“Construir o BRT é gestar feto morto, é planejamento antiquado”

Vereadora Dra. Cristina acredita que o projeto não melhorará a vida de quem usa ônibus em Goiânia e reafirma o desejo de disputar a sucessão de Iris Rezende

Cristina Lopes, vereadora de Goiânia | Foto: Fábio Costa / Jornal Opção
Cristina Lopes, vereadora de Goiânia | Foto: Fábio Costa / Jornal Opção

Depois de três anos de atraso, a revisão do Plano Diretor finalmente começou a tramitar na Câmara de Vereadores de Goiânia. O projeto, no entanto, tem recebido críticas de alguns técnicos e vereadores. Cristina Lopes é uma das vozes que apontam falhas no texto, que considera ineficaz para resolver os problemas da capital nas áreas ambiental, de mobilidade, saúde e ocupação urbana.

Em entrevista ao Jornal Opção, Dra. Cristina, que teve 28 mil votos para deputada no ano passado, o que não foi suficiente para ser eleita, também fala de sua relação com o PSDB, que parece caminhar para um final, e do desejo de ser prefeita de Goiânia. Leia a seguir:

Rodrigo Hirose – Plano Diretor, cuja tramitação começou oficialmente com a leitura na Câmara, tem quase 2 mil páginas. Já foi possível estuda-lo? O que deve merecer atenção especial dos vereadores?
Venho acompanhando o Plano Diretor desde as audiências públicas promovidas pela Prefeitura. Houve uma modificação grande da minuta final das audiências em relação ao que foi protocolado na Câmara. Ele é muito complexo, não só pelo volume de páginas, mas pela complexidade de análise.

Em uma página, há uma afirmação sobre algo. Vinte páginas adiante, essa afirmação já fica em aberto. Há um critério muito rígido para analisa-lo, pois, além da leitura, é preciso atenção para os temas. Ele não vem por tópicos (saúde, educação, etc), que seria o lógico, haver a descrição de um eixo em sequência. Além disso, os temas não se encerram em um capítulo. Eles voltam a ser abordados adiante e se contradiz. Portanto, é muito complexo, há muitas minúcias que precisam de atenção.

Tenho como meta a saúde, que é minha área de atuação, e a ocupação dos vazios urbanos. Goiânia tem muitos imóveis desocupados que poderiam servir de moradia social, que atenderia as populações, ao invés de se coloca-las em um bairro distante sem estrutura básica. Há bairros que nasceram sem asfalto, sem ônibus, sem equipamentos de saúde e educação.

As pessoas poderiam ser trazidas para lugares que já possuam todos esses equipamentos urbanos, transporte adequado e estrutura de saúde e educação. Mas a opção é distanciar as pessoas dessa infraestrutura.

Tenho também grande preocupação com as questões de meio ambiente, o processo de educação (se o Plano Municipal de Educação será seguido). Quando se analisa a previsão do número de crianças que nascem em Goiânia, a Prefeitura já não cumpre o básico que é atender as que estão na fila. Sem um planejamento para dez anos, o não cumprimento será cada vez maior. Mas, sem dúvida, a preocupação principal é com a expansão urbana e o uso do solo e a construção civil. O maior foco de atenção é esse, porque há interesse de capital envolvido.

Há dois motivos para o desinteresse de parte dos vereadores em debater o Plano Diretor: se for base, terá de votar e não adianta discutir; o outro é que o plano não tem obrigatoriedade de ser cumprido.

Rodrigo Hirose – O plano atual não foi…
Não foi. Ganhei de presente da pesquisadora Ana Maria Diniz, que é uma estudiosa do Attilio Corrêa Lima, o primeiro plano diretor de Goiânia. Ali, já temos a projeção de vias para mobilidade urbana, ciclovia, um cuidado muito grande com o meio ambiente. Se tivéssemos o cumprimento do primeiro plano, Goiânia já seria uma cidade muito melhor para se viver. Havia uma grande valorização do pedestre, do ser humano.

Rodrigo Hirose – A sra. citou uma preocupação especial com a expansão urbana. Em entrevista ao Jornal Opção, a vereadora Sabrina Garcêz criticou o fato da criação de polo de desenvolvimento na região à margem da GO-060, enquanto outras áreas similares, como na região leste, não receberam a mesma atenção. Por que isso está ocorrendo?
O projeto me espantou muito porque não traz uma proposta de expansão urbana. Traz apenas três áreas claramente. Uma justamente contígua ao município de Trindade, quase no limite. Há uma especulação, e não posso afirmar isso, de que quem comprou foi a FGR para construir um condomínio, que pode ser também empresarial – a empresa tem um condomínio assim na Avenida Rio Ver [no limite com Aparecida de Goiânia] que tem um funcionamento excelente, com muitas empresas.

