“Estou convicto de que José Eliton será nosso próximo governador”

Presidente da Agetop diz que base aliada tem tudo para fazer o sucessor de Marconi e a disputa interna pelas vagas majoritárias é uma demonstração disso

Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

O presidente da Agência Goiana de Transportes e Obras (Agetop) já é naturalmente um homem dinâmico e entusiasmado. Nesta entrevista ao Jornal Opção, na tarde da quinta-feira, 30, estava especialmente animado: Jayme Rincón acabara de participar, pela manhã, no Centro Cultural Oscar Niemeyer, do lançamento do programa Goiás na Frente, que prevê um investimento de R$ 9 bilhões em todos os 246 municípios do Estado, em uma parceira com dois terços do governo estadual e o restante da iniciativa privada.

Saiu de lá com uma certeza: “José Eliton (PSDB) será o próximo governador de Goiás”. Um dos nomes de proa do tucanato em Goiás, Jayme Rincón vai além: “Candidato não tem de escolher adversário, mas gostaria muito de ver o vice-governador disputando com Ronaldo Caiado”, diz. Eliton deixou o DEM após desavenças com o senador, que chegou a levar o caso à Justiça.
O prefeito de Goiânia, Iris Re­zende (PMDB), também foi alvo da artilharia do presidente da Agetop. Para ele, a gestão do veterano peemedebista está sendo uma “tragédia anunciada”. “Quem parasse para pensar um pouquinho veria que Iris não poderia ser o prefeito. Realmente, foi uma pena ele ter sido eleito.”

Euler de França Belém — O sr. vai sair candidato a deputado federal?
De fato, eu li uma nota sobre isso aqui no Jornal Opção. Hoje é uma possibilidade concreta, mas tenho de conversar sobre isso com muita calma com o governador, o que não fiz ainda. Até porque, pela posição que ocupo no governo, não quero ser alvo de artilharia ou ser acusado de estar usando essa posição para minha provável candidatura. Então, se for para responder a essa pergunta agora, não sou candidato porque não conversei com o governador. Se a coisa caminhar, temos de ver em que condições. Se for viável e eu puder agregar algo à estrutura do grupo político, provavelmente eu sairia.

Euler de França Belém — A discussão sobre a reformulação do pacto federativo está forte no País. Em Goiás, está se fazendo realmente um pacto, com a distribuição justa dos recursos para os municípios, por parte do governo estadual. É o que ocorre com o recurso da venda da Celg. Como o governo pensou isso?
Primeiramente, o pacto federativo realmente tem de ser revisto. Quando entrei no governo, em 2011, conversei sobre isso longamente com o governador. Falei que ele deveria pegar essa bandeira da revisão. Nós realmente não temos uma federação. O governo federal concentra a maior parte da arrecadação de impostos do Brasil, gasta muito mal, não tem a sensibilidade nem a informação necessária para definir o que cada região e cada município necessita e, então, acaba não atendendo às demandas da população.

E o governador Marconi Perillo sempre teve essa preocupação. Quando se diz que ele é municipalista, ele é justamente por entender isso. E talvez não vá existir em Goiás um governador que conheça tão bem a realidade de cada um dos municípios. É algo impressionante. Falo isso por conviver com o governador, vejo como ele sabe detalhes de cada pedacinho de Goiás e suas necessidades. E ele poderia até, pelo conhecimento que tem, determinar as obras em cada lugar, mas não fez isso. Ele vai destinar os recursos para os prefeitos, que terão de ouvir os vereadores e a sociedade local para determinar exatamente onde esses recursos serão aplicados. Isso surgiu da cabeça de Marconi Perillo, a ideia foi dele.

Cezar Santos — A oposição tem criticado fortemente essa ação, que seria para tirar proveito político com muito marketing, citando, por exemplo, o lançamento do programa Goiás na Frente [ocorrido na quinta-feira, 30, data da gravação da entrevista].
É bom que a oposição critique uma ação que vá em benefício dos municípios. Eles dizem que o governador, ou o vice-governador, que é o nosso candidato ao governo em 2018, vão tirar proveito político, e têm razão, porque toda ação bem pensada e bem executada traz dividendos políticos, não poderia ser diferente. Mas ela não foi feita nessa intenção, mas sim dentro do espírito municipalista do governador, foi ideia dele, que desenhou e tomou a iniciativa de fazer isso tudo.

E o governador falou claramente, no lançamento do Goiás na Frente, numa ação totalmente inusitada em Goiás, em que ele ouviu todos os prefeitos e todos serão atendidos. Só não vai ser atendido quem não quiser. E isso se dá num momento realmente difícil: recebo prefeitos todos os dias e a maioria deles está desesperada pela falta de dinheiro. Então, quando o governador chega num prefeito e diz “você vai ter R$ 1 milhão” — ou R$ 2 milhões ou R$ 5 milhões — para gastar onde achar melhor, isso é um empurrão muito grande. Imagine para um prefeito que tem uma folha de pagamento de R$ 250 mil e vai receber R$ 1 milhão? São quatro folhas de pagamento, lógico que esse recurso não pode ser usado para pagar pessoal, mas se ele aplicar bem esse dinheiro, vai ser uma força e tanto.

Marcos Nunes Carreiro — O uso do recurso repassado aos municípios será fiscalizado?
Vai sim, a definição de onde e como será aplicado o dinheiro é do prefeito, mas a execução da obra será fiscalizada pelo governo estadual.

Cezar Santos — Quais os critérios para a distribuição do dinheiro?
Há municípios pequenos, médios e maiores, então está definido: R$ 5 milhões, R$ 3 milhões ou R$ 2 milhões e R$ 1 milhão. Quem receber menos será R$ 1 milhão.

Euler de França Belém — O que os prefeitos vão fazer mais em seus municípios?
Asfalto. A situação das ruas e avenidas nos municípios é de calamidade, então cerca de 70% dos prefeitos vão fazer asfalto. Nós fizemos antes o Rodovida Urbano, a Agetop foi aos municípios executar o serviço. Tivemos problemas, faltaram recursos e não conseguimos concluir o pro­grama. Agora, os prefeitos vão fazer e terão condição de fazer mais barato que nós. Cito Aruanã, aonde vou sempre, como exemplo, onde Her­ma­no de Carvalho (PSDB) foi prefeito e agora é de novo: ele só não asfaltou o Rio Araguaia porque seria preso. Ele asfaltou a cidade inteirinha por ad­ministração direta. Eu falo pros prefeitos irem até ele para ver como se faz. Hermano multiplicou o dinheiro.

