“A culpa não é de Dilma. Nós também somos responsáveis pelo Estado inchado que temos”

Economista-chefe da maior empresa de investimentos do Brasil diz que recuperação do País vai ser mais lenta do que o previsto inicialmente e que os governantes precisam encarar de fato o desafio de tornar a máquina pública mais enxuta e eficiente

Foto: Raquel Pinho

Foto: Raquel Pinho

Elder Dias

A perda do grau de investimento (investment grade) pela agência Standard & Poor’s (S&P) é algo que não poderia ter ocorrido e que vai causar o prolongamento do quadro de recessão e o atraso na recuperação da economia brasileira.

Esse foi um dos vários diagnósticos que Zeina Latif fez em palestra em Goiânia na terça-feira, 15, durante evento promovido para investidores da Centro Norte Inves­ti­mentos, representante da XP Investimentos – considerada a maior empresa independente de investimentos do País e da qual Zeina é a economista-chefe.

Para ela, o Brasil demorou demais para fazer a lição de casa – o ajuste fiscal. Em sua análise, enquanto os governos de Fer­nando Henrique Cardoso (PSDB) e Luiz Inácio Lula da Silva (PT) conseguiram entender e atender a demanda da população, Dilma Rousseff (PT) não obteve êxito nesse sentido, no caso, o enxugamento da máquina pública e o aumento de sua eficiência. E sentenciou: “O próximo presidente vai entendê-la [a demanda], mesmo que de modo forçado.”

Doutora em economia pela Universidade de São Paulo (USP), Zeina concedeu entrevista ao Jornal Opção após a sua fala.

O resultado de sua exposição sobre a conjuntura da macroeconomia brasileira, bem como suas respostas aos questionamentos de jornalistas em conversa depois do evento, está editado abaixo e merece ser lido por quem quer mais elementos para entender, além das retóricas dos grupos políticos, o que se passa de fato com o Brasil.

Qual foi a situação chave que fez o Brasil perder o grau de investimento?
O último mês foi bem decisivo. O discurso da S&P [Standard & Poor’s] foi muito claro: nós vemos compromisso do governo em relação ao ajuste fiscal, mas também vemos risco na execução, porque o governo não está conseguindo fazer a articulação, não só para evitar as pautas bombas, mas também para avançar na sua agenda. Eles acharam que o Brasil atingiu uma fadiga de reformas muito cedo.

O que aconteceu no último mês mostrou que nós não estamos tão convictos assim da necessidade de um ajuste fiscal. Man­daram um déficit no orçamento no ano que vem sem nenhuma medida, naquele momento, para corrigi-lo. Duas semanas antes, tinham falado que a meta era 0,7% para crescimento do PIB. Foi uma confusão muito grande, uma coordenação de expectativas muito ruim, com enfraquecimento do ministro, tudo isso sinalizando que o Brasil não estava com tanta convicção assim, como a S&P acreditava, em relação à necessidade do ajuste. Isso eu acho que foi a gota d’água.

A sra. acredita que Dilma conseguirá apoio tanto do mercado quanto do empresariado para as medidas que foram anunciadas nesse pacote?
Na questão da aprovação da CPMF, novamente entramos em uma seara que não é a minha. Mas, ainda assim, acredito que será bem difícil. A impressão que tenho é de que não só a sociedade não está intolerante, mas também o Congresso está menos disposto a dar este aval a Dilma. Será uma negociação difícil, embora possa até ser que a CPMF seja aprovada, mas estou cética quanto a isso.

Como a sra. entende o pacote do governo federal em termos de busca de ajuste fiscal? As medidas serão válidas?
Tem algumas medidas criativas, como pegar uma parcela do Sistema S, que é uma caixa preta e é preciso observar seus números para ver se valem a pena. Têm emendas parlamentares direcionadas para a saúde, medidas paliativas também. E tem retrocesso também, como a CPMF. Dilma não saiu por aí falando “vou aumentar as políticas sociais, vou aumentar o teto do Bolsa Família, vou criar o Minha Alegria Minha Vida”. Não tem nada disso.

O que há é uma reação, basicamente na direção certa, no sentido de tentar fazer um ajuste, ainda que totalmente atrasado. Nós tivemos de perder o grau de investimento para que isso acontecesse, isso é um absurdo! (enfática) A perda do grau de investimento não é neutra para a economia: o custo de captação sobe, a pressão cambial que ocorre dessa forma acaba machucando, há uma inflação mais teimosa, aumenta-se o custo para as empresas. Enfim, foi muito grave e tudo está acontecendo de forma atabalhoada, desde o governo até o Congresso.

O que poderia ser citado como exemplo de “atabalhoamento” nesse processo?
Foi um erro enfraquecer o ministro (Joaquim Levy, da Fazenda). Conversando com clientes estrangeiros, pude notar que essa percepção de fraqueza em relação ao ministro infelizmente é generalizada. Isso é grave, porque reputação se perde fácil, e não é da mesma forma para recuperá-la. Essas medidas, então, foram atrapalhadas, com retrocessos e em um “timing” errado, mas não se pode dizer que ocorreram em um cenário populista. Isso é importante para delimitarmos os riscos que haverá pela frente.

