“Empresa beneficiada com o Produzir deveria anunciar em Goiás”

Um dos maiores publicitários brasileiros e um marco na história da propaganda goiana, empresário resume seu percurso e diz que é preciso ser otimista sempre para superar todas as crises

Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

A história de Zander Campos se confunde com a da Cannes Publicidade. E o percurso da Cannes condensa em si muito da história de Goiânia. O senhor de 74 anos que a criou possui até hoje, no olhar e nas palavras, a energia vital do rapaz que recusou a carreira tranquila e garantida como servidor nomeado do governo estadual para investir no próprio sonho. Depois de uma visita ao governador Juca Ludovico por recomendação de seu tio, ele voltou e lhe disse: “Não quero ser funcionário público.”

A partir daquele momento, ainda menor de idade, o jovem Zander Campos faria a própria história. E no ramo da publicidade. Desde a década de 50, quando fundou a Cannes, ele saiu à procura da expansão do sonho pessoal. Colocou sua empresa com trabalhos em praticamente todo o Brasil, com realizações em todas as áreas, seja no setor público ou na iniciativa privada.

Hoje, aos 74 anos e com seis décadas de trabalho em publicidade e propaganda nas costas, Zander lamenta apenas que os brasileiros não sejam mais empreendedores. Se aumentássemos esse número de pessoas que pensam em empreender em 1.000%, se em vez de uma pessoa fossem dez… Mas são muito poucos os homens que dedicam e têm interesse em fazer algo pela comunidade”, observa o empresário, em cuja história tem um pouco de muitos empreendimentos portentosos da cidade, seja um clube social como o Jaó ou a vinda de uma grande indústria, como a Antarctica, para o Estado. Em longa e rica entrevista ao Jornal Opção, ele conta parte dessa história, que já preencheu também livros – ele é autor de vários e também um dos grandes beneméritos do Lions de Goiânia.

Euler de França Belém – Como foi o início de seu trabalho com uma agência de publicidade em Goiânia?
A Cannes vai fazer 58 anos, vim para Goiânia em 1956. Sou de Rio Verde, mas morei em Itumbiara e fiz meu ginásio [equivalente hoje à segunda fase do ensino médio] em Tupaciguara (MG). Fiquei dois anos em regime de internato e outros dois em semi-internato. Ao chegar a Goiânia, meu tio Maurílio Félix de Souza era diretor do Departamento da Receita, da Secretaria da Fazenda, cujo secretário era Felipe Santacruz, de Rio Verde. Meu tio tinha uma editora, a Companhia Editora Social, que editava um jornal chamado “Diário da Tarde”.Circulavam também “O Popular” e a “Folha de Goyaz”. “O Popular” defendia o PSD, dentro de sua linha editorial. Mas queriam um jornal que só defendesse o PSD, exclusivamente para isso.

O governador era José Ludovico de Almeida, o Juca Ludovico. Meu tio queria me nomear assessor da Secretaria da Fazenda. Então, ele me chamou ao Palácio das Esmeraldas. Chegando lá, ele me apresentou José Cruciano de Araújo – que viria a ser reitor da Universidade Federal de Goiás e deputado –, que era o chefe de Gabinete de Juca. Ele me disse que meu decreto de nomeação estava pronto. Eu era menor, tinha 16 anos, e fui apresentado ao governador, que ressaltou o fato de eu ser novo. Ele disse “precisamos de jovens aqui no governo”. Eu fiquei apenas olhando para ele.

Na época, o expediente da secretaria era só à tarde, de meio-dia às 17 horas. Eu morava com meu tio e, então, voltei para casa. Quando ele chegou, eu lhe falei: “Não quero esse emprego, não.” Ele me disse que eu estava louco, que todo mundo gostaria de ter um emprego daquele, mas eu resisti. Minha mãe chegou a vir de Itumbiara para conversar comigo, também dizendo que eu estava louco, que tinha de aceitar. Falei a ela que eu não queria ser funcionário público. Ela me perguntou o que eu iria fazer e eu disse “não sei, estou novo, tenho tempo para decidir ainda”. Fiquei no jornal e, então, abria a gráfica, varria o local, atendia viajantes, fazia esse tipo de serviço.

Marcos Nunes Carreiro – E seu envolvimento com a redação, como se deu?
Quando eu vi que gostava de escrever, estudava no Atheneu Dom Bosco. Com Mário Roriz e Batista Custódio, fundei o “Jornal Auriver­de”. Decidimos fazer uma coluna estudantil no “Diário da Tarde”. Então, me puseram para fazer a cobertura da editoria de Polícia. Era o maior “abacaxi” que existia. Nosso diretor era Adory Otoniel da Cunha, que morreria em um acidente aéreo durante a campanha de Mauro Borges, um grande jornalista, sujeito muito inteligente. Mandaram-me então para fazer a cobertura da Assembleia Legislativa. Eu entrevistava os deputados e fazia aquela rotina. Percebi que só aquilo não me satisfazia. Ao mesmo tempo, constatei que o jornal estava tendo um prejuízo de 1,3 mil cruzeiros por mês. Falei ao meu tio que tinha uma ideia: criar uma página de classificados, como tinha na “Folha de Goyaz” e no “O Popular”. Em três meses, com meu trabalho de visitar médicos, dentistas, advogados e empresários, o jornal já estava dando lucro de 500 cruzeiros mensais, porque eu enchia o caderno com uns 40 anúncios.