Entrou também um trecho da Goiás Norte, próximo ao BRT. E outro trecho que me impressionou, próximo ao limite com Nerópolis. Existe ali um condomínio de chácaras. O projeto do anel viário passa próximo e o projeto tem expansão traz uma avenida que liga dois bairros e vai passar nesse condomínio.

É uma discussão grande que tenho com a Universidade Federal e a Verde Vale. As pessoas querem manter a proibição de construção, eu sou da opinião de que deve haver normas de construção. Quando eu proíbo, as pessoas fazem ao arrepio da lei. É o que aconteceu. Esse condomínio foi construído irregularmente, mas ele existe, a Prefeitura cobra IPTU. Que relação é essa? Se cobro IPTU, estou oficializando o espaço. É uma contradição.

Então não é simplesmente proibir. É ditar normas, o que pode ser feito, a manutenção da permeabilidade do solo e a proteção das áreas de preservação. E justamente onde vai passar essa avenida, está a bacia do João Leite. Esse é outro questionamento.

Não vai me surpreender se o prefeito retirar o projeto, depois de muita audiência e discussões na Câmara, e alegar que cumpriu o que lhe é obrigatório, que é mandar o projeto.

“Lei tem de ser clara e objetiva. O projeto do Plano Diretor deixa muitas brechas”

Felipe Cardoso – Existem interesses políticos e econômicos por trás dessas brechas deixadas no Plano Diretor?
Lei tem de ser clara e objetiva. O projeto deixa muitas brechas. É muito comum no Brasil, e talvez seja por isso que temos tantas leis e poucas que funcionam. A lei eleitoral é um exemplo, não deixa claro o que pode ou não, aí é preciso fazer uma resolução. Lei não pode estar tão aberta a interpretações.

Rodrigo Hirose – Nos últimos 30 anos, foi possível acompanhar a degradação da qualidade de vida em Goiânia. Um dos fatores é a mobilidade (ou falta dela). O plano diretor em vigor, apesar de ter projetos, não resolveu a situação. O novo projeto traz algum refresco na questão da mobilidade?
Traz, mas acho que só ficarão na teoria, são coisas que não trarão resolutividade nas questões do dia a dia. O que traria [resolução] era, de fato, ter a obrigação de que empreendedores e construtoras serem responsáveis, também, pela adequação de trânsito.

São construídos prédios de 25 andares e não há mudança de via, criação de sistemas que possam otimizar o trânsito. Aumenta-se o número de veículos e pessoas circulando e não se mudam as vias. O Plano Diretor traz alguns apontamentos, mas acredito que são inviáveis.

Nos planos anteriores, uma das grandes alternativas para o trânsito era a Marginal Botafogo. Olha no que ela se transformou, um lugar com problema eterno de inadequação, enchente e trechos condenados. Não é uma solução.

No mundo não se vê mais a trincheira como solução. Goiânia continua fazendo trincheira. Veremos o impacto que ocorrerá no cruzamento da Avenida 90 com a 136 [no Setor Sul]. Ela está em cima d´água. A obra está sendo feita na seca porque ali brota [água]. Lá estão sendo colocados drenos para jogar a água para o Córrego Botafogo e o Parque Areião.

É uma obra que não está sendo planejada. É isso que está sendo feito em Goiânia, um desrespeito à natureza, uma tragédia anunciada. Daqui a cinco ou seis anos, com o impacto do peso dos veículos, em algum momento isso vai explodir.

São obras que desrespeitam o meio ambiente e não resolvem a mobilidade. Não temos um projeto realmente completo para o uso da bicicleta, por exemplo. Goiânia é uma cidade plana. O [ex-prefeito] Paulo Garcia tentou implementar, mas hoje você já vê as ciclofaixas desbotadas, sem sinalização correta.

Para mim o que também mudou em Goiânia foi o lixo. Goiânia virou um grande lixo a céu aberto. Pessoas que descartam oficialmente lixo na ponta da esquina e na beira de rio. Como a taxa do aterro sanitário, imposta pela Amma, é cara e o horário de funcionamento é limitado, as pessoas podem descarregar [em outros lugares].

