e autor de importantes obras] pesquisou sobre mineração; a professora Gilka Vasconcelos [colega de Palacín no Instituto de Ciências Humanas e Letras (ICHL), na UFG] estudou a escravidão; Dalísia Doles [professora da UFG] se preocupou com a navegação fluvial nos rios Araguaia e Tocantins; Maria Augusta de Sant’Anna Moraes [também professora da UFG] tem um trabalho sobre coronelismo, especialmente sobre a família Bulhões.

Depois vieram estudos aprofundados sobre a Revolução de 30, seguido de estudos sobre Goiânia, o que ensejou também pesquisas sobre as cidades do interior. Antônio César [Caldas Pinheiro, mestre em História pela UFG e técnico em documentação histórica da Socie­dade Goiana de Cultura], que foi meu orientando, fez um trabalho be­líssimo sobre Itaberaí. Não chegamos ainda na fase das grandes biografias, o que temos hoje nesse sentido ainda é amador e de memória contemporânea.

Cezar Santos – A passagem da Coluna Prestes por Goiás está bem documentada?
Temos estudos universitários, cujo entrave fica na redoma das academias. Sofri demais ao rescrever minha tese de doutorado porque busquei uma linguagem um pouco mais literária, metafórica. Sobre a Coluna Prestes, prefaciei dois livros, um de José Mendonça Teles [“A Coluna Prestes em Goiás”] e outro de Martiniano José da Silva [“Mar­chas e Combates”], mas são fixos em memórias. Refletindo contemporaneamente, qual foi a importância da Coluna Prestes? Teve alguma? Ou foi um episódio que apenas mexeu com a comoção popular? São questões ainda a serem levantadas.

Cezar Santos – E sobre Santa Dica [alcunha de Benedicta Cypriano Gomes, curandeira e líder de um movimento social religioso da década de 20, no distrito de Lagolândia, em Pirenópolis], já há algum estudo que contemplasse de forma acadêmica?
Há um bom estudo de Lauro de Vasconcellos [historiador e professor da PUC-GO e da UFG, que morreu assassinado em 1986, que fez a obra “Santa Dica – Encan­tamento do Mundo ou Coisa do Povo”], mas que não teve sequência. A dificuldade maior do pensador é situar esse contexto local no conjunto das ideias, como aquilo refletiu no processo histórico da época, como repercutiu política, cultural e socialmente.

Euler de França Belém – Como o sr. avalia o livro de Lena Castello Branco [Poder e Paixão: a Saga dos Caiado”] sobre a família Caiado?
Sou suspeito para falar, porque fiz a orelha do livro. (risos) Eu sigo Lena desde que ela retornou de Brasília e ela já tinha desde antes essa perspectiva de trabalho. Seu livro é fruto de um estudo de mais de dez anos. Ela teve duas coisas muito positivas para sua obra. Uma delas o acesso a fontes de uma família muito fechada, mas que abriu sua documentação. Creio que o livro teve o mérito de desmontar, em certa parte, as verdades existentes, sobre os Caiados e desmistifica a figura de Pedro Ludovico como alguém moderno em meio a um patamar de atraso que se queria infligir – a riqueza cultural da cidade de Goiás e de Pirenópolis, com saraus e operas, desmente isso. Acho o livro de Lena um marco importantíssimo.

Euler de França Belém – Como o sr. vê o papel de Marconi Perillo para a cultura de Goiás durante esses 18 anos que seu grupo ocupa o poder?
É um papel positivo e historicamente inquestionável. Nós viemos de um contexto agropecuário muito forte, desde os anos 60 até os anos 80 para, a partir do fim do governo de Iris Rezende (1983-1985) e o governo de Henrique Santillo (1987-1990), passar a um processo de agroindustrialização, do qual um bom exemplo é a Comigo [Coo­pe­rativa Agroindustrial dos Produtores Rurais do Sudoeste Goiano], que mostra, em Rio Verde, a evolução do processo de agropecuária mais pura para essa nova fase. Marconi é filho do governo Santillo, que procurou mais planejamento, consultas populares, questionários etc., embora tenha sofrido seus reveses.