E o que podemos dizer do quadro hoje, em relação ao que havia há alguns meses?
Vou falar, primeiramente, do cenário internacional. O mundo está em crise? Definitivamente, não, o PIB [produto interno bruto] mundial está crescendo entre 3% e 3,5% ao ano. A crise ficou lá atrás. O que temos hoje é um ciclo econômico mundial de níveis mais modestos, o que costumam chamar agora de “novo normal”, ou “new normal”. É muito diferente daquele ciclo mundial da década passada, em que a China entrava na OMC [Or­gani­zação Mundial do Comércio], abrindo suas portas ao comércio e o estimulando, em que as economias emergentes também ajudavam a influenciar na dinâmica das economias desenvolvidas.

Vamos nos ater agora ao crescimento da produção industrial entre economias avançadas e emergentes. Houve um momento no ano passado em que houve sinais contrários: enfraquecimento e desaceleração da produção de emergentes e uma puxada por parte dos desenvolvidos. São curvas que geralmente se dão no mesmo rumo, andam juntas e estavam com direções diferentes. Na época, eu me perguntei: elas vão voltar a convergir, mas de que forma? Serão os países avançados que vão ajudar a reverter a situação dos emergentes ou serão os emergentes que, por questões cíclicas e estruturais, estão perdendo força, que vão puxar para baixo os desenvolvidos?

E a que diagnóstico a sra. chegou?
Minha conclusão, na época, era pela segunda hipótese, de que os emergentes “contaminariam” os desenvolvidos. Aí me questionam: então, é o rabo que vai abanar o cachorro? Eu diria, sim, porque o rabo não é mais rabo e o cachorro não é mais cachorro: a participação dos emergentes no PIB mundial hoje é maior do que a dos países desenvolvidos. Ou seja, os países de industrialização avançada sentem, sim, a perda de fôlego da China e a dos demais países emergentes.

Como os países ricos sentem isso?
Depende muito dos laços comerciais. Uns, como o Japão, sentem isso de forma mais contundente; outros menos, como os Estados Unidos, que têm uma economia menos aberta. Ou seja, é um mundo que cresce de forma mais suave, com um componente que afeta particularmente os países emergentes, que é o comércio mundial em níveis bem mais modestos. Na década passada, com aquele ciclo econômico mundial excepcional, falávamos de crescimento de comércio de em média 7% ao ano, muito acima do avanço do PIB mundial, alimentando o mercado de commodities e, portanto, as economias emergentes. O colapso do fim de 2008 e início de 2009, quando o crédito colapsou e todo mundo caiu junto. Veio a recuperação e, quando parecia que o comércio mundial iria deslanchar, tudo voltou a desacelerar. Quando olhamos os gráficos, vemos que foram os países emergentes que puxaram esse movimento negativo. Vieram as desvalorizações das moedas e já não tem o efeito China. Isso acaba sendo pior para todos, países avançados e emergentes.

E que consequências isso traz para o Brasil, em particular?
É um cenário mundial que acaba tornando este momento do Brasil mais delicado. Seria outra coisa se houvesse o contexto da década passada — ou mesmo o do início da crise mundial, quando o foco da preocupação dos investidores era com os desenvolvidos e estava nos emergentes a chance de ga­nhar dinheiro. Agora isso mu­dou: os investidores estão preocupados com os emergentes, porque reconhecem que é neles que está havendo o fenômeno da desaceleração. O foco mudou e o Brasil ago­ra é considerado “patinho feio”.
Não é à toa. O Brasil teve uma condução inadequada de política econômica e ficamos mais sensíveis ao contágio externo, assim como um paciente que está com uma saúde não muito boa e fica vulnerável a qualquer doença oportunista.

Essa vulnerabilidade é maior do que a de outros países de economia em condições similares à nossa?
Os gráficos dos países da Amé­rica Latina, que têm um regime de política econômica arrumado e instituições fortes — como Chile, México, Peru e Colômbia — mostram o descolamento que eles tiveram do Brasil nos últimos anos. Fomos penalizados, a gente não está crescendo. O mundo foi e o Brasil ficou. Nossos parceiros desa­celeram e, enquanto isso ocorre, nós sofremos com a recessão e os preços de ativos sofrem.

Obviamente, o câmbio também. É sempre bom lembrar que o enfraquecimento de nossa moeda não é culpa só nossa, mas uma resposta à própria valorização do dólar no mercado internacional. O que há de peculiar em relação ao Brasil é que a desvalorização do real foi muito maior do que a das moedas de outros países em relação ao dólar. Não é que o governo brasileiro queira enfraquecer a própria moeda: não, o que há é que o mundo a enfraqueceu e a gente ainda, por erros e questões domésticas, tornamos o quadro ainda mais sensível.

A política monetária atual está sen­do conduzida de maneira correta?
O ajuste do câmbio pode trazer algum alívio. Em um primeiro momento, pode ter um efeito ruim — em um curto prazo encarece insumos, deixa a inflação mais teimosa, onera as dívidas das empresas, Estados e municípios. Em médio prazo, esse ajuste pode ajudar a dar alguma competitividade às indústrias. Mas, na verdade, o ideal seria que esse movimento (de ajuste) fosse mais suave, porque com depreciação cambial mais gradual é possível dar visibilidade e proteção à empresa.