Euler de França Belém — Se a BR-153 estivesse sob controle do Estado estaria duplicada? Ela é chamada de “rodovia da morte” em seu trecho de Anápolis a Porangatu. Fizemos uma reportagem recentemente e numa cidade disseram que cinco vereadores morreram em acidentes, o que mostra o tamanho do perigo.
Ela já estaria concedida com a duplicação. É uma via perigosa mesmo. Ali tem um equívoco muito grande — que foi mais um dos erros que a ex-presidente Dilma Rousseff cometeu —, com um modelo de concessão totalmente fora da realidade. Ali, se duplicassem 10% do previsto ao longo do contrato já poderia cobrar pedágio como se ela estivesse duplicada. Isso é um erro. A empresa, a Galvão, que é responsável pelo contrato, está devolvendo, porque a concessão já era para estar mais da metade duplicada. Mas a empresa está falindo. Quando do lançamento do edital de licitação, disseram que o BNDES [Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social] seria o agente financeiro, com recurso muito barato, as empresas participaram com essa regra. Depois, a empresa que venceu propôs fazer um empréstimo ponte com taxas normais de mercado, até que o financiamento definitivo saísse, para começar a rodar. O BNDES acabou executando o empréstimo ponte. A Galvão está devolvendo e tudo voltando à estaca zero, porque o valor de pedágio real é fora da realidade. Acredito que o presidente Temer vá relicitar agora, mas com valor de pedágio real.

Patrícia Moraes Machado — Sobre os recursos anunciados para as prefeituras, o que chamou a atenção foi que eles serão em sua maior parte para asfalto. Asfalto, como a gente sabe, depois de um ou dois anos pode não existir mais e corre-se o risco de a população não perceber de fato o que foi destinado ao município. Desses investimentos, o que será de concreto para a população?
Mas o asfalto é a necessidade mais premente dos municípios, até porque os municípios estão todos um buraco só, dificilmente o prefeito teria condição de aplicar esse recurso em outra coisa, porque a população reclama com ele todo dia. No interior, o cara insulta o prefeito diretamente, porque é mais acessível. É outra vantagem de colocar recursos para o município, porque a fiscalização é maior, a sociedade é mais próxima dos vereadores, do prefeito. Mas, além de asfalto, teremos muita coisa que ficará em definitivo, como hospitais — em Uruaçu e Valparaíso, por exemplo —, cinco Credeqs que serão retomados, centros de recuperação do menor infrator, IMLs e outros equipamentos.

Patrícia Moraes Machado — O hospital regional de Uruaçu será funcionando?
Sim, funcionando, com os equipamentos e tudo o mais, é obviamente uma obra integral e definitiva. Mas mesmo o asfalto, que tem de ser refeito depois de algum tempo, é uma obra que fica em definitivo. Estamos terminando a duplicação da GO-080 até São Francisco e vamos chegar à duplicação até a cidade de Goiás na GO-070; vamos duplicar também de Morrinhos até Caldas Novas, onde só havia um trecho pequeno. Em Anápolis, temos o centro de convenções e o aeroporto de cargas; Em Aparecida de Goiânia, a Avenida da Paz. Têm muitas obras que saltam mais aos olhos da população. Tudo é necessário, as demandas da área de infraestrutura vão estar sempre aquém da real necessidade. Se tivéssemos dois ou três pacotes iguais a esse ainda seria pouco. Mas vamos avançar muito.

Patrícia Moraes Machado — Serão apenas concluídas obras iniciadas ou haverá novas obras?
Haverá novas obras também, o pacote abrange tudo. O mais importante é que se apenas concluíssemos as obras iniciadas, já seria muito, porque muita coisa parou em função da crise. Mas vamos fazer muita coisa nova também.

Marcos Nunes Carreiro — Quais são as obras de infraestrutura prioritárias?
O asfalto, mesmo que se faça hoje e depois tenha de refazer. A produção brasileira no agronegócio é fantástica. E a imprensa nacional mostrou agora, caminhões transitando em rodovias ruins e desperdiçando grãos. Isso tem de ser acudido, não tem jeito. Como vamos aumentar a produção sem dar conta de escoá-la? Em Goiás, temos necessidade reconstruir 2 mil quilômetros de rodovias. Neste ano, vamos reconstruir praticamente mil quilômetros, no ano que vem mais mil. Com isso, ao final do governo, vamos entregar todas as rodovias sem nenhum problema.

Patrícia Moraes Machado — Qual o retorno financeiro para o Estado a recuperação de rodovias?
O retorno é imediato. Quando se têm boas rodovias, diminui-se o custo do frete em mais de 30%, fora o que deixa de ser perdido diretamente no escoamento. Boa estrada é fundamental para o escoamento da produção. Defendo isso junto ao governador e ele concorda. Eu acho que na absoluta maioria dos casos, a prioridade na execução de obra deveria ser para reconstrução de rodovias, até pelas cobranças. Estrada sem asfalto quase ninguém cobra, mas estrada pavimentada com buraco, a cobrança é imediata. Daí a importância de manter as estradas em boas condições, não só por conta de escoamento de safra, mas para a segurança de quem usa.

Patrícia Moraes Machado — A maior parte dos recursos anunciados vai para a Agetop. Por quê?
O governador deixou muito claro que os recursos oriundos da venda da Celg seriam destinados para infraestrutura. Então, isso vai para hospitais, para o Centro de Convenções de Anápolis, para os presídios etc. Então, quando se fala Agetop é porque os recursos estão sendo destinados para infraestrutura e isso envolve todas as áreas, mas quem constrói é Agetop. Nenhum centavo será diluído como aconteceu na venda da usina de Cachoeira Dourada. Cadê o dinheiro de Cachoeira Dourada? Sumiu.

Cezar Santos — No lançamento do Goiás na Frente, o ministro das Cidades, Bruno Araújo (PSDB), ressaltou a magnitude do programa. É o maior em curso no País?
O governador me disse que o ministro saiu daqui impressionado. E realmente, já seria um programa de impressionar se o País estivesse num momento bom, imagine então na situação que o Brasil vive hoje. Lançar um programa dessa envergadura com recursos garantidos é um diferencial. Isso mostra os acertos do nosso governo desde antes da crise. O governador Marconi enxergou isso lá atrás e começamos a fazer o ajuste antes de a crise chegar. E depois que ela chegou, tivemos de fazer mais dois rearranjos.