Marconi pega essa história como um trampolim e dá um salto para a modernidade. Posso falar isso de cátedra, pois estou no governo desde 1998. Talvez eu seja um dos únicos remanescentes que estejam com Marconi desde o início.

Euler de França Belém – Nessa avaliação, então, não há um pouco de paixão?
Posso garantir que não, porque é uma coisa tácita. Marconi bebeu nessa fonte do governo Santillo inclusive para sua vida pessoal, com as pessoas que o arrodeavam, quando ele ainda era quase um adolescente, vindo de Palmeiras de Goiás e viu aquele trabalho hercúleo pela cultura. Tudo isso imbuiu o governador que temos hoje a gostar dessa área. A cultura foi e continua sendo um dos cinco pontos mais importantes de suas gestões. Vou aos encontros de secretários de Cultura e vejo todos reclamarem da crise violentíssima. Nós, em Goiás, temos honrado os investimentos culturais que temos. São R$ 42 milhões investidos por ano na Ley Goyazes e no Fundo de Cultura, é o maior orçamento proporcional do País.

Euler de França Belém – Do ponto de vista de gestão parece mesmo haver um vínculo com Santillo. Mas, pelo lado político, não há um certo parentesco de Marconi com Iris Rezende?
Posso falar até mesmo pelo lado pessoal, sem paixão, pelos quase 40 anos de amizade que temos, sendo 20 deles no governo. Eu acho Marconi um gênio político, pela visão que ele tem, pelo futurismo que ele demonstra – e isso é um historiador que está dizendo. Concordo que, como Iris, ele tem a política como vocação. Quando as vidas vão se misturando – pelo tempo de poder de ambos, pela forma de governo etc. – é natural que elas vão se bifurcando. Acho que um faz muita falta para o outro.

Augusto Diniz – Mas o que essa visão de Marconi trouxe, de fato, para a cultura?
Se você me perguntar sobre meu período à frente da Agepel [Agência Goiânia de Cultura], fizemos uma mudança significativa na vida cultural do Esta­do: veio o título de Patrimônio Histórico Mundial para a cidade de Goiás, do qual participei da elaboração do dossiê junto ao Iphan; criamos o Fica [Festival Internacional de Cinema e Vídeo Ambiental], o Canto da Primavera, em Pire­nópolis; o Festival de Teatro Na­cional (Tenpo), em Poran­gatu; editamos 246 livros; restauramos 56 igrejas e casarões históricos; fizemos a 1ª Bienal do Livro; criamos a Ley Goya­ses. Mas, se questionado sobre qual foi a maior realização desse governo para a área da cultura, eu não diria nada disso: para mim, que foi a elevação da autoestima do goiano por sua cultura. A gente tinha vergonha, culturalmente falando, nos sentíamos atrasados, grosseiros. l

“A Praça Cívica será o grande circuito cultural”

Fotos: Fernando Leite / Jornal Opção

Cezar Santos – Tínhamos uma autoimagem depreciativa sobre o caipira.
Exatamente. Temos de reconhecer esse salto: vimos Goiás no carnaval, como tema desfilando na Marquês de Sapucaí; criamos corpo na área de artes plásticas, da dança, o boom sertanejo ajudou muito. Foi sem dúvida o governo que mais teve cuidado com a cultural.