Isso é um absurdo inaceitável. Se a taxa está cara e o horário inadequado, é preciso negociar, mas não posso, como agente pública, endossar que a pessoa jogue lixo em qualquer lugar. Isso é um crime ambiental e sanitário. Estamos vendo o retorno de doenças, o [sanitarista] Oswaldo Cruz deve estar se remoendo no caixão.

A maioria da minha família é de fora, mas frequentamos Goiânia há 30 anos. Um de meus irmãos se assustou ao ver Goiânia tão suja, disse que nunca havia imaginado ver a cidade assim. Nós, que estamos vendo isso no dia a dia, acabamos nos acostumando. Esse meu irmão chorou quando viu a destruição dos Flamboyants na Goiás Norte.

Visualmente e ambientalmente, Goiânia piorou muito. Fez a opção por grandes prédios, chegou ao ponto de se construir apartamento com garagem na sala. Dando espaço ao automóvel, se privando da relação humana.

Rodrigo Hirose – Ao longo dos anos, vários cursos d´água e fontes foram aterrados ou construções foram feitas em cima, como a sede da Assembleia Legislativa, o Tribunal de Justiça e o leito do Córrego Botafogo. Ainda é possível recuperar parte desse patrimônio ambiental perdido ou, ao menos, evitar que isso se repita?
O Plano Diretor traz alguns pontos que devem ser ampliados. Como a quantidade de piso permeável nas construções, que é de 10% e acredito que deveria ser de, no mínimo, 20%. O que o plano desenhou é muito pouco.

Quando questionei a construção do estacionamento no Tribunal de Justiça, a justificativa foi de que a Assembleia foi construída em cima d´água. Até quando vamos continuar errando? O [shopping] Passeio das Águas está dentro do Córrego Caveirinha. E é uma construção recente.

Nós temos essa complicação ambiental nos setores Marista, Oeste e Sul. Mas ainda temos áreas distantes desse centro principal de Goiânia que estão sendo ocupadas de maneira irregular. Na Região Leste, por exemplo, o Buracão poderia ser um grande parque, ligando Goiânia a Senador Canedo, valorizando toda a região.

Ali dentro há veredas. Após uma interlocução com a Saneago, ela resolveu o problema da adutora que estava rompida, e o prefeito fez a parte que cabia à Prefeitura. Fui lá visitar, a recuperação da área é fantástica. Nessa seca que estamos passando, há 100 dias sem chover, a água voltou a brotar.

Ainda há muita riqueza, mas, se ela não for cuidada com rigor, já, só vamos degradas. O plano traz alguns apontamentos, mas não tem a rigidez necessária para cuidar do meio ambiente. Existem exemplos demais do que deu errado para continuarmos errando.

Rodrigo Hirose – Por que a sra. deseja ser a relatora do projeto na Câmara?
Relatar um projeto dessa monta é importante para qualquer pessoa que tenha mandato e me sinto preparada para isso. Fiz um curso de lideranças públicas que debateu saúde, educação, mobilidade, violência urbana, ocupação de áreas. Eu me preparei, não exatamente para ser relatora, mas para discutir o plano. Também acompanhamos os planos diretores de várias cidades, como a aprovação do plano de Belo Horizonte, que ocorreu recentemente.

E também venho acompanhando esse processo na Prefeitura de Goiânia, que deveria ter enviado o projeto há três anos, pois o prazo para atualização é a cada dez anos. Houve uma ´lentificação´ na preparação desse projeto. Tenho certeza que, no final, vai jogar [a responsabilidade no caso de não aprovação] nas costas da Câmara.

Rodrigo Hirose – A Prefeitura não executou integralmente o plano diretor que está em vigor e também atrasou o envio da revisão. Ela está sendo negligente?
Totalmente, isso é um desprezo ao planejamento. Plano Diretor é traçar metas, etapas e objetivos. Não dar importância a ele é mostrar desinteresse por planejamento. E resultado eficaz só se chega com planejamento, em tudo na vida.

Vejo um desinteresse total a tudo que envolve planejamento, definição de objetivos, estabelecimento e cumprimento de metas. Infelizmente, essa gestão não dá importância para isso.

