“Faço questão de ouvir a população e estou totalmente preparado para voltar a administrar Goianira”

Ex-prefeito e pré-candidato tucano questiona a  forma com que a cidade está sendo administrada e faz duras críticas a seu sucessor e provável concorrente

Fotos: Renan Accioly/Jornal Opção

Fotos: Renan Accioly/Jornal Opção

Aos 53 anos, depois de dois mandatos à frente do município — ele administrou a cidade de 2005 a 2012 —, Carlos Alberto Andrade Oliveira, o Carlão, se diz preparado como nunca para comandar o destino de Goianira. Em entrevista ao Jornal Opção, o pré-candidato do PSDB fez duras críticas ao seu sucessor e atual prefeito, Miller Assis (PSD), a quem atribuiu a culpa pelo caos na saúde e na educação. “Não tem remédio nas unidades de saúde, as escolas não cabem mais ninguém e as mães não tem onde deixar seus filhos para ir trabalhar”, disse.

Em período de pré-campanha, Carlão tem procurado ouvir os moradores e buscado soluções para os problemas do município vizinho de Goiânia. Ele admite que Goianira ainda é uma cidade dormitório e que a atual gestão tem grande parcela de responsabilidade pela estagnação econômica da cidade. A entrevista contou com a participação de Vilma Barbosa, secretária do Jornal Opção e moradora de Goianira, que, como cidadã e eleitora, fez vários questionamentos ao ex-prefeito pré-candidato.

Marcos Nunes Carreiro — Nos bastidores é dito que a população de Goianira tem pedido sua volta à prefeitura. O sr., que já comandou o município em duas gestões, é pré-candidato a prefeito?
Tenho lidado com isso com muita sabedoria. Às vezes, o clamor popular aguça, dá satisfação momentânea, mas tem de se observar realmente a vontade de lidar com a política. Não estava pensando em me candidatar novamente em Goianira, mas ao caminhar pelos bairros e ver a situação da população, eu mesmo me convenci que se faz necessária minha volta. Goianira precisa ter continuidade no ciclo de desenvolvimento que conseguimos criar nos oitos anos que fiquei à frente da prefeitura.

Desliguei-me do governo estadual [Car­lão era diretor da Metrobus] no fim de abril para me dedicar à população de Goianira. Para ver quais são as reais necessidades, estou andando de bairro em bairro, conversando com as pessoas, fazendo reuniões pa­ra montar meu plano de governo, o­b­servando e atendendo o clamor da po­pulação. Em minha visão de gestor público, temos de administrar junto com a população, ouvir o que ela quer. Em função disso, resolvi me candidatar, para poder voltar e fazer Goianira crescer. Só assim poderemos dar uma melhor qualidade de vida às pessoas.

Cezar Santos — Goianira sempre foi tida como uma cidade-dormitório. Não houve um início de processo de industrialização que pudesse ocupar a mão de obra local? Essa realidade de cidade-dormitório continua?
Essa é uma realidade ainda. Goianira continua sendo cidade-dormitório porque não foi feito um trabalho de busca de novas empresas, de fomentar o comércio local. Só assim se tiraria essa pecha de cidade dormitório, que ainda existe e é real. O transporte coletivo da cidade para Goiânia, que é integrado, a partir das 5 horas da manhã, os ônibus saem superlotados. Temos muita mão de obra, mas não temos empresas e nem o comércio local consegue absorver essa quantidade de pessoas que lá reside. Quando fui prefeito, nós buscamos informações e constatamos que, por vários anos, Goianira foi a segunda cidade que mais cresceu no País. A quantidade de gente que migra para lá é enorme.

Cezar Santos — Por quais razões?
É muito próxima de Goiânia, conseguimos dar uma melhor condição de qualidade de vida, há mais proximidade aos serviços públicos, temos saúde e educação mais acessiveis. Então, por algum tempo, esse processo de migração se acelerou de forma muito aguda. Então, a realidade de cidade dormitório persiste e só vai mudar a partir do momento em que se faça uma política de buscar novas indústrias, fomentar o comércio local e a administração pública aplicar o seu dinheiro na própria cidade, porque hoje praticamente nenhum comerciante de Goianira vende para a Prefeitura, que faz praticamente todas as suas aquisições fora do município. Isso acaba prejudicando o comércio local.

Euler de França Belém — Por qual motivo isso? Em todo município a prefeitura geralmente gasta na própria cidade, com o dinheiro girando ali mesmo.
É uma boa pergunta, que, no entanto, teria de ser feita à atual administração. Se você andar no comércio local, verá a revolta dos comerciantes por não conseguirem vender para a Prefeitura, que prefere comprar fora, não sei se por comodidade. Sei que o comércio local não tem oportunidade de vender para a administração.

Euler de França Belém — Em certo pe­ríodo dizia-se que Goianira, Senador Canedo e Trindade seriam in­dustrializadas, por Goiânia ter um espaço restrito para isso. De fato, Se­na­dor Canedo, Trindade e Apare­cida vi­raram cidades com muitas indústrias. Goianira começou, tinha um polo calçadista. Isso não foi para frente?
Na verdade, Goianira teve azar, porque o polo calçadista pegou uma crise mundial. Temos fábricas de calçados lá que exportam para América e Europa, mas que tiveram suas vendas reduzidas por causa da crise do ramo calçadista. Quando se criou o polo, não foi feita com uma condição mais abrangente. Depois, em minha administração, levamos outras empresas, hoje temos a Asa do Brasil [indústria de encartelados], a Brasmom [metalúrgica], outras indústrias que não só do segmento calçadista. Enquanto Senador Canedo e Aparecida tinham foco industrial diversificado, Goianira polarizou-se como calçadista; agora que está se voltando para outras empresas. A Milhão [alimentos], a Matsuda [produtos agropecuários] foram para lá, assim como a USE Móveis [móveis para escritórios]. Exceto a Milhão, todas as outras foram levadas na minha época. Se não me engano, na atual administração não foi nenhuma.

