“É preciso que o cidadão e o policial se unam para combater o criminoso”

Novo secretário de Segurança Pública diz que vê o sistema de segurança como uma trindade composta por sociedade, polícia e criminalidade, na qual as duas primeiras precisam anular o efeito da última

Fernando Leite/Jornal Opção

A escolha de Irapuan Costa Junior para ocupar a Secretaria de Segurança Pública de Goiás (SSP-GO) foi uma grata surpresa para muitos. Aos 80 anos, o ex-governador do Estado entre 1975 e 1979 — também foi prefeito de Anápolis (1973-1974), deputado federal (1983-1987) e senador (1987-1995) — volta à cena política em uma das áreas mais complicadas da conjuntura não só localmente, mas também nacionalmente.

No cargo, ele sucede a Ricardo Balestreri, que segue para a chefia do Gabinete de Assuntos Estra­tégicos. O novo titular da pasta tem sua autoridade reconhecida no meio policial — Irapuan é filho de militar — e fácil trânsito entre as várias forças e corporações. Mais do que isso, já avisa que estará sempre do lado de seus comandados. “O policial que porventura cometer um erro involuntário em operação precisa ter cobertura de seu superior. E comigo terá”, afirma.

Nesta entrevista, Irapuan Costa Junior ocupa um espaço diferente nas páginas do Jornal Opção: é que por duas décadas ele assinou a coluna “Contra­ponto” no semanário. Como integrante do governo estadual — convidado pessoalmente por Marconi Perillo e José Eliton, em uma reunião no Palácio das Esmeraldas —, ele passa a implantar o que sempre pregou em termos de segurança pública: firmeza contra a criminalidade e justiça em relação aos policiais. O advogado Reinaldo Barreto integrou a bancada de entrevistadores, como convidado especial.

Elder Dias — Sua entrada na Secretaria de Segurança Pública ocorre um momento bastante difícil, após tudo o que houve recentemente no complexo prisional de Aparecida de Goiânia e que vem acontecendo nesse setor no País como um todo. O que levou o sr. a aceitar o cargo?
Foi o espelho. Estamos vivendo, no Brasil inteiro um problema extremamente sério na área da segurança e que foi agravado nos últimos 20 anos pelo discurso do “politicamente correto”. Isso agravou enorme o quadro, além da omissão dos governos. Quando fui convidado pensei imediatamente em recusar, mas resolvi refletir um pouco e acho que amanhã, se nos transformássemos em um Rio de Janeiro, eu me levantaria todo dia e, ao olhar no espelho, eu diria “você poderia ter colaborado para que isso não estivesse acontecendo”. Aceitei o convite também porque prezo muito tanto o governador Marconi Perillo (PSDB) como o vice-governador José Eliton (PSDB).

Elder Dias — Com quem foi seu contato diretamente?
Fui chamado para uma conversa com ambos, governador e vice-governador, no Palácio das Esmeraldas.

Elder Dias — O sr. colocou alguma exigência para assumir a secretaria?
Apenas disse que gostaria de ter liberdade para escolher os auxiliares diretos — comandante-geral da Polícia Militar, o delegado-geral da Polícia Civil etc. — e ter recursos para poder fazer o mínimo. Ambas as condições me foram asseguradas.

Augusto Diniz — O que seria esse mínimo?
Hoje a Segurança Pública recebe recursos do Tesouro estadual — basicamente da folha de pagamento —, do Detran e da taxa de emolumentos, que é arrecadada pela Justiça estadual e é dividida entre os poderes Judiciário e Executivo. Isso equivale a aproximadamente o montante que José Eliton recebia quando era secretário, algo em torno de R$ 10 milhões fora do orçamento e R$ 5 milhões do próprio orçamento a cada mês.

Cezar Santos — Já houve casos de secretários que assumiram com boa vontade e bons currículos, mas não deram certo, por não ter havido uma afinação com os que compõem a base do sistema de segurança pública. O que o sr. fará para ter essa afinação, como conseguir isso?
Essa é a parte que menos me preocupa. Sou filho de policial, vive dentro de casa os dramas da profissão. Sei as angústias por que o policial passa, bem como as aspirações que tem. Tenho facilidade de diálogo tanto com a Polícia Civil como com a Polícia Militar, então esse tipo de questão não me assusta. Já tive a oportunidade de fazer a escolha da cúpula da PM e, pelos primeiros embates, estou bastante satisfeito. Eu diria que, se os recursos de fato estiverem disponíveis, se houver algum insucesso só haverá um culpado: o secretário de Segurança Pública, por falta de competência.