“A gestão [da Prefeitura] é centralizadora, que tudo sabe, não precisa de opinião nem plano”

E também não dá importância para a Câmara. Só hoje é que o prefeito [Iris Rezende] construiu uma base, ele demorou dois anos para escolher um líder. É um desprezo total com o legislativo.

Há um número grande de ações de inconstitucionalidade. O aumento do IPTU, que tínhamos derrubado, foi revertido por meio de uma ação de inconstitucionalidade.

A gestão é centralizadora, que tudo sabe, não precisa de opinião nem de plano, [acha] que tudo isso é bobagem, e que está entregando nossa cidade a um volume cada vez maior de irregularidades, seja no trânsito, no comércio, na construção.

Goiânia se tornou uma cidade sem lei. Há 17 anos, não temos concurso para fiscalização, não temos número suficiente de fiscais de postura e de meio ambiente. Goiânia está em uma situação de descontrole, justamente por não ter planejamento.

A gestão tem de projetar o crescimento da cidade, quanto terá de estabelecimentos comerciais abrindo, de quanto será a necessidade de vagas em escolas e hospitais. E também preciso planejar o entorno, tem de haver a aproximação dos prefeitos da Região Metropolitana.

Rodrigo Hirose – Quando se fala em planejamento, acredito que também se projeta o benefício que uma obra trará, qual seu resultado. O BRT vai melhorar o deslocamento de quem precisa do transporte coletivo?
Ele não vai resolver o problema, nem aliviar o volume de pessoas transportadas. O BRT é gestar feto morto, é planejamento antiquado. É um legado da Copa e, dos que foram projetados, os únicos que tiveram começo, meio e fim foram os do Rio de Janeiro e de Curitiba.

Em Curitiba, funciona um pouco melhor, pois já tinha um sistema de transporte bom. O do Rio de Janeiro é uma bobagem, é como andar no trenzinho do Mutirama. Como obra para incentivar o turismo, dá para ser considerado, mas o volume de investimento não justifica, não é uma obra de mobilidade.

Quem acha que o BRT vai trazer solução, vai ter uma grande decepção.

Rodrigo Hirose – A Prefeitura abriu edital para contratar pediatras, mas ainda há concentração de atendimento no Cais de Campinas e no Jardim Novo Mundo. Como está a situação?
Houve uma desconstrução do funcionamento da saúde no município de Goiânia. Havia dificuldades e pontos que precisavam ser melhorados, mas era um sistema que funcionava. O prefeito usa da política velha, do “eu mando e ninguém tira a gestora que está na pasta [Fátima Mrué], só com a minha morte”. E ele vence no cansaço. As pessoas se cansaram.

Estive com o prefeito de Aparecida de Goiânia [Gustavo Mendanha] e soube que 20% das pessoas [de Goiânia] que precisam do SUS vão para Aparecida; outros 20% vão para Senador Canedo, e isso está impactando essas cidades.

Está acontecendo um problema tão sério na saúde em Goiânia que as pessoas estão correndo para me pedir ajuda na Comissão de Direitos Humanos da Câmara. Hoje mesmo recebi uma mulher que precisava de uma cirurgia por causa de um cálculo renal. A pessoa da regulação chegou a perguntar para o acompanhante dela perguntou se ela tinha plano funerário. Fizemos a denúncia e acionamos o Ministério Público, pois isso é coloca a pessoa no corredor da morte, e o problema foi resolvido.

As pessoas seguem morrendo, tendo o carro agravado. A situação dos pediatras não foi resolvida. O contrato que a secretária propõe é absurdo, só maluco ou em desespero assina um negócio daquele. O contrato prevê que a responsabilidade é do profissional, tanto pelos insumos quanto pelo seu exercício profissional. Como ele pode ser responsabilizado se a Prefeitura não entrega seringa, agulha nem remédio?

A maioria das pessoas que aceitaram essas condições é do Rio de Janeiro, não de Goiânia. E as que são de Goiânia estão pedindo para sair, pois não suportam mais a forma de trabalho e o desrespeito da gestão.

Tudo piorou, só que as pessoas cansaram, não têm mais nem energia. As pessoas, ao invés de bater nas portas do Cais de Campinas, vão direto para o Materno Infantil ou para Aparecida de Goiânia, pois sabem que lá serão atendidas.

