Dra. Cristina: “Houve uma manobra política que não me possibilitou construir alianças claras e sólidas”

Ainda na espera de julgamento do recurso, prefeitável do PL diz que irá lutar para manter candidatura e expor acordos partidários firmados como em um balcão de negócios

Vereadora Dra. Cristina Lopes (PL), candidata a prefeita de Goiânia: “Minha candidatura hoje está com autorização de realizar todos os atos de campanha” | Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

A vereadora Dra. Cristina Lopes passou mais da metade da campanha em uma batalha na Justiça Eleitoral para conseguir ser candidata a prefeita de Goiânia. Disputa esta que ainda não terminou. Mas a prefeitável pelo PL conseguiu a primeira vitória na segunda-feira, 26. O Tribunal Regional Eleitoral de Goiás (TRE-GO) autorizou Dra. Cristina a utilizar os 40 segundos que o partido tem direito na propaganda eleitoral obrigatória de rádio e TV.

Dra. Cristina só conseguiu estrear na TV na quarta-feira, 28, há 18 dias da votação no primeiro turno. “A TV ainda tem um papel muito importante nas eleições para a apresentação das candidaturas”, afirma a candidata. A briga na Justiça com o PL, que tentou anular a ata da convenção que definiu a vereadora como candidata, continua.

Por enquanto, o TRE determinou a retirada do PL da coligação do ex-governador Maguito Vilela (MDB). Até o dia 15, Dra. Cristina quer tentar recuperar o tempo perdido, apresentar suas propostas ao eleitor de Goiânia e escancarar o que a candidata define como “o câncer da política brasileira, que são estes acordos espúrios”.

Como está a situação da sua candidatura a prefeita de Goiânia?
A minha candidatura hoje está com autorização de realizar todos os atos de campanha, exceto tempo de rádio e TV [horas depois da entrevista, a Justiça Eleitoral retirou o PL da coligação de Maguito Vilela (MDB) e autorizou Dra. Cristina a entrar na propaganda eleitoral obrigatória] no horário eleitoral obrigatório. O pedido entrou na pauta do TRE [Tribunal Regional Eleitoral] para julgamento há duas semanas. Tivemos dois votos favoráveis.

O voto do relator, dr. Vicente Lopes, afirmou a constatação da fraude eleitoral cometida pelo PL e se posicionou a favor da nossa solicitação. Foi acompanhado pelo dr. Luiz Eduardo de Sousa. O dr. Átila Naves Amaral havia pedido vista. Estávamos na iminência de que o magistrado devolvesse o caso e pudesse ser julgada a nossa requisição junto ao TRE [na quarta-feira, 28, Dra. Cristina estreou na propaganda de rádio e TV].

A previsão é que a sra. possa concorrer na urna, mas com a incerteza de como será o desfecho do julgamento do registro de candidatura?
Exato. A maior incerteza era o tempo obrigatório de rádio e TV. Como o conjunto de integrantes da Corte acompanhou o relator, tivemos uma decisão favorável à nossa solicitação.

Qual é o prejuízo que a sra. avalia na sua campanha pelo tempo que ficou fora da campanha de rádio e TV?
Enorme. A rede social tem um papel importantíssimo hoje nas campanhas, mas não define a eleição. É uma somatória. Rede social, debate, rádio e TV. Com o debate da TBC e a entrevista de dez minutos da Record TV, a visibilidade que consegui foi enorme. Andei na Feira da Lua no sábado, 24, na Feira da Vila Nova, na Feira do Sol e na Feira do Cerrado no domingo, 25. Repetidamente as pessoas diziam “vi a sra. na Record” e “vi a sra. na TBC”. A TV ainda tem um papel muito importante nas eleições para a apresentação das candidaturas.

Como ficou a situação do candidato a vice-prefeito do PL? A definição do nome se deu no prazo final das convenções, mas depois o Coronel Luiz Rosa dos Santos decidiu se lançar candidato a vereador. Segunda-feira, 26, foi o prazo final para troca de nomes nas chapas. A sra. pretendia apresentar um novo vice?
Segunda-feira era o último prazo para as situações que estão dentro da conformidade, como eu esperava estar. Minha condição eleitoral é uma exceção porque está judicializada. Na verdade, a renúncia do candidato a vice-prefeito ainda não foi julgada, porque será analisada junto com o meu processo. Com certeza será acatada a renúncia, quando o PL será intimado pelo Tribunal e terá dez dias para indicar o novo candidato a vice.