Um exemplo: uma empresa que fez um hedge [operação para proteger o valor de um ativo — dólar, commodity, título do governo ou ação — contra uma possível redução de seu valor numa data futura ou para assegurar o preço de uma dívida a ser paga no futuro] pensando em fazer uma proteção até uns R$ 3,50. Mas o Brasil deixou escapar o investment grade. Isso foi muito grave e pode aprofundar nossa recessão, tornando-a mais longa. Eu mesma achava que, quando chegasse o último trimestre do ano, a gente iria olhar o cenário e falar “passou”. Agora, eu tenho sérias dúvidas, porque o ajuste cambial no curto prazo vai deixar sequelas e essa desorganização toda não colabora.

O que podemos fazer de fato para romper essa instabilidade?
Essa vulnerabilidade se constitui um círculo vicioso — já que, se estamos vulneráveis, vamos sofrer maior risco de contágio e, com mais contágio, ficamos mais vulneráveis ainda — e para ela não há outro remédio: é ajuste fiscal, ajuste fiscal, ajuste fiscal (enfática). É o instrumento que temos à mão. Essa ideia de “ah, vamos fazer um ajuste fiscal mais modesto, que isso dá conta de proteger a economia” não adianta. É bobagem! A gente conseguiu colapsar a política fiscal. Essa ideia de “soltar um pouquinho que não vai prejudicar” só vai nos levar a perder o investment grade de uma segunda agência.

Nesse sentido, a política fiscal pode ajudar, mas quando não se está com a solvência ameaçada, quando não se está ameaçando a subida da inflação. De que adianta fazer gastos e ter de subir juros? A política fiscal pode ser remédio, mas tem de ser prescrita com cautela, senão vira veneno. A nossa política fiscal virou veneno (enfática). Ela mais atrapalha do que ajuda.

Quando houve a crise mundial — o que foi como tirar da tomada o crédito em todo o planeta —, o diagnóstico era muito claro: escassez de demanda. Era preciso fazer políticas para demanda. E como fazer isso? Corte de juros, expansão fiscal, expansão de créditos dos bancos públicos, Banco Cen­tral inserindo liquidez na economia. Ou seja, o diagnóstico estava claro: era estimular a demanda. O problema é que logo ficou claro que o Brasil não tinha mais problema nenhum de escassez. Mas insistimos nesses instrumentos. De novo, o remédio virou veneno, porque houve um estímulo da demanda, mas sem condições de a oferta reagir. O diagnóstico governista de que ao cortar juros os empresários irão saltitantes investir em suas empresas já no outro dia é totalmente errado. Claro que não são só corte de juros que seguram investimentos — é infraestrutura, é segurança jurídica, é qualidade da mão de obra etc., uma conta muito mais complexa.

Essa política em torno da demanda pode mesmo ter contribuído tanto assim para a situação preocupante atual?
A política de demanda tem um apelo político muito forte, porque funciona rápido. Teve influência do ciclo político, porque era necessário (ao PT) eleger Dilma. E ela deu continuidade a essas políticas por convicção. Dilma acreditava que, ao estimular a demanda, esta iria criar sua própria oferta. Não funciona assim. Se não há estradas, se não há segurança jurídica, não vai ter recuperação. Ao bagunçar a macroeconomia, isso inibe a oferta também. A oferta precisa ter ambiente macroeconômico estável, previsível, inflação baixa.

Quando disseram para maneirar na demanda e fazer algo na oferta, fizeram da maneira errada. Para fazer a contraposição: qual era a agenda de Lula para estimular a oferta no primeiro mandato? Eliminar riscos nos mercados. Fez reformas microeconômicas, lei de falências, mexeu nos mercados de crédito e imobiliário, tudo isso para eliminar riscos da economia e fazer a oferta reagir. A forma da presidente Dilma foi reduzir IPI [Imposto sobre Produtos Indus­trializados] daqui, desonerar de lá, acionar o BNDES ali, e deu tudo errado. A renúncia tributária no primeiro mandato de Dilma au­mentou R$ 100 bilhões. Não faltou estímulo à indústria: faltou estímulo inteligente. E foi um dinheiro que não funcionou.

Então, temos este retrato: demanda e oferta, que vinham mais ou menos uma acompanhando a outra — demanda como consumo das famílias e oferta como PIB industrial, incluindo construção civil — e o Banco Central, às vezes, precisava subir juros para acertar as coisas e, quando estava tudo ok, cortava os juros. Mas, então, abriu-se uma “boca de jacaré” [expressão referente à discrepância entre demanda e oferta, apresentada em gráfico]. Isso não é sustentável.

