“Chegou a hora, o meio acadêmico e científico precisa participar da política”

Ex-reitor da UFG articula pesquisadores e lideranças de outras universidades em um movimento para lançar candidatos da “bancada da ciência”

Professor Edward Madureira Brasil, ex-reitor da UFG e pré-candidato a deputado federal | Fotos: Fernando Leite / Jornal Opção

A Universidade Federal de Goiás (UFG) começou o ano sob um turbilhão: a eleita pela comunidade acadêmica, a professora e então reitora em exercício, Sandramara Matias Chaves, havia sido preterida na lista tríplice elaborada pelo Conselho Universitário (Consuni) e entregue ao Ministério da Educação. A escolhida foi a terceira da relação, Angelita Pereira de Lima, então diretora da Faculdade de Informação e Comunicação (FIC). A notícia chocou e indignou o meio universitário, mas a decisão foi de agregar todos para sustentar a nova gestão.

O fato fica mais inusitado por Angelita ser já ter sido candidata pelo PT, partido do qual é filiada histórica. O que explicaria um governo tão refratário a petistas fazer essa escolha? Talvez a resposta esteja no ex-reitor Edward Madureira Brasil, que também era presidente da Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior (Andifes) e, pelo cargo, talvez tenha se tornado uma pessoa muito visada dentro do Ministério da Educação. Uma eventual retaliação na escolha de sua sucessora é algo que ele não tira de seu radar de possibilidades para o que ocorreu.

Fora do comando da UFG, Edward volta seus olhos para a política – ele foi candidato a deputado federal pelo PT em 2014 e obteve a primeira suplência, com quase 60 mil votos, mesmo com uma campanha de parcos recursos. A ideia agora é mais audaciosa: lançar uma bancada da ciência, com outras candidaturas de ex-reitores, professores e pesquisadores Brasil afora. E a ideia partiu dele e de outro ex-reitor, Jerônimo Rodrigues, do Instituto Federal de Goiás (IFG). “Estamos nos organizando. É um movimento suprapartidário. Alguns já têm partido, outros ainda não, como eu”, sorri.

Nesta entrevista ao Jornal Opção, Edward faz um balanço de seu último mandato e o compara aos anteriores – entre 2006 e 2014 –, quando os recursos para as instituições de ensino superior eram bem mais fartos. A polêmica da Reitoria da UFG também entra na conversa, claro.

Elder Dias – O sr. está saindo agora de seu terceiro reitorado. Foi o mais difícil dos três períodos à frente da UFG?

Foi uma coisa meio paradoxal esse mandato. Por um lado, extremamente difícil do ponto de vista material, financeiro, com arrocho orçamentário sem precedentes, eu diria até mesmo na história da universidade. Para agravar a situação, um governo que se colocou frontalmente contra as universidades e contra a ciência. Por fim, uma pandemia que pegou a todos nós de surpresa e nos colocou à frente do desconhecido, nos obrigando a tomar decisões e a adotar práticas que nem imaginávamos como poderiam ocorrer.

Então, sob esse olhar, foi um período muito difícil. Mas, por um outro lado, tudo isso compôs um cenário extremamente desafiador para a universidade. Fomos chamados a dar respostas à sociedade, aos empresários, às pessoas menos favorecidas, aos governos. A universidade foi chamada a responsabilidade e – isso foi a parte muito gratificante do reitorado – a gente pôde perceber o quanto ela está preparada para situações complexas como essa. A gente tinha certa noção disso, conhecendo a qualidade dos docentes, do corpo técnico e dos discentes mas confesso que eu me surpreendi com o volume de respostas e sua qualidade.

Outro fator impressionante foi a disposição com que as pessoas da comunidade universitária se apresentaram. Não mediram esforços e ultrapassaram todos os limites de atuação, interagindo com outras áreas de conhecimento, com soluções inusitadas surgindo disso. O primeiro fator a chamar a atenção foi não deixar descontinuar as atividades essenciais para a população. Logo em seguida, vieram outros desafios, como o ensino remoto e tudo o mais. Por isso tudo, foi também extremamente prazeroso estar na universidade e ver que a gente tem instituições que respondem a situações difíceis.

Elder Dias – Seu reitorado foi seguido de um fato insólito e inédito, pelo menos na história da UFG no período da redemocratização: a nomeação de uma reitora não escolhida pela comunidade universitária, apesar de a professora Angelita Lima e da eleita, professora Sandramara Chaves, serem do mesmo grupo. Em algum momento se imaginou a possibilidade de o presidente nomear a terceira pessoa da lista?