A sra. tem realizado mais atos de campanha de rua ou na internet?
Tenho focado muito no trabalho de rua, com muito olho no olho. Minhas campanhas sempre tiveram base nestas ações. Acredito que estar presente para se apresentar, com o pé no chão, frente a frente com as pessoas tem um resultado muito maior. Tenho sentido muito a insatisfação e o desânimo das pessoas com as eleições, a descrença com a política.

Estar na rua para se apresentar e responder a questionamentos faz uma diferença enorme. Nas feiras, falei com pessoas que nem respondiam. Ao final, algumas até se propuseram a gravar vídeos em meu apoio. Tenho muito foco no corpo a corpo e a minha equipe tem trabalhado nas redes. Produzimos o material, fazemos as gravações e a minha equipe trabalha na distribuição.

Quais são os cuidados que a sra. tem tomado nas atividades de rua da campanha durante a pandemia da Covid-19?
Álcool em gel no bolso, máscara de boa capacidade de criar barreira no rosto, lavagem das mãos constantemente sem leva-las ao rosto e busca por um ambiente que me garanta o distanciamento.

A sra. disse que tem percebido uma insatisfação muito grande do eleitor. O que a sra. pretende apresentar para contrapor a descrença do goianiense com a política eleitoral?
O fato de que alguém será escolhido e governará para todo mundo. É a forma mais concreta de fazer as pessoas entenderem a importância do voto. Tenho usado muito o exemplo do restaurante. Você está com dez pessoas. O grupo escolhe o prato e você não participa da decisão, diz que tanto faz. Quando a comida chega, é algo que você não gosta. Você vai ter de comer. Esta é a situação que nós estamos. Se você não escolher, alguém irá decidir por você, que terá de engolir aquela situação por quatro anos. Tem muita gente desanimada, mas a pessoa consegue visualizar que a porta da casa, a segurança, a iluminação, a rede de transporte público e outras questões dependem do voto. É a escolha das pessoas.

Qual avaliação a sra. faz da gestão Iris Rezende (MDB)? O que a sra. pretende modificar?
Uma gestão muito desencontrada, cada secretaria com um projeto próprio, principalmente projetos de poder de grupos políticos, sem uma integração com as outras secretarias e com a cidade. O que é muito danoso. É fruto dos acordos partidários que interferem na administração de toda a cidade. Isto foi um fato bastante negativo. Em especial, destaco a saúde. Houve uma desconstrução no trabalho da saúde que precisa ser refeito de imediato. Temos cinco grandes unidades fechadas.

Estamos com cerca de 190 unidades de PSF [Programa Saúde da Família]. Goiânia cobre 50%. Deveria chegar ao menos a 80%. Precisamos ampliar a rede e tentar resolver o problema na base. É necessário reorganizar o sistema. Foram implantados dois sistemas de marcação de exames e consultas com informatização que faliram, não deram a cobertura necessária. Há um descompasso total. Se você precisa fazer dois exames, o sistema marca no mesmo horário em dois laboratórios totalmente diferentes e distantes. É uma coisa bem maluca o que tem ocorrido.

É urgente que tenhamos equipes na Sedetec [Superintendência de Desenvolvimento Tecnológico e Informação] com profissionais do município, especialmente os efeitos, que possam trazer uma solução junto ao programa do Ministério da Saúde. Mas são simplesmente ignorados enquanto servidores públicos. Precisamos valorizar o servidor e trazê-lo para a linha de frente na resolução dos problemas da cidade.

A pandemia continuará a impactar Goiânia em 2021. O que a sra. pretende fazer na saúde para atender a população da capital, já que ainda não sabemos quando teremos uma vacina com eficácia comprovada e aprovada para aplicar na população?
As normas sanitárias precisam ser aplicadas e cumpridas de maneira muito presente. Precisamos de mais campanhas que eduquem nossa população, que mostrem a necessidade de se proteger e proteger quem está próximo de você. Chamar os servidores públicos para a linha de frente de maneira comprometida e com condições de trabalho. Basta andar nas unidades para ver que não há condições de insumos e materiais. A rede foi absolutamente sucateada.

É preciso retomar imediatamente os serviços de laboratório de análises clínicas e raios-X das unidades. Temos os equipamentos e os profissionais, mas a Secretaria de Saúde fez a opção de terceirizar o serviço. Não é mágica, isto já existiu. Trazer valorização e compromisso para as pessoas que estão na ponta do serviço público municipal, que têm competência, conhecem o sistema e podem contribuir muito. Mas são desqualificadas pela direção da Secretaria Municipal de Saúde.