Rodrigo Hirose – Como a sra. bem lembrou, muitos moradores de Goiânia estão buscando atendimento em Aparecida de Goiânia, que recentemente inaugurou um hospital municipal. Não passou da hora de Goiânia ter seu próprio hospital municipal?
Essa é uma das maiores críticas ao sistema de saúde de Goiânia, que só tem duas unidades hospitalares, que são maternidades. É a única capital de grande porte no Brasil que não tem um hospital municipal. Isso é impensável.

Tudo bem que o Estado tem vários hospitais e a Prefeitura tem um bom acordo com o governo. Só que as gestões mudam, há conflito entre quem tá no governo e quem tá no município e isso prejudicou muito a população de Goiânia.

Essa atual gestão [da Prefeitura] não aceita diálogo. Imaginei que, com a troca de governo, como há proximidade do atual governador [Ronaldo Caiado] com o prefeito, fui ao secretário estadual de saúde [Ismael Alexandrino] perguntar se ele concordava em trazer a regulação do Estado. Ele disse que sim.

A regulação de Goiânia está desestruturando todos os municípios goianos, porque ela é o centro do atendimento da saúde. Se Goiânia regula mal, tudo fica em desajuste. Ele [Alexandrino] me explicou que o HGG [Hospital Geral de Goiânia] tem metas de realização de transplantes. O hospital tem a equipe, os equipamentos e as instalações, mas Goiânia não regula.

Como explicar isso para uma família que precisa de um rim ou de um coração? Só que as pessoas não conseguem entender onde mora o problema. Mas, na verdade, a regulação está agravando e matando gente. Houve uma troca no sistema, contratando uma empresa no valor de R$ 4,2 milhões, e o Ministério Público já mandou interromper o contrato.

Essa empresa não consegue atender sete itens da regulação. Nas unidades, o processo está vendo feito manualmente. E o pior é que as pessoas estão com medo de falar, a gestão está se impondo por meio da ameaça. Não se impõe pela eficácia.

“O Centro de Diagnóstico foi desmontado, a geladeira para guardar insulina não tem tomada”

Durante a Comissão Especial de Inquérito da Saúde, na Câmara, ficou claro que não há planejamento na Secretaria Municipal da Saúde. Vários superintendentes e diretores foram prestar esclarecimentos. Há um total amadorismo, nem reunião com a equipe a secretária tem.

O Centro de Diagnóstico foi desmontado, foi transferido para o antigo prédio do Imas, onde não há tomada para a geladeira que mantém as insulinas. Em uma unidade que atende paciente soropositivo, com hanseníase, com tuberculose e com baixa capacidade de mobilidade, o elevador não funciona.

O Cais do Jardim América foi fechado há três anos para ser reconstruído como uma UPA [Unidade de Pronto Atendimento], que recebe muito mais recursos do Ministério da Saúde. A obra segue parada, com mato alto, não tem um funcionário sequer.

Isso porque a Câmara autorizou um empréstimo de R$ 780 milhões. Não justifica, a não ser o desinteresse e a falta de decisão política.

Rodrigo Hirose – Falando um pouco de política, como está seu processo de saída do PSDB?
Nos últimos anos, o PSDB teve uma condução que se distancia muito do meu entendimento sobre o que é política. Sempre tive uma atração muito grande pelo PSDB por causa da questão social, os projetos que foram implementados pelo governo Fernando Henrique, aqui em Goiás também foram adotadas muitas políticas importantes.

Vejo a política como único caminho para redução da desigualdade social e de desigualdade de convivência. São políticas públicas que devem fazer essa política de aproximação das pessoas de baixa renda com as de alta renda, das pessoas diversas.

Ao longo desses anos o PSDB vem se distanciando dessa pauta. Em Goiás, já tivemos um compromisso firmado em 2016 de que nós teríamos candidato próprio [a prefeito de Goiânia] e não tivemos. Até compreendo isso, porque era uma base muito alargada e tinha de atender esses partidos. Em uma eleição, a vaga foi aberta para o PTB e o Jovair Arantes foi candidato; na última foi o Vanderlan Cardoso, do PSB. Esse compromisso que havia sido firmado não foi cumprido.

Hoje o PSDB segue afirmando que ano que vem terá candidato, mas isso gera uma insegurança para quem está dentro do processo. Tenho a disposição clara de ser candidata a prefeita, seria até omissão, com a experiência tenho hoje, o trabalho que tenho na cidade, com a votação expressiva que tive na eleição de vereadora e para a deputada – mesmo não sendo eleita, só em Goiânia recebi 20.811 votos, é um reconhecimento de trabalho.