Quando entrei na Agepel, em 1999, o orçamento da Cultura era de R$ 7 milhões e acabou em três me­ses. Tive de seguir pedindo dotação or­çamentária o restante do ano. Em 2007, entreguei o governo com or­çamento de R$ 36 milhões. E nesse período conquistamos os centros culturais de Catalão e de Palmeiras, a recuperação do Teatro Goiânia, a recuperação do Parthenon Center e de Museu de Arte Contemporânea – que era um horror, nós reformamos e fizemos sua reinauguração com ex­posição de Arthur Bispo do Rosário [artista plástico considerado vanguardista], o que foi manchete nacional. Se me perguntarem se achei bom? Eu achei foi “punk” demais, a metade já estava bom. (risos)

Agora, há três anos, surge o Fundo de Cultura, diferente do que havia em outros Estados por ser com recursos vinculados. Passamos oito meses nos reunindo com todas as áreas para aprimorar os editais, lapidados em discussão com as entidades e os representantes. Estive com o secretário da Fazenda, Fernando Navarrete, que é uma pessoa que gosta muito de cultura, para conversarmos e planejarmos o uso dos recursos. Fizemos uma planilha do Fundo e também da Lei Goya­zes, que tem R$ 6 milhões em créditos outorgados para este ano, tudo isso já dividido em seis parcelas. Já o Fundo terá sete parcelas, uma delas liberadas esta semana, e vou reabri-lo em junho.

Augusto Diniz – Os novos editais sairão em junho, então?
Sim, inclusive com um edital específico para os municípios. Neste ano, conseguimos alcançar 85, en­quanto eram 65 no ano passado, o que é um bom salto qualitativo. Fizemos também uma instrução normativa mais adequada para a Ley Goyazes, em um trabalho conjunto com o Conselho Estadual de Cultura. Vamos melhorá-la ainda mais e lançá-la este ano em agosto.

Augusto Diniz – Como está a relação da superintendência de Cultura com o Conselho de Cultura?
O conselho é ligado à Casa Civil e tem suas especificidades de atuação. Há pouco, apoiamos a ideia dos conselheiros de nomear 2017 como o Ano Cultural Belkiss Spencière [musicista, professora e escritora goiana]. Tenho um diálogo muito bom e sincero, às vezes polêmico, mas conheço bem os membros do con­selho: Aguinaldo Coelho Vaz [es­critor], com quem já trabalhei na Agepel por muitos anos; Fernando Cupertino [músico e compositor erudito], meu parceiro musical; Carlos Willian Leite [jornalista e responsável pela “Revista Bula”], um amigo por quem tenho um respeito muito grande; Nancy Ribeiro [professora e historiadora], minha colega de universidade; Kim-Ir-Sen [cineasta e fotógrafo], que foi meu professor de Fotografia em Brasília nos anos 70. Nós mantemos um diálogo, às vezes com defesas acirradas de pontos de vista, mas por defender a cultura com grandeza, com diferentemente de algumas pessoas. Quan­do penso sobre o Fundo de Cultura, isso não é por um projeto pessoal.

Cláudio Ribeiro – Há pressão política sobre a distribuição desses recursos?
Havia, por ocasião da implantação da Ley Goyazes. Conversamos com o governador Marconi e dissemos que com a influência política não daria certo. Ele nunca deixou que isso causasse prejuízo, nunca dei­xou ter interferência. Está é uma qualidade muito saudável de Mar­coni, dar autonomia a seus comandados. Observo isso desde 1999, quando montei minha equipe como eu quis. E tem de ser assim, porque a cultura é uma área muito sensível, on­de qualquer pingo vira chuva. (ri­sos) Claro que recebo pedidos de par­lamentares e prefeitos, mas respondo apontando nossos dois pilares: a Lei Goyazes e o Fundo de Cultura.

Elder Dias – Como é o funcionamento da Lei Goyazes e do Fundo de Cultura?
Na lei, após recebermos os projetos, eles seguem para o Conselho Estadual de Cultura, para análise do mérito. Os aprovados retornam para a superintendência, para que façamos os aportes financeiros devidos. Ou seja, passa por uma instância idônea e transparente, que é o conselho, sem influência, não há interferência.

