“Estou preocupado com os vazios públicos. Tem muito vazio público na capital”

Relator do projeto de revisão do Plano Diretor de Goiânia afirma que parecer será construído com ajuda da sociedade para buscar crescimento ordenado da capital

Vereador Cabo Senna (Patriota) | Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

Escolhido como relator do projeto de revisão do Plano Diretor de Goiânia, o vereador Cabo Senna (Patriota) diz que pretende manter o diálogo aberto com a sociedade para construir o melhor futuro possível para a capital. E aponta, em entrevista ao Jornal Opção, o que tem mais chamado sua atenção. “Vamos escolher uma área para expansão que entregará o benefício para a coletividade? Atenderá Goiânia? Ou vai atender uma empresa? Uma pessoa jurídica? Estou preocupado com isso.”

Mesmo que a proposta defina os rumos do ordenamento urbano de Goiânia, Cabo Senna abriu o diálogo com o governo de Goiás e órgãos públicos estaduais para incluir todos na discussão. O parlamentar afirma entender que o trabalho do bombeiro, do policial militar e a vida da população precisam ser pensados no projeto de revisão do Plano Diretor. Não o lucro de quem vive de especulação imobiliária. “Muitas empresas estão preocupadas em construir. Estão preocupadas somente em ganhar dinheiro. E mais nada. Não estão preocupadas com o crescimento ordenado da capital”, observa.

Augusto Diniz – O sr. foi escolhido como relator da revisão do Plano Diretor. Como está o diálogo com as comissões temáticas? O que podemos ver de novidade no projeto?
Na quinta-feira, 5, foram anunciados as comissões e o relator. Tanto o presidente da Casa, Romário Policarpo (Patriota) quanto o presidente da Comissão Mista, Lucas Kitão (PSL), deram dois dias para que os vereadores aceitassem ou não. Na terça-feira, 10, foram confirmadas as seis comissões compostas por sete vereadores cada. Alguns vereadores estão em duas comissões.

Estava prevista para a semana passada, na sala de reunião da presidência da Mesa Diretora, a primeira reunião entre os presidentes das comissões e o relator, que sou eu, juntamente com o presidente da Casa. Estamos traçando toda a forma de trabalhar, como serão as reuniões e audiências públicas para definirmos um cronograma e começarmos o trabalho.

Rodrigo Hirose – O sr. acredita que as reuniões durarão quanto tempo até o projeto ser encaminhado para votação no plenário?
O projeto já foi apresentado, embora as discussões ainda não tenham sido iniciadas. Primeiro foi apresentado na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) para avaliar a constitucionalidade do texto. Algumas emendas foram apresentadas e votadas em primeira votação no plenário.

Agora é a comissão de mérito, que é a Comissão Mista. Os trabalhos de discussão do projeto começarão agora. As comissões são divididas em áreas da capital. Vamos conhecer agora todas as emendas. Conheceremos novas emendas que podem surgir. E vamos entrar na discussão. Fiz uma reunião, assim que fui indicado relator, com o vice-governador Lincoln Tejota (Cidadania).

Busquei o apoio do governo, dos técnicos do governo. Buscarei o Tribunal de Contas do Estado (TCE). Pedi à minha equipe para fazer contato com o Conselho de Arquitetura e Urbanismo de Goiás (CAU-GO) e o Conselho Regional de Engenharia e Agronomia de Goiás (Crea-GO) para conversarmos e buscarmos o melhor para nossa capital.

Augusto Diniz – O sr. falou em buscar os técnicos do governo, mas o projeto de revisão do Plano Diretor foi elaborado pela Secretaria Municipal de Planejamento Urbano e Habitação (Seplanh). Como está o trabalho dos vereadores junto aos técnicos da Seplanh?
O primeiro passo foi o envio de cinco representantes da Câmara pelo presidente Romário Policarpo ao Paço Municipal para que fossem apresentados aos vereadores os artigos do novo Plano Diretor. Eu era um dos cinco parlamentares. Foram apresentadas várias mudanças. Nos reunimos para discutir o que seria melhor para Goiânia.

Sabemos que são os vereadores que têm a batuta para mudar ou não o futuro da nossa capital. Teremos muitas novidades. Por isso, aguardamos a conversação dessas comissões para chegar a um denominador comum e decidir o melhor para Goiânia.

Rodrigo Hirose – Quais são as principais novidades?
Discute-se a economia, o social e outras situações. Mas estou preocupado com os vazios públicos. Tem muito vazio público na capital. Vamos escolher uma área para expansão que entregará o benefício para a coletividade? Atenderá Goiânia? Ou vai atender uma empresa? Uma pessoa jurídica? Estou preocupado com isso.

Não temos nada nos bairros mais afastados. Vou criar um bairro em um local que está longe, como se tivesse de ir a outra cidade dentro de Goiânia. Um exemplo é o Orlando de Morais. A pessoa do Itatiaia, pega a GO-462, anda alguns quilômetros para chegar ao Orlando de Morais. O que tem lá de infraestrutura pública?