Elder Dias — Quando o sr. diz isso, é algo bastante assemelhado a um treinador de uma equipe quando declara que, não importa o resultado do jogo, a responsabilidade é dele. Quando se declara isso ao assumir a secretaria, parece que se cria um ambiente mais receptivo, mais acolhedor, para o policial. Porém, do outro lado, há o “outro time”: no caso do futebol, o adversário; no caso da polícia, a criminalidade, em um sistema cada vez mais organizado. Por mais competência que o sr. tenha, é possível assegurar esses resultados positivos, tendo em vista que há esse outro lado a levar em consideração?
Tenho ciência disso, sou muito realista. A marginalidade está cada vez mais poderosa por apenas um motivo: hoje os bandidos têm mais dinheiro. A droga trouxe para a criminalidade um enorme poder de fogo, mas acho que isso pode ser combatido. Se houver recursos para a segurança pública no nível que espero, vamos ter condições, principalmente usando a inteligência. O que não se pode é continuar combatendo como vinha acontecendo. Nesse prazo em que ficarei à frente da SSP, se tivermos essas condições, a gente conseguirá baixar os índices. Eu estarei na secretaria fatalmente até dia 31 de dezembro deste ano. Em longo prazo alguma coisa diferente terá de ser feita, porque a guerra contra o tráfico está sendo perdida no mundo inteiro.

Augusto Diniz — O sr. tem como prazo realmente o fim do ano? Não há chance de discutir uma continuidade na pasta?
Não.

Elder Dias — Nem mesmo com uma eventual reeleição de José Eliton?
Não, meu prazo final é 31 de dezembro.

Augusto Diniz — É um período curtíssimo. O que o sr. pensa em implantar para combater a marginalidade, da melhor forma, com os recursos que terá?
Tive uma surpresa bastante agradável: a polícia goiana está muito bem equipada, principalmente no que hoje realmente importa, que é a área de inteligência. Vou lhes fazer uma pergunta: lembram-se de quantos caixas eletrônicos eram explodidos por mês em Goiânia, no ano passado? Pois este ano não tivemos nenhum caso, e estamos terminando o mês de fevereiro. Isso é resultado do trabalho de inteligência, já que essas quadrilhas vinham de fora e não apenas para uma ação. Então, a primeira ação elas conseguiam cometer. Na segunda ação, já temos alguns dados e, na terceira, muito provavelmente já são interceptadas e seus membros presos. Quem entre eles confrontou a polícia morreu.

Euler de França Belém — O crime organizado era localizado em alguns Estados, principalmente no Rio de Janeiro e em São Paulo, mas hoje se espraiou. Não se pode mais falar que há crime organizado apenas lá: as rebeliões no Norte e no Nordeste, bem como o que houve no complexo de Aparecida de Goiânia mostram isso.
E Goiás é um ponto estratégico. Se tomarmos o mapa da América do Sul veremos que, numa linha reta, as rotas do tráfico a partir dos países que são produtores de drogas — Bolívia e Colômbia, com a cocaína, e Paraguai, com a maconha — passam por nosso Estado. Se não for por estrada, a droga vem por avião.

Euler de França Belém — Como combater esse crime organizado e por onde começar?
Goiás tomou uma iniciativa de implantar um pacto integrado de segurança, que hoje envolve vários Estados. Poucos estão de fora e todos aqueles com quem temos divisas aderiram. Troca­mos informações e, às vezes, fazemos operações conjuntas.

Yago Sales — Isso visa a prevenção?
Prevenção e repressão. Tivemos recentemente um avião que saiu da Bolívia e veio de lá voando a uma altitude de 50 metros para despistar os radares. No trajeto, reabasteceu em campos de pouso clandestinos. Não adiantou: quando chegou aqui já o estávamos esperando. Tinha quase 600 quilos de droga.

Yago Sales — Esse trabalho é em conjunto com a Polícia Federal (PF)?
Sim, hoje tudo é integrado, sempre “trocamos figurinhas”, seja com a PF ou com a Polícia Rodoviária Federal (PRF). É preciso trabalhar com a inteligência, detectando os elementos do crime organizado que chegam ao Estado. É preciso prendê-los e impedi-los de se organizar nos presídios. Essa última parte, porém, não é mais nossa, mas trocamos informações e colaboramos com a área de inteligência. É um trabalho permanente e complexo. O representando do crime organizado é responsável pelo trabalho para sua facção e implanta uma série de rituais — tem o “batismo”, o “padrinho” etc. É o processo de iniciação, e o comprometimento, a partir daí, passa a ser pela vida toda. É uma liturgia inteira nos moldes da máfia. Portanto, se esse elemento começar a formar um núcleo é preciso retirá-lo imediatamente do presídio e transferi-lo.

Elder Dias — Tomando essa analogia — que é mais do que uma simples comparação —, a lei seca nos Esta­dos Unidos dos anos 20 do século passado beneficiou o tráfico de bebidas e o avanço da máfia, cuja figura mais conhecida foi Al Capone. Uma das formas de asfixiar o poder mafioso não seria a legalização do produto que é o capital que impulsiona o desenvolvimento da criminalidade?
O maior argumento que quem quer liberar a droga é esse. Na década de 20 foi proibido totalmente o consumo de álcool nos Estados Unidos. Só que o americano tinha a bebida por costume, não era como a droga, que é consumida apenas por alguns bolsões. O consumo do álcool nos EUA era generalizado e quando veio a lei seca as destilarias clandestinas tinham um potencial de mercado enorme. Começaram a crescer e o que ocorreu na esteira disso? A clandestinidade corrompeu a polícia, o Congresso e até o Poder Judiciário americano. Houve a conscientização sobre essa situação e resolveram reabrir o comércio legal. De lá para cá, conseguiram recuperar a polícia, o Legisla­tivo e o Judiciário. É fato que a 2ª Guerra Mundial auxiliou bastante nesse processo, ajudando a consolidar a democracia e os valores americanos. Eu não diria que estou plenamente convencido, mas é preciso admitir que a atual guerra contra as drogas foi perdida praticamente no mundo inteiro, inclusive nos Estados Unidos.