Foi nessa época que eu conheci Cunha Júnior, que era locutor da Rádio Clube de Goiânia e atuava também como repórter, inclusive na “Folha de Goyaz”. Ele era também o que se chamava de corretor de publicidade. Ele me disse: “Olha, com publicidade, você tem de ganhar uma comissão de 20%”. Depois de alguns meses, fui acertar com meu tio, com quem eu morava, essa parte dos anúncios. Achei que receberia uns 3 mil cruzeiros. Ele me disse, “olha, como você é meu sobrinho, vou lhe pagar 3%”. Recebi algo em torno de 980 cruzeiros. O salário mínimo era de 50 cruzeiros, então o que eu tinha recebido era um bom dinheiro. Por esse tempo apareceu também Aloísio Neves, também jornalista, que, em uma segunda etapa da montagem desses classificados, nos ajudou a aumentar o volume de anúncios. Tomei o montante que eu tinha recebido e fui até a loja Novo Mundo. Lá, eu conhecia o sr. Luziano Martins Ribeiro, que era de Tupaciguara, onde teve uma lanchonete. Comprei um guarda-roupa, uma mesa, duas cadeiras, uma cama e um colchão. Aluguei um quarto para eu morar, na Avenida Araguaia, em um sobrado perto da Igreja Sagrado Coração de Maria. Comuniquei ao meu tio que estava me mudando. Meu tio ficou indignado, minha mãe de novo veio de Itumbiara para contestar minha decisão. Eu disse a ela que já tinha aprendido muito e que abriria uma agência de publicidade. Até aqui eu provei a vocês que não sou doido (risos).

Euler de França Belém – Nem doido nem bobo.
(risos) Exato. Então, a partir daí, eu disse a meu tio que minha comissão sobre os anúncios seria de 20%, que não trabalharia mais por 3%. Foi então que fundei a Cannes, em janeiro de 1957. Eu era menor e, então, fui emancipado.

Euler de França Belém – Como o sr. chegou ao nome Cannes?
Fomos discutir o nome da agência. Aloísio, muito conservador, sugeriu que colocássemos “Campos & Neves”. Eu lhe disse, “não, isso é nome de firma de português, não vai dar certo” (risos). E à época era famosa a Atlântida Cinematográfica, companhia de cinema em que trabalhavam Grande Otelo, Oscarito, entre outros. Mas falei que Atlântida era um continente que submergiu, então não daria certo. O jeito era pensar outra opção. Decidimos então fazer a fusão dos nomes Campos e Neves. Daria algo como “Camnes”, o que, com esse “m” junto ao “n”, não era muito eufônico. Teríamos a opção de “Canes”, mas pensariam que estaríamos querendo escrever “Cannes”, como a cidade francesa, de forma errada. Então ficou Cannes, com dois “n”, significando “Campos” e “Neves”, com a eufonia no nome. Nascia en­tão a Cannes Publicidade. Abri­mos a firma em janeiro, mas o registro saiu três meses depois. Começamos a operar em 21 de abril de 1957.

É bom ressaltar que Brasília não existia ainda naquele momento. Começamos a trabalhar com muita dificuldade. Precisávamos de uma fonte de receita e, então, criamos uma pequena revista, chamada “Cine Revista Cannes”, que circulava uma vez por mês de forma gratuita, nas salas de cinema, com a programação dos filmes, fotografia dos atores etc. Não havia TV ainda, era o cinema que mandava. Era uma tiragem grande, distribuída aos fins de semana. A gente distribuía pela Empresa Teatral Paulista, que geria o Cine Casablanca, o Cine Goiânia, o Cine Goiás e Cine Eldorado, em Campinas. Isso funcionou por um ano e meio, até 1959. Decidimos passar a revista para sempre e cuidar só de propaganda.

Frederico Vitor – Aí então, o sr. montou o primeiro escritório para a Cannes?
Nosso primeiro escritório foi montado na Rua 24, em frente ao Cine Santa Maria. Ficamos com essa sala uns dois anos, depois nos mudamos para a Avenida Anhanguera com a Araguaia, no Edifício Cidade de Goiás, com entradas pelas duas vias. Aí ficamos de 1960 a 1965. Este edifício pertencia ao médico Helio Seixo de Brito, ex-prefeito de Goiânia. Nós tínhamos feito para o sr. Orlando de Morais Lobo, que era dono do prédio em que estava nossa sala, o lançamento de um edifício na Avenida Goiás, abaixo da Rua 4. Ele me disse que me pagaria com uma sala. Então, fiquei com uma sala nesse prédio, o Edifício Flávio, a sala 303, que é nossa até hoje.
Em 1968, compramos a sala ao lado, a 304. Em 1975, construímos nossa sede, onde estamos até hoje, na Rua 17-A, no Setor Aeroporto. Na época, eram 800 metros quadrados de área construída, e hoje temos o dobro. Fomos para lá em 29 de dezembro de 1975, portanto, há mais de 39 anos. Percebíamos, já em 1973, que Goiás estava pequeno para nosso negócio. Atendíamos na época a Joialar, a Ultragaz e a Elmaq, que depois se tornou Carlos Saraiva. Eram as principais contas do varejo da capital. Vimos que precisávamos de crescer. A antiga Sotreq, que revendia tratores Caterpillar e tinha lojas aqui, em Uberlândia e em Brasília, era nossa cliente.

Frederico Vitor – E sobre outras contas, naquele momento?
Outro cliente importante era o Guaraná Imperial, de Nelson Guimarães, cunhado de Jaime Câmara e que seria secretário de Finanças de Goiânia na gestão do prefeito Chiquinho de Castro. Fizemos campanha para aumentar as vendas do refrigerante, mas ele quis sair do negócio quando o empreendimento cresceu muito. Então, Benigno de Goiás Pinheiro – irmão de Hailé, Edmo e Belarmino de Goiás Pinheiro – veio de Inhumas e comprou o Guaraná Imperial. Ele nos disse que não queria ficar só com o guaraná e, então, criamos o sabor laranja, fácil de produzir, com o nome de Gut Gut. Foi um sucesso. Tanto que a empresa não aguentava engarrafar um por um. Era necessário industrializar o processo. Benigno foi a Uberlândia e comprou da Zago, empresa que fabrica o Guaraná Mineiro – um dos melhores guaranás, por sinal, de sabor excelente –, umas máquinas usadas, que enchiam 500 garrafas por hora. Já melhorava, mas as vendas cresciam.