Como se dá essa “boca de jacaré” no cenário da macroeconomia?
É esse hiato entre oferta e demanda que se estabeleceu. A “boca de jacaré” significa uma inflação teimosa e que as contas externas vão se agravando. E isso foi o que a gente colheu. Só que essa tal inflação elevada, essa desarrumação da macroeconomia, desorganizou a produção. Ocorre que essa “boca de jacaré” vai se fechar, por bem ou por mal. Se fizermos um ajuste fiscal, será por bem; se não o fizermos, isso vai convergir para baixo e o custo social será muito maior. E então estamos falando de recessão prolongada e mais grave, mesmo que possa ser mais suave.

Portanto, a melhor forma de fechar a “boca de jacaré” é um a­jus­te fiscal de qualidade que arrume a macroeconomia e permita pre­servar as conquistas da última década. Se a política econômica não faz ajuste, o mercado faz. E isso vai custar mais caro. Por isso, é muito importante que caminhemos na direção do ajuste. Está sendo feito? Sim, mas, por hora, isso não será o suficiente, tanto que perdemos o investment grade.

"Não tenho dúvida de que os investidores estão mais exigentes em relação ao Brasil. E minha leitura sobre Brasília diz que o Congresso será mais exigente também”

“Não tenho dúvida de que os investidores estão mais exigentes em relação ao Brasil. E minha leitura sobre Brasília diz que o Congresso será mais exigente também”

E como vão se posicionar os in­ves­tidores externos, a partir de agora?
Não tenho dúvida de que os investidores estão mais exigentes em relação ao Brasil, pois o quadro internacional é mais grave. E, apesar de não ser analista política, minha leitura sobre Brasília diz que o Congresso será mais exigente também, sendo que a capacidade de articulação política do governo foi muito abalada com a desistência de Michel Temer [PMDB, vice-presidente] de comandar esse processo.

Por isso, acho que não será brincadeira aprovar esse pacote, principalmente a CPMF. Claro que não estamos esperando um cenário de argentinização, mas teremos momentos difíceis pela frente. Se tudo caminhasse bem, acho que poderíamos ter uma recuperação cíclica da economia no ano que vem. Não seria algo esplendoroso, mas sairíamos do sufoco. Se o ajuste fiscal funciona, a inflação cai, o Banco Central corta juros, o câmbio começa a ajudar, a indústria começa a reagir e, aos poucos, podemos ver que a macroeconomia foi reajustada.

Porém, mesmo que tenha apostado nessa recuperação cíclica durante todos esses meses, tenho dúvidas de que ela ocorra, porque o ajuste fiscal está batendo nos limites. Não estamos conseguindo avançar. Já perdemos o “investment grade” e vemos o enfraquecimento do ministro da Fazenda (enfática). Isso é grave. Por isso, o ajuste teria de ser mais forte, para compensar esses reveses. E o mundo já não é mais o mesmo. Então, isso me preocupa.

O governo parece já ter conhecimento de tudo isso?
Os dados fiscais mostram que é preciso agir, pois o resultado primário despencou. Mas é im­por­tante pontuar que esse resultado primário não reflete o tamanho do buraco, pois não inclui os restos a pagar; as pedaladas, que agora ameaçam o mandato de Dilma; os avais que o governo federal deu para entes subnacionais se endividarem; e nem o possível socorro que teremos de fazer para os bancos públicos, visto que a inadimplência começou a subir. Isso não está contabilizado ainda e não sei o que vai acontecer se começarmos a abrir esse armário. Acho que Joaquim Levy, quando estabeleceu a meta de 1,2% de PIB primário para este ano, ainda em dezembro, não sabia o que havia dentro do armário. Parte dos resultados ruins deste primeiro semestre foi para pagar pedaladas.

A outra questão é estrutural, sobre a qual precisamos avançar. Vocês devem se lembrar que, quando Levy tomou posse, falou do tal Estado patrimonialista. O que é esse Estado patrimonialista? A máquina pública é inchada, claro, mas o Estado brasileiro não é grande apenas por isso. É porque temos proteção demais em certos setores da economia e isso tem um preço. Pode até ser verdade que o dinheiro entra na máquina e não sai porque ela é inchada, por causa da corrupção, mas não é a grande questão. Eu falei dos R$ 100 bilhões que tivemos de aumento na renúncia tributária nos últimos anos.

“Agenda se impõe e o Brasil está ficando sem opções”

A sra. poderia detalhar mais a contribuição negativa desse patrimonialismo brasileiro para chegarmos à atual conjuntura?
Tivemos uma disseminação de políticas aqui e ali para certos setores e todos nós, de alguma forma, temos algum benefício. Eu, por exemplo, me graduei e fiz mestrado e doutorado em universidade pública, isto é, tudo com recurso público. Tento reverter isso para a sociedade de alguma forma, mas será que meu pai não poderia ter pegado um empréstimo para agora pagar? Será que as pessoas das universidades federais, que estão em greve, têm noção de que elas são privilegiadas por estar lá e que tudo aquilo custa caro para a sociedade e que é um absurdo fazer greve neste contexto do País, em que o funcionário público já tem, por exemplo, estabilidade de emprego, ao contrário dos outros trabalhadores? E os alunos? Eles também custam caro para a sociedade e não deveriam, jamais, alimentar um movimento de greve. É um absurdo isso.