No Fundo de Cultura, temos três ou mais pareceristas, um deles externo – fizemos uma licitação nacional para isso, e temos mais de 80 nomes, para as mais variadas áreas. Além do parecerista externo, temos aquele que é nomeado pelo Conselho de Cultura e um terceiro, nomeado pela Seduce. Por que alguém da Seduce? Porque é preciso apresentar para quem é de fora o quadro local, já que nem sempre o parecerista conhece a fundo e tem um olhar a partir de seu contexto apenas.

Cláudio Ribeiro – Uma das preocupações e das críticas é exatamente a necessidade dessa perícia específica para entender a cultura goiana.
Quem vem de fora analisa juntamente com alguém do conselho e da Seduce, todos especializados na mesma área. No ano passado, havia apenas o parecerista externo, que tinha uma visão às vezes distorcida. A mudança veio por meio do trabalho das reuniões de nosso setor e creio que vai melhorar a avaliação.

Cezar Santos – A reforma administrativa fundiu as pastas – Cultura, Educação e Esporte – e criou a Seduce. A secretária Raquel Teixeira é da área da educação. A parte cultural não foi arrefecida?
É uma pergunta clássica. (risos) Na primeira gestão de Marconi, assumimos com a área estando submetida a uma fundação, criada ainda no primeiro governo de Iris e transformada em secretaria, com Santillo, e que voltou a ser fundação depois. Na primeira reforma do governo Marconi transformou a fundação em agência, com agilidade burocrática muito maior que uma secretaria – eu podia, por exemplo, entrar na Lei Rouanet [nacional, de incentivos culturais] para o Fica e o Canto da Primavera. Depois veio novamente a secretaria e, agora, com a crise que o País está vivendo, uma nova reforma, que juntou as pastas da Educação, da Cultura e do Esporte.

Em um primeiro momento – deixando claro que o governo acudiu, com muita antecedência, a problemática nacional –, foi um choque. No desenvolvimento das ações no cotidiano, posso dizer com tranquilidade: a mudança foi nossa salvação. Se não estivéssemos com esse formato, junto com a Educação, talvez não faríamos sequer um terço do que estamos fazendo. Temos uma equipe boa e estruturada, que entendeu com muita propriedade as especificidades da cultura e a vantagem da questão financeira, na casa dos bilhões, já que a Educação trabalha com uma dotação muito grande.

Cláudio Ribeiro – E como tem sido sua relação com a secretária Raquel Teixeira?
Raquel é uma colega de universidade há mais de 30 anos. Temos um diálogo muito bom e ela tem um viés muito forte para a cultura. Sua sogra é uma grande pianista e ela sempre foi ligada familiarmente à música clássica, tem uma visão cultural de museus e uma das filhas é cineasta. Com ela, tenho uma autonomia fantástica. Não sinto diferença em relação a ter o cargo de secretário. Pelo contrário, tenho o respaldo de alguém da área da Educação para me ajudar a buscar a união do pedagógico com o cultural. Todos os nossos programas da área – o Fica, o Tenpo, o Canto da Primavera – têm oficinas, palestras e uma preocupação muito grande com a formação e com a socialização do conhecimento. O Centro Cultural Gustav Ritter hoje é Instituto de Educação Gustav Ritter, trabalhando como um mini Basileu [Instituto Tecno­lógico de Goiás em Artes Basileu França, no Setor Universitário].

Com Raquel, a amplitude de tudo isso aumentou. Então, a mudança foi benéfica – obviamente, dentro do contexto pelo qual passamos. Foi nossa tábua de salvação, já que pudemos continuar a desenvolver todas as nossas atividades, sem nenhuma perda.