Então, falei: “Vamos esquecer o Gut Gut e vamos partir para a Crush [então a marca líder no País em refrigerantes de sabor laranja, de propriedade da Pepsi].” Como fazer isso? Localizamos a regional deles no Brasil, no Rio. Benigno e eu fomos à capital carioca e conversamos com o sr. Fernando Ríos, um argentino que dirigia a Pepsi-Cola no Brasil. Levamos a proposta de passar do Gut Gut para a Crush. Disseram que poderiam financiar a indústria com cinco anos de prazo, com ampliação de acordo com a planta deles, aprovada nos Estados Unidos. A Refri­gerantes Imperial passou então a engarrafar a Crush. O negócio foi crescendo.

Marcos Nunes Carreiro – E fora de Goiás, a Cannes se expandia?
Paralelamente a isso, a Cannes ganhava outros clientes. Em 1970, abrimos uma filial em Cuiabá, onde tínhamos muitos clientes e um mercado promissor, com influência na região. Fizemos muita coisa com Júlio Campos, Frederico Campos e outros. Foram uns 25 anos muito bons em Mato Grosso e estamos até hoje lá, com sede própria.

Na década de 70, começamos a entrar no mercado do Nordeste, por Piauí e Maranhão. Lá havia ainda uma propaganda muito antiquada, com poucos recursos. Era meados de 1972. Não havia produtora na região, o que já havia por aqui. Começamos a produzir para lá, começando a atender também o governo do Piauí e as prefeituras de Teresina e São Luís. Depois disso fomos para o Pará, Amazonas, Acre, na Região Norte. A seguir, operamos em Fortaleza, onde trabalhamos um bom tempo; depois, Alagoas, Sergipe e alguma coisa também na Bahia. Foram uns 20 anos de Nordeste, de 1971 até 1993. Foi também nosso maior lucro.

Euler de França Belém – Um capítulo à parte é a ida da agência para Brasília. O que o sr. conta sobre isso?
Nossa história com Brasília começa antes mesmo da cidade. Em 1958, víamos que a capital federal seria um grande mercado. Tínhamos aqui a Madremassas, a Emegê, a Crush e a Caninha Tatuzinho, que con­seguimos em 1959 e foi nossa cliente por 12 anos. Para explorar Brasília, abrimos um escritório pe­queno na avenida central do Núcleo Bandeirante. Fazíamos propaganda pelo alto-falante. Era um sistema de cabeamento que cobria seis quilômetros de fio, um empreendimento do padre Roque, um salesiano que tinha ido daqui do Atheneu Dom Bosco para lá. Resultado: fomos pioneiros em Brasília e pegamos grandes contas, como Itabrás, Moplan, Fofi, Bi-Babo, Slaviero, entre outras, uma clientela muito boa.

Euler de França Belém – O sr. chegou a conhecer Juscelino Kubitschek?
Sim, uma pessoa extraordinária. Eu o conheci na campanha política quando ele era governador, visitando Tupaciguara. Juscelino foi almoçar com um médico seu amigo, um baiano que tinha sido seu contemporâneo na faculdade. Almocei com eles na casa desse médico. Anos mais tarde, quando JK estava deixando a Presidência da República, Pedro Ludovico ofereceu-lhe a oportunidade de ser senador por Goiás. O jornalista Eliezer Penna, eu e outras pessoas o ajudamos a fazer matérias para a campanha de senador. O curioso é que, como não havia vaga para o Senado, Pedro Ludovico ofereceu um cartório para o então senador Taciano Gomes de Mello, de Lu­ziânia, para que ele renunciasse ao cargo. Taciano renunciou e abriram a vaga. Tinha de fazer a eleição para Juscelino, momento em que trabalhamos na campanha. Nesse momento, ele passou a vir muito a Goiânia. Era o ano de 1960 e fundamos a Confederação Latino-Americana de Publicidade, em Lima. Pedi a JK, ainda presidente, para fazer uma mensagem para que eu a levasse até o Peru, sobre essa confederação. Ele chamou Oswaldo Penido, que era chefe da Casa Civil e disse para eu o procurar no Palácio do Planalto na semana seguinte. Eu tenho essa mensagem até hoje comigo, publicada em meu dicionário. Essa ida a Lima foi minha primeira viagem internacional.

Euler de França Belém – E o sr. já dominava alguma língua?
Eu tinha um portunhol, e muito ruim (risos). Depois fiz dois anos de espanhol, mais dois de inglês e hoje falo também um pouco de francês. Ocorre que, ao chegar a Lima, no aeroporto vi um sujeito com um cartaz escrito “señor Zander Campos”. Fiquei olhando aquilo, meio encabulado. Até que alguém me chamou, dizendo que era da embaixada brasileira e que eu era convidado de honra. Levaram-me para o hotel e à noite houve a instalação dos trabalhos. Eu queria ler a mensagem de Juscelino que estava comigo.

Fiquei ao lado do cônsul e me colocaram como o representante oficial de Juscelino Kubitschek. Na hora, me passaram a palavra e eu li a mensagem, a única que tinha sido enviada por um presidente da República.

"Juscelino tinha um charme muito forte. Era uma figura realmente adorável e admirado pelas mulheres”

“Juscelino tinha um charme muito forte. Era uma figura realmente adorável e admirado pelas mulheres”

Euler de França Belém – JK era muito sedutor?
Juscelino tinha um charme muito forte. Era uma figura realmente adorável e muito admirado pelas mulheres.