Então, o que eu quero dizer é que não adianta falar que é culpa da Dilma. Somos nós (enfática). É verdade que o governo só pensa em aumentar a arrecadação? Sim, eu mesma acho terrível pensarem na volta da CPMF. Mas precisamos de lideranças políticas para dizer que o problema está em nós (enfática).
A idade de aposentadoria por tempo de contribuição é de 52 anos para as mulheres e 54 para os homens. Isso é um absurdo (enfática). Tenho colegas que brincam, dizendo que, se você quiser conhecer os aposentados brasileiros, é só passar em Copacabana e ver um monte de garotões de cabelo branco jogando vôlei. Estão lá, são eles os aposentados. A verdade é que temos grupos de privilegiados e, muitas vezes, fazemos parte deles e nem percebemos. Então, é um desafio de todos nós.

Vamos ver quem será o político com coragem de dizer que as despesas públicas estão crescendo muito em relação ao PIB porque são despesas obrigatórias por ter algum tipo de proteção. Quem vai dizer que precisamos fazer uma reforma na Pre­vidência? Acho que isso vai aparecer. A questão é quando. Só em 2018? Se for, quem será? Não sabemos. Temos dificuldade para enxergar lideranças, mas não tenho dúvidas de que esse debate na sociedade é essencial, porque hoje temos um Estado inchado, que estimula a corrupção e a ineficiência e que não entrega o que nós precisamos.

O patrimonialismo é algo praticamente fundador do Brasil. Precisa­mos realmente de governantes que não sejam “extirpadores” desse pa­trimonialismo. Entretanto, por ser his­tórico, desde a colonização, o patrimonialismo é extremamente difícil de ser atacado. A sra. consegue enxergar a possibilidade de algum governante, em um futuro próximo, terem essa coragem, de uma forma convicta e indo contra até o que constitui um fato cultural? Até porque todos os brasileiros se acostumaram a querer o bônus sem o ônus.
Isso entra em uma esfera que foge um pouco à minha área, mas vale a pena compartilhar minha visão. Nós vivemos uma democracia. Não é uma democracia vibrante como gostaríamos; quando olhamos o Brasil nos rankings de democracia nos dias atuais, não estamos tão bem colocados assim – avançamos um pouco, mas nosso vizinho Chile, por exemplo, está mais bem colocado. O ponto é que hoje vivemos em uma sociedade que, aos poucos, tem desconfiado da capacidade da intervenção estatal. A sociedade percebe que tem alguma coisa errada; o imposto é alto demais para aquilo que se tem em termos de benefício, o nosso IDH [Índice de Desenvolvimento Humano] é incompatível com nossa carga tributária. Empresários também começam a ter uma posição diferente e começam a demandar menos proteção e mais um Estado que permita ao setor privado crescer. Ou seja, já se percebe algo aqui e ali. Hoje, a ação estatal retira nossa capacidade de crescimento.

Acredito que, sendo uma democracia, as próprias pressões sociais, de alguma forma, vão canalizando e conseguindo apoio político para esse tipo de medida. Hoje, nosso quadro político é muito complexo em que é difícil enxergamos lideranças abraçando essas teses. De qualquer forma, é uma questão de tempo. Fernando Henrique Cardoso entendeu a demanda da sociedade, assim como Lula, especialmente em seu primeiro mandato. Dilma ainda não entendeu essa demanda. O próximo presidente vai entendê-la, mesmo que de modo forçado, até porque o contexto em que a Dilma assumiu era ainda favorável lá fora, não havia a desorganização da economia que existe hoje.

"Dilma não entendeu as demandas da sociedade, talvez porque não ela seja política. A demanda de seu momento era por eficiência. Talvez o próximo presidente entenda”Cientista - Segurança Alimentar e Nutricional

“Dilma não entendeu as demandas da sociedade, talvez porque não ela seja política. A demanda de seu momento era por eficiência. Talvez o próximo presidente entenda”Cientista – Segurança Alimentar e Nutricional

Nós estamos ficando sem opções: a agenda se impõe, de certa forma, por isso atender essa demanda é até uma questão de pragmatismo. Não é possível aumentar a carga tributária para valer, não dá para crescer mais a nossa dívida, não dá para fazer pedalada, não dá para financiar tudo com inflação. Portanto, vão empurrando a agenda do País para repensar a estrutura de despesas, a estrutura de renúncias tributárias, de subsídios e de proteções. A agenda vai se impor, o difícil é identificar e discutir o timing disso.

E as demandas da sociedade mudam. As do período Fernando Henrique Cardoso eram por uma estabilização de verdade, que realmente durasse; ele conseguiu atende-las. A demanda de Lula foi por crescimento com distribuição de renda. E, podem reclamar, mas ele entregou isso também. Tivemos um avanço muito forte na última década e não é questão de Bolsa Família, mas de crescimento econômico com aumento da produtividade feito por meio das reformas microeconômicas das quais já falei, no período com An­tonio Palocci à frente do Ministério da Fazenda.

Agora, Dilma não entendeu as demandas da sociedade, talvez porque ela não seja política. A demanda da sociedade naquele momento era por eficiência. Talvez o próximo presidente entenda. A demanda é por um Estado mais eficiente. Eu, particularmente, acho que não é possível ser eficiente de um jeito inchado desse jeito. Por isso, acho que deveremos ser mais enxutos e escolher no que intervir. É preciso dar passos atrás e focar no que realmente precisa para ver se a política dará as respostas na velocidade que a gente gostaria.