Eu estava até em uma condição muito privilegiada, porque, desses quatro anos de minha gestão à frente da UFG, em três deles eu estive na diretoria da Andifes. Primeiramente, como segundo vice-presidente, quando eu tinha seis meses de gestão; na sequência, me tornei o primeiro vice-presidente e, logo em seguida, cheguei a presidente. Então, desses três anos, dois anos e meio foi com esse governo. E nesse período a gente assistiu a situações parecidas com essa em outras universidades pelo País. E avaliando as circunstâncias uma a uma, a gente poderia contar com algo inesperado.

Isso não estava descartado, porque uma coisa que a gente não conseguia entender era como se processavam essas nomeações. Em uma situação se nomeava o segundo ou terceiro e a gente deduzia que era por certa razão. Em outro caso, logo a seguir, contrariava essa razão. Havia aquelas universidades em que pessoas que se colocaram na lista já tinham ligações fortes com o governo federal e acabaram nomeadas, então, quando essa situação existia, a lógica já estava posta e a gente já esperava o resultado.

Nas condições em que a universidade, por uma construção democrática – como foi aqui, onde há 36 anos a gente tinha eleições em que aquele candidato ou aquela candidata que sofresse derrota na consulta nem sequer submetia seu nome ao Conselho Universitário (Consuni). Isso vem de um processo de construção democrática.

Elder Dias – É como uma regra não escrita do processo da UFG.

Exatamente, e isso levou a uma maturidade institucional que nos ajudou em outros momentos, em outras eleições. A questão da lista tríplice é sempre algo muito delicado e muitas universidades atingiram esse grau de maturidade de fazer esse tipo de acordo. Em outras, não, mas talvez por força estatutária, em que a consulta por vezes está ligada com a eleição no Conselho ou outras situações diferentes. Em suma, observando o cenário, a gente percebe que não era impossível acontecer o que aconteceu. Claro que a gente não esperava que fosse ocorrer aqui, por inúmeras razões – por exemplo, pelo perfil da professora Sandramara, e pela forma firme, mas sempre respeitosa, com que, mesmo na presidência da Andifes, eu tratei os interlocutores do Ministério da Educação. A gente tem diferenças claras, discorda de posições, principalmente em relação à autonomia universitária.

Elder Dias – E a questão da ciência.

No MEC isso não é tão marcante, mas no resto do governo, sim. Mas, mesmo no MEC, houve posições muito muito equivocadas, falas de ex-ministros e do ministro atual também. Mas sempre houve também um diálogo respeitoso. Por isso, essa arbitrariedade na escolha do nome não deixou de ser surpresa, mas não foi algo absolutamente inesperado.

Professor Edward Madureira fala aos repórteres Elder Dias e Italo Wolff na sede do Jornal Opção | Foto: Fernando Leite

Elder Dias – No momento da nomeação de Angelita, Sandramara já estava como reitora em exercício, após o fim de seu mandato. Como foram esses dias? Sua experiência ajudou nesse momento?

As próprias pessoas envolvidas – Angelita, Sandramara, o próprio Jesiel [Freitas Carvalho, eleito vice-reitor e nomeado por Angelita no cargo, a partir da lista tríplice que recebeu do Consuni] –, de alguma forma esperavam que eu contribuísse no encaminhamento dessa questão. E, de forma muito cuidadosa, até pelo fato de Sandra ter sido a vice-reitora em meu mandato, a gente tomou a decisão de fazer uma entrevista coletiva. É que esse processo tem um componente que a gente não pode subestimar, que é a questão da falta de compreensão para quem está fora da universidade, às vezes até para quem está dentro dela.

“É muito difícil explicar que a eleição foi uma consulta, porque, no senso comum, isso não existe: para as pessoas em geral, eleição é eleição, igual ocorre para governador, para prefeito, em que quem ganha leva”

É muito difícil explicar que a eleição se deu como uma referência, uma consulta, porque, no senso comum, isso não existe: para as pessoas em geral, eleição é eleição, igual ocorre para governador, para prefeito, em que quem ganha leva. Às vezes, os próprios alunos não entendem, então imagine a comunidade externa. Quem poderia fazer isso naquele momento talvez fosse eu mesmo, porque Sandramara, claro, apesar de toda a firmeza e serenidade com que tratou tudo, estava emocionalmente abalada. Já Angelita, envolvida numa situação extremamente constrangedora, por ser colocada em uma posição para a qual não trabalhou pra estar.