“O PSDB foi se afastando das pautas sociais”

Não venho de linhagem política, nem grupo político que represento. Não tenho uma estrutura que me dê votos, eles são pelo reconhecimento do trabalho. Já tenho um patrimônio eleitoral forte, mas o PSDB segue dizendo que vai estabelecer um processo de escolha. Temos três candidatos postos: o deputado Talles Barreto, o vereador Anselmo Pereira e eu.

O que o PSDB vai decidir lá na frente? Vai me oportunizar ser candidata ou não? A garantia que temos é a palavra do presidente do PSDB [Janio Darrot] de que o partido terá candidatura própria e, pela conjuntura atual entendemos que seria a ocupação de um espaço político importante, já que não temos mais o governo do estado, por isso acho que esse compromisso será concretizado. Mas serei eu a candidata? O processo será transparente? A escolha será por quem tem trabalho em Goiânia? Não sei.

Hoje temos a maior liderança do partido, que é o governador de São Paulo [João Doria], que diz que não é político. É o mesmo de eu estar dentro do hospital e dizer que não sou fisioterapeuta. É um partido que está perdendo seu princípio.

Rodrigo Hirose – A tendência hoje é a sra. sair? A questão principal é a candidatura a prefeita?
A tendência hoje é dialogar. Estou dialogando com vários partidos.

Rodrigo Hirose – O presidente do PSDB, Jânio Darrot, mandou um recado: disse que a sra., se ficar no partido, será a candidata.
Participei do processo de mudança na direção do PSDB. Participei de uma reunião que teve uma discussão sem rumo, desnecessária. Logo na semana seguinte, o prefeito Jânio [de Trindade] me ligou informou que estava se candidatando. Então, fui falar pessoalmente com ele, empenhei meu apoio a ele, pois era um homem que poderia pacificar o partido, é um homem de muito diálogo, que escuta, o que é um diferencial enorme para um dirigente. Ele não é um homem que impõe, ele escuta.

No escritório dele, a primeira pergunta que ele me fez foi: “O que você acha do Talles [Barreto, deputado] para prefeito de Goiânia?”. Devolvi a pergunta: “O que o sr. acha da Dra. Cristina para prefeita de Goiânia?”.

Declarei ali, antes de ele assumir. Na semana passada, falamos sobre isso, colocamos todas as mágoas, cartas na mesa, o trabalho – tenho um trabalho muito forte no PSDB Nacional e sempre tive reconhecimento PSDB Mulher, que vem sendo o grande foco de resistência na questão social –. E é o que ele falou: “Eu poderia chama-la”.

Se as regras fossem claras, o que seria levado em consideração seria a densidade eleitoral, o trabalho desenvolvido em Goiânia e o reconhecimento pessoal. Mas dizer que haverá um processo transparente sem definir qual será ele, é muito vago.

Rodrigo Hirose – Parece que o passe da sra. está disputado.
Eu não tenho no PSDB a valorização que tenho fora. Tanto que na eleição de deputado o PSDB não me deu o suporte necessário, não tive um prefeito, diretório ou vereador e tive 28 mil votos. É muito voto. Tive apoio do PSDB nacional, com recurso partidário, foi a primeira vez que tive repasse importante, por decisão do PSDB nacional.

Senador Jorge Kajuru | Foto: Senado

Rodrigo Hirose – O senador Jorge Kajuru também manifestou o desejo de ter a sra. em uma composição com o deputado Elias Vaz na disputa em Goiânia. Isso é viável?
Convivi com o Elias por seis anos e com o Kajuru por dois anos, não os conhecia antes de assumir o mandato. Kajuru eu conhecia de nome, mas não pessoalmente. Desenvolvemos uma boa relação política e de causas, participamos juntos da Comissão Especial de Inquérito da Saúde. Tivemos uma proximidade muito forte de pautas, são pessoas que respeito muito.

Está aberto, sempre tivemos um grupo de trabalho na Câmara, não tenho dificuldade. É hora de dialogar, estou dialogando com vários partidos e lideranças, inclusive com pessoas que já saíram da política e podem dizer o que pensam.

Rodrigo Hirose – O governador João Dória lamentou a decisão do PSDB de manter em seus quadros o deputado Aécio Neves. Qual a avaliação da sra. da posição do partido?
É complicado estamos vivendo um momento difícil com a possibilidade de aprovação de uma lei com punição ao abuso de autoridade. É um apontamento claro para reduzir as punições. O PSDB falha quando não estabelece um processo investigatório interno, o partido tem recursos e estrutura suficientes para isso.