Euler de França Belém — Não houve continuidade numa política de atração de empresas?
Não houve e, a meu ver, é equivocado não dar oportunidade para a cidade crescer. Hoje, o empresário é assediado por cidades do Brasil inteiro e, mesmo que a possibilidade do município seja limitada, é interessante estar próximo do empresário, oferecendo o mínimo que a prefeitura pode — como uma terraplanagem, uma isenção de imposto local, algo assim para atrair mais indústrias. Sem isso, é praticamente impossível.

Euler de França Belém — Esse polo industrial, embora incipiente, ocupa pelo menos 5% da população local?
Não, de forma alguma. A indústria de Goianira hoje é insignificante na ocupação de nossa mão de obra. Precisamos buscar mais empresas, não há dúvida.

Vilma Barbosa — A população de Goianira sofre muito com o transporte coletivo, que está em condição insuportável. Há muitos roubos nos ônibus, a gente não pode nem andar com relógio, com anel, eu nem ando com cartão do banco. Se o sr. for eleito, como vai resolver isso?
O problema da segurança no transporte coletivo é do governo estadual, mas o município não pode se furtar de sua responsabilidade, porque tem de fazer uma parceria para cuidar disso. A segurança no transporte coletivo não é problema da Metrobus nem da companhia particular, é problema da segurança de Estado, é a Secretaria de Segurança Pública que tem de tomar conta. O sistema é integrado — você toma o ônibus em Goianira e pode ir até Senador Canedo, até Trindade, com uma passagem subsidiada pelo governo. Acontece que, com a migração das pessoas para a linha central, o acúmulo de passageiros ficou enorme. Apesar de estar na contramão do que se fala, o número de passageiros tem caído no transporte coletivo ano a ano. Teve o boom do governo federal, de financiar compra de motos em 60 meses. Hoje com o dinheiro da passagem dá para pagar a prestação da moto. Muita gente optou por comprar moto, carro. Mas mesmo caindo o número de passageiros, é péssimo o serviço do transporte coletivo. É péssimo, tenho consciência disso.

Estive muito próximo dessa questão enquanto atuei na Metrobus. Tentamos fazer todo tipo de parceria com a Guarda Municipal, dando carros, manutenção, combustível para eles trabalharem, fizemos banco de horas para que eles ajudassem na cobertura nos terminais, onde há maior fluxo de problema. Tempos atrás, se via uma, duas ou três ocorrências de marginais cometendo assaltos nos coletivos, mas agora se vê, 10, 20 vezes por dia. Hoje a insegurança é enorme nesse trajeto de Goiânia para Goianira. Isso porque os pontos não são iluminados, não tem segurança na rodovia, o transporte de interligação é muito distante. E isso, informo aqui, vai ser corrigido com um novo terminal cujo projeto está pronto — ainda faltam recursos para execução, mas vai ficar na altura do quilômetro 18 da GO-070, dois quilômetros antes de chegar a Goianira.

Será um novo terminal para interligar as linhas alimentadoras, assim como se faz no Padre Pelágio, na Praça A e em todos os outros terminais. Aí, sim, vamos ter condições de dar uma melhoria no transporte local de Goia­nira, porque teremos condições de delinear e colocar as linhas nos bairros para ficarem mais bem atendidos. Hoje há bairro em que a pessoa precisa caminhar até dois quilômetros para pegar ônibus e ir até o Eixo. Fazer isso às 5 horas da manhã, ou à noite, é estar exposto aos marginais.

Euler de França Belém — Há muitos assaltos?
Muitos, constantemente. A gente sabe que o problema de segurança é do Estado, sabe da luta do governador, que mexeu na área, com a ida do vice-governador José Eliton (PSDB) para Secretaria de Segurança Pública. Isso deu uma animada, temos visto mais viaturas nas ruas. Até mesmo em Goianira vemos mais policiais. Mas é preciso um trabalho de inteligência para coibir esse tipo de ação, de quadrilhas, de grupos. Tem de tirar de circulação esses marginais que na maior par­te são menores. Aí entra naquela situação: prende hoje, mas hoje mesmo o marginal está solto.

Tenho consciência do problema e prometo trabalhar junto com o governo do Estado, junto com a Metrobus e com as empresas detentoras do transporte coletivo. Acho que o poder público municipal tem o dever, a obrigação de cobrar mais das empresas que exploram o serviço, porque a Metrobus faz o Eixo, mas a exploração local é por empresas particulares. Então a Prefeitura tem de cobrar mais qualidade, mais ônibus e a forma como trabalham. Há muitas reclamações, por exemplo, de ônibus correndo muito no centro da cidade, de falta de ônibus nos horários de pico, muitas pessoas se cansam de esperar o ônibus alimentador e vão a pé. São problemas sérios, mas que a Prefeitura tem de enfrentar, até porque ela é poder concedente.