Veja bem, há pessoas que ficam em segundo ou terceiro lugar na lista e vão para Brasília trabalhar para serem nomeadas, isso ocorreu em outras universidades. Então, quando é assim, isso vai sendo absorvido no processo e quem está com esse objetivo não se constrange, pelo contrário. Não era o caso dela, obviamente. Angelita esteve no grupo que apoiou Sandramara. Acho que a entrevista coletiva, como ocorreu, foi a solução, deu o tom correto, porque, por outro lado, a indignação das pessoas tinha de ser preservada, as pessoas tinham de se indignar, como nós estávamos indignados com toda a situação.

Italo Wolff – A equipe da nova reitora é basicamente a mesma que a reitora eleita estava montando?

Sandramara e Jesiel estavam conversando, montando a equipe. Com a nomeação da professora Angelita, as pessoas foram sendo colocadas de forma muito natural, com uma ou outra sugestão aqui ou ali, mas praticamente é aquilo que estava sendo construído. Isso foi preservado e que as pessoas, às vezes, não entendem: estamos em uma situação de fragilidade, com a regra da lista tríplice em um governo como este. Tivemos um debate muito forte na Andifes. Quem ganha não quer admitir não levar, mas, se a gente tem um projeto vencedor, fizemos tudo o que poderia para que ele fosse contemplado e isso ocorreu.

Elder Dias – O curioso na não escolha de Sandramara é que ela era a única que não tinha uma militância política de fato. Angelita já foi, inclusive, candidata pelo PT, em 2014. O presidente é antipetista por essência e o governo escolhe justamente uma filiada ao partido. Como o sr. interpreta isso? É um capricho, apenas?

No senso comum, isso na conta do inexplicável: como se nomeia uma pessoa do PT sendo que tinha outra sem filiação e como primeira da lista? Eu tenho minha minhas hipóteses. Primeiramente, minha posição como presidente da Andifes – que sempre foi de defender a autonomia universitária, o primeiro nome da lista tríplice – me faz crer que a indicação, como ocorreu, foi obra do ministro [Milton Ribeiro, da Educação]. Não sei até que ponto o presidente da República se envolveu de fato nessa decisão. Talvez se fosse no início do mandato, ou no início do período do atual ministro, eu imagino que ele se envolveria mais. No caso, as nuances não encontram uma lógica que não seja uma retaliação pessoal ou institucional. Digo isso porque não em Goiás ninguém trabalhando pela não nomeação de Sandramara. Pelo contrário, tinha muita gente trabalhando por ela, inclusive da base governista. Então, não teve nenhuma racionalidade, talvez houve, sim, uma pitada de ódio, de revanchismo.

Elder Dias – Em suma, foi algo para atingir o professor Edward, presidente da Andifes?

Acho que talvez seja muita presunção achar que eu pudesse ser um alvo do próprio ministro. Como representante da Andifes, pode até ter sido. Ao fim, no entanto, o que conseguiram foi unir muito mais a comunidade da UFG, porque todos nós abraçamos o reitorado da professora Angelita. Jesiel ficou como vice-reitor; Sandramara está participando no reitorado, como assessora especial da Reitoria; eu também estou, como assessor especial de Relações Interinstitucionais. Isso também ajuda a reitora a ter tempo para absorver tudo.

Italo Wolff – Como o sr. buscou conduzir a Andifes durante sua gestão em relação às dificuldades das universidades durante a pandemia?

Na questão da pandemia, a Andifes foi fundo na discussão, nas consequências para o ambiente universitário, na atuação das universidades no enfrentamento. Criamos uma rotina de reuniões diárias com a diretoria da Andifes. Fizemos muitas reuniões com o secretário de Ensino Superior do MEC, muitas mesmo. Outras reuniões também com o secretário-executivo do MEC, bem como Conselho Pleno com todos os reitores com frequência. Além disso, os fóruns da Andifes – que congregam os pró-reitores de graduação, de assistência estudantil, de pesquisa, seus presidentes se reuniam conosco quinzenalmente, ou seja, as ações que as universidades desenvolveram foram muito parecidas no Brasil inteiro. Não porque a gente impusesse, a Andifes não tem poder de impor nada para nenhuma universidade. Mas quando fomos adotar o ensino remoto, por exemplo, foi um entendimento que aconteceu de forma natural no Brasil inteiro. Do mesmo jeito para fazer voltar a área da saúde ou para buscar recursos para conectividade.