“O cartão de terminal integrado de bolso possibilita a economia de tempo, que é tão precioso hoje, e um bom trecho do trajeto”

“É o cartão de terminal de bolso. O terminal de bolso lhe possibilita parar em uma parada que não seja um terminal e economizar na distância” |Fotos: Fernando Leite/Jornal Opção

Na educação, seu plano de governo propõe melhorar os indicadores educacionais em Goiânia e adotar o princípio de qualidade do gasto no setor. Como a sra. pretende colocar isto em prática?
É importantíssimo garantir a valorização e a formação continuada de quem está na sala de aula, retomar a presença dos auxiliares de sala de aula, principalmente nas salas com alguma criança com deficiência. O ensino inclusivo só é possível se tivermos a presença da pessoa que auxilia a sala de aula. Queremos trazer acessibilidade para as escolas, não só física, mas também humana e ter recursos e metas a serem atingidos pelas unidades educacionais. Vamos estabelecer uma forma de competição saudável para que possamos alcançar índices tão sonhados, considerados ideais, de desempenho das escolas.

Precisamos resolver o problema do contingente de vagas. Temos em torno de 6 mil crianças na fila de espera, o que tende a aumentar muito porque muitas famílias perderam a capacidade financeira de pagar um estudo privado. Temos este índice como um grande desafio a ser superado. Algo que só podemos fazer com o estabelecimento ou ampliação dos convênios com as instituições conveniadas ao município da rede privada.

Como funcionaria a reestruturação que a sra. propõe nos órgãos que gerem o sistema do transporte coletivo na área de mobilidade?
O formato do transporte coletivo é bastante completo, só que não funciona. Precisamos ter uma câmara deliberativa que de fato se reúna, tenha um planejamento e o cumprimento do que está planejado. Precisamos criar um grande consórcio da Região Metropolitana de investimento. Não há como o transporte público funcionar bem se não houver investimento público. Algo que precisa ser feito pela composição dos 21 municípios que integram a Região Metropolitana.

Precisamos de recursos financeiros para investir em melhores condições de terminais, pontos de ônibus, que as empresas que detêm a concessão possam investir em aumento de frota. Uma frota que seja sustentável, com utilização de biodiesel. Goiânia não tem veículos movidos a combustível sustentável. Só combustível fóssil, o que é um grave problema para a nossa população. Precisamos fazer com que as empresas realizem este investimento. Para isto, tem de haver a tomada de responsabilidade do poder público daquilo que é a sua competência, como também as pistas de rolamento, com boa condição de trafegabilidade e segurança para os ônibus.

Por que a sra. propõe a recriação do Cartão Inteligente?
É o cartão de terminal de bolso. O terminal de bolso lhe possibilita parar em uma parada que não seja um terminal e economizar na distância. Se eu descer em um ponto de ônibus na Avenida 85, não preciso ir até o Terminal Isidória. Paro naquele ponto e o cartão me dá o direito de entrar em outro ônibus para ir ao Bairro Goiá ou à Vila Canaã sem precisar ir até o terminal. Hoje o sistema integrado é de terminal para terminal.

O cartão me daria esta possibilidade dentro de um tempo. Não é um cartão que poderia ser usado 24 horas depois da primeira viagem. A passagem daria direito a um tempo de uso que se pareça mais ou menos com o trajeto que a pessoa tem para chegar ao seu destino sem precisar fazer longos deslocamentos. Tem pessoas que passam por três terminais para chegar a determinado local. O cartão de terminal integrado de bolso possibilita a economia de tempo, que é tão precioso hoje, e um bom trecho do trajeto.

Como irá funcionar a prefeitura a partir da criação do conselho consultivo da gestão governamental municipal?
Não temos como fazer uma administração isolada. O poder público precisa se sentar à mesa com a sociedade civil organizada. Precisamos estar próximos do setor produtivo, com as organizações do terceiro setor, com o sistema S. Há muitas possibilidades de estabelecer parcerias que tragam um bom resultado para a população que não sejam absolutamente condicionadas ao poder público.