Euler de França Belém – E como continuou sua trajetória em Brasília?
Participamos daquele início e, quando Brasília foi inaugurada, já havia três anos que estávamos operando no Núcleo Bandeirante. De lá, mudamos para o Edifício das Pioneiras Sociais, um dos primeiros inaugurados na capital federal, em fins de 1959, que administra o Hospital Sarah Kubitschek.

Frederico Vitor – E que mercados a Cannes fez e manteve?
Entramos em Palmas desde 2011 e estamos em Belo Horizonte há quatro anos.

Frederico Vitor – O sr. também teve uma fase como colunista social, não?
Sim. Depois de crônica estudantil, ainda no “Diário da Tarde”, passei para crônica social. Em 1959, o jornalista Lourival Batista Pereira escrevia no jornal “O Popular” onde fazia a coluna “Flash Sociedade” quando sua noiva, de Formosa e que era miss, morreu, vítima de leucemia. Ele, desgostoso, disse que não escreveria mais sobre coluna social. Jaime Câmara, que era meu amigo, me convidou para escrever durante dois anos a coluna “Desfile Social” e também para assumir a diretoria de Publicidade e Relações Públicas, no mesmo período. Eu tinha feito a campanha ao governo de José Feliciano (PSD), que ganhou a eleição e teria um mandato tampão de 1959 a 1961.

Feliciano me chamou ao Palácio para me convidar para ser assessor de imprensa, com Aloísio Neves, meu sócio, como assessor de relações públicas, além de Eliezer Penna, como secretário de Interior e Justiça. Aloísio topou na hora e foi assessor durante uns cinco anos, mas eu disse ao governador que continuaria na agência. Fizemos também, a seguir, a campanha para Mauro Borges, quando acabava o mandato de José Feliciano. Foi criado na época um jornal em Goiânia chamado “Diário do Oeste”, com um grupo de 15 jornalistas, entre eles eu e Jávier Godinho, e que era de Waldemar Gomes de Melo. Compraram uma rotativa em São Paulo e ele circulava em azul e preto, o que durou durante uns três ou quatro anos.

Euler de França Belém – Como era a relação de Pedro Ludovico com os publicitários?
Pedro Ludovico, no período em que passei a morar em Goiânia, não ocupou nenhum cargo executivo. Era um líder político, que tratava os jornalistas muito bem, embora não gostasse de dar entrevistas. Era educado, porém seco. Em 1958, quando Goiânia completava 25 anos, ninguém editava livros aqui, o que se fazia em São Paulo. O Jornal Opção já deu uma matéria, anos atrás, que a Cannes foi quem editou os primeiros livros na capital. Nós, realmente, editamos “Goiânia Documentada”, sobre os 25 anos da cidade, na época por Regina Lacerda e Oscar Sabino Júnior; “Súmula da História de Goiás”, de Décio Jayme, que era diretor do Departamento de Cultura da Secretaria da Educação. Esses foram os dois primeiros livros editados pelo Estado, em 58 e 59.

Foi por essa época que conheci Pedro Ludovico. Disse ao governador Juca que seria interessante que, para os livros, o ex-governador fizesse uma mensagem de próprio punho. Fui então ao Rio de Janeiro, onde Pedro me recebeu em seu apartamento no Catete. Ele me disse “Jovem, você é de Goiás, de sobrenome Campos? Então é de Rio Verde?” Eu disse que sim e ele me perguntou se eu era parente de Paulo Campos – de quem eu sou primo – e de Ursulino, meu tio. Ele me disse “então você tem de ser deputado, estamos precisando de deputados jovens”. Eu disse que ficaria honrado, mas que eu não tinha tempo, era meio complicado. Ele disse que era para eu pensar melhor, e a conversa ficou por aí. Mas, enfim, ele fez a mensagem de próprio punho, que está nas primeiras páginas de “Goiânia Do­cumentada”, sobre sua ideia para os 25 anos de Goiânia.

Depois, o encontrei mais umas duas vezes e, novamente, ele me cobrou: “Como é que é, você está pensando naquele negócio (a candidatura)?” De novo eu saí pela tangente: “Pois é, dr. Pedro, eu estou pensando, mas é muito complicado…” (risos).

Euler de França Belém – Quem eram os criadores publicitários daquela época?
Não tinha. A campanha de Mauro Borges teve o acompanhamento do jornalista Otoniel da Cunha, que escrevia editoriais e artigos, e defendia o governo no “Diário da Tarde”.

Euler de França Belém – Não havia a figura do marqueteiro, então?
Não, não existia. A palavra “marketing” surge em Goiás em 74 ou 75.

Euler de França Belém – Mas como era na iniciativa privada?
Walter Menezes foi um pioneiro, também. Ele era representante do Serviço de Informação Brasil-Estados Unidos em Goiás. Ele distribuía os filmes que esse serviço repassava. Então, criou a Walter Menezes Publicidade e tinha seus clientes. Naquela época, o rádio predominava. Foi criada, então, a Baniff Propaganda, que era de propriedade de Fued José Nassif e Jeová da Silva Baylão. Eles compraram duas horas no rádio e encheram o tempo de anunciantes. O radialista Moraes Cesar também comprava horário, para o programa “Nossa Fazenda”. Silvio Medeiros tinha a SM Produções juntamente com Norma de Alencar, sua mulher.