As coisas aconteceram de forma muito consensual na Andifes e mesmo no diálogo com o governo. Claro, houve momentos, como quando teve uma resolução do CNE [Conselho Nacional de Educação], em que o governo queria uma volta às aulas mais rápida. Aí, naquele momento, toda a educação teve a mesma resposta, não só as federais, o setor privado também. O País estava entrando na segunda onda e a gente trabalhou para que fosse mudada a resolução. De qualquer forma, não houve nenhum grande conflito entre a entidade e o governo.

Italo Wolff – E como foi recebido pelas universidades o programa Future-se, feito pelo MEC na gestão Abraham Weintraub?

O Future-se, morreu de inanição, de tão fraco que era. Há uma ausência absoluta de políticas públicas para educação neste governo. Estamos com o PNE [Plano Nacional de Educação] sem cumprir, estamos vendo as universidades entrando num processo de subfinanciamento que tem consequências de médio e longo prazo. As universidades deram conta de dar respostas agora, porque estavam relativamente bem equipadas, porque tiveram investimento em ciência e em nanotecnologia, o que deu suporte para esses avanços. Mas, se a gente interromper esse processo de financiamento, a conta vem no médio prazo. Nossa produção científica ainda não caiu, mas até quando a gente consegue sustentá-la sem financiamento?

Elder Dias – O atual governo contrariou orientações da Andifes quanto à nomeação da lista tríplice e em questões da autonomia universitária. Alguns reitores descontentes deixaram a entidade. Esse tipo de ação do governo e essas reações chegaram a provocar um racha na Andifes?

Apesar do discurso de um ou dois – inclusive um deles já deixou a Andifes –, de tentar colar na Andifes uma suposta rejeição a alguns novos reitores, é preciso entender que não é apenas uma associação de dirigentes, mas, mais do que isso, uma associação de universidades. A Andifes ajudou a construir inúmeras políticas públicas no Brasil: o Reuni, o PNAE, entre outras inúmeras políticas. A entidade não exclui ninguém, mas ela tem uma posição e reafirma essa posição em notas do Conselho Pleno, de que é favorável à nomeação do primeiro da lista.

Na entidade, aliás, a gente tem nomeados que não foram os primeiros da lista com afinidade ao projeto de quem foi de fato eleito na universidade e há os que não têm essa afinidade. Absolutamente não há nenhuma distinção de tratamento. Alguns reitores tentaram minar as relações lá dentro, com posicionamentos às vezes indelicados, mas a Andifes sempre foi muito firme. Isso levou a cinco instituições a sair da entidade – no final, só quatro concretizaram essa saída. O interessante é que os fóruns da Andifes continuam se reunindo, os pró-reitores dessas universidades continuam participando deles e não é negado a eles qualquer tipo de participação, de envolvimento. A Andifes não está preocupada com miudezas. A gente sabe que daqui a pouco isso vai passar, todas vão voltar.

O grande problema quando uma pessoa assume sem legitimidade junto à comunidade universitária é que quem paga essa conta é a sociedade, porque algumas dessas universidades acabam sendo administradas por “ad referendum”, com o reitor sendo tendo as suas decisões desfeitas rotineiramente no Conselho Universitário. Isso porque esse alguém assume a universidade, mas quem manda, de fato, são os órgãos colegiados. A universidade paga um preço altíssimo. A UFRJ [Universidade Federal do Rio de Janeiro] pagou esse preço quando teve o caso de um reitor não escolhido, além de outros casos pelo País.

Elder Dias – A gente sabe o papel fundamental da UFG no combate à pandemia em Goiás. Mas, além da crise sanitária, do que foi feito pela universidade, o que o sr. considera uma marca importante sua, particularmente neste último reitorado?

Prefiro falar como marcas da gestão, porque nada a gente faz sozinho. É inevitável uma comparação ao passado, quando eu geri a universidade em um de expansão, de oportunidades. Dizem que administrar com dinheiro é fácil, que administrar em determinados governos foi mais fácil. Nada disso, universidade é algo tenso em qualquer momento, sempre vai ser assim e talvez seja essa a riqueza da universidade, porque sem a unanimidade surge o dissenso que faz com que a gente olhe as coisas com uma lupa melhor e acabe acertando mais.