Euler de França Belém — Chegam aqui muitas reclamações sobre a iluminação pública da cidade. Como está isso?
Olha, a situação nessa área é a mais absurda que se pode ter. A iluminação pública de Goianira deve ser a mais cara de Goiás. A população paga em média 20 reais pela taxa de iluminação. São umas 25 mil ou 30 mil ligações, então a Prefeitura deve arrecadar em torno de R$ 600 mil por mês com isso. Mesmo assim, é um caos. São ruas totalmente escuras, há bairros em que em toda rua falta energia, às vezes nem poste tem — isso bem próximo do centro, porque foi se adensando, adensando e não se tomou providência. Pelo valor que se cobra, era pra termos um serviço de primeira qualidade. E há um agravante, foi criado um fundo que era para se prestar conta do dinheiro da iluminação. Nos meus mandatos, a cobrança era gradativa, para suprir as necessidades de reposição de lâmpadas, reparos e ampliação. Fazendo isso, não há por que fazer caixa, mesmo porque esse dinheiro é carimbado, não pode ser usado em outras finalidades. Depois, foi aumentando, aumentando a taxa até chegar a esse valor atual e hoje não se presta conta a ninguém. Ninguém sabe o que é feito com o dinheiro da iluminação pública. Por isso, estamos movendo uma ação jun­to ao Ministério Público, para que a Prefeitura preste contas de onde e co­mo está se gastando o dinheiro da ilu­minação pública, em função da pé­ssima qualidade do serviço prestado.

Euler de França Barbosa — Re­ce­be­mos dezenas de e-mails com reclamações sobre lixo acumulado nas ruas. A situação está assim mesmo?

Vilma Barbosa — Até não posso reclamar sobre a minha rua, mas a gente anda e vê que há ruas em que a situação é terrível.
Posso dizer que há bairros onde nunca houve varrição nessa atual administração. Ou seja, em três anos e meio nunca houve limpeza pública. Temos gravações com moradores sobre isso, depoimentos de pessoas. Há entulhos amontoados há meses. Em setores que a coleta deveria ser feita de dois em dois dias, colhe-se uma vez apenas na semana. Isso dá mau cheiro, cachorros rasgam os sacos de lixo, a cidade fica suja. O serviço é de péssima qualidade. Se não me engano, o serviço é prestado por uma firma terceirizada que usa o maquinário da Prefeitura — me parece que pela empresa Buriti, que fez uma carta-convite para servir de referência para a vinda de outros órgãos — uma ata de registro de preços —, que, me parece, foram R$ 35 milhões para prestar serviços de garçom, recepcionista e limpeza de rua. Isso tudo para poder servir de painel para prestar serviços em outras empresas. Na realidade, a Prefeitura serviu como um passaporte. Goianira nunca contratou garçom, não precisa de recepcionista. Há uma série de contratos e escândalos na época. Pagava-se R$ 3 mil para um gari, mas ele re­cebia R$ 700, R$ 800 da Prefeitura. Ve­jam o disparate que é isso lá. É real­mente um escândalo no município.

O serviço de limpeza da cidade é de péssima qualidade. Temos setores mais afastados, como o Florença, o Arco do Triunfo, o Triunfo 2, em que nunca passou um serviço de varrição. Às vezes, passa na avenida principal, mas temos várias e várias reclamações e, por incrível que pareça, temos depoimentos gravados de pessoas que dizem que nunca, nesses três anos, passou-se um serviço de varrição no setor.

Vilma Barbosa — Quais os planos do sr. para a segurança da cidade? Goianira já tem quase um toque de recolher, pois em certos horários não se pode sair na rua. Já fui perseguida, mesmo com a presença de muitas pessoas na rua. Liguei várias vezes para a polícia, mas ninguém foi lá verificar a situação.

Euler de França Belém — A Prefei­tura não pode fazer banco de horas?
Atualmente, em toda pesquisa que se faz, segurança é disparadamente o principal tema. Depois, vêm saúde e educação. Inverteram-se as colocações. E não é apenas Goianira que está nessa situação. Temos também de sermos realistas para dizer que essa situação está no País todo, no Estado todo. Só que as pessoas não querem saber de lamúria, mas de resultados. Afinal, se o prefeito se propôs a estar à frente da cidade, ele tem de estar preparado para conseguir uma solução; tem de ter atitude, porque isso é emergencial. A partir do momento em que a Prefeitura não tem condição de ter uma Guarda Municipal, pois a lei exige um número mínimo de habitantes para isso, o que deve ser feito? Banco de horas.

Com o banco de horas, é possível dobrar o número de policiais. E nós sabemos que o policial também é um trabalhador, que, a partir do momento em que tem uma remuneração adequada, ele pode se dedicar mais. Agora, não adianta apenas reprimir; é necessário atacar a fonte. E 99% dos problemas de segurança estão no envolvimento com drogas. Atacar isso significa fazer um trabalho preventivo. É um trabalho de inteligência. Em um caos, como está Goianira, busque apoio na Polícia Federal, no Exército, utilize o banco de horas. Tem de buscar solução.

Está no nosso plano de governo, por exemplo, guardas comunitárias. Seriam pessoas do próprio setor, para as quais a Prefeitura faria uma remuneração para que elas ficassem atentas para possíveis problemas. Se ali tem uma aglomeração de pessoas, chame a polícia para ir lá. “Ah, a dona Maria sai para o trabalho em tal hora e ladrões entram na casa dela”. Então, há focos que precisam ser atacados de pronto para tentar diminuir esse caos que afeta a segurança em Goianira. É uma calamidade. Temos inúmeras reclamações diárias. As pessoas estão ficando descrentes em fazer denúncias à polícia, pois não há quantidade suficiente de policiais, que às vezes não vão nem averiguar, por falta de material humano para fazer. Então, as pessoas têm medo de de­nun­ciar e algo acontecer com elas de­pois. E 99% dos que roubam e praticam violência são menores de 18 a­nos, que, quando apreendidos, seus ad­vogados chegam primeiro do que eles na delegacia. Ou seja, não ficam presos.

