“Desejo do secretário Alessandro Melo sempre foi dar calote nos professores”

Presidente do Sintego diz que secretário de Finanças e prefeito Iris Rezende (MDB) têm evitado negociação. “Vai ter de pagar retroativo com juros e correção”

Bia de Lima - Foto Fernando Leite Jornal Opção 10

Bia de Lima, presidente do Sintego | Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

Os profissionais da educação começaram o ano de 2019 com um problema que ainda não foi resolvido: o salário dos funcionários do Estado referente ao mês de dezembro. Enquanto as negociações ganham novos capítulos, a presidente do Sindicato dos Trabalhadores em Educação no Estado de Goiás (Sintego), Bia de Lima, discute outras questões com a equipe do governo. Depois de dialogar com a secretária estadual da Economia, Cristiane Schmidt, a representante da entidade foi bater à porta do chefe do Executivo, Ronaldo Caiado (DEM), para conseguir uma posição favorável para a categoria.

Se os problemas dos profissionais da educação ficassem restritos ao Estado, Bia de Lima teria mais tempo para se dedicar às negociações com o governo e conter o desejo de deflagar greve de parte dos funcionários das escolas públicas. Mas o não pagamento do piso nacional pela Prefeitura de Goiânia pode chegar às vias judiciais. “Iris [Rezende (MDB), prefeito] diz o seguinte: ‘Vem aqui todo mês todo mês tomar um café, comer uma broa, um pão de queijo’. E eu lá quero comer pão de queijo? Estou gorda, não preciso comer pão de queijo. Quero é resolver os problemas da educação. Mas o prefeito não resolve. Fica com essa conversa fiada, essa baba de calango.”

Augusto Diniz – A sra. foi chamada pelo governador para uma reunião na quarta-feira, 13. Como foi essa conversa?
Na verdade foi um trabalho que fizemos. No dia 3 janeiro o governador chamou todos os sindicatos para anunciar a situação econômica em que Ronaldo Caiado (DEM) encontrou o Estado. Naquele momento, as entidades sindicais me escolheram para falar em nome de todas. Na exposição feita pela secretária estadual de Economia [Cristiane Schmidt] mostrando o quadro econômico do estado, eu disse que aquela realidade só era novidade para o governo. Para nós servidores públicos não havia nada de novidade.

A verdade é que há alguns anos a realidade econômica do Estado caminha para uma situação crítica. Se não fosse Caiado, José Eliton (PSDB) ou qualquer outro iria enfrentar essa questão. Principalmente porque a política econômica aplicada pelo governador Marconi Perillo (PSDB) foi de desmonte das possibilidades de investir no serviço público. Com a desculpa de atrair grandes empresas e investimentos para Goiás, em certo momento é atrativo.

Por outro lado, da forma como Goiás fez, traz um prejuízo imenso, especialmente para os políticas e serviços públicos. Foi uma linha de incentivos fiscais de forma vertiginosa. Você atrai as empresas, e diante do mercado externo – que virou uma guerra entre os Estados -, porque a forma oferecida de incentivos foi realmente muito interessante. Só que há um preço a se pagar por isso. E agora o preço começa a ser cobrado.

Enquanto as empresas estão chegando e se faz propaganda disso, é muito legal. Mas quando as contas do Estado deixam de bater entre as despesas e o que se arrecada entra a parte dolorosa. E chegou o momento. Há muito vínhamos anunciando. Nós do Sintego [Sindicato dos Trabalhadores em Educação no Estado de Goiás] fizemos manifestações na porta da Assembleia pedindo aos deputados que não perdoassem a dívida de R$ 1,3 bilhão da JBS/Friboi. Sabíamos o quanto isso custaria.

Agora a arrecadação não é suficiente para as despesas. A política de incentivos fiscais e do perdão que o governo deu para a Caoa, JBS/Friboi e inúmeras outras empresas, a própria Enel no momento em que se vendeu a Celg teve as dívidas perdoadas com o Estado de Goiás, somam-se a isso. Ficou um silêncio absoluto no Estado. Por mais que nós gritássemos e pedíssemos, não fomos ouvidos a pleno interesse dos diversos segmentos da sociedade goiana. Agora o governador está a esbravejar, a citar, e muitos tentam tapar o Sol com a peneira.

Poucos fazem a mea-culpa. Tanto é que na audiência com o governador no dia 3 de janeiro eu disse, na frente de mais de dez deputados, que aquilo tinha um preço. Os deputados autorizaram. Não tem de se falar que é só o governador Marconi. A Assembleia sempre aprovou. Denunciamos ao longo destes anos todos, principalmente nos últimos, que Goiás incorria em alguns problemas. Não cumpria os 25% com a Educação.

Faz alguns anos que denunciamos isso de forma oficial, junto ao Ministério Público, TCE [Tribunal de Contas do Estado] e todos os órgãos que, de uma forma ou de outra, pudessem nos ouvir. Não temos sido ouvidos. No final do ano passado, o Ministério Público confirmou que Goiás efetivamente não vinha empenhando os 25% e nos últimos anos foram R$ 2 bilhões e 300 mil que o Estado deixou de investir na Educação. Já havíamos anunciado e denunciado isso.

Fomos pegos com uma realidade, que se tornou fato, de o governo não pagar a folha dentro do mês. Começou a dividir em pagar quem recebe até R$ 3,5 mil no mês e quem ganha mais do que isso até o dia 10 do mês seguinte. Era um mecanismo que o governo foi se valendo para esticar o pagamento porque o orçamento não era suficiente. Quando chega no momento em que o governo fez uma proposta pagar dezembro em oito parcelas, nós não concordamos. Depois, em outras rodadas de negociação, fez em seis e não concordamos.

Ocorreu agora uma história inusitada que chega a ser engraçada. Fomos recebidos pelo governo, vínhamos negociando. Houve uma proposta de cinco parcelas e nós também não aceitamos. Por conta de não termos concordado e a secretária da Economia dizer que não foi dela a proposta, a divisão em cinco parcelas nunca existiu. Na audiência que tivemos semana passada com o secretário de Governo, Ernesto Roller disse que não são cinco parcelas porque nós não aceitamos. “Como vocês não aceitaram dividir o pagamento de dezembro em cinco vezes, ficou em seis.”

Nunca vi isso na minha vida. Não aceitar cinco e ficar em seis? Isso para mim é inédito. Comecei a rir, o secretário ficou meio sem graça. Isso para mim não existe! Estamos tentando retomar as negociações com o governo muito mais em função de outras questões. Busquei outra alternativa. Quando vi que daquele mato não saía coelho, e os coelhos que de lá estavam saindo não eram os que a educação queria, busquei negociar diretamente com o governador.

Chamei uma assembleia que caminhava para a deflagração de uma greve por tempo indeterminado. Muitas vezes uma greve faz muito mais efeito quando está sendo planejada e anunciada do que depois de deflagrada. O efeito inicial é mais importante do que a greve em si. Aproveitei a mobilização da nossa categoria para fazer uma negociação diretamente com o governador. Tivemos êxito. Um êxito parcial, mas tivemos.

Junto com a secretária de Educação [Fátima Gavioli] e o secretário da Casa Civil [Anderson Máximo], fomos atendidos pelo governador no final de fevereiro. Pedi duas coisas ao governador, que para mim são as mais importantes. A primeira foi que os recursos da Educação sejam destinados para a Educação. Que a Educação fosse tirada do fundo único, que tem consumido os recursos da Educação, para que a pasta da área administrasse os recursos do setor. Tem se feito um malabarismo para, na hora de se fazer os balancetes, concluir conforme as conveniências.

Fiquei até surpresa. O governador de pronto atendeu. Cheguei até a brincar “o sr. está falando sério?”. Caiado disse que sim, estava falando sério. “Vou colocar o dinheiro da Educação disponibilizado para a Educação”, disse o governador. Comentei com o governador que vai entrar para a história se isso acontecer. “O sr. resolverá 70% dos problemas da Educação com essa medida.”

E disse ao governador que o outro ponto eu estava lá não para pedir, mas para propor. Venho propor o pagamento de dezembro de forma diferente como foi posto para as outras categorias. Como temos verba vinculada constitucionalmente, nem poderíamos estar sem receber nossos salários de dezembro.

“Quando vi que daquele mato não saía coelho, e os coelhos que de lá estavam saindo não eram os que a educação queria, busquei negociar diretamente com o governador”

caiado e divida das bolsas

Na primeira reunião com os representantes dos servidores, no dia 3 de janeiro, o governo fez proposta de pagar o salário de dezembro dividido em oito vezes, medida que não foi aceita pelos sindicatos | Foto: Lívia Barbosa/Jornal Opção

Augusto Diniz – Referente à verba do Fundeb?
Inclui o Fundeb [Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação]. Quase todas as verbas da Educação são vinculadas. Além do Fundeb tem salário-educação e uma série de outros complementos da receita. Propus ao governador que, no lugar de esperar o bolo completo para se pagar a folha, que fosse pagando na medida que houvesse o recurso. O governador aceitou.

Levamos para a assembleia geral e colocamos em votação. É importante dizer que foi uma votação apertada mas ganhou a primeira proposta de aguardar o início do pagamento. Começamos então com o pagamento de 44% da categoria, que recebeu ainda em fevereiro, de quem ganha até R$ 3,5 mil. Estamos com R$ 28 milhões aprovados terça, 12, na Assembleia, o que vai atingir mais de 55% dos profissionais. Há um outro projeto de R$ 20 milhões, que teve a primeira votação na quarta e a segunda na quinta, 14. Isso poderá chegar a pouco mais de 60% dos servidores da Educação recebendo o mês de dezembro.