O momento do Reuni, em meu período anterior, trouxe uma explosão para a universidade, aqui em Goiás e no Brasil inteiro. A UFG teve muitos novos cursos, dobramos de tamanho, triplicamos a pós-graduação, inúmeros prédios construídos. Eu sabia que, com a Emenda Constitucional 95 [a que estabeleceu o teto de gastos], a gente não teria não teria outro Reuni, algo que é muito desejado, por sinal, o Brasil precisa de um outro Reuni, de outro ciclo de expansão das universidades, até pra cumprir o PNE, mas muito mais do que isso, é para um projeto de país. O Brasil precisa dobrar o número de estudantes das universidades públicas e privadas. Se não fizermos isso, não seremos uma ação soberana.

“Fizemos uma reestruturação organizacional sem precedentes na UFG , o que não é um trabalho simples Então, do ponto de vista interno, essa é uma grande marca, que deu muito certo”

Mas, ao assumir, eu sabia que não teríamos algo como o Reuni. Como a universidade havia crescido muito, era hora de trabalhar com dois focos: o primeiro deles foi a reorganização interna. Eu acho que fizemos talvez a reestruturação mais profunda da história da universidade. Criamos a SDH [Secretaria de Direitos Humanos], a Secretaria de Tecnologia e Inovação, a Secretaria de Planejamento, uma pró-reitoria específica para pessoas [a Propessoas – Pró-Reitoria de Gestão de Pessoas], uma pró-reitoria específica para assuntos estudantis [Prae – Pró-Reitoria de Assuntos Estudantis]. Foi uma reestruturação organizacional sem precedentes, o que não é um trabalho simples Então, do ponto de vista interno, essa é uma grande marca, que deu muito certo. Agora, com a nova gestão, vamos ter a Secretaria de Inclusão, que está sendo criada e ficará a cargo da professora Luciana de Oliveira Dias, para assumir toda a questão de acessibilidade, de cotas e tudo mais.

No âmbito acadêmico, a discussão toda que a gente fez sobre a unificação dos componentes curriculares vai nos fazer colher muitos frutos para frente. Talvez seja uma das coisas mais importantes que fizemos do ponto de vista acadêmico. Acabou aquela coisa de uma disciplina com nomes diferentes e mesmo conteúdo para cinco cursos. Isso vai racionalizar quando levarmos essa mudança também para a elaboração dos horários, em termos de melhor aproveitamento do material humano.

Italo Wolff – E em relação à questão externa, como ficou?

Ficou a percepção de que sem a sociedade a gente não tem futuro. Em meu mandato, a vice-reitora Sandramara ficou muito envolvida no dia a dia, na rotina administrativa, e eu fui abrir espaços para a universidade nas três esferas de governo. A gente teve uma relação mais forte com a Prefeitura de Goiânia, com o governo do Estado, com o Ministério Público, com o Poder Judiciário, com o Executivo, com o Legislativo das três camadas. Ou seja, colocamos a universidade em contato com os atores da sociedade, porque entendemos que, no dia em que a sociedade se apropriar do pertencimento da universidade, a instituição vai estar blindada e protegida de arroubos como o desse governo, ou de qualquer outro.

Fizemos também parcerias enormes com o governo federal, parcerias importantíssimas com o Ministério da Saúde, mesmo com o Ministério da Educação. Com o pessoal do Ceia [Centro de Excelência em Inteligência Artificial, do Instituto de Informática (INF)], estamos desenvolvendo um algoritmo de inteligência artificial para predizer que estudante pode evadir. Isso é fantástico para o Brasil inteiro, um menino que, pelo comportamento visto por dados de big data, a gente percebe que está com esse risco.

Elder Dias – Quais são as unidades envolvidas?

Basicamente, o pessoal do Instituto de Informática, que está desenvolvendo, mas com assessoria da Prograd [Pró-Reitoria de Graduação], algumas pessoas da Face [Faculdade de Administração, Ciências Contábeis e Ciências Econômicas] estão juntas também. Está sendo feito um piloto em seis universidades federais, inclusive na nossa.

Italo Wolff – Mas essa ideia surgiu aqui?

Surgiu aqui. Na verdade, um professor – o Marcelo Tete, da Face – contou que nos Estados Unidos havia algo assim. A gente deu um jeito de mandar esse professor para lá. Quando ele chamamos o pessoal do Ceia. Mas aqui a gente está desenvolvendo tudo do zero. No Brasil, deve haver outras iniciativas, mas assim, de âmbito nacional, é a nossa com o MEC.