Euler de França Belém — Quem o sr. admirava como o melhor texto e a melhor criação?
Quando entrei no mercado, não havia curso superior de Propaganda e Publicidade. Fiz um curso técnico no Rio de Janeiro, de Propaganda, Publicidade e de Promoção de Vendas – o marketing, antigamente, era Promoção de Vendas. Desde cedo admirava David Ogilvy, o pai da criação em propaganda e marketing, e sempre me baseei nele. No início, eu mesmo era o redator e tinha de redigir e fazer o plano de mídia. Tudo era eu quem tinha de fazer, porque não tinha funcionários, mal tinha uma secretária para atender o telefone.

conexao.qxd“Fui amigo de governadores sem precisar frequentar palácio”

Marcos Nunes Carneiro — Em qual ano o sr. fez esses cursos?
Em 1959 e 1960. Era um curso de três meses. Ia, ficava três dias e voltava. Não podia ficar direto, pois tinha de cuidar da vida.

Frederico Vitor — O sr. fez a campanha eleitoral de Mauro Borges. Como foi este período?
O cliente era o PSD, o Partido Social Democrático, que funcionava, em um sobradinho na Rua 1 do Centro, próximo ao prédio da OAB. Nosso jingle era: “Filho de peixe, peixinho também é, agora chegou a vez, vamos eleger Mauro Borges para governador de Goiás”. Naquela época, era muito comum aproveitar marchas carnavalescas para fazer jingles. Campanha era em alto-falante, a propaganda eleitoral gratuita começou após o regime militar. Mauro Borges era um sujeito educado, muito inteligente e preparado. Ele criou o Plano Mauro Borges, chamado Plano MB, que previa o desenvolvimento de Goiás em várias áreas, como a agrícola, industrialização, mineração e cultura. O programa tinha 16 metas, mas o principal era o problema fundiário de Goiás, que tinha de ser resolvido. Durante muitos anos, tanto Goiás quanto Mato Grosso eram Estados muito mal referenciado por conta de problemas relacionados às escrituras. Mauro criou, na época, o Depar­tamento de Terras e Coloni­zação. Todo o patrimônio do Estado era desse órgão, inclusive alguns lotes em Goiânia.

Frederico Vitor — Mas por que Mauro foi cassado pelos militares, já que ele era um oficial do Exército, formado na Escola Militar da Praia Vermelha?
O general Castelo Branco era padrinho de turma e de casamento de Mauro. Ele fez de tudo para segurá-lo no governo do Estado. Aquela Cadeia pela Legalidade entre Leonel Brizola [governador do Rio Grande do Sul], em Porto Alegre, e Mauro Borges, aqui em Goiânia, irritou os militares. Eles deram chances de Mauro Borges fazer algumas ações, como demitir do governo o padre Rui Rodrigues, além de Ary Demóstenes e Valteno Cunha, todos comunistas fichados, do PCB. Valteno era deputado e líder do governo, Ary era secretário do Governo e o padre Rui Rodrigues, se­­­cretário da Educação. Mauro Borges tinha de demiti-los, mas estava contrariado e disse que cairia de pé. E a coisa foi feia aqui em Goiânia, enviaram tanques e aviões vindos de Brasília.

Euler de França Belém — Como era a relação de Mauro Borges com a imprensa. Dizem que era uma relação muito tensionada.
Os militares, naquela época, queriam que todos falassem bem deles. E o jornal que falava bem do governo era “O Popular”, que sempre foi mais ligado à estrutura governamental do que à oposição. Mas a “Folha de Goyaz” fazia críticas duras ao governo. Luiz Carvalho e Cunha Júnior eram críticos inveterados. O jornalista Elton Costa Campos também era crítico e tinha uma linha independente. A “Folha de Goyaz” pertencia aos Diários Associados, do jornalista Assis Chateaubriand. Tinha um aspecto feio, mas vendia igual água. Os anúncios iam todos para lá. Para conseguir um anuncio para “O Popular” era muito difícil, por causa da tiragem, que era reduzida. A tiragem da “Folha” era muito maior. Quando a imprensa criticava o governo, Mauro virava uma onça. Quando ele ficou contra a Revolução Militar, aí a imprensa veio mesmo com duras críticas. Eles queriam que Goiás cedesse, para que o Estado não fosse prejudicado, caso houvesse intervenção local. Mas foi o que aconteceu, Meira Mattos e, depois, Ribas Júnior assumiram o governo em seguida.

Euler de França Belém — Como foi a Cannes durante a ditadura? Ela sobrevivia mais com os anúncios do setor público ou privado?
Do setor privado, no início. Mas da década de 1980 a 1990, nós tivemos um faturamento mais alto proveniente do setor público do que do privado, em função dos contratos que tínhamos no Nordeste. Meu faturamento era de 80% do setor público e 20% do setor privado, nessa época. Depois, mudamos nosso perfil, a partir da década de 90, voltando ao setor privado para que pudéssemos crescer.

Euler de França Belém — Como foi, para a publicidade em Goiânia, o período do milagre econômico do presidente Emílio Garrastazu Médici? Houve muito dinheiro correndo?
Estamos falando de 1969 a 1973, quando o mercado estava muito aquecido. Foi um período em que ganhamos muitas contas no setor privado. Foi uma época em que pegamos o Banco do Estado de Goiás (BEG) e que, também, as vendas da Caninha Tatuzinho cresceram muito. Também ganhamos um cliente novo, a Antarctica, que merece uma história. Nós fomos até Ribeirão Preto, na fábrica da Antarctica, e, enquanto a cerveja aqui vendia de 10% a 15%, o guaraná vendia 20%. Fui à fábrica e falei com o sr. Silvio Bertoncini, que era o diretor de vendas. Disse a ele que queria pegar a campanha do Guaraná Antarctica em Goiás. Ele me passou o endereço de seus 15 distribuidores no Estado. Eu visitei cada um deles, propondo fazer uma campanha de publicidade na área esportiva. Conversei sobre a possibilidade de se fazer um caixa, proporcional à venda de cada um. Fiz um plano de mídia para atacar o rádio em programas esportivos. Voltei a Ribeirão Preto atrás de verba para a campanha, mas isso foi vetado, porque naquela época Goiás era um mercado não muito grande, não tinha verba suficiente para bancar uma campanha aqui. Entretanto, fui autorizado a fazer por conta própria uma campanha em Goiás. Fizemos uma reunião no Hotel Bandeirante com um inspetor da Antárctica, Altino Nogueira, e com todos os 15 revendedores de Goiás.