Podemos administrar a cidade de uma maneira mais inteligente e mais coletiva ao chamar as organizações para assumir a responsabilidade coletiva. São entidades que têm expertise, funcionários e condições de fazer um coletivo administrativo. Infelizmente, o que vemos são administrações absolutamente centralizadoras. O que não é o meu caso. Podemos estabelecer estes acordos em um jogo de ganha-ganha. Ganha a cidade, ganham as organizações, especialmente ganham as pessoas que irão receber os serviços.

As políticas públicas para mulheres sempre foram pauta da sua atuação parlamentar. No plano de governo, a sra. diz que quer criar o Plano Municipal de Políticas Públicas para Mulheres. Que papel este novo mecanismo teria?
Assistimos a um retrocesso muito grande das políticas públicas de emancipação da nossa população. Já dizia Simone de Beauvoir: em qualquer crise política, econômica ou social, as primeiras a perderem são as mulheres. É a realidade que estamos vivendo. Neste momento tão difícil, muitas famílias têm ficado exclusivamente nas mãos das mães, das mulheres.

Precisamos dar condições para que estas mulheres empreendam e se estabeleçam enquanto mão de obra. Para isto, as políticas públicas podem ajudar muito no campo da empregabilidade, do fomento aos pequenos negócios. A região da Rua 44 é uma grande vitrine desta situação. Se fizermos uma pesquisa rápida, verificaremos que a maioria das empreendedoras são mulheres, muitas das quais responsáveis por suas famílias.

Podemos trazer incentivos fiscais em parceria com a sociedade civil, com o sistema S, por exemplo, com o IFG [Instituto Federal de Goiás] e a universidade. Estabelecer cursos de capacitação para a vocação destas mulheres. A questão econômica é fundamental para trazer liberdade, emancipação e promover cursos de arte, cultura e esporte para que as pessoas possam interagir.

Temos de reduzir a barreira que encontramos hoje na sociedade. Aproximação entre pessoas se dá muito pela arte, cultura e esporte, o que pode ser oferecido em forma de programa. Podemos ter profissionais da educação física em parques e praças. A longo prazo, teremos um reflexo positivo na vida daquela pessoa que vive na cidade. Podemos ter curso de formação direcionado para as mulheres. E também ampliar as vagas nas casas de abrigo, que é a Casa da Mulher Brasileira de Goiás. Precisamos dar mais acesso a estas mulheres e crianças que sofrem violência física e sexual dentro de casa.

Sabemos dos impactos causados pela pandemia da Covid-19 na economia, principalmente porque vivemos um momento de incerteza sobre a continuidade do auxílio emergencial. O que a sra. pretende fazer para incluir economicamente as pessoas que podem ficar sem os R$ 600 mensais a partir de janeiro?
A situação pode se agravar muito. Precisamos melhorar a fiscalização e trazer para a formalidade a diversidade de comércio existente em Goiânia. Somos uma das poucas capitais em que o recolhimento de Impostos Predial e Territorial Urbano (IPTU) é maior do que o ISSQN, que é o Imposto Sobre Serviços. A inversão se dá porque a prefeitura não oferece condições de formalização dos pequenos e médios empreendimentos. E não temos fiscalização. Se conseguirmos estabelecer a fiscalização e a possibilidade de formalização, aumentaremos o recolhimento de imposto. O que nos possibilita fomentar o incentivo aos pequenos e médios negócios, pois dará condições fiscais e econômicas para que estas pessoas empreendam.

Não me arrisco a falar em redução de impostos porque não é algo factível. Na hora de fazer as contas, qualquer pessoa diante desta situação verá que não é possível. Preciso otimizar a capacidade de recolhimento para conseguir investir, especialmente nos pequenos e médios negócios com este dinheiro. É algo que também pode ser feito em parceria com a Fecomércio, Senar e Senac.

Temos aprovada em Goiânia a compra da merenda escolar dos pequenos agricultores familiares, o que não ocorre de maneira organizada e ampla. E pode ser feito em parceria com o Senar, com a própria associação de agropecuaristas, setor que é forte em Goiás. Mas são parcerias que não se estabelecem, que podemos fazer para ampliar o número de pessoas que terão seu autossustento, mas também ampliar o número de contribuintes para os caixas do governo municipal.