Patrícia Moraes Machado — Na verdade, Marconi começou o ajuste mesmo antes de sua reeleição.
É verdade. E o bom governo não tem de ter medo de nenhum ajuste, porque, no fundo, a população reconhece o resultado disso. Isso penalizou alguns segmentos? Sim, mas os ajustes estão beneficiando o restante da sociedade. O funcionalismo reclama, é justo que brigue por melhores salários, mas veja a situação de desespero de servidores de outros Estados. Aqui em Goiás, pagamos a folha em dia, demos alguns aumentos pontuais, mas que foram importantes, e, principalmente, tivemos folga para beneficiar os 7 milhões de goianos, inclusive os próprios servidores.

Patrícia Moraes Machado — Qual é origem dos recursos para o investimento em obras?
Da venda da Celg vêm R$ 850 milhões; temos também recursos de manutenção rodoviária, da ordem de R$ 300 milhões; um financiamento da Caixa Econômica Federal, de mais R$ 400 milhões; a alteração no Protege [Fundo de Proteção Social do Estado de Goiás] proporcionará mais R$ 350 milhões. Só na Agetop serão R$ 2 bilhões, em investimentos que serão encaminhados até o fim do ano que vem. É muito dinheiro.

Patrícia Moraes Machado — E é tudo dinheiro em caixa?
Os recursos da Celg, sim, já estão na conta, aplicados no banco. Nem tudo, os recursos do Protege vão entrando mês a mês. Mas o importante é que eles estão já destinados.

Cezar Santos — Para os municípios, como será a distribuição?
Serão R$ 200 milhões este ano e R$ 300 milhões no ano que vem, via Detran, recursos do Tesouro estadual que serão transferidos a partir da semana que vem aos prefeitos, depois do trâmite, que deverá ser rápido.

Patrícia Moraes Machado — Quais são as ações que serão feitas no Entorno do Distrito Federal?
Têm rodovias, assim como também o hospital de Valparaíso.

Euler de França Belém — E o hospital de Santo Antônio do Des­coberto? Como está a obra?
Está terminando. É aquele que a prefeitura começou, mas teve problema burocrático de toda ordem. Em Goiás, a gente tem a boa saúde administrada pelo governo estadual, mas cuja imagem é “contaminada”, por exemplo, pelo caso da saúde de Goiânia. Se fizer uma enquete na capital e perguntar para o cidadão o que ele acha da saúde, ele vai dizer que é péssima. Porque o que é nosso entra no balaio da Prefeitura de Goiânia, que vive estado de calamidade.

Lembram-se de que eu disse em entrevista aqui no Jornal Opção que Goiânia não merecia Iris Rezende (PMDB) novamente? É por essa razão. Não é que Iris seja ruim, mas passou. Ele não tem mais disposição mental nem física para enfrentar problemas, para negociar. A gente tem visto que a administração está terceirizada para dona Iris [Araújo (PMDB), primeira-dama]. Iris hoje decide muito pouca coisa. Pessoas que estão indo à Prefeitura para falar com ele dizem que sentam para conversar com o prefeito e a primeira-dama fica na ponta da mesa, vigiando.

Eu até vi que alguém postou uma foto que mostra isso. Ninguém votou nela para prefeita — votou nele. Foi um erro. Goiânia vai chegar ao final do mandato do Iris muito pior do que quando ele entrou, por essas razões. É um cara retrógrado, centralizador, que montou uma equipe péssima. Com raríssimas exceções, ele escolheu pessoas totalmente despreparadas para ocupar os cargos. Esse desastre que está começando agora só vai piorar. A cada dia nós vamos ter mais problemas com Iris como prefeito.

Patrícia Moraes Machado — É interessante que a população não consegue diferenciar o que é saúde de gestão municipal e o que é do Estado, como no caso do Hugol [Hospital de Urgências Governador Otávio Lage, na região noroeste de Goiânia]. Quem é atendido nessa unidade só faz elogios. E o governo não consegue capitalizar isso.
Exato. É que não se pode fazer uma pesquisa só na porta do Hugol. Como nós atendemos parte da população e o grosso da população é atendido nos Cais, quem vai no Cais não quer nem ouvir falar em saúde pública. O prefeito de Aparecida de Goiânia, Gustavo Mendanha (PMDB), me disse que o Estado precisa ajudá-lo mais porque ele está nos ajudando em Goiânia. Eu então lhe disse que ele está ajudando é seu colega da capital, um prefeito que não dá conta de resolver sequer um problema.

Euler de França Belém — Não dá conta de contratar médico.
Isso era uma tragédia anunciada, esse desastre da gestão de Iris. Quem parasse para pensar um pouquinho veria que ele não poderia ser o prefeito. Realmente, foi uma pena.

Patrícia Moraes Machado — Ainda cabe o argumento da “herança maldita” do ex-prefeito Paulo Garcia (PT) para esse caos que nós estamos passando em Goiânia?
Claro que não. Essa história de herança maldita é para quem não está dando conta de resolver os problemas. E não foi tão maldita assim. Se foi, por que ele não mostra? É simples. Só pegar e dizer e mostrar ponto por ponto como estava. De fora, sem ter detalhes, eu vejo que a prefeitura tinha um problema de ordem operacional. Mas financeiramente, pelo menos pelo o que eu sei das pessoas que trabalharam e estiveram próximas a Paulo, elas dizem que não há isso.

Como Paulo não fez praticamente nada no final, a situação está mais ou menos equilibrada. No começo, Paulo Ortegal [chefe de Gabinete] até deu resposta a mando de Iris, quando eu disse “ainda bem que procuraram o governo do Estado para a gente montar uma equipe e ajudar a modernizar a Prefeitura”. Não falei isso para atacar ou agredir. Eu acho que isso é salutar. Se o governo estadual tem uma máquina azeitada, experiência de gestão pública bem-sucedida, no lugar de Iris eu não teria vergonha de pedir ajuda.

O que tem de mais nisso? Marconi faria isso. Se fosse o inverso, com Iris governador, um cara moderno, bem-sucedido, Marconi o teria procurado e não teria vergonha nenhuma de copiar a experiência. Mas Iris, pelo contrário, se veio algo que não foi dele, da mulher ou da filha [Ana Paula Rezende], isso não serve.