O que aconteceu neste ínterim que para nós foi muito desagradável? É a primeira vez na história de Goiás que o governo não respeita a paridade entre quem está na ativa e quem aposenta. Os recursos da Educação tem de ser usados para pagar quem está na ativa, e cabe ao governo, através do Tesouro, fazer as dotações orçamentárias para se pagar quem está aposentado. Para minha surpresa, de forma muito desagradável, o governo não respeitou a paridade.

Minha expectativa era que na mesma proporção que saísse o pagamento para os servidores da ativa, o governo pagasse os aposentados. Portanto, estive por duas vezes ocupando a antiga Secretaria da Fazenda [hoje da Economia]. Porque nesse caso, a cobrança terá de ser feita à secretária da Economia, portanto ao Tesouro. Na sexta-feira véspera de Carnaval, 1º, estive com a secretária, ocasião em que a Cristiane Schmidt foi bastante reticente ao dizer que essa era uma questão difícil, que o governo havia arrependido de pagar a Educação de forma separada dos demais servidores e que o governo estava pagando o preço por isso.

Disse à secretária que o preço pago pelo governo era o de ainda não ter uma greve. Se esses pagamento não estivessem acontecendo, com certeza a categoria já estava em greve. E uma greve na educação você sabe quando começa, mas nunca sabe quando ela termina. O governo está no lucro.

Augusto Diniz – O fato de não deflagrar greve para exigir o pagamento dos salários de dezembro gerou críticas ao Sintego.
Muitas críticas. Eu tenho sido muito criticada por dois motivos. Esta foi uma decisão bastante planejada. Teríamos um preço a pagar se tivéssemos deflagrado uma greve. E teríamos outro preço a pagar ao não deflagrar a greve. Se estivéssemos de greve desde fevereiro, estaríamos com grande parte da população contrária a nós. Seria dito que o governo começou agora, quem nem deu tempo de resolver os problemas para se fazer greve. A própria categoria tinha muita dificuldade de fazer greve contra o Marconi.

Já tivemos greve em que dizíamos que estávamos com 40% a 50% da categoria parada, mas na verdade estávamos com 10%. A última de 2017 foi uma greve atípica. Ficamos 51 dias de greve. Foi quando conseguimos garantir o piso, auxílio-alimentação, e saímos da greve de forma bastante vitoriosa. Mas foi uma paralisação muito difícil, com pouca adesão. Até porque a realidade da Educação hoje é muito diferente. Há diversas questões que acabam por dificultar as pessoas estarem em greve. Muitas escolas militares, de tempo integral em que o professor tem gratificação de dedicação exclusiva de mais de R$ 2 mil.

As pessoas deixam de participar quando outrora tínhamos movimentos com bastante adesão.

Rodrigo Hirose – A opção da categoria por não entrar em greve no mês passado. Mas em outros anos vimos um Sintego mais aguerrido. Está pintando um Sintego paz e amor, mais negociador e menos combativo?
Não está pintando um Sintego paz e amor. Muito pelo contrário. Sempre fui vista como uma pessoa muito radical. Tenho até procurado melhorar minha imagem para ter mais diálogo. Sintego pagou um preço altíssimo em tempos passados justamente por essa concepção mais aguerrida, que era vista muitas vezes como intransigente. Acabou que não se avançou ou perdemos situações, como foi o caso da titularidade. E não foi por falta de enfrentamento. Fizemos enfrentamentos muito duros e acabamos perdendo.

Tenho procurado, nas duas gestões, o meio-termo. Na hora que é necessário ir para o pau nós vamos. Quando é possível avançar negociando e poupando a categoria de outros desgastes, assim temos feito. Observei no ano passado que a saúde fez uma greve muito difícil e acabou ficando dois meses com salários cortados. Essa situação estaria posta hoje na educação, não tenho a menor dúvida.

Preferi resolver esse problema de forma articulada, com diálogo. Não tenho a menor dúvida que se no campo do diálogo não houver avanços e se necessário for mobilizar a categoria para fazer as lutas de rua e de enfrentamento, o Sintego fará. É óbvio que o contexto hoje para os sindicatos como um todo é muito difícil. Uma greve na educação não fica menos de R$ 1 milhão. Nossa greve de 2017 ficou em mais de R$ 1 milhão.

O governo federal tenta, com a MP [Medida Provisória] 873, acabar com os sindicatos.

Rodrigo Hirose – É a MP que tira o desconto da folha?
É um ataque frontal ao movimento sindical brasileira. Principalmente às vésperas da retirada dos direitos dos trabalhadores com a Reforma da Previdência, que ataca de força pesada os trabalhadores da educação e os rurais. Não há categoria mais atingida por essa PEC do que as professoras e os rurais. É um forte ataque à educação. Estamos enfrentando a Reforma da Previdência, que quer descapitalizar o movimento sindical, e fazer o contraponto e o enfrentamento a esta onda de direita que avança sobre o Brasil. O governo ataca o movimento sindical, a organização dos trabalhadores, justamente para enfraquecer o enfrentamento ao governo.

“É a primeira vez na história de Goiás que o governo não respeita a paridade entre quem está na ativa e quem aposenta”

 

Bia de Lima cineminha - Fotos Fernando Leite Jornal Opção

Fotos: Fernando Leite/Jornal Opção

Augusto Diniz – O que vem a ser a declaração da sra. de que uma greve custa R$ 1 milhão?
No caso da educação, temos uma forma diferente de fazer movimento. É o sindicato mais democrático que existe em Goiás. Não existe em Goiás sindicato mais democrático do que o Sintego, tanto na sua organização interna como na forma de se movimentar. O Sintego não tem só a direção estadual, tem também 36 regionais sindicais com estrutura, carro, filiados.

 

A direção do Sintego é composta de 1 mil pessoas. Só a diretoria estadual e as regionais são mais de 1 mil pessoas. Quando toda essa engrenagem é movimentada para fazer assembleias, por exemplo, o Sintego traz as pessoas do interior para Goiânia. Pagamos ônibus, alimentação. Na última assembleia, tínhamos quase 2 mil pessoas, com mais de 1 mil pessoas que vieram do interior. Fazemos assembleias localizadas e depois na capital para articular o Estado inteiro.

Movimentar a engrenagem do Sintego é muito caro. Não foi pelo custo que seria uma greve. Muito mais o custo que seria para os profissionais da educação. Em tempo de governos de direita como temos em Goiás e no Brasil, fazer um movimento em que se mobiliza a categoria para realizar uma greve estaríamos expondo os profissionais a cortes de ponto e outras formas de retaliação.

Estamos usando racionalmente o potencial da nossa categoria de uma forma mais estratégica para não expor as pessoas. Estamos acompanhando a situação de um professor que se posicionou em sala de aula em uma escola militar e foi arbitrariamente afastado. O professor está suspenso por 60 dias com intimação da secretária de Educação. Vou até a secretária para saber o porquê dizem que o professor se posiciona com ideias de esquerda e de forma antirreligiosa. Não se respeita a Constituição e pune-se o professor.

Rodrigo Hirose – A secretária usou esses termos na advertência ao professor?
Está documentado o coronel usando esses termos e a secretária endossa a ação. Ficamos de nos encontrar na quinta-feira, 14 [a entrevista foi concedida na quarta]. Preciso resolver essa situação. O professor volta para a sala de aula ou o bicho vai pegar em Goiás. Se deixarmos passar uma situação de ataque ao trabalho docente como essa, não sei onde vamos parar.

É um desrespeito à Constituição, que dá liberdade de cátedra, é o direito do professor de se posicionar na sua sala de aula. E agora o professor está sendo policiado de forma literal? O coronel escreveu no documento “posições esquerdistas, não respeitando a doutrina da neutralidade”.  Desde quando existe doutrina da neutralidade?

Rodrigo Hirose – A escola sem partido já começou em Goiás?
Apesar de termos conseguido barrar isso em Goiás, em várias prefeituras e Câmaras, na verdade avança na calada, no silêncio, e se prejudica o ensino. Há retaliação a professores em Anápolis e em São Luis de Montes Belos, que inclusive está afastado por 60 dias. Fui informada disso na terça, conversei com a secretária na quarta e vou conversar com ela pessoalmente amanhã [quinta, 14]. Caso a secretária não volte atrás nessa decisão, vamos entrar com um mandado de segurança. Isso é uma afronta ao trabalho do professor.

Assim como há uma afronta ao trabalho jornalístico – todo dia estamos vendo isso -, é uma afronta ao trabalho do professor na sala de aula. O Sintego não vai admitir tal hipótese de forma alguma.

Rodrigo Hirose – Como o fim da contribuição sindical obrigatória impactou o Sintego?
O Sintego hoje é o maior sindicato no número de filiados, com mais de 40 mil, e uma estrutura invejável. Sintego sempre foi muito correto, muito sério em suas prestações de contas, age de forma transparente. E é de uma lisura com o recurso do filiado. É um sindicato que tem clube em Caldas Novas para oferecer à categoria, hospedagem em Goiânia, no interior. Tem sede própria em quase todas as regionais. A estruturação do sindicato pega na forma de se conduzir a entidade.