Não estou julgando o deputado, mas o PSDB falha quando simplesmente decide que não vai expulsá-lo e não dá qualquer alternativa de esclarecimento. Uma investigação seria uma oportunidade para esse tucano histórico se explicar, mostrar suas contraprovas. Ele tem imunidade parlamentar, mas não tem imunidade de crítica. E isso traz um peso muito grande para o partido.

Rodrigo Hirose – Na última semana, houve um embate forte entre o governador Ronaldo Caiado e o ex-governador Marconi Perillo. Dessa forma, o tucano foi recolocado no centro das discussões políticas. A sra. acha que ele ainda pode chegar a disputar o governo em 2022 ou, ao menos, ser um ator muito influente na eleição?
Penso que, se tenho prova concreta contra alguém, devo entrar na justiça. Ocupo um cargo de estadista e vou ressuscitar quem me antecedeu? É isso que o governador Ronaldo Caiado está fazendo: ele está trazendo o ex-governador para o centro das atenções.

“É um excesso de testosterona, uma coisa de provar quem é mais forte e poderoso”

Caiado faz acusações sérias, que inclusive envolvem a família do ex-governador, e então tem de ter responsabilidade de ter provas. É uma briga desnecessária, [causada por] excesso de testosterona, excesso de adrenalina, é uma coisa meio fálica, [necessidade de] provar que sou mais forte, mais poderoso. Enquanto isso, o Estado está caminhando e a pessoas esperando pelo que vai acontecer.

Em uma posição dessa [governador], tenho de trazer resultado e trabalho. Não adianta ficar chorando o que foi, apontando. Tenho de fazer a denúncia na justiça, levar as provas para que ocorra o processo investigatório e a condenação.

Ficar trazendo isso a público, ficar discutindo em meios de comunicação e redes sociais, é muito inapropriado, não é o papel de um estadista, de quem está na gestão. Isso, sim, está dando estrutura para que o ex-governador influencie o processo político em Goiás.

O governador está se colocando para as pessoas avaliarem também. A partir do momento em que faz esse tipo de declaração, haverá pessoas a favor e contrárias a ele. Isso é fato. E não são apenas pessoas que trabalharam no governo, é gente comum. Tem gente achando que essa não é a atitude correta.

As pessoas estão se esquecendo de descer do palanque. Tem de descer do palanque e governar para todas as pessoas. Acabou a campanha. A sensação que a gente tem é que o governador permanece em campanha.

Rodrigo Hirose – Tramita na Assembleia Legislativa a inclusão dos 2% do orçamento estadual que hoje são destinados à Universidade Estadual de Goiás (UEG) nos 25% globais que têm de ser investidos em educação. Qual análise a sra. faz dessa proposta?
Erradíssima, se tivesse voto, votaria contra. Isso é um prejuízo claro para a UEG. Com todas as dificuldades e correções que precisam ser feitas, esse não é o caminho. Pode-se otimizar polos, enxugar, reduzir, investir mais em polos que possam abrir mais cursos. Mas essa proposta do governador infelizmente afunda a UEG, uma construção que teve seu ápice, está em declínio, é preciso admitir.

Tenho uma ligação muito grande da UEG, sou professora desde que era só Eseffego. Acho um retrocesso, educação é base e pilar de qualquer governo.

Rodrigo Hirose – Há alguma ação nova em relação ao seu mandato?
Uma das missões de meu trabalho e da minha vida, como vítima da violência contra a mulher, é ajudar muitas mulheres a não viver isso. Há muitos anos faço palestras e trabalho com grupos reflexivos, inclusive com homens agressores, e temos visto mudanças excepcionais.

Em outubro traremos a Goiânia a Glória, um robô com inteligência artificial, que trabalha o controle da violência da mulher. Ela foi desenvolvida pela pesquisadora Cristiana Castro e está rodando o mundo. Terei o prazer de trazer essa inteligência para Goiás. É importante que as mulheres conversem sobre o assunto.

Outra coisa para esse semestre é o Parlamento Jovem, que terá eleições nos colégios e montagem do parlamento com crianças e adolescente eleitas por sua comunidade. Essa é o exercício da política que eu acredito.

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