Mas há uma luz no fim do túnel para o atendimento do que precisa ser feito pelo governante da vez?
O que vejo de positivo é que a população se incomoda com a falta de qualidade nos serviços públicos e que não aceita a carga tributária e os investidores não aceitam aumento de juros. E isso nos empurra para rever as políticas fiscais de subsídio aqui e ali, que nem sabemos mais quais são. E, por outro lado, empresário ne­nhum gosta de ajuste. Vejo isso acontecendo e empresários escrevendo artigos e dizendo o seguinte: eu não quero mais proteção, eu só quero que me deixem trabalhar, quero uma reforma tributária, mais segurança jurídica, meritocracia e uma estrutura política que funcione.

Em quanto tempo poderemos ver o resultado desse ajuste?
Óbvio que, se a gente não faz o ajuste da forma necessária, quem sofre é a política monetária. Quanto mais funcional for o ajuste fiscal, mais rapidamente poderemos cortar juros e mais rapidamente poderemos ter, pelo menos, uma volta cíclica de investimento. Hoje o mix de política econômica não está legal. O Banco Central deveria subir juros? Sim, se não o Brasil viraria uma Argentina. Tinha de subir juros, a questão é que tinha isso poderia ter sido feito de forma mais modesta se nós tivéssemos tido, antes, um ajuste fiscal mais ambicioso.

E a relação entre consumo e endividamento, como a sra. avalia?
Obviamente os dados de consumo sofrem. Vemos famílias endividadas e, como se não bastasse, este contexto acaba pior porque essas famílias se endividaram muito nos últimos anos. O nível de endividamento, que chega a 45% da renda das pessoas, é muita coisa, está no padrão do Chile. Só que o Chile tem renda per capita 50% maior do que a nossa e taxas de juros menor do que a metade da brasileira. Ou seja, temos de economizar muito no Brasil, 22% da sua renda anual, para pagar o serviço da dívida, que no Chile é 11%. Enfim, é neste contexto de famílias endividadas que temos alta de juros, que temos demissões e a confiança do consumidor cai lá embaixo.

Outra coisa que me preocupa é que o setor corporativo está sofrendo, as empresas estão sofrendo, o que a perda do “investment grade” só piora. Quando você atrasa o pagamento do banco é porque antes disso já está protelando o pagamento de fornecedores, que é o demonstrado pelos números do Serasa. Os indicadores do Serasa para pessoas físicas também estão ruins e os dados de pedidos de recuperação judicial mostram alta de 118%. Isso me preocupa. É neste quadro em que as empresas estão em situação frágil que temos perda de investment grade, taxas de juros elevadas, enfim, isso pode atrapalhar nossa recuperação e prolongar nossa recessão.

E como fugir disso?
Para a recuperação, a condição número um é arrumar a macroeconomia. No que se refere à produção industrial do Brasil em relação ao mundo, bem ou mal, acompanhávamos o restante. Claro que nós poderíamos estar juntos com os emergentes, mas por conta de nossa baixa infraestrutura, a alta carga tributária, a insegurança jurídica, o custo Brasil etc. tornou-se difícil acompanhá-los, mas ainda estávamos em um patamar mais alto. Depois do colapso de 2008, evoluímos bastante porque fizemos uma política de estimulação da demanda interna. Mas então exageramos na dose e o remédio virou veneno. Estagnamos e agora o mundo foi e a gente ficou. Enquanto nós não conseguirmos arrumar a casa, esqueçamos em falar de recuperação cíclica da economia.

Por que a indústria denunciou esse alerta primeiro?
Porque, ao contrário do setor de serviços, a indústria não consegue repassar a pressão de custos. Nós es­ti­mulamos demais a demanda e os salários cresceram demais. Por outro lado, isso bagunçou a economia quando o ganho de produtividade de­cresceu. Então, ferimos de uma regra básica da economia: salário não pode andar descasado de ganho de pro­­dutividade. Isso matou a nossa indústria. Aí houve um caminhão de dinheiro jogado fora com IPI, desoneração e crédito do BNDES, mas tu­do foi desperdiçado. Entrou por uma mão e saiu por outra, porque as­sim a economia encolhe. Enquanto nós não tivermos a macroeconomia mi­nimamente arrumada isso não volta.

Uma forma de enxergar isso é vendo gráficos que demonstram que o Brasil ficou caro e começamos a importar mais. Qual foi medida quando o Brasil ficou caro? Salários em dólar. Sem dúvida, nós aquecemos demais a economia e os salários em dólar explodiram, apesar da reversão da taxa de câmbio em 2011. Devemos estar atentos para a combinação entre câmbio depreciado e inflação baixa. Agora temos de segurar a inflação de qualquer maneira para dar a chance de ocorrer a substituição de importações e, assim, a indústria começar a se recuperar. Via exportação isso já está acontecendo – o setor de celulose, por exemplo, já está feliz da vida. Mas não é algo fácil, da noite para o dia, virar exportador. É mais tranquilo para as indústrias de um setor mais posicionado; do contrário, não.