Conversei com o Corpo de Bombeiros, que me trouxe uma ideia muito plausível. Conversarei também com o comando da Polícia Militar. Todos devem ser envolvidos na discussão. Não é o Cabo Senna que relatará o que precisamos para o futuro. Não. Só relatarei aquilo que ouvi e entender ser o melhor para a capital. Buscarei todos os meios para construir uma Goiânia melhor.

A proposta dos bombeiros é ter espaço para regionalizar a capital para o atendimento ser melhor. Para ter uma facilidade do Estado. O plano é da prefeitura, mas todos têm de se envolver. Quero buscar a ajuda de todos.

Ton Paulo – O sr. disse em uma rádio que iria ouvir técnicos e a sociedade. Como será feito o diálogo com a população?
Definiremos isso em reunião para facilitar a participação da sociedade. Minha ideia é que possamos fazer encontros durante a noite para que a sociedade, mesmo cansada depois do trabalho, possa participar. Porque vamos discutir o futuro de Goiânia. Não podemos deixar na mão de apenas uma pessoa.

Ton Paulo – Será um diálogo contínuo? Como vai funcionar?
Queremos dividir as audiências públicas. Vamos definir o cronograma para discutir quais assuntos serão colocados em determinada área da capital. É importante que todos participem. E o papel da imprensa é primordial. Pode ocorrer de a pessoa não poder ir àquela audiência pública. Mas a imprensa mostrará para aqueles que não puderem ir.

Rodrigo Hirose – Sempre que se discute o Plano Diretor, o enfoque é grande na expansão urbana. Mas há outras discussões no projeto e a cidade tem outros problemas, como a mobilidade, a impermeabilização, a ocupação, o uso do solo, as atividades econômicas. Nos outros eixos, o que o sr. entende que merece um olhar cuidadoso para os próximos dez anos?
Não tem como ter crescimento se os milionários que têm grandes áreas na capital aguardarem a valorização daqueles lotes para ganhar dinheiro. Estou preocupado com isso e tenho uma ideia muito importante para quem tem dinheiro. São pessoas que travam o desenvolvimento da capital.

Temos hoje várias áreas que poderiam estar preenchidas. Penso no ITU [Imposto Territorial Urbano] progressivo. E obrigar os proprietários dessas áreas a construir dentro de determinado período de tempo. Precisamos criar um percentual que seja investido no social para que as pessoas menos favorecidas tenham oportunidade nessas grandes áreas que ficam ociosas na espera de valorização.

Muitas empresas estão preocupadas em construir. Estão preocupadas somente em ganhar dinheiro. E mais nada. Não estão preocupadas com o crescimento ordenado da capital. Tenho falado em reorganização da nossa capital. O momento é esse. Precisamos reorganizar a capital com a ajuda de todos.

Quando recebi a mensagem de que eu seria o relator do Plano Diretor, me disseram que a escolha foi trabalhada a seis mãos. Recebi a indicação de seis mãos e estou repassando a 70 mãos, que são os 35 vereadores. Todos nós estaremos envolvidos. Mas precisamos do apoio da sociedade.

Ton Paulo – O sr. chegou a afirmar que relatar a revisão do Plano Diretor seria um abacaxi para descascar.
E não deixa de ser.

Ton Paulo – Qual dificuldade o sr. considera que será maior?
Há três dias penso sobre isso. A iniciativa privada, principalmente as grandes empresas, está preocupada em ganhar dinheiro. Não está preocupada com o ordenamento da cidade. A preocupação é criar um loteamento, vender, ganhar dinheiro e partir para o próximo. Tanto é que até hoje temos loteamentos em Goiânia que não contam nem com asfalto. Infraestrutura nenhuma.

Não sei se mandarei recado a alguém. Mas sou duro na queda. Tenho de entender e ver se as propostas vão chegar de forma bem ordenada para o crescimento da nossa cidade. Se não chegarem, não aceitarei e não vou discutir. Diria que isso pode ser um abacaxi, porque mexe com os poderosos. E não tenho receito disso.

Augusto Diniz – O presidente da Câmara, Romário Policarpo, propôs a venda dos jardins internos de quadras do Setor Sul. Houve uma reação contrária de entidades como o CAU. Como o sr. vê essa situação?
Cheguei a conversar com o presidente a respeito do assunto. Policarpo disse que tem acompanhado a repercussão. A emenda foi apresentada para garantir mais segurança aos moradores do Setor Sul. É bem verdade que a proposta precisa ser discutida. Os moradores estão divididos.

Vamos discutir de forma técnica e ouvir a sociedade. Vamos sopesar as duas informações e buscar o que for melhor.

Rodrigo Hirose – O sr. disse na semana passada ao Jornal Opção: “Não sou igual a muitos”. O que o sr. quis dizer com isso?
Ouvimos muito as pessoas falarem que “todo político é corrupto, todo político é igual, todo político é vagabundo”. Escutamos isso da sociedade. Me lembro quando fui eleito em 2016 que passei a ser corrupto porque passei a ser político. Espere aí! Todo mundo é corrupto? Todo mundo é malandro? Não acredito nisso.