Cezar Santos — Mas as experiências de liberação e descriminalização em vários países também não têm resultados…
É algo novo. O Uruguai fez a liberação da maconha há pouco tempo, bem como alguns Esta­dos norte-americanos, como a Ca­lifórnia e o Colorado. Portugal tem uma boa experiência com a metadona, droga administrada aos dependentes e que substitui a heroína. Há ainda uma espécie de ambulância, com médico e assistente social, que se dirige aos locais — como bares e praças — onde existe um maior número de usuários e aplica a droga terapêutica. Conseguiram até mesmo erradicar algumas favelas que estavam surgindo, por meio desse trabalho. Transformaram o problema de policial em política de saúde pública. Essa experiência portuguesa, até onde posso enxergar, se tornou pelo menos parcialmente exitosa.

Euler de França Belém — O tráfico tem suas táticas. Mas os países de fronteiras extensas que tiveram mais sucesso no combate à entrada da droga uniram o trabalho de suas Forças Armadas, de sua polícia federal com o das polícias locais. Com a implantação do Ministério da Segurança Pública, o sr. acredita que aqui em Goiás poderá ser feito um trabalho melhor, de forma mais eficaz, já que temos um Estado de divisas também muito extensas?
Impedir a entrada da droga no Brasil, até o momento, é praticamente impossível, por causa da extensão de fronteiras marítimas e terrestres. Some-se a isso a falta de estrutura de acompanhamento por radar na Amazônia. De qualquer maneira, muito tem sido feito, não só em termos de grandes apreensões de drogas, mas também de armas, isso em todo o País. Mas impedir totalmente é algo impossível.

Augusto Diniz — A organização das facções acabou por criar “soldados do crime”. Muitas vezes, para sobreviver na cadeia, o preso tem de aceitar cumprir algumas tarefas designadas pelos chefões para sobreviver, dentro ou fora da cadeia. Acaba sendo praticamente obrigado a participar de determinada facção criminosa. Há hoje algum tipo de trabalho que possa ser implementado para que isso seja evitado, de modo a que o detento cumpra sua pena sem ter de entrar em uma organização criminosa?
Nos presídios goianos em que é possível fazer isso — nem em todos isso é viável —, já há uma segregação entre presos bons e presos ruins. Isso está sendo implantado em alguns locais onde é praticável esse tipo de medida.

Yago Sales — O que diferencia um preso “bom” de um “ruim”?
Pertencer ou não a uma facção e ter praticado ou não um crime de sangue. Um preso violento, que mata ou assalta à mão armada, mesmo sem integrar uma facção, tem uma certa facilidade de conviver com quem está nela. O preso por pequenos delitos, o de crimes passionais, esse não quer conviver com esse outro tipo.

Augusto Diniz — É possível separar os presos pela periculosidade de cada um?
Em alguns presídios, sim. Nas unidades mais novas isso já é possível.

Cezar Santos — O sr. realçou a importância da inteligência no trabalho da segurança pública. Pelas informações que recebeu, o setor vai precisar de aprimoramento? E os investimentos, têm sido a contento em Goiás?
Temos tido um investimento a contento, sim, tanto na parte de viaturas como de armamentos. Goiás está bem à frente de muitas polícias. É preciso observar que há condições para fazer algumas coisas que dependem menos do Estado, especialmente no que diz respeito à vigilância ambiental, a reconhecimento facial. Por exemplo, é possível fazer um acordo com os lojistas de um shopping center para implantação de câmeras especiais que detectam um foragido que porventura entrar no local. Assim, imediatamente tanto o lojista como a polícia ficariam sabendo. Para a polícia é bom, porque poderia prender um sujeito com mandado de prisão em aberto; para o lojista, da mesma forma, porque poderia ser um estelionatário à procura de cometer um golpe.
Para ter ideia, o reconhecimento facial está tão avançado que hoje independe de penteado ou barba, de o indivíduo estar de chapéu ou óculos escuros, de tingir o cabelo. Uma câmera meramente mediana atualmente consegue fazer esse serviço.

Cezar Santos — Para funcionar seria preciso haver uma comunicação entre os Estados, já que a bandidagem circula…
Sim, mas, se tomar como base o banco de dados da Secretaria de Segurança Pública, já haveria condições de fazer muito trabalho, mesmo sendo de outro Estado.