O comercio mundial está crescendo em um ritmo mais lento. Ou seja, em um primeiro momento, a exportação não vai vir fácil. Se conseguirmos substituir importação, pelo menos já é um respiro para a indústria e sua estabilização.

Diante de toda essa confusão em curto prazo, acabamos por deixar nossa agenda de longo prazo, mas é, repito, uma questão de tempo para ela se impor. Quando olhamos os dados de produtividade do trabalho nós vemos que há países que estão fazendo a lição de casa, mas nós estamos perdendo ganho de produtividade. Isso é muito grave. O primeiro passo é termos uma recuperação cíclica da economia, o segundo é reduzir o custo Brasil para que tenhamos novamente ganhos de produtividade e taxas de crescimento mais adequadas. Hoje é muito preocupante ver o Brasil ficando para trás nisso, perdendo a relevância no cenário internacional. O investidor analisa tudo, o Brasil e outros mercados e decide: vou para a Índia, porque no Brasil não tem ganho de produtividade, não tem estrada, não tem isso nem aquilo. Precisamos torcer para que o curto prazo se desamarre da melhor forma e o mais rapidamente possível, para que possamos renovar nossa agenda. Tem um monte de gente discutindo agenda de longo prazo no Brasil, mas não tem jeito: é preciso ter liderança política que diagnostique o problema e aponte o caminho para a sociedade.

Não sou analista política nem socióloga, mas fico me perguntando se, em vez de ter mandado a CPMF ao Congresso, não seria melhor ter enviado algo relativo à Previdência, como a idade mínima para aposentar, como chegou a ser sugerido. O custo político, creio, seria menor.

Seu debate parece girar bastante em torno das contas públicas. Isso é mesmo fundamental?
Nós temos hoje um Estado muito inchado, muitas políticas que, tenho certeza, foram bem intencionadas, mas que hoje nos amarram, ameaçando a solvência da dívida e reduzindo a eficiência da economia. Vou dar um exemplo do que foi uma boa política, mas que precisa ser repensada: a recomposição do salário mínimo. Essa política começou com Fernando Henrique e ganhou im­pulso com Lula. Foi uma política importante para melhorar a distribuição de renda e teve seus benefícios. Só que agora o valor do salário mínimo já está muito mais compatível com a experiência mundial. Se insistirmos em dar ajustes fortes ao salário mínimo – e ano que vem isso ocorrerá, com aumento de 9,8% – em um quadro em que há ganho de produtividade na economia, essa política traz mais problemas do que benefícios, porque se dá com uma mão e se tira com a outra, por causa da inflação alta e da queda do emprego, fora todas as consequências para a Previ­dência, o que acaba atrapalhando o equilíbrio das contas públicas. Passar o pente fino, reavaliar cada política pública no Brasil, sem ideologia e avaliando o custo-benefício de cada uma, e com transparência é algo essencial.

Observando o discurso da candidata Dilma durante a campanha eleitoral do ano passado, via-se que tinha política para tudo. Para qualquer pergunta que se fizesse a ela havia uma resposta, tinha a política A, a política B, as políticas C, D, E, F. Mas isso não está funcionando hoje. Precisamos ter lucidez para enxergar que a maioria das políticas no Brasil não tem o devido cuidado e controle, não tem metas estabelecidas, a sociedade como toda está pagando, mas nem sabe disso. Se hoje perguntarmos a uma pessoa se ela é a favor da universidade pública, ela vai dizer que sim, claro. Mas se passarmos a ela o custo de cada aluno e se realmente o aluno precisa mesmo daquele incentivo, ela pode começar a pensar que as vezes uma bolsa ou financiamento seria mais interessante.

Nós precisamos de mais transparência em relação às políticas públicas, tanto de gasto quanto de proteções e subsídios, para a sociedade decidir o que quer. O que não dá é ficar com esse Estado inchado, que atrapalha a vida do empresário e prejudica a distribuição de renda, num País que tem tanta vulnerabilidade e tantos desafios sociais. Que a crise fiscal sirva para reavaliarmos a ação do Estado na economia.

As últimas posições do Congresso têm trabalhado contra o Brasil neste atual cenário?
A maioria, sim. Nós tivemos lá o ajuste do Judiciário, o ajuste de quem ganha acima do piso, inflação do salário mínimo. Acabamos de ver a Câmara aprovando o Super Simples. Também derrubaram o fator previdenciário e implantaram a regra do 85∕95 [números que representam a soma da idade da pessoa e de seu tempo de contribuição à Pre­vidência para mulheres (85 anos) e homens (95 anos). Tornou-se a regra alternativa ao fator previdenciário e quem se enquadra nela tem direito a receber a aposentadoria integral]. Isso foi muito grave – não que o fator previdenciário fosse uma maravilha, mas não poderiam ter feito isso desta forma. Definiti­vamente, são agendas que preocupam, e ainda tem uma lista que pode sair.