Neste ano o Sintego completa 30 anos de existência. Depois do Centro de Professores de Goiás (CPG) veio o Sintego. Nesses 30 anos, o Sintego faz congresso para mais de 2 mil pessoas, coisa que nenhum outro sindicato faz mais porque o custo é muito elevado. O Sintego faz no Centro de Convenções. Oferece estrutura para todos que vêm. As 2 mil pessoas não pagam nada, o Sintego banca tudo. Sintego conta com profissionais liberados pela prefeitura ou do próprio sindicato para garantir o trabalho.

Sintego atua não só no Estado, mas em quase todos os municípios de Goiás. São poucas as cidades que não são filiadas ao Sintego. Nossas diretorias reginais cuidam dos municípios. Somos o sindicato que atua no município de Goiânia. Essa estrutura grande tem custo. Com o imposto sindical, possibilitava ao Sintego fazer os investimentos. Temos um projeto de construir no Centro de Goiânia um prédio com o hotel da educação. Com o fim do imposto sindical, esse projeto tende a ficar engavetado até que se apresente uma outra situação. Porque a prioridade do Sintego é a luta.

Rodrigo Hirose – Qual foi o tamanho do impacto financeiro?
É grande. Mas a arrecadação mensal do Sintego continua a mesma. Sintego tem ficha assinada individualmente de todos os seus filiados. Todas as pessoas filiadas autorizam a contribuição ao sindicato. Em nenhum lugar se faz trabalho de cooptação, como vemos prefeitos mandando filiar. No Sintego não.

É feito um trabalho de formação, conscientização, investimento ao filiado, com advogado, com estrutura, com carros, ônibus. Temos hospedagem com 120 leitos em Goiânia com van que leva ao hospital, rodoviária. Fazemos ajuda em todos os aspectos que você puder imaginar.

Há muito entendemos que a atuação do Sintego não pode ser só do ponto de vista trabalhista. Teria de ser do ponto de vista trabalhista, mas no lazer, social. Principalmente porque nossa categoria tem envelhecido. E por conta desse envelhecimento tem adoecido bastante. Esse é um dos motivos que nos leva a ter de construir outra hospedagem. Os 120 leitos que temos ficam cheios com frequência. Há filiados com dificuldade que vêm para Goiânia fazer tratamento de toda ordem e natureza.

Nossa categoria é muito pobre. O professor nem tanto. Mas os administrativos da educação têm complemento de salário mínimo. Nos vimos na obrigação de oferecer outros serviços que não só a luta trabalhista. Além de oferecer advogado a quem precisar para garantir uma licença de aprimoramento até a sua aposentadoria, oferecemos essa estrutura no Estado, hospedagem, o clube em Caldas Novas como um mecanismo de lazer.

Não é só trabalhar, tem de ter lazer. Além de Caldas Novas, há outro clube em Aparecida de Goiânia que estamos oferecendo pela categoria. São serviços que, ao longo dos anos, vimos a necessidade de também oferecer, até porque muitas vezes a pessoa não vê a luta premente, mas vê a possibilidade de usar um advogado, ir ao clube ou vir a Goiânia. Pessoal do Norte do Estado usa nossas hospedagens de forma contínua. Ontem recebi fotos de professores hospedados que me diziam que precisa de pintura. São demandas que vamos atender.

Situações como essa eram resolvidas mais rápido quando tínhamos o imposto sindical. Com o fim da contribuição sindical, mantivemos o que sempre fizemos, que foi ser cuidadosos de sobreviver com a arrecadação mensal. Vai fazer falta? Não resta dúvida. Mas não vai impedir o Sintego de lutar.

“Nossa categoria é muito pobre. O professor nem tanto. Mas os administrativos da educação têm complemento de salário mínimo”

Mobilização Sintego na Assembleia - Foto Divulgação Sintego editada

Sintego acompanhou de perto aprovação em duas votações na semana passada dos projetos de créditos suplementares no total de R$ 48 milhões para pagamento dos salários de dezembro de parte dos servidores da educação | Foto: Divulgação/Sintego

Rodrigo Hirose – Qual é o valor que o Sintego deixou de contar desde o fim da contribuição obrigatória?
Depende da arrecadação. É um valor significativo que nos ajudava a fazer os complementos do serviço sindical. Tivemos de diminuir o número de advogados, de funcionários do Sintego, para caber no nosso orçamento mensal. O Sinego sempre teve oposição, o que é normal. Processo democrático é isso, ter pessoas que não comungam com a forma que militamos. É saudável. Não vejo isso como problema. Temos disputa na base no município de Goiânia, no Estado. Há grupos que mobilizam para fazer o enfrentamento no Estado.

Não é a primeira vez que fazem alardes com informações de que estaria havendo desfiliações em massa do Sintego. Isso nunca existiu. Nem outrora, nem agora. “Estão saindo não sei quantos professores para ir ao Sintego desfiliar.” Fiz questão de gravar um vídeo com os professores que estiveram na sede do sindicato para saber como estava a negociação com o governador para o pagamento do salário de dezembro. Depois que apresentamos os esforços feitos para que o Estado regularize o pagamento, essas pessoas gravaram um vídeo conosco. Ninguém desfiliou. Normalmente quem propõe desfiliação em massa nem filiado é.

Não resta dúvida que o movimento sindical no Brasil enfrenta momentos muito difíceis. Encara o confronto direto que o governo federal faz, com a direita tentando enfraquecer a luta dos trabalhadores. Mas isso é próprio do que está posto no cenário da análise de conjuntura atual.

Augusto Diniz – Quando a sra. falou da preocupação que as professoras têm com relação à nova PEC da Reforma da Previdência, tem a ver com o envelhecimento da categoria?
Principalmente com o fato de que Goiás está há nove anos sem concurso público. Faltam mais de 22 mil profissionais na nossa categoria na rede estadual. Isso tem um impacto direto na qualidade do ensino na sala de aula.

Augusto Diniz – Mas essa é uma realidade apenas do Estado ou os municípios vivem situação parecida?
No município de Goiânia, a prefeitura tem feito continuamente concurso público. Aqui temos uma categoria mais jovem. No caso de Aparecida, o município tem feito concurso público e temos mais de 8 mil novos profissionais. Em Goiânia são mais de 10 mil novos servidores. Nas redes municipais o impacto é menor.

Mas no Estado há o fato de não haver concurso ao longo de nove anos para professor e 22 anos para técnicos-administrativos. A secretaria, na gestão passada, se recusou a fazer concurso público para não dar oportunidade às pessoas de mais idade entrar no serviços público. Preferiu fazer contrato temporário em que se paga menos e se a pessoa adoecer e não for mais trabalhar perde o contrato. Se fosse efetiva, a pessoa teria sua licença para tratamento de saúde. Mas como é contratada, o Estado simplesmente rompe o contrato.

Faz-se uma seleção natural na dinâmica que o Estado utiliza, que é maldosa. Você deixa as pessoas mais velhas de lado, deixa as pessoas em situações econômicas desfavoráveis de fora. Na Reforma da Previdência, porque teremos o maior impacto? Quando se propõe igualar homens e mulheres na mesma faixa etária não teria mais aposentadoria especial.

Hoje a professora tem 25 anos de atuação em sala de aula – fora de sala de aula são 30 -, que é o lugar mais desgastante, aposenta com 25 anos de atividade e 50 de idade. O professor homem aposenta com 30 anos em sala de aula e 55 de idade. Com a proposta do governo Bolsonaro, isso vai por terra. O presidente quer igualar professoras e professor da pior forma que pode existir. Quer colocar professores e professoras para aposentar não menos do que 60 anos e com 40 de contribuição.

Se você quiser aposentar com o salário integral, o professor vai ter de contribuir 40 anos. Hoje a professora contribuiu com 25 em sala de aula e aposenta. Vamos supor um professor que entrou com 25 anos, porque é preciso ter formação, não é igual a outras categorias nas quais é possível começar com menos de 20 anos de idade. Quando o professor sai da faculdade com 20 e poucos anos, ele vai começar a sua vida profissional e terá de ter no mínimo 40 anos de contribuição e no mínimo 60 anos de idade para aposentar.

Se você pegar 25 anos de idade mais 40 anos de contribuição, já vai para 65 anos. Imagine uma pessoa com 65 anos correndo para acudir uma criança no CMEI [Centro Municipal de Educação Infantil]. A realidade do professor da educação infantil e fundamental é diferente do ensino superior. Eu posso ter 60 anos, 65 anos, e estar extremamente lúcida e mais produtiva do que nunca no ensino superior, em que eu chego e ministro minha aula na universidade. Na universidade é assim, também sou professora universitária.

É diferente de professora alfabetizadora. Posso falar porque sou professora alfabetizadora, do ensino fundamental, médio e superior. Sempre atuei em todas as possibilidades como professora, e sei o quanto é complicado trabalhar com o ensino infantil e fundamental. O ensino médio também por trabalhar com adolescentes, mas é outra forma de relacionamento.

Com essa faixa-etária, exigir dos professores vai gerar inicialmente a destruição da qualidade da educação, que já não é tão boa. Teremos problemas sérios. Professor envelhecido, que vai esquecer até o nome dos alunos, pense no nível de estresse. Por que nós sempre tivemos aposentadoria especial? Porque o nível de estresse é alto. Há professores que depois de aposentar não passam nem na rua da escola em que trabalhou. Têm síndrome do pânico. Não conseguem escutar o sino da escola que entram em pânico.