Então, é preciso dar condições para que os poucos policiais que nós temos trabalhem. O prefeito tem de fazer gestão junto ao governo. Não adianta falar que não tem material humano; tem de ir atrás do secretário de Segurança Pública e do governador. Tem de pegar o deputado e ir atrás para buscar. Em Goianira ainda há o agravante de que uma delegacia cuida de Caturaí, Brazabrantes e Santo Antônio de Goiás [municípios vizinhos]. Quer dizer, não atuam apenas em Goianira. Então, é bem complicado. Um delegado só cuida de várias cidades e a PM, também, que sai do batalhão de Goianira para as outras cidades. Então, para resolver a situação, vamos apostar no banco de horas e na guarda comunitária.

Vilma Barbosa — O sr. está preparado para ser prefeito de Goianira novamente? Precisamos de gente que realmente trabalhe.
Tive a oportunidade de ser prefeito por oito anos e, naquela ocasião, não tinha nenhum vínculo político. Não tinha sido vereador nem presidente de partido. Então, eu aprendi fazendo. Hoje, estou totalmente preparado. Busquei adequar minhas deficiências à realidade do município para atender à população de pronto. Por isso, esse meu programa de governo tem como base ouvir as pessoas. Nós vamos fazer um gerenciamento de programa de governo ouvindo a comunidade local. O que é bom para o Imperial, para o Serra Dourada, para o Centro, para o Coralina, Triunfo, São Bernardo? São realidades diferentes. Há bairros, por exemplo, em que a principal demanda é creche, depois da segurança.

Euler de França Belém — E sobre Cmeis [centros municipais de educação infantil]?
Sim. O Imperial, por exemplo, é o pri­meiro bairro que teve um conjunto de casas populares e até hoje tem mo­radores que não receberam as es­crituras. E lá os instrumentos públicos, que são pouquíssimos, não atendem à população. Tem uma praça, que eu fiz; tem um campo de futebol também, que é horrível. Na escola municipal não cabe mais nenhuma salinha, está cheia de puxadinhos. Se brincar, ela tem mais de mil alunos. A escola estadual, que tinha um prédio até suntuoso, não comporta mais o nú­mero de alunos porque a cidade foi crescendo e os alunos vêm de todos os lugares — Los Angeles, Lago Azul, Serra Dourada…

Euler de França Belém — A Polícia Civil tem três agentes para atender a seis cidades: Goianira, Caturaí, Brazabrantes, Santo Antônio de Goiás, Deuslândia e Avelinópolis. E só tem um delegado, que atende em horário comercial, de segunda a sexta-feira. Como é possível?
Toda e qualquer ocorrência que aconteça depois das 18 horas, a viatura tem de se deslocar para a delegacia do Jardim Curitiba, em Goiânia, para registrar a ocorrência. Imagine a quantidade de tempo que se perde. Fora isso, a viatura que poderia dar suporte a outra ocorrência, está destinada a isso. São três viaturas lá: uma fica com o delegado e as outras duas ficam para dar assistência. Isso é complicado (enfático). Temos cidades que não têm delegado. Nós temos um e precisamos lutar para que tenhamos um delegado 24 horas. Aliás, precisamos de pelo menos dois delegados durante o dia e um delegado plantonista. Para conseguir isso, é preciso fazer gestão junto à Secretaria de Segurança Pública e com o governador. É pegar os deputados e ir lá. Esse assunto é emergente; precisamos disso para ontem e, se não pressionar, não vai.

Euler de França Belém — Se Goianira é uma cidade dormitório e não tem Cmeis, isso significa que há crianças fora da escola?
Sim. Eu deixei dois Cmeis prontos e quatro com projetos bem adiantados, mas nenhum foi inaugurado. Dois estão em fase de conclusão e, por uma situação eleitoreira, devem ser inaugurados agora; os outros estão paralisados. O problema escolar em Goianira é tão sério quanto a segurança pública. A quantidade de pessoas que não tem seus filhos na escola é enorme. Nesse fim de semana eu visitei a zona rural e os moradores me disseram que seus filhos podem acabar reprovados porque o transporte escolar não os busca por falta de combustível, acreditem (enfático)! O maquinário do município já ficou parado porque a Prefeitura não pagou o posto, que parou o abastecimento. Isso implica a falta do transporte rural e dos universitários que estudam em Goiânia ou em Inhumas. O motivo: má gestão.
O outro problema foi o não investimento em novas escolas. Uma cidade daquele tamanho ainda convive com as escolas que eu deixei há quase quatro anos. E não adianta mais fazer puxadinhos. Existem escolas que estão trabalhando em três turnos durante o dia. Tem aluno que chega às 7 horas e sai às 9h30; outros que chegam às 9h45 e saem ao meio-dia. Vejam o tamanho do caos.