Euler de França Belém — Mas não havia um início de entrosamento entre Iris e Marconi?
Não vão se entrosar nunca, por uma razão: Iris não aceita. No passado, ele ainda tinha pessoas que sugeriam algumas coisas — era o caso de meu sogro, de Olvanir Andrade e de Flávio Peixoto —, que agregavam em termos de conhecimento e ideias. Ele ficou sozinho.

Euler de França Belém — Quem é seu sogro?
Eurico Godoi. Ele participou da implantação dos mutirões. Vou revelar por que Thiago Peixoto [deputado federal pelo PSD] saiu de lá magoado com a postura do Iris. Um dia ele trouxe um investidor da área de educação. O convidado fez uma apresentação. E ele o levou a Iris. Quando saiu, Iris chamou o Thiago e disse “você trouxe esse homem aqui para querer ensinar para nós como é que faz? Ele tinha de vir aqui para aprender! Eu não tenho de aprender nada com ninguém não.” Eu acho isso absurdo, até porque, se tem alguém que não sabe é ele mesmo, que é retrógrado e atrasado.

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Euler de França Belém — Goiânia está recebendo dinheiro da venda da Celg?
Com Iris? Não. Ele não nos procurou para isso. Quem procurou está recebendo.

Fotos: Fernando Leite/Jornal Opção

Euler de França Belém — Catalão e Formosa vão receber?
Ernesto Roller [prefeito de For­mosa, do PMDB] esteve conosco. Catalão também nos procurou. O governador esteve em Catalão, conversou com o prefeito Adib Elias (PMDB), se colocou à disposição e acabou com aquela bobagem de que Jardel Sebba não queria, de que Gustavo Sebba não queria. Não tem nada disso. Marconi disse que o que Catalão precisar o governo estará à disposição. Uma relação bem institucional e republicana.

Patrícia Moraes Machado — A aproximação política entre Iris e Ronaldo Caiado [senador pelo DEM] é de duas figuras com o mesmo perfil. Porque Caiado sempre vem criticando as ações do governo, mesmo quando avança, e o Iris não procura o governo para poder se modernizar.
Eu não sei qual é pior em termos de atraso, ranço e rancor. Nós temos três senadores caricatos que só jogam para a mídia: Randolfe Rodrigues (Rede-AP), Álvaro Dias (PV-PR) e Caiado. Qualquer posição radical que a mídia quer é só ir nos três, porque sabe que ali vai sair alguma bobagem. Qualquer assunto polêmico. O que Ronaldo fez por Goiás como deputado federal ou senador? Nada. Porque ele fica lá só brigando com todo mundo. Ele nunca usou um minuto do mandato dele em benefício do Estado. Ele só usa para promoção pessoal, para criar confusão com alguém e para sair na mídia.

É um discurso rancoroso. Veja como ele tentou atrapalhar a venda da Celg. O governador falou isso na quinta-feira. A Celg tinha de ter sido vendida há muito mais tempo. Você vai ver o que esse grupo vai investir agora. Que benefício eu tenho como cidadão goiano de a Celg ser do governo? Nenhum. Ela não vai distribuir dividendo. Pelo contrário, vai tomar a capacidade que o Estado tem de investir em uma área que a iniciativa privada pode muito mais.

Eu quero é que na hora de apertar o botão da energia em minha casa a lâmpada acenda e não tenha oscilação. Ele tentar atrapalhar a venda da Celg e essa quantidade de obras que estamos fazendo agora é até uma incoerência, porque o estatuto do partido dele e as ideias do partido dele defendem exatamente isso: privatização. E ele, incoerente como sempre, que só age e só emite opinião que ele possa de algum jeito tirar algum tipo de benefício, tentou atrapalhar de todas as formas.

Patrícia Moraes Machado — Incoerente em relação à crítica feita ao direcionamento do dinheiro para as prefeituras ao tentar desacreditar o acerto do governo?
Ele chegou a falar que os prefeitos estavam se vendendo.

Patrícia Moraes Machado — E onde está o senador para defender os médicos?
E ele é médico…

Patrícia Moraes Machado — Ele fez uma campanha para os médicos.
Como médico, Caiado poderia ir para dentro da Prefeitura e fazer essa ponte entre médicos e a administração, para buscar a conciliação. Mas Ronaldo nunca entrou em nenhum projeto com a ideia de conciliar. Não é do perfil dele. Se é para ir para a briga, ele vai brigar. Ele nunca trouxe nada para Goiás porque ele briga com todo mundo.

Basta ver a postura dos senadores Wilder Morais (PP) e Lúcia Vânia (PSB). Brigam o dia inteiro para trazer benefícios para Goiás. Não se não vê nada concreto de Caiado nesse sentido. Uma briga insana com o governador, para quem, por ele, essa situação não existiria, afirmo com toda segurança. O governador é de outro nível, pensa no Estado. É uma pena que Caiado seja senador por Goiás. Está ocupando uma vaga importante e não a usa em benefício do Estado.

Patrícia Moraes Machado — Como o sr. avalia as críticas da senadora Lúcia Vânia ao governo?
É uma relação antiga da Lúcia com o governador. Ela foi, é e vai ser sempre importante dentro desse projeto. Eu sou um dos muitos do governo que defendem essa reaproximação o mais rápido possível. Pela história da senadora e pela história do governador, na hora que eles sentarem, vão se acertar. Acho que está acontecendo um desgaste por conta de bobagem e com certeza logo isso estará acertado.

Euler de França Belém — A questão é a chapa de 2018.
A chapa de 2018 não vai ser resolvida agora (enfático). Eu não tenho dúvida alguma que uma coisa já está resolvida, que é o nome de José Eliton (PSDB) ao governo. Isso é irreversível. É o candidato da base disparadamente mais competitivo. É trabalhador, articulado, tem um discurso bom, se expressa de forma muito clara, muito transparente e é novo. José Eliton casa com nossa necessidade dentro da base. O resto é questão de acomodar. Tem vaga para vice-governador, duas vagas para o Senado, uma série de composições que poderão ser feitas.

É importante a presença da senadora nessa chapa em 2018. Ela é municipalista, tem um peso político indiscutível e essa união é boa para nós pelo peso dela e para a reeleição dela.