Pedi à Secretaria da Educação que pudesse fazer uma pesquisa sobre a realidade do adoecimento dos profissionais do setor. Por que os profissionais da educação estão adoecendo? O que tem de professor tomando rivotril é fora de série. O que tem de professor adoecendo por conta da voz, da coluna, de escrever ainda – porque ainda estamos no velho tempo. Especialmente a voz pela necessidade de elevar o tom para distinguir das crianças.

Por que vocês acham que a minha categoria quer escola militar? Eu faço um desafio há vários anos à Secretaria de Educação. Precisamos debater a questão da disciplina nas escolas. Não posso exigir que haja um militar do lado para que haja silêncio. Só vamos ter educação se tivermos uma pessoa com um revólver na cintura? Não é assim que vamos avançar. Olha só a realidade triste que está posta em Suzano (SP).

Na Assembleia vemos voltar o debate de que precisa haver na porta das escolas detector de metais. E vamos desvirtuando as coisas. A violência, que não está mais só fora, veio para dentro da escola, que não é uma ilha. Os efeitos da sociedade vem sim para dentro da escola. Tentamos importar situações que não vão resolver o problema. Como especialista em educação brasileira, digo que nós estamos invertendo os papeis.

Precisamos chamar os pais a participar mais da construção da criação de seus filhos, do convívio da escola, ter outro tipo de humanização. Mas não. A sociedade hoje acha que o caminho é detectar metais enquanto o presidente faz cena de arminha.

“Precisamos debater a questão da disciplina nas escolas. Não posso exigir que haja um militar do lado para que haja silêncio”

Bia de Lima - Foto Fernando Leite Jornal Opção

Bia de Lima, presidente do Sintego, em entrevista aos jornalistas Italo Wolff, Augusto Diniz e Rodrigo Hirose: “A sociedade hoje acha que o caminho é detectar metais enquanto o presidente faz cena de arminha” | Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

Rodrigo Hirose – Isso é perigoso?
O povo estimula o armamento, mas depois não faz a comparação do efeito disso na prática. A arma vai matar quem? Vai matar alguém. Hoje você vai em Campinas e tem lugares que vendem a arma que você quiser. Basta preencher uma ficha que você compra uma arma.

Rodrigo Hirose – A sra. tocou no assunto da disciplina nas escolas. E citou a escola militar, que parece ter uma questão disciplinar mais forte. Existem mecanismos legais que impedem que as escolas padrão tenham um regime disciplinar melhor ou é só a presença de um militar que faz a diferença?
Sua pergunta é o cerne da questão. É por isso que tenho pedido para a secretária da Educação que construamos juntos, profissionais da educação com a gestão, uma discussão mais aprofundada sobre quais são os papeis e limites que estão postos para o professor, aluno, diretor e pais.

Foi-se tirando ao longo dos anos do professor a sua autoridade na sala de aula por vários aspectos. Foram tantas as situações que os profissionais da educação foram se sentindo acuados. Muitas vezes os professores estão hoje reféns dos alunos e dos pais. Tivemos na semana retrasada uma diretora que nos procurou porque um pai deu um tapa na cara da diretora. Um tapa na cara da diretora. Onde nós vamos parar com isso?

E a profissional não tem guarida na Secretaria de Educação. No Sintego oferecemos o advogado. Mas até que resulte em alguma coisa, já levou um ano, dois anos, gerou mais desgaste, o profissional nem quer mais que toque naquele assunto. Ficamos em uma situação que em vez de atacarmos o problema de frente criamos outras situações que colocam os profissionais da educação cada vez mais na berlinda. Hoje nós não instrumentalizamos, empoderamos o professor, não damos os limites aos alunos, não construímos coletivamente com os pais.

É muito mais fácil colocar na escola dois a três militares, que ficam de plantão, e mudo o que nesse colégio? A escola é incrível. O que acontece? Por que temos uma discussão e atuação de certa disciplina maior nesta escola, que é pública, mas não tenho na outra? É essa questão que precisamos ter coragem, com honestidade, de discutir. Vamos inverter os papeis? Tenho dito sempre como professora que se pudesse meter o bedelho na segurança pública, eu diria para o pessoal da segurança pública que não estão dando conta do recado.

A minha categoria está cada vez mais pedindo para que a segurança pública impeça o tráfico de drogas na porta das escolas, que é tarefa deles. Não é tarefa deles vir para dentro da escola. Para dentro da escola tem de ter profissional da educação. Do lado de fora tem de ter os policiais. Mas não. Aqui em Goiás estamos invertendo os papeis. Eu trago os policiais para dentro da escola e deixando a população sem contingente para fazer ronda, inibir o tráfico de armas, de drogas e enfrentar a criminalidade.

Se fossem bons nisso, a área da segurança pública não era o problemas mais frontal hoje da sociedade. Porque a criminalidade só aumenta. Em vez de resolver o problema da criminalidade para toda a sociedade, especialmente nos bairros mais pobres, o que fazemos? Invertemos e trazemos o policial para dentro da escola. Naquele momento o professor até gosta porque também está se sentindo inseguro e desmerecido dentro da escola.

Se o militar está na escola com uma arma na cintura que impõe respeito, a realidade é outra. O professor tem muito mais liberdade para trabalhar com o silêncio. Tem uma câmera filmando todo mundo na escola, e há câmeras em todas as escolas, tem os militares fazendo ronda no corredor. Vamos aprender a conviver em harmonia quando tiver um militar com um revólver? Não é esse o tipo de educação que eu acredito. Como pedagoga, não acredito que isso seja a solução para a educação.

Lógico que as escolas militares são boas. Elas foram feitas e pensadas para serem boas, para distinguir das demais. Você tem a melhor estrutura de uma escola pública entregue à escola militar. Todas as escolas que foram militarizadas são as melhores em termos de infraestrutura. Você pega uma escola bem estruturada do ponto de vista físico, dá total liberdade para o diretor militar escolher o seu corpo docente. E diz que lá fica quem quiser, não é obrigado a ficar, mas é convidado a sair. Está dito o que está posto. Você tem na escola militar o direito de selecionar os alunos.

O Ministério Público chegou a fazer recomendações. Mas continua a ter processo seletivo nas escolas militares. Todo aluno que não vai bem nas notas é convidado a sair da escola. É reprimido na escola pelos policiais. E, óbvio, quando os pais são chamados na escola para conversa com uma pessoa uniformizada de policial e com uma arma na cintura o tratamento é muito diferente. Os pais respeitam muito mais, obviamente. Até porque aqueles policiais vão estar no bairro fazendo o patrulhamento. Os pais tendem a ter certo receio.

Na escola normal você não tem um coordenador pedagógico, um coordenador de turno, mas na escola militar você tem de dez a 15 militares no colégio. Como não ser boa? Se o aluno que não tem a evolução nas disciplinas é convidado a sair? Não é expulso. Mas mesmo não querendo sai. Meu filho saiu. Fiz a experiência com meu filho.

Tenho feito um desafio. Todo mundo faz questão de fazer ouvidos moucos ao que eu digo. Por que os militares não pegam as escolas da periferia com alunos com tornozeleira eletrônica? Por que não vão ser bons para os alunos que estão fazendo readaptação e reordenamento? Ser bons para a classe média? A verdade é que esse projeto veio para atender a classe média e alta que não tinha mais dinheiro para pagar levar seus filhos para o setor privado. Não tinham o dinheiro para pagar mensalidade, precisavam de um escola diferente e o governo ofereceu essa instituição diferenciada.

Isso está acontecendo no interior também. Por que os prefeitos vêm a Goiânia pedir ao governador? Essa guerra, eu admito, nós estamos perdendo. Das OSs [Organizações Sociais] nós ganhamos. Das militares nós perdemos. Porque os professores querem ter tranquilidade para dar sua aula. Os pais querem ter um lugar para colocar limite aos seus filhos, que nem eles mesmos estão dando conta. A escola militar faz isso para eles, que ficam com a consciência mais tranquila. E assim tem sido.

Teremos condição de fazer isso? Todas as escolas de Goiás serão militares? Não. Os próprios coronéis falam “Bia, nós não queremos mais escolas militares, só queríamos duas ou três, agora extrapolou e não damos conta desse tanto de escola”. A coisa está indo para os municípios. Olha que barbaridade: prefeitos criando escolas militares de educação infantil e fundamental. Em São Luis de Montes Belos, o projeto está na Câmara para aprovar em caráter de urgência. Tem uma pessoa que está vendendo projeto de militarização de escola para os prefeitos.

Sou membro do Conselho Estadual de Educação. Recebemos na semana retrasada a secretária de Educação de Piranhas de Goiás e o coronel de uma escola que foi militarizada na educação infantil. Fiquei desesperada ao ouvir o coronel contar vantagem que ali nem parece mais ter uma escola porque o recreio é um silêncio. Eu disse “puxa vida, estou com dó das crianças”. Porque criança tem de ter alegria, gritar, brincar, correr. Você vai militarizar essa crianças, colocar enfileiradas, bater continência?

As pessoas estão perdendo a noção do que é formação, de dar a liberdade da criança ser criança. Perguntei à secretária de Educação onde ela tinha se formado e como ela achava que aquilo era muito bom. As crianças não podem brincar? Têm de ficar no recreio em silêncio? São inversões dos papeis que eu temo em breve o preço alto demais. Aliás, já começou.