“É preciso atrair novas indústrias para nossa cidade”

Na foto Carlos Alberto de Andrade (Carlão)Euler de França Belém — Então, o ensino está sacrificado.
Muito sacrificado. Temos escolas municipais em que as diretoras estão fazendo vaquinha para arrumar banheiro. Os professores não têm a mínima condição de trabalho. Até o mês passado, o material que usado nas escolas era o que eu deixei no meu mandato. Acreditem. (enfático) Eles foram regrando, regrando, regrando, porque não tem reposição.

A situação de educação em Goianira é caótica, não muito diferente da saúde. Na segunda-feira (6 de junho), tive a curiosidade de passar na porta do hospital por volta das 19 horas. Estava o caos total, abarrotado de gente. O que foi feito na saúde: deixei, se não me engano, 16 ou 17 UBSs [unidades básicas de saúde] programadas; são os PSFs [postos do Programa de Saúde da Família], mas o governo federal mudou o nome. Eles são distribuídos nos setores. O que aconteceu: montou-se a estrutura, mas não há material humano para trabalhar e, o que é pior: não tem o básico, que é o remédio. Simples­mente, não tem remédio. É a mesma situação de construir uma casa nova, com móveis novos e depois não ter o que comer. Não tem medicamento, não tem material humano, não tem prestador de serviço. A saúde, que é pintada como modelo, virou o caos. Existem denúncias de PSFs e UBSs que foram inaugurados só para soltar foguetes. Não há condições de trabalho, é algo escandaloso.

Marcos Nunes Carreiro — Não há de­núncia disso no Ministério Público?
Sim, várias. Para ter ideia, tenho um relato que é comovente. Há uma criança que nasceu com retardamento mental cuja mãe procurou os meios de comunicação para denunciar o caso. Têm três meses que essa mãe vai até a assistência social e não acha o leite de que sua criança precisa. Isso, se você der uma volta na cidade, é recorrente. A assistência social não funciona. Pessoas que precisam de tratamento contínuo batem à porta dos órgãos públicos e não são atendidas. São obrigadas a retirar da aposentadoria e ficam sem comer. Não é um nem são dois casos, são vários. Nas três bases do tripé que dão norte para uma cidade, Goianira hoje está péssima em todos: segurança, saúde e educação. E na assistência social também não fica à frente disso.

Claro, podem dizer que é uma fala da oposição política, que deve ser observada com lupa. Mas são fatos que podem ser facilmente comprovados, basta que se façam visitas a escolas do município para ver diretor fazendo “vaquinha” para arrumar banheiro, ver uma merenda escolar de péssima qualidade, com fornecedores todos de fora. De um modo geral, está um caos completo.

Cezar Santos — Sendo eleito diante desse quadro, qual seria, então, sua missão?
Voltar ao status de cidade que deixamos há três anos e meio, com a população sendo bem servida em educação, assistência social, saúde e segurança. Tudo isso funcionava bem, apesar de alguns problemas. É preciso dar possibilidade de a população ter uma melhor qualidade de vida. É preciso buscar parcerias com as pessoas, com os servidores, trabalhando de modo correto com todos para que eles também justifiquem seu salário.

Hoje, nossa missão é voltar a fazer Goianira crescer, com dignidade, trazendo novas indústrias e mais movimentação ao comércio local, por exemplo. Fomentar o mercado local é fundamental, comerciante que vende mais contrata mais. Se a prefeitura compra no comércio da própria cidade, ela estimula esse ciclo. Hoje, se você der uma volta pelo centro comercial de Goianira vai perceber o desânimo estampado no rosto dos comerciantes. Os poucos que vendem para a Prefeitura têm três ou quatro meses que não recebem.

Ao lado disso, vende-se a imagem de que Goianira é a melhor cidade do mundo. Mas, quando você vive lá, vê exatamente o contrário. É uma maquiagem que se montou que está muito longe da realidade.

Marcos Nunes Carreiro — Como está a questão do saneamento na cidade?
Eu tive a oportunidade, já no final de meu mandato, de conseguir um contrato de R$ 10,5 milhões com a Saneago e o Ministério das Cidades para quatro ou cinco bairros — Linda Vista, Parque das Camélias, Vila Regina e Mansões Regina. Hoje devemos ter 80% de água tratada e uns 20% de tratamento de esgoto, no máximo. Há necessidade urgente de novos convênios para melhorar o saneamento de Goianira.

Marcos Nunes Carreiro — Qual a extensão do problema de expansão urbana do município? Há bairros que se emendaram em Goiânia e também há esse problema com as divisas de Caturaí e Brazabrantes.
Para Goiânia, realmente houve isso; para Caturaí e Brazabrantes, menos, mas isso vai acontecer.

Marcos Nunes Carreiro — Goianira cresceu de forma desordenada?
Todas as cidades do entorno da capital têm problemas com relação a esse crescimento. Tive cuidado, como prefeito, de acompanhar bem de perto a situação de expansão de novos parcelamentos. Todos eles precisam ter 100% de infraestrutura — água, asfalto, energia e até saneamento básico, quando a Saneago dava viabilidade. Ou seja, todos os loteamentos aprovados durante meu mandato têm equipamentos públicos, alguns obrigados por decreto — ou uma escola, um PSF, uma praça etc., para ajudar a Prefeitura. O empresário vai para ganhar dinheiro, mas precisa dar a contrapartida. Isso foi bom, porque antes disso a gente teve bairros que foram autorizados apenas para abrir ruas e colocar postes, frutos de administrações anteriores.

Portanto, esses loteamentos são uma forma de crescimento normal, desde que observadas essas circunstâncias. O que há é a necessidade de um pouco mais de tudo a cada implantação de um parcelamento — mais escolas, mais segurança, mais unidades de saúde. São instrumentos públicos de que o município precisa, e para isso tem de buscar ajuda e parcerias de governos e empresários.