Euler de França Belém — Vamos pela lógica aristotélica. Se ela é importante e se o Marconi é candidato a senador, quer dizer que o Wilder está fora da chapa?
Não sei se Marconi será candidato a senador. E se ele for para um projeto nacional? Existe essa possibilidade. O que eu acho é que nós te­mos uma briga boa. Isso tem de se de­finir lá na frente para quem tiver em melhores condições de vencer e de aglutinar. Essa discussão é muito prematura, até porque não se faz uma chapa com um ano e meio de antecedência. Essas discussões são inócuas.

Euler de França Belém — A possibilidade de o governador disputar um mandato de deputado federal é ficção?
É ficção. Seria ótimo. Ele se elegeria com mais de 500 mil votos com absoluta certeza. Mas eu não acredito que ele entraria nisso. Não é o perfil dele.

Euler de França Belém — O possível projeto nacional de Marconi é uma batalha para ser candidato a presidente ou vice?
Ser candidato a presidente. Até porque o quadro está muito indefinido dentro do PSDB. Sair do PSDB é zero de possibilidade. Ele não sai e já deixou isso claro. Ele vai tentar se viabilizar dentro do PSDB. Ele quer ser presidente mesmo. Principal­mente se Lula (PT) for candidato. Aí ele quer ser candidato mesmo contra Lula.

Patrícia Moraes Machado — Por quê?
Ele acha que o Lula vai assustar muita gente, mas não a ele, em 2018. Eles têm um assunto mal resolvido. É um contencioso interessante, um debate interessante.

Augusto Diniz — Há dois fatos que rondam a relação entre Lula e Marconi: o primeiro, que ele teria alertado Lula sobre o mensalão, mas que, na época, o presidente não lhe deu atenção; e a história de o Bolsa Família ter surgido a partir do programa Renda Cidadã de Goiás. São dois fatos que incomodam o governador e que o fazem querer disputar contra Lula?
Independente de quem seja o adversário, o governador sonha ser presidente da República e acho que todos temos de embarcar nesse sonho. É a primeira vez que temos a possibilidade concreta de ter alguém de Goiás em um projeto nacional e, felizmente, ele tem idade para continuar sonhando. Se for agora, ótimo; se não, a possibilidade não está descartada. O próprio Maguito declarou que o apoiaria. Claro, se fosse o contrário, nós também o apoiaríamos. Isso é natural.

Em relação a Lula, existe esse mito de que ninguém tem coragem de enfrentá-lo, assim como não tinham coragem de enfrentar Iris Rezende em Goiás, em 1998. Podem falar o que quiser de Lula, mas ele está em 1º lugar nas pesquisas. É um candidato fortíssimo e o governador tem experiência em enfrentar bichos-papões. Pelo que conheço do governador, ele gostaria de enfrentá-lo, principalmente devido às perseguições que sofremos por parte dele em Goiás. Dentro e fora do governo, o que Lula tentou fazer conosco foi um negócio maluco. Tanto que a aproximação com a ex-presidente Dilma só aconteceu em seu segundo mandato e com muita dificuldade, simplesmente porque Lula não permitia que ela recebesse o governador.

Ela tinha recebido todos os governadores, menos Marconi. É lógico que isso aflora no governador a vontade de escolher o adversário, mas ele será candidato, se tiver oportunidade, contra qualquer do adversário.

Patrícia Moraes Machado — Marconi já conseguiu aglutinar quantos governadores no Fórum Brasil Central?
Dez governadores.

Patrícia Moraes Machado — Isso já faz parte desse projeto nacional dele?
Em política tem a hora certa. O importante é que o governador está no jogo. Da turma, acho que a única pessoa descartada é Aécio, que não soube enfrentar as acusações contra ele como deveria. Vai chegar a hora que alguém terá de discutir onde teve caixa 2 e em que circunstâncias. Aécio é acusado de caixa 2 e está numa posição complicada porque terá de rever muito do que ele falou e isso já traz descréditos. O tema caixa 2 pegará boa parte da política nacional porque era uma prática que, infelizmente, era usada. Então, acho que Aécio é carta fora do baralho.

Patrícia Moraes Machado — O sr. conhece bem o PMDB e também Iris Rezende. O prefeito pode trair o partido e apoiar o senador Ronaldo Caiado (DEM)?
De Iris eu espero tudo, inclusive traição. Agora, sinceramente, o melhor adversário para José Eliton seria Ronaldo Caiado. É claro que não existe candidatura fraca ou eleição ganha, mas José Eliton conhece bem a história de Caiado. Além disso o senador tem “teto”. Não vejo a possibilidade de Goiás eleger alguém que não aglutina absolutamente ninguém. O partido de Caiado virou pó. Ninguém convive com ele. Da mesma forma que sempre disse que Iris era uma pessoa superada em nível de ideias, acho que Caiado é alguém fora do contexto político do Executivo.

Patrícia Moraes Machado — A relação do governador com Maguito Vilela é excelente. Em contrapartida, Daniel Vilela ataca o governo constantemente. Na hora de uma disputa eleitoral, isso pode prejudicar o discurso de Daniel?
Acredito que não, porque Daniel sempre teve uma postura política independente do pai. Agora, não vejo que Daniel tenha envergadura para ser governador. É novo, mas não tem a experiência que Marconi tinha em 1998. Não se compara. Até acredito que ele possa ser o candidato pelo PMDB, mas acho que sem muita consistência política. Ainda mais depois do que anunciamos nesta semana, que será uma grande alavanca para José Eliton, porque ele efetivamente participa da gestão e tem experiência no Executivo, o que Daniel não tem. Além do mais, ele será o governador no momento da eleição em um momento em que o governo estará bem avaliado.

Euler de França Belém — Devido ao fato de Ronaldo Caiado não conseguir agregar aliados, a disputa não acabará ficando entre Daniel Vilela e José Eliton?
Sim. Acho que a tendência natural é essa, a menos que o PMDB não se acerte ou que Iris resolva entrar na candidatura. Sabemos da resistência que, sobretudo sua mulher, tem a Daniel. Nesse caso, em uma conciliação, sairia Maguito candidato. Essa possibilidade existe. Ronaldo será o candidato do “eu sozinho”. Mas, mesmo que quem vá disputar não escolha adversários, mas eu gostaria de ver uma disputa entre José Eliton e Caiado.