A sra. acompanha a discussão sobre a revisão do Plano Diretor desde que a proposta chegou à Câmara no meio do ano passado. Por que o projeto não avançou ao ponto de o prefeito Iris Rezende (MDB) retirar o texto de tramitação?
Como relatora na Comissão de Constituição, Justiça e Redação (CCJ), ficamos na expectativa da chegada da revisão, que atrasou dois anos para ser entregue à Casa. O texto deveria ter sido apresentado em 2017 e chegou em 2019. Houve um atraso bastante expressivo pela prefeitura. Quando chegou à Câmara, não tínhamos o parecer da Procuradoria. Apesar de que consegui fazer o trabalho de visita e fiscalização. São inúmeros volumes que compõem o Plano Diretor. Nos debruçamos sobre o texto e entregamos com celeridade.

Quando o projeto chegou à Comissão Mista, se fez a opção de contratar uma empresa especializada para dar assistência às subcomissões. Eu, por exemplo, presidi a Subcomissão de Desenvolvimento Humano, que engloba saúde, educação, moradia popular, assistência social. Tivemos uma assessoria muito qualificada por parte da equipe do ITCO e entregamos o relatório no prazo que nos foi definido no calendário da Comissão Mista. Infelizmente, a discussão foi focada em dois fundamentos. O primeiro foi a expansão de área territorial, o que fui totalmente contra, retirei toda a proposta de expansão dentro da CCJ. Vejo que Goiânia não precisa aumentar sua área de ocupação territorial, mas ocupar melhor a área que já existe. Outro foco que se deu foi nos índices de construção civil, que são importantes, mas o Plano Diretor não se resume a isso.

Um grave erro no texto da revisão foi a não obrigatoriedade dos planos setoriais. Tem diversos eixos, muitas propostas, mas não fala quando, como nem por que órgão será efetivado o que está descrito. Uma das nossas emendas previa o retorno da obrigatoriedade dos planos setoriais. Vejo como correta a retirada de pauta, porque é uma discussão que precisa ser deixada para o próximo governo que assumir no dia 1º de janeiro, que terá condições, de acordo com seu foco administrativo, de ter um Plano Diretor que seja realmente exequível. Que possa ser tirado do papel e colocado em prática.

“O poder público precisa se sentar à mesa com a sociedade civil organizada”

“Há muitas possibilidades de estabelecer parcerias que tragam um bom resultado para a população que não sejam absolutamente condicionadas ao poder público” | Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

A sra. disse que atuou o tempo todo para impedir a expansão urbana, mas participou da assinatura de emendas coletivas que previam o aumento de 32% da área territorial urbana de Goiânia. Como a sra. fica diante deste dilema?
Naquela emenda tinha a minha rubrica. Eu fui presidente da Subcomissão de Desenvolvimento Urbano, que propôs 20 emendas à revisão do Plano Diretor. No dia de assinar esta emenda – deixo claro que assinar uma emenda não significa que eu seja autora ou apoie a proposta –, eu assinei na crença de que fossem as minhas e tinha esta da expansão. O que importa é a votação na Comissão Mista e a segunda votação em plenário. Em nenhuma das duas situações, mesmo porque não existiram, teria o meu voto.

O que a sra. pretende fazer para reduzir o déficit de vagas na educação infantil em Goiânia?
Ampliar a rede de conveniadas para aumentar o número de vagas. Temos conveniadas com condições de atender mais crianças. Só não atendem porque o poder público não lhes dá condições. A condição é o repasse per capita para a instituição em dia ou com um atraso menor do que a realidade que as conveniadas vivem hoje. O repasse às conveniadas já chegou a atrasar seis meses. Travamos a pauta da CCJ em um momento para obrigar o ex-prefeito Paulo Garcia (PT) a repassar o dinheiro das conveniadas. Se pagarmos minimamente em dia e oferecermos condições, a rede será ampliada automaticamente.

É uma rede que segue todo o rito do Ministério da Educação e a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB). São instituições de grande confiabilidade, algumas têm mais de 50 anos de operação na educação em Goiânia. Podemos ter nesta rede para ampliar as vagas as escolas privadas. A depender do contingente, é possível fazer uma negociação com as escolas de bairro para firmar uma parceria com vagas específicas para o ensino municipal, que seriam também oferecidas em forma de convênio.

A sra. aborda a educação especial no seu plano de governo. Existe uma discussão nacional da separação dos alunos da educação especial dos outros estudantes. Que avaliação a sra. faz da proposta?
É péssimo. Um retrocesso. Sou madrinha e fundadora de uma escola de inclusão que fica na zona rural de Luziânia, a Escola Estadual Maria Teixeira. Vemos que com responsabilidade conseguimos ter um ensino de extrema qualidade. A coletividade, a convivência, com uma orientação correta e clara é saudável para toda sociedade.