Reinaldo Barreto — De qualquer forma, essa tarefa já esbarra na questão orçamentaria, de mandados não cumpridos e de falta de estrutura, para dar sequência a um trabalho já feito. Tudo, então, vai se acumulando. Com o recente episódio do Rio de Janeiro, os bandidos de lá estão se deslocando para outros Estados. Goiás, além de ser rota e ter uma extensão territorial considerável, tem um vizinho que é um grande consumidor de drogas, o Distrito Federal. O sr. já notou alguma mudança em relação a essa nova urgência advinda da intervenção no Rio?
Evidentemente, os Estados limítrofes ao Rio sofrem mais. Porém, como Goiás é rota, já há elementos do crime organizado por aqui, presos e soltos. De qualquer forma, nossa inteligência está atenta e até agora não apareceu nenhum.

Euler de França Belém — O sr. é favorável à intervenção federal no Rio?
Não acredito nessa intervenção como solução definitiva. É um paliativo, está se repetindo o que ocorreu durante a Copa do Mundo e as Olimpíadas. Durante o período de permanência das Forças Armadas funciona bem, mas e depois?

Fernando Leite/Jornal Opção

Euler de França Belém — As Forças Armadas do Brasil estão mal equipadas?
Não, mas as polícias estão bem mal equipadas.

Euler de França Belém — Mas o sistema de vigilância das Forças Armadas está funcionando?
Está sim, mas subdimensionado. O que o Exército tem, de fato, é de primeira qualidade, mas tem pouco.

Augusto Diniz — Sobre a intervenção no Rio, os especialistas da área se dividiram: alguns consideram que era necessário que o governo fizesse mesmo alguma coisa; outros acreditam que é uma intervenção apenas no nível da política, para estabilizar o quadro após a crise pela não aprovação da reforma da Previdência no Congresso, por falta de base. Qual é a visão do sr.?
Pode até ser algo para melhorar a imagem do governo, mas a situação do Rio de Janeiro é, de fato, caótica.

Augusto Diniz — Como o sr. viu a polêmica em torno dos mandados coletivos de busca e apreensão, o que liberaria as forças policiais para fazer entrar em casas ou comunidades?
Sou muito legalista. Não sei se algo assim alteraria o que está acontecendo.

Euler de França Belém — Não é simbólico para o crime organizado perceber que há uma preocupação do governo com um combate mais acentuado a essas ações? Pode haver uma refluída com a mão do Estado atuando, estando presente de forma mais forte?
Pode ser, mas para o crime organizado isso faz parte da guerra. Os bandidos não vão desistir por causa disso. Eles têm seu planejamento, principalmente as facções paulistas — as do Rio são menos organizadas.

Augusto Diniz — O sr. acha é producente a criação do Ministério da Segurança Pública? É uma boa para a área ou não?
Não acredito que isso vá alterar muita coisa. A distribuição dos recursos acaba ocorrendo de uma forma ou de outra.

Elder Dias — É uma medida populista, então, para dar satisfação?
Creio que seja para dar uma satisfação, sim. O crime organizado de São Paulo planeja até a internacionalização de sua atividade. Como sabem que os fornecedores estão lá fora, já estão entrando no Paraguai. Não podemos subestimar essas organizações.

Euler de França Belém — Como che­gamos a esse tipo de situação?
Não é algo muito fácil de dizer. No Rio, talvez seja menos complexo de explicar, mas no restante do Brasil isso demandaria uma explicação até religiosa — o diabo deve ter buscado, nos sete círculos do inferno, algo para combater os bons, que é a droga. É algo com poder tremendo de destruição. No caso do Rio, o tráfico ganhou o poder que tem hoje pela omissão de décadas e décadas.

Elder Dias — E é uma omissão calculada, porque muitos políticos se beneficiam eleitoralmente do tráfico, de forma direta ou indireta.

Reinaldo Barreto — Uma negligência política?
Exatamente. Os políticos começaram a se beneficiar por meio do jogo do bicho, no caso do governo de Leonel Brizola [governador do Rio de 1983 a 1987 e de 1991 a 1994]. As polícias demoraram a reagir ao poderio dos bandidos, que se armaram rapidamente desde a entrada das drogas. O morro era a cidade do jogo do bicho e se transformou na cidade das drogas.

Cezar Santos — Um dos fatores importantes foi a ausência de Estado nas favelas. Sem serviços públicos, o tráfico tomou conta.
Eu acho que as favelas não deveriam existir. No governo de Carlos Lacerda [governador do Estado da Guanabara de 1960 a 1965], todas as favelas que surgiam eram erradicadas e as pessoas se mudavam e ganhavam casas populares — eu morava no Rio naquela época. Hoje, se você for ao Sul, não verá favelas em Florianó­polis. Creio que Curitiba também não deva ter.

“Vamos dar cobertura moral e jurídica ao policial”

Cezar Santos — Mas o nível de violência é muito alto, mesmo assim…
Não em Santa Catarina. É o Estado mais seguro do Brasil, o índice de homicídios é próximo ao dos Estados Unidos.

Euler de França Belém — E qual é o motivo para isso?
Eu acredito que seja o fato de ser o Estado mais armado. O desarmamento foi contornado por meio dos clubes de tiro — Santa Catarina é onde há mais clubes assim em todo o Brasil. E também há um maior espírito de vigilância, com governo mais competente, até por ter mais dinheiro.