Elder Dias – Existe algum projeto novo em vista?
O Circuito Cultural da Praça Cívica vai ser o grande legado desta gestão. Vamos transformar todos os prédios de lá em equipamentos culturais. O antigo prédio da Chefatura de Polícia será o Museu do Alimento e o projeto está sendo elaborado, via Lei Rouanet, por Ricardo Piquet [diretor-geral do Museu do Amanhã, no Rio]. O prédio antigo da Segplan [Secretária de Gestão e Planejamento] – que é o “gêmeo” do Centro Cultural Marieta Telles e era ocupado pela Secretaria da Fazenda do outro lado da praça – será o Museu Casa Goiás e vai contar nossa história assim como faz o Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo. Esse projeto está a cargo de Marcello Dantas, que tem no seu currículo, além do Museu da Língua Portuguesa, também o Museu do Futebol e a Fundação Fernando Henrique. O Museu Zoroastro Artiaga está passando por uma ampla revitalização museológica. Vamos também fazer outro Cine Cultura e tornar o Palácio das Esmeraldas aberto a visitação detalhada. Tudo isso vai transformar a Praça Cívica em algo totalmente voltado para a cultura, à semelhança do que ocorre em Belo Horizonte com a Praça da Liberdade. Será o grande legado desta nossa gestão.

Augusto Diniz – Como gestor público de cultura, como o sr. vê a extinção do Ministério da Cultura? É um sinal de que a área pode ser marginalizada pelo governo?
Historicamente, a cultura sempre foi marginalizada. Se tomarmos o currículo de todos os cursos da Faculdade de História, a cultura é sempre o último item, aquele que geralmente não dá tempo de ser ministrado. (risos) O que destaco no governo Marconi é que a cultura sempre foi uma grande preocupação desde a primeira gestão, quando tínhamos mais ou menos a mesma idade e a mesma formação.

O problema é que em momentos de crise ganha fôlego aquela ideia de que o dinheiro da cultura deveria ir para a saúde, para comprar remédio. Como se o orçamento pudesse tirar simplesmente de uma área A para levar para uma área B.

Um governo que propõe acabar com o Ministério da Cultura nunca foi cultural em seu viés. Não tem nada mais importante para a cidadania do que educação e cultura, em qualquer país sério do mundo. Mexer nesses itens é um equívoco por si e a sociedade tem de reagir, como reagiu, para fazer voltar atrás na decisão.

Cláudio Ribeiro – O Estado de Goiás está procurando se incluir no Sistema Nacional de Cultura?
Goiás já está no sistema. O problema dele é que ele funciona como um SUS da cultura. Então, para fa­zer o que deve ser feito para usufruir dos benefícios, é preciso que cada município tenha conselho de cultura e uma secretaria. Temos 246 municípios no Estado. Se em Goiânia já é difícil fazer esse tipo de correlação, imagine nos interiores mais remotos. Portanto, é um processo complexo e lento. Salvo engano, temos já 75 municípios integrados ao conselho. Vamos efetivar agora o Sistema Municipal de Cultura. De qualquer forma, como todo governo tem uma visão diferente sobre a área, tudo muda muito. O governo atual está, por exemplo, muito preocupado com bibliotecas e com projetos para museologia, o que acho bom.

Superintendente estadual de Cultura, Nasr Chaul: “Com organização social, a Quasar vai ser o Balé do Estado” | Foto: Fernando Leite / Jornal Opção

Augusto Diniz – Nesse momento de readequação por causa da crise financeira, veio o processo do pedido de socorro à Quasar Cia. de Dança. Houve a abertura de uma saída com a criação de uma empresa para que ela se transformasse no Balé do Estado. Há o risco, na licitação, de a OS [organização social] vencedora não ser a mesma da companhia. Qual problema isso pode gerar?
Primeiramente, tenho a dizer que a ideia da solução encaminhada para a Quasar foi minha. A Quasar não vai ficar prejudicada de forma alguma e vou explicar. Quando eu assumi a presidência da Agepel eu tinha um apreço muito grande por duas questões: uma era o Instituto Goiano do Livro, que foi coordenado primeiramente por Yeda Sch­maltz [escritora], quando fizemos co­leções belíssimas e publicamos mais de 200 livros, inclusive dois inéditos de Carmo Bernardes. Outra era o Balé do Estado, que tinha desaparecido.