Elder Dias – Uma medida interessante da UFG foi a adoção de placas de energia solar. Como foi a elaboração e a execução desse projeto?

Um grande esforço que a gente fez nessa gestão foi tentar, por conta da perda orçamentária, buscar alternativas para baixar custos sem comprometer o mais importante, que são a sala de aula e os laboratórios. Vou falar do que você me pediu, sobre a energia solar, mas antes preciso ressaltar que mudamos o conceito da segurança no câmpus. Isso tinha um impacto grande no orçamento – nossos maiores itens de despesa são energia e segurança.

Em relação à energia, a Aneel [Agência Nacional de Energia Elétrica] tem por obrigação aplicar recursos em eficiência energética. Tempos atrás, a gente apresentou um projeto da UFG para obter recursos. Foi quando conseguimos colocar algumas placas sobre alguns prédios, como o Centro de Eventos, a Biblioteca e outros. Quando pusemos no papel, vimos que, somente com aquelas placas, a gente iria economizar 10% da nossa conta de energia, que fica em cerca de R$ 1,5 milhão por mês. E daí para frente, na crise, tudo que a gente pôde buscar como recurso resolvemos direcionar para isso. Veio um recurso do MEC, uma proposta competitiva para a qual nós apresentamos projeto, também tivemos recursos de emendas de deputados e também fizemos um esforço com nosso pouco capital. Hoje a UFG está ligando as últimas placas e consegue gerar um terço de seu consumo de energia, o que representa aproximadamente R$ 500 mil mensais de economia, o que dá R$ 6 milhões por ano, o que é quase um mês de todas as nossas outras despesas.

Elder Dias – Qual o custo da manutenção dessas placas?

A manutenção tem custo pequeno e isso já vem no contrato quando a gente compra. Como a gente captou recursos extras e de emendas, a gente investiu para reduzir custeio. Nunca imaginei que custeio fosse uma coisa que iria nos apertar, na época do Reuni tínhamos problemas de capital, de custeio, nunca (risos).

Italo Wolff – O sr. sente que a sociedade tem entendido melhor o papel da universidade?

Por mais absurdo que pareça, a pandemia colocou essa necessidade em evidência. Um indicador disso é o espaço que a gente ganhou nos mais diferentes veículos. Você não liga hoje um grande telejornal sem ter um professor universitário ou um cientista explicando alguma coisa. A pandemia, portanto, trouxe essa visibilidade. As pessoas também sentiram a necessidade de estarem mais próximas da realidade do dia a dia.

Mas vou dar um exemplo do início do mandato – até porque, depois, a pandemia impediu outras ações assim: um Espaço das Profissões [evento da UFG que convida escolas e estudantes do ensino médio a conhecer os cursos oferecidos pela instituição] na região noroeste de Goiânia. Foi memorável. Quando realizamos o Espaço das Profissões no Campus Samambaia, recebemos até 40 mil pessoas, percebemos que elas, na maioria, não são da periferia. Ver o encanto dos estudantes com isso é algo extraordinário e temos muitos professores que gostam dessa atividade.

Italo Wolff – Como ficará o ensino remoto da UFG no pós-pandemia?

O ensino remoto e a EAD [educação à distância] vão fazer parte do futuro da universidade, com certeza. Não ouso falar em que proporção – hoje a legislação permite 40% em EAD –, mas tendo a pensar que o índice em que a gente vai chegar será próximo a esse, por inúmeras razões. Hoje, os estudantes querem muito voltar ao presencial, mas eles sabem das vantagens do remoto, então uma combinação dos dois, principalmente no turno noturno, pode acontecer. Creio que uma quantidade de atividades híbridas vai fazer parte do dia a dia da instituição.

Na Andifes, criamos o programa Promover, pelo qual uma aluna da UFG pode pegar uma aula com um professor da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e vice-versa. Isso produz muita riqueza, muita troca. Por isso, acredito que muita coisa vai mudar. Tivemos uma universidade antes da pandemia, temos uma durante e teremos outra depois. As três são absolutamente diferentes. Isso eu posso afirmar com certeza.

Elder Dias – Essas mudanças também vão repercutir nas atividades administrativas?

Espero muito que sim. A gente tem muito que avançar. A gente pode otimizar muitas coisas dentro da instituição e entre instituições. Eu sempre dou o exemplo dos data centers. Temos aqui em Goiás seis instituições de ensino superior públicas em Goiás: UFG, UFCat [Universidade Federal de Catalão], UFJ [Universidade Federal de Jataí], UEG [Universidade Estadual de Goiás, IFG [Instituto Federal de Goiás] e o IF Goiano. Cada uma tem seu data center, tem sua rotina administrativa com softwares. Qual é a diferença se isso puder ser compartilhado? Digo isso desde a concepção até ao armazenamento, e tudo mais. Ou seja, há muito para a gente explorar.