Augusto Diniz — Qual o tamanho do problema entre José Eliton e Ronaldo Caiado, pela forma com que o primeiro saiu do DEM e também pela maneira como o segundo tentou tirar o cargo de vice-governador de José Eliton na Justiça?
Acho que José Eliton é mais um que saiu do círculo político de Caiado, que é uma pessoa que não tem ninguém que o siga politicamente. É o candidato do eu sozinho. Ele teria dificuldades até para disputar eleição, porque não terá tempo de TV nem apoio de praticamente ninguém. Mais: não tenho pessoalmente nada contra Caiado, mas ele tem uma figura antipática na TV. Ele não agrega. É claro que, pelo momento que o País vive e pelas bravatas que ele fala — de que irá salvar tudo, que todos são desonestos menos ele etc. —, ele tenha alguma visibilidade, mas até isso tem teto.

Cezar Santos — Ele já está contra o governo Temer.
Caiado joga de acordo com o momento. Mas é preciso ser coerente, senão a máscara cai. Ao Caiado candidato, eu perguntaria: “Senhor candidato, o que o sr. fez, efetivamente, em benefício de Goiás, como deputado federal e senador?” Nada, não existe. Todos os outros parlamentares têm alguma coisa, mas ele, não.

Euler de França Belém — O pessoal da base que está fazendo pressão parece que está querendo se cacifar, se fortalecer dentro da base.
Exatamente. Ninguém está querendo sair da base, todos querem espaço. Por que ninguém vai para lá [para a oposição]? Lá tem vaga para o Senado, está sobrando, mas ninguém quer. Então, essa disputa para se cacifar é salutar e, no fim, todos vão estar acomodados. Para a chapa majoritária temos Jovair [Arantes, deputado federal líder de bancada e presidente estadual do PTB], João Campos [deputado federal pelo PRB], Balestra [Roberto Balestra, deputado federal pelo PP], Vilmar [Rocha, secretário estadual de Cidades e Meio Ambiente (Secima) e presidente estadual do PSD], os senadores Wilder e Lúcia Vânia, uma infinidade de bons candidatos. Não tenho dúvida de que teremos uma chapa extremamente competitiva e vamos ganhar as eleições. Saí deste evento no Oscar Niemeyer convicto: José Eliton será o próximo governador de Goiás.

Jayme Rincón, presidente da Agetop: “Ninguém quer sair da base, e a disputa para se cacifar na chapa é salutar” | Foto: Fernando Leite / Jornal Opção

Patrícia Moraes Machado — Como o sr. avalia a observação do deputado Thiago Peixoto, segundo a qual o governo Marconi precisava renovar seu secretariado em termos de nomes, que, na visão dele, são os mesmos?
Eu tenho carinho, respeito e admiração por Thiago Peixoto. Nesse ponto, creio que foi um comentário equivocado. Ele disse que “não dá para disputar a Copa de 2018 com a seleção de 1998”. Mas vejo que falta uma coerência dele em termos partidários, já que seu partido ocupa uma das secretarias mais importantes [Vilmar Rocha, na Secima]. No meio do jogo, quando a máquina já está azeitada, vamos trocar todo mundo para colocar gente mais jovem, que talvez nem tenha experiência administrativa? Pode­ríamos tentar fazer uma oxigenação, sim, mas os próprios partidos não permitem que se faça isso. Todos têm suas lideranças maiores e essas estão ocupando os espaços por si mesmas ou por suas indicações. Não é um processo simples.

O governador fez questão de novamente ressaltar o trabalho de Ana Carla Abrão [ex-secretária da Fazenda em 2015 e 2016]. Ela foi a má, a mulher do “não”, mas foi por meio do que ela fez que hoje podemos dizer “sim”. O legado que Ana Carla deixou é que possibilitar ter o que temos hoje. Mas, veja, houve uma renovação na própria secretaria [agora com Fernando Navarrete, ex-presidente da Celg], como também na Segurança Pública [José Eliton deu lugar a Ricardo Balestreri], há uma rotatividade natural. Mas não concordo com mudar apenas por ser novo. O conceito de “novo” é vago e muito perigoso.

Patrícia Moraes Machado — E não é por ser velho que se está ultrapassado.
Sim, é claro. Eu não tenho nada contra Iris Rezende ser velho, mas é fato que ele, mesmo quando era novo, já tinha ideias velhas. Mas veja o exemplo de Fernando Henrique Cardoso: tem alguém mais “novo”, em termos de ideias, do que ele?

Patrícia Moraes Machado — Lúcia Vânia disse que, com a Lava Jato, o governo deveria rever sua forma de fazer política, que a prática política está equivocada. Isso não torna faz tornar mais difícil a presença dela na chapa no próximo ano?
Eu digo que é preciso ter cuidado com esticar a corda, porque, mesmo que ela não arrebente, pode romper alguma coisa. Não se ganha absolutamente nada com essa discussão pública. Tudo sempre se resolveu conversando.

Cezar Santos — E quando Lúcia “mandou o recado”, o governador Marconi respondeu imediatamente, dizendo que o voto dele para o Senado será de Wilder Morais.
Patrícia Moraes Machado — Como o sr. avalia o trabalho político de Wilder, um empresário de sucesso e que chegou ao Senado como suplente?
Ele faz um trabalho excelente, é solícito e defende como ninguém os interesses do Estado, tão bem que seria bom que Caiado aprendesse com ele. Wilder fazendo o correto para ocupar o lugar na chapa majoritária de 2018.

Patrícia Moraes Machado — Mas qual o diferencial de Wilder?
Ele está virando, no bom sentido, um despachante dos prefeitos em Brasília — aliás, como Lúcia Vânia sempre fez. A senadora sempre foi municipalista. Ambos fazem o que devem fazer no Congresso. Infelizmente, Lúcia não participou do evento, deveria ter ido e seria muitíssimo bem recebida. Teria ouvido, do governador e de José Eliton, os agradecimentos e o reconhecimento pelo importantíssimo papel desempenhado por ela e por Ana Carla Abrão [filha de Lúcia] no processo de venda da Celg. Às vésperas do impeachment, Lúcia Vânia foi até Dilma Rousseff tratar dessa negociação, mesmo sendo de oposição e declarando voto pela saída da então presidente. Como eu já disse, a definição da chapa — à exceção da candidatura ao governo, já definida — vai ocorrer por conta do trabalho e da conquista do espaço. Nem mesmo a situação de Marconi está definida, porque pode ir para o projeto nacional.