Quando Vera Bicalho [diretora da Quasar] me procurou, depois da crise da Petrobrás, que sustentava a companhia por meio da Lei Rouanet, e me disse que iria fechar, eu lhe sugeri: por que não colocar a Quasar como o Balé do Estado? Ela achou boa a ideia, que levei ao conhecimento do governador. Marconi gostou muito da ideia e começamos a pensar em como realizá-la sem que a Quasar perdesse a essência de seu nome. A saída que encontramos foi fazer um chamamento público para OS, assinando um contrato de gestão. Isso está sendo elaborado e deve estar na praça em 15 dias.

A Quasar tem sua OS para concorrer, mas é um chamamento público nacional. Sua OS pode não ser a vencedora, portanto. Mas, de qualquer forma que seja, a OS que vencer vai aportar seus recursos na Quasar para que ela seja o Balé do Estado. O resultado será o mesmo.

Augusto Diniz – Uma das políticas da cultura em Goiás mais aplaudidas fora de Goiás é a atenção à qualidade da Orquestra Filarmônica, que conta, já há dois anos, com um maestro inglês, Neil Thompson, que tem um projeto de popularização da música erudita. Mas como está a questão da contratação dos músicos e no repasse de recursos, que era complicada.
Em 1999, quando nós assumimos, tínhamos uma orquestra filarmônica, sem grande expressão. O maestro José Eduardo Morais, então, fez um planejamento para transformá-la em orquestra de câmara. A coisa foi muito bem. Em 2011, houve o projeto para torná-la uma orquestra filarmônica. A Secretaria de Cultura, na época, achou melhor que a orquestra se vinculasse ao CCON, até pela estrutura operacional de que dispunha, com local para ensaios e apresentações. Como gestor do Niemeyer, absorvi a orquestra e começamos o projeto para transformá-la em uma filarmônica de fato. Tive a grande sorte de ter uma superintendente que vinha com experiência de orquestra em Minas Gerais. Os músicos, de vários países, vieram contratados como comissionados. O Ministério Público não achou que o modelo de contratação era o adequado e adotamos a estratégia de contratos temporários, de validade de três anos. O maestro Neil Thompson, que amou o projeto, é pago mensalmente e, pelo valor que tem e pelo que poderia ganhar lá fora, em euro, nos custa muito pouco.

A orquestra já se apresentou pelo Brasil inteiro e é hoje a quinta maior do País. Os músicos são ainda temporários, mas terá agora, no dia 18, uma chamada pública para gestão por OS e eles, a partir de quando a vencedora ganhar e assumir, vai contratar os componentes da orquestra conforme as especificidades do contrato. Com isso, acabamos com o que hoje incomodou tanto o MP como o governo. Em tempo: a Orquestra Sinfônica vai tocar no festival Bananada [de rock alternativo] este ano.

Elder Dias – Saindo um pouco da área cultural, gostaria de saber do sr.: com a divulgação da lista de delação da Odebrecht, praticamente todos os pré-candidatos ao governo em 2018 estão de certa forma implicados. Como fica o quadro, principalmente em relação ao candidato da base, que é o vice-governador José Eliton (PSDB)?
Está tudo muito cedo. Ainda não temos nem mesmo as provas, imagine o caminho até a condenação de envolvidos. Até agora, o que temos visto são palavras de pessoas que estão tão implicadas quanto as que estão acusando. Há um rol de mais de 70 depoentes que estão querendo salvar a própria pele e não se sabe o valor jurídico do que dizem. Estamos em uma sociedade que condena antes de julgar.

Elder Dias – Mas isso não deixa de ser um problema político.
Sim, a acusação vai na primeira página do jornal, mas, quando há uma absolvição para o mesmo caso, sai apenas uma nota no rodapé. O tempo da Justiça é lento para uma carga tão grande de processos que serão abertos. Levaremos no mínimo dez anos para finalizar tudo.
Nesse sentido, José Eliton tem alguns trunfos: não está citado em nada e é um político fora da padronização que vemos, pois nunca foi deputado, vereador ou prefeito. Ou seja, seu histórico está em outro patamar. Além disso, vem de uma tradição política familiar em sua cidade, Posse [no Nordeste goiano]. É alguém que sabe fazer política. Sem dúvida, um perfil que vai ao encontro do que a sociedade tem esperado, como é o caso do prefeito João Doria, em São Paulo.