Tenho uma irmã que tem um déficit cognitivo e que teve um ensino inclusivo. Hoje ela é autônoma, mora sozinha e trabalha em um supermercado. É possível alcançar índices de dignidade e de autonomia se tivermos seriedade no processo de educação. A segregação não pode ser aceita por nossa sociedade. Porque não possibilita à criança não deficiente o convívio saudável nem o desenvolvimento da criança com deficiência.

A área social tem sido bastante explorada na campanha, principalmente pelos impactos da pandeia. Qual é a sua proposta para a área social?
Fortalecer os Centros de Referência de Assistência Social (Cras). Através dos Cras, que têm uma avaliação diagnóstica daquela comunidade, podemos investir em programas sociais que levem a pessoa para uma situação de dignidade. Os auxílios são emergenciais, pontuais, mas não podem se traduzir em uma permanência, porque passarei a trabalhar com a lógica do escravo feliz. Eu lhe escravizo com o pagamento de um auxílio e impeço o seu desenvolvimento.

Uma sociedade digna é onde as pessoas se desenvolvem, se emancipam, são amparadas e apoiadas por políticas públicas de maneira emergencial, mas que os auxílios e políticas caminhem para que a pessoa tenha autonomia. Este caminho que farei, com estruturação dos Cras e com uma verdadeira assistência, não um assistencialismo para perpetuação de poder, porque considero isto um grande erro, um grande atraso.

A sra. chegou a citar a cultura e o esporte, mas não especificou como pretende atuar nestas duas áreas.
Temos um vácuo. A Secretaria de Cultura promove alguns eventos, mas não promove o fomento à cultura e ao esporte. Goiânia hoje não tem qualquer programa desportivo, nem mesmo jogos escolares a cidade tem mais. Isto é um absurdo! Nosso último grande projeto, o Programa de Iniciação Esportiva Draulas Vaz, foi encerrado na gestão anterior do prefeito Iris Rezende. Precisamos urgentemente da retomada dos programas na cultura e na educação, porque são fundamentos que trazem um passaporte real para a vida da pessoa, não só deslocar-se, mas também crescer e se desenvolver.

Proponho no meu plano de governo a retomada da Secretaria de Turismo e do Fundo de Turismo. Goiânia não conta hoje com estacionamento para ônibus de turismo nos pontos de visitação, como na Praça Cívica, Bosque dos Buritis ou lugar algum. Não exploramos de maneira adequada o nosso turismo. A região da Rua 44 é um polo que mostra o quanto as pessoas vêm a Goiânia e não há um amparo para visitar a cidade. Apesar das nossas guias de turismo serem muito qualificadas, não têm um mecanismo de política pública para acessar esta grande população que vem a Goiânia e não leva a cidade consigo a não ser as mercadorias que são, de maneira muito brilhante, produzidas aqui.

Caso a sra. não seja eleita ou a Justiça Eleitoral não defira a sua candidatura, qual será seu futuro político?
Como diz o ditado, o futuro a Deus pertence.Sou uma pessoa que tenho uma profissão, tenho um reconhecimento muito forte como fisioterapeuta especializada em queimaduras e como professora. Presto treinamento para várias equipes de saúde, com preparação para que as equipes atuem com pacientes vítimas de queimaduras. Treinei toda a equipe da unidade de queimados do Hugol [Hospital Estadual de Urgências da Região Noroeste de Goiânia Governador Otávio Lage de Siqueira], requalifiquei pelo Pronas [Programa Nacional de Apoio à Atenção da Saúde da Pessoa com Deficiência], que é um programa do SUS [Sistema Único de Saúde]. Tenho uma carreira. Vamos seguir. Onde eu estiver contribuirei para o coletivo, para as pessoas, que é minha grande paixão e minha grande inspiração.

Outra possibilidade caso a sra. não seja eleita prefeita está na segunda suplência na coligação de deputados estaduais do PSDB, seu antigo partido. A sra. tem a expectativa de que possa assumir como suplente em algum momento?
Sou uma pessoa muito pragmática. Lido com as coisas reais. Desejo toda sorte do mundo à deputada Lêda Borges (PSDB), ao deputado Diego Sorgatto (DEM) e ao deputado Gustavo Sebba (PSDB), que concorrem ao cargo Executivo nas suas cidades. Estão com campanhas bonitas. Diego está muito bem avaliado, Lêda também, Gustavo tem melhorado seu desempenho. Mas não conto com isso. É uma possibilidade real, mas que só pode ser definida no dia 15 de novembro. Vamos aguardar. Sou bem pé no chão. Não construo castelo em areia.