Vilma Barbosa — Em Goianira havia dois hospitais, mas um se encontra fechado. Ou seja, há apenas um hospital com atendimento, e sem UTI. O que o sr., sendo eleito prefeito, pensa em fazer?
Temos a programação de fazer uma UPA [unidade de pronto atendimento] 24 horas, que seria um pequeno hospital, para atendimentos básicos e um centro cirúrgico para pequenos procedimentos. Esse projeto está pronto e o deputado federal Giuseppe Vecci (PSDB) já se dispôs a colocar uma emenda para o ano que vem, de modo que, entrando na Prefeitura, já tenhamos isso podendo ser implantado de forma imediata. Precisa sair do centro de Goianira e ficar em um local que possa beneficiar o município como um todo, para não ter o disparate de sair do Residencial Triunfo e andar quase 20 quilômetros para chegar ao hospital.
Vamos descentralizar também a administração, em subprefeituras. Queremos criar pelo menos duas subprefeituras em setores mais afastados, para que as pessoas tenham condição de atendimento mais perto de suas residências.

Outra medida é abrir um hospital e, no mínimo, mais duas UBS [unidades básicas de saúde] que atendam 24 horas, pois, até com a pouca estrutura que elas têm, vidas podem ser salvas de imediata apenas com um desfibrilador ou com alguém que possa estancar uma hemorragia. Outra coisa: não é possível que, para um parto, a pessoa tenha de se mover para Goiânia.

Outro fato que me deixa muito triste é a situação de nosso hospital da cidade. Por isso mesmo, não posso deixar de agradecer e citar nomes — como o do dr. João e o dr. Gaspar —, que por muitos anos seguraram a saúde do município. Infelizmente, por falta de parceria do poder municipal, tiveram de fechar um hospital que funcionava havia mais de 40 anos e que, com todas as dificuldades, nun­ca tinha cerrado as portas. Segundo relatos dos próprios donos, o município não estava cumprindo as parcerias firmadas, transferindo pacientes que poderiam ir para o hospital particular da cidade, conveniado com o SUS [Sistema Único de Saúde], diretamente para Goiânia. Era uma tradição da cidade esse hospital, meus filhos mesmos nasceram lá.

Cezar Santos — Mas por que o prefeito tomou essa medida?
Segundo informações do proprietário, deixou-se de fazer a regulação no município. Ou seja, o pré-atendimento não passava mais pelo hospital de Goianira, mesmo as situações em que seria possível assisti-los lá mesmo, na cidade. Como não recebia pacientes, a receita do hospital foi caindo e tornou-se inviável a continuidade do hospital aberto.

Cezar Santos — Houve algum problema político entre o prefeito e a família dona do hospital?
Não posso afirmar isso. O que o proprietário me falou — e não só pa­ra mim, mas para muitas pessoas — é que houve falta de encaminhamento em nível de regulação por parte da Secretaria Municipal de Saúde. Assim, o hospital está fechado, o que faz com que não possa ficar mais ninguém internado em Goianira.

Cezar Santos — Ou seja, hoje impera a “ambulancioterapia” no município?
Exatamente, qualquer situação mais séria é preciso vir diretamente para Goiânia.

Cezar Santos — Quanto às UBSs em Goianira, como elas estão? A atual administração bate muito nelas; estão sendo inauguradas agora? De quem é este projeto?
É importante frisar que, de todas as UBS que estão sendo inauguradas, nós temos os protocolos dos pedidos e as indicações dos bairros onde eram para elas serem colocadas. São projetos meus, que fiz há mais de cinco anos. Sabia que não os contemplaria em minha administração, mas não podia me furtar de fazer a população ter essa oportunidade, já que o Mi­nis­tério da Saúde abriu esse leque e nós entramos de imediato pois era um dinheiro finito e, como Goianira é plena — todos os bairros estão atendidos —, tivemos a oportunidade de solicitar. Os prédios são maravilhosos e estão lá, o que falta é gestão para poder tocá-los. Não adianta uma casa nova, sem ninguém para habitá-la.

Cezar Santos — E em relação às creches?
Tenho de falar de minha indignação pela falta de acompanhamento das nossas creches. Eu deixei recursos para quatro creches. Duas delas, praticamente respaldadas. Todas foram paralisadas e agora estão terminando duas para entregar — e eu não sei se dá tempo de inaugurá-las. E a população está sofrendo; as mães, para trabalhar em Goiânia, tendo que pagar uma babá para olhar seus filhos, sendo que o recurso foi encaminhado, bastava apenas acompanhamento. Montar uma creche não é fácil, é a mesma coisa de uma UBS. É preciso recurso, mais manutenção e gente qualificada, e isso não foi feito. Então, entristeço-me muito devido a essa falta, ocasionada em benefício da política pessoal que prejudica as pessoas. As creches não foram entregues por conta disso; e as UBSs, que seriam entregues no início do ano, só estão sendo entregues agora, por uma situação política, para fazer barulho, por conta da proximidade das eleições.