Frederico Vitor – E deu resultado todo esse investimento?
Eles aprovaram o negócio e tocamos a campanha, criamos a Jornada Esportiva Antárctica. Criamos a equipe ABC, com o radialista Baltazar de Castro como locutor esportivo. ABC porque era Antárctica, Baltazar e Cannes (risos). Fazíamos o programa aqui e havia mais 12 emissoras de rádio em cadeia. Em Anápolis, Adhemar Santillo [que chegou a ser prefeito da cidade] era nosso locutor, junto com Hamilton Fogueira. Amir Sabbag, Mané de Oliveira e Ledes Gonçalves [cronistas esportivos] também eram dessa época. Compramos o espaço inicialmente na Rádio Difusora e fizemos a Jornada Esportiva. Tivemos divergências com a Difusora e fomos para a Rádio Anhanguera e, depois, para a Rádio Brasil Central. Ficamos 12 anos com esse negócio. Quando terminamos esse programa, por volta de 1978, a Antarctica decidiu abrir uma fábrica em Goiânia, no Setor Balneário Meia Ponte. Mas a Antarctica veio para cá porque a Cannes ajudou. Nossa influência foi tão grande que o vereador Eli Mesquita, que era polêmico, udenista, entrou com um projeto reconhecendo o trabalho da Cannes, dando-nos isenção do ISS [Imposto sobre Serviços] para a agência. O prefeito Hélio de Brito vetou o projeto, mas a Câmara derrubou o veto.

Euler de França Belém – Quais políticos mais gostavam de publicidade?
Os ex-governadores Leonino Caiado e Ary Valadão anunciavam muito. Na época de Leonino, começamos a pegar a conta do governo pela agricultura. Fizemos muitas exposições agropecuárias. Em seu governo havia uma frase: “De Goiás só sai o berro.” Isso significava o seguinte: quando o boi saía de Goiás vivo, ninguém pagava ICMS. Então, Leonino começou a estimular a criação de frigoríficos, ou seja, o abate em Goiás, porque a carne, quando deixava o Estado, precisava pagar ICMS, o que não ocorria com o boi em pé. E, com a atuação em exposições, conseguimos entrar no mercado do Nordeste.

Euler de França Belém – O sr. foi amigo pessoal de algum governador?
Nunca fui de frequentar palácio. Fui amigo de José Feliciano Ferreira; de Mauro Borges – com quem encontrava muitas vezes; de Otávio Lage, fui amigo e sou da família dele até hoje. Depois veio Irapuan Costa Junior, que é meu amigo, mas sem intimidades maiores. Também sou amigo de Iris Rezende, de Maguito Vilela. Ary Valadão, também. Nós tínhamos a conta da ação social. Fizemos um trabalho notável com a primeira-dama, dona Maria Valadão, que fez muito naquela época. Depois veio Marconi Perillo. Não digo que Marconi gosta de publicidade, mas que ele sabe usá-la com inteligência. Veja, por exemplo, o caso de 2012 [Operação Monte Carlo] em que nada foi provado e ele saiu “por cima”.

Euler de França Belém – O governador Marconi Perillo está entrando no cenário nacional. Qual conselho o sr. daria para ele, como publicitário experiente?
O mais importante de tudo: ele deve realizar uma estratégia de governo consistente nas áreas de educação e saúde, que são e serão os desafios principais do País. Outro ponto: a juventude. Ele precisa cuidar disso, pois o jovem de hoje é o homem de amanhã. Um candidato precisa ter esse respaldo de ações, além de lideranças políticas compatíveis para sustentar uma inovação. O que falta ao Brasil é essa inovação que existe no governo de Marconi – tanto que ele é copiado em vários pontos. E esses trunfos poderão ser usados para projeção nacional. É preciso ter uma base para poder se projetar. Quem projeta algo sólido entra com um feedback muito respeitável. O fato de não ter ainda a crise hídrica por aqui pode ajudá-lo. Agora, tem os candidatos que ele precisará bater em seu partido: Geraldo Alckmin [governador de São Paulo], Aécio Neves [senador por Minas Gerais] e Beto Richa [governador do Paraná]. Alckmin é forte e bom de voto, mas só em São Paulo.

Euler de França Belém – A impressão que o prefeito Paulo Garcia (PT) nos passa é que ele não é tão bom quanto pensa, nem tão ruim quanto está sendo mostrado. Como resolver essa dualidade aqui em Goiânia?
Paulo Garcia é uma grande pessoa e está fazendo bom trabalho na Prefeitura. O que lhe falta é divulgar mais suas obras e explicar mais, para mostrar o que faz à sociedade. A população não sabe a importância das obras em execução, como o projeto Macambira-Anicuns, que é uma obra vital e monumental. São 23 quilômetros de extensão e mais de 140 bairros beneficiados, que tivemos oportunidade de conhecer in loco recentemente.