“Professores querem ter tranquilidade para dar sua aula. Os pais querem ter um lugar para colocar limite aos seus filhos, que nem eles mesmos estão dando conta. A escola militar faz isso para eles, que ficam com a consciência mais tranquila”

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“As pessoas estão perdendo a noção do que é formação, de dar a liberdade da criança ser criança” | Foto: Wildes Barbosa

Rodrigo Hirose – Como está o entrosamento com a secretária Fátima Gavioli? A titular da Seduc apresentou o que pretende implementar na rede estadual de ensino?
O que a secretária apresentou até agora não estamos de acordo. A secretária quer acabar com o bônus, que nós nunca fomos adeptos. O que temos perguntado é o que vai ser colocado no lugar do bônus.

Rodrigo Hirose – O que é o bônus?
É o programa Reconhecer, que paga aos professores das escolas que têm frequência, pontualidade, um bônus no mês de julho e no final do ano. Nunca houve um critério muito claro, não há como acompanhar por meio de uma transparência. Acabou que o bônus serviu só para controlar os professores. O diretor tem aquele programa como um mecanismo de controle. Dou para você, mas não gostei de você então não vai receber bônus. Nunca dá para saber quem ganha ou não ou por que um ganhou mais do que outro.

O Sintego nunca defendeu o bônus, mas na hora de tirar e fazer as mudanças queremos saber o que virá no lugar. Outra medida apresentada, mas que ainda não está clara, é a criação da gratificação de regência. Nós, do Sintego, ao longo dos anos vimos que criar gratificação não adianta nada na hora que o profissional mais precisa, que é na hora da aposentadoria. A gratificação de regência será outro dinheiro que virá quando o professor está na sala de aula, mas depois perde o valor.

Uma das coisas que mais temos trabalhado é para que se respeite as progressões, o piso, que todo ano em Goiás temos calotes de dois a cinco meses. No último ano, o calote foi de cinco meses. Em vez de ficar criando outras coisas, fazendo promessas, que pudesse cumprir o que está na lei. Uma cobrança que temos feito é que se cumpra as metas do Plano Nacional de Educação (PNE).

Parece que o governo que chegou nunca comentou o assunto, o ministro não sabe por onde passa o PNE, acho que nunca leu ou conheceu. Há 20 metas que precisam ser atingidas, mas todas essas coisas hoje estão muito soltas diante das realidades que estão postas. Estamos trabalhando para que possamos ter algo construído que venha a estimular o professor a estar na sala de aula, mas que seja algo que possa ser levado para a aposentadoria. Não seja algo provisório.

O que a maioria dos governos tem procurado é garantir gratificações enquanto o profissional está na ativa, como foi o caso do auxílio-alimentação que conseguimos em 2017 e que depois foi estendido para as outras categorias dos servidores públicos. Mas fomos nós que conseguimos na greve de 2017. Foi cortado no final do ano, mas que volta em março para a folha.

O auxílio-alimentação para os professores e os administrativos, quando estes profissionais estão na ativa gostam de receber. Temos uma categoria muito empobrecida. A grande maioria está endividada de forma horrível. São empréstimos de toda ordem e natureza, pela Caixa, financeiras. O contracheque de um professor tem de cinco a seis empréstimos. Quando recebe o salário, o valor mal dá para a sua sobrevivência.

Os administrativos da educação precisavam do auxílio-alimentação. Havia casos de gente que não tinha o que comer. Como não é salário, não pode ter encargos sociais sobre o benefício e não pode entrar na margem consignada. Isso salva um pouco. Como o auxílio-alimentação não pode ser usado para contrair mais um empréstimo consignado, o dinheiro fica livre para o servidor.

Quando, em janeiro, o pessoal não recebeu, foi uma grande choradeira. O auxílio-alimentação volta na folha de março com retroativo a fevereiro.

Rodrigo Hirose – Na área pedagógica houve alguma proposta feita pela secretária estadual?
Na primeira audiência que tivemos cobrei da secretária Fátima Gavioli o que já vinha cobrando da Raquel Teixeira. Goiás não tem um projeto político pedagógico para as escolas. O que o Estado de Goiás pretende com suas escolas? Qual é a linha pedagógica adotada em Goiás? Nós não temos. E eu tenho pedido.

Recebemos uma denúncia por email de que a Secretaria Estadual de Educação gastou mais de R$ 4 milhões em compra de carteiras. Entrei em contato com a secretária, que informou que estava comprando carteira porque o Ministério Público alega que a maioria das escolas sequer tem carteira. A secretária explicou que, em uma condição emergencial, foi preciso comprar carteira.

Precisamos fazer em Goiás um reordenamento da rede do ponto de vista estrutural, pedagógico e profissional. O Sintego não foi contra o reordenamento da rede. Muitos disseram que o Sintego não brigou. Não brigamos mesmo. Quero aproveita o ensejo para explicar porque o Sintego não é e não foi contra o reordenamento da rede. Temos disparidades em Goiás que têm prejudicado muito os investimentos que queremos que cheguem aos profissionais.

Há escolas estaduais em determinado município na qual a distância entre uma unidade e outra é de cem metros. Acontece de virar o quarteirão e chegar na outra escola. Uma oferece o ensino fundamental e a outra também. Ou uma delas oferece o fundamental e o ensino médio. Falta professor em uma, falta na outra. Poucos alunos em uma, poucos na outra. E há, claro, as disputas locais.

Muitas vezes a categoria não quer e briga feio contra o fechamento. Reclama que está fechando escola. Na terça-feira, 12, uma deputada reclamou na Assembleia que houve fechamento de uma escola. Reclamam do fechamento de unidade de tempo integral da educação infantil ou do ensino fundamental da primeira fase. O ensino fundamental até o 5º ano não é responsabilidade do Estado. É responsabilidade dos municípios. Que o prefeito assuma!

O Estado tem de assumir a sua responsabilidade de oferecer a contento. Para isso, é preciso, do ponto de vista formal, financeiro e racional, nos organizarmos nas escolas. Sem isso, não é possível que eu queira que a categoria – e quero – tenha salário decente se não nos organizarmos de forma racional nas escolas. Tem diminuído o número de alunos. As disputas de prefeitos e governador de outras épocas acabam criando situações díspares em que há uma distância de cem metros de uma escola estadual de outra unidade.

É preciso pegar a melhor escola e garantir nessa unidade todos os profissionais. Pedi à secretária que garanta a jornada de trabalho do professor. Se vai ser em uma ou outra escola, discutimos isso depois. A secretária garantir manter a jornada. Tanto é que isso foi mantido. Com a garantia da jornada de trabalho, não houve redução salarial. Pedimos a garantia da modalidade escolar naquela região para que nenhum aluno fique prejudicado. E foram entregues algumas turmas aos municípios. Concordamos nesses pontos.

Não sabíamos o quanto a secretaria pagava de aluguel na área emprestada que era da Celg. Emprestada coisa nenhuma! Na época, a Celg leiloou. A secretária nos disse que o governador Marconi Perillo arrematou no leilão e o prédio é do então governador. A Secretaria de Educação paga R$ 500 mil de aluguel. Não dá para compactuar com uma coisa dessas. O Sintego concordou que a sede da Secretaria Estadual de Educação vá para o IEG [Instituto de Educação de Goiás].

O IEG tem uma história. Queremos preservar essa história. Os militares queriam há algum tempo o prédio para fazer um posto de comando da Polícia Militar. Fomos contra. IEG sediar a Secretaria Estadual de Educação não é um demérito, vejo mérito. Os alunos foram para o Pré-Universitário, antigo Colu.

“Administrativos da educação precisavam do auxílio-alimentação. Havia casos de gente que não tinha o que comer”

Bia de Lima - Foto Fernando Leite Jornal Opção 22

“Sintego concordou que a sede da Secretaria Estadual de Educação vá para o IEG” | Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

Augusto Diniz – Começou a se discutir na rede municipal de Goiânia uma possibilidade de tirar o tempo integral dos CMEIs e levar os alunos de 4 a 5 anos para as escolas regulares do ensino fundamental. É uma situação que já está resolvida?
Nós fomos contra essa retirada das crianças dos CMEIs e levar para as escolas regulares. Por vários motivos. Primeiro pela dificuldade que isso gerou aos pais sem dar um aviso prévio, sem dar a oportunidade dos pais planejarem. De repente foi fazendo mudança sem nenhuma discussão.

Segundo porque para as crianças houve um choque deixar de estar na escola que tem toda uma estrutura e planejamento pedagógico voltado para a infância, aquela faixa-etária da educação infantil, e direto colocá-la em uma escola que tem um outro planejamento. Você encontra crianças em uma faixa-etária muito maior. Há um conflito de gerações, um conflito pedagógico, porque a criança entra para um processo de conhecimento sistematizado, diferente do lúdico oferecido na educação infantil.

Perde-se e muito com escolas que não oferecem os brinquedos, as formas educativas mais lúdicas. Há um contrassenso. No afã de acudir a demanda represada da educação infantil que existe no município de Goiânia, ao invés de construir mais CMEIs ou escolas de tempo integral, preferiu resolver de uma forma meia-boca. Não tirou, mas também não ofereceu. As vagas que passou a oferecer são vagas que já existiam.