Euler de França Belém — Parece que há também um problema em relação ao cemitério municipal…
Esse é o maior absurdo de Goianira. Se alguém perde um ente, tem de sair buscando em cidades vizinhas para enterrá-lo. A cidade, há mais de ano, não tem cemitério. Em um momento em que as pessoas estão em sofrimento pessoal, têm ainda de buscar recursos emprestados para poder pagar para fazer o enterro em outro município. Nem sequer houve providência em forma de projeto de lei para criá-lo; ou seja, as pessoas estão órfãs nesse aspecto. Os cemitérios se encheram e, há mais de um ano e meio, não se enterra ninguém na cidade, só enterra quem tenha o terreno. A conversa é crua. Têm pessoas que levam para enterrar seus familiares em outros municípios, mas, mesmo assim, há obstáculos. O que fazem muitos? Procuram cemitérios pagos ou buscam uma cidade que se tenha parente para levar o ente.

Cezar Santos — Têm outros projetos do sr. que foram interrompidos?
Nós tivemos a oportunidade, no Bairro São Pedro, por uma emenda da senadora Lúcia Vânia (PSB), de ter um galpão industrial para fomentar as facções. Goianira é famosa por ter costureiras que trabalham em casa. O projeto era fazer o galpão e a Prefeitura entrar com o maquinário, para que as pessoas pudessem — as que não têm máquina em casa — usar como fonte de maior receita. Mas o prédio está acabando, está se deteriorando sem nunca ter sido usado. Temos também o projeto de calçadas, que só agora está sendo implementado, e que também foi nosso.

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Carlão Oliveira: “Giuseppe Vecci é muito preparado, é o melhor candidato em Goiânia. Torço para que ela vença aqui”

Marcos Nunes Carreiro — Saiu na imprensa a notícia de que seus bens estariam bloqueados por ordem da juíza Eugênia Bezerra. Seria algo em torno de R$ 2,8 milhões, por conta de improbidade administrativa. Como está isso?
Primeiramente, obrigado pela oportunidade de responder a essa questão. Na verdade, tive três situações de processos de improbidade, nenhum deles no decorrer de mi­nha gestão — foram situações criadas pela atual gestão. O primeiro se refere a um ônibus da Prefeitura que cedi para o transporte de funcionários da USE Móveis, empresa que conseguimos levar para Goianira e que tinha muita gente que morava no centro da cidade. O Mi­nistério Público não concordou e interrompemos o serviço pelo município. Mesmo assim, houve seguimento e mandou bloquear pouco mais de R$ 20 mil de uma conta minha. Outro caso foi a retirada de cascalho em que, mesmo com licença do município, o MP disse que não era pertinente, porque a licença seria do Estado. Blo­quearam, então, mais de R$ 30 mil.

O terceiro caso, o mais polêmico, diz respeito a um setor chamado Nova Goianira. O decreto de aprovação do loteamento data de 1998 ou 1999. Quando foi aprovado, a família o doou à Federação Espírita de Goiás com uma série de determinações do que deveria ser feito na área: um hospital, um cen­tro de recuperação de idosos, um templo da religião. Após alguns anos, houve um litígio na família, com um problema no inventário. Houve bloqueio do processo na Jus­tiça. Os inventariantes conseguiram rever judicialmente essa área pa­ra eles. Então, uma sentença da juí­za revogou a doação e devolveu o terreno à família. Nesse loteamento nunca teve qualquer equipamento público — até hoje não tem, aliás. Um grupo entrou em contato com a família e comprou a área.

Na hora de fazer o registro, tal grupo juntou ao termo de compra, o decreto de anulação da doação, declarações da Secretaria de Meio Ambiente dizendo que não há equipamentos públicos, entre outros. Então, reuniu tudo isso e pleiteou que não fosse cobrado um imposto que tinha sido lançado indevidamente dessa área que não tinha qualquer benfeitoria municipal. A Prefeitura nunca fez nada lá, nunca varreu uma rua, nunca forneceu atendimento médico, mesmo porque não tem adensamento, uma casa sequer no loteamento, até hoje. A atual administração, agindo de má-fé, reuniu uma meia dúzia de documentos — mas não o decreto de cancelamento da doação, nem certidões dizendo que não havia nenhum tipo de coisa, e nenhuma foto. Deu-se a entender para o Judiciário que era um loteamento pronto, que tinha equipamentos públicos do município e que eu havia mandado cancelar o imposto sobre aquela área; nisso, expediu uma liminar para bloquear o montante de R$ 2 milhões. De imediato, eu entrei com um pedido de reconsideração no município e estou tranquilo quanto a isso, pois todas as minhas atitudes foram embasadas com parecer jurídico. Nunca assinei nenhum decreto sem o parecer jurídico me dando tranquilidade para poder fazê-lo. Por isso, vejo com naturalidade diante da Justiça e estou me defendendo. Nos próximos dias, devemos ter revogada a liminar e tenho a consciência tranquila de que não cometi nenhum ato ilícito, tanto é que sempre, em todos os momentos, se buscar minha declaração de imposto de renda — que é requisito para entrar na vida pública —, verá que todos os meus bens estão lá relacionados. A partir do mo­men­to que não fiz nada errado, não tenho por que tirar bens do meu nome. Aproveito para perguntar por que o atual prefeito não faz o mesmo, pois a declaração de im­posto de renda dele só consta um cargo. É algo típico de quem está se preparando para a Justiça não penhorar nada. Ora, se ele não tem nada, vai penhorar o quê? Não tenho problema algum quanto a isso, pois não tenho problemas com a Justiça. Eu me defenderei com a certeza de que terei todas as minhas situações revistas, ao contrário de quem tem medo da Justiça.