Elder Dias – Isso vale também para as empresas de pesquisa, como a Embrapa [Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária]?

Nós temos avançado na parceria com a Embrapa. Em tempos atrás, era mais difícil para a trabalhar com a gente, porque a universidade não tinha a quantidade de pós-graduação que tem hoje, nem os quadros com nível de qualificação nem os laboratórios que tem atualmente. Mesmo assim, a gente ainda tem barreiras a serem rompidas. Quando isso ocorrer, quem vai ganhar é o País.

Elder Dias – A pandemia foi uma oportunidade perdida para alavancar a ciência brasileira, principalmente na área da saúde? O Brasil não poderia ter sido um “case” mundial, já que tem uma estrutura como o SUS, por exemplo?

É verdade. Temos, por exemplo, a UFMG [Universidade Federal de Minas Gerais] está concluindo uma vacina, aos trancos e barrancos, com a reitora brigando para arrumar R$ 30 milhões para que a pesquisa entre na fase 3.

Elder Dias – Como ficaram os cortes no orçamento para a educação em 2022?

Estamos agora avaliando o orçamento que foi sancionado semanas atrás. O orçamento deste ano não é nada extraordinário, mas ele não é tão arrasador quanto o do ano passado. Volta mais ou menos aos parâmetros de 2020, o que é muito ruim, se tomarmos a inflação nesses dois anos. Mas não é um orçamento tão ruinoso como o do ano passado. Claro, daqui pra frente tem contingenciamento, bloqueio, ainda um monte de surpresas que podem acontecer. No entanto, a LOA [Lei Orçamentária Anual] deste ano não é a pior da história, essa foi a de 2021. Mas isso não é um gesto do governo, não, é trabalho de muita gente no Congresso Nacional pela educação disputando a LOA e sensibilizando parlamentares.

Elder Dias – Falando agora exatamente de Congresso, como surgiu essa ideia de formar uma bancada da educação e da ciência?

Resumindo rapidamente como surgiu essa ideia, não é a primeira vez que pessoas da educação se colocam pré-candidaturas. Há deputados federais que foram reitores de universidade, o caso mais recente é o de Margarida Salomão (PT), ex-reitora da UFJF [Universidade Federal d Juiz de Fora], que hoje é prefeita de Juiz de Fora. Antes teve Newton Lima Neto (PT), ex-reitor da Universidade de São Carlos (UFSCar), que foi prefeito de São Carlos (SP) por dois mandatos e depois deputado federal.

Esse movimento que estamos começando não nega que temos parlamentares que lutam pela educação. São minoria, mas existem. Um exemplo é a deputada Dorinha [Rezende, do DEM-TO), que foi essencial na luta pelo Fundeb [Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação Básica], temos a deputada Rosa Neide (PT-MT), tem o deputado Israel Vargas (PV) aqui do DF. Se a gente vai pinçando, acha alguns. Conversando com o professor Jerônimo Rodrigues, que é ex-reitor do IFG – por coincidência, fomos dirigentes nacionais de colegiados de reitores, eu, da Andifes, ele do Conif [Conselho Nacional das Instituições da Rede Federal de Educação Profissional, Científica e Tecnológica], e também está se colocando como pré-candidato, listamos uma série de nomes de colegas e decidimos conversar mais sério sobre isso.

Italo Wolff – E como se deu esse processo a partir daí?

A gente começou a ligar para essas pessoas, que disseram que também estavam se organizando em seus Estados. Acaba que virou um movimento suprapartidário, tem gente do PCdoB, do PDT, do PT, do PSOL, do PSB. Deve ter de outros partidos também e também têm muitos que ainda não têm partido, como eu (rindo).