As crianças foram tiradas da educação infantil para o ensino fundamental e criei a vaga que já existia. A verdade é que a prefeitura está fazendo de conta que está atendendo mais alunos, mas sem oferecer mais estrutura. O efeito para as crianças que deixaram de estar na educação infantil e vieram para as escolas, mesmo que busquem adequações e melhorias, é muito diferente.

Augusto Diniz – Há algum tipo de risco para as crianças de 4 e 5 anos nas estruturas das escolas regulares?
Há o risco, mas as escolas têm buscado se precaver. Queira ou não, o risco maior é perder a infância, o lado lúdico. Esse é o prejuízo maior. Não é nem se machucar em determinada situação, que as escolas estão tentando fazer suas adequações. Os pais estão vendo o prejuízo para eles ao deixarem de ter uma escola de tempo integral para os seus filhos. E essas crianças podem acabar ficando nas suas casas sozinhas. Aí sim tem perigo.

Como a mãe tinha o hábito de levar a criança para a escola, ir trabalhar e buscar quando voltava, agora a criança fica até meio-período. No outro período, a criança fica sozinha na sua casa, o que representa perigo de toda ordem. É um perigo a criança ficar sozinha em casa. Mas o que fazer? Esse foi o apelo dos pais que o secretário de Educação [Marcelo Costa] não quis ouvir. Marcelo entrou em um acordo com o Ministério Público.

Ao menos é o que tem dito de forma muito retumbante: “Em acordo com o Ministério Público”. Outrora, o MP era muito mais incisivo nas questões do município de Goiânia do que tem sido agora. Temos visto o Ministério Público bem ameno na cobrança da oferta dos serviços públicos para a rede.

Augusto Diniz – Houve um problema recente do pagamento do piso da educação em Goiânia, que foi pago neste ano, mas foi deixado para trás o do ano passado.
Eu estou revoltada com isso. Estou preparando um panfleto para soltar escrito: “Prefeito dá calote nos professores e dá reajuste de 400% para os procuradores”. Qual é o interesse com isso? Qual a sinalização disso por parte da prefeitura? A prefeitura deu reajuste para todas as categorias, inclusive para o próprio prefeito.

Prefeito teve reajuste e não deu reajuste para os professores. Foi a única categoria que não teve aumento. Nesse ponto, fiquei enfurecida o ano passado e continuo, porque a prefeitura deu um tomé na gente. E não foi por falta de lutar. Foi o primeiro ano que fomos à luta desde o começo. Fizemos manifestações, paralisação, ato. O prefeito disse “esperem que vamos resolver o problema da Reforma da Previdência”.

O prefeito não gostou porque o Sintego não compactuou com a reforma que foi feita. Aquilo não foi reforma, foi concessão para que a prefeitura pudesse abocanhar os recursos que estavam aplicados no fundo dois. Pegou o dinheiro e pronto. Daqui a alguns anos teremos o mesmo problema. Os problemas que estamos enfrentando, tanto no município quanto no Estado, não são porque não foram pensados.

Lá atrás, o prefeito Iris Rezende (MDB) fez as mudanças na reforma – a mesma coisa que fez agora. Readequou, pegou o dinheiro que existia e negociou em inúmeras parcelas. Não estava nem pagando as parcelas, criou outra redimensão, colocou uma dívida ativa para tampar e ter direito a isso. O prefeito pega um montante de milhões e diz que saneou as contas da prefeitura. Não. Iris pegou o montante de dinheiro que tinha.

O secretário de Finanças [Alessandro Melo] está dizendo que o Município de Goiânia readequou suas finanças. Não. Pegou o dinheiro que existia para pagar os aposentados. Não pegou o dinheiro da contribuição. Inclusive induziu a população de Goiânia a achar que os problemas do município eram por conta dos aposentados. Disse que o IPTU de Goiânia não era capaz de pagar os aposentados. São coisas distintas. Tem de explicar à população que o município vem pegando o dinheiro, deixou de depositar a contraparte do empregador, vai ao Tesouro para fazer aportes.

Marconi Perillo fez a mesma coisa no Estado. Pegou os R$ 260 milhões que tinha e gastou. Todos os prefeitos estão fazendo isso com a desculpa de que têm de fazer Reforma da Previdência. Vai fazer reforma e colocar o povo para trabalhar mais. E vai continuar a ter o mesmo problema porque as prefeituras sonegam a sua contraparte, pegam o dinheiro do contribuinte da ativa e pagam o do aposentado.

É um fundo sem fundo em Goiânia. É um fundo sem fundo na GoiásPrev. E nós estamos pagando. No dia que eu aposentar haverá dinheiro para eu receber? Não. Vai depender do que o Estado fará para me pagar. Pega o dinheiro hoje e paga os aposentados. Meu dinheiro é para pagar os aposentados de hoje. E que dia vai haver dinheiro para pagar a minha aposentadoria? É essa matemática que não bate.

Inventa-se que para cobrir os rombos é preciso fazer a Reforma da Previdência. A Reforma da Previdência nacional é uma coisa, nos Estados e municípios é outra coisa. Goiás tem o maior índice de contribuição de todos os Estados. Pagamos 14,25%, é maior do que a Constituição permite, que é 14%. E o governador Caiado tem dito que deveríamos pagar até 22%. Como? Na Constituição está dito que pagar 22% é confisco.

Você vai viver como? Pense quem recebe um salário pequeno. São no máximo 20% que têm altos salários no serviço público. A grande maioria é Barnabé, recebe R$ 2 mil a R$ 3 mil. Ledo engano. Cria-se a velha história, da época do Collor, dos marajás. Cria-se a celeuma de que servidor público vive no céu, sem precisar de morrer vai para o céu. Aqui não, você está no céu enterrado. Não é nada disso.

A prefeitura não pagou o piso de 2018 para a nossa categoria. O desejo do secretário Alessandro Melo sempre foi dar o calote nos professores. E conseguiu. Mas conseguiu em parte. Na época do Jeovalter [Correia] ficou três meses sem pagar. Ganhamos judicialmente. De novo não pagou e estamos entrando com uma ação judicial. Estou desde o ano passado tentando resolver a questão com o prefeito Iris, que não recebe o Sintego e não dialoga.

Iris diz o seguinte: “Vem aqui todo mês todo mês tomar um café, comer uma broa, um pão de queijo”. E eu lá quero comer pão de queijo? Estou gorda, não preciso comer pão de queijo. Quero é resolver os problemas da educação. Mas o prefeito não resolve. Fica com essa conversa fiada, essa baba de calango.

Sinceramente. No Município de Goiânia é um negócio complicado. Chato. Mas eu vou meter os cravos. Vamos ganhar essa parada e eu já estou cuidando disso. Vai ter de pagar inclusive retroativo com juros e correção monetária.

“Quero é resolver os problemas da educação. Mas o prefeito não resolve. Fica com essa conversa fiada, essa baba de calango”

Iris na Camara

“Estou desde o ano passado tentando resolver a questão com o prefeito Iris, que não recebe o Sintego e não dialoga” | Foto: Lívia Barbosa/Jornal Opção

Augusto Diniz – Na prestação de contas do último quadrimestre, o prefeito voltou a alegar que os dois primeiros anos foram difíceis pelas dívidas herdadas da gestão do falecido prefeito Paulo Garcia (PT).
Está morto, não tem como se defender.

Augusto Diniz – E que agora a situação das contas da prefeitura é superavitária e vai começar a agir.
A eleição está chegando.

Augusto Diniz – A situação da prefeitura hoje é superavitária?
Não está superavitária. A prefeitura criou mecanismos para dizer que está superavitária. Por isso quis desesperadamente fazer a Reforma da Previdência, que de reforma não tem nada. Quis pegar o dinheiro do fundo dois, os R$ 800 milhões que estavam lá. É com esse dinheiro que a prefeitura vem pagando parte dos aposentados. Não é dizer que por conta disso os problemas estão resolvidos.

Se a prefeitura estivesse tão resolvida assim a situação dos hospitais, das escolas, estava melhor. Teria pago os professores. Por que deu o calote nos professores. Falei isso para o Iris olhando para o prefeito: “O que o sr. tem contra os professores de Goiânia?”. “Não tenho nada não”, ele respondeu. Eu falei: “Tem. É a única categoria que o sr. não pagou. É piso nacional. É lei federal, prefeito, que o sr. não está cumprindo”. Aí o prefeito olhava para o Alessandro [secretário de Finanças].

Mas é porque o Alessandro saiu falando que Goiânia pagava acima do piso e que portanto não precisava pagar o piso. “Alessandro, a vida inteira nós brigamos foi para ter o piso. Não estamos falando de teto. Você está fazendo a conversão parecendo que aqui em Goiânia bateu no teto e não pode mais porque estaríamos no teto. Estamos falando de piso.”

Augusto Diniz – A sra. citou rapidamente como avalia a situação do ministro e do Ministério da Educação. Como presidente do Sintego e professora, que avaliação a sra. faz da disputa entre os militares e olavistas na pasta?
Jamais, como brasileira que sou, imaginei na minha vida – em plena e sã consciência – que teríamos à frente do Ministério da Educação um estrangeiro que não conhece nada da história brasileira, não respeita os profissionais da educação, não respeita nem a inteligência do povo. Aquele decreto é uma afronta à inteligência de qualquer um, uma vergonha.

Fiz um pronunciamento e mandei para o MEC e para o presidente pedindo a cabeça do ministro. Penso que o presidente da República tinha de respeitar os brasileiros e mandar de volta para a Colômbia aquele homem. Aquilo é fora de base.