Euler de França Belém — O que fazer para aplacar a tragédia que se tornou o índice de assassinato de policiais no Brasil?
Isso está mais concentrado no Rio de Janeiro, embora em São Paulo tenha havido alguns episódios. Creio que isso tenha a ver com a fragilidade dos comandantes policiais.

Elder Dias — O índice de assassinatos não teria a ver também com a corrupção no seio da polícia?
A corrupção existe. Mas na Polícia Militar, no geral, o índice é muito baixo. A exceção é o Rio de Janeiro. Em Goiás, o nível de corrupção na PM é mínimo.

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Elder Dias — No Rio o índice de mortes de policiais teria a ver com o envolvimento com as milícias e o tráfico?
A partir do momento em que o policial se envolver com o traficante ficará claramente vulnerável.

Euler de França Belém — Nos Estados Unidos, o criminoso que mata um policial tem uma pena muito maior, mais pesada. E como é no Brasil?
Aqui no Brasil, matar um policial é a mesma coisa de matar qualquer outro. Há propostas para endurecer esse tipo de crime, mas o discurso politicamente correto no Brasil não deixa isso avançar. O que está sendo dito há 20 anos no Brasil? Que o criminoso é uma vítima da sociedade e que o policial é truculento. Muitos dirigentes policiais encampam esse discurso. No Rio de Janeiro o que ocorria na época das UPPs [unidades de polícia pacificadoras]? Se alguém morria de bala perdida, recolhiam todas as armas dos PMs para saber de onde teriam saído as balas, mesmo que 80% da probabilidade era de ter sido originada de algum traficante.

Euler de França Belém — A viúva de um policial, quando ele morre, tem direito a uma pensão. Mas é verdade que não tem apoio nenhum do Estado?
É verdade, não tem apoio e eu quero ver se consigo, pelo menos em parte, resgatar essa situação. A viúva recebe o impacto da morte do marido e não tem como atender suas necessidades. Por outro lado, o policial que é denunciado e tem de responder um inquérito não recebe um advogado, que vem das associações de praças e oficiais.

Yago Sales — Qual é a proposta do sr. para melhorar a relação do Estado com as viúvas de policiais mortos em serviço?
Estou fazendo um estudo e pretendo, até o fim do mês ou no começo do próximo, encontrar uma solução ao menos paliativa. Quero chamar a sociedade para ajudar nesse tema.

Augusto Diniz — O policial militar, como trabalhador do Estado que carrega a pressão de ir para a rua combater o crime, precisa ser cada vez mais valorizado. Há algum projeto para isso, seja para beneficiá-lo financeiramente ou em sua preparação? Por outro lado, quando alguém da corporação comete um erro isso é de fato verificado?
Isso aconteceu e tem acontecido. O policial que erra involuntariamente já sofre o julgamento pela imprensa, condenado de saída, e tem de responder a um processo. Em geral, ele não tem a cobertura de sua chefia. A partir do dia que assumi a secretaria isso mudou. Hoje o policial tem essa cobertura.

Yago Sales — Que tipo de cobertura?
Cobertura moral e jurídica, a qual vamos obter a maneira necessária.

Yago Sales — Em abril do ano passado, três policiais mataram um adolescente de 16 anos no Residencial Vale do Araguaia, em Goiânia. Há testemunhas e vídeos que mostraram a truculência desses homens, da inteligência da PM. O sr. daria esse apoio moral, ainda assim?
Sim, eu daria esse apoio, se eles não cometeram o erro voluntariamente, se não tiverem entrado lá com a ideia de executar alguém. Cometeram um erro grave, mas fizeram isso na intenção de prender um traficante. Só que o rapaz era inocente, não era traficante. De qualquer forma, eu daria cobertura aos policiais. Quem pune é a lei, não sou eu nem a imprensa.

Yago Sales — Não há o risco de os policiais cometerem mais erros, se prevenirem menos, sabendo que terão tanto apoio? Depois desse caso o POP [Procedimento Operacional Padrão] sofreu algumas alterações, o sr. teve acesso a isso?
Tive, sim. O que houve, no caso, foi um erro de endereço. O POP é fruto do trabalho humano, não é perfeito. Mas veja bem: nos Estados Unidos, se o policial ordenar que você coloque as mãos na cabeça e não for obedecido imediatamente, ele pode atirar e não responderá a qualquer processo. E a criminalidade lá é bem mais baixa do que aqui. Outro exemplo: se alguém tentar sacar a arma do coldre de um policial, isso é razão para prisão perpétua, segundo a Justiça norte-americana.

Yago Sales — Em junho do ano passado, em outra ocorrência, no Residencial Canadá, também em Goiânia, ao abordar um rapaz um PM nem o esperou descer e atirou, matando o que achava ser um suspeito. Em seguida, com outros policiais, apagou imagens.
Isso já é diferente. Quem quiser mascarar a cena de um crime, apagar imagens, esse não vai ter cobertura. A cobertura é total para quem cometer erros involuntários. Há casos de excessos, mas, no calor da operação, é algo difícil de avaliar. Já vi chefias de policiais censurarem agentes por terem dado tiros demais em um confronto. Mas quem já trocou tiros com alguém, quem já esteve no calor de um combate? Não queiram estar nessa situação, porque não dá para contar tiro nessa hora.