Euler de França Belém – O sr. tem uma ligação com o Lions Clube, que tem um hospital de oftalmologia. Como é esse trabalho?
Eu entrei no Lions Goiânia Sul há quase 45 anos. Trabalhamos em várias frentes. Inicialmente temos a Fundação Educacional de Goiás, que é uma entidade criada em 1969 por várias pessoas: Índio do Brasil Artiaga – que foi prefeito de Goiânia –, Wilson Honorato Rodrigues, Hailé Pinheiro, Orlando de Morais Lôbo, Francisco Sepúlveda, Luiz Francisco dos Santos e vários outros empresários. Temos uma creche, a Tia Bely em convênio com a Prefeitura de Aparecida de Goiânia; o Colégio Lions, no Crimeia Oeste, com aproximadamente 800 alunos; o Centro de Educação Profissionalizante Zilma Carneiro da Silva; o Colégio Governador Joaquim Sobrosa, no Setor Andreia Cristina, próximo ao Garavelo Sul, também com cerca de 800 alunos; e criamos a Fac-Lions há 12 anos, que é um projeto de ensino superior, que nos faltava. O objetivo da fundação é preparar o homem para os desafios da vida. Na faculdade, temos Turismo, Administração, Publicidade e Propaganda e Direito.

Marcos Nunes Carreiro – São quantos alunos?
Incluindo a pós-graduação temos aproximadamente 2 mil alunos. E estamos nos preparando agora para criar novos cursos. Vamos requerer, no Ministério da Educação, cursos tecnológicos, de dois anos. Um aspecto interessante é que temos o Programa de Profissionalização da Fac-Lions, em que temos 40 cursos distribuídos em nove eixos profissionais, como informática, meio ambiente, gestão do trabalho, entre outros. Então, a pessoa pode fazer um curso superior em apenas um ano, estudando aos sábados.
A outra entidade do Lions, de que sou presidente, é a Fundação Banco de Olhos, um projeto dos 15 Lions Clubes de Goiânia. Assumimos em 1983 e, hoje, atendemos em média de 800 a mil pessoas por dia. Somos um dos maiores centros de atendimento oftalmológico de Goiânia. Temos 45 oftalmologistas trabalhando, 140 funcionários e exames anuais de residência médica. São 18 vagas – 6 para R1, 6 para R2 e 6 para R3. Tivemos o concurso anual, recentemente, com uma média de 180 candidatos para cada conjunto de seis vagas. Ou seja, gente do Brasil inteiro. Isso porque nossa unidade foi reconhecida pelo CBO [Conselho Brasileiro de Oftalmologia] e temos o certificado do MEC como escola aprovada. Fazemos transplante de córnea, de dois a três por dia. E também temos um volume de 80 a 100 cirurgias de catarata por dia. Fora isso, temos atendimento 24 horas. Na emergência não se paga nada – nem consulta nem exames e nem cirurgia, se for o caso. Tudo pelo SUS.

Marcos Nunes Carreiro – O sr. também tem livros escritos?
Sim. Tenho um livro sobre propaganda em Goiás; tenho esse “Dicionário de Marketing e Pro­paganda”, que é adotado no Brasil inteiro e teve lançamento na Escola Superior de Marketing e Pro­paganda (ESPM), em São Paulo, em setembro do ano passado. Geralmente, a ESPM não faz lançamento de livros, mas, em função da amizade que tenho com a diretoria, me convidaram para um evento lá. É um prestígio pessoal saber que lancei essa 5ª edição na ESPM. São 6 mil verbetes e não é basicamente um dicionário. Quase passei para “Enciclopédia de Marketing e Propaganda”, mas achei que seria virtuosismo, então mantivemos como dicionário. Mas nele há apêndices especiais com muitas informações extras sobre várias coisas, como a história dos principais jornais do País e entidades de classe.

Fora isso, também tenho o livro contando a história do Lions, mostrando como o clube ajudou a criar a Organização das Nações Unidas (ONU). É uma obra que tem prefácio de Boutros Boutros-Ghali [egípcio, ex-secretário-geral da ONU, no período de 1992 a 1996]. Esse livro em inglês foi lançado em Nova York, no dia anualmente reservado para o Lions trabalhar em conjunto com a ONU, pois temos assento permanente no conselho econômico e social. Tem também versões em português e em espanhol, além do e-book [livro eletrônico]. Meus livros estão todos na biblioteca do Congresso Nacional, em Washing­ton (EUA).

Zander Campos em entrevista aos jornalistas do Jornal Opção: “Falta ao Brasil a inovação que existe no governo Marconi”

Zander Campos em entrevista aos jornalistas do Jornal Opção: “Falta ao Brasil a inovação que existe no governo Marconi”

Euler de França Belém – O PT trabalha a ideia de que essas classes foram incorporadas nos 12 anos de seus governos. O que o sr. acha disso?
Nós só atingimos isso que vivemos hoje graças ao Plano Real. Foi um programa que deu estabilidade econômica ao Brasil e hoje o pessoal está tendo dificuldade em mantê-lo, porque o Plano Real é rígido. Se você só pode comer uma maçã por dia, você só come uma maçã por dia. Para comer outra maçã, você tem de ter condições de pagar por isso. Se uma família, com uma renda mensal de R$ 2 mil, salva 10% do valor, com o tempo, ela pode comprar outro bem durável. O Plano Real trouxe isso para nós. Porém, compete aos poderes constituídos convergir a manutenção desses pontos do plano para que a população não sofra. Na campanha política, houve muitas promessas, disseram que a inflação estava sobre controle, que não tinha déficit, mas, já em novembro, a situação pipocou.