Augusto Diniz – O ministro Ricardo Vélez Rodríguez é naturalizado brasileiro desde 1997.
Não. Pelo amor de Deus. Mandem aquele homem de volta por favor. Ninguém merece, principalmente nós da educação. Tem ideias estapafúrdias da educação. Com essa mentalidade estreita, limitada e de direita, o ministro demonstra não fazer parte do século XXI. Não tenho dúvida que 90% dos educadores brasileiros estão constrangidos com esse ministro. É um absurdo.

Outra coisa é que virou moda, tudo tem de ser militar, policialesco, resulta no que estamos a assistir tristemente. Onde a sociedade vai parar? Nesse tipo de situação que estamos vendo hoje em Suzano [a entrevista foi concedida no dia do ataque, na quarta-feira, 13]. Você libera generalizadamente armas, estimula e normaliza a situação de possuir uma arma como isso não fosse letal de alguma forma. É ledo engano achar que arma protege as pessoas. O que protege as pessoas é a inteligência.

Rodrigo Hirose – Tivemos fatos semelhantes em períodos de outros governos. Tivemos o caso de Realengo (RJ), quando o governo não era de direita. Não fica muito forçado vincular o caso de hoje com a possível mudança de polo político ideológico, de militarismo, que a sra. destacou?
Não. Vou dizer o engano das pessoas. No afã de ter segurança, acham que tudo tem de ser militarizado. No afã de ter qualidade, acham que tudo tem de ter militar. No afã de ter segurança, você menospreza a situação que mais pode resolver o problema da segurança, não só a segurança das pessoas, mas o convívio, que é a educação. E não é uma educação militarizada. É uma educação humanizadora.

O ser humano só se humaniza mediante a educação. Quanto mais conhecimento o ser humano possuir, menos ele precisará de armas. Quanto mais conhecimento você possuir, mais você sabe conviver com o outro, conviver com a diversidade, conviver com o contraditório. Quanto mais você vai achando que domina, controla a situação e tem o poder absoluto – e aí é um engano -, as pessoas acham que podem se sobrepor às outras, que não precisam respeitar o outro.

Se eu tenho uma arma, se eu tenho um cargo, eu posso desmerecer os outros. E aí é que falo que a educação tem um papel crucial nesse cenário. Nós estamos tendo dificuldade de dar a dimensão – principalmente os intelectuais deste País têm de procurar ajudar nesse cenário. Lógico que a educação não é a salvadora da pátria. Mas quanto mais você dá oportunidade de conhecimento, e através do conhecimento você necessariamente cria oportunidades na vida, no campo da sobrevivência, no campo das relações institucionais, no campo estrutura familiar e pessoal, no campo socioeconômico – é essa forma de compreender que as pessoas estão perdendo.

Se eu, em vez de oferecer uma arma, um isolamento… Por que em vez de oferecer uma escola militar para 200 a 300 alunos, eu não construo naquela periferia uma sociedade poliesportiva para criar culturas, esportes, ensinamentos diversos, línguas, músicas, saberes outros oportunizados de diferentes maneiras? Fugimos da criminalidade. Não.

Esqueço isso porque é caro e digo que essas escolas não são boas, aquelas são, esses meninos não dão conta, você fique excluído na sua marginalidade, no seu gueto, com a sua droga, no seu mundinho pobre. E não construímos oportunidade. Não restará outro caminho. E resulta em situações como essa.

Não dá para generalizar. Nem quero e tenho a pretensão de generalizar. Mas circunstâncias tais como essas estamos vendo todos os dias, como a banalização da arma.

Augusto Diniz – O Ministério da Educação e também o da Mulher, Família e Direitos Humanos têm discutido uma possibilidade de incentivo ao ensino domiciliar, dando educação em casa ao invés de levar para a escola. É uma discussão feita no MEC ou ocorre de forma isolada?
Infelizmente é uma tendência que está posta há muito tempo. O que estamos a assistir é o retrocesso ao período da Idade Média.

Augusto Diniz – Mas qual é a vantagem do ensino domiciliar?
Não. Isso é o atraso. Mentalidade como a da ministra Damares Alves é um retrocesso nuclear. Ao invés de oportunizar a socialização das crianças em escolas, você diz que não precisa. Ao criar uma celeuma… E tudo na cabeça da ministra é ideologia, querer fugir da questão de gênero. Não sabe nem o que é ideologia de gênero. Damares não sabe o que está dizendo. As pessoas ficam no senso comum. Não se aprofunda sistematicamente nas coisas. Não tem estudo. A equipe deste governo não são pautados pelo conhecimento. Falta estudo.

Ficam no senso comum, e isso tende a baratear, diminuir e fugir das reais possibilidades de avanço. Sou membro do Conselho Municipal de Educação em Goiânia. Temos enfrentado continuamente a chamada mãe crecheira, que é o que a ministra propõe. Em vez de oferecer um CMEI, que tem as oportunidades e os profissionais adequados para receber as crianças, dar a formação que precisam na faixa-etária natural de cada uma, sociabilidade, conhecimento de acordo com o nível, fujo disso para o poder público não ter de cumprir o seu papel de oferecer – porque está na Constituição, na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB): universalização da educação.

Para não ter isso, crio a mãe crecheira, que são senhoras que abrem suas casas, colocam os pais para pagar e os meninos ficam lá o dia inteiro. Sem estrutura, sem conhecimento, sem formação, às vezes sem alimentação e higienização correta. Tudo meia-boca. “Mas não, estou acudindo, porque os meninos não tinham onde ficar. Ai que senhorinha boazinha, fica com meu filho.” Não sabe o que acontece nesses lugares.

É o que mais tem em Goiânia. Estamos na luta para fechar – não dá para chamar de estabelecimento porque não é – essas casas chamadas de mães crecheiras. O que a ministra tem pontuado é que a família… E a família é crucial. Mas a família tem de estar em consonância com o papel educacional da escola. Tem mãe inclusive questionando: “Se eu não quiser mandar meu filho para a escola, eu sou obrigada a levar?”. É. A Constituição diz que você tem de mandar seu filho para a escola. Tem de socializar. Estamos entrando em uns modismos que me preocupam muito de ficar copiando o que há de pior dos Estados Unidos.

“O ser humano só se humaniza mediante a educação. Quanto mais conhecimento o ser humano possuir, menos ele precisará de armas”

Bia de Lima - Foto Fernando Leite Jornal Opção 1

“Estamos na luta para fechar – não dá para chamar de estabelecimento porque não é – essas casas chamadas de mães crecheiras” | Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

Rodrigo Hirose – O que a sra. pensa sobre a proposta do ensino dado pela própria família em casa?
Sou terminantemente contra. A família tem seu papel importante, mas difere frontalmente do papel que a escola cumpre na formação de qualquer pessoa. É lá que você socializa. É lá que você tem relações interpessoais outras. É lá que você tem diversos conhecimentos. É lá que você tem de aprender a distinguir as coisas. Você não pode ser construído, formado, em uma redoma.

Se a família acha que protege o seu filho no momento em que só fica ela controlando e cuidando, é um grande erro. Um dia esse filho vai ter de ir para o mundo. E é lá que esse filho pode aprender muitas vezes da forma mais difícil e doída. É um erro. E não é à toa que muitos educadores brasileiros e os deputados garantiram a obrigatoriedade da educação através das escolas. A escola, por mais precária que seja, é fundamental na socialização, na formação do conhecimento sistematizado, na diversidade de pensamento.

Se você, enquanto adulto, quiser ter condição de discernir o que é bom do que é ruim, o que é correto do que não é, porque não existe a verdade, existem as verdades, que dependem do olhar, da posição em que você se encontra, do contexto. É essa diversidade que o mundo ensina. Eu aprendi isso desde muito pequena. Sou filha de pais muito humildes. E a primeira coisa que meus pais disseram foi que uma coisa deixariam para os filhos: o estudo. Nossos filhos vão para a escola.

Fui para a escola de cavalo. Escola multisseriada na zona rural. Mas ia para a escola. Minha mão nunca abriu mão, com muita dificuldade, de fazer os seis filhos estudarem até se formar. Meu pai era lavrador e meu irmão mais velho se formou engenheiro mecânico pela UnB [Universidade de Brasília] em 1974 ou 1975. Pena que depois ele foi acidentado no dia da formatura, quebrou a coluna e ficou tetraplégico.

Entendo como ninguém o papel da educação na minha vida e na vida das pessoas. Sempre fiz questão de dar aula em periferia. Sou professora de sala de aula a minha inteira em periferia. Fui para a universidade e tive a oportunidade de ter acesso a diversos pensadores, de direita, centro, esquerda, inclusive para que hoje eu possa discernir não por conta de maria vai com as outras. Eu sou Maria [Maria Euzébia de Lima], mas não vou com as outras. Vou com todas no rumo que eu acreditar ser o melhor. E isso é o conhecimento.

A sociedade sozinha não ensina. Não é à toa que os ricos gostam de ter seus filhos estudando e sendo bastante exigidos pela maior diversidade possível do conhecimento. Quando se faz a proposta do ensino domiciliar é para baratear para quem? Para quem tem condição de pagar? Não. É barateado para o filho da classe trabalhadora que vai ter menos oportunidade do que por si só já tem. Se você não oferece outros mundos, o que vai ser dessas pessoas?