Rodrigo Hirose – Mas o sr. acredita que muitos são?
Claro. Não sou eu que digo isso. Vemos políticos serem presos. Na semana passada tivemos o caso de alguns vereadores. Quando digo que não sou igual – e não somos iguais mesmo – é porque fui eleito para ser diferente, para fazer diferente. Mas precisamos não só de falar, precisamos agir. É preciso fazer.

Ton Paulo – Em janeiro, o Jornal Opção fez um levantamento com políticos e empresários para saber quais parlamentares mais se destacaram em 2019. O nome do sr. foi muito citado. O fato de o sr. ter se destacado no ano passado aumenta a pressão sobre o trabalho de relator?
Isso não interfere. Fui eleito para trabalhar. Recebo o Plano Diretor como uma missão. Como militar que sou, recebi aqui uma missão. Vou cumprir essa missão.

Ton Paulo – O sr. se sente preparado?
Me sinto. E amparado pela técnica. Buscarei todos os técnicos possíveis para entregar uma Goiânia melhor no futuro. Quero fazer o meu melhor para isso. Vou errar? Posso errar porque sou ser humano. E o ser humano erra. Mas que buscarei fazer o melhor eu farei.

“Me lembro quando fui eleito em 2016 que passei a ser corrupto porque passei a ser político. Espere aí! Todo mundo é corrupto? Todo mundo é malandro? Não acredito nisso”

“Ouvimos muito as pessoas falarem que ‘todo político é corrupto, todo político é igual, todo político é vagabundo’. Escutamos isso da sociedade” | Foto: Alberto Cesar Maia/Câmara de Goiânia

Rodrigo Hirose – Goiânia não pode ser pensada sem a Região Metropolitana. Tanto que entra em funcionamento o Parlamento Metropolitano. Como o sr. pretende incluir as cidades conturbadas com a capital? Pretende ouvir os representantes dos municípios limítrofes?
Importante a sua pergunta. Ainda não tinha pensado nisso. Veja a importância de as pessoas se envolverem. Colocarei o assunto na pauta da discussão das comissões. Até porque Trindade, Senador Canedo, Goianira e Aparecida de Goiânia estão dentro de Goiânia.

Augusto Diniz – No segundo semestre de 2019, o texto da revisão do Plano Diretor chegou a ser devolvido à prefeitura. No final do ano, alguns vereadores acusaram secretários de não receberem os parlamentares. Qual a relação desses episódios com a tentativa de reeleição dos vereadores e o titular da Seplanh, Henrique Alves, ser apontado como possível candidato a vereador?
Uma coisa não tem nada a ver com a outra. Quando o Plano foi enviado, passou pela CCJ para ver a constitucionalidade do projeto. A comissão percebeu que o texto foi enviado com a retirada de algumas prerrogativas dos vereadores. Por isso foram feitas algumas emendas e pedidos de explicações. Mas a discussão ainda não foi feita de forma veemente na Câmara.

Em relação ao secretário da Seplanh como pré-candidato, não acredito que atrapalharia a discussão do projeto. De forma alguma.

Rodrigo Hirose – O presidente Romário Policarpo pensou em tentar acelerar a tramitação da revisão do Plano Diretor no ano passado. Depois demonstrou que não tinha certeza se colocaria o projeto em discussão em um ano eleitoral. Policarpo temia que a eleição contaminasse a análise da proposta. Existe o risco de a busca de boa parte dos vereadores pela reeleição traga prejuízo ao Plano Diretor?
Entendo que não. Deve ser por isso que me deram só 40 dias para relatar o projeto. Queremos o crescimento da cidade, o ordenamento da cidade, entregar para a sociedade, para nossas famílias, uma Goiânia melhor. Só que precisamos ordenar isso. Goiânia foi preparada para 50 mil habitantes. Estamos com quase 2 milhões de habitantes. É muita gente.

Nos meus 25 anos de função como policial militar nas ruas, muitas vezes fiz apreensão de menor na rua com 10, 11, 12 anos enquanto vendia droga e entreguei ao Estado para tomar pé da situação, ajudar a criança a sair da rua e ser alguém na vida. Quando a cidade cresce desordenada, a criança não tem o amparo do Estado, uma escola, nada. Vai buscar o que? Vai para a rua.

E na rua a criança vai encontrar o que? Traficantes. Pessoas que só querem o mal delas. Estou preocupado com isso. Por isso, temos de estudar muito a questão da expansão.

Rodrigo Hirose – É possível ouvir os técnicos, realizar audiências publicar e concluir o relatório em 40 dias?
Até me fiz a pergunta: será que darei conta de concluir o relatório em 40 dias? Mas temos seis comissões com sete vereadores em cada um. Vamos juntar isso e trabalhar. Caso eu não dê conta de relatar, claro que terei de solicitar uns dias a mais para que termine. É difícil. Por isso disse que é um abacaxi. É difícil, mas não é impossível. Vamos trabalhar para que essas dúvidas não pairem. “A eleição vai atrapalhar?” Não queremos isso de forma alguma. Há três dias acordo às 3 da manhã para começar a estudar e analisar o projeto.

 

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