Augusto Diniz — Há agora um segundo ajuste de contas para limitar gastos do governo, em trâmite na Assembleia Legislativa. Mas o governo manda proposta para recriar cargos.
Não havia muito que fazer, não tinha outra opção, essa emenda teria de ser criada. Eu sempre questionei corte linear. Em todo corte linear há o risco enorme de se cometer equívocos, ou de ter de rever algo. Em muitos órgãos, como na Agetop, por exemplo, já foi o terceiro corte de pessoal ao longo dos dois mandatos, mas sem gerar muitos problemas. Entretanto, se tomarmos como exemplo o Vapt Vupt, que faz atendimento ao público, se cortarmos o pessoal não há mais atendimento. No Detran, é a mesma coisa. Então estamos recriando esses cargos para atender uma demanda específica, porque, na realidade, não deveriam ter sido cortados.

Todos estamos vivendo um desgaste político e há certa birra com o funcionário comissionado. Eu particularmente defendo o comissionado. Acredito que devemos ter as duas formas de contratação. É óbvio que acontece de alguns comissionados ocuparem os cargos por conta de indicações políticas. Mas, no geral, mesmo esses que são indicados trabalham. Eles têm de trabalhar, mostrar serviço e fazem isso até mais que os concursados, porque correm o risco de serem demitidos. Quanto aos concursados, é claro que há aqueles que são empenhados, que têm comprometimento, são a maioria. Mas alguns sabem que, se trabalharem mais, não vão ganhar mais e que se trabalharem menos não vão perder nada — porque não pode ser demitido. Tem de ter uma mescla entre comissionados e concursados.

Augusto Diniz — Grande parte dos deputados estaduais da base não queria assumir que conheciam essa emenda. Por que o medo em assumir que sabem?
Exatamente, não há razão alguma para isso. É a mesma história da reforma da Previdência do governo federal, que estamos vivendo agora. O governo passou para os Estados uma atribuição que foi sempre dele. Tudo o que foi feito em matéria de alteração da Previdência até hoje sempre foi matéria do governo federal. Mas isso foi passado para os Estados porque chegou o um momento em que não dava mais para aprovar. Agora, o presidente Michel Temer (PMDB) quer aprovar a Reforma da Previdência porque ele é mau? Não. Se tem alguém que está confortável com isso é ele. Ele deixará o governo daqui a pouco mais de um ano. Mas Temer está tendo a coragem de assumir esse desgaste político provocado pela reforma da Previdência, que não pode se isso for postergado para daqui a sete ou oito anos, porque as pessoas terão o direito à Previdência Social, mas o Estado não terá dinheiro para pagar.

Com os deputados de Goiás, é a mesma coisa: eles têm de entender que é necessário fazer reajustes, que é necessário contratar pessoal. E as contratações não serão feitas às escondidas. Tudo está no Diário Oficial. As contratações serão publicadas depois, explicando para onde vai o pessoal: para o Detran e para o Vapt Vupt, que não podem parar. Falta essa transparência para a classe política como um todo.

Cezar Santos — A Assembleia Legislativa aprovou a federalização de seis trechos de rodovias estaduais. Quais os benefícios que essa medida trará para os goianos?
É algo que o governo federal está fazendo aqui e em outros Estados: todas as rodovias estaduais que coincidem com as federais (BRs) vão passar aos cuidados da União. No caso de Goiás, isso está mais acentuado porque são BRs que saem de Brasília. Para o governo de Goiás, a vantagem é que ficaremos livres da manutenção desses pouco mais de 500 quilômetros de rodovia e o dinheiro que seria destinado a isso poderá ser aplicado nas rodovias estaduais que continuam sob a nossa competência. De modo que poderemos melhorar o padrão das mesmas. O padrão de construção das rodovias federais é diferente do nosso, por conta da facilidade de recursos que o governo federal tem. Então, poderemos fazer um sistema de sinalização melhor para chegar ao mesmo padrão das federais. E essa foi uma iniciativa do governo federal também. Nós não perdemos nada com isso.

Marcos Nunes Carreiro — Em sua última entrevista ao Jornal Opção, o sr. disse que havia alguns problemas na GO-020. Isso foi resolvido?
Sim. Nós identificamos todos os problemas, com a ajuda de um consultor de Belo Horizonte. Há ainda dois pontos que precisam ser solucionados, fora da época de chuvas. Mas são apenas estes dois. E não recebemos a estrada até hoje. Só vamos receber quando ela estiver 100% concluída. O mesmo ocorre com a GO-060. Vamos retomar as obras, agora. Tivemos um problema lá e interditamos a obra, por iniciativa da Agetop, até que possamos fazer os reparos.

Marcos Nunes Carreiro — A obra está entregue sem receber?
Sem receber. Vamos inaugurar sem receber. A iluminação está ficando pronta agora e é melhor que seja assim, porque depois o povo já se acostuma com ela.

Patrícia Moraes Machado — O sr. vê alguma contradição entre o anúncio do programa Goiás na Frente e o ajuste fiscal que o governo continua anunciando que precisa ser feito?
Não, pelo contrário. Acredito que o que estamos anunciando hoje reforça ainda mais a necessidade de fazermos ajustes e “apertar as torneiras”. Até porque, até o final do governo, precisamos fazer outro anúncio de investimentos. Esses investimentos que estão sendo feitos com recursos do Tesouro são oriundos exatamente desses ajustes que foram feitos. O que seria o ideal? Que essa sobra de recursos de investimento acontecesse naturalmente, sempre. Mas infelizmente isso não ocorre. Nenhuma entidade de governo, no Brasil, fica com essa sobra de recursos em caixa para poder investir. O investimento se dá ou por meio de financiamentos ou por um programa específico criado. Portanto, acho que não há contradição alguma. Acredito, ao contrário, que seja uma demonstração clara do acerto que nós fizemos em promover os ajustes.

Euler de França Belém — E quanto ao saneamento básico? Há recursos destinados ao saneamento básico ou há algum programa específico para isso?
A área de saneamento básico é realmente muito onerosa. Mas têm, sim, financiamentos específicos para isso. Nos próximos dias, o governador deverá anunciar o investimento de cerca de R$ 100 milhões para a Saneago, para que possamos adiantar algumas coisas. Hoje, a Saneago ainda não tem essa capacidade de investimento. Mas as demandas são muito grandes e tem mais um detalhe: o pessoal da empresa Brookfield, que é detentora da subdelegação de quatro municípios, anunciou R$ 1,5 bilhão de investimentos na área. Quando o governo de Goiás ou a própria Saneago teria condições de fazer um investimento desses? Nunca.