Eu tenho um único filho. Tem hora que acho que o ditado “casa de ferreiro, espeto de pau” é verdade. Meu filho é do mundo. Hoje [quarta-feira, 13] faz aniversário e até agora não falei com ele. Está no Ceará. Depois vai descer para a Bahia, depois para não sei onde. Meu filho é mochileiro. Artesão-mochileiro. Anda para tudo que é canto desse mundo. Vou falar que não está certo isso? A vida é dele. Eu pus no mundo, mas a vida é dele. Na hora que achar que deve voltar para casa, ele volta para casa.

Fica dois a três meses viajando. Depois passa dois a três meses comigo. Mas não me pede dinheiro. Sabe sobreviver. Tem uma índole que eu louvo. É respeitoso com as pessoas. Compreendedor do mundo natural, da responsabilidade que temos no planeta. Os valores estão postos. Não é estudioso e nunca foi. Bem que lutei, mas não consegui. Mas tem outra perspectiva de mundo. E é isso que as pessoas precisam ter: perspectiva de mundo. Precisamos dar opção. A escola é o caminho para que o aluno possa optar.

Se você não der oportunidades, ele vai optar como? Vai seguir o mundo do crime, que é o que ele vê todo dia. Não. É preciso dar opções. É preciso ter janelas, oportunidades. E é a educação quem garante isso. Mas se depois de ter oportunidade ainda continuar sendo picareta é uma questão da própria pessoa.

Augusto Diniz – Tem algum assunto que não perguntamos e que a sra. gostaria de comentar?
Quero fazer o desafio que tenho feito e não tenho sido atendida. Que a escola pública em Goiás, junto com a parte gestora, seja capaz de fazer um seminário amplo para discutir com as universidades, com o Conselho Estadual de Educação, com a nossa categoria, para construir um regimento – um regulamento – para normatizar as relações nas escolas entre pais, alunos, professores, direção, para que não tenhamos o que existe hoje.

Hoje há diferentes escolas públicas. A escola militar não se acha escola pública. Só quando vai fazer o Enem [Exame Nacional do Ensino Médio]. Caso contrário não se considera escola pública. Tanto é que tem normas diferentes. Que pudéssemos discutir para construir as relações de disciplina no interior das escolas. Precisamos resolver o que pode o professor, a postura, o espaço deste profissional com o aluno.

Qual é o direito do aluno? O espaço, a posição, o perfil, a forma do aluno? Como o aluno tem de se posicionar na escola? Qual vai ser a atuação dos pais? Construirmos isso de maneira formal, institucional e legal ou vamos continuar tendo pesos e medidas distintos que têm criado situações constrangedoras no interior das escolas de Goiás. Não dá para achar que ao militarizar ou não militarizar vamos resolver o problema da disciplina.

Não precisamos resolver o problema em uma ou duas escolas. Precisamos ter todas escolas do Estado boas. Não pode ser uma ou outra boa e as outras mais ou menos ou ruins. Devemos ter uma posição dos profissionais da educação também em um perfil de valorização e de respeito. No andar que estamos indo, continuamos tendo posição cada vez mais desmerecida do professor. Hoje todo mundo se acha no direito de dar pitaco na educação.

Vemos a ministra falando, o coronel falando, o presidente falando. Não é porque ele é presidente que conhece de educação. Todo mundo hoje dá opinião. Chegamos à Assembleia e todos os deputados querem falar de educação. Educação é importante o envolvimento das pessoas na defesa. Aí sim acho que todos têm de participar. Mas daí intervir achando que pode opinar nisso ou naquilo desmerecendo os profissionais entendo que não.

Do mesmo jeito que nós professores não nos achamos no direito de dizer aos médicos, magistrados, ao pessoal da segurança pública e outras categorias o que é isso ou aquilo, cada um estuda e se qualifica para atuar no seu campo profissional. As condições têm de ser dadas. Nesse sentido, o papel do sindicato tem cada vez mais importância. Em tempos em que se tira direitos, mais ainda. O sindicato não é só para cobrar o pagamento de salário.

O sindicato é para, além de construir perspectivas profissionais, dar retorno à categoria, mas também de construir sim uma sociedade mais respeitosa dos profissionais. Uma sociedade que garanta os direitos trabalhistas, mas também os direitos dos profissionais de termos direitos sociais. É nessa linha que faço a minha atuação como presidente do Sintego.

Tenho orgulho de ser presidente do Sintego. É um trabalho grandioso. Ninguém que não passou pelo Sintego é capaz de imaginar o tamanho e a dimensão do que temos a fazer. Trabalho muito. Mas é muito mesmo. Não tenho hora. Me dedico à educação continuamente. Do tanto que me dedico não é suficiente para estar presente em todos os lugares que gostaria.

Faço um sindicalismo diferente dos demais. Não sou presidente de ficar em sala de sindicato. Fiz um trabalho inovador, exaustivo, mas fundamental, que é o Sintego Itinerante. Comecei a ir para dentro das escolas visitando o Estado de Goiás. Ando continuamente esse Estado de Goiás. Sei todas as cidades de Goiás. Converso com os profissionais do Estado de Goiás inteirinho. Ando muito.

Faço-me presente, sempre que posso, no interior das escolas. É lá que o sindicato tem de estar presente. E é no interior da escola que tenho feito a representação sindical, ido pessoalmente, conversado com prefeitos para acudir a educação nos municípios, nas inúmeras cidades que representamos e também para a minha categoria. Atendo a todos e viajo bastante para acudir minha categoria.

Isso não tem sido suficiente. As demandas são cada vez mais urgentes, mais prementes, diante do que estão a nos retirar direitos. A realidade é uma das mais difíceis, tempos de retrocessos. Retrocessos nos direitos trabalhistas, na atuação dos profissionais, porque estão perdendo sua autoridade profissional. Precisamos superar isso. Retrocessos na sociedade como um todo, que está batendo cabeça em rumos diversos no afã de ter uma coisa e estão construindo outras muito mais ruins.

E que nós precisamos, todos os profissionais, especialmente os que se preocupam com a coletividade, encontrar caminhos que possamos trilhar para melhorar e ter um futuro mais promissor com perspectivas mais alentadoras. Não sou uma pessoa pessimista, sou otimista, por isso acredito que vamos superar essa situação. Da minha parte, tenho me dedicado para superar. Acredito que esse momento de mentalidade de direita, extremista, propulsor do ódio, do radicalismo, não leva a lugar nenhum. Leva sim a violências que estamos vendo.

Sou defensora da paz, da vida, do respeito ao outro, de uma sociedade mais solidária e justa. São princípios que carrego, que milito desde que saí da faculdade, desde os 17 anos. Fui militante estudantil, sou militante do movimento sindical. Sou militante assídua das causas importantes da sociedade. Busco uma sociedade que possa ser justa e fraterna. Meu papel de sindicalista é nesse rumo.

Posso não agradar a todos e nem quero. Nem quero e nem serei unanimidade, como ninguém é. Tem muitas pessoas que fazem oposição frontal a mim e ao sindicato que milito. Respeito, sento com eles à mesa. Sentei há um mês, chamei todos no Sintego. Debatemos longamente. Posso convencer, posso não convencer. Posso convencer momentaneamente. Posso ter resultados momentâneos, posso ter resultados a médio e longo prazo. Posso não ter.

Mas uma coisa eu digo: estou na batalha. Uso minhas energias todos os dias em favor da educação, que foi a profissão que abracei. Estou fazendo 30 anos de militância. Fiz a opção de não avançar na academia. Sou professora da Universidade Federal de Goiás (UFG). Há mais de 14 anos que trabalho na universidade, mas preferi atuar no movimento sindical, que é onde não há mérito, tem trabalha. É onde você é checado todos os dias. Não tem o respeito de cátedra, mas tem a possibilidade real de fazer a transformação todos os dias

Não é fácil e nem visível, mas todos os dias você tem a oportunidade de ajudar o outro. Todo dia você tem a oportunidade de avançar minimamente em uma coisa e outra. Estar no seio da categoria é desafiador. Preferi estar no seio da minha categoria do que só em uma sala de aula. Tenho 25 anos de sala de aula.

Comecei como professora alfabetizadora e fiz questão de passar por todos os níveis do conhecimento até chegar à universidade e ser formadora dos profissionais da educação. Graças à Deus, quando se anda em Jataí, a minha cidade, a maioria dos professores são ou foram meus alunos e minhas alunas e fazem elogios ao trabalho. Sempre fui uma professora muito firme, exigente. Nunca fui professorinha de ficar alisando. Mas por esse motivo sempre fui uma professora que os alunos diziam que comigo aprendiam.

O aprendizado requer disciplina. O aprendizado requer firmeza. Sempre ofereci conhecimento, exigi produção e, por isso, ao final de cada turma sempre faziam homenagem como professora. Tenho inúmeras homenagens na minha casa de todas as turmas. No começo, meus alunos tinham verdadeiro temor. “A Bia é exigente. Você estuda ou estuda.” O conhecimento tem de ser algo a ser exigido pelos professores. As pessoas têm de exigir que seus alunos aprendam. Tem de oferecer, mas tem de exigir também.

Hoje os professores estão receosos em saber se podem exigir e até onde podem exigir. É proibido reprovar aluno. Você fala que o aluno não consegui avançar, os pais não ajudaram. É essa discussão que quero travar em Goiás. E há muito estou pedido à secretaria. O tempo corre e precisamos ter novas definições. Estou pronta para ajudar.

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