Como a sra. a avalia o fato de ter sido lançada candidata a prefeita pelo PL e depois o partido ter decidido apoiar a candidatura do ex-governador Maguito Vilela (MDB)?
Vejo como o grande balcão de negócios que se transformaram os partidos no Brasil. É uma transformação que não tem mais sustentação, não tem mais aceitação pela sociedade. A sociedade já entendeu que estes grandes acordos a portas fechadas são pagos com dinheiro público. É uma secretaria que será dada ao partido X, duas secretarias para o Y. São partidos que não vão para a administração pública servir a cidade ou as pessoas. Vão para se servirem ou os interesses dos seus partidos.

Discordo. Tanto que não aceitei a composição neste formato porque não concordo com este tipo de prática que está sangrando a sociedade brasileira. Tem levado a sociedade brasileira para um extremo. E podemos chegar a uma catástrofe de convivência coletiva. Porque as pessoas vão perder a confiança nos poderes constituídos e entraremos em um jogo do vale tudo, quando todo mundo perde. Vejo como uma atitude inaceitável do meu partido. Uma atitude que não cabe mais na prática política brasileira. Vou lutar até o fim, tanto para expor estes acordos espúrios como para derrubar este tipo de manifestação no Judiciário.

Por outro lado, há quem avalie que a sra. possa ter pecado na atuação política para formar e fortalecer a chapa. Na data final das convenções, a sra. demorou a conseguir apresentar um candidato a vice-prefeito. A sra. avalia que houve uma dificuldade para formar a chapa majoritária?
Dos 42 nomes da chapa legislativa, 30 eu levei para o PL. Trabalhei muito para que tivéssemos uma composição boa. Em relação à composição partidária, fui entendendo que o próprio partido fazia a maré contrária. Eu estabelecia um diálogo, levava para o partido, a pessoa se entusiasmava, mas no outro dia já recuava. Houve uma manobra política já na composição que não me possibilitou construir alianças claras e sólidas.

Mesmo porque não domino o Fundo Partidário do PL. A direção geral, que domina o Fundo Partidário, não fazia qualquer proposta de composição com uma melhor distribuição do Fundo Partidário. Acabei me vendo em uma situação bastante difícil, com chapa pura e sem Fundo Partidário. Fiquei com a dívida, porque a convenção foi com o meu dinheiro, pelo meu compromisso com as pessoas que realizaram o evento.

Em determinado momento na pré-campanha, a sra. e a candidata Adriana Accorsi (PT) chegaram a conversar para tentar a formação de uma chapa, com a possibilidade de a sra. ser vice da deputada estadual na disputa em Goiânia. Qual foi o principal impedimento para que a negociação não avançasse?
O meu partido. Foi justamente o que ocorreu. Não foi só com a Adriana. Tinha uma conversa muito frequente com o deputado federal Elias Vaz (PSB), com os deputados Alysson Lima (Solidariedade), com Virmondes Cruvinel (Cidadania) e com o Delegado Eduardo Prado (DC) quando ainda era pré-candidato. O mesmo com o deputado federal Francisco Jr. (PSD) quando era pré-candidato. Tínhamos um diálogo frequente, até pelo fruto do nosso convívio na Câmara. Mas o partido não me possibilitou o estabelecimento destas parcerias.

Pelas dificuldades que a sra. diz que teve no PL, a avaliação é de que foi um erro trocar o PSDB pelo PL para se lançar candidata a prefeita?
É! A vida às vezes é feita de erros e se acerta no final, não é? Às vezes perdemos ganhando e ganhamos perdendo. Por ser uma mulher de muita coragem e ter provas, todos os acontecimentos me possibilitaram mostrar esta situação tão danosa e nefasta na política brasileira. Hoje me vejo em uma situação em que presto um grande serviço para a sociedade por expor um acordo que a própria população e a cidade pagam. Talvez este tenha sido o caminho torto que tem me levado a uma reta. Não sou uma pessoa que me arrependo muito do que faço. Lamento e aprendo com os erros, mas foi a escolha que me deu a possibilidade de expor o câncer da política brasileira, que são estes acordos espúrios.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.