Temos um vácuo de poder que hoje foi ocupado pelo Judiciário. As pessoas oriundas dessa esfera têm uma perspectiva política muito ampla, se assim quiserem. O País está no momento muito afeito a esse tipo de personagem. Não é algo tão novo em nossa história, mas é o que diferencia alguns de todo o lamaçal que tem se revelado.

Elder Dias – A base chegar unida a 2018 terá mais força do que com vários nomes?
Não tenho expertise política mais precisa, mas historicamente todos os movimentos de sociedade que chegaram unidos saíram vencedores. Os que foram à luta desestruturados perderam, isso desde Napoleão Bonaparte até os dias atuais.

Elder Dias – De que tamanho na história do Brasil é a crise que vivemos atualmente?
É de um tamanho continental. Talvez só tenhamos um parâmetro disso somente com a queda de Jango [João Goulart, presidente quando houve o golpe militar de 1964]. É uma crise que está judiando demais de todos, mas também é uma chance única para o País ser passado a limpo, para se reencontrar com sua importância econômica e política. O fato de vir em um mo­mento econômico muito crítico não dá uma sustentação ao aspecto político, ao contrário do que houve com o mensalão. Em suma, é um mo­mento rico, mas tudo depende do ru­mo que vamos traçar a partir de a­gora. Como diz Thomas Morus [pen­sador, diplomata e escritor inglês, canonizado pela Igreja], “se não há a melhor realidade possível, que se tenha a melhor utopia desejável”.

Augusto Diniz – O sr. entende que o CCON cumpre realmente seu papel ou vive de locações para eventos particulares?
Cumpre, sim. O que se faz dentro do Niemeyer? Neste momento, estamos comprando mais de 30 mil volumes específicos sobre cultura para a biblioteca, que será aberta em julho, segundo nossa previsão. O CCON é um grande equipamento cultural. Quando fomos conversar com o próprio Oscar Niemeyer, o projeto era de erguer ali um monumento aos direitos humanos. E isso foi mudando, até chegar ao que temos hoje. Fizemos até agora 36 exposições nas galerias e no museu, coisa que pouca gente se lembra; também houve inúmeras apresentações gratuitas da Orquestra Filar­mônica, como vários outros espe­táculos. Da mesma forma, a esplanada foi encampada pela sociedade, de forma espontânea. Trouxemos ainda várias personalidades nacionais e destacadas para o Café de Ideias.

Augusto Diniz – O caminho para o CCON também será a OS?
A ideia em 2011, quando o governador me chamou, era transformar o centro em OS. Eu gostaria de antes colocá-lo apto, com atividades. Quando o espaço funcionar em sua totalidade, não vejo muita necessidade, embora haja possibilidade. Como há espaços públicos, creio que será complicado para que uma OS coordene algo que transite entre equipamentos privados e públicos.

Cláudio Ribeiro – O governo ainda pretende construir dez centros culturais pelo Estado – sete no Entorno do DF, um em Posse, um em Senador Canedo e também em Goianira. Como foi feita essa escolha?
Fizemos um levantamento das 20 maiores cidades em que não havia equipamento cultural. Não é o caso, por exemplo, de Catalão, Pirenópolis e Porangatu. A maior demanda, como verificamos, é no Entorno. O governo separou um montante da Celg para essas edificações e tem um centro cultural para Aparecida de Goiânia que é mais caro e não está nesse rol – mas são 11, então. l

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Eduardo Almeida

Goiano residente em Brasília, fiquei absolutamente admirado com o conhecimento e o domínio do entrevistado, que demonstra amplo e seguro conhecimento dos assuntos que lhe são afetos. Goiás está de parabéns!