Augusto Diniz — Casos como esse dão impressão à sociedade de que há um erro de preparo do policial, por mais que esses casos sejam minoria. Como trabalhar junto à corporação para que a população não tenha sensação de medo da polícia nem os bandidos percam o respeito pela autoridade?
A educação do policial melhorou muito, mas ainda precisa ser aprimorada. Por sua vez, ele tem de se aproximar mais da sociedade. À medida que isso for acontecendo, quando a criança na escola souber que o policial está ao lado dela, para protegê-la, para evitar que o traficante a assedie, isso vai mudando.

Augusto Diniz — O secretário anterior, Ricardo Balestreri, tinha a ideia de trazer de volta aquela antiga política “Cosme e Damião”, de proximidade da polícia com a comunidade. É uma boa política?
Qualquer política positiva é benéfica. A sociedade, do ponto de vista da segurança, é uma trindade: há o cidadão, que trabalha, cuida da família, estuda, paga seus impostos; há o policial, desempenhando sua função; e a marginalidade. Não há outra solução a não ser aproximar o policial do cidadão e isolar a marginalidade. Critica-se a política de encarceramento, mas a política tem de ser de encarceramento, não do pequeno criminoso. Esse pode receber uma tornozeleira e ir para casa, não é um assassino, não leva perigo à sociedade. Além disso, o sistema prisional ganha uma vaga a mais para receber um criminoso perigoso, aquele que, se sair, vai voltar a matar, roubar, estuprar ou sequestrar.

Augusto Diniz — Quando se discute segurança pública, pouco se fala em integrar o tema a outras políticas públicas. O que pode ser feito em Goiás para integrar sua pasta às políticas das demais?
É possível fazer muita coisa, e os colégios militares são exemplo disso. Algo que tem responsabilidade total do Estado em seu fracasso é o sistema prisional do País. É um agravante enorme para a criminalidade. Não se construíram presídios e os que foram erguidos não são adequados. Minha teoria é de que há cidadãos que, por formação psicológica, não são recuperáveis; outros, pela recorrência no crime. Ambos os tipos têm de ficar segregados. Só que isso tem de ocorrer com humanidade. Fico pasmo com quem fala em direitos humanos, mas esqueceram que os aprisionados têm direitos também. Eles viram animais dentro do curral, é um absurdo que teria de ser mudado rapidamente. O governador Marconi está mudando essa situação em Goiás, construindo presídios em condições humanitárias. É algo mais do que urgente e que também contribui com o quadro.
Reinaldo Barreto — O STF tomou nesses dias a decisão de dar regime aberto ou semiaberto às mulheres grávidas e com filhos de até 12 anos, mesmo envolvidas em crimes mais violentos. Como isso poderá ser operacionalizado, já que a estrutura estatal sofre de ineficiência e de falta de estrutura e investimento?
Creio que a tornozeleira eletrônica seja um sistema relativamente barato e adequado, desde que bem monitorado. Esse monitoramento não é difícil.

Elder Dias — Desde que assumiu, o sr. conversou com os responsáveis pelo sistema prisional?
Conversei pouco, porque assumi na quinta-feira [dia 15/2] e tive de escolher os auxiliares, fazer uma série de visitas e conceder entrevista para praticamente todos os órgãos de imprensa. Tem uma semana que não tenho tempo para nada. Não pude ler nem mesmo o Editorial do Jornal Opção desta semana [“Ilustrado, secretário de Segurança quer uma polícia que combata e evite crimes”, edição 2223]. Até a poeira assentar será difícil.

Elder Dias — O sr. estava com uma vida relativamente tranquila. Como foi ter de passar para esse novo ritmo?
É complicado, eu estava destreinado. Quando recebi o convite para a secretaria, tinha passagens compradas para Portugal. Iria passar seis meses lá, em um apartamento lá, e outros seis meses aqui. Os planos, claro, foram adiados.

Euler de França Belém — Nos países mais desenvolvidos, há uma rede de proteção à polícia por parte da sociedade. No Texas (EUA), comerciantes constroem e equipam delegacias. E os policiais são protegidos. Aqui, chegam a colocar a bandeira do Brasil sobre caixão de bandidos mortos em confrontos com a polícia; lá, pelo menos motivo, o policial ganha uma medalha — e não do Estado, mas da própria sociedade. O sr. acha válido que haja uma rede de proteção assim?
Quero caminhar exatamente nesse sentido, isso está em meus planos. Dá para fazer, não tenha dúvida. Em Caiapônia, há uma juíza, Gabriela Maria de Oliveira Franco, nova ainda e muito dinâmica. Vendo a precariedade da delegacia da cidade, ela tomou a iniciativa de construir uma nova cadeia. A prefeitura cedeu um terreno e ela foi aos fazendeiros pedir prendas. A partir daí, fez um leilão de gado. Também está indo até os comerciantes de material de construção. Com isso tudo, está construindo uma cadeia, pequena, mas muito bem-feita.