A melhor casa de Goianira é do atual prefeito; ele anda de helicóptero para cima e para baixo; hoje, mora em um apartamento em Goiânia e nada disso está na declaração; nem mesmo o carro que ele anda, o da mulher, enfim. Todo um aparato de quem se está se preparando para que a Justiça não tenha nada a pegar. Eu não tenho esse problema. Tenho a consciência tranquila com todas as ações que tomei à frente da Prefeitura; fiz de forma transparente e tudo que fiz foi com embasamento jurídico. Nenhuma ação foi sem o suporte jurídico; mesmo porque eu não tinha experiência naquela ocasião e o que fiz de melhor foi me cercar de pessoas que me conheciam para que não deixassem que eu fizesse nenhum tipo de bobagem.

Marcos Nunes Carreiro — O sr. falou de três ações; quanto às duas primeiras, foram finalizados os processos?
Não. Todas elas estão em liminar, estou me defendendo. Nenhuma delas, ao contrário do que maldosamente disseram na imprensa, fala eu cometi crime. Primeiramente, porque isso não é crime, não está tipificado em lugar algum; em segundo, eu não fui condenado em nada. Há um pedido de estudo quanto àquela denúncia e, sobre isso, o Ministério Público, por orientação do TJ, cerca-se de garantias para começar a ação. Nenhum dos processos teve sequer audiência ainda e houve esse estardalhaço todo — muito ao contrário do pai do atual prefeito, que foi condenado a devolver mais de R$ 1 milhão por ter desviado dinheiro do Fundo de Previdência do Município. Isso, sim, é crime e ele está condenado a devolver o dinheiro; ao contrário das ações que me foram imputadas.

Cezar Santos — Goianira é praticamente, até pelo processo de conurbação, um bairro de Goiânia. Como o sr. vê a questão da sucessão, o trabalho do pré-candidato Giuseppe Vecci (PSDB): Ele tem condições de crescer e ir para o segundo turno?

Marcos Nunes Carreiro — Para completar a pergunta, o sr. falou sobre as subprefeituras e esta é uma bandeira também levantada por Vecci em entrevista ao Jornal Opção. Há um alinhamento de discurso entre vocês?
Sim. Hoje, é impossível pensar em administrar Goianira sem consonância com Goiânia. Nós temos um desequilíbrio muito grande de coisas que acontecem em nosso município e o beneficiário é Goiânia. Nós temos de ter esta parceria, na saúde e na segurança isso é primordial. Nós temos de buscar este apoio na capital, onde o volume de recursos e as oportunidades são maiores. Preci­samos da parceria, para que façamos tudo em sintonia e ambas as cidades se ajudem. É impensável administrar Goianira atualmente sem a parceria com Goiânia.

Com relação a Vecci, ele foi meu candidato a deputado federal e é meu amigo, uma pessoa que estimo muito. Torço para que ela vença aqui, pois é, disparado, o melhor candidato para Goiânia. Ele é o mais preparado, com toda uma visão de administrador. Goiânia precisa muito mais de Vecci do que ele de Goiânia. Ele tem muita condição de administrar a cidade e fazer um trabalho muito profissional. Dos candidatos que se apresentaram, é o mais preparado para gerir a capital.

Cezar Santos — Os prefeitos estão reclamando, dizem que a União concentra demais a renda, a arrecadação. O que o sr. acha disso?
Nós precisamos fazer um pacto em que os prefeitos sejam ouvidos. Não é possível que continue assim no Parlamento. Tudo acontece no município: a geração de receita, por exemplo. Portanto, é inadmissível que a distribuição de receita continue dessa forma draconiana. Ela quebrará todos os municípios. Nós não temos mais condições de sobreviver assim. Há, então, a necessidade de reunirmos com nossos parlamentares para que se mude urgentemente a forma de divisão de receitas no País. O pacto precisa sair de qualquer forma; precisamos aproveitar este momento, toda a situação difícil por que o País passa, em que a classe política está desprestigiada como nunca antes, pois todos os dias se veem escândalos e mais escândalos. No apagar desse fogo, precisamos renascer das cinzar e fazer um novo modelo de município, de Estado e União. Não é possível que convivamos com tanto desmando e tanta corrupção.

Hoje, o político fica até receoso, em alguns lugares, ao dizer que é desse meio. Mas eu não me envergonho de falar que sou político, pois faço política por uma opção pessoal, eu gosto de fazer, de servir as pessoas, de ser útil. Isso me dá prazer. Fico contente ao chegar a uma casa e ouvir “você já nos ajudou, já fez isso, fez aquilo, já ajudou minha família”. Eu sou um político que administra de porta aberta, gosto do convívio com as pessoas, de conversar com alguém olhando nos olhos e de poder fazer algo, de poder ajudar. Isso é o que me nutre, me dá satisfação para continuar na vida pública. E é oportuno o momento que estamos vivendo para que surjam pessoas novas, jovens que venham nutrir a classe política, que se interessem e que saibam que é possível fazer de forma honesta, transparente para que tenhamos um País melhor para todos nós, nossos filhos e netos. É possível, sim, fazer uma boa administração; é possível, sim, administrar sem essa roubalheira, sem ter de fazer algo escuso. É difícil, sim, mas precisamos educar a população para que não exista mais aquele “vou voltar em você, mas o que você vai me dar, o que tem para oferecer?”. Precisamos limpar a lambança em que está nosso País e fazer com que tudo se renasça, com um ciclo de novos vereadores, novos prefeitos, novos governadores, deputados e senadores, enfim; para que nossa classe política toda seja oxigenada e, assim, tenhamos dias melhores.

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