E existe hoje uma indicação clara do governo federal em relação à privatização de todas as empresas de saneamento, obviamente que com a exigência da contrapartida de haver a universalização de esgoto em um período relativamente curto — em relação à água, estamos muito perto de universalizar seu acesso. A tendência natural é que as haja parceria com iniciativas privadas para a questão do saneamento, os Estados estão todos endividados, brigando para fazer um alongamento das dívidas que já estão contraídas por uma série de fatores, como a queda da receita, crescimento inercial da folha de pagamento, algo extremamente complicado. Até falei isso para alguém outro dia: “Se não aparecer alguém para colocar o dedo na ferida da folha de pagamento dos governos, tanto federal quando estadual, nós continuaremos sempre na mesma situação”. Isto porque quando se fala de ajuste, qual é a maior conta que os governos têm? A folha de pagamento, que gira em torno de 70%. Então, a margem de ajuste ou de redução de despesas gira em torno de 30%, com os quais não há muito que se fazer. Isso quer dizer que os governos gastam mal? Pode ser que sim. Mas a margem de manobras para ajustes é muito pequena.

Euler de França Belém — E na segurança pública, será investido algo?
O atual secretário de Segurança Pública [Ricardo Balestreri] está trabalhando muito com informação, tecnologia, prevenção e inteligência. Nós estamos fazendo quatro presídios e há mais um previsto para Planaltina. Então, são cinco presídios, que congregam cerca de 2 mil vagas. E esses presídios têm uma proposta diferente. O de Anápolis, por exemplo, foi “habitado” antes da hora por conta do problema que tivemos no antigo Cepaigo [hoje Penitenciária Odenir Guimarães]. Mas estamos com o presídio de Formosa bastante adiantado em termos de construção. O de Novo Gama está um pouquinho mais atrasado. A cadeia de Jataí está sendo ampliada. Isso está sendo feito com um conceito diferente: é construir presídios menores. Quando se faz presídios menores, retira-se muito daquele estigma negativo que há neles. Quando o governo estava discutindo fazer um novo presídio aqui, no lugar do Cepaigo, numa área que hoje vale uma fortuna, eu já dizia que não se podia mais construir presídios em centros urbanos. E outra coisa: os presídios se tornam escolas de criminalidade, em parte por causa de se colocar 3 mil presos onde só cabem mil. De início, o novo preso já vai ter de “pagar” para o dono da cela, vai virar “funcionário” que para cometer crime. É uma escola de bandidagem. A população, do lado de fora, vira refém. Aí reclamam que tem de colocar bloqueador de celular.

O comandante da PM esteve comigo e me contou como que essas coisas entram no presídio. É a coisa mais absurda do mundo, difícil até de acreditar no que a imaginação das pessoas é capaz para levar celular, arma e outras coisas. A partir do momento em que tiver menos gente, vai ter menos capacidade e pessoas nessa organização criminosa. Um exemplo é Itauçu, que o governo tem uma área grande que é um lugar adequado para construir um presídio agrícola. Que se coloque ônibus todo domingo fornecido pelo Estado, sem custo para as famílias visitarem os detentos. É nessa linha que nós vamos fazer cinco presídios, quatro deles já bem adiantados.
Augusto Diniz – João Dória não está se cacifando?
Estão falando que João Dória [PSDB, prefeito de São Paulo] pode ser candidato a presidente, mas acho muito prematuro. O sujeito está com 90 dias de prefeitura e não tem nenhuma ação concreta dele como prefeito.

Euler de França Belém — Mas João Dória está com 70% de aprovação.
Vejamos como essa aprovação pode se sustentar. O que Doria fez até agora para ter essa aprovação em termos do que seja palpável, definitivo? Só marketing. E não se sustenta uma administração só com marketing. Quando ele trabalhou no governo, existia uma flexibilidade de ação. Hoje, entre falar que vai privatizar e privatizar de fato, existe um longo caminho. Estamos tentando conceder rodovias há quanto tempo? A cada hora surge um entrave. Então, é preciso dar tempo ao tempo. Ele começou bem? Muito bem, mas daí a falar que ele é a pessoa para ser presidente da República existe uma distância muito grande.

Euler de França Belém — O sr. acha que a tendência é Geraldo Alckmin?
Sim. Não vejo outra possibilidade.

Augusto Diniz — A força de Aécio após as eleições foi se perdendo à medida que ele não conseguiu renovar seu discurso?
Exatamente. Até dentro do Senado ele perdeu sua posição de líder da oposição. Mais: não acho que Aécio era um candidato forte. Vimos isso depois das eleições. Aécio perdeu a eleição de 2014 em Minas Gerais. A pequena diferença de votos que ele teve em Minas foi também a diferença que ele teve nacionalmente. Então, ele perdeu a eleição no Estado dele porque ele abandonou Minas e foi para o Rio de Janeiro.

Depois das eleições, Aécio tinha de ter continuado a segurar a bandeira de oposição. Mas ele sumiu. E ele é senador e presidente de partido. Se tem alguém com tribuna à disposição sempre é Aécio. Ele poderia ser mais combativo, incisivo, e não foi. Foi murchando naturalmente.

Euler de França Belém — José Serra também está fora?
Ah, sim (incisivo). Essa briga dentro do PSDB vai depender muito da postura de Alckmin. Se não acontecer uma tragédia política daqui até lá, ele é o candidato.

Augusto Diniz — Doria incomoda Alckmin?
Não sei se chega a incomodar. É claro que alguém que chega à política agora, ganha as eleições na cidade mais importante do País contra todas as previsões e, em seguida, é cogitado para ser presidente da República e começa a aparecer bem nas pesquisas, isso vai mexer com ele. E isso é complicado porque, por mais que Doria jure para Alckmin que não será candidato, Alckmin não vai acreditar.

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Danilo Gleic Alves dos Santos

Gostei muito da firmeza de Jaime, essa entrevista demostra total conhecimento com governo e conhece os problemas do estado!! Continue sempre focado e determinado, parabéns ao jornal por nós esclarecer diversos pontos!!!