Reinaldo Barreto — A OAB [Ordem dos Advogados do Brasil] e o Tribunal de Justiça [TJ-GO] são duas instituições às quais interessa que o sistema penitenciário funcione. Como está sua interlocução com essas entidades?
Estou conversando com a OAB-GO sobre os policiais que não tem defensores. Com a Justiça, estamos trabalhando para mudar a sistemática do TCO [termo circunstanciado de ocorrência], para haver uma agilidade maior, um melhor atendimento ao cidadão que for roubado ou furtado.

Augusto Diniz — A Polícia Militar de vários Estados é favorável a que o TCO para crimes de menor potencial ofensivo seja lavrado pelo policial militar na hora da ocorrência. Ao mesmo tempo, o sindicato da Polícia Civil em Goiás é contrário a essa ideia. Como fica essa questão?
A Justiça já se pronunciou e essa medida será implantada o mais rapidamente, é algo que já está em andamento.

Yago Sales — O PM, em vez de lavrar TCO, não deveria estar na rua, fazendo seu trabalho ostensivo?
Vai ser assim. Hoje, tudo funciona com um tablet. Hoje o PM fica horas esperando na delegacia. Isso não vai acontecer mais.

Yago Sales — O RAI [registro de atendimento integrado] vai sofrer modificações também?
Sim. Vamos modernizar tudo isso, já estamos no caminho. Da mesma forma, as centrais de flagrantes serão multiplicadas.

Euler de França Belém — O déficit de policiais ainda é muito alto?
É alto.

Reinaldo Barreto — Nas duas forças [militar e civil]?
Sim. Agora estão sendo contratados mais 2 mil policiais militares. O efetivo de agentes da Polícia Civil é menor, por volta de 4 mil, enquanto são 12 mil PMs.

Euler de França Belém — Faltam muitos delegados, não?
É verdade, em muitas localidades pelo interior.

Euler de França Belém — Procede que é alto o índice de depressão em policiais, sobretudo militares?
Procede, é um índice alto, embora eu não tenha números exatos, no momento.

Augusto Diniz — A corporação tem um acompanhamento psicológico e psiquiátrico?
As associações dos policiais têm essa assistência.

Yago Sales — Nas últimas semanas, a SSP divulgou resultados positivos para Goiânia e sua região metropolitana. Mas como está a situação do Entorno do DF, haja vista que o Novo Gama é o município mais violento do Centro-Oeste e um dos mais violentos do País?
Estamos buscando uma integração maior com a polícia do Distrito Federal. É uma situação realmente preocupante.

Reinaldo Barreto — Ainda há muita reclamação de advogados criminalistas em relação à dificuldade em acessar seu cliente em delegacias e penitenciárias. O sr. tem notícia disso? Pretende desenvolver alguma ação?
Creio que, mais do que isso, as prerrogativas são dispositivos legais, não podem ser desrespeitadas de maneira alguma.

Augusto Diniz — Os problemas da segurança pública em Goiás hoje têm a ver com a gestão de seu antecessor, Ricardo Balestreri, ou já vêm de outros períodos?
A área da segurança pública em Goiás vem melhorando visivelmente desde a passagem de Joaquim Mesquita [secretário da pasta entre 2012 e 2016] — antes disso, não tenho como avaliar. Prova disso é que os índices de criminalidade têm caído praticamente todo mês, com alguma flutuação.

Elder Dias — Balestreri enfrentou algumas dificuldades, mas os números apontam para o que o sr. diz, a queda da violência. Por que então a opção do governo em mudar o secretário neste momento?
Não faço a menor ideia. Recebi o convite e aceitei. Sei que não há qualquer censura do governo a Balestreri, tanto que ele foi convidado para outro posto [chefe do Gabinete de Assuntos Estratégicos] e aceitou também.

“José Eliton é muito bem articulado”

Euler de França Belém — O sr. foi governador, prefeito [de Anápolis] e senador e tem total conhecimento do ambiente político. Em relação às próximas eleições estaduais e os pré-candidatos ao governo, temos Ronaldo Caiado (DEM) em 1º lugar nas intenções de voto, Daniel Vilela (MDB) em 2º e José Eliton em 3º. As pesquisas qualitativas apontam que o candidato da base governista ainda é pouco conhecido pela população — o que deverá mudar quando ele assumir o governo, em um mês. A partir de então, o eleitor vai poder avaliá-lo à frente da gestão, como governador. Ao passar por esse julgamento da população, o sr. acredita que José Eliton aumenta suas chances de vencer as eleições?
São três forças distintas. José Eliton é a continuidade do governo Marconi, que sempre foi muito bem aceito pela população; há Caiado, que hoje encarna uma oposição; e o MDB, com capilaridade por todo o Estado. Creio que é praticamente impossível que José Eliton não vá ao segundo turno. Nesse momento, então, o que hoje é oposição ao governo Marconi/José Eliton vai estar dividido. Nunca foi fácil a aproximação entre MDB e Caiado. Pelo contrário, são adversários tradicionais, principalmente no interior.