Qual é a responsabilidade de Eduardo Cunha [PMDB-RJ, presidente da Câmara dos Deputados e hoje principal opositor do governo no Legislativo] nisso?
A culpa não é de Eduardo Cunha. Hoje temos um quadro em que as lideranças políticas não conseguem controlar suas bases. É fácil atacar o presidente da Câmara, mas ele não é o responsável por isso. Ele não aprova nada sozinho.

Sua previsão de que poderíamos ver, já no último trimestre desse ano, sinais de recuperação da economia, como fica agora?
Não era uma previsão de recuperação, mas de que talvez batêssemos no fundo do poço. Talvez, nem isso, consigamos agora saber onde estará esse fundo do poço. A perda no investment grade vai nos custar caro, pois tem um impacto na economia. Claro, o mercado já vinha precificando isso, mas não deixa de afetar . O descuido que aconteceu e a pressão que teve no encarecimento da dívida das empresas – hoje é muito mais caro você captar lá fora ou renovar uma linha de crédito –, a taxa de câmbio mais pressionada, tudo isso, no curto prazo, acaba conspirando para piorar e protelar ainda mais a continuação da recessão. Quem sabe consigamos superar, mas hoje eu fico preocupada com o prognóstico que eu fiz de que poderíamos bater no fundo do poço nesse terceiro trimestre.

Não dá para fazer mesmo qualquer previsão?
Não, até dá para fazer previsão, sim. Há certa incerteza nas projeções, claro, pois temos questões amplas e a própria crise política cobra seu preço. Mas, olhando em um curto prazo, é mais fácil – ou menos difícil. Quando olhamos para a taxa de juros, para a dinâmica financeira que temos das empresas, que é difícil, a questão do câmbio que, em curto prazo, tem um caráter contracionista, quando de alguma forma colocamos todas essas variáveis no modelo, a sinalização é de que talvez não estejamos ainda batendo no fundo do poço neste terceiro trimestre. Infelizmente, quando se atualiza o cenário, a impressão que dá é a de que fica postergada um pouco mais a perspectiva de estabilidade. A recuperação, essa sim, vai ser mais difícil. Muito mais complicado ainda será prever, pois conforme se estende o horizonte de previsão, mais nebuloso o cenário fica, com tantas incertezas que temos hoje.

E quais medidas seriam necessárias para melhorar as finanças do País?
Nós precisaríamos avançar – mesmo que seja uma agenda de longo prazo e difícil – na discussão de gastos obrigatórios, flexibilizar o orçamento, ter mais margem de manobra para poder conter despesas obrigatórias. Assim, talvez, a primeira questão seja a Previdência, tanto em relação à aposentadoria quanto às políticas assistencialistas que são vinculadas ao salário mínimo. É importante ressaltar que existem políticas, como exemplo o abono salarial, que são outro exemplo de política que precisamos mexer com ou sem crise fiscal, pois há evidências de que ela não está sendo positiva para a distribuição de renda – tem gente que está recebendo e que não deveria receber benefícios, basicamente é isso. Essa é uma primeira conversa. Outra, é a reforma tributária, do ICMS. Pre­cisamos limpar a mesa da questão tributária. Temos uma complexidade tributária que acaba inibindo nosso potencial de crescimento, que é o que traria, sem dúvidas, fôlego em longo prazo. Essas questões são essenciais. Nossa agenda para os próximos anos deve ser necessariamente focada na questão fiscal. É a grande prioridade, embora, claro, possamos ter outras políticas, como a abertura da economia, que seria importante para dar mais concorrência para a economia brasileira.

Mas o grande gargalo, que já era há algum tempo, é a questão fiscal. É a principal. Antes, se dizia que o Brasil não tinha problema de solvência de dívidas, o que havia era o problema de um estado pouco eficiente e que amarrava nosso crescimento. Agora não, estamos discutindo, mais uma vez, solvência de dívida, dívida pública crescendo na proporção o PIB, em uma velocidade preocupante, com taxa de juros elevada. Ou seja, tivemos um retrocesso na agenda, nesse sentido. Não só estamos discutindo como destravar a economia, mas também como pagar conta. Isso é grave.

As reservas no Brasil chegam a US$ 370 bilhões. Isso dá alguma tranquilidade para nós diante desse cenário?
Não o suficiente. Novamente citando a própria retórica da S&P e das agências, as reservas elevadas ajudam o Brasil. Talvez para a Moody’s ou para a Fitch fique muito claro que isso tenha um peso importante. Mas vai salvar a lavoura? Não – e já ficou provado que não. Um ponto interessante que a S&P levantou para explicar sua decisão é de que, ok, o Brasil tem reservas elevadas e é credor líquido em dólar, mas só quando olhamos para a dívida pública. O fato é que a dívida privada cresceu muito. Portanto, ainda que tenha valido o esforço de acumular reservas, isso somente não resolve. Precisamos crescer. Crescimento econômico é a variável chave. E para crescer, tem de fazer um verdadeiro ajuste fiscal.

Uma resposta para ““A culpa não é de Dilma. Nós também somos responsáveis pelo Estado inchado que temos””

  1. Avatar Renato disse:

    XP não é, nem nunca foi, a maior empresa de investimentos deste país, perdão.

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