Euler de França Belém – 2015 se anunciou como ano de crise. O ministro Joaquim Levy [da Fazenda] pede economia, poupança. Já um publicitário estimula a sociedade a comprar. O que o sr. diz aos clientes?
Nós 58 anos da Cannes, a palavra crise é uma das que escutamos muitas vezes. E, em todas as vezes que eu a escutei, eu pensei “tenho de trabalhar mais”, “tenho de mostrar ao nosso anunciante o que ele pode ganhar”. Se embarcarmos na ideia de crise fica muito difícil. O publicitário, por si só, tem de ser um elemento otimista. Temos de otimizar as coisas, mostrar que tudo é possível. Mesmo com crise é possível vender carro, temos é de encontrar uma maneira de fazer isso. Se pararam de comprar perfume, temos de ver como voltaremos a vender. Vi uma matéria, recentemente, em que pediram a agências que criassem, em duas horas, algo sobre como economizar água. E cada um dava uma ideia do que poderia ser feito. A ideia vencedora foi sobre uma calha que recolheria toda a água de chuva, armazenando-a em um depósito. Isso é interessante, pensar por esse lado.

A situação que Levy tem anunciado para o Brasil é muito séria e precisarão fazer algo para colocar o trem de volta aos trilhos. Mas isso sairá muito caro. Primeiro, devido aos impostos, que estão aumentando. Não tenho nada contra o Norte e o Nordeste – afinal somos todos brasileiros e, além do mais, isso justifica todos pagarmos o mesmo imposto, não? –, mas o governo tem aumentado os impostos mais para as regiões Sul e Sudeste. E por que o governo tem feito isso? Para manter as pessoas lá pagando menos imposto. Eu sou contra isso. Temos as mesmas responsabilidades. Nós pagaremos mais imposto por nossa receita ser maior?

Euler de França Belém – Joaquim Levy também quer acabar com os incentivos fiscais, criando uma compensação para quem terá perdas. Como o sr. vê essa questão?
Essa é uma história antiga. Eu a vejo como uma medida preocupante, um ranço que existe no setor industrial da Região Sudeste em relação aos Estados que têm esse benefício. É algo que, mais dia menos dia, vai acontecer. Acontecerá quando houver um consenso. Em uma República federativa, para implementar um programa como esse, é necessário o apoio dos membros do Confaz [Conselho Nacional dos Secretários da Fazenda], que se reúne mensalmente para discutir o que se pode e não fazer. O Confaz junto a deputados, senadores e legisladores terão de discutir disso para chegar a uma conclusão. Ninguém vai abrir mão do que tem. Existem contas a pagar e existe a Lei de Responsabilidade Fiscal. Se a União não está cumprindo, os Estados, que são menores, tem de cumprir. Os governos e as prefeituras têm de cumprir. O governador não vai concordar em abrir mão de algo que ele sabe que tem de pagar em função daquilo que ele não tenha de onde tirar para pagar. No momento em que sair esse acordo, as tarifas de ICMS serão padronizadas. Mas se um Estado teve problema de arrecadação, eles têm hoje o poder de aumentar em alguns segmentos para balancear a receita. A presidente Dilma Rousseff tem feito isso, cobrando o imposto sobre o combustível, aumentou também a taxa para empréstimo. Ou seja, ela está fazendo isso em vários pontos que ela pode e que são impostos chamados anuais, que são imediatos, podendo ser aplicados no mesmo ano, ao contrário, por exemplo, do IPTU, que só vale para o ano seguinte.

Euler de França Belém – As grandes empresas, que vem para Goiás, recebem incentivos fiscais, mas dificilmente anunciam no Estado. Mitsubishi e Hyundai são exemplos. Existe um projeto que fazer com que elas anunciem por aqui. O que o sr. acha desse projeto?
Durante vários anos, nós tentamos criar um fórum da indústria da comunicação. Assim, criamos um fórum que é integrado pelas agências de propaganda, sindicatos, setor produtivo, associações da área, entre outros. Conseguimos com o governador Marconi, em dezembro de 2013, um decreto que permite descontar 50%, das deduções do programa Produzir, para os investimentos feitos em propaganda no Estado. Isso desde que seja contratado por agências sindicalizadas e por veículos de divulgação sediados aqui e que a veiculação seja também em Goiás.

A lista do Produzir tinha 48 itens passíveis de dedução. Como é isso? Você tem de pagar R$ 1 milhão de impostos para o Estado; desse valor, R$ 300 mil devem ser pagos até o dia 10. Os outros R$ 700 mil poderiam ser deduzidos em um desses 48 itens. A propaganda não funcionou devido à quantidade de itens. Marconi, então, reduziu de 48 para 10 itens. Destes, 20% podem ser aplicados em propaganda. Esse decreto começará a dar resultado a partir deste ano. Já recebi duas ligações do Daia e já me pediram projeto sobre isso. Antigamente, com 48 itens, podiam aumentar a planta, número de funcionários, ceder bolsas da OVG, tanta coisa que ficavam perdidos. Ninguém iria, de repente, migrar de item.

Com a redução feita pelo governador, o negócio melhorou. Embora tenha reduzido o índice de 50% para 20%, o governo deu outras opções, como participar de projetos culturais, edição de livros, eventos, lançamento de produtos, entre outros. Essas empresas, como as que você citou, são grandes, mas a Mitsubishi, por exemplo, é do Fomentar, um programa anterior e que não tem esse incentivo. A Teuto [laboratório farmacêutico] também é do Fo­mentar. O programa foi criado pelo ex-governador Iris Rezende e não dá para mudar a estrutura para tirar o direito da Mitsubishi, com os incentivos com que ela veio para Goiás. Nós pedimos a Marconi para que ele estudasse uma maneira para incluir, também, as empresas do programa Fomentar no Produzir. O que a então Secretaria de Indústria e Comércio poderia fazer? Poderia estudar uma forma de abranger os projetos do Fomentar, sem que as empresas percam seus direitos.

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Janete Prado

Entrevista de altíssimo nivel. Parabéns ao jornal opção.
Fiquei assustada com as últimas publicações do Jornal como lista de políticos bonitos/elegantes e filmes gays.
Ainda acredito neste jornal