“O sentimento de todo mundo foi totalmente positivo, falando ‘Edward, estamos querendo demais isso’, tinha uma turma até que queria criar um Partido da Ciência. Então eu falei, “topo começar isso'”

Precisávamos ver se isso teria respaldo dos não candidatos que são lideranças nacionais da ciência e da educação. Comecei a telefonar para essas pessoas – a Andifes me proporcionou esses contatos. Liguei para Renato Janine [cientista político e ex-ministro da Educação no governo Dilma Rousseff], Helena Nader [ex-presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC)], para o Luiz Davidovich que foi da ABC [Associação Brasileira de Ciência], também para Fernando Haddad [professor da Universidade de São Paulo (USP) e ex-ministro da Educação], para Sidarta Ribeiro [neurocientista, do Instituto de Cérebro e da Universidade Federal do Rio Grande do Norte]. O sentimento de todo mundo foi totalmente positivo, falando “Edward, estamos querendo demais isso”, tinha uma turma até que queria criar um Partido da Ciência. Então eu falei, “topo começar isso”.

Elder Dias – E quando foi isso?

Tudo isso depois da posse da professora Angelita, em dez dias montamos o primeiro painel no dia 27 de janeiro [1º Painel Eleições 2022 e a Defesa da Educação, Ciência e Tecnologia]. E existe um sentimento de urgência entre as pessoas porque realmente estamos sob ameaça clara de extinção da ciência brasileira, né? Veja o nível de investimento que temos hoje no Ministério da Ciência e Tecnologia, mesmo no MEC, é um orçamento decrescente. Então, as pessoas perceberam que, se elas não se organizarem, se não ocuparem espaço, está sob risco o futuro do País. Por isso, primeiramente é uma questão de responsabilidade.

Elder Dias – Por que só agora a classe dos cientistas, professores e pesquisadores parece estar se abrindo à ocupação do espaço político de uma forma organizada?

Infelizmente, o espaço na política tem um componente que afasta esse tipo de pessoas, mais idealistas. A gente convive, no sistema eleitoral, com uma influência do poder econômico muito grande, transformam a política em um meio de vida. Nós, professores, quando acaba uma eleição, se foi candidato e não ganhou, volta para trabalhar e a vida segue normalmente. Só que, para muita gente, pelo sistema que foi construído, a política se tornou um meio de vida. Sem generalizar, o poder econômico percebe isso e traz pessoas com um perfil eleitoral favorável e as colocam a seu serviço. Isso é fato. A política ficou muito contaminada e isso acaba afastando um cientista, um professor. Não é que achemos isso uma coisa menor. Mas a disputa fica desigual, porque geralmente estamos falando de pessoas idealistas, de muito princípio.

Elder Dias – O sr. sentiu isso em 2014?

Senti, mas também me senti muito acolhido. Foi uma votação de 58.865 votos. Em qualquer outra eleição, eu seria o segundo do PT e estaria eleito. Mas aquela campanha teve algumas nuances que desequilibraram muito, deputado com quase 300 mil votos, o que desequilibrou a balança. O Partido dos Trabalhadores, por qual eu disputei, não tinha nenhuma coligação. Se houvesse um aliado histórico junto, como o PCdoB – que, inclusive, deve entrar na federação agora –, teríamos garantido a segunda vaga.

Havia potencial para ser eleito, mas faltaram recursos, para ganhar mais visibilidade, para chegar às pessoas, nos bairros. Talvez houve problemas de estratégia nossa, talvez se tivéssemos tido mais atenção à região metropolitana, dada a limitação de recursos. Depois de tudo, fui o terceiro candidato a deputado federal mais bem votado de Goiânia, só atrás do Delegado Waldir e Jorge Kajuru.

Elder Dias – A ciência, neste governo, passou a ser vista como uma “coisa de esquerdista”. E como está a questão da escolha do partido para o sr., neste cenário tão polarizado?

Sem dúvida, por todo esse cenário, é natural que seja uma candidatura a partir de um campo mais progressista, até pela minha trajetória e pelas minhas posições, de priorizar aspectos mais coletivos, de inclusão, oportunidades para as pessoas, tudo isso combina mais nesse campo. É uma decisão difícil, claro, mas vai ser tomada neste mês, não vou deixar para março. Há conversas abertas com pessoas de diferentes partidos, inclusive na esfera nacional. Vou concluir essas conversas e descobrir uma concepção sobre como engajar mais pessoas. No fundo, é esta a pergunta que eu tenho de responder: onde as pessoas que acreditam na gente se sentiriam mais estimuladas a entrar numa campanha?

Elder Dias – O sr. descarta uma segunda tentativa pelo PT?

Não, o PT está no espectro de partidos em que eu posso me filiar, sim. Não está descartado de forma nenhuma. Tenho conversas iniciadas com o PT, PCdoB, PDT e PSB. Migrar desse espectro significaria perdas maiores.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.