Euler de França Belém — Como governador, o sr. contribuiu para a modernização do Estado. As pessoas não costumam ter uma percepção global de sua gestão, ainda na década de 70, um homem muito preocupado com a cultura; foi também o idealizador do Daia [Distrito Agroindustrial de Aná­polis], ao passar por Anápolis; a importante ponte de Porto Na­cional [hoje no Tocantins] foi construída em seu governo. E, por incrível que pareça, mesmo em um período de ditadura, o sr. foi considerado um governante democrata — quem fala isso são pessoas como Antônio José de Moura [escritor], Carlos Alberto Santa Cruz Serradourada [jornalista], Eurico Barbosa [político], Henrique Santillo [ex-governador], que chegaram a ser perseguidos durante o regime militar. Não houve notícia de perseguição de sua parte, pelo contrário, houve apoio a essas pessoas. Na Segurança Pública, o sr. é um estadista, não um mero secretário, não está lá para ser mais um. Esses 20 anos em que o Tempo Novo está à frente do governo, houve uma real modernização de Goiás? Vale a pena continuar por esse rumo?
Estou convicto disso. Houve uma solenidade no Palácio das Esmeraldas com a presença dos ex-governadores, à exceção de Leonino Caiado e Ary Valadão. Eu estava, bem como Iris Rezende (MDB), Maguito Vilela (MDB), a filha de Mauro Borges, o filho de Henrique Santillo. Marconi, então, entregou alguns documentos para nós. Nesses papéis, ele fez um levantamento de todo o planejamento governamental desde 1960 até agora. Como secretário, pude assistir pela primeira vez em uma reunião, vi que o governador tem um grupo de acompanhamento de 144 índices no Estado em diversas áreas — saúde, educação, segurança pública, infraestrutura etc. É algo realmente muito bem monitorado.
A área de segurança pública passou por uma modernização enorme. Quando deixei o governo, no fim da década de 70, havia aquela compreensão tradicional, do “faro” do policial. Hoje, não. Há métodos muito modernos. É uma segurança pública que mudou completamente e serve de modelo para todo o Brasil.

Euler de França Belém — O governador tem uma visão global de economia para o Estado, em sua opinião?
Com certeza. Marconi tem um componente otimista interessante: ele sabe que o Estado tem recursos, mas sempre acha que vai conseguir mais recursos junto ao governo federal.

Euler de França Belém — Por que o sr. acha que José Eliton tem condições de ser um bom governador?
José Eliton é um homem muito bem articulado. Preste atenção aos discursos de improviso que ele faz. O que falta a ele — e vai superar isso rapidamente, quando começar a corrida eleitoral — é a tarimba de campanha, por não ter ainda disputado como comandante de uma chapa.

Euler de França Belém — Um problema sério para ele é que a base está dividida — embora a oposição também esteja, entre Caiado e Daniel Vilela. O sr. acha que essa base vai se unir?
Na hora em que a campanha for fulanizada, isso vai acontecer naturalmente. Quando Marconi sair para concorrer ao Senado isso mudará. l

Euler de França Belém — O sr. acompanha a política nacional. Qual é o motivo pelo qual Goiás não ter entrado nessa crise econômico-financeira por que o País passa? Em outros Estados estão vendendo ativos para pagar dívida, algo muito grave. Por que escapamos?
Creio que sempre houve certo controle das finanças do Estado. Os secretários da Fazenda foram muito competentes, desse Simão Cirineu [titular da Sefaz entre 2011 e 2013, sucedido por José Taveira (2013-2015), Ana Carla Abrão (2015-2016), Fernando Navarrete (até junho de 2017) e João Furtado, atual secretário]. Marconi também teve sempre o otimismo de buscar crédito extra e sempre conseguiu, sempre muito ativo.

Euler de França Belém — O que o sr. pensa que pode ocorrer com o País sem a reforma da Previdência, que não deve ocorrer este ano?
Se não fizer uma boa reforma, o Brasil vai quebrar. Este ano o déficit da Previdência foi de R$ 170 bilhões e o País teve um déficit de R$ 159 bilhões. Ou seja, se a Previdência estivesse saneada, teríamos superávit nas contas de mais de R$ 10 bilhões. E essa bola de neve só vai crescendo.

Augusto Diniz — Independentemente de quem assumir no ano que vem, essa reforma tem de ser feita?
Com certeza, tem de fazer. Veja, qual é o país hoje, na América Latina, que tem suas finanças em dia e a maior renda per capita? O Chile, que passou por uma ditadura muito mais brava. Mas nada é completamente ruim nem bom, principalmente em aspectos sociais. Augusto Pinochet [ditador que governou o país de 1973 a 1990] fez todas as reformas necessárias — trabalhista, fiscal, previdenciária. Hoje o Chile é praticamente um país de primeiro mundo. Nem mesmo o pessoal da esquerda que assumiu o governo depois mexeu no que encontrou, porque viu como estava funcionando bem. Já o Brasil vive de remendos, inclusive na Previdência, apagando incêndios